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- Peer2Peer - lado a lado, futuro partilhado
Não é voluntariado, não é “ajudar o outro”. Não vem no horário, não dá créditos, não é jurídico. É humano, é real. É ver o outro como um igual. É caminhar lado a lado. Porque há caminhos que não se fazem sozinhos. É aqui que começa o Peer2Peer. É um projeto que prepara TODOS para a entrada no mercado de trabalho, sensibilizando para os obstáculos existentes na inclusão de pessoas portadoras de deficiência. Jovens universitários serão emparelhados com jovens portadores de deficiências diversas, com o desafio de se ajudarem mutuamente no percurso de preparação para o mercado de trabalho. No Peer2Peer, contamos com a presença valiosa de profissionais relacionados tanto com o mundo do Direito, como com o processo de recrutamento inclusivo: pessoas que conhecem as portas e os obstáculos do mundo laboral atual. Através de palestras, workshops, partilha de testemunhos e de simulações de entrevistas de emprego, os participantes sairão prontos para enfrentar um processo de recrutamento com sucesso, além de ganharem uma visão mais ampla e inclusiva. Porque um mercado de trabalho que exclui não é competitivo. É incompleto. Daí a importância de todos saírem com uma visão mais humana, mais justa e mais inclusiva do mundo profissional. Este projeto traz benefícios para todos os envolvidos. De forma sintética, os participantes irão: Conhecer melhor a realidade do mercado de trabalho; Aprender a fazer um CV e uma Carta de Motivação, com o auxílio de especialistas em recursos humanos; Participar numa simulação de entrevista de emprego com recrutadores, que darão feedback ; Desenvolver soft skills, nomeadamente: empatia, comunicação interpessoal e adaptabilidade. Mas o Peer2Peer não vive só de sessões. Não se limita a skills profissionais. É uma oportunidade para conhecer pessoas novas e contactar com realidades diferentes. Entre conversas informais e risos inesperados, criam-se laços. Amizades improváveis. Perspetivas novas. "O nosso projeto foi espetacular, foi giro e gostei muito, foi uma experiência divertida, gostei de fazer os trabalhos e tudo." -Beatriz Campos, jovem portadora de deficiência, participante do Peer2Peer 2025 Participar no Peer2Peer é sair da bolha académica sem sair da faculdade. É perceber que incluir não é apenas dar voz, mas aprender a ouvir e entender. Fornece competências essenciais, tanto a nível pessoal como profissional. "Era aquela hora semanal em que eu sabia que ia receber um grande abraço, rir muito, e ao mesmo tempo aprender algo útil para o meu futuro. Uma lufada de ar fresco no meio da rotina caótica de um estudante de Direito." -Raquel Nunes, aluna da Nova SOL, participante do Peer2Peer 2025 Podem inscrever-se até 17 de fevereiro através do link . Estamos disponíveis para esclarecer quaisquer questões que tenham, através do email p2p.novalaw@outlook.pt , pessoalmente na faculdade, e/ou através de mensagem privada. Esperamos que abracem esta iniciativa com o mesmo carinho e dedicação que nós! Até já! As managers, Beatriz Meleiro e Raquel Nunes
- Nunca Mates o Mandarim
Na noite de 8 de janeiro de 2026, o Jur.nal esteve nos bastidores do MUSA de Marvila com os Nunca Mates o Mandarim, na úvula daquela que seria a introdução do álbum primogénito da banda a Lisboa. No átrio sôfrego do que a noite prometia, deu-se voz às meditações que decorrem da escuta dos Mandarim , devolvidas por esclarecimentos e pano para outras tantas, depois tingido e complexificado com o presentear de Bola de Bilhar . Quem são os Nunca Mates o Mandarim? Procurar conhecê-los na internet é ler em todas as páginas que são projeto nascido do terem tempo de sobra para queimar - confessam que assim o era na génese do grupo de carimbo portuense e guelra de rock alternativo que apalpou terreno na cena nacional em 2023 com a estreia do EP Parou p’ra ver . Hoje dizem-se mais azafamados e jubilosos por isso, com a agenda recheada entre o semeio do novo álbum pelos palcos do Porto, Braga e Lisboa, e o mesmerizar do país com “Fumo”, a música com que se inauguram no Festival da Canção deste ano. Salvo a conjuntura juvenil do remanescente de tempo que juntou Manuel Dinis (guitarra), João Campello (bateria e baixo/voz) e João Amorim (voz, composição e guitarra), admitem que o processo criativo é-lhes estado ininterrupto, advindo desde trocas de riffs férteis pela noite, pelo telemóvel, a raquetadas de lampejos em sessões de jam (disseram ser dos campeões que não têm medo do papão de brincar com os rascunhos à frente uns dos outros), à colheita de inspiração pela vida fora. O Amorim matizou-os perspicuamente como extrativistas relativamente às influências, relatando irem beber desde o mundano da tristeza e das vicissitudes do coração, à nódoa deixada por outros artistas. O João Campello apontou o Desmond Doss como referência recente. O que sabem eles de campainhas mágicas? Num jogo de intelectos, uma pergunta alusiva ao livro de Eça de Queiroz que lhes dá nome: Em que campainhas mágicas já tocaram ou quiseram tocar no decorrer deste projeto? Responderam que faziam por ser ponderados nos passos que davam como grupo, procurando não ceder a impulsos precipitados, à cautela dos mandarins que pudessem matar por lapso de ação. Reconheceram que se houvesse campainha mágica em que desejassem tocar, garantida a ausência de consequências, seria a de tornar possível viver da música em Portugal, o que não é o caso de nenhum dos três atualmente apesar do repertório patrimonial que têm vindo a oferecer ao país desde a sua formação, o qual conta com arranjos dos grandes êxitos “purpurina portuguesa”, reunidos no seu EP de 2024, dando uma sensualidade caliginosa a clássicos desde as Doce a Carlos Paião. O caçula no acervo dos Mandarim , Bola de Bilhar , é soma parente à coleção de músicas de até então, cuja sonoridade parece pairar entre um familiar caseiro e um misticismo envolvente. Nasce duma meditação sobre o tempo, físico e mental, escrito do e no entretanto das viagens de Amorim de compromissos divididos entre Porto e Lisboa, sendo o single “Coimbra B” o apóstolo espacial do estar entre uma coisa e a outra e de por isso não se estar em lado nenhum. Desta reflexão a banda concebeu 30 faixas, depois despidas até às 9 camadas - as que temos no disco - unidas por um elo comum: o jogo. Também o jogo da interpelação, de noites e músicas outras, continua a marcar presença nesta Bola de Bilhar . Entre os convocados quer por referência ou inspiração: Saramago, García Márquez, Rita Lee, Jorge Palma, Rui Veloso, Leonard Cohen. O liricismo do novo álbum promete com estes modelos fazer por merecer o precedente conseguido pelos projetos antecessores de ter grafitada numa parede do Porto uma letra. Eis a letra escolhida pelo fã que lhes realizou este sonho: Se tu eras o Paiva / Não fui o isqueiro / que o foi acender, da música “Um outono qualquer”. As escolhas da banda para uma próxima “grafitada”: bocados da “Boulevard 61” ( Diz-me o preço do galão e da torrada / e eu dir-te-ei se sou de cá, com direito a desenho dos perecíveis), da “Quero” ( Quero ter pais ricos ) e da “Bola de bilhar” ( Não sou nada / não sou nada de novo , letra que acena ao leitmotiv da interpelação). Naquele momento de ânsia, para chamar a descontração e abrir a porta a esta nova brisa que Lisboa conheceria daí a minutos, pareceu perspicaz atualizar a lista das vontades enumeradas na sua icónica “Quero”. Descanso , pediu o Amorim. Cinco senhas de finos , pediu o Manuel. Sol , pediu o Campello. Fazem batota no bilhar? “Eu não consigo fugir ao que eu era há cinco anos atrás e sou agora uma consequência disso”, uma nota feita pelo Amorim entre reparos sobre o influxo do tema da herança de um destino, apanhado de “Cem anos de solidão”. Esta sua máxima transborda pelo álbum que o trio apresentou à capital nas paredes do MUSA. Bola de Bilhar é história contada entre o verter dos copos de finos (vestindo as cores do Porto) sob a mesa do jogo que nem se joga nem se acaba, e rasgada pelas cortadas da música que toca além da nossa vontade, acima do gosto, acima da voz. Ouvimo-la aos bocados, rimos quando não apanhamos, ficamos com os sons, os silêncios, e os entretantos. Somos jogados no decorrer dum pensamento, e juntamo-nos à marcha pela curiosidade do destino. A história dá-nos toques no ombro de quando em quando, sabores que o paladar conhece, parafraseando nomes e histórias outras. É o caso de “12 Badaladas” que dá largada ao tema da distância e do tempo e da nossa incapacidade perante esses dois gigantes, pondo estas ideias num cenário análogo ao da história d’ “A gata borralheira”. O tema “Histórias” surge como matrioska neste reconto com cheiro a noite e cambaleio a vida. Entre tacadas e goles ávidos, a história segue. Agarramo-nos à mão-mote do jogo que nos guia e nos passeia pelas faixas quatro, cinco e seis, revisitando-nos na faixa oito que dá título ao disco, burilando a história com alusões a uma gama de jogos desde os do recreio, aos de mesa, aos de risco que na verdade é o que é a cogitação que se faz por este álbum fora: um perigo para o Homem que de bicos dos pés não gosta de saber que continua pequenino. No contar da história, descobrimos que no amigo que pensávamos conhecer de cor ecoa uma voz que nos era desconhecida. Em “Três Noites”, um som maciço e inesperado da voz que até então parecia ser entregue à leveza. Um desvio, ou talvez um novo caminho neste percurso que traçamos ao passo que o narrador traça. Uma antecâmara para o convite que nos é feito em “Bola de Bilhar” ( Vem comigo ao fim dos tempos) e à localização que nos é dada em “Coimbra B”, a glabela física do compositor (o meio do caminho entre Lisboa e Porto) ou a mental (não se pertencer nem a uma coisa nem a outra na totalidade). O espaço é uma questão de espírito. O fim da nona música é o impulso de pôr a tocar de novo a primeira no entendimento que esta corrida de raciocínio a que nos juntámos aparentemente pela metade vai dar à cauda do pensamento, das personagens que nunca morrem e que se montam com a mecanicidade das regras de um jogo que nos ficam. Bola de Bilhar é manual para uma meditação que marca. Nessa noite não jogaram bilhar, mas prometeram que quando jogavam não faziam batota. Só havia ping-pong . Fotografias: Leonardo Tavares
- 28 de Janeiro de 1976
Uma força nunca vista antes. Lembro-me de olhar para a sua figura e sentir-me o ser mais pequeno do universo. Diante dela, o mundo encolhia, e eu também. Pergunto-me se sabe que, todos os dias, eu escolheria não estar aqui se isso significasse o seu triunfo. Passam anos e anos, um atrás do outro. Cresço e já não sou assim tão pequena. Já sei caminhar, já sei manter a calma, mas ainda é ela a primeira que me vem à cabeça quando tropeço ou quando o ar dispara para tudo quanto é canto, menos para os pulmões. Às vezes, pego-me a pensar, em meio a tarefas muito importantes do dia, quando estava na cozinha, sentada no chão, a apreciar as tuas mãos cheias de farinha e muita história a fazer aquele bolo simples, mas que era capaz de trazer alguém de volta à vida. Preciso de uma fatia desse bolo agora. Quero voltar à vida. Eu quero aquele chão de novo; caminhar sem ele é muito mais difícil do que eu pensava. Eu quero uma fatia do bolo, mas hoje ele é teu. Feliz aniversário, mãe.
- Poseidon Drag
No dia 15 de dezembro de 2025, o Jur.nal esteve no Café Jeronymo do Cais do Sodré com Poseidon Drag. Numa conversa polvilhada de risos e brilhos, a drag queen do momento falou-nos da sua viagem de Recife para o mundo, de como os sonhos se moldam com a matéria dura da realidade e do significado de partilhar o protagonismo do palco com o peso simbólico de representar toda uma comunidade. Quem é Poseidon? Poseidon nasceu no seio teatral. Afastando-se do drama puro, equilibra no seu ser a versatilidade do oito ao oitenta, fruto de coprotagonismo da comédia e do horror na sua vida e, consequentemente, na sua arte – “Prazer, doida!”. Artista desde que se lembra, Poseidon deu os seus primeiros passos no grande palco há vinte e cinco anos. Sonhava em ser atriz, e até artista de circo - chega a confessar -, mas os pequenos sussurros do seu chamamento para o drag foram sendo cada vez mais altos – “sabe quando é assim, Deus chega e fala que você vai e você foi, sem nem querer…”. Hoje, treze anos depois, abraça com orgulho o papel da sua vida, que se tornou a sua mais completa expressão. Influências Artísticas O teatro e o cinema são as suas principais musas. Estando no ramo há mais de duas décadas, as suas referências enraizaram-se de tal forma no trabalho de Poseidon que, agora, dificilmente se consegue afastar e buscar inspiração noutras dimensões. Com influências culturais imaculadas, a artista leva-nos numa viagem pelo mundo da arte como quem nos mostra a sua casa. Tal versatilidade advinda do seu ecletismo acaba por lhe dar o charme de quem vive pela sua paixão pulsante. De Recife Para O Mundo Quando iniciou o seu percurso no drag , há treze anos, a ambição e determinação alimentavam a máquina incansável de brilhos, competições e lip syncs : participava em concursos locais, trabalhava em festas, fazia espetáculos em discotecas e tudo mais que lhe permitisse mostrar que Poseidon era mais que um sonho. Contudo, admite que nem sempre foi fácil. As dificuldades de entrar num meio ainda estigmatizado levaram-na a esconder a sua verdadeira pessoa, tendo mantido a sua arte em segredo por muito tempo. Ademais, o drag surgiu espontaneamente na sua vida fruto do teatro, levando a que os primeiros tempos – quando ainda era conhecida por Poseidon Pussy – ficassem marcados pela inexperiência de quem ia não só se descobria a si mesmo, como ao seu lugar no palco. “Quando eu comecei eu não sabia costurar, não sabia me maquilhar, não sabia fazer uma peruca, não sabia comprar um salto…”, chega a admitir. Aliás, foi fruto da necessidade enquanto drag queen que a costura surgiu na sua vida. Num universo em que as exigências e os custos são elevados, aprender a conceber o seu próprio guarda-roupa tornou-se numa verdadeira mais-valia. Assim, e ainda que inicialmente a costura fosse uma ferramenta acessória para o drag , mais tarde tornou-se numa profissão por si exercida, de modo ao seu portfólio ser composto por renomados artistas internacionais – desde Lady Gaga a Lana del Rey, entre outras figuras de destaque. Atualmente, com o amadurecimento artístico, Poseidon usufrui do mérito e privilégio provenientes de todo o seu árduo esforço. Tal é refletido na possibilidade de escolher os projetos que melhor se adequam ao rumo pretendido para a sua carreira, um “recuo” necessário para que o brio do seu trabalho não ficasse comprometido com a sua ambição, algo que anteriormente era inexequível. Acrescenta: “Eu também tento focar noutro projetos na minha vida para a Poseidon: sair da boîte e, sei lá, focar numa novela, num filme…, então se tem projetos que eu quero fazer além da boîte, é preciso recuar. Antigamente eu não iria recuar: iria estar na boîte e com esses projetos e eu iria enlouquecer (e me jogar de um prédio de trinta andares)”. Assim, Poseidon catapultou-se do Recife para palcos espalhados pelo mundo. E em cada um deles deixa a sua marca: performances onde o riso é garantido, o glamour é a gosto e a loucura é o charme – pois se antes era ela quem lutava pelo holofote, hoje é ele que não a consegue largar. Com esse percurso, Poseidon deixou de ser meramente mais um nome na noite para ocupar um lugar central no imaginário do público: entre festas, concursos e discotecas, fez com que o seu trabalho ultrapassasse os limites do palco noturno, prolongando-se até à luz do dia e ao horário nobre. Muitas outras questões podem ter mudado com a inevitabilidade temporal, mas Poseidon? Essa é sempre a mesma! Drag Queen ou Rainha do Drag ? No Brasil, a sua carreira foi inicialmente marcada pela participação em inúmeros concursos de drag – palcos onde o pódio raramente lhe escapava e através dos quais começou a dar-se a conhecer ao grande público. A esse percurso juntou-se a residência na discoteca Pink Flamingo, no Rio de Janeiro, espaço que mantém até hoje e que identifica como o primeiro lugar onde sentiu, verdadeiramente, o seu trabalho ser valorizado. Foi também a partir de uma visita familiar que Poseidon teve a sua primeira experiência profissional em Portugal, aproveitando a estadia para explorar palcos deste lado do Atlântico. Confessa, no entanto, que a vivência se revelou difícil: as necessidades financeiras e as condições de trabalho pouco favoráveis marcaram negativamente esse período, ainda que tanto adore o país. Tudo mudou com o Drag Race . A atual Rugirl participou na última edição do Drag Race Brasil , de onde leva a aprendizagem de uma vida, serves imaculados e o terceiro lugar. Ainda assim, não esconde o sentimento agridoce que acompanha este reconhecimento tardio - o de ver a visibilidade surgir associada ao programa, e não aos muitos anos de dedicação anteriores: “É a questão de usar a minha imagem antes de ser uma Rugirl por exemplo…, eu não era valorizada, eu não tinha trabalho… eu trabalhava num lugar que é a Pink Flamingo que me abriu as portas. Eu trabalho lá até hoje, mas as outras boîtes não queriam trabalhar comigo e hoje todo o mundo quer!” Não obstante, o sucesso decorrente do programa levou-a numa tour europeia ao lado de Ruby Nox e Paola Hoffman Van Cartier, também concorrentes desta edição. Em Portugal - incluindo palcos que já conhecia - Poseidon sentiu, desta vez, ser tratada de “outra forma” em relação à sua última experiência, sublinhando a forma como a projeção mediática altera a perceção e valorização do trabalho artístico. Nesta lógica, enfatiza a necessidade de dignificar a carreira de quem trabalha na vida noturna, independentemente da projeção que tenha: “eu estou sendo valorizada agora, mas e se amanhã elas [outras drag queens ] ficarem famosas como eu, vão ser valorizadas também, mas elas têm de ser valorizadas agora, porque a Poseidon de antes é a mesma de agora, só tenho um holofote a mais do que as outras que não estão tendo. Então isso me deixa um pouco triste, porque a valorização dentro da boîte devia ser a mesma – na boîte, SIM, deveria ser tudo o mundo igual”. Apesar dos obstáculos, Poseidon destaca o carinho e apoio dos seus fãs como cruciais para o seu sucesso. Recorda, com emoção, a primeira vez que foi reconhecida na rua: num misto de timidez e felicidade, um empregado de mesa durante um almoço pede-lhe que traga a coroa para “casa”, numa referência simbólica à vitória no Drag Race . Partilha, ainda, o episódio caricato em que foi um fã quem as “libertou” do metro de Lisboa que, à chegada das queens à capital portuguesa, as recebeu com o seu charme tão característico. Brasil e Portugal Separados por um oceano, mas unidos por um amor comum, ambos os países preenchem o coração de Poseidon, que não esconde o seu gosto em trabalhar cá. Para si, acredita que em Portugal (apesar da visão mais conservadora do país em relação ao drag ) existe mais respeito e valorização - especialmente a nível financeiro - e segurança: “eu sinto que aqui consigo viver mais como uma pessoa “normal”, saindo na rua montada (…) as pessoas olham e ficam na delas”. Ainda assim, aponta para a persistente dificuldade em ver as drag queens reconhecidas como artistas completos, para além da lógica de “contratar para ficar no palco”, o que limita irremediavelmente as oportunidades de crescimento profissional no país. Neste sentido, não consegue deixar de realçar o Brasil como público-chave para a sua arte. A maior abertura das redes sociais ao drag facilita a visibilidade e a possibilidade de conseguir ter o seu “grande momento” – algo que considera ainda pouco explorado na Europa, em parte devido à reticência comercial em investir plenamente neste universo: “É que no Brasil tem alguém na porta te recebendo, você paga para ela, tem as drags no salão, tem uma drag no palco, tem drag vendendo bebida. Pink Flamingo, lá no Brasil tem drag em tudo quanto é lado!”. Porém, adiciona que a projeção social nem sempre é acompanhada pelo respeito que as carreiras em drag merecem. Assim, entre os dois países estabelece-se quase uma dança de compensações: se num lado a valorização é sobretudo monetária, mas culturalmente frágil, no outro há reconhecimento simbólico sem o necessário suporte socioeconómico. Drag não é só glitter Por detrás da cortina, o drag nem sempre mantém o ofuscante brilho que lhe é característico: a subvalorização, o desrespeito e a exploração continuam a fazer parte do quotidiano de muitas queens - por vezes, inclusive dentro da própria comunidade LGBT+. Poseidon admite que o preconceito apenas tende a ser atenuado com a fama, algo que lhe causa perplexidade. Para si é algo completamente ininteligível, já que vê as drags como armas poderosas (e escudos) na luta contra a estigmatização, funcionando como verdadeira “porta de entrada” para uma progressiva inclusão: “As drags estão lá à frente junto com as travestis e com as trans… com os gays e com as lésbicas. A gente é a cara da bandeira: a porta da comunidade. Então, como é que você vai desrespeitar alguém que luta para você estar na rua? Isso me deixa muito triste, as pessoas saberem que somos a porta de entrada do mundo LGBT+ e desrespeitarem-nos.”. É de salientar, ainda, que neste meio instalou-se o universo do showbiz , um recinto tão conceitualizado que até ao desrespeito lhe corresponde uma personagem própria. Sob a máscara de ativismo performativo, grandes corporações e detentores de poder capitalizam a popularidade das queens , transformando identidades, lutas e sonhos em mercadoria - e sem nunca devolverem o aplauso digno de quem sustenta o espetáculo. O Pink Money impõe-se como moeda corrente: a visibilidade cultural de um membro da comunidade circula como capital simbólico, convertendo-se em lucro para grandes entidades que, no sonho de um artista, veem simultaneamente uma oportunidade de negócio (e de pontos de moralidade!). A entrega de corpo e alma à sua arte, muitas das vezes inclui uma entrega da sua dignidade: quando quem está no poder não valoriza a cultura pela sua essência, mas sim pelo seu lucro, o sofrimento do artista é o sucesso mais certo. Luta pela Comunidade As confissões de Poseidon levantam uma questão recorrente: por que razão é que, tantas vezes, o trabalho de artistas apenas é verdadeiramente significado após passar pelo grande ecrã? A própria identifica este fenómeno como um dos problemas omnipresentes no mundo do entretenimento, especialmente na vida noturna, que peca por não valorizar de forma equitativa quem o sustenta. Contudo, Poseidon apela à humanidade do público, desmitificando a ideia de que “artista é tudo louco”, afirmando que é esse mesmo “exagero de espetáculo” a única forma de que quem assiste, realmente os veja: “Ahh, as pessoas pensam que eu sou doida e eu não sou doida – drag não é doida. Na minha entrada do programa é exatamente essa metáfora que eu faço: “ah artista é doido”, mas não a gente não é doido, é só esquecido…não é visto. Então, tudo o que é normal para vocês que não é visto como normal na sociedade é visto como doido, é tudo mito. A gente é gente normal!” É precisamente aqui que a noção de humanidade se impõe como central, especialmente na questão da proteção das queens numa sociedade gradativamente mais acentuada sob a falsa pretensão de progresso. A artista reconhece que o estigma em torno do drag é oriundo de um lugar de incompreensão e relutância do outro que - na sua caverna platónica - acaba por sucumbir à intolerância alheia: “Todo o mundo devia ter o direito básico de amar e de ser uma “pessoa normal”: nós não somos monstros e devemos ter os mesmos direitos de uma pessoa que se diz “normal” na sociedade”. Poseidon adiciona ainda como a falta de compaixão contribui para esta visão retrógada da realidade, que tão frequentemente ataca a comunidade – “Se eu tenho pinto, tenho bunda, tenho cabelo todo café igual você…nós somos iguais, todos. Só que eu gosto do mesmo que você – e isso é um problema para você?. Então é esse o direito que a gente devia ter: de casar e amar e foda-se.”. Neste aspeto, a Rugirl relembra a importância de projetos como o Drag Race – um programa realizado pela comunidade e para a comunidade – cuja projeção serve como impulsionador de abertura, mesmo das mentes mais fechadas. Afirma: “É em relação a isso que surge a mensagem que o Drag Race passa: é justamente humanizar o artista e o que a gente passa, te mostrar que eu sou igual a você. Até para quem vê o programa, a gente aparece mais de homem do que de drag – para mostrar que eu passo por situações que você também passa, e que estou ali, superei aquilo tudo para poder estar naquele lugar.”. A essa dimensão coletiva soma-se uma responsabilidade profundamente pessoal. Poseidon assume o desejo de ser exemplo para quem ficou no Brasil, com a intenção de provar que a arte não precisa de permanecer confinada ao estatuto de sonho distante. Acredita, por outro lado, que o sucesso é possível e que o esforço, apesar de tudo, compensa. Assim, não esconde o entusiasmo com a possibilidade de voltar “aonde tudo começou” e encorajar outras queens e artistas independentes a acreditarem em si mesmos - como quem diz que quer “voltar lá e falar: agora vamos todo o mundo!”. Perspetiva Futura A dimensão representativa deixa de habitar apenas o território da inspiração e impõe-se, com peso e consciência, na vida e na carreira da artista. Poseidon não esconde o desejo de se aventurar por novos projetos que a desafiem, mostrando-se aberta a descobrir diferentes formas de se projetar no mundo cultural. Da televisão — e do fabuloso universo do reality TV e das telenovelas — ao cinema e, como seria de esperar, ao teatro, a artista acolhe a multiplicidade de palcos com curiosidade e ambição. Bravo Final Espírito (quase) indomável, Poseidon é o alter ego de um jovem menino gay que em si encontrou a sua expressão mais autêntica. É a manifestação mais genuína de como a arte, quando pulsante, dificilmente consegue ficar adormecida. É um grito de coragem contra o medo e o preconceito. A voz de quem sonha – e sabe – que há sempre lugar para mais um… para todos. Força livre da natureza, Poseidon encanta quem a assiste: o brilho dos seus olhos inspira qualquer um, conectando-se com o interior mais íntimo de cada pessoa e trazendo-o à superfície num gesto de libertação conjunta. Se o universo artístico é uma grande ostra, Poseidon será decerto a sua preciosa pérola. Para quem não se consegue segurar na sua curiosidade, recomendamos visitar a sua página do Instagra m ou até mesmo aventurar-se numa maratona da segunda temporada do Drag Race Brasil (disponível na plataforma WOW Present Plus). Fotografias: Poseidon Drag
- Tic tac toc
rezo, acendo uma vela três batidas de cautela pergunto se já pensaste naquilo que me tornaste passado que podia ser meu que roubaste e que foi teu pergunto se já pensaste naquilo que me tornaste de luto e de preto vestido pela vida que podia ter tido pergunto se já pensaste naquilo que me tornaste nem eu bem sei naquilo que me tornei gostava de acreditar naquilo que me estou a tornar
- Direito ao Ponto com Francisco Pereira Coutinho: Ataque dos EUA à Venezuela
Quais são os precedentes internacionais relevantes que podem ser invocados à luz da atual situação Venezuela–EUA e, tendo em conta a Carta das Nações Unidas e o princípio da proibição do uso da força entre Estados, como se avalia juridicamente uma intervenção militar como a recente ação norte-americana na Venezuela (captura de Maduro e ocupação transitória)? Os precedentes mais próximos são as intervenções soviética no Afeganistão (1979) e americana no Panamá (1989), ainda no tempo da Guerra Fria. No Afeganistão, forças especiais da URSS assaltaram o palácio presidencial em Cabul e mataram o presidente Hafizullah Amin, instalando de seguida um governo fantoche. A URSS justificou a intervenção como assistência militar prestada a pedido das autoridades afegãs. Foi o início do “Vietname soviético”. No Panamá, em 1989, os EUA intervieram militarmente, depuseram Manuel Noriega e levaram-no para julgamento nos Estados Unidos; tal como hoje se invoca quanto a Maduro, Noriega era alvo de acusações e de um mandado de detenção por crimes de narcotráfico. A Administração Bush invocou, além disso, legítima defesa, a proteção de nacionais, a defesa da democracia/direitos humanos, e a violação dos tratados bilaterais sobre o Canal do Panamá. No caso venezuelano, a justificação avançada pelos americanos baseia-se no cumprimento de um mandado de detenção emitido por um tribunal federal americano e no acesso aos recursos naturais da Venezuela. Em todos estes casos, porém, estamos perante violações da regra imperativa da proibição do uso da força. Tratam-se de atos de agressão e de uma ingerência ilícita nos assuntos internos de outros Estados. Extraordinariamente, no caso venezuelano, não houve sequer uma preocupação em invocar, de forma fundada, uma exceção à regra com base no direito internacional. Quais são as condições estritas e reconhecidas pelo direito internacional que poderiam justificar o uso da força em território estrangeiro – e em que medida alguma delas se aplica ou não ao caso venezuelano, incluindo o recurso a pretextos como “narco-terrorismo”, “ameaça à segurança” ou “restauração da democracia”? O direito internacional apenas admite o uso da força mediante autorização explícita do Conselho de Segurança das Nações Unidas, consentimento do Estado territorial (por autoridades competentes e sem coação) e no exercício do direito de legítima defesa individual ou coletiva, em resposta a um ataque armado. Nenhuma destas hipóteses foi sequer articulada no caso venezuelano. A captura de um chefe de Estado fora do seu país por forças estrangeiras pode ser qualificada como um ato de crime de agressão à luz do Estatuto de Roma e de outras normas internacionais, e em que circunstâncias uma ação militar ou bloqueio económico podem gerar responsabilidade internacional e obrigação de reparação por danos materiais e humanos, bem como responsabilidades políticas e jurídicas do Estado interventor, como os EUA, especialmente quando a operação tem severas consequências humanitárias? À luz do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, a qualificação penal de uma operação militar como a ocorrida na Venezuela como crime de agressão é, em tese, possível quando há um ato de agressão que constitua uma violação manifesta da Carta das Nações Unidas. Mas a jurisdição do Tribunal Penal Internacional para o crime de agressão é particularmente limitada, dependendo, em situações deste tipo, de um pedido do Conselho de Segurança. É precisamente por isso que, no caso da Ucrânia, apesar de existir mandado contra Putin, ele respeita a crimes de guerra (e não ao crime de agressão). A responsabilidade internacional do Estado opera num plano distinto: se houver violação do direito internacional, o Estado responsável tem o dever de reparação integral. Se a operação militar gerar consequências humanitárias graves, podem somar-se violações do direito internacional humanitário. Até que ponto a estratégia de sanções económicas e bloqueios navais, incluindo a interceção de petroleiros venezuelanos, se encontra em conformidade com o direito internacional, em particular com as normas sobre bloqueios e liberdade de navegação, e pode um Estado impor sanções unilaterais com efeitos extraterritoriais sem violar princípios fundamentais como a soberania e a não intervenção? O direito internacional do mar assenta no princípio da liberdade de navegação. Fora de um contexto de conflito armado, a interceção de navios é, em regra, ilícita, salvo quando haja suspeita de pirataria ou quando o navio esteja sem pavilhão. Já o bloqueio naval é uma figura típica do direito dos conflitos armados, sujeita a condições muito estritas, que pressupõem um quadro de beligerância que não existe. A definição de agressão da Assembleia Geral qualifica, inclusivamente, como ato de agressão o bloqueio dos portos ou costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado. Quanto às sanções unilaterais com efeitos extraterritoriais, a sua compatibilidade com o direito internacional é problemática quando visam coagir escolhas políticas internas, salvo se cumprirem o regime das contramedidas. Como se analisa, sob a ótica do direito internacional, a questão do reconhecimento de governos quando um Estado terceiro tenta impor uma transição de poder ou administrar temporariamente um país, e qual é o efeito jurídico internacional de reconhecer um governo interino sem consenso interno ou sem resolução internacional legítima – podendo a designação, por um país estrangeiro, de líderes alternativos ou de uma transição política (por exemplo, substituição de Maduro por outros representantes) ter alguma base legal internacional ou tratar-se de interferência inaceitável na autodeterminação dos povos? O reconhecimento é um ato político. É livre salvo quando surge associado à violação de normas imperativas ( jus cogens ). No caso em apreço, os Estados Unidos terão condicionado o reconhecimento à adoção de políticas que lhes sejam favoráveis, sob ameaça de uso de meios militares projetados a partir do mar das Caraíbas. Isso configura uma violação da proibição da ameaça do uso da força e uma ingerência ilícita nos assuntos internos venezuelanos. Acresce que práticas predatórias sobre recursos naturais colidem com o princípio da autodeterminação e com a soberania permanente sobre os recursos naturais, que deve ser exercida no interesse exclusivo do povo venezuelano.
- Devaneio
No dia 6 de novembro de 2025, o Jur.nal esteve na Casa do Comum com os Devaneio, uma das bandas emergentes mais singulares da música alternativa portuguesa. Entre memórias, processos e inquietações, o trio revisitou a sua origem, a construção estética que tem vindo a definir a sua identidade musical e a forma como convertem tensão em criação. Quem são os Devaneio? Formados em outubro de 2023, os Devaneio nasceram na Margem Sul e juntam "Joe" - voz, composição e bateria -, Margarida “Manga” - guitarra e voz - e Petko - baixo e fotógrafo profissional. "Joe" e Petko já partilhavam terreno no cenário musical de Setúbal quando se cruzaram com Margarida, então integrante de aboiband, a sua primeira banda. O encontro deu-se no ambiente cruzado das bandas locais e, a partir daí, a formação tornou-se inevitável: primeiro jams soltas, depois demos trocadas entre quartos e salas de ensaio, até que as primeiras canções começaram a ganhar forma. O primeiro nome, “Alucinação Coletiva", acabou por ser substituído por Devaneio - termo sugerido pelo guitarrista Rodrigo Lopes, antigo membro da banda. Assim, o que começou como uma palavra solta profetizou um diagnóstico e manifesto, descrevendo a forma como o trio cria, vive e observa o seu próprio lugar no mundo artístico: entre impulsos, deriva e imaginação. Influências artísticas Durante a fase inicial - sobretudo nos dois primeiros EPs - os Devaneio descrevem o seu som como “bossa nova punk”, um ponto de partida que continua presente na sua música, mesmo depois de explorarem outros géneros e estilos no álbum Sublime . As influências que reconhecem mais abertamente - Manel Cruz e Boogarins - ajudam a situar o seu território estético, entre introspeção poética e psicadelismo desconstruído. Ainda assim, a banda insiste que o essencial está na mutabilidade: “Estás sempre a mudar um bocado as influências; todos os sons estão sempre um bocado diferentes uns dos outros”, disse "Joe". É nessa polivalência que constroem um universo onde a bossa nova convive com o punk , a eletrónica se enlaça ao rock e a poesia íntima se cruza com um sarcasmo feroz. Ouvir Devaneio é mergulhar numa paisagem emocional mais do que num género musical específico. O som oscila entre melancolia e agressividade, groove e beleza, quase sempre marcado por uma dramaticidade que é fruto tanto da introspeção como de uma sensibilidade claramente cinematográfica. Ao longo das faixas, fazem-se notar tensões prolongadas, contrastes bruscos, silêncios densos e explosões emocionantes. Essa estética estende-se também ao material gráfico. A capa do álbum Sublime , construída a partir de nove edições da capa dos singles “Nuvem” e "No Final"- fotografia captada por Petko - funciona como um rolo de filme fragmentado, evidenciando a influência do cinema no processo criativo da banda. EPs O primeiro EP, Terapia Alternativa , expõe a banda no seu estado mais cru. O trio afirma que este projeto funcionou como um exercício expurgador, tal como o nome sugere: muitas das letras surgiram num fluxo quase automático, sem grande edição, transformando em matéria sonora a sua turbulência interior - produto de um frenesim de emoções, conflitos interiores, estados e hábitos decadentes. Entre faixas como “Arte é uma necessidade”, “Justificação” ou “Aziado” (videoclipe disponível no YouTube ), Terapia Alternativa abre uma janela onde a sensação de desperdício, o medo de “passar a vida a anhar”, o delírio e e ansiedade entram e saem sem filtros. Seguiu-se Todo o Meu Tempo , um EP que explora o desgaste da repetição e a impressão de que, por mais que se tente aprender e sair do ponto estagnante, a vida insiste em regressar ao mesmo lugar - num loop profundamente paradoxal entre “ter vontade e ficar sempre a moer”. Desta forma, músicas como “Rotina do Passa” ou “Na Merda” espelham esse labirinto emocional, enquanto o EP mistura bossa nova punk , eletrónica distorcida e impulsos psicadélicos. Adicionalmente, o título deste projeto liga-se diretamente à canção homónima, que explora simultaneamente paixão e ausência numa envolvência de urgência. Álbum - Sublime Publicado a 24 de outubro do ano passado, Sublime , representa a fase mais expansiva dos Devaneio - o lugar onde tudo o que tinham experimentado até então se consolida e se multiplica. O disco reúne inquietações, frustrações, crítica social e vulnerabilidade, moldando-as numa convivência improvável entre suavidade, alucinação, apatia e ruído. Sublime assume também um certo carácter cronológico: parte das faixas são composições antigas, resgatadas e reinventadas, que a banda não queria deixar estagnar. Tal gesto acabou por ampliar o espectro sonoro do álbum, explicando o seu carácter heterogéneo - um laboratório onde convivem punk , bossa nova desconstruída, funk-rock abrasivo, eletrónica experimental e grooves hipnóticos. O experimentalismo instrumental ganha destaque em faixas como “Psicose Teknológica” - atravessada por uma energia eletrónica quase maquinal - e em “606” - uma paisagem densa e totalmente instrumental nascida, segundo a banda, de uma fase “marada” onde comunicavam mais a tocar do que a falar. Entre as músicas há ainda espaço para algumas mensagens subtis e quase ocultas, que reforçam o carácter multifacetado do disco, como em “Songa-monga (Mango Song)” - a primeira composição de Margarida “Manga” para a banda - ou em “0202”, que traduz os acordes usados na sua conceção. Quando questionados sobre o título do disco, riem: “Era isso ou Suculento” - uma referência a um billboard de um restaurante de buffet em Palmela que encontravam repetidamente durante o processo de criação, um fragmento de realidade tão absurdo quanto o seu humor. Sublime ficou, desta forma, pelo seu sentido poético, como puro devaneio sublime. Uma geração à deriva Ainda que a banda tenha músicas e estilos para todas as idades, os temas que atravessam Sublime retratam um sentimento coletivo de deriva - um diagnóstico de uma geração que tenta existir num tempo sem mapas nem instruções. Assim, os Devaneio dão voz a uma juventude adulta presa entre saturação digital (“Fdz o Insta”); ausência de rumo (“À Deriva”); ansiedade existencial (“Meio Frango na Grelha Só Leva um Alho”); decisões acumuladas entre inércia (“0202”), e a procura incessante de sentido (“O Caminho do Ser”, “Pedir Muito”), entre outras temáticas. A condição de artistas emergentes em Portugal Questionados sobre o cenário artístico nacional, não hesitam: “Falta apoio, faltam espaços, falta abertura para quem está a começar. Muitas vezes pedem para tocar baixinho, ou preferem que faças covers. Não há lugar para experimentação”. Ainda assim, em vez de cederem a este desencanto, respondem criativamente. Um exemplo da transmutação da sua frustração em música é a faixa “Não Vales um Cu”, incluída no álbum, onde a banda confronta diretamente o desinteresse institucional e social pela arte. Neste sentido, o próprio grupo reconhece que, para eles, criar é igualmente um gesto de resistência num cenário em que a arte é frequentemente tratada como ruído suplementar. É neste território que surge a intenção dos Devaneio perante o público: provocar consciência, inquietação e até um certo desconforto. “Devaneio é tipo... baza experimentar estilo que choca as pessoas”, afirmam. Palco e futuro Com mais de quinze concertos ao vivo desde a sua formação, os Devaneio afirmam-se no panorama independente com performances cruas e imprevisíveis. A força da banda reside na forma como articulam mistura, risco e intenção, sendo cada faixa um exercício de experimentação consciente, e cada atuação uma extensão física da sua inquietação criativa. Quanto ao futuro, não traçam planos rígidos, mas revelam ambicionar criar mais músicas em que experimentam ao máximo diversos estilos e géneros, entrando ainda mais a fundo no contexto pluridimensional artístico. Para quem quiser acompanhar de perto este percurso - e testemunhar ao vivo a imprevisibilidade que tanto os define - a banda atua dia 18 de janeiro na Fábrica de Alternativas (Algés), com entrada livre. As restantes atualizações estão disponíveis no Instagram e no Spotify . Fotografias: Devaneio
- Eleições Presidenciais
A partir de quando é que deixámos de ter critérios na escolha de um candidato para Presidente da República? Mais um mandato completo, mais uma eleição. No próximo dia 18 de janeiro, os portugueses enfrentam um desafio não tão simples quanto aparenta ser. Os eleitores não só têm a oportunidade de eleger o Presidente da República, como podem decidir um novo rumo e uma nova “cultura política “no nosso país. Portugal, país do Fado e de típicas praias. País de arte, de cultura, de desporto e de grandes navegadores. A nossa pátria habita, sim, na madrugada “inteira e limpa”, emergida e resplandecida na democracia que coloriu um silêncio que assombrava há muito uma sociedade. Esta ausência de cor não está presa aos livros de História. Verifica-se na disseminação de fake news , nos discursos populistas e na população, que amedrontada, deixa de se expressar. É neste perigo que nos ameaça, que sabemos que “o que faz falta é avisar a malta” sobre as eleições de 2026. Estas eleições assemelham-se particularmente às presidenciais de 1986. Uma grande polarização entre a esquerda (encabeçada pelo Dr. Mário Soares) e a direita (protagonizada por Diogo Freitas do Amaral). Um medo absurdo de voltar ao passado sombrio, que requer a união de todos os democratas. Contudo, nenhum candidato à esquerda é Mário Soares do século XXI, e nenhum candidato à direita apresenta a transparência de Freitas do Amaral. Nos dias de hoje, da esquerda à direita, o catálogo de opções, ainda que vasto, não agrada à maioria, na medida em que as facções políticas tradicionais têm vindo a perder a sua identidade ao longo dos anos. Para o eleitorado de direita são várias as opções, desde ao líder do CHEGA, André Ventura, ao cabeça de lista das passadas europeias pela IL, João Cotrim de Figueiredo, ao candidato mais tradicional apoiado pelo Partido Social Democrata e pelo CDS-PP, Luís Marques Mendes. Para além disso, encontramos um candidato que se situa “ao centro”: “entre a social-democracia e o socialismo”, o Almirante Gouveia e Melo. Embora a esquerda tenha perdido força nas últimas legislativas, não tardou em fazer a sua habitual divisão, como fizera também em 86 entre Zenha e Soares. Nestas presidenciais encontramos, essencialmente, quatro candidatos que se situam à esquerda no espectro político: desde António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido socialista; António Filipe, ex-presidente de mesa da Assembleia da República; Catarina Martins ex-líder do Bloco de esquerda e Jorge Pinto, deputado pelo Livre. Quando me deparei com a lista de dez candidatos à Presidência da República, tive de decidir não o melhor candidato, mas o que tem menos falhas, o que me leva a questionar “A partir de que momento é que deixou de haver critérios, definidos socialmente, para a candidatura a Presidente da República?” Inicialmente, apercebi-me que uma das características que mais se tem vindo a perder na esfera política é o espírito de “sentido de estado” . Um Presidente zela por todos, independentemente de serem ricos, pobres, mulheres, homens, do litoral ou do interior. Ao Presidente acresce-lhe a responsabilidade de representar diplomaticamente o nosso país, chefiando as forças armadas, mediando as guerras políticas e a “cultura de trincheiras” , que se instaurou no país. Por essa razão, excluo automaticamente André Ventura, pelas suas posições intransigentes perante o Presidente angolano e o Presidente brasileiro; Catarina Martins e António Filipe por se afastarem do modelo de valores europeus que residem na nossa Constituição da República e Jorge Pinto, por ainda não ter experiência mediadora suficiente para um cargo de tamanha importância. Deste modo sobram de maneira geral quatro candidatos que se vão aproximando do centro democrático: Almirante Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo, Luís Marques Mendes e, por fim, António José Seguro. No último debate realizado, entre Luís Marques Mendes e Almirante Gouveia e Melo, apercebi-me exatamente dos dois modelos de presidente que Portugal não deve eleger para assegurar a estabilidade. Por um lado, o candidato da continuidade : que ainda que experiente, viveu toda a sua vida na política ou no lobbying e que admite proceder de forma semelhante a Marcelo Rebelo de Sousa em casos futuros (Luís Marques Mendes) e por outro, o candidato da rutura , que com o seu espírito colérico e intempestivo acredita que a mudança em Portugal se faz fora do sistema e não com o melhor que o sistema tem. Com isto, da esquerda à direita existem dois candidatos que se destacam pela sua singularidade. Em primeiro lugar, João Cotrim de Figueiredo que embora muito ideológico, é um candidato prático e terra-a-terra, crescendo imenso através do seu marketing brilhante que conquista os mais jovens nas redes sociais. Porém, a Cotrim falta-lhe a empatia e a defesa do elevador social que carecem no seu discurso ainda muito liberal. O ex-líder da IL é certamente ambicioso e trabalhador, mas ainda é preciso mais para se ser Presidente. E é por isto que António José Seguro, ainda que seja conotado por muitos como “mais um herdeiro do Partido socialista” , é exatamente o meu modelo de político . Pautado pelo humanismo, pela seriedade e pela transparência, Seguro é figura humilde, que não tem medo de defender convictamente a justiça social, mas de forma coerente e acima de tudo responsável . Realço, então, o seu “sentido de estado” , principalmente na Troika, onde sacrificou os interesses do eleitorado do Partido socialista, para garantir a credibilidade do nosso país. Deste modo, Seguro é verdadeiramente um candidato abrangente, apoiado pelo partido que o formou, por figuras mais à esquerda e por alguns eleitores de centro-direita, onde me enquadro. E por essa razão, é necessária a união de todos os democratas, da esquerda à direita, em torno desta candidatura. Isto é fulcral porque o passado conta-nos que a hegemonia de um partido em todos os órgãos de soberania origina ausências no escrutínio e no progresso social. Por isso, na dúvida prefiro jogar pelo seguro a arriscar e dar um tiro no escuro e ter o azar de votar num fator de instabilidade, num compassivo com radicalismos ou num candidato que serve um partido e não os portugueses. Desta forma, não devemos meter os ovos todos no mesmo cesto, já que quem sofrerá não será o cesto, mas quem lá colocou os ovos.
- Flor Girino
No dia 20 de novembro de 2025, o Jur.nal encontrou-se na Padaria Portuguesa do Cais de Sodré com Lucas Calheiros, vocalista e guitarrista principal dos Flor Girino. A banda, ainda emergente mas já marcada por um imaginário próprio, refletiu sobre o seu percurso, as metamorfoses que os definem e a forma como convertem esses estados liminares em música. Quem são os Flor Girino? Tudo começou em 2020/2021, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), quando Lucas Calheiros conheceu Matilde Ho “Mati”, futura baterista. A ideia de tocarem juntos ganhou forma ao convidarem Bruno para o baixo e, pouco depois, Tony para a guitarra. Com o tempo, a formação foi mudando: Bruno foi substituído por Gabriel Cerutti e “Jaca”, sem guitarra para esquerdinos, passou para o teclado, aprendendo à medida que se integrava na banda. Com Tony ainda na guitarra, estrearam as primeiras músicas em concertos na FLUL e depois em bares de Lisboa e das Caldas da Rainha, onde começaram a consolidar o quarteto que viria a ser a formação atual dos Flor Girino. Antes de Flor Girino, passaram por nomes como “Petricor” - o aroma causado pela chuva - e “21 Gramas” - uma referência ao filme sobre o peso da alma. Porém, esses nomes acabaram por ser descartados. Assim, na preparação do seu primeiro concerto, recorreram a um gerador de palavras que concebeu opções como Flor Girino, Pose Colapso, Trigo Côncavo e Perfume Cinza - e o resto já se sabe. Unir flor e girino - delicadeza e viscosidade, luz e transfiguração - foi involuntariamente perfeito. Cada membro encontrou um reflexo pessoal: natureza, sustentabilidade, ruralidade e descontinuidade. Por conseguinte, este antagonismo entre graciosidade e grotesco percorre letras, sonoridades e atmosferas, moldando o paradigma artístico da banda: crescer na lama para florescer. Influências artísticas Ainda que brotem do solo do rock , os Flor Girino nadam num charco sonoro onde a palavra género chega sempre tarde demais. Lucas descreve a banda como rock alternativo “por falta de melhor”, mas vê nesse rótulo apenas uma antecâmara para um território mais mutante. A sua música alterna euforia e nostalgia, dissolve-se em momentos sublimes e irrompe em explosões súbitas, como se cada faixa atravessasse várias fases de uma mutação interna. Se tivessem de escolher referências, talvez falassem de um rock alternativo contaminado por impulsos progressivos, por um psicadelismo frenético e por um glam primordial que ecoa Bowie. No entanto, tudo isto continua a ser apenas superfície - a corrente subterrânea do seu trabalho é a versatilidade: camadas que se enrolam umas nas outras, atmosferas densas em espiral e composições que se constroem mais ao nível da sensação intuitiva do que da estrutura formal. Essa pluralidade estética nasce também da mistura de interesses de cada membro. Lucas e “Mati” partilham a admiração pelos Smashing Pumpkins; Lucas junta-lhe o shoegaze , o rock alternativo com influência punk e indie rock dos anos 2000. “Mati” traz ecos de soul , R&B e blues ; Cerutti injeta a energia abrasiva do pop‑punk brasileiro; e “Jaca” cruza referências de indie pop , indie rock dos anos 2000, eletrónica e videojogos, inteligíveis nas texturas melódicas nos teclados. Esta disparidade de referências musicais acaba por trazer maior força criativa - em vez de um estilo único, a banda cria um ecossistema sonoro incomparável. Além da música, há um imaginário conceptual inerente: cinema, literatura, poesia e filosofia alimentam o seu universo. Ecos de David Lynch, William Burroughs, António Maria Lisboa, Mário Cesariny e Schopenhauer (entre outros) percorrem silenciosamente o seu trabalho, insinuando-se nas escolhas de forma, ritmo e sensação, como sombras que se alongam. Do surrealismo, bebem a liberdade de narrativas oníricas; do grotesco, o gosto pela ferida simbólica e a capacidade de transformar o corpo e o sensorial em metáfora; da filosofia, a perceção de que a realidade se desdobra sempre em camadas de ilusão. A exploração estética dos Flor Girino também vive na relação entre música e imagem. Lucas explica que a banda sempre procurou “transferir o universo das letras e do som para o visual”, criando um microcosmos próprio onde o etéreo, a estranheza e a intensidade coexistem como uma mesma língua. Esse fio condutor atravessa capas, videoclipes e ambientes sonoros: as capas dos primeiros singles surgiram a partir de fotografias manipuladas pela própria banda, enquanto a capa do álbum e dos singles integrantes deste foram concebidos em colaboração com Pedro Ho, irmão de “Mati”. Processo criativo Criar dentro dos Flor Girino implica vulnerabilidade - mas também uma espécie de disciplina afetiva. A banda compõe num regime de experimentação fluida e contínua, onde cada membro traz impulsos que nem sempre encaixam à primeira. Às vezes o ensaio é um puzzle; outras, uma colisão. Mas o vínculo entre os quatro permite que esse processo, potencialmente fraturante, se transforme num lugar de construção. “Temos a sorte de sermos muito amigos”, diz Lucas. É essa amizade que permite negociar ideias difíceis, abandonar partes de músicas que adoravam e distinguir entre aquilo que funciona para a banda a tocar e aquilo que funciona para o ouvinte a ouvir. Destaca-se a faixa “Avião 4512”, que originalmente tinha doze minutos e foi reduzida para metade. O surrealismo das letras nasce frequentemente de estados inconscientes. Como explica Lucas: “Às vezes escrevemos e só depois percebemos que descrevemos algo que estávamos a sentir”. O processo de composição é, assim, quase biológico, com a música e as palavras a crescer como organismos vivos. E é nesse interstício - entre sonho, charco e febre - que se articula a coerência estética e narrativa do projeto. Singles Antes de Charcolepsia , o grupo foi descobrindo o seu território através de singles que funcionaram como ensaios de identidade: “Corvos” foi o seu primeiro lançamento - entretanto retirado do Spotify para futura regravação, “melhor executada e melhor produzida”, como sublinha Lucas, que faz ainda questão de agradecer a Sara Silva, “a pessoa sem a qual teria sido impossível lançarmos música pela primeira vez” -, onde já se pressentia o fascínio pela viscosidade imagética e pela resistência bruta. Seguiu-se “Lixívia”, composta por Lucas ainda antes da existência da banda e cuja versão original permanece disponível no SoundCloud - uma dissolução elegíaca, onde tudo parece ruir por dentro. “Cálcio” adensa esse delírio: lógicas ordenhadas até à exaustão, metais que minguam ao calor e materiais que se confundem como num sonho químico em combustão. “Praia Dançante”, “Grilo Grávido” e “Fonte de Gesso”, lançados antes mas incorporados no álbum, acenderam os primeiros vestígios da narrativa incandescentemente ácida que consolidaria Charcolepsia . Cada um destes singles ganhou corpo visual, contando com videoclipes disponíveis no YouTube - peças que, funcionando como extensões sensoriais do universo da banda, montam o puzzle flor-giriniano. Álbum - Charco plepsia Lançado dia 14 de março de 2025, Charcolepsia é um mergulho no inconsciente, uma exploração de imagens absurdas e sensações físicas que atravessam o corpo e a alma. O título - um trocadilho em “charco” e “narcolepsia” - materializa a intenção de criar um universo onde o ouvinte oscila entre vigília e sonho, num estado de consciência incerto. As músicas transitam entre violência imagética, poesia surreal e momentos instrumentais contemplativos. Como explica Lucas, “há uma narrativa, mas não necessariamente linear - é como se alguém apagasse e acordasse em certos tipos de momentos, sem decidir em que tempo da sua consciência está”. Faixas como “Espião” e “Riachos”, que separam ou silenciam a voz, mostram a importância do silêncio na experiência do álbum, permitindo ao ouvinte escolher como se aproxima da música e reforçando a dimensão quase pós-vida de algumas composições, destacando-se “180 (e cinco)”. O álbum traz várias inspirações literárias e contemplativas, sublinhando-se, por exemplo, “Avião 4512”, fortemente inspirado em Alice no País das Maravilhas , que incorpora frases quase literais como “Londres é a capital de Paris”. A faixa aborda a sensação de impostor na própria vida e a experiência de queda constante - um reflexo da dificuldade de “aterrar” na existência -, havendo ao longo da faixa a sensação paradoxal de queda e aceleração. “Espião”, por sua vez, é baseado num hexagrama do I Ching , reforçando a temática da vulnerabilidade e do sentimento de deslocamento. A exploração de conceitos filosóficos também marca Charcolepsia . Em “Véu de Maya”, refletem sobre ideias e ilusões da realidade, inspirada por Schopenhauer e pelo hinduísmo, mas trabalhada como matéria poética. No que toca às letras, algumas nascem de experiências concretas: a segunda parte de “Grilo Grávido”, por exemplo, surgiu quando “Jaca” pisou um ancinho, espetando-se no pé, episódio que inspirou o verso final da faixa; já outras emergem do fascínio pelo sombrio e sensorial, metaforizando-se sensações de fragmentação (primeira parte de “Grilo Grávido”) e sufoco (“Chuva Ácida”), entre tantas outras. Esta fusão real-imaginário reforça a hibridez surrealista do álbum, levando o ouvinte a uma viagem psicadélica pela mente e sonho. A condição de artistas emergentes em Portugal Ser artista emergente em Portugal exige navegar entre oportunidades dispersas e limitações estruturais. Lisboa oferece uma audiência recetiva e apoio significativo, mas os espaços para atuação vão-se tornando cada vez mais escassos. Lucas refere: “Alguns dos que têm mais recursos dão menos valor às bandas emergentes, enquanto outros com menos meios cuidam mais do evento e da escolha dos artistas”. No contexto destas dificuldades, os Flor Girino procuram manter a sua coerência artística, um equilíbrio entre experimentação e identidade própria, onde cada decisão - musical ou estética - reflete a sua maneira singular de abordar a criação, com pequenas fissuras que desafiam convenções e expectativas. A banda reconhece que estar presente neste contexto lhes permite, de forma natural, apontar para dissonâncias ou injustiças que observam - não como último manifesto, mas como consequência do lugar que ocupam. Palco e Futuro O palco é para os Flor Girino onde a sua música se materializa e se transmuta em êxtase coletiva. Vários concertos marcaram a banda, como a atuação de estreia do Arraial do Instituto Superior Técnico (IST) em 2024, e a abertura para os Ornatos Violeta nas festas de Oeiras do ano passado, um concerto que exigiu adaptação e um novo rigor na preparação do espetáculo. Esse cuidado com a performance tem sido acompanhado por um registo visual crescente: além dos videoclipes, a banda documenta também o seu percurso ao vivo - como no vlog e no vídeo do concerto com os Ornatos -, disponível no YouTube. Quanto ao futuro, os Flor Girino pretendem expandir-se e experimentar mais, explorando estruturas musicais menos convencionais e novos formatos de composição. Já trabalham em faixas novas e entraram no processo de gravação, ainda sem definir se o próximo lançamento será um conjunto de singles , um EP ou um novo álbum. O que permanece constante é a vontade de continuar a desafiar-se - de distorcer, metamorfosear e sinestesiar. No imediato, a banda sobe ao palco do Tokyo Lisboa no dia 17 de janeiro, numa noite partilhada com Folívora, Lesma, Pangeia e Prisão Platão. Para quem quiser seguir de perto este projeto em curso - e entrar num universo onde o delírio se torna linguagem - as novidades da banda continuam a surgir nos seus palcos e plataformas - Instagram e Spotify -, onde os Flor Girino vão deixando rasto do que está por vir. Fotografias: Flor Girino
- Prisão Platão
No dia 9 de novembro de 2025, o Jur.nal esteve no Quiosque dos Coruchéus com os Prisão Platão. Entre pulsão, rutura e construção coletiva, a banda emergente lisboeta falou sobre a sua formação, a sua ética criativa e o lançamento iminente do seu EP, ponto de ignição de um projeto simultaneamente introspetivo e interativo. Quem são os Prisão Platão? A banda surgiu em 2021, a partir de aproximações sucessivas e de um contacto constante com a música ao vivo. O núcleo inicial - Francisco Gallis “Fran” (voz, guitarra e composição) e Tiago Lisboa “Lisboa” (baixo) - deu-se na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT), num contexto ainda marcado por experiências paralelas na guitarra e na bateria. Mais tarde o grupo consolidou a sua identidade e ajustou a formação, com Gonçalo Gamas “Gamas” na bateria e Francisco Adónis “Adónis” como guitarrista principal. O nome Prisão Platão ressoa como um riff imaculável: duas palavras em P, rimadas, simétricas em sílabas e letras, pulsando música por si só, com ecos inerentes de rock português na génese. O seu paradigma, ainda assim, reside em deixar o significado à deriva na maresia de interpretações dos ouvintes. Influências artísticas Prisão Platão apresenta-se como uma banda de rock alternativo, marcada por impulsos de funk , post-punk e new wave - não como etiquetas fixas, mas como matérias de fricção estilística. No contexto do rock português, a associação aos Ornatos Violeta surge de forma quase inevitável. Foi a partir desse imaginário - e, em particular, do verso da canção “Punk Moda Funk”, “o punk moda funk um dia vai voltar” - que surgiu a questão sobre se essa ideia de retorno atravessaria a música do grupo. A sua resposta foi clara: para eles, esse regresso não está por cumprir - a sua força motriz reside na procura de um novo funk , atravessado por uma base mais rock e por uma urgência contemporânea. Emergem ainda referências como The Doors, David Bowie ou Velvet Underground, influências que pertencem sobretudo ao estilo individual, sendo a partir dos contrastes de géneros musicais que nasce a identidade sonora da banda: cada membro traz um repertório próprio, nem sempre inteligível à superfície, mas determinante na forma de evolução do projeto. O grupo, envolvido numa conjuntura em mutação estilística, concebe um som idiossincrático que, como reconhecem, acaba por “soar a Platão”. Processo Criativo Para os Prisão Platão criar é negociação constante - entre vontades, tempos e sensibilidades -, um exercício orgânico mas exigente que comparam a um “casamento poliamoroso entre quatro gajos extremamente hormonais e apaixonados por aquilo que fazem”. As suas canções nascem de uma necessidade interna, de músicas que gostariam de ouvir e que ainda não existem fora do seu universo. A composição arranca pelo som e energia, encaixando-se no que já existe, assumindo-se mais como extensão sensorial do que como chave interpretativa. A letra deixa o sentido sem dilucidação para que o ouvinte se debruce ativamente, o que amplifica a sua imersão sonora. A parte mais desafiante? O tempo que tudo leva: conciliar ritmos e visões enquanto a gaveta transborda de material novo, ansioso por sair, sendo nesse equilíbrio inquietante que o EP vindouro emerge com força - não como rutura total com os projetos anteriores, mas como a sua própria era. “O som evoluiu”, dizem, fundindo intenção, escrita e som num território único. Singles Até agora, o percurso da banda tem sido marcado por três singles lançados em 2023. “Novo Mundo” surge como ponto de viragem: em constante mutação, fixa-se na coexistência de perda, confronto com o desconhecido e reconstrução, num processo de resiliência e passagem. “Melodia Mordomia”, mais densa e poética, percorre críticas sociais e imagens ambíguas. Já “Funkomania” - pensada para o movimento - desloca-se para o corpo, afirmando-se em concerto como uma plena libertação coletiva que vibra em palco e plateia, sendo descrita como “uma música para a malta mexer, para dançar”. Surge ainda “Paciência”, uma das faixas mais antigas da coleção que, ainda não tendo edição oficial, é das mais reconhecidas ao vivo, ganhando um carácter quase ritual com a repetição incessante de “tem paciência”. “É um mantra”, explicam, “ uma frase dita vezes suficientes até se tornar verdade”. Hoje, a banda sente estes singles como marcas de uma era já finda. Nesse aspeto, confessam estarem “presos à era dos singles ” - uma etapa necessária que abriu caminho, mas agora eclipsada pela vastidão narrativa e conceitual do EP que lateja no horizonte. EP Descrito pela banda como a história do “lento caminhar da civilização à selva”, este projeto constitui o primeiro gesto verdadeiramente coeso dos Prisão Platão. Mais do que uma coleção de faixas, apresenta-se como um percurso narrativo conduzido por um sujeito poético único, cuja vida civil vai sendo progressivamente corroída - afastando-se da tecnologia e do quotidiano urbano - até entrar num estado de selvajaria, tanto concreta como metaforicamente. Esta narrativa desenvolve-se a partir de um ponto de vista assumidamente enviesado, sendo tudo filtrado pela experiência desse sujeito. O que permanece deliberadamente em aberto é a natureza dessa transição - será uma queda ou uma elevação? Uma perda irreversível ou um gesto de libertação? O EP não responde, expondo o conflito e deixando-o pulsar. Ao longo do disco, emergem temas como identidade, fragmentação, ausência e reconstrução. A selva funciona simultaneamente como metáfora interior e espaço possível, espelhando um processo de degradação gradual da identidade anterior. Não há uma rutura súbita, mas antes um desgaste contínuo - um deslocamento lento que transforma o quotidiano em estranheza. Musicalmente, o EP marca uma expansão clara do espectro da banda. Sem abandonar a base rock , os Prisão Platão abrem espaço ao experimentalismo, à dilatação de estruturas e a momentos em que o som se sobrepõe à forma tradicional da canção. Há faixas que se constroem pela tensão, outras pela acumulação, outras ainda pela suspensão, refletindo o próprio percurso instável do sujeito poético. No meio dessa expansão sonora, reaparece “Paciência”, surgindo desta vez em versão de estúdio, revista e “melhorada em certos aspetos”, segundo a própria banda. Essa ideia de transformação progressiva encontra eco também no plano visual. A capa do EP, concebida pelo Coletivo Triciclo , traduz graficamente essa passagem da ordem à degradação, acompanhando o imaginário do disco e reforçando a noção de percurso num estado cada vez mais selvagem. A condição de artistas emergentes em Portugal Enquanto banda emergente, o grupo identifica um panorama marcado por limitações estruturais: escassez de espaços para tocar, precariedade económica e um circuito cultural cada vez mais fechado sobre si próprio. Apontam, simultaneamente, para a existência de uma “bolha” que tende a afastar novos públicos da música independente, num contexto em que a descoberta é frequentemente suplantada pela reiteração algorítmica e pelo conforto do tributo. Nesse cenário, a música arrisca transformar-se em ruído de fundo - algo que se ouve “enquanto se faz qualquer coisa”, em vez de um gesto de escuta ativa. Como afirmam, haverá sempre dois tipos de pessoas: “aquelas que escolhem o Novo Mundo e as que não escolhem, ficando no antigo”. Neste contexto, criar assume-se como resistência. Cantar português, fora dos grandes circuitos e sem concessões fáceis torna-se num ato político e cultural; numa insistência na curiosidade, no risco e na provocação deliberada de consciência. Esta consciência não se traduz, no entanto, em mensagens fechadas ou moralizantes - os Prisão Platão preferem levantar questões, expor dissonâncias e estimular reflexão, reconhecendo sincronicamente a responsabilidade inerente ao acesso a um público. O sentido final da música escapa sempre ao controlo de quem os cria. Deste modo a música torna-se, entre exposição e apropriação, numa ligação contínua entre o artista, o ouvinte e os significados que dançam perpetuamente no imaginário interpretativo. Palco e futuro É em palco que os Prisão Platão sentem a sua música completar-se. O concerto é pensado como extensão da narrativa do EP, começando num registo mais contido e culminando numa revolução sensorial. A banda prepara-se para apresentar em breve este novo trabalho ao vivo, com o seu lançamento previsto para o início deste ano. O primeiro concerto de 2026 será dia 17 de janeiro no Tokyo Lisboa, numa noite organizada pelo próprio grupo e partilhada com Flor Girino, Folívora, Lesma e Pangeia. Para quem quiser debruçar-se no seu trajeto selvagem, a banda continua a deixar sinais nas plataformas digitais - Instagram , Spotify e YouTube . Fotografias: Prisão Platão.
- Ata de Eleição da Direção de 2025/2026
No décimo segundo dia do mês de dezembro do ano de dois mil e vinte e cinco, pelas dezoito horas, deu-se início, na Sala dos Núcleos e por conferência online na plataforma Zoom, à reunião de eleição da nova Direção do núcleo autónomo de estudantes Jur.nal. Por motivos de incumprimento de quórum, foi realizada uma segunda reunião, meia hora depois. Estiveram fisicamente presentes a Diretora-adjunta cessante Lara Cândido, a Diretora-adjunta cessante e Representante da Nova Law Students’ Union Margarida Saramago (e redatora com capacidade de voto), a Coordenadora Maria Lopes e o membro da Redação Matilde Almeida. Também esteve presente a Margarida Pereira, enquanto segunda Representante da Nova Law Students’ Union (ainda que não fosse necessário). Na plataforma Zoom, estiveram presentes o Presidente da Mesa da Assembleia Geral Filipe Pedro, a Diretora-cessante Beatriz Rodrigues, bem como os seguintes membros da Redação: João Ferreira, Eva Gonçalves e Matilde Aranha. Havia apenas uma lista candidata, doravante designada por Lista A. A Lista A era composta por Lara Cândido (Diretora), Maria Lopes, Matilde Almeida e Matilde Aranha (Diretoras-Adjuntas). Posto isto, procedeu-se ao ato de eleição. Cumprindo o disposto no n.º 1 do artigo 34.º dos Estatutos do Jur.nal, tiveram capacidade de voto todos aqueles que, até à data, estavam há pelo menos um semestre no núcleo, tendo-se também considerado que os membros da Direção cessante tinham capacidade de voto, de acordo com o n.º 3 do mesmo artigo. Assim, tiveram legitimidade eleitoral todos os presentes, à exceção da Representante da Nova Law Students’ Union Margarida Pereira e do representante da MAG Filipe Pedro. Recorreu-se à plataforma Strawpoll para realizar a eleição, tendo-se garantido o anonimato do voto, com as seguintes opções: A favor, Contra, Abstenção. Os resultados foram os seguintes: A favor: 8 Contra: 0 Abstenção: 0 A Lista A foi eleita com 8 votos a favor, 0 votos contra e 0 abstenções. Nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião pelas dezoito horas e trinta e seis minutos, da qual se lavrou a presente a ata, ficando a nova Direção em gestão até que aquela seja lida e aprovada em Assembleia Geral dos Estudantes da NOVA School of Law. Lara Alexandra Oliveira Cândido Lisboa, 12 de Dezembro de 2025
- 10 factos curiosos sobre a ilha da Madeira
Agora, cerrado neste terraço, contemplo as nuvens, nuvens essas que não consigo alcançar. Não consigo ou não quero? Resta-me olhar para o chão, para o andar apressado dos caminhantes. Eu já fui assim, como eles, penso. Mas depressa relembro a razão da minha condição. Por isso, escrevo. Escrevo não para sentir, não para me entreter. A verdade é que eu não sei porque escrevo. Apenas sei que sempre que escrevo me evado. Me evado para longe, para as nuvens, pelo menos tento. Frustrado fico, e rapidamente torno a escrever, e de novo frustrado fico. E é assim que passo os meus dias, frustrado, a olhar para as nuvens, viajando nelas, perdido, desejando todas as vezes que seja eterna a viagem, mas nunca é. Não é porque eu não consigo ou porque não quero? Curioso que vem-me sempre esta pergunta à cabeça, mas a resposta é inexistente. A resposta é inexistente... Por isso é que escrevo. Escrevo não para deixar de existir. Não para me evadir, como achava. Mas sim para existir, existir neste mundo em que não consigo existir .
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