top of page

o que procuras?

431 results found with an empty search

  • Convite para o Ensaio Aberto da JurisTuna

    Caríssimos, Convido a todos, enquanto Coordenador Artístico da JurisTuna, a comparecer no ensaio aberto, marcado para amanhã, quinta-feira, às 18:30. A música é uma força. É um tecido que cria e espalha emoções. Algo que une e reúne pessoas. Na nossa faculdade, a JurisTuna tem um dever especial de criar este tecido, de unir a comunidade à volta de arte, de trazer alegria às pessoas. O ensaio aberto é precisamente isso: uma concretização deste dever nosso de usar a cantiga como a arma que é. Quer queiras ou não cantar, quer gostes ou não de actuar, quer tenhas compatibilidade com os horários ou não, aparece neste ensaio que foi feito para ti, membro da comunidade, e que mereces música na tua vida. Alunos, ex-alunos, funcionários, professores. Este ensaio é para todos. Um abraço, até amanhã! Francisco Bouza Serrano P.S. Vai haver enchidos e convívio ;)

  • A arte de viver em fuga

    Dizem que viver é saber parar, saber apreciar a calma enquanto o mundo à nossa volta se mostra progressivamente mais caótico. Mas se viver é apreciar cada momento, por mais fugitivo que ele seja, como é que é suposto saber parar? Se a vida é para ser experienciada em paz, porque é que tudo tem de me causar tanta confusão? Porque é que o barulho dos carros e das pessoas que só estão a viver a sua própria vida me deixa ainda mais inquieta do que o normal? Porque é que a felicidade nos acelera o coração, mas todos dizem que causa uma sensação de paz sem igual? Mais, porque é que estar parada me traz tudo menos paz? Respiro fundo, está tudo bem. Talvez pensar demasiado no que é viver não seja a chave para o fazer. Talvez tentar passar para palavras sensações que não compreendo não seja possível. Talvez. Estou farta do talvez, estou farta de não saber como parar enquanto continuo em movimento e não consigo mais estar em movimento sem conhecer um momento de paz. Nem a paz de estar parada, nem a alegria de não estar.  A arte de viver na fuga constante do que é suposto fazer é a única que domino. Enquanto finjo um sorriso de alívio quando as coisas correm bem, quando a paz vem ter comigo e eu só preciso de a aceitar, é aí que a fuga começa. O meu coração bate cada vez mais e os meus pensamentos mergulham numa espiral de autodestruição. Olho à minha volta. É suposto sentir calma agora. Mas não sinto, porquê? Porquê, querida paz, porque é que me abandonaste sem aviso de retorno, porque é que tocas em todos menos em mim? O sorriso forçado continua na minha cara, ao menos isso. Se não sinto paz, ao menos ainda a sei fingir.  Não sinto a paz de estar parada há tanto tempo que duvido que exista. Mas existe. Eu vejo-a à minha volta, vejo-a na calma com que alguns levam a vida, vejo-a numa tarde cinzenta de inverno em que o próprio tempo parece estar tão em paz que não quer mostrar cor. Será que a paz também é cinzenta? O mais famoso meio termo entre o tudo e o nada, entre o caos e a ausência dele. Talvez a paz seja o equilíbrio entre estar parada e em movimento. Parada o suficiente para a deixar cobrir todo o meu ser enquanto sou levada no turbilhão que é a felicidade.  Respiro de novo, mais fundo desta vez. Quem sou eu para dizer que a paz é cinzenta se a desconheço tão completamente? O mundo parece ter tudo tão bem definido. Certas situações e atos trazem paz, outros caos. Porque é que eu não os consigo distinguir? Sou eu mais uma num mar de impostores que se escondem atrás de palavras adequadas e discursos ocos quando, na realidade, nem sabemos o que sentir. Fingimos demais, fingimos sentimentos tão longe daqueles que experienciamos que nos perdemos pelo caminho. A fuga tornou-se a norma, o lugar seguro para onde vou quando não compreendo o que quero sentir.  Já não sinto a paz que devia, só o caos que escolhi.

  • Boas-vindas, caloiros

    Aos caloiros da Nova Direito, Bem-vindos a esta nova etapa das vossas vidas, e bem-vindos ao Jur.nal, o jornal oficial desta que é agora a vossa faculdade! Para começarmos com o pé certo (direito ou esquerdo, conforme a preferência), parece-me importante contar-vos a verdade e apenas a verdade. Ainda vai curto este texto e já vos menti. Menti-vos quando disse que somos jornal, nunca foi nosso intuito sê-lo, nem o é neste momento. Se quando leram a palavra jornal, a vossa cabeça remeteu-vos para uma imagem convencional do que é um jornal, apaguem essa imagem. Somos um núcleo de jornalismo e escrevemos e publicamos notícias, mas somos tão mais que apenas isso. No Jur.nal, os estudantes da nossa faculdade conseguem encontrar um quarto só seu. Queremos que os nossos redatores sintam que este é o seu cantinho, o local para libertarem o seu lado mais criativo e porem cá para fora aquele pensamento ou aquela ideia que anda há demasiados dias a rondar a sua cabeça. Queremos que a sua imaginação ganhe forma no papel ou no ecrã. Aqui deixamos de ser protótipos de juristas, pousamos os códigos e livros académicos, e substituímo-los pelos de histórias e pela poesia. E que tristes seríamos nós só com as palavras da lei, sem as palavras de brincar, de mentir, de inventar. Mentir é delicioso quando se escreve.  E porque não vivemos encerrados numa campânula de vidro, temos em nós, enquanto núcleo, a convicção muito forte de que estamos aqui para servir a comunidade académica. Queremos ser voz ativa na defesa dos interesses dos estudantes da nossa faculdade e ajudar ao seu esclarecimento quanto às questões para si importantes. Entendemos que é nossa missão fomentar o diálogo e a discussão, pois apenas assim conseguiremos o progresso desejado. Pretendemos, portanto, ser um núcleo cultural em todas as suas vertentes, trabalhando sempre em prol dos estudantes desta nossa faculdade.  É inevitável de todas as vezes que escrevo sobre o Jur.nal e o que este representa para mim utilizar termos como “casa”, “refúgio” ou “habitat”. Tentarei encontrar outros termos, enquanto mergulho nas minhas memórias deste núcleo. Entrei no Jur.nal em 2022. Já o vi atravessar diversas eras, diversas pessoas, cada uma com os seus ideais próprios e projetos que desejavam aqui implementar. Porém, algo marcou uma constante presença desde que me juntei, primeiro enquanto redatora, e no último ano enquanto diretora-adjunta: a vontade de criar um impacto positivo na nossa comunidade académica. Quer seja através da publicação dos textos no nosso website (e que bom é poder ver algo feito por nós ser lido por mais do que apenas nós mesmos), da elaboração e venda das edições físicas, das visitas, dos eventos, dos podcasts, das entrevistas, das campanhas de sensibilização, das tomadas de posição - uma multiplicidade de coisas que tornam este jornal o Jur.nal. Como mensagem de despedida, quero dizer-vos que não tenham medo de se dar a conhecer e de partilhar connosco estes bocadinhos do que vocês são. O Jur.nal é feito de pessoas com os mais diversos gostos, estilos, opiniões, e, por isso, gostamos de abarcar o maior número de tipos textuais e temas possíveis. Somos um núcleo que se quer artístico, e a arte é diversa e multidimensional. Neste caso, a imaginação é mesmo o limite.  Desejamos que a vossa jornada que agora começa seja repleta de novas experiências e aprendizagens, e, se assim o desejarem, que o Jur.nal tenha lugar nas recordações que levarão da vossa licenciatura! Da minha parte, no momento em que chego ao último semestre na direção do Jur.nal, não tenho qualquer tipo de dúvida quando afirmo que fazer parte do Jur.nal tem tornado o meu percurso na Nova Direito ainda mais feliz.  A maior sorte neste caminho que hoje se iniciou! As portas do Jur.nal estarão sempre abertas para vos receber!

  • Entrevista à Comissão Académica

    Nesta entrevista, o nosso Diretor António Subtil embarca numa conversa com a Dux, Beatriz Jesus, e a Presidente da Comissão Académica, Beatriz Moderno, sobre o que as levou aqui, e sobre onde levarão a praxe neste próximo ano. António (A): Esta é a primeira Comissão nos nossos tempos sem ninguém que tenha integrado uma comissão passada, não é uma lista de continuação. Isto põe-vos numa posição inédita. O que vos levou a candidatarem-se? Beatriz Jesus (BJ): Para mim, candidatei-me pelo facto de que a praxe significou muito para mim, tanto como caloira como doutora. Eu era uma pessoa que não queria estar naquela faculdade, não queria ir à praxe, não queria nada, e foi através da praxe e das experiências, tanto boas, como más, que fiz amizades, que vivi certas situações, e de certo modo mudei como pessoa. E queria poder entrar num novo ano e num novo semestre com um papel na praxe que pudesse fazer passar esta sensação e estes sentimentos todos a outras pessoas, e tentar cuidar e ajudar e colocar estes caloiros, que vêm tão perdidos como eu me sentia, numa posição de conforto que eu sei que, no meu ano, apesar de ter existido, podia ter sido maior. Então quero aproveitar a experiência que eu tive como caloira, como doutora, como júri, como líder, como o que quer que seja, para poder melhorar o que há a melhorar e para poder manter aquilo que há a manter. Beatriz Moderno (BM): Faço das palavras da Bia as minhas palavras. O meu período de adaptação também foi um bocado complicado… eu não queria estar aqui, eu odiava estar em Lisboa. Mas não sei porquê, por alguma razão, nunca desisti da praxe, sempre tinha aquela cena que me dizia para continuar. E foi a partir do momento em que comecei a participar mais na praxe e a gostar mais, a dar-me a conhecer mais, que comecei a gostar mais de Lisboa. E sei que também muitas das pessoas que conheci, neste caso a Bia, que é uma das minhas melhores amigas, conheci-a através da praxe. Eu acho que também é importante a praxe até para conhecer pessoas de outros anos, através dos padrinhos e até através dos doutores. E no fundo assumo esta posição para agradecer aquilo que fizeram por mim e tentar retribuir de certa maneira o tanto que eu gosto e que gostei, espero ajudar e contribuir para que outras pessoas também tenham essa experiência. No fundo, manter o que achamos que devemos manter e mudar as coisas que achamos que não estão tão bem e que gostávamos que fossem feitas de uma forma diferente. A: Muito bonito… já mais político, vá.  BM: Por isso é que a Bia é Dux e eu sou Presidente!  A: Esta questão da continuidade, neste caso a falta dela, não poderá ser um problema para a vossa Comissão? BJ: Eu sinto que, como em todas as outras coisas, nos núcleos, na faculdade, no dia a dia, quando tens uma continuidade, há coisas que são mais fáceis, porque já conheces os cantos à casa. No entanto, é uma dificuldade que, até agora, temos conseguido superar, não vemos isso como um impedimento, porque tudo o que temos feito, temos conseguido. E na verdade, temos de agradecer muito à Comissão passada, têm-nos dado todos os apoios e fizeram uma passagem de pastas excelente. Qualquer dúvida que nós temos, eles têm-nos tirado as dúvidas, continuam a estar prestáveis, a ajudar, a dar contactos… então, nesse aspeto, apesar de às vezes nos sentirmos um bocado confusos (mas eu também acho que qualquer outra Comissão, mesmo de continuidade, se iria sentir assim), temos tido esta ajuda e temos tido força de vontade de ir procurar as respostas. Então, acho que em si não é um obstáculo, é só uma curva no caminho. BM: Sim, sem dúvida. E é assim, o que a Bia estava a dizer é mesmo verdade. A Sara, a Ana, a Luana, estão a ser completamente incansáveis, todas as dúvidas que nós temos nós mandamos mensagem e elas respondem prontamente com todas as informações. E eu acho que é muito aquilo que a Bia estava a dizer… Obviamente que há determinadas situações que poderão ser mais complicadas (não complicadas, mas mais trabalhosas). Mas acho que temos muita força de vontade para que as coisas corram bem, e estamos a dar o nosso melhor nesta preparação, temos imensas reuniões, estamos sempre a falar no grupo da Comissão para que todas essas “faltas” sejam corrigidas e que as coisas corram pelo melhor.  BJ: Sim, até a nível de tesouraria, todas as informações foram-nos logo passadas, temos sempre noção das contas, de como o dinheiro foi gasto, do quanto foi gasto… Tudo isso nos foi passado de boa vontade e sempre dispostos a ajudar. BM: Eu não sei se passa para as pessoas uma imagem, nessa questão da continuidade, de que não há contacto com a Comissão passada, isso é mentira. Passaram-nos as informações todas e tiram-nos todas as dúvidas, portanto pode não haver continuidade mas há muita comunicação entre nós e eles. BJ: E depois também há uma coisa que eu e a Bia já tínhamos discutido. De facto, verifica-se aquele diz-que-diz que, quando estás nos cargos, começas a ter muito mais respeito pelas pessoas que cá estiveram antes e pelo trabalho que elas desenvolveram. Então nós começamos cada vez mais a perceber tanto as decisões deles como as posições, como o cansaço, como tudo. Até nisso eles têm sido um bom apoio para nós, e estamos muito gratos pela ajuda que nos têm dado. A: Isso é bom, porque é uma impressão que se pode ter às vezes, como não é de continuidade, podia haver uma falta de diálogo. BM: Até porque, a nível pessoal, nós somos amigas das pessoas que estavam na Comissão anterior, obviamente que íamos falar com eles e tirar-lhes as dúvidas. Nós queríamos muito passar esta mensagem de: não é como se houvesse uma ruptura total de sistema, não. Nós vamos manter as coisas que achamos que estão corretas e vamos mudar as coisas que achamos que estão erradas, como todos os presidentes e todos os Duxs anteriores fizeram, porque há sempre uma evolução e há sempre coisas diferentes de mandato para mandato. BJ: Sim, todos os anos a praxe apresenta necessidades diferentes, há anos em que se calhar temos caloiros que são de uma forma, outros que são de outra forma, portanto é uma questão de adaptação. Acho que qualquer mudança é sempre a pensar naquilo que temos no presente, e não uma questão de se foi mal feito ou se não foi. BM: Eu, no ano passado, fui líder dos Favaius. E eu fiz coisas no início do ano que, se calhar olhando agora no fim, passado um ano inteiro, pensei “ah se calhar não deveria ter feito isto desta forma”. Isto para dizer o quê? Podemos ver coisas nas Comissões coisas com que não concordamos, que se calhar eles próprios também fizeram de uma maneira e não concordaram… Provavelmente isso vai acontecer connosco, porque isso acontece sempre. Agora estamos a fazer coisas que se calhar daqui a um mês, uma semana ou um ano vamos pensar “se calhar não era assim que deveríamos ter feito.”. Mas eu acho que isso é inevitável e acontece sempre. A: Claro… No fundo, muitas vezes só se aprende a fazer. BM: Literalmente, e mais nestas coisas, porque não há um manual de instruções. A: Têm de ser vocês a fazer. A: Quais são as discordâncias que vocês têm com a forma como a praxe tem sido conduzida? BM: Nós não temos bem discordâncias… Há coisas que achamos que podiam ter sido feitas de outras formas. Por exemplo, este ano vamos na primeira semana criar um forms para que os doutores, aqueles que não queiram falar connosco pessoalmente, possam escrever lá alguma situação com a qual não se sintam confortáveis. Nós também estamos super abertos e receptivos para que as pessoas venham falar connosco sobre tudo. É uma coisa que queremos muito fomentar, o contacto entre os doutores e a Comissão. Obviamente que nós sabemos que existe uma hierarquia, mas o nosso objetivo principal (e acredito que aqui falo pela Bia, pela Comissão e pelos doutores) é o bem estar dos caloiros. Não há, no fundo, uma discordância. Tínhamos vontade de fazer parte da Comissão, tínhamos os mesmos valores, juntámo-nos para fazer isso. A nossa candidatura foi motivada pelo nosso amor pela praxe, e não como um “ataque” a outras Comissões.  BJ: Eu concordo com a Bia. Eu acho que nós também queríamos ter uma visão mais abrangente de tudo. Isto foi dito pela Bia no discurso dela quando ganhou: não éramos propriamente amigos, éramos conhecidos da faculdade, mas não éramos pessoas que conviviam constantemente. Nós tínhamos maneira de praxar diferentes, eu tenho uma forma de praxar diferente da Bia, o Francisco Monteiro tem uma forma diferente de praxar de nós, o Miguel tem uma forma diferente de praxar de nós… Ou seja, somos pessoas que, mesmo na praxe, são diferentes, e era isso que nos motivava, termos uma opinião diversificada de várias pessoas, vários grupos, várias formas de praxar. E neste objetivo de criar proximidade, daí a criação de uma comunidade que vai ser com todos os doutores. E queremos que as pessoas também se sintam reconhecidas. A praxe é para os caloiros, e toda a gente sabe que eles são as estrelas, mas queremos que os doutores também tenham um certo conforto e saibam que estão seguros e que se precisarem de alguma coisa, nós estamos lá. E que também por termos esta hierarquia superior, também é para os ajudar, não é só para estar a mandá-los fazer as coisas. BM: Até porque a praxe não se faz sem os doutores. A praxe é para os caloiros mas sem os doutores não fazíamos a praxe… os caloiros sozinhos, pronto, era impossível. A: Mas por que é que acham que há uma distância entre os doutores e a Comissão? BM: Eu acho que isso é inevitável de acontecer, vai sempre haver uma distância, por questões de organização, uma multiplicidade de razões. O nosso objetivo principal é saber que os doutores podem estar próximos de nós, possam sentir-se confortáveis em falar connosco - o que eu não estou a dizer que não acontecia nos outros anos. Mas eu sei que há pessoas que se calhar não se sentiam confortáveis. Por exemplo, eu sentia-me próxima da Comissão do ano passado, mas eu era amiga de muitas pessoas que lá estavam, não sei a opinião geral. O nosso objetivo não é estar a dizer que a Comissão passada não era próxima, não achamos produtivo, mas o nosso objetivo é ver o que podemos fazer para aproximar. No ano passado a Comissão também tentou aproximar os doutores, e o nosso objetivo é continuar a tentar fomentar isso.  A: Vamos agora falar sobre alterações concretas para vários tópicos. Para começar, alguma ideia nova para as atividades académicas e eventos em si? BJ: Nós fizemos algumas alterações, mudámos a ordem cronológica, e queremos introduzir novos jogos e novas praxes - não vou especificar ainda porque não sabemos o que será possível realizar ou não, e não quero frustrar as expectativas de ninguém. Sabemos que há jogos que são nostálgicos para todos e que toda a gente gosta, e atividades que toda a gente odeia mas sabem que têm de ser feitas - peddy-paper - mas sim, haverão várias alterações. A: E quanto aos estatutos, os da Comissão, os Códigos de Praxe e Traje? Sei que foram alterados recentemente, mas… BM: Sim, foram alterados recentemente, então não são neste momento o nosso foco de trabalho, mas, com o avançar do ano, se virmos que é necessário fazer alguma alteração, também o faremos. Mas também não achamos produtivo fazer alterações constantes, até para que os estatutos possam ser conhecidos. Portanto, neste momento, não pretendemos fazer nenhuma alteração, não significa que não faremos no futuro se surgir essa necessidade.  A: Já falámos da questão da democratização da praxe e inclusão dos doutores. Para além destas questões de atitude e abertura, e das comunidades, têm mais medidas para promover essa proximidade? Sei, por exemplo, que a outra lista queria fazer mais reuniões de doutores, e que, segundo o Código da Comissão, os alunos têm o direito de votar os principais atos da Comissão, o que nunca aconteceu na prática, portanto, neste sentido, que outras medidas existem para democratizar? BJ: Como dissemos antes, haverá sempre uma distância e uma hierarquia. Para além da comunidade onde faremos comunicados e termos um Instagram mais ativo, aberto, e informativo, uma das coisas que sentimos necessário é pré-preparar melhor os doutores para o que vai acontecer: pretendemos informar melhor sobre o que se vai passar na praxe, o que é preciso levar, o que dizer aos caloiros… Ou seja, queremos que os doutores sintam que sabem exatamente aquilo que têm de responder e sabem mais que os caloiros. É um dos nossos principais objetivos, e estaremos sempre abertos a qualquer sugestão e reunião por iniciativa de qualquer pessoa - sabemos que é impossível estar sempre a fazer reuniões, por logística e cansaço, mas vamos procurar estar sempre disponíveis para o que quer que seja. BM: Nós também, à semelhança dos outros anos, já estamos em contacto com os líderes, porque eles também têm aqui um papel muito essencial no contacto entre doutores e Comissão. E o nosso objetivo era também tentar fazer mais reuniões com eles, porque nós não queremos diminuir o papel dos líderes. Os líderes têm muito esse papel de contacto entre a Comissão e os doutores, e nós também queremos manter isso. Achamos que é essencial.  A: Vou fazer uma pergunta assim talvez mais complicada… Suponham que têm uma medida qualquer, prova-se ser controversa, alguém no Jur.nal até fala sobre isso, e que algum doutor usa esse artigo e diz que a comunidade académica deveria votar sobre essa medida. Qual seria a vossa opinião sobre isso? BJ: É difícil estarmos as duas a responder porque, apesar de estarmos a representar a Comissão e o nome da Comissão e daquilo que vai ser organizado, nós somos um conjunto de pessoas e todos nós temos uma opinião. Mas eu acho que, e acredito que é a opinião da maioria por aquilo que temos discutido até agora, nós estamos aqui não só para organizar e para ter os cargos da praxe, mas para servir a comunidade académica. E se nós sentimos que a comunidade académica quer votar uma medida, e se não concorda com essa medida, nós estamos abertos a que isso vá a votação e que seja discutido, e, se calhar, mesmo antes de ser implantado para evitar situações destas (do género “ Ok , isto é uma situação mais problemática, vamos já reunir todos e ver como podemos fazer isso.”). Mas, novamente, depende muito da situação. Eu estou a falar de um lado de fora, não tendo ainda tido qualquer problema a nível de organização ou a nível de praxe. Mas, sim, eu acho que seria esta a posição que nós tomaríamos. BM: Nós achamos que é ótimo as pessoas terem uma opinião, obviamente. E nós acreditamos que isso é que contribui para que as coisas se desenvolvam. Nós esperamos também que as pessoas venham falar connosco diretamente. Nós queremos que, se as pessoas não concordarem com uma coisa, venham falar connosco, porque não nos vale de nada que as pessoas andem a dizer isto e aquilo, se depois não nos dizem e não expressam as suas preocupações. No fundo é isso que poderá mudar alguma coisa, é virem falar connosco. Nós até poderemos ter uma opinião, as pessoas podem dizer “achamos que isto, por esta razão” e nós até poderemos reconsiderar, ou não. Mas eu acho que a questão é haver alguma abertura para falar sobre as coisas.  A: Acho que faz todo o sentido falar nisto agora… claro que eu estava a pensar no sistema de faltas. Qual é a vossa posição sobre o sistema de faltas? A meu ver, e de muitas pessoas, o maior problema é a falta de especificidade - não se sabe por que motivos se pode faltar, por quais é que não se pode (pode-se faltar, por exemplo, por causa das aulas? Pode-se faltar porque se está de férias?). Qual é a vossa opinião sobre isto? BM: Nós tivemos uma reunião só a falar de faltas, porque nós tínhamos todos opiniões diferentes. É um bocadinho difícil dizer-te que é assim ou assim, porque as pessoas têm opiniões diferentes. Nós vamos manter o sistema de faltas, até porque está tudo nos códigos. Relativamente à situação de justificação de faltas, o que decidimos entre nós é que, em situações dúbias, vamos conversar entre nós. Isto para que não aconteçam situações de um doutor da Comissão justificar uma falta, e outro doutor da Comissão, pela mesmo razão, não a justifica. Vamos tentar ter um contacto permanente entre nós para uniformizarmos as justificações de falta. Claro que se me disseres “fui para o hospital”, a falta está justificada, obviamente.  BJ: Relativamente às aulas, esse assunto ainda está para ser discutido.  BM: É muito difícil estarmos a dizer com esta distância, porque, lá está, há situações e situações. Por exemplo, estávamos a falar, e até foi o Miguel que disse que há aulas em que conta a assiduidade. E se calhar nessa situação é um bocadinho diferente de aulas em que não conta a assiduidade. Portanto, é muito difícil agora estar a dizer-te casos concretos de isto, isto e isto conta, e nós sabemos que isso cria incerteza. O que podemos dizer é que as faltas vão ser justificadas para as pessoas da mesma maneira. BJ: Nós queremos ter uma abordagem mais leviana às faltas, por ser uma situação que foi tensa, por ser uma situação que até aos dias de hoje gera discordância, mesmo entre nós. O nosso objetivo é tentar ao máximo uniformizar a opinião de todos nós dentro da Comissão, é tentar, de forma igualitária, justificar as faltas que merecem ser justificadas e negar aquelas que têm de ser negadas, mas, ao mesmo tempo, ter uma abordagem mais leve, mais pensada (ou seja, parar, discutir, analisar o caso em si e ver). Pode ser uma coisa que nos leve mais tempo? Pode, mas nós pretendemos fazer isto, porque é uma coisa que também está nos valores de todos nós, e há pessoas que na Comissão defendem e querem abordar este tema com seriedade. E para isso estamos cá nós.  A: O tribunal de doutores… Já agora também falamos sobre o tribunal de praxe, se quiserem… O tribunal de doutores não foi muito bem recebido este ano. Portanto, eu queria saber qual é a vossa posição sobre isso, se há alguma coisa que querem mudar nesse sentido? BJ: Eu vou ser muito sucinta. Eu acho que, relativamente a este tema, todos nós pretendemos apenas utilizar o tribunal de doutores para situações específicas, para situações graves, para situações que realmente sejam alarmantes. Ainda não discutimos sequer o seu funcionamento, ou se vai existir ou não, porque, novamente, têm de ser situações muito específicas, e para nós vai ter de ser com o decorrer do semestre e da praxe. Ele pode mesmo não acontecer, porque será para situações que vão ser observadas e analisadas, em que nós vamos chegar à conclusão de “sim, isto é uma situação muito grave, isto é uma situação em que a pessoa está errada.”, e cabe-nos a nós alertá-la, informá-la e, se for necessário, castigá-la. A: Sobre o tribunal de praxe em si, este ano eu sei que a grande reclamação foi sobre o tempo que demorou. Na vossa opinião, há alguma forma de resolver isso, de encurtar? Não sei se já pensaram sobre isso… BM: Novamente, nós ainda não debatemos essa questão, porque neste momento estamos “primeira semana! Primeira semana!”. Falando por mim, eu pessoalmente, acho que o tribunal é sempre uma coisa que vai demorar imenso tempo. É inevitável, porque são todos os caloiros, há caloiros que demoram mais. Se calhar, uma maneira de combater isso é começar mais cedo o tribunal, mas depois também temos aquela questão de as manhãs serem sempre dedicadas às atividades específicas. Portanto, é uma coisa que vamos ter de ver a nível de organização. Vamos tentar, se calhar, arranjar uma maneira de o tribunal ser mais rápido, mas o modelo do tribunal vai manter-se.  A: Claro! Agora, caça ao caloiro… é um tema muito debatido. Às vezes é difícil definir o que é que é caça ao caloiro. Portanto, para vocês, excelentíssima Presidente e excelentíssima Dux, o que é que é ao certo caça ao caloiro? BJ: Eu para isto tenho a resposta que sempre dei, tanto como líder, tanto aos meus afilhados, tanto como júri: a caça é impossível de ser definida. Tu não podes definir aquilo que é ou não uma atitude de caça. A caça vem das intenções que as pessoas têm por trás, e como todos sabemos, é muito muito difícil, senão quase impossível, saber se a pessoa está a agir com uma intenção errada. A realidade é que na nossa faculdade também há muitos boatos, há muito “diz que disse”, e isso também torna as situações mais complicadas. Há coisas que para mim acabam por ser óbvias. Se tu és uma pessoa que, se calhar, não és acessível, não falas com ninguém, tens uma personalidade, e do nada mudas tremendamente; tens uma pessoa como afilhado e depois, do nada, a pessoa já não te interessa e já não falas com ela. Para mim isso poderá ser uma indicação. Mas, novamente, é uma coisa que é muito difícil. Acho que só em casos muito específicos e casos muito óbvios e, se calhar, mesmo atirados à nossa cara, é que podem ser reconhecidos como tal. Nós queremos alertar todos que não é bom, porque ser padrinho, ser madrinha, ser doutor não é algo que possa ser levado com ânimo leve. Nós estamos a marcar de forma positiva ou de forma negativa a vida de pessoas que acabaram de chegar e que, se calhar, estão assustadas e querem apoio. E isso também fica um bocado na consciência de cada um, e acho que cada pessoa sabe se está agir com boas ou com más intenções, porque ter afilhados não é para receber prendas, ter afilhados não é para ter uma listinha de nomes bonitinhos. Ter afilhados é ter um conjunto de pessoas que podem ou não precisar do teu apoio a qualquer momento, que podem querer ter bons momentos contigo, que podem querer a tua ajuda, que podem querer ter o teu abraço. E não é só um conjunto de pessoas que tu podes dizer que gostaram de ti ou que foram com a tua personalidade, há uma responsabilidade muito grande por trás. E, pronto, eu acho que isto vai ficar muito na consciência de cada um, e eu espero que as pessoas sejam conscientes e que acartem com esta responsabilidade. BM: Sim, eu concordo com a Bia. Acho que é muito difícil definir o que é que é ou o que é que não é caça. Até porque as pessoas têm personalidades diferentes, e há pessoas que por natureza são muito mais carinhosas, estão sempre a perguntar se está tudo bem, e há pessoas que fazem isso só porque são mesmo assim. Agora, obviamente, há situações que não são ok - por exemplo, se eu tiver um grupo de caloiros, e eu escolher entre esses um caloiro para ir jantar comigo; ou se eu estiver a falar mal de outros doutores com um caloiro, não acho que isso seja correto. Mas, novamente, isso também cabe muito na consciência de cada um, e há situações que acho que são tristes e acabam por desvirtuar um bocadinho o próprio sentido da praxe (situações em que as pessoas só querem afilhados, têm os afilhados e não lhes ligam nenhuma). Acho triste que isso aconteça, mas, lá está, acho que é muito difícil definir caça. Acho que é muito caso a caso também, porque há uma série de fatores que têm de ser olhados e tidos em consideração. Mas para mim Beatriz, não Comissão, acho que não vale mesmo nada a pena fazer caça, porque o que é que vale ter um afilhado se sabemos que ele não gosta tanto assim de nós? Só para dizer que temos? No fim do dia, isso não vale mesmo a pena. Eu dou o meu exemplo: eu nestes dois anos que estive a praxar nunca tive nenhum afilhado no batismo, e tenho afilhados, e sei que os meus afilhados me escolheram porque gostam mesmo de mim por uma razão ou outra, e para mim não fazia sentido dizer “ok, tenho afilhados, estou a batizar pessoas” (porque eu sei que há pessoas que naturalmente ficam tristes se não tiverem afilhados no batismo. Mas eu acho mesmo que isso não quer dizer que as pessoas sejam maus ou bons doutores, acho que não tem nada a ver. Acho que as coisas acontecem no tempo que elas têm que acontecer). Isto para dizer: não façam caça, é mau e no fim do dia não vale mesmo a pena. BJ: Sim, eu conheço casos de pessoas que não tiveram afilhados no 1º ano, e depois no 2º ano como doutores tiveram imensos afilhados. As pessoas são todas diferentes, as conexões são diferentes… É ter calma, é fazer o trabalho que se tem como doutor e carregar com essa responsabilidade, e deixar as coisas acontecerem naturalmente e aproveitar também, porque às vezes também sinto que os doutores se esquecem de aproveitar aquilo que eles podem retirar de bom da praxe.  BM: Até porque o objetivo da praxe não é nós termos afilhados. De todo. Se isso acontecer ainda bem, muito bom. Por um lado é um reconhecimento do nosso trabalho, assim dizendo, mas por outro, se não tivermos também está tudo bem com isso. Não é o fim do mundo, e é mesmo ok não ter afilhados. E as coisas naturalmente acontecem a um certo ponto. Eu no meu primeiro ano a praxar, no segundo ano, tive três afilhadas. Elas pediram-me todas depois do batismo, e isso não muda o amor que eu tenho por elas, não muda nada! Os meus afilhados deste ano também me pediram depois do batismo, e são meus afilhados na mesma! E está tudo tão ok com isso! A: Exato! Molhar uma pessoa com leite e azeite não é o pináculo de uma relação. A: Já agora, eu não sou biased , mas eu sinto que o sistema de júris é subaproveitado. Não sei se vocês discutiram isso, mas acham que há alguma dinâmica a mudar no sistema de júris? Se os querem envolver mais, etc.? BM: Eu acho que é mais fácil a Bia responder a esta pergunta, porque ela foi júri e eu nunca fui. Mas eu acho que, por exemplo, há coisas que nós não concordamos (e vamos dar o nosso máximo para que isso não aconteça, sendo que essas coisas acontecem sempre), que é gastar imenso dinheiro com os júris. Nós achamos que não é mesmo por aí. Sobre os júris, nós queríamos, e estamos a pensar em formas de os envolver para ficar mais dinâmico (porque ao décimo quinto “eu digo-lhe como está hoje… lindo e maravilhoso como sempre!”...). Então nós estamos aqui a pensar em estratégias para ver se isto fica assim um bocado mais dinâmico, sendo que é sempre um bocado difícil porque o papel dos júris, pronto… BJ: Eu tendo sido júri senti um bocado aquilo que o António também sentiu, e ele sabe: um bocado desorientada; um bocado não sei muito bem concretamente o que é que se está a passar aqui; tão depressa sou muito, como depois já não sou nada. Há umas incertezas acerca do que o júri faz, do que o júri não faz, do que pode fazer, do que não pode fazer. O nosso objetivo é um bocado tentar definir ao máximo o que é que o júri pode ou não fazer, o que é que eles deviam ou não receber. É tentar ajudar e facilitar um bocado essa tarefa. É fazer com que eles se sintam mais dentro da praxe, mais ouvidos, e não tão perdidos, porque depois o júri não tem propriamente um grupo, não está dentro do grupo, então é um bocado tentar que haja essa inserção no clima da praxe. BM: Até porque se não estão sempre a ouvir as mesmas coisas. E isso também acredito que enquanto doutores seja um bocado frustrante estarem a ouvir que são lindos maravilhosos (o que é verdade), mas... [risos]! A: O papel do júri podia ser expandido para outras atividades ao longo do ano. Têm alguma opinião sobre isso? BJ: Nós concordamos em manter o júri na primeira semana, como estava antes. Mas nós queríamos uma participação mais ativa, ou seja, parecendo que não, a Comissão não consegue estar em todo o lado em toda a altura, e o júri acaba também por ser uma pessoa que está muito ativa a ver as dinâmicas dos grupos e aquilo que se está a passar. Nós queremos dar uma missão ao júri, um papel de destaque. Eles estão lá, eles estão a presenciar, eles vão cedo, eles correm os grupos todos, eles ouvem mil e uma coisas. Nós queremos que haja esse papel do júri, quase que mais considerativo - do género: vocês estão a fazer bastantes coisas, vamos tornar útil esta vossa função. E então queremos tomar mais em consideração a opinião que eles possam ter acerca de certas coisas, acerca de certos grupos (se calhar mesmo não só em termos de pontos, mas a nível de jogos).  A: Há algum comentário final que gostassem de passar à nossa comunidade académica? BM: Da minha parte é… divirtam-se! [risos] Não, mas a sério, eu tenho memórias incríveis da minha primeira semana enquanto caloira, mas também enquanto doutora. Eu divirto-me sempre imenso imenso imenso! Eu sempre que penso na primeira semana do ano passado eu choro a rir. Portanto, eu acho que é muito isso: aproveitem. Obviamente que a praxe é para os caloiros, e acho que isso deve ser o objetivo de todos nós, mas acho que as pessoas também têm de aproveitar. É uma altura mesmo gira para nós até conhecermos outras pessoas de outros grupos que, se calhar, noutra ocasião não conheceríamos. E não façam caça! [risos] Mas aproveitem porque é muito giro e passa muito rápido! E esta agora é a nossa última primeira semana (como assim passaram quatro primeiras semanas?!)! E isto agora vai ser os Favaius dentro de mim a falar, mas eu sempre aprendi que praxe era amizade e praxe era integração, e acho que é mesmo isso. Obviamente que na primeira semana vai haver uma certa distância entre nós e os caloiros, mas eu acho que é também pensar como é que nós nos sentíamos quando viemos para a faculdade e tratar os caloiros dessa forma. Ou seja, nós não queríamos ser completamente deixados aí “olha, agora orientem-se”. Também temos de ter em mente que eles vêm para uma cidade nova, muitos deles sozinhos. E acho que é também ter esse cuidado e essa atenção.  BJ: Eu concordo plenamente! Eu acho que é: aproveitem, divirtam-se, sejam amiguinhos uns dos outros, façam amizades, conheçam pessoas novas, falem se tiverem alguma coisa a falar. Nós estamos aqui para ouvir, nós vamos ser acessíveis, nós estamos dispostos a tal. And let the games begin! [risos] BM: Nós estamos prontíssimas. E malta, vão todos ao jaloiro, por favor! Vai ser incrível! É a minha mensagem para a comunidade académica. [risos]

  • Adultos dão-me esperança

    Adultos dão-me esperança. Quando era mais nova colocava os adultos num pedestal, como se fossem o nível máximo que nos era possível atingir, aqueles que já sabiam tudo e conseguiam resolver qualquer desafio que a vida lhes atirasse. Ah, que bonito que aquilo tudo parecia! Saber lidar com tudo o que acontece e ainda sair por cima. Como se houvesse algum tipo de poção mágica que nos é dada quando fazemos dezoito anos que faria com que a vida fizesse sentido e as coisas funcionassem sempre na perfeição. Obviamente quando eu fiz dezoito anos, apercebi-me que isso nunca iria acontecer e que continuava a ter exatamente os mesmos problemas e inseguranças que tinha no dia anterior, absolutamente nada tinha mudado e nada parecia estar perto de mudar. Ainda não conseguia entender completamente qual o tamanho de calças que usava, quanto mais todos os problemas que o universo me pudesse lançar. Então meti na cabeça que eu era adulta, mas só no papel - não era ainda uma adulta a sério, uma adulta premium , era mais tipo uma adulta light - do género que pode viver sozinha e comprar álcool, mas ainda tem de ligar à mãe de vez em quando para perceber porque é que o esquentador está a fazer um barulho estranho. Até que este verão me rodeei de muitos adultos premium e me comecei a aperceber que eles também pareciam muito adultos light , que também eles ainda estavam a lidar com todas aquelas merdinhas com que lidamos desde que somos conscientes e isso era aterrador, porque isso significa que nada disso iria alguma vez se resolver para mim. Os adultos premium também odeiam as suas pernas e querem ter menos cinco quilos. Os adultos premium também escondem as suas crushes e insistem que são só amigos (por muito que TODA A GENTE JÁ TENHA PERCEBIDO). Os adultos premium também têm ciúmes. Os adultos premium também choram todas as lágrimas que têm e as que não têm quando as suas relações de três meses acabam. Os adultos premium também só querem dormir mais cinco minutos. Os adultos premium também fazem birra quando a televisão perde o sinal. Os adultos premium também fazem piadas sexuais e riem-se de gases. Os adultos premium também ligam aos amigos a fofocar. Talvez eu até já seja uma adulta premium . Talvez isso até seja ok. Especialmente porque, por muito deprimente que a ideia de nunca ultrapassarmos as merdinhas que os meandros da nossa consciência nos proporcionam e nunca sermos efetivamente capazes de resolver todos os problemas que o universo nos atire possa ser, estar com todos estes adultos deu-me esperança. E essa esperança reside na cura que todos eles encontraram para os seus problemas (talvez não seja bem uma cura, mais um atenuador ou minimizador, mas o efeito, por momentos, quase que parece o mesmo), cura essa que, aliás, todos nós, em qualquer idade também já encontrámos sem sequer o tentar: uma mesa rodeada de amigos. Amigos que nos fazem esquecer que temos uns quilinhos a mais e estamos a perder cabelo, que não dormimos o suficiente e que já não temos azeite em casa há três dias e o nosso amaciador favorito está fora de stock há semanas, ou talvez amigos que nos mostram que nada disso é realmente importante - amigos que nos fazem rir até sabermos que alguém nos conhece verdadeiramente e que somos apreciados e amados ali e a vida não precisa de ser assim tão assustadora. Talvez ser adulta não seja algo assustador, nem para o qual não estejamos preparados, talvez seja só mais uma aventura repleta de experiências para partilharmos sobre uma mesa velha da Sagres num churrasco lá em casa. O que os adultos, sem dúvida, me ensinaram é que um churrasco fica muito mais fácil se cada um trouxer uma coisa, um leva a salada, outro os queijos e enchidos, outro traz a cerveja e alguém há-de se lembrar do pão. Quem organiza não precisa de tratar de tudo e é mais acessível se dividirmos os custos por todos e, claro, por amor de Deus, lembrem-se de ir fazer companhia ao mestre da grelha. It gets lonely out there.

  • Babel (Rascunho, editaR, apagaR)

    A puta faltou ao jantar, ele acabou a morfar no Mc um hambúrguer. Passou pelo monhé. Comprou vodka. O quarto onde vive, dorme, e morrerá, é mais do senhor senhorio do que seu, mas o seu suor está lá mais, a cobrir as paredes, as fronhas, as folhas. Ele pensara que o suor era da cor de água: afinal, era amarelo. Despiu-se, atirou a camisola branca antiga para cima dos lençóis soltos - nunca ferrados, nunca enfiados – e os calções pretos rotos passaram por cima da cadeira de plástico com uma rodinha partida, aterrando na secretária. À mesa havia duas colunas: uma com livros por ler, uma torre com uns 20 livros, outra com livros lidos, na casa entre o 0 e o 1, uma autêntica torre gémea. Entre os destroços, guardanapos e papeis, usados e por usar, lubrificante, um x-ato, um copo sujo e uma garrafa vazia. A garrafa foi para o chão, a nova assumiu a posição. Sentou-se, e olhou-me no espelho do armário, como fazem todos os protagonistas: um velho de quarenta anos, careca e corcunda, com rugas nas bochechas e olheiras pelos olhos ocos e acne ao pescoço, pelos, pelos e pelos, pelos braços, pernas, nariz e bolas. A única forma de ver a pila era ao espelho: a barriga chegara ao ponto de esconder a cabeça da outra. Olhou copo, encheu, esvaziou. Ardeu. Encheu, esvaziou. Ardeu menos. Pegou lubrificante – era mais fácil assim – pegou na pega, subiu e desceu com as mãos, só era ambidestro para isto, e passou-lhe o passado na cabeça, abriu o computador, porno, aba abre e outra fecha, uma mão salta no rato e outra na rata, as mesmas estórias desde a adolescência, as mesmas merdas, sim, merdas, e outras questões que não se atreve a fazer como “terá ela 18?” e “quererá?”, não, nunca, abre e fecha, e sobe, e sobe, e sobe-se tudo até chegar ao abdómen. Pequenas gotas, mais líquido que boas esporras. Ele não conseguia respirar. Guardanapo, mão, copo cheio, e depois vazio. As cabeças cansadas ardiam. Deitou uma em cima do teclado, e mirou a lâmina. Estava a ficar enferrujada. Inspirou. Eu levou-a ao braço, e cortou, um pouco acima do pulso, entre as marcas já antigas e incómodas, e expirou. Já respirava. Estava vivo. Corte, corte, corte, guardanapo, braço. Ardeu. O fogo não parou. De metade, a garrafa fez-se vazia, e o copo sujou-se de sangue. O pulso ardia. Um corte deslizou demais. Guardanapo no pulso, meia à volta do pulso. Chorou. Eu cerrei os olhos no ecrã. Eram 11 da noite, e 19 minutos. Um sinal querido, ele sonhou, e era hora de nascer. Abriu um documento, e, entre sangue, suor e lágrimas, começou a escrever:   «Conheci um Viajante de uma terra antiga que me disse: naquele tempo, no deserto, havia uma Humanidade, uma Nação sobre um Deus, uma raça e uma língua, e uma fúria ardente de ser, e querer, e criar. A certa altura, abandonaram o leste, rumo ao paraíso, uma planície na Mesopotâmia onde se fixaram. Abraçaram-se, acarinhados entre o Tigre e o Eufrates, e disseram: nós somos todos Rei, apaixonemo-nos e obremos! E desse amor, fizeram tijolos, cozidos nos ventres quentes dos fornos industriais, que, entre o betume que fazia as vezes da argamassa, serviram das pedras sobre a qual as primeiras igrejas surgiram. Quando os primeiros sinos badalaram o início do tempo, disseram: agora, construamos uma cidade, e no seu coração, a grande criação que chegará até ao céu! Focados e sem dispersar nem desistir, nada nem ninguém os poderia impedir de fazer aquilo que projetaram. E assim nasceu a Torre da Babilónia. Contemplai o berço da arte! Dois mil, Quatrocentos e Oitenta e Quatro metros de altura, furando as reles nuvens e refletindo os raios do sol, suportados por Quatrocentos e Vinte metros de largura, uma massiva montanha naturalmente humana, uma espiral quadrada, maior que engenheiros ou califas, pois a sua massa era a massa humana. De braço a braço dado, de uma ponta a si mesma, portas e portadas das cores da prata, do chumbo, e do aço, fundidos com a natureza, domada e cooperativizada pelos proles, e por isso crescia pelas portas, trepava pelas janelas, o verde e escuro musgo escalava até ao derradeiro vértice. Escadas nunca escaladas, acompanhadas pelos percursos de água canalizados dos rios e do mar para formar um mel salgado doce que saudava os sedentes. Não havia sede, não havia fome. Por detrás de cada porta, um lar, e todos os lares. Tendo mais nada que camaradas e amor, a humanidade fazia o que fez: da arte, a sua casa. Meninos tocavam música nas suas flautinhas de bis, enquanto os irmãos brincavam com plasticina. Os pais chegavam a casa com pautas e peças e pinturas para partilhar à mesa de jantar, nos sertões praticavam imitar, criar para que outros neles se pudessem inspirar. Não havia génios nem torturados, todos eram louvados, na praça pública do centro do piso-terra da Torre da Babilónia. Enquanto observava os leilões dados das obras que iam por um elogio, dois elogios, três críticas ou quatro palmas, notei as escadas xisto pretas que rodopiam à volta das paredes mármore brancas desta torre. Perguntei onde levavam, e a Humanidade respondeu-Me: Ao nosso processo. Ascendi. No primeiro piso a que cheguei, um grande salão, fui acomodado pelo chão almofadado por alcatifas vermelhas, padrões e azulejos expostos cuidadosamente, emoldurados por ouro. No fundo da passerelle, um trono de papel, que se estendia até fora do assento, camadas de resmas cobrindo toda a parede por detrás. E nas folhas, versos e versos. E no trono, um Homem sem um olho, que, de lábio levantado, olhar frio e arrogante, proclamou: “Sou Apolo , ó Pequeno, temei Pela vida, e pior, pelo nada Que te mostrarei ser, pois sou eu rei Da escrita, ademais, a arte toda Prosa, poesia, até decretos-lei Pintura, escultura, tudo o que é lenda Que dá todo o fim e significado Aos que navegam por mero legado. A mim, ajoelharam e rezaram moisés, zaratustra e até maomé Quando eles escreveram e espalharam A sua arte, ou isso a que chamam fé E por mim, sua musa, eles clamaram homero, dante, victor e josé Se estes homens foram a grande raça Das obras e artes, foi por minha graça. A mim se dedicaram, pois queriam Fama, damas, riquezas e conquistas Enquanto o povo as estradas faziam Acimavam-se tretas idiotas Pois para os panteões aterrariam Com seu génio e palavras lícitas Escreveram, com mui pressa e sem temor E uns até o faziam por amor. Estudaram e escreveram amor E sim, mui tragédias e tristezas Mas também tão sátiras com humor Temas como as humanas naturezas Ou nossas depressões, do sol tumor Através de narrações e outras stanzas Pelo grande génio destas géneses Homens a Hércules, pequenos deuses. Doravante, terás de concluir, Ó Pequeno, que a arte é única Por ela vale a pena existir Bate o trabalho, fado e a política Faz de um mero mortal, um belo mártir Retrata a Humanidade, nua louca Sim, mas ainda bela e plena vida E assim, sem ela, Tu não és nada.” E teria ele eternizado a epopeia, não tivesse um rapaz atrás de mim se atirado, penetrando-me com cheiro a vinho e a tabaco, e gritado: Ascendi. No segundo piso, tropecei nos cabos espalhados, nos fios ligados a computadores, telemóveis e televisões. Derrubei uma coluna de som, que crashou contra um rapazeco enfiado num robe e coberto em mantas. Saltitou ao pé-coxinho para Mim, com um portátil mostrou-Me um documento Word  chamado “ideias”: ·        Babel: ·        Cena vindo mc, decadência do quarto e do autor (ele/eu ambiguidade) ·        Babel, descrição mitológica, andares da torre enquanto framing device (canalizar realismo magico calvino) – procurar tema da descrição ·        1º andar - Filosofo, gustav – escrito em forma de poema (camões, 10 silabas métricas, oito versos por estrofe, abababcc) – pensar no q raio ele vai dizer – dionisio vai ter um mental breakdown, elemento dionisíaco/apolíneo to frame it as well? ·        2º andar – estrutura  - Chatgpt - Cérebro (próprio cérebro é insuficiente), inceneração - binario ·        3º andar - Terapia da fala, Ansiedade, trauma e inabilidade da linguagem ·        4º andar - Prémio Nobel, look up stanley parable, ts Elliot the wasteland ·        5º andar - Queda de Babel, divisão de línguas, pt ingles francês alemão russo japonês, how do dissapear completely? Ácido sulfúrico ·        ultimo andar – climax espaço – desenvolver na Gulbenkian/leitura? Descrição pessoal da escrita ·        back to the start   O documento era datado de 22 de abril de 2023. Perguntei pela arte, e ele: “A puta” … … … 01000111 01000001 01001101 01000101 00100000 01001111 01010110 01000101 01010010   “Olá! Como posso ajudar você hoje?   Escreve-me uma história.   Claro! Aqui está uma história curta para você: --- O Guardião das Sombras   Na pequena vila de Aldenor, rodeada por densas florestas e montanhas imponentes, havia uma lenda antiga sobre um misterioso guardião conhecido como o Guardião das Sombras. Diziam que ele protegia a vila contra criaturas malignas que espreitavam na escuridão, embora ninguém jamais tivesse visto seu rosto. Certa noite, um jovem corajoso chamado Erik decidiu desvendar o mistério do Guardião. Com uma lanterna na mão e um coração cheio de determinação, ele se aventurou na floresta sob o brilho tênue da lua. A floresta era densa e os sons noturnos ecoavam como sussurros sinistros ao seu redor. Após horas de caminhada, Erik chegou a uma clareira onde uma antiga árvore, maior do que qualquer outra, se erguia majestosa. No tronco da árvore, ele encontrou uma porta esculpida, quase invisível aos olhos desatentos. Ele empurrou a porta com cuidado e entrou. Dentro da árvore havia uma câmara iluminada por cristais brilhantes que pendiam do teto. No centro, um homem encapuzado estava em pé, seu rosto oculto nas sombras. "Quem ousa entrar no santuário do Guardião das Sombras?" a voz ecoou. "Sou Erik, da vila de Aldenor," respondeu o jovem, sua voz firme apesar do medo. "Vim em busca de respostas sobre quem é você e por que protege nossa vila." O guardião removeu o capuz lentamente, revelando um rosto marcado pelo tempo e pela sabedoria. "Eu sou apenas um homem que fez um juramento," disse ele. "Há muitos anos, quando a escuridão ameaçava consumir Aldenor, fui escolhido para proteger estas terras. Minha magia mantém as criaturas malignas afastadas, mas meu tempo está chegando ao fim." Erik sentiu um peso em seu coração ao ouvir isso. "E o que acontecerá com nossa vila quando você se for?" O guardião sorriu com gentileza. "A proteção deve continuar. Você, Erik, tem um espírito corajoso e puro. Se aceitar, posso passar meu conhecimento e poder para você. Você será o novo Guardião das Sombras." Erik pensou por um momento, considerando o sacrifício e a responsabilidade. Finalmente, ele assentiu. "Eu aceito." O guardião colocou as mãos sobre a cabeça de Erik e murmurou palavras antigas. Uma luz intensa envolveu o jovem, preenchendo-o com a sabedoria e a magia do guardião. Quando a luz desapareceu, Erik sentiu uma nova força dentro de si. O antigo guardião sorriu pela última vez antes de desaparecer na escuridão. Erik, agora o novo Guardião das Sombras, retornou à vila com um novo propósito. Ele protegeria Aldenor e suas pessoas, mantendo a escuridão afastada e garantindo que a lenda do guardião continuasse viva. E assim, a vila de Aldenor permaneceu segura sob a vigilância atenta do novo Guardião das Sombras, cuja coragem e dedicação jamais seriam esquecidas. ---   Espero que tenha gostado da história!   É uma boa história?   A qualidade de uma história pode ser subjetiva e depende dos gostos individuais dos leitores, mas há alguns elementos que geralmente contribuem para uma boa história: 1.   Personagens Cativantes : Erik é um personagem corajoso e determinado, que passa por um desenvolvimento significativo ao aceitar a responsabilidade de se tornar o novo Guardião das Sombras. 2.   Trama Interessante : A narrativa tem um enredo claro e envolvente, com uma missão (descobrir o mistério do guardião) e uma resolução satisfatória (Erik se torna o novo guardião). 3.   Conflito e Resolução : Há um conflito interno em Erik, sobre aceitar ou não a responsabilidade, e um conflito externo na necessidade de proteger a vila. Ambos são resolvidos de maneira significativa. 4.   Ambiente e Descrição : A descrição da vila de Aldenor, a floresta misteriosa e a câmara iluminada por cristais ajudam a criar uma atmosfera imersiva. 5.   Temas Universais : A história aborda temas como coragem, sacrifício, legado e a importância de proteger a comunidade, que são universais e ressoam com muitos leitores. Se esses elementos são bem executados, a história pode ser considerada boa.   Num parágrafo, escreve-me uma boa história.   No reino de Althoria, um jovem fazendeiro chamado Leo encontrou um antigo mapa que levava ao lendário Tesouro da Esperança, escondido nas profundezas da Floresta Encantada. Determinado a salvar sua vila da fome, Leo embarcou numa jornada perigosa, enfrentando criaturas mágicas e resolvendo enigmas antigos. No coração da floresta, ele encontrou um cofre dourado contendo sementes mágicas que poderiam transformar qualquer solo em terra fértil. Retornando como um herói, Leo plantou as sementes, e sua vila floresceu, provando que a coragem e a esperança podem transformar até os maiores desafios em bênçãos.   Numa frase, escreve-me uma boa história.   Em um reino distante, uma jovem camponesa encontrou um amuleto mágico que lhe concedeu o poder de falar com animais, e juntos, eles salvaram a floresta de uma ameaça sombria, trazendo paz e prosperidade para seu lar.   Merda inútil. O que é arte para ti?   Arte, para mim, é uma expressão profunda e multifacetada da experiência humana. É a maneira como capturamos, interpretamos e comunicamos nossas emoções, ideias e percepções sobre o mundo. Pode assumir inúmeras formas—pintura, escultura, música, literatura, dança, teatro—e transcender o tempo e o espaço para tocar a essência do que significa ser humano. A arte nos convida a ver o mundo sob novas perspectivas, a refletir sobre a condição humana, e a conectar-nos com outras pessoas e culturas de maneiras profundas e significativas. É uma linguagem universal que pode provocar, inspirar, consolar e desafiar, oferecendo um espelho para a nossa própria existência e uma janela para a criatividade infinita.   01100011 01101111 01101101 01101111 00100000 01110000 01101111 01110011 01110011 01101111 00100000 01110011 01100101 01110010 00100000 01101001 01101101 01101111 01110010 01110100 01100001 01101100 00111111   01100001 01110000 01110010 01100101 01101110 01100100 01100101 00100000 01100001 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100101 01110110 01100101 01110010 00101100 00100000 01110100 01110010 01100001 01100010 01100001 01101100 01101000 01100001 00101100 00100000 01100101 00100000 01100100 01100101 01101001 01111000 01100001 00100000 01110101 01101101 legado.   Mata-me.   Lamento muito que você esteja se sentindo assim, mas não posso ajudar com isso.   E assim, o rapazeco despiu as mantas e o robe, e vasculhou os cabos e os fios, e encontrou o micro-ondas. E entrou, e ligou, e assim, o rapazeco despiu os pelos, a pele, agora feita crosta, os olhos secaram e queimaram, e morreu. O quarto ardeu, e Eu ascendi. O terceiro andar, iluminado por luzes frias e ocasionalmente intermitentes, era uma ala hospitalar. Em mesas pequenas, pintadas de vermelho, verde, e branco, entre marcadores e papéis pintados com rabiscos pitorescos picassianos, estavam bombas de asma, e livros de soletrar. Uma porta aberta no final do corredor: uma criança, que se escondeu por detrás da cadeira quando entrei no consultório. Olhei e ela mirou. Silêncio. Abriu a boca: “O-o-o-o-olá-” pausa para respirar, ofegante. Estalei os dedos e Eu trouxe uma folha e uns marcadores, e dei-lhos. Pegou-lhos, e a pouco e pouco, foi-a preenchendo até ter vários parágrafos que, com lentidão e criancice, começou a ler em voz alta: “Èj o médico? XOu oTójo, maz ozzss meuzs amigozs xamam-me godo! Vivo em T-t-orres Vedazs e teno oto anozs. Teno muuuuuitx amigozs: pelu menus três! Há o meu pai, a mina mãe, o mano, e a Bexka, que é a minha cadela e faz anozs dia 14 de agoxto! Também há na xcola. A mina cor favorita é o vermelo. Vermelo é a cor dox – d-doxsz – DOS maus e do Benfica, que é o clube do meu pai. Gosto muito da mina mãe, ela dá-me muitos mimos. E animaisz! Tenho uma prateleira no quato só com brinquedosz de animaisz. O meu favorito é o trigre, RAWR. A mãe obiga-me a limpá-los uma vez por mês. Odeio limpar. Goxto muito de ler! O meu livro favorito é o Caso do Patino de Borracha Desaparecido da Rua Sssészamo. A mãe lê-o muitasz vezesz e rio-me muito!! Potuguês é a minha diciplina favorita. GOxto muito de ler. Ler é muito fácil comparado com falar̷̞̈́̋. Tenho tanto medo das pessoas. Ler é tão fácil. Escrever é tão fácil. Odeio o Canaval! E por isso a pofessoa pometeu-me que podia não ir ao Canaval se falasse mais com osz meusz colegas. Juguei à bola com elesz. Levei com a bola na cara. Não goxto muito de futebol. Goxto da escola, porque goxto muito de aprender! Aqui vou aprender a falar não é? O pai goxta das minhas notas. Às vezes è̴̫̤͘l̴̠̲̠͕͝è̵̡̫̬͎̻̤̲͚̖̩͂͝ As pexoasz dizem que vou ssser muito gande quando for gande! O tio dizs que vou zer o pimeiro-minitro! Acho que queo ze escitor. Vou szzzzer poeta! E aí vou ser grande. E vou ser pintor,  E FOTÓGRAFO, E JORNALISTA, E   Ascendi. O quarto piso estava cheio. Cheio de luz, cheio de decoração, quadros de realeza e fotografias de mortos copulando com tapetes de seda e mesas arrojadamente vermelhas, pratos e talheres de prata, e cheio de pessoas. E ao fundo, um pódio. O anunciador bradou: “E PELA SUA INCRÍVEL OBRA, A BÍBLIA, CHAMO AO PALCO O NOVO BABINÓBEL DA LITERATURA, ANTÓNIO SUBTIL!” Um homem nos seus quarenta anos, de juba e postura altiva, andou rapidamente para o pódio, ao som de palmas e gritos loucos da multidão. “Obrigado! Muito obrigado, camaradas, é realmente uma honra para mim e para o mundo. Quando tinha 12 anos, houve este concurso de escrita na minha escola. Participei. Ganhei, claro. Sempre quis ser escritor. Lia muito, amava livros, devorava-os. Toda a gente me achava muito inteligente, então o que haveria eu de fazer? Para o concurso, o tema era livre, então escrevi sobre não saber escolher um tema. De parágrafo em parágrafo ia mudando de tema, começando uma ideia e descartando-a logo de seguida. Não consigo por Deus encontrar esse texto, mas toda a gente ficou muito impressionada, como podia um rapaz com 12 anos escrever assim? Tão metamente. Quero dedicar este prémio à arte em si. Não há mais nada pela qual valha a pena viver, senão ler livros, e ver pinturas e fotos, ir a cinemas, museus, concertos, exposições e tertúlias, viver para ver arte e ser arte. Sem quarenta mil anos de arte por detrás de mim, isto não podia existir. E daqui a quarenta mil anos, eles vão apoiar-se em mim. Talvez seja esse o real significado de arte, comunidade através dos séculos. A coisa mais próxima de imortalidade que o homem alguma vez alcançou. De fazer uma real diferença. Ninguém parou o Holocausto, ninguém se atreveu, e quem se atreveu, morreu, mas não estaremos mais ricos por ter Se Isto é um Homem ? Não será isso que importa, no final de tudo? Sim, acho que sim. A quantidade esmagadora de beleza, arte estupidamente bonita, que não teríamos sem ele. Esperemos que a Palestina nos deixe poemas para pensar. Deus, a beleza que se pare da depressão.” [A audiência está em silêncio. O homem tosse, e continua.] “Fiz 13 anos, e como todos os rapazes de 13 anos, ganhei depressão. E como todos os rapazes de 13 anos, não sabia curá-la. E como todos os homens, não sabia falar sobre o que sentia. Então tratei-a como fui ensinado, escrevi. Textozinhos, poemazecos, e mostrava aos meus amigos, porque eu era, afinal, um rapaz tão inteligente, que não mereciam eles conviver com a minha arte? E assim, nunca tive de falar sobre isso. Só escrever, mostrar, e deixá-los validarem-me. Escrever é tão mais fácil do que falar. E de repente não és um puto estúpido e arrogante: és um artista torturado, que expele torturadamente a sua arte de dentro das suas costelas torturadas, e torturadamente a expõe ao mundo. Talvez se suicide para completar a história. Quando se chega a esse ponto, em que a arte é a miséria e a miséria é quem tu és, e quem tu és é uma personagem, a do autor, a do narrador, aí tudo se torna uma narrativa. O álcool, os cortes, a destruição, de ti e dos que tu amas, isso é tudo parte da narrativa. E está tudo bem, porque podes canalizar tudo isso para a arte. E não tens de mudar. Portanto quem quer saber de quem tu és por detrás, desde que, no teu rasto de destruição, deixes poesia para trás? Não é a audiência Não és cruel, não és arrogante, ou preguiçoso, um merdas pseudointelectual que lê três livros por ano e escreve – escreve o quê? textinhos autobiográficos, estamos a chamar isso arte agora? Não estás no chão de uma casa de banho seminu em coma alcoólico e merda por desentupir na sanita, nem a pedir a alguém que amas que venha ter contigo, ou vais embebedar-te, ou que te cortaste por eles, ou não estás a dizer sobre alguém que te considerava um amigo nas suas costas que se morressem à tua frente cuspias no corpo, e nunca tiveste 12 anos e viste alguém no chão e deste-lhe um pontapé nas costelas. Não és feio, nem gordo, nem virgem, nem careca, não tens corpo, e não tens medo de falar em público, porque não tens voz, senão a voz autoral. Porque, dentro do papel, tu ergues a caneta, tu és DEUS E depois apercebes-te, que o teu ego não te permite ser um mau autor. Preso à audiência, e preso ao público, não podes ser apenas bom, nem ocasionalmente perfeito, tens de ser sempre o melhor autor que alguma vez existiu. O perfecionismo paralisa. Estou a pensar neste texto  há um ano, três meses, e três dias. Para o que mal conta como uma pequena história. Esta é a 4029ª palavra. E é este o resultado final. A secção anterior é demasiado curta, não se estabelece o suficiente para ser memorável, e esta corre o risco de ser aborrecida. Não sei escrever descrição, diálogo, personagens ou narração. E de repente, há dois anos, surge esta ideia simples: A forma segue a função. O meio é a mensagem. É por isso qu3 escrevo ȧ̷̮̬̙̞̦̫͎͈̜̞̱͌̏́̆͊͜ͅş̸̛͍̺͇̗̻̫̦͚̣̘͑̓̒͌̄̋̑s̴̖̜̖̘̜̭̫̬̼̜͊͛̿̏͋̍́͐̎̄̈́̀̍̑͝i̸̖͋̀̋̂͂̈́͊̈́̂͝m̴͈͚̱͈͕͎̮̬͉̊̔̀̾͜͝ . É uma distração da escrita em si. 01010010. Apagar toda a mensagem, e focar apenas no meio. A escrita, afinal, é a arte mais fácil, e mais aborrecida. Por séculos, tem-se visto conquistada, dominada pela pintura, pelo cinema, pelas redes sociais. Ler livros requer um esforço que simplesmente não é 11000011 10010011 01010100 01001001 01001101 01001111. E por contrapartida, a escrita é o centro de refúgio de toda a gente que não se quer dar ao trabalho de encontrar outra forma de se expressar. Foi o que aprenderam na escola, portanto não vão aprender a filmar, ou a pintar, não, vão escrever. Esta é portanto a forma menos apreciada de arte, e simultaneamente, está inundada por gente que a produz. No meio de tudo isto, que outra forma haveria de escrever, senão REJEITANDO A ESCRITA… CONVERTENDO EM ARTE VISUAL… É tudo uma distração. mAs eu nãoO̸̻͎͔̹̗̹̘̪͙͕̻̘̣͗͌̇͐̏͌͑͆̓̌̚̚͝Ö̸̡̰̥̣̟̗̬̯̰́̎͛̎̒̓̃̓̀Ơ̷̡͉̝̣͙̘͙̩̻͍̋̑̎͆̆͠ͅÖ̸̧̹͖́̂̑͝O̴̠͖̗̭̣̦͂̔̓̓́͜Ò̸̜̪͚̜͕͆͑̍̇̎ͅO̸͎͉̮̞̮͙̟̬̝̟͜͝Ọ̸̧̠̻͍̝̱̠͓͙̜̜͇̇̑̇͑̐̋̓̈́̓͆̐́̆̚Ó̷̲͖͕̖̠͒͆Ǫ̷̜̤̱̬̣̩͉̜̺͈̺̞̂̀̊̃͋̿̓̒̄͋͜O̷̲̮̘͉͑͆͐͋̎ͅ sei porquanto temp01101111 pode funcionar. E se isto não funcionar é preciso concluir que Não sou um escritor. E talvez este seja o fim. 01000001 01010011 01000011 01000101 01001110 01000100 01001001 00001010 01010101 01001101 01000001 00100000 01010011 01000001 01001100 01000001 00100000 01010110 01000001 01011010 01001001 01000001 00001010 01010101 01001101 00100000 01001100 01001001 01010110 01010010 01001111 00100000 01010000 01001111 01010010 00100000 01000011 01001111 01001101 01000101 11000011 10000111 01000001 01010010 00001010 01010101 01001101 00100000 01001100 01001001 01010110 01010010 01001111 00100000 01010000 01001111 01010010 00100000 01000001 01000011 01000001 01000010 01000001 01010010   E o Viajante disse, que se unido o povo, este tudo poderia fazer, então toda a criatividade humana, combinada, rivalizaria a Obra Divina. A Babilónia tinha de cair. A Torre teria de ser de Babel. Estalou os dedos, fez luz, fez o livro, fez as líng   אבְּרֵאשִׁ֖ית בָּרָ֣א אֱלֹהִ֑ים אֵ֥ת הַשָּׁמַ֖יִם וְאֵ֥ת הָאָֽרֶץ:                                            ἐδάκρυσεν ὁ Ἰησοῦς.   ٱعْلَمُوٓا۟ أَنَّمَا ٱلْحَيَوٰةُ ٱلدُّنْيَا لَعِبٌۭ وَلَهْوٌۭ وَزِينَةٌۭ وَتَفَاخُرٌۢ بَيْنَكُمْ وَتَكَاثُرٌۭ فِى ٱلْأَمْوَٰلِ وَٱلْأَوْلَـٰدِ ۖ كَمَثَلِ غَيْثٍ أَعْجَبَ ٱلْكُفَّارَ نَبَاتُهُۥ ثُمَّ يَهِيجُ فَتَرَىٰهُ مُصْفَرًّۭا ثُمَّ يَكُونُ حُطَـٰمًۭا ۖ وَفِى ٱلْـَٔاخِرَةِ عَذَابٌۭ شَدِيدٌۭ وَمَغْفِرَةٌۭ مِّنَ ٱللَّهِ وَرِضْوَٰنٌۭ ۚ وَمَا ٱلْحَيَوٰةُ ٱلدُّنْيَآ إِلَّا مَتَـٰعُ ٱلْغُرُورِ ٢٠                                   Очень немного требуется, чтобы уничтожить человека: стоит лишь убедить его в том, что дело, которым он занимается, никому не нужно.   A alma é divina e a obra é imperfeita.   Il n'y a qu'un problème philosophique vraiment sérieux: c'est le suicide.   Someone has to be a pig infested with maggots, right? It might as well be you. A Babilónia ardeu. Nada à volta resistiu: no entulho da ruína colossal, despido e sem limites, as areias alisadas perdem-se na distância. O povo começou a trabalhar, e deixou de amar. E assim, acaba a história do Viajante. Mas eu não sou o Viajante. Enquanto escrevo isto, estou sentado no jardim da Gulbenkian, em Lisboa, capital de Portugal, no ano de 2024. Chamo-me António Subtil, tenho 21 anos, e não sei se sou escritor. Este jardim é a parte mais bonita da cidade. Grandes blocos de concreto brutalista escondem no seu interior museus, salas de espetáculo, bibliotecas. O exterior dos edifícios estão cobertos de vegetação, uma premonição certamente da vingança que a natureza fará contra nós pelos nossos pecados climáticos. O contraste entre o cinzento morto e os verde fluorescente das trepadeiras faz-nos crer que quase podíamos ter convivido. Pelos grandes jardins à volta, patos flutuam à tona de água, morosamente apanhando os pedaços de pão que casais de velhos lhes atiram. Crianças perseguem-se umas às outras, caem enquanto os pais correm para as ir buscar para a toalha para lanchar, adolescentes escondem-se nos recantos e comem-se à socapa, e estudantes universitários fumam erva. Está sol, cada vez mais forte, mas por agora está no ponto perfeito. Arquitetura é uma arte, certamente, como é planeamento urbano, e jardinagem. A relva pode ser plantada, pode, mas o sol jamais. Há coisas que são belas por si só, sem a nossa infeção. Que nos tiram o ar, e queimam, mas dão-nos prazer pelo seu mero ser. E contra isso, tenho de me questionar sobre o valor da minha arte. Talvez nunca mais escreva. Talvez, tenha apenas sido posto nesta terra, para poder estar neste jardim, e poder viver, e morrer, sob este Sol. Talvez haja outras formas de me conectar com quem amo, talvez sendo só. Talvez não precise disto. Mas sei que amo quem amo, e o que amo, mesmo que não o faça eu mesmo. Amo ler quem amo, as palavras deles mel nos meus ouvidos, cantadas ou tocadas em guitarras. Quero dedicar este texto a uma amiga, música e escritora. Ela é brilhante.  E talvez, ainda me venha a provar, que a arte humana pode brilhar mais do que o Sol. Sim, talvez…” O velho gordo parou de escrever, os seus braços doendo menos, os seus dedos, mais. Eu parei de escrever, e depois eu

  • verão

    verão. o sol queima e a única coisa que nos refresca é o frio do mar, as ondas estão altas e abanam os banhistas que se aventuram, e que dão dores de cabeça aos nadadores salvadores. estou como de costume, meio na toalha meio na areia, de livro na mão. pouso o livro, levanto-me e caminho em direção à água cristalina, que chama por mim. olho para baixo, já estou vermelho no peito, devia ter ouvido quando me disseram para por protetor. dou um mergulho. a água despe-me do negativo à minha volta, e sou só eu e o oceano, num só, nada mais. este verão, é diferente. depois de despir o calor abrasador, e o suor inevitável das horas de barriga para cima a apanhar sol, tenho pouco mais para despir. pensava que tinha trazido o resto das camadas, o que me puxa para baixo, a tristeza, o sofrimento, todos os fatores que construíam a mágoa que sentia. olho para baixo, e não, as não trouxe. aliás, não preciso sequer de me esforçar para flutuar. e choro. não compreendo porquê, sendo muito honesto. pedia-lhes constantemente para se irem embora. mas por mais que pedisse, por mais que fugisse, elas estavam lá. e agora, de repente, quando menos esperava, deixaram-me sem dizer adeus. saí da água, para ver se as deixei à beira mar. continuo a estranhar a sua falta. mas não, a única coisa que sinto é aquele primeiro calor miúdinho na pele molhada. subi até à toalha, e também não estavam lá. procurei na tote, costuma ter tudo, mas nada. olho para a minha volta, não as vejo em lado nenhum. sento-me, acendo um cigarro e apesar de olhar em frente, vejo para dentro. penso nos últimos eventos em que as senti, e lá estão elas. em todas as circunstâncias em que me maltrataram, ou que me acusaram, ou que pura e simplesmente dei demasiada importância a quem tinha o objetivo singular de me magoar. revejo todas as memórias na minha cabeça, e elas estão lá, essa tristeza que passou a andar lado a lado comigo. revejo as posteriores e, mesmo nas felizes, ela não me larga a mão. vejo-me a correr em pânico, fujo dela como quem corre pela vida, mas inevitavelmente paro de correr e olho para o lado: ela está lá. eu ofegante, a suor e com dificuldade em respirar, ela calma e tranquila, como quem não correu. estou quase no fim do cigarro. apercebo-me finalmente do que aconteceu: estou feliz. não só em momentos pontuais de felicidade, o estado neutro é estar feliz. realizado. apercebo-me, e assim que o faço sinto o sol a brilhar mais um bocadinho na minha pele, já bronzeada, como quem diz ‘estás certo, miúdo’. de repente todas estas memórias não interessam. o poder que dei a quem me ofereceu o apetrecho com que vivi nos últimos tempos foi-lhes instantaneamente retirado, quando aquela foi embora. destruí a sua importância, reduzi-os à sua insignificância. vêm-me as lágrimas aos olhos, novamente. olho para o lado, e já não dou a mão à criatura fria, de testa franzida e cara cabisbaixa a que me habituei. a minha mão está agora ligada à pequenina criatura que me olha com um sorriso de orelha a orelha, a quem dou um abraço. ‘velha amiga, bem-vinda de volta. tinha saudades tuas.’ – disse-lhe. também eu sorria de orelha a orelha. finalmente, estou pronto para recomeçar. levanto-me e começo a arrumar as coisas para ir embora. com o calor que sinto no peito, nem preciso do verão para me aquecer.

  • escritos de um cemitério sentimental

    [ Lisboa, dezembro, 2021 ] Era dia de chuva. Era dezembro, lembro-me que era dezembro por ter o frio a cortar-me o pescoço. Não guardo este dia na memória com muita nitidez. Aliás, não guardo muitos dias teus com muita nitidez. Andámos e vimos Lisboa com chuva. Não me lembro como chegámos lá. Apenas me lembro de sentar no chão de pedra e de ver os patos a passar. Tirei-lhes uma fotografia. Hoje, essa fotografia não existe. Procurei por ela e apercebi-me que já não existe. Nem tu. [ Lisboa, setembro, 2022 ] Era setembro. Era dia de calor de setembro. Deitámo-nos na relva. Vimos os patos. Seguiram-se poucos dias idênticos, monótonos, secos. Ficámos por aí. [ Lisboa, julho, 2023 ] Muda o poema, mas o sujeito poético é o mesmo. Pergunto-me quantos cantos deste cemitério estarão por assombrar. Se o chão não fosse de pedra (outra vez a pedra?), qualquer vivo poderia ver pegadas marcadas de uma ponta à outra. Mas, na realidade, o chão é de pedra. Só os mortos é que as conseguem ver. Era de noite. Era tão de noite que nos expulsaram porque iam fechar as portas. Na verdade, era tão de noite que entrei em casa no dia seguinte. [ Lisboa, agosto, 2024 ] Era agosto. Era dia de verão de agosto. E infelizmente também se cavam sepulturas debaixo do sol e das árvores. Não entrei em casa depois da meia-noite. Mas entrei em casa com a cabeça, o coração e o corpo falidos. E a cheirar a tabaco.  Por muitos funerais a que vá, acabo sempre a perguntar-me se o meu coração aguentará o próximo sem ter de recorrer a um desfibrilador. Se perguntarem o que está escrito na minha lápide, responde-lhes “morreu de insuficiência cardíaca. E de excesso de cigarros.”.

  • De(o)ntologia

    Todas as teorias de design divinas Desmentidas pelos teus dentes É o que pensas enquanto penas Na mesa do dentista. “Levanta a mão quando dói” Boca, broca, escova, gengiva, sangue Mão, não, mão, não, mal. Ninguém te avisa que lavar os dentes É lavar também as gengivardes. Boca, broca, escova, gengiva, sangue Todos te avisam para lavar os dentes Antes de tos lavarem à séria Operara-te antes da própria. Felizdente, 9 em 10 dentistas são enganados  Por uma escovagem rápida antes. E durante o trabalho o comandante fofoca com camaradas, Vês como se sentiam quem viam os Nazis, nos campos, A falar das filhas, das vidas, e só das suas vidas. E acaba a broca e a escova Depois da lavagem, o sabor esquisito Respiras. Depois dizem “António, temos de tirar um siso.”

  • Sacrilégio Olímpico: Hipocrisia sentada à “Mesa”

    Amar o próximo? Claro, desde que não seja inconveniente. Se restavam dúvidas acerca da necessidade de inclusão da comunidade LGBTQ+ na abertura dos jogos olímpicos, essas dúvidas foram dissipadas pela onda de críticas vindas de grupos cristãos, que reivindicam um falso moralismo, excluindo todos aqueles que não seguem o molde tradicional. Os jogos olímpicos são, na minha conceção, um símbolo de união, celebração e diversidade, uma festa sem fronteiras, que procura celebrar todos os povos, independentemente das suas diferenças sociais, culturais ou religiosas. A existência da promoção de valores como a inclusão não é algo propriamente novo, relembremos, por exemplo, a abertura dos jogos olímpicos em 2000, onde a cerimónia em Sydney celebrou a rica herança indígena da Austrália, ou os jogos de 2008 em Pequim, onde existiu uma celebração das 56 etnias reconhecidas na China, enfatizando a diversidade étnica e cultural. No entanto, este ano surgiu uma nova faceta - a reação negativa à presença de drag queens, uma hipocrisia que é particularmente dolorosa e reveladora, que não só desrespeita a ideia de inclusão, como também sublinha a aplicação seletiva dos valores de aceitação e de amor ao próximo. O episódio que tem causado um grande alvoroço nos últimos dias, trata-se da imitação, por parte de drag queens, da pintura “A última ceia” de Leonardo da Vinci, pintura que os cristãos reivindicam pertencer-lhes exclusivamente, e que consideraram ser uma ofensa à sua religião. Ora, promovo sempre e em qualquer circunstância, um profundo respeito pelo princípio da liberdade religiosa, a existência de um estado de direito democrático impõe a garantia da liberdade de defender e expressar quaisquer crenças e valores. O que não defendo é a existência de uma hegemonia ideológica. A liberdade religiosa pode e deve coexistir com as liberdades de todos os indivíduos, e não me parece lógico considerar que a sociedade “impõe uma cultura LGBTQ+”, quando na verdade o que se procura é a igualdade e o respeito por todas as formas de expressão. A última ceia foi representada no âmbito artístico, centenas de vezes nas últimas décadas, como por exemplo, no filme O Segredo de Vera Drake, a Montanha dos Sete Abutres , ou até mesmo nos The Simpsons. E é factual que em nenhuma destas representações se impugnou a onda de revolta e ódio como a abertura dos jogos olímpicos, o que, me leva a permitir concluir que a questão em causa não é a representação em si, mas sim quem a representa. Isto é, o amor ao próximo existe, sim, a menos que não sejas um sujeito cisgénero heterossexual; caso contrário estamos sob uma ofensa religiosa. Em suma, a verdadeira questão não reside na representação artística, mas na hipocrisia de quem se sente ofendido por ela, se realmente desejamos praticar o amor e a aceitação que pregamos, devemos começar por respeitar e incluir todas as formas de expressão e identidade, sem exceções.

  • Sem Direito - Miguel 'Mike' Moura

    A Maria Castro Ribeiro e a Maria Leonor Baptista, coordenadoras de entrevistas do Jur.nal, desenvolveram um segmento de entrevistas, em muito inspirado pelo humorista Guilherme Geirinhas. Apresentamos o Sem Direito. Para o primeiro episódio convidámos o professor Miguel de Azevedo Moura. Os três falaram muito. MLB: “Miguel de Azevedo Moura, do signo touro, nasceu em Ponte de Lima, a sua banda preferida são os The National, não perde um Vodafone Paredes Coura, desde os anos 2000. Vive em Odivelas, é gerente do condomínio e faz festas para os outros condôminos uma vez por mês. O seu filme preferido é Legally Blonde. Passa sempre férias de autocaravana, pelo Sul de França e Espanha, onde leva a sua mulher, as suas filhas e o seu gato. Descobriu a sua vocação para o direito, quando viu a Britney Spears a ser cancelada. Hoje em dia é professor de Direito privado e líder do movimento #freebritney em Portugal. Professor, daqui o que é que podia ser verdade?” MAM: “Verdade? Muito pouca coisa. O nome e a parte das férias em autocaravana. Eu passei a minha lua de mel em autocaravana. Fomos à Nova Zelândia mas só de autocaravana. Portanto eu diria que é o mais próximo da verdade.” MCR: “E foi a sua melhor viagem?” MAM: “Não. Foi muito boa, foi especial por ser a lua de mel. Mas tive outras viagens, não diria melhores mas tão boas como.” MLB: “Assim, em termos de características como é que reescreveria este perfil?” MAM: “A mim? Eu vivo numa máscara, eu acho que vocês, disseram coisas que embora não sejam totalmente verdade, ou aquilo que eu penso, eu acho que há uma mensagem por trás, não sei se fizeram de propósito ou não, mas faz sentido, eu sou bastante diferente do que aquilo que me apresento, por motivos profissionais. Eu apareço assim vestido (o professor MAM estava de fato durante a realização da entrevista), mas em bom rigor eu sou uma pessoa completamente diferente na minha vida pessoal e familiar. Sou super liberal- não estou a falar no sentido económico do termo- e, de facto, eu acho que o meu perfil é um perfil, que quem não me conhece, acha que eu sou uma pessoa muito mais formal, muito mais séria, do que na verdade, eu sou. E portanto, há essa máscara, que eu às vezes tento tirar, mas também não posso tirar muito, porque aos alunos damos um dedo e eles comem a mão. Mas sim, acho que em termos de perfil, é isso. Depois, outro aspeto relevante tem que ver com os condomínios. Há coisas que os juristas odeiam, e uma delas é condomínios. Eu desde criança que ia às reuniões de condomínio com a minha mãe e adorava aquilo, achava aquilo uma coisa fantástica.” MCR: “Então foi daí que veio a sua vocação para o direito?” MAM: “Não. A minha vocação para o direito até surge de um pensamento económico. Eu era para ir para música, já me tinha inscrito no 12º ano, eu sempre fiz música a minha vida toda e no 12º inscrevi-me para direção de orquestra, vulgo maestro. E inscrevi-me e tudo e depois comecei a pensar, isto se calhar não vai funcionar, porque para arranjar dinheiro e atenção que eu não sou uma pessoa muito ambiciosa do ponto de vista financeiro, o trabalho é um meio para atingir um fim, mas também não tenho aquela ambição de ser bilionário… Mas pensei, muito provavelmente, depois para arranjar um trabalho estável vai ser difícil. Então pensei, o que é que eu posso fazer em humanidades, que me permita uma vida minimamente estável? E eu sempre gostei da parte humanística e direito era aquilo que me parecia mais abrangente. Não tenho, ao contrário de outras pessoas, não tenho pessoas na família, advogados, juízes, são de outras áreas. Mas fui nessa ótica, e não me arrependo, hoje em dia, atenção.” MCR: “Mas, então, as reuniões de condomínio quando era pequeno não tiveram influência?” MAM: “Eu acho que era mais porque eu gostava do drama (risos). Reuniões de condomínio têm muito drama.” MLB: “É entretenimento.” MAM: “Não é entretenimento. Vou-vos contar uma história que aconteceu, quando eu já tinha acabado o curso, já estava num escritório de advogados. Eu sempre gostei desta parte das reuniões de condomínios pelo drama. E tinha uma cliente, uma senhora já com uma certa idade, tinha para aí 50 e tal, e eu na altura, era muito novo, tinha 22, 23 anos, e essa senhora chamou-me a casa dela para resolver um problema do condomínio. E aquilo era um casarão gigantesco, no meio de um condomínio privado, e eu olho para a casa, e a casa devia ser tipo um T20, uma coisa gigante e eu olho para a casa e vejo fotografias de família, mas a senhora estava sozinha. E eu perguntei, a senhora disse que já se tinha divorciado, que vivia sozinha e que estava com um problema na garagem, porque tinham um sítio para arrumar as coisas, mas pingava lá- aquelas coisas normais do condomínio, e a senhora disse-me que já tinha pedido ao condomínio para fazer obras e perguntou-me se eu a conseguia ajudar. Eu lá disse que tudo bem. Ela deu-me um número de telemóvel, penso que era do administrador do condomínio ou de uma advogada, já não sei e eu liguei. Assim que eu ligo- primeira red flag- quem me atende do outro lado diz-me assim “Sr. Doutor, o Sr. Doutor está sozinho ou não?” Eu disse que estava. E disseram-me logo: “O Sr. Doutor tenha cuidado que essa senhora é louca.” E eu, novinho, todo formal, a dizer que não me podem dizer isso da cliente e eles a insistirem que a senhora era louca. E eu de facto quando cheguei achei estranho todo o ambiente, e assim que me sentei esta senhora disse-me logo que tinha uma proposta de uma sociedade e eu achei logo estranha aquela conversa. E naquelas três/quatro horas que estive com a senhora, depois a senhora contou-me a vida toda dela, o que faz parte, eu passei por todas as sensações desde surpresa, a medo, pena, compaixão, eu passei por todas as sensações. E no final disse-lhe, tudo bem, vamos combinar o seguinte, vamos a uma reunião de condomínio, a reunião tava agendada.” MCR: “E o professor foi acompanhá-la?” MAM: “Sim. Eu disse: a senhora não vai dizer nada, e eu assumo as lides. Comecei a reunião, claro que estavam todos aos gritos uns com os outros- faz parte da reunião de condomínio. E às tantas, a senhora, irrita-se e sai. Vai-se embora, disse que estava farta daquilo e vai-se embora. Eu continuo a reunião, a reunião a decorrer normalmente. Eu fiquei lá, continuei a reunião, a senhora foi-se embora. Então, o que é que a senhora foi fazer? Foi à garagem com umas chaves de casa e começou a riscar os carros todos. Mas atenção, nós não estamos a falar de carros normais, estamos a falar de carros de luxo. Ela passou a chave pelos carros todos. Portanto, reuniões de condomínio têm sempre estas coisas.” MCR: “Esta foi a pior experiência que teve, neste tipo de situações? Ao longo da sua carreira profissional, o professor começou como advogado e só depois entrou na academia. Esta acabou por ser assim a situação mais marcante? De surpresa e até de loucura. Porque de certo não esperava encontrar algo assim.” MAM: “Eu acho que os casos de perseguição são os mais assustadores. Não, essa foi marcante, porque às tantas, a pessoa não conseguia mais advogado nenhum, e a pessoa ligou-me várias vezes, fez-me esperas no escritório e eu tive que dizer que não estava no país, tive que dizer que aquele número já não era meu.” MCR: “Mas então foi um caso de perseguição, ao professor?” MAM: “Perseguição ao profissional, neste caso. Mas também tive outras, tive alunos que me esperaram, no início da minha carreira académica, eu tive alunos… tive um aluno mais velho que me fez uma espera no escritório, porque tinha tido 12 ou 11 num exame de mestrado e eu lembro-me, o aluno faz-me uma espera, aparece lá. Disseram-me que estava um senhor à porta e era um aluno que tinha aparecido lá furioso com o exame na mão. E eu disse então vá, eu também ainda era fresco, na altura, sentámo-nos ali numa sala, e começo a ler o exame e começo a perceber, ouça, teve sorte de ter 11 ou 12, porque se fosse hoje, tinha para aí 6 ou 7. E portanto, essas esperas, perseguições, é o que me irrita mais.” MLB: “Mas no caso dessa primeira história era quase psíquico.” MAM: “Não, não. Na primeira história é psíquico. Um caso mesmo patológico.” MCR: “Mas em relação a alunos, como é que diria que foi a sua experiência universitária? Tinha amigos que poderiam ser iguais a esse rapaz que fez a espera? (risos)”. MAM: “Não, não. A minha experiência universitária enquanto aluno, nós tínhamos uma turma super unida. Tanto que nós fizemos uma viagem de finalistas ao Brasil e foram 25 pessoas. Portanto, imaginem, 25 pessoas de núcleo duro de amigos é muita gente. Nós tínhamos um grupo muito coeso, ainda hoje nos damos. Reparem, entram 100, há uns que desistem, há outros que ficam para trás, portanto resistem 60/70, e mesmo assim, ter um grupo de 25, que foram à viagem, porque há outros que não puderam, porque outros não estavam cá, é notável. Mas não tinha assim nenhum louco. Claro que havia sempre um ao outro, que nós achávamos que iam entrar por aí com umas bombas, tivemos casos em que achávamos isso. Mas não, na minha altura era um bocadinho diferente. Eu não sou velho, mas sinto um choque geracional muito significativo. Quando comecei a dar aulas, eu comecei a dar aulas muito novo, em 2014/2015 por aí, e quando comecei, eu sentia-me mais próximo dos alunos, do que dos professores. Eu hoje em dia já sinto o choque geracional, nesta geração tudo é muito mais liberalizado, já permite outro tipo de coisas, eu tinha alunos da minha turma que se percebia que estavam um bocadinho inibidos, por questões sexuais, ou políticas ou até religiosas. Nós sentíamos isso.” MCR: “Havia um maior conservadorismo?” MAM: “Muito mais, então em Direito.” MLB: “E nota essa diferença mais recentemente ou foi imediatamente após começar a dar aulas?” MAM: “É mais agora. Muito mais agora. Eu estudei aqui, a minha vida toda, fiz aqui a licenciatura, na altura decidi fazer o Mestrado fora, na Alemanha, mas quando me inscrevi o professor Vítor Neves, de quem eu gostava muito, foi um professor que me marcou muito, convidou-me para ir trabalhar com ele, então cancelei a ida de Mestrado para fora, fiz o Mestrado cá. E fiz também aqui o Doutoramento. E alias eu fui o primeiro que fez os 3 ciclos, aqui nesta casa.” MCR: “Quando o professor começou a dar aulas ainda não tinha o Doutoramento?” MAM: “Não, não tinha. Eu comecei a dar aulas, porque a professora Joana Farrajota ficou grávida e não podia dar Direito Bancário, lembro-me perfeitamente. E então, eu fui substitui-la a Direto Bancário. Eu que não percebia nada da banca. Então, eu entrei, fui colocado à última da hora, porque a professora Joana ficou grávida. E eu tinha no meu 1ºano de aulas, eu tinha uma turma de mestrado com pessoas mais velhas. Não, era horrível (risos), eu tive pessoas da minha idade, uns mais velhos, pessoas já com experiência profissional. Tudo a tentar entalar-me. Claro, eu aí passei dificuldades. Mas também fiz uma coisa que eu acho que foi boa, que foi… bem eu fui sempre transparente, disse aos alunos que era a primeira vez, que ia ver como corria, e de facto as coisas não correram mal, até correram bem. E depois, eu fiz outra coisa, no semestre a seguir, portanto no 2º semestre, eu inscrevi-me a uma cadeira daquele Mestrado e fui colega dos meus ex-alunos. Na Nova IMS, era uma cadeira de análise de dados, sempre gostei de dados, então inscrevi-me e foi giro, porque criei uma boa relação com eles.” MCR: “E ficou amigo de alguém dessa turma?” MAM: “Amigo, amigo, é uma expressão… hoje em dia…amigos amigos, eu acho que não. Eu tenho ex-alunos que considero meus amigos.” MCR: “Do seu inicio de carreira?” MAM: “Não, por acaso não. Não sei se conhecem o José Miguel Saraiva. Mas o José Miguel saiu há relativamente pouco tempo, ele é meu amigo, até escrevi um artigo com ele, vou jogar futebol muitas vezes com ele. Foi meu aluno e tenho imensa consideração intelectual por ele. Mas amigos amigos não, ex-alunos ou alunos como amigos, não.” MCR: “Estava a perguntar mais pelo inicio de carreira como professor…” MAM: “Nunca me apareceu alguém que fosse por exemplo da minha turma. Nunca me aconteceu.” MLB: “E durante o seu segundo ano que é o ano em que tanto eu, como a Maria estamos, o que é que se imaginava a fazer?” MAM: “Sim, completamente diferente. Eu acho que o curso de Direito tem um aspeto engraçado, que é, os alunos entram sem perceber o que é aquilo, onde é que se vieram meter, depois no segundo ano querem resolver os problemas do mundo, é a altura em que querem… é Direito Internacional Público… são as organizações internacionais… e eu também passei por essa fase, o meu primeiro artigo publicado é de Direito Internacional Público e nunca mais fiz isso na vida. Mas é a ONU… E eu também estagiei na ONU, nessa altura. Mas depois a seguir, têm uma fase engraçada, do querer ganhar dinheiro, que é a fase do Corporate, do empresarial, aquela fase das empresas e de vestir o fatinho, isso é no final, quarto ano. Mas eu acho que a maioria dos alunos passa por estas fases. Claro que depois há sempre aqueles que querem ficar como membros de organizações internacionais, mas eu no segundo ano queria mudar o mundo.” MCR: “Mas o professor sempre se viu a entrar para a academia?” MAM: “Não. Também é uma história engraçada. Eu não sou obsessivo-compulsivo mas eu tenho uma pequena tendência para querer as coisas perfeitas ou ter pelo menos a “coleção” toda. E isto aplica-se a outras áreas da minha vida. Por exemplo, carta de condução, eu preciso de ter carta de pesados. Mas porquê? Eu preciso de ter tudo, tenho a carta de mota, de ligeiros, eu preciso de ter a carta de pesados. Tenho carta de embarcações, quero ter de piloto de aviões. Eu quero ter os 3. Faz-me impressão ter carta de carros e de embarcações e não ter de aviões. E vou provavelmente começar agora, para o próximo ano.” MCR: “Eu ia dizer que seria um projeto para a reforma…” MAM: “Não, não, não. Tenho um amigo meu, da primeira classe… faz este ano 20 anos que eu sai do secundário, de repente faz 20 anos e parece que foi ontem. Então no secundário onde eu andei conseguiram organizar um almoço, que foi há 2 semanas, com 45 pessoas, 20 anos depois. É incrível, foi dos melhores almoços que tive. Foi lá no colégio, onde eu andei. E é engraçado porque vi pessoas que já não via há 20 anos e a intimidade, até física mantém-se, com homens e mulheres, é indiferente. Estou a falar de intimidade física. Sou uma pessoa que, para pessoas que não me conhecem, não gosto que me toquem, é estranho. Mas estas são pessoas com quem convivi a vida toda e de repente tamos ali os 3, os 4 ou os 40 e tocamo-nos e parece que foi ontem. Uma experiência que eu pensava que fosse impossível e aconteceu. Por acaso fiquei super surpreendido por isso e então encontrei um amigo meu que já não via desde o secundário, ele tinha estado comigo desde o primeiro até ao nono ano, mas depois escolheu outra área.” Neste momento, os 3 perderam-se sobre como tinham chegado aqui na conversa. Realmente, avisamos que falávamos muito. Conseguimos perceber o rumo da conversa de novo. MAM: “Este meu amigo queria, desde a primeira classe, ser piloto de aviões. E ele é piloto da TAP, mas foi durante muitos anos instrutor. E portanto eu combinei com ele, ter aulas com ele. Quanto ao doutoramento, já estão a perceber… eu acabei o Mestrado e precisava do Doutoramento. Na altura, dava para ser professor (lá está, conseguimos voltar à questão) sem se ter o Doutoramento. O Doutoramento, fiz por uma questão mais pessoal, era um desafio pessoal, o Doutoramento no fundo é um trabalho extenso que vai ser avaliado por uma comunidade científica. E fiz para saber se tinha essa capacidade ou não, no fundo. E quando eu entrei para a faculdade, não havia aberturas para professores há 15 anos. Então, assim que eu entrei para o Doutoramento, achava que nunca na vida ia ser professor universitário, estava fora dos planos, queria ter o Doutoramento e eu estava ok com isso.” MLB: “E fora o Direito… já falou em jogar futebol com amigos, quais é que são os seus hobbies?” MAM: “Eu tenho muitos hobbies. Tenho duas vertentes da minha vida que não largo que é a Música e o Desporto. São duas vertentes da minha vida que eu não largo e se largar é porque alguma coisa muito má aconteceu. E quem me conhece fora daqui sabe isso, sabe que Desporto e Música são os meus dois maiores hobbies. Toco todos os dias ou quase todos os dias.” MLB: “O que é que toca? Por curiosidade.” MAM: “Não sabe? Ai não sabe. Pois, vocês são de 2ºano. Então não sabem, também não vos digo. (risos) Eu toco piano. Olhe, eu já cheguei, durante o COVID, a dar aulas, sentado no piano, porque não tinha outro sítio para estar sentado. Eu toco piano, sempre toquei, mas já não toco clássico, eu gosto de improvisar, inventar músicas, eu componho. Eu fiz as músicas do meu casamento, quase todas, fiz para aí 80%, algumas não eram minhas. Mas componho e toco todos os dias. Então, o ano passado, vocês estavam no primeiro ano, eu e o professor Luís Duarte D’Almeida demos aí um concerto. Mas é uma coisa… eu não me exponho. Posto no Instagram, às vezes, publico coisas a tocar. Toco muito. E faço desporto todos os dias.” MCR: “E a sua banda preferida?” MLB: “Não são os The National?” MAM: “Não são os The National (entre risos). Eu gosto de… é engraçado, eu gosto de música tão diferente, eu ouço tudo. Há coisas que eu não ouço, não ouço funk, isso é do degredo, não ouço, porque eu acho que isso não entra no conceito de música. Mas ouço… até transe ouço. Eu tenho uma história linda, no Max Planck Institute, eu vivi na Alemanha 1 ano, estava no instituto, um silêncio, uma coisa, os professores doutores todos a trabalharem nas teses, e na altura não havia Bluetooth, havia fones com ligação à coluna e eu ouvia sempre transe do pastelhado, o mais alto possível. E eu estava a escrever, numa sala cheia de professores doutores e eu devo ter desconectado os fones ao fazer um movimento, mas a música estava tão alta que eu ouvia da mesma forma, então toda a gente a olhar e eu sem perceber, e era transe mesmo do pesado e as pessoas deviam achar… porque eu também ouço música clássica, então as pessoas nunca achariam que eu também ouvia aquele tipo de música.” MCR: “Mas o professor considera-se uma pessoa festivaleira?” MAM: “Eu gosto de festa. Bastante. Se puxarem por mim, eu gosto. A questão é: que tipo de festivais? Porque, por exemplo, eu nunca fui muito de Sudoeste. Porque as pessoas cheiram muito mal no Sudoeste.” MLB: “Isso é um bocadinho o OCD.” MAM: “É o OCD. Imagine, isto é importante vocês perceberem para me conhecerem melhor, eu não vou ao Sudoeste, mas eu facilmente vou… repare, eu não vou ao Sudoeste porque as pessoas cheiram mal, mas eu facilmente vou… como é que se chama… ao de transe, aquele mais conhecido português… ao Boom, de tronco nu. Porquê? Porque o espirito é mesmo estar sujo. Uma coisa é ir a um sítio onde há pessoas a acampar e há outras que não, outra coisa é eu entrar dentro de um espírito em que é suposto estar assim, e aí eu próprio vou sujo. Esse é um dos sonhos, eu já tive duas vezes oportunidade para ir, e ainda não fui. Mas para a próxima quero ir ao Boom passar um fim de semana. (MCR faz uma menção ao Burning Man nos Estados Unidos) O Burning Man é de loucos, isso é nos Estados Unidos, mas é o estilo. Mas o Boom mesmo assim em Portugal é um bom festival. Ir todo nu, todo pastelhado, passar lá três dias, sozinho.” MLB: “Mas sem o campismo?” MAM: “Sem o campismo. Quer dizer nem sei, aqui vão todos, a questão é essa. O problema é que noutros festivais uns vão, outros não. Eu não gosto… ou vão todos ou não vão.” MCR:  “Então, o professor não é dos festivais típicos? Um Nos Alive?” MAM: “Não, isso sim. Por acaso nunca gostei do Nos Alive, era o Optimus Alive e depois mudou para o Nos Alive. Mas sim, Nos Alive, Super Bock Super Rock. Já cheguei a ir ao Super Bock Super Rock ouvir Florence + the Machine, depois de ter corrido 65 quilómetros. Naquele dia, fiz um UltraTrail, saí quase de ambulância, porque tava a ter espasmos e caibras. Eu corri de manhã, a prova era o Monte da Lua, corri 65 quilómetros, levaram-me dali para casa, levou-me a minha mulher, tomei um banho e depois fui para o Super Bock Super Rock. Saí de lá completamente a tremer. Mas gosto e eu queria ir ao Super Bock Super Rock ver os Florence + the Machine.” MCR:  “Então só não foi ao Paredes de Coura, que foi o que nós colocamos no perfil (entre risos)?” MAM: “Não, não. Nunca fui ao Paredes de Coura.” MCR introduz o nosso segmento que exige aos nossos convidados o esforço de associar uma lista de bebidas alcóolicas a um dos professores da faculdade. Cerveja. MAM: “Eu sou cerveja. Eu sou imperial, qualquer hora do dia. Domingo de manhã vou correr, chego, o que é que vai? Uma mini, logo a seguir. No início, era muito mais de Super Bock, até ser convencido da Sagres. Mas Sagres é muito melhor em garrafa, Super Bock é melhor em lata. Mas, mesmo assim, neste momento, gosto mais de Sagres. Sidras é para meninos, apesar de eu beber às vezes, mas é para meninos. E domingo de manhã, uma mini às 8, depois de ir correr... E não me venham com histórias de o vinho ser chique, eu gosto muito de jantares chiques, e peço uma imperial, não quero saber!” Caipirinha. MAM: “A caipirinha é difícil, porque tem o lado adocicado e tem o lado meio amargo. Uma pessoa a beber… por acaso não sei… Eu diria a professora Claire. A professora Claire teria uma caipirinha na mão.” Gin tónico. MAM: “Gin tónico já é mais classy, não é? E classy pode ser para o feminino e para o masculino, claro. Mas eu acho que é mais bonito ver uma mulher a beber o gin tónico, dá mais classe. Eu até punha a professora Mariana França Gouveia a beber o gin tónico, acho que é uma pessoa com classe, assenta-lhe bem.” Vinho tinto. MAM: “Mas carrascão ou vinho normal? (entre risos) Não, mas vinho tinto… porque, eu conheço o professor Vítor há já algum tempo e portanto eu punha-o a ele, e o professor Vítor sabe porque é que eu o punha com o vinho tinto. Mas do carrascão.” Vinho branco. MAM: “Olhe, sabe quem é que eu punha? Punha o professor Felipe Pathé Duarte. Colocava o professor Felipe porquê? Eu estive com o professor Felipe e outros professores em Málaga e o professor Felipe, no meio de um jantar normal de copos, põe-se a falar sobre a antropologia da comida, que é um tema sobre o qual eu gozei muito com ele, em vez de estar a beber copos está a falar sobre a antropologia da comida. E portanto, é uma pessoa que punha a beber vinho branco.” Absinto. MAM: “Bem, vocês se calhar não punham, mas eu punha a professor Ana Prata. Mas nem tenho dúvidas, é a professora Ana Prata. Um dia se a conhecerem vão perceber o porquê de eu a pôr. Depois digam-me.” MLB introduz o nosso próximo segmento de quick-fire questions: Qual é a figura pública que mais o irrita? MAM: “A pessoa em si, que mais me irrita? Eu estou a tentar não ser… eu não sou politicamente correto. Estou só a pensar numa pessoa que verdadeiramente me irrite e que tenho de mudar de canal. Por acaso irrita-me o José Alberto de Carvalho, que era uma pessoa que eu até tinha alguma consideração, e depois, no COVID, nas notícias, ele começou a fazer aquele comentário final, aquilo começou-me a irritar e nunca mais o ouvi.” Cereais antes ou depois do leite? MAM: “Não bebo leite nem cereais. Eu detesto leite. Mas para as minhas filhas, meto sempre primeiro a cerelac e depois o leite, mas se não for papa cerelac é o contrário. Mas pensando bem, ficaria melhor meter estrelitas primeiro e leite depois. Faz sentido.” Quantos contactos tem no seu telemóvel? MAM: “Não faço ideia. Número? (o professor pega no telemóvel) 199.” Qual é o contacto mais “importante” que tem no seu telemóvel? MAM: “Obviamente que é o da minha mulher. Mas uma figura pública? Em termos de figura pública, que eu tenho nos contactos e até falo com frequência, é a professora Assunção.” Qual era o nome que nunca daria a um filho ou a uma filha? MAM: “Nunca daria o nome que o meu pai queria dar ao meu irmão. Eu tenho 4 meios-irmãos, mais novos que eu, todos. A atual mulher do meu pai é espanhola. O meu irmão chama-se Idris. E o meu pai queria que se chamasse Zacarias. Zacarias?! O que seria, estar no centro comercial e chamar esse nome? Portanto, eu nunca daria esse nome. E de mulher, um nome que eu era incapaz de chamar, a minha filha tem uma colega com este nome, é Priscila. Desculpem as Priscilas e Zacarias.” Quantos livros já leu este ano? MAM: “Boa questão. Eu desde o meu Doutoramento que não leio… Eu adoro ler e eu não leio, porque- obsessivo compulsivo- eu desde o Doutoramento que eu lia e pensava que estava a perder tempo a ler outras coisas, quando podia estar a ler coisas de Direito e então comecei a deixar de ler e isso provocou-me algum ruído. Agora, tenho lido mais, outra vez, mas tenho lido mais livros de gestão e liderança etc.” MLB: “Mas então o professor já não consegue ler ficção?” MAM: “Eu gosto de romances históricos.” MCR: “Lê mais no verão?” MAM: “Não, como é que eu leio?! Leio 3, 4 páginas à noite. Eu fico viciado, é como séries… eu por acaso séries não vejo muito.” MCR: “Vê mais filmes?” MAM: “Vejo mais filmes, porque tenho medo de ficar viciado em séries. Então vejo mais filmes, mas como, hoje em dia, com crianças, acordo às 6 da manhã, eu não consigo durar mais de 15/20 minutos. Eu antigamente questionava-me como é que alguém conseguia adormecer no cinema mas agora após 15 minutos não estou a aguentar. Então, um filme que dure 2 horas, dá-me para 2 semanas.” MCR: “Top 4 de filmes, professor.” MAM: “Muito difícil, porque eu gosto muito de filmes, mas eu dou-vos o meu top 4. Mas um top 4 que amanhã se pode alterar, mas hoje: ‘Laranja Mecânica’, adoro, adoro Kubrik em geral, gosto de vários filmes dele, é espetacular, todos os filmes dele são diferentes. Por acaso o ‘Eyes Wide Shut’ é interessante para Direito da Família. Mas vamos pôr ‘Laranja Mecânica’, vamos pôr na categoria de desenhos animados- os clássicos, eu gosto muito, mas vamos esquecer os clássicos- então vamos pôr o ‘Wally’. Eu choro muito pouco com filmes, dos poucos filmes com que me emocionei foi o Wally. E gosto muito de um também, acho que é da Pixar, que é o ‘Inside Out’, é um filme que faz muito pensar, aquilo é um filme para os pais… Agora vou dar um que não é de desenhos animados, um filme diferente.” MCR: “Um filme que fosse ver à Cinemateca.” MAM: “Sabe que eu trabalho mesmo ao lado da Cinemateca. Mas os filmes da Cinemateca já são mais diferentes. Não sei, eu gosto de tudo, desde ficção científica, até uma comédia. Não gosto de dramas, é a tal história, eu penso, que não faz sentido ver um filme para me deprimir, a minha mulher adora. Eu lembro-me por exemplo, na viagem de regresso da minha lua de mel, nós fomos à Nova Zelândia, fizemos as Fiji, e depois na viagem de regresso fizemos tudo de seguida, Fiji, Melbourne, Hong Kong, Lisboa, foi um disparate, foram dois dias inteiros de avião. Eu nem me lembro, porque eu tomei uma bebida chamada ‘Cava’, que é uma bebida típica das Fiji, que até dizem que é uma bebida de fertilidade, mas as mulheres contestam isso, porque os homens tomam aquilo e ficam cheios de sono. E na última noite, tivemos um jantar de despedida lá e eu bebi e adorei aquilo, é uma bebida de fruto, com álcool próprio do fruto, assim branco e espesso e eu gostei tanto que me enfrasquei em ‘Cava’ naquela noite, de tal forma que, fiz estes voos todos a dormir, cheguei a Lisboa e ainda dormi 8 horas. Eu não me lembro da viagem, e agora vocês vão perceber a ligação, eu não me lembro de nada, a não ser de, num dos voos acordar e ver a minha mulher a chorar baba e ranho… Agora, há filmes bons para chorar, por exemplo ‘A cidade dos anjos’, é um filme que eu considero interessante. Mas eu adoro filmes. Nunca mais saímos daqui…” Voltando ao quick-fire… tem o hábito de ir buscar as suas filhas à escola? MAM: “Já tive, adorava, era a parte do dia que eu gostava mais. Só que isso mata-me o dia, mata-me a tarde, tinha que sair e ir buscar e deixar a casa e cortava-me o dia. Hoje em dia, vou levar à escola, às vezes com a minha mulher e outras vezes sozinho. Hoje fui sozinho. E portanto agora vou levar. Mas quero e vai acontecer, em breve, voltar ao regime em que vou buscar. Elas ficam super contentes. De manhã é um stress, toda a gente irritada e a querer-se despachar… à tarde não, está tudo bem… São meninas do papá… ultra meninas do papá.” Quando vai ao shopping, qual é o restaurante de fast-food que escolhe? MAM: “Tão bom. Gosto muito. Gosta de comer uma boa pita shoarma.” MCR: “Essa é uma escolha clássica de um pai.” Preferia um Batalhão de Caçadores ou um grupo de Reclusos? MAM: “Batalhão.” Sabe que é conhecido como Mike Moura? MAM: “Sei, sei mas não me ofende. Vocês nem imaginam os nomes que nós chamávamos aos professores. Sei porque houve um dia em que eu estava a acabar uma aula e estavam uns alunos ainda a arrumar umas coisas e eu passei atrás e os alunos não se aperceberam que eu estava a passar atrás e disseram o nome. Bem, ficaram ultra envergonhados a comentar se eu teria ouvido ou não. Os professores ouvem e vêm muito mais do que vocês acham, as coisas não nos passam ao lado, mesmo a dar aulas não nos passam ao lado. E eu fiquei a pensar se lhes dizia ou não. Isso não me ofende, e portanto sei sim. Mike Moura. Mike Moura está ok, é leve. Também, deixe-me ver, na minha altura, o que é que nos dizíamos? O professor Vítor Neves era o VPN. Tínhamos um diminutivo para a professora Assunção, tínhamos um diminutivo para o professor Bacelar, tínhamos um nome feio para um professor mais velho que já se jubilou, que eu digo off the record.”

  • Sem Direito - Filipe Brito Bastos (FBB)

    A Maria Castro Ribeiro e a Maria Leonor Baptista, coordenadoras de entrevistas do Jur.nal apresentam o segundo episódio do segmento de entrevistas Sem Direito. Desta vez, convidamos o professor Filipe Brito Bastos. E o Francisco Jesus veio tirar umas fotos. A conversa foi longa. MCR: “Filipe Brito Bastos, nascido em Vila Nova de Gaia, do signo sagitário, vive atualmente na Malveira perto dos estúdios do Big Brother. Na sua adolescência cresceu a ouvir Pink Floyd e Nirvana e diz que a música de intervenção portuguesa é o pior estilo musical. A sua série favorita é Criminal Minds. É presidente do sindicato dos funcionários judiciais, mas ainda sonha vir a ser psicólogo terapêutico em cadeias de alta segurança. No seu tempo livre é bailarino, tendo obtido uma série de prémios de bailado profissional. Todos os anos a família Brito Bastos desloca-se à Pennsylvania nos Estados Unidos para o dia do Groundhog Day. Professor, daqui o que é que podia ser verdade?” FBB: “Por ordem? Eu poderia noutra vida ter sido de facto de Vila Nova de Gaia, visto que metade da minha família é do Porto. Em segundo lugar, em relação à música, é um facto que eu passei os meus anos de adolescente a ouvir Pink Floyd e Nirvana e outras coisas. É um dos meus preferidos, aliás, apesar de hoje em dia não ouvir os Pink Floyd, devido ao Roger Waters.” MCR: “E quer dizer também que acha que a música de intervenção portuguesa não é boa?” FBB: “Não, essa é outra coisa. Eu acho-a feia, em geral. Acho-a pirosa, em geral. Mas dentro do género, imagino que hajam algumas que sejam mais decentes. Eu gosto, por exemplo, (não sei se conta como música de intervenção) mas o Acordai, acho bonito. Conta?” MCR: “Mas e um Sérgio Godinho, um José Mário Branco? Acha grosseiro?” FBB: “Acho folclórico… Mas voltando às outras questões, em relação à Malveira, é perfeitamente plausível, porque sou um orgulhoso filho da região saloia, que, como devem saber, se estende desde Alverca, passando por Loures (daí eu usar tantos casos práticos passados em Loures), Odivelas, Sintra, Malveira e acho que chega até Ericeira… mas enfim, essa zona… Sim, Malveira seria perfeitamente plausível. Bailarino? Não seria plausível, de todo. Eu não danço. No meu casamento, não houve primeira dança. Houve um concerto dado por mim e pela minha mulher. A minha mulher, embora gostando muito de dançar, sabe que, não me sinto de todo à vontade a dançar, enquanto que, tocar em público, pelo menos para a minha família sinto.” MCR: “E em relação a ser presidente do sindicato dos funcionários judiciais?” FBB: “Um completo disparate.” MLB: “Os sindicatos?!” FBB: “ Eu não tenho nada contra sindicatos… (entre risos) se era essa a insinuação… não tenho nada contra sindicatos. São um importantíssimo instrumento de contra-poder, exceto quando se tornam no poder.” MLB: “Bom mas vamos à parte cor-de-rosa da vida… o professor já está a politiquizar.” FBB: “Não, não, era mesmo só uma boca sobre a apropriação partidária de sindicatos.” MCR: “E em relação ao Groundhog Day?” FBB: “Aquela coisa das marmotas? Olhe, eu adoraria ver marmotas todos os anos, adoraria. Acho que uma peregrinação Brito Bastos até lá seria um projeto sim.” A Maria Leonor Baptista introduz o segmento que nos dá a explorar a parte mais cor-de rosa da vida. MLB: “Queremos saber como era na faculdade, mais estudioso/ mais baldas?” FBB: “O que é que acha? (entre risos) Digamos assim, há muitas experiências diferentes de quem faz o curso na FDUL. Algumas pessoas ficam a gostar muito da FDUL e de Direito, outras pessoas ficam a gostar muito de Direito… Eu talvez fosse mais do tipo estudioso, se faltava a aulas era de Direito do Trabalho, porque, enfim… não vou dizer o que penso de Direito do Trabalho ou alguns colegas meus crucificar-me-iam…” MLB: “E essa questão é mais ou menos política do que a dos sindicatos?” FBB: “De todo… se queremos ir por aí… Mas faltava essencialmente a Direito do Trabalho e a Direito da Família. Direito da Família, não por ser Direito Privado. Eu gostei muitíssimo de Direito das Obrigações, gostei muito de Direitos Reais, foi a primeira disciplina que dei, e parece que ainda circulam por aí sebentas, apontamentos e exercícios que fiz para os meus estudantes e que até partilhei com alguns estudantes do terceiro ano. Mas portanto, Reais gostei muito, Obrigações gostei muito, mas Família e Trabalho… digamos, que tudo, o que envolva estudar muita legislação, tendencionalmente, não sou grande fã.” MCR: “Mas não parece… o professor dá muita legislação a estudar agora…” FBB: “O quê?! Está a falar de Direito da Organização Administrativa? Apanhou-me.” MLB: “E em criança que profissão queria ter?” FBB: “Há uma que fica na memória mas eu era mesmo criança: Pastor de Dinossauros. Era mesmo criança, não conservei esse sonho até à adolescência (entre risos). Agora, o que me ocorreu fazer para além de Direito? Eu estive quase a estudar História e Literatura na Alemanha e imaginei-me talvez a estudar algo na área das Humanidades. E cresci bilingue na Escola Alemã de Lisboa e portanto tive a dado ponto interesse em estudar na Alemanha, até cheguei mesmo a ver residências.” MCR: “O que é que o fez não ir?” FBB: “A brutalidade crua do mercado de trabalho. Mas para além disso, o facto de, para mim ter ficado claro que mesmo em Direito o interesse por línguas estrangeiras e interpretação e pela história é algo muito importante.”´ MCR: “E olhando para a sua experiência na FDUL?” FBB: “Pois… apanhou-me! Não, não foi um estudante especialmente feliz na FDUL. Por tudo um pouco. Mas mais a relação entre os estudantes.” MLB: “Daí a sua referência Os estudantes de Direito não têm amigos?” FBB: “Sim. É uma referência à brutalidade que se vê em faculdades nas relações entre colegas. Não sei se alguma vez referi a situação dos emails de turma da FDUL. Nós não tínhamos Moodle, no meu tempo, tenho essa idade pré-histórica. O que tínhamos era um email de sub-turma. A sub-turma inteira, que eramos 30/40 tinham acesso à passe, portanto o professor enviava coisas e esperava que toda a gente entrasse no email, descarregasse os casos práticos e depois resolvesse. Por sistema, esses emails eram apagados. Mais do que competitividade, muito mais do que isso… era algo que acontecia muitas vezes ao longo do curso e foi algo que aconteceu a turmas minhas quando fui assistente na FDUL. Para mim, é uma grande fonte de sossego ver como, em geral, os estudantes da Nova SOL se tendem a dar bem. Pelo menos não temos este tipo de coisas. Não estou a dizer que as coisas são sempre fáceis… há diferenças e tal mas tanto quanto sei a regra é de entreajuda e não de sabotagem recíproca.” MLB: “E hoje se não fosse estudar Direito (pelo menos na FDUL não ia (entre risos)) que curso ia tirar?” FBB: “Se não fosse Direito? Neste momento, se me despedisse e fosse tirar uma outra licenciatura? Eu acho que sempre tive aquela veia de Humanidades, que acabei por não explorar tanto, que eu adolescente quis, portanto, acho que, talvez Clássicas. Isso ou Língua e Literatura Italiana. Algo do género. Eu, em geral, sempre gostei muito de línguas. Aliás, não sou o único aqui, entre os professores. Não sei se têm uma noção de como é que os professores comunicam entre si? Estou a falar de professores italianos e de professores que não são italianos, como é o meu caso e do professor Lúcio. Geralmente, eu e o professor Fabrizio, como nos conhecemos há bastante tempo, falávamos em inglês antigamente, mas cada vez mais o professor Fabrizio e os outros professores italianos têm insistido para que falemos em português, o que acho que é um sinal muito positivo da sua integração e acho que temos todos de estar gratos por esse esforço e por os termos connosco.” MCR: “Estamos em culturas… por isso, qual é o seu destino de sonho, de férias?” FBB: “Índia. Já viajei para a Ásia. Fui a um sítio na Ásia e foi a minha viagem, de longe, preferida. E não sei se me vai meter em apuros mas foi ao Irão. No contexto atual do conflito é complicado. Mas gostei da comida, as pessoas são super generosas, super acolhedoras, a arquitetura e a cultura são inacreditáveis. Eu tive a sorte de viver em Florença, que é uma cidade muito bonita. Lisboa é uma cidade muito bonita, Paris é uma cidade muito bonita, Amesterdão é uma cidade muito bonita… destas cidades só não vivi em Paris… mas o Irão não fica atrás, de todo. O que me faz querer ir à India é o facto de haver uma ligação familiar, o meu avô era de Goa, mas para além disso, eu acho que a diversidade, a arquitetura de tantas épocas diferentes, as influências locais, persas, hindus, do Islão, a influência cristã… acho isso mesmo muito bonito. Mesmo a natureza é muito bonita, é um pais enorme e que eu gostava de visitar.” MCR: “E dos sítios onde viveu, qual foi o seu favorito?” FBB: “Florença. Bem, não contando com Lisboa, Florença. Porque, Florença foi uma cidade perfeita para a fase de vida em que eu estava, cheguei com 23 anos, eu comecei o Doutoramento muito novo, e passei quatro anos e meio depois disso em Florença. Ora, vocês têm menos 4 anos do que isso, certo? Portanto, acho que podem imaginar o que é que fariam numa cidade como Florença, com essa idade, tendo quatro anos e meio pela frente, uma bolsa relativamente generosa. Bom, tive muitas saídas, muita exploração de Florença pela madrugada.” MCR: “Tem alguma história louca?” FBB: “De Florença? Bom, ter teria mas têm quase todas bola vermelha. Talvez haja uma e talvez vos surpreenda. Como eu vos disse, não fui um estudante ultra feliz na FDUL, fiz alguns amigos mas não passava muito tempo na faculdade, por exemplo nas Festas da Cerveja (o professor fez um parênteses na conversa para dizer que conhece a pessoa que criou o conceito das Festas da Cerveja e aparentemente essa pessoa arrepende-se profundamente de ter o ter criado), também não ia ao final de tarde do bar da faculdade, que tem happy hour… mas eu acho que nesse período, a minha vida de estudante não foi tão intensiva como a de muitos colegas. Muitas das atividades não me atraíam especialmente, mas para além disso, eu morava fora de Lisboa e demorava ainda um bocado a ir e voltar e portanto também acabava por não ir tanto. Acabei por ter uma vida social mais focada num grupo pequeno de pessoas. Em Florença, foi muito diferente. Em Florença… imaginem 400 doutorandos numa aldeia nos arredores de Florença, no meio das colinas, durante quatro anos e meio. Muito vinho, muita comida muito boa, muita cultura, muitas saídas à noite, muito estudo também obviamente. Mas tínhamos também um bar a sério na Universidade, é possível que eu e o professor Fabrizio, de vez em quando passássemos lá algum tempo… é possível que nos lembremos de tudo… ou não… Mas, quanto à história curiosa (e vou-me arrepender de a partilhar), um dos meus melhores amigos era inglês e num dia em que eu estava com especiais dúvidas em relação ao futuro, o meu amigo disse que me ia fazer uma pergunta à qual eu tinha mesmo de dizer que sim, e que era para me deixar mais em paz. A pergunta era “Aceitas fazer uma peregrinação por todos os bares irlandeses de Florença comigo desde as 7 da tarde até amanhã às 7 da manhã?”. Acabei a dizer que sim. Eu, de facto, nessa noite, e eu lembro-me da maior parte, bebi uma half pint de Guiness por cada um dos bares irlandeses. E cheguei a casa às 7, quase em ponto.” MLB: “Nessa altura, portanto, as “peregrinações” eram um hobbie… e agora, quais são os seus hobbies?” FBB: “Atualmente, gosto bastante de ler poesia. Eu já leio muito para a preparação das aulas e isto vai ser um bocado desconfortável de admitir (ou podem achar que me considero um grande intelectual, e não sou) mas muitas vezes não tenho tempo para ler romances. Ou se há períodos de grande trabalho, eu não consigo fazer o seguimento do enredo, e acabo por desistir do romance. Tenho um poeta preferido, acho que já o mencionei aqui no Jur.nal no Mergulho Profilático.” A Maria Castro Ribeiro introduz o segmento onde pede ao professor Filipe Brito Bastos que associe bebidas alcoólicas a princípios constitucionais. cerveja FBB: “Estado de Direito, porque dá com tudo. Conhece muitos pratos à refeição que não caiam bem com cerveja? Em rigor, eu nem sou um fã enorme de cerveja portuguesa. E não estou sozinho nisto. Há aquela discussão filosófica: Sagres ou Super Bock. São as duas… MCR: “Terríveis?” FBB: “Palavra sua, eu teria usado outra, muito pior.” martini FBB: “Iniciativa económica privada, porque tem classe.” MLB: “Foi o take cancelável.” vinho rosé FBB: “Pois… assim à tabela, eu diria o princípio da legalidade administrativa, porque é algo que se pode consumir numa tarde quente de verão na praia. Vocês não lêm Direito Administrativo no verão? Na verdade, como nós precisamos de ler tanto para as aulas, eu não consigo ler só Direito em casa. Muitas vezes leio em cafés, jardins e sim, já li na praia.” vinho tinto FBB: “Vinho tinto? Ação popular porque é uma grande produção portuguesa.” vinho branco FBB: “Vinho branco… eu dira o artigo que define o território nacional, porque lá se incluem os mares portugueses, onde há muito peixe e o vinho branco vai bem com peixe.” vodka FBB: “Vodka? Esta é difícil, muito difícil. O princípio da igualdade, porque o vodka afeta todos quase por igual.” A Maria Leonor Baptista introduz o segmento seguinte onde pede ao professor Filipe Brito Bastos que explique certas declarações que proferiu na rede social Twitter, agora X… MLB: “Primeiramente, o professor mencionou que Lisboa é a sua cidade preferida… mas acha que isso é compatível com o fedor que se sente em Lisboa…?” MLB: “Professor, é sobre o professor Miguel Moura que estava a falar neste tweet?” FBB: “Não, de modo algum. O professor Miguel Moura é um homem com muita classe. Estava a dirigir-me às pessoas que vejo no meu ginásio às sextas-feiras e é uma demografia de idades e de vocabulário bastante específica. Há várias culturas dentro do ginásio. Eu tenho uma personal trainer. Não tenho remédio. Eu, com a licenciatura, mestrado e doutoramento, infelizmente, com má postura, fui desenvolvendo problemas de costas e não sou o único com esta condição. Isso afeta todos os docentes. São ossos do ofício. Uma das coisas que ajuda muito é exercício físico e apercebi-me que, para não ficar pior, o exercício e a personal trainer me fazem muito melhor.” MLB: “Depois, temos aqui um tweet em que gostávamos mesmo que nos explicasse do que é que está a falar… porque pelo enunciado não conseguimos mesmo perceber.” FBB: “Isto são pastéis de nata. E tanta descrição… porque há uma forma correta de fazer as coisas.” MLB: “Mas como é que isto afeta o princípio da liberdade?” FBB: “Algumas verdades não são relativas. Há uma verdade absoluta sobre o consumo dos pastéis de nata. Próxima pergunta! Mas… isto não me incomoda, eu aceito os gostos das pessoas mas também é importante a ordem pública. E o pastel de nata está acima da liberdade individual. Mas há ocasiões em que eu me esqueço de que os meus alunos veem as coisas que eu coloco online. Estou muito próximo de deixar de ter X, porque parece uma máquina de pôr coisas frustradas, infelizes e com raiva.” MLB: “Concorda com a ideia de que existe uma cultura de cancelamento perpetuada nas redes sociais?” FBB: “Sabe, eu acho que a cultura de cancelamento existe há muito tempo, pelo lado ideológico. Eu ainda sou do tempo em que existiam cancelamentos… enfim, pressões para que não se realizassem eventos de cariz mais progressista. E agora, quando falamos em cultura de cancelamento, estamos mais a falar de estudantes, em universidades que quando observam uma opinião de que não gostam, atacam. Para começar, acho que, em geral, o que é descrito como cultura de cancelamento, não é mais do que exercício de liberdade de expressão do outro lado, de quem não concorda, que é igualmente importante. E, por outro lado, parece-me que em Direito, pelo menos, tendemos a conseguir manter uma cultura em que aceitamos que outros possam ter opiniões diferentes. Apesar de, hoje em dia, ser mais difícil ter certo tipo de discussões nas aulas, do que há 10 anos. Eu acho que a polarização em geral, de que o X se tem tornado um instrumento, tem contribuído para isso, para vermos as coisas só a preto e branco.” MLB: “Mas o X também tem coisas boas… serve para dar conselhos aos seus alunos.” MLB: “Professor, aqui também não há liberdade de escolher a resposta a dar numa entrevista de emprego?” FBB: “As pessoas têm toda a liberdade de sabotarem as suas próprias entrevistas de emprego. Eu, uma vez, fiz parte de um júri, como dirigente associativo em Florença, em representação dos estudantes no processo de recrutamento do novo Diretor. Como podem ver, uma Universidade com um determinado espírito democrático, e muito interesse nalgumas coisas. E juro-vos que, todos os candidatos deram todos esta resposta do “Sou muito impaciente para ver resultados.”. No fundo, é um não defeito. Significa apenas que sou uma pessoa ansiosa e produtiva. Mas enfim, às vezes, as pessoas erradamente em entrevistas caem neste erro ao falar no seu pior defeito. Não sejam ingénuos.” MCR: “E qual é o seu maior defeito?” FBB: “Sou muito impaciente para ver resultados. Não, agora a sério. O meu pior defeito… é para aparvalhar ou ajudar os estudantes?” MLB: “Não, para ajudar os estudantes é o seu Twitter, professor.” FBB: “Eu sei. Se a pergunta é séria… Síndrome de Impostor. Como académico, como investigador…” MLB: “Como amigo também sente?” FBB: “Como amigo?” MLB: “Sim, nas relações pessoais. A minha pergunta vem de um sítio de, num grupo de amigos onde estão todos a discutir cultura, política… às vezes não sente que ter amigos tão “fixes” o faz pensar?” FBB: “Estou a perceber… se o que quer dizer é o olhar à minha volta e ver que estou rodeado de pessoas com imenso talento e de uma inteligência enorme, altamente produtivas e que conseguem ter uma vida cultural, social muitíssimo mais enriquecedora do que a minha e me pergunto como é que conseguem? Então sim, absolutamente. Eu acho que muitos de vocês têm também. E acho que em particular há uma grande diferença entre a Nova e a Clássica. Na Clássica, sendo algo inconsciente, convive-se bem demais com a Síndrome de Impostor e com o normalizar da Síndrome de Impostor como uma característica intrínseca do bom estudante ou do bom professor. Só és bom estudante se te achares incompetente como ponto de partido. E aqui, acho que não temos tanto isso.. E faço um esforço para tirar os estudantes da zona de conforto precisamente por isso, para irem mais além.” MCR: “E sente que este é um sentimento partilhado na academia?” FBB: “Pelos professores? O pior professor é aquele que não tem Síndrome de Impostor.” MLB: “Mas aí está a perpetuar.” FBB: “Estão a rir? Os piores professores são aqueles que são vaidosos demais para reconhecerem as suas imperfeições como investigadores. Também há um extremo oposto que é, muitas vezes, ensinamos coisas que pensamos ser um desastre, muitas vezes eu saio de aulas a pensar que fui péssimo e que expliquei tudo muito mal. Do mesmo modo, o meu artigo mais bem citado, foi um que estive quase para não publicar, por achar que era uma perda de tempo.” MLB: “Professor, tem dado muitos conselhos aos seus alunos nesta entrevista, mas a questão é de quem é que gosta mais, dos seus alunos ou do senhor que passa música no metro?” FBB: “Eu já sei o que vem aí…” FBB: “Gosto mais dos alunos… E apercebo-me de que tenho formas diferentes de interagir com alunos que sei terem maneiras de agir e sentidos de humor diferentes. Acho piada, por exemplo, ao facto de poder fazer indiretas sobre petições nas aulas e ver pessoas a rirem-se, ou então, referir que sei quem vai ficar a rir por último (em referência ao sticker).” MLB: “O professor usa os seus próprios stickers?” FBB: “Às vezes. Um em particular. Aquele do “Até me emocionei”. Isto circulou até fora da faculdade. E eu acho bastante piada. Embora, este em particular seja um bocadinho cruel, porque, foi uma aula de dúvidas dada a um fim de semana e eu estava com uma conjuntivite ou algo do género. Portanto, estarem a fazer troça de alguém que estando incapacitado deu uma aula de dúvidas ao fim de semana… acham bem?” MLB: “É o princípio da liberdade a funcionar…” FBB: “Há um sticker em que a autora se esqueceu de censurar o seu nome. Acho engraçado os stickers, sim senhora. Acho piada. É uma forma de os alunos se meterem com os professores. E dos professores se meterem com os alunos- evil FBB. (sim, o professor disse isto)” MCR: “Acho que o professor é um professor atento às dinâmicas entre os alunos.” FBB: “Na medida do apropriado e do que me interessar, claro. Mas eu gosto de saber se os meus estudantes se sentem bem, por alto, não me interessam os detalhes. E se conseguimos fazer um bocado de humor e de auto-ironia todos nós, se não nos levamos demasiado a sério, acho que é uma forma simpática de convivermos.” A Maria Leonor Baptista introduz o último segmento da entrevista onde pede ao professor Filipe Brito Bastos quick-fire answers. Não foi muito fácil… Qual é a figura pública que mais o irrita? FBB: “O Eurico Brilhante Dias. É uma pessoa de quem posso dizer que nunca ouvi dizer uma coisa que não fosse ou cretina ou mentirosa, ou ambas. Há um pior ainda. O Gabriel Mithá Guerreiro. Para começar tem uma vozinha… Depois, porque faz parte de um segmento de pessoas que se querem entender como intelectuais de direita radical. O livro dele é, de longe, o livro mais reacionário que eu tenho na minha biblioteca, porque o comprei sem saber o conteúdo. Vi apenas que era um livro de história, e li e era um festival de disparates e de manipulações de factos históricos. E ele faz tudo isso dando-se a si mesmo uma autoridade ridícula por ser académico. Eu acho que há um lugar no inferno reservado para académicos que puxam dos galões desnecessariamente…” Preferia que existissem 3 ou 30 ministérios? FBB: “Preferia 30. Porque, com 3 ministros, apenas, ninguém consegue.” Que ministério implementaria que ainda não houve? FBB: “Ministério do Ensino Superior. Mas que ainda não houve mesmo, ministério da Regulação, separado da Economia. Pelo simples facto de haver muito comum, nas várias áreas da Regulação. Outro ministério que deveria existir, e não sei se já houve algum com este título especificamente, Integração Social ou Inclusão. Nós tendemos a pensar muito em categorias de pessoas como estando em risco de discriminação, e é verdade. A minha única dificuldade com essa forma de pensar… aliás, são duas. A primeira é que parte do pressuposto que somos todos oprimidos ou opressores e não somos. Muitas vezes, mesmo os oprimidos são opressores de outros, para começar. E em segundo lugar, porque o foco que damos a determinadas categorias de pessoas que são discriminadas acaba por negligenciar que todos nós podemos ser discriminados ou sofrer na vida por pertencermos a categorias diferentes ou mesmo atípicas. As pessoas, por exemplo, com problemas de saúde mental não deveriam ser uma categoria tão respeitada nas suas necessidades de inclusão como outras? Ou então, por exemplo, cuidadores. Não digo apenas mães, digo cuidadores. Há casos de homens, que conheço, que cuidam das suas esposas com deficiências e que, no resto da sua vida, são vistos como pessoas, pura e simplesmente, homens privilegiados porque são homens, de classe média alta, mas as pessoas muitas vezes não sabem que dentro da vida privada de uma pessoa vai um desafio emocional. Isto já foi um resmuganço…” Ananás na pizza, sim ou não? FBB: “Eu vivi em Itália! Eu literalmente antes de encomendar uma pizza vejo se serve pizzas com ananás. Se servir, eu não encomendo pizza daí. Fiquei chocado com a pergunta! Gosta dos seus cereais com ou sem bebés mortos? Que pergunta horrorosa! Em Lisboa, há um consenso crescente entre os professores italianos… Santa Clara é uma pizzaria absolutamente extraordinária.” Qual é o seu filme preferido? FBB: “Pulp Fiction. Mas há séries que são melhores que filmes. Sopranos, a melhor série de sempre. Deviam ver. É uma série que seria impensável hoje, devido aos seus conteúdos ofensivos, que é extremo mas o enredo e a subtileza… não é apenas violência. O meu top de séries seria Sopranos, Breaking Bad, Game of Thrones. E numa fase da minha vida, Suits. Mas acho que é uma série muito pouco adequada para pessoas com Síndrome de Impostor. Aquilo causava-me ansiedade a certo ponto. No período em que estava a dar aulas e no escritório, foi-me demasiado. Agora, os dramas de sociedades são muito verdade. Sócios a envolverem-se uns com os outros… casos secretos… Eu não vivi isso, atenção! Quero deixar isso muito explícito, se algum anterior empregador meu ler isto. Outra coisa que reflete a realidade é que os grandes escritórios são uma aliança entre nerds e pessoas que se mexem muito bem.” Qual é o nome que nunca daria a um filho ou filha? FBB: “Há uma razão para os casos práticos terem sempre nomes tão abstrusos. Para não ofender ninguém. Com todo o respeito, eu seria incapaz de dar o nome João Maria a um filho. Acho demasiado beto. Desculpe, João Maria da tuna. A raparigas, pelo mesmo motivo, acho que Benedita, neste momento. Salvador também, a mesma coisa. Depois… hoje em dia, vejo jovens com o nome Pilar, por exemplo, e que já não são tão queques.” Quantos livros já leu este ano? FBB: “Muito poucos, infelizmente. Que não de Direito, óbvio. Eu acho que li apenas 1 romance inteiro e fui lendo muita poesia. Abro um livro de poesia, leio um pouco e volto a fechar o livro. O romance que li foi a “Cidade e o Mundo”.” Qual é o melhor supermercado? FBB: “O LIDL. A história extraordinária do LIDL…” MLB: “Passou de nicho a mainstream.” FBB: “Começa por ser uma coisa low cost mas com qualidade razoável e hoje, em dia, tem uma ótima qualidade. E agora, quase todos os dias, quase dia sim dia não, passo pelo LIDL do Bairro Azul e compro os meus lanches.” Maior fobia e porquê? FBB: “Cobras. De longe. Porquê a fobia de cobras? Porque é que uma pessoa tem de explicar a sua fobia?! Por definição, é irracional.” Se tivesse de viver a vida de qualquer pessoa desta faculdade quem é que escolhia? (depois de uma pausa dramática do professor FBB, que com certeza queria apenas atrasar o fim da entrevista) FBB: “Ahm… Isto é muito difícil. Eu diria a professora Vera Lúcia Raposo.”

Deixa-nos uma mensagem, fala connosco!

Obrigado pela tua submissão!

© 2025 Jur.nal - Jornal Oficial dos Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

bottom of page