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Eleições Presidenciais

A partir de quando é que deixámos de ter critérios na escolha de um candidato para Presidente da República?

Mais um mandato completo, mais uma eleição. No próximo dia 18 de janeiro, os portugueses enfrentam um desafio não tão simples quanto aparenta ser. Os eleitores não só têm a oportunidade de eleger o Presidente da República, como podem decidir um novo rumo e uma nova “cultura política “no nosso país.

Portugal, país do Fado e de típicas praias. País de arte, de cultura, de desporto e de grandes navegadores. A nossa pátria habita, sim, na madrugada “inteira e limpa”, emergida e resplandecida na democracia que coloriu um silêncio que assombrava há muito uma sociedade. Esta ausência de cor não está presa aos livros de História. Verifica-se na disseminação de fake news, nos discursos populistas e na população, que amedrontada, deixa de se expressar. É neste perigo que nos ameaça, que sabemos que “o que faz falta é avisar a malta” sobre as eleições de 2026.

Estas eleições assemelham-se particularmente às presidenciais de 1986. Uma grande polarização entre a esquerda (encabeçada pelo Dr. Mário Soares) e a direita (protagonizada por Diogo Freitas do Amaral). Um medo absurdo de voltar ao passado sombrio, que requer a união de todos os democratas.

Contudo, nenhum candidato à esquerda é Mário Soares do século XXI, e nenhum candidato à direita apresenta a transparência de Freitas do Amaral. Nos dias de hoje, da esquerda à direita, o catálogo de opções, ainda que vasto, não agrada à maioria, na medida em que as facções políticas tradicionais têm vindo a perder a sua identidade ao longo dos anos.

Para o eleitorado de direita são várias as opções, desde ao líder do CHEGA, André Ventura, ao cabeça de lista das passadas europeias pela IL, João Cotrim de Figueiredo, ao candidato mais tradicional apoiado pelo Partido Social Democrata e pelo CDS-PP, Luís Marques Mendes. Para além disso, encontramos um candidato que se situa “ao centro”: “entre a social-democracia e o socialismo”, o Almirante Gouveia e Melo.

Embora a esquerda tenha perdido força nas últimas legislativas, não tardou em fazer a sua habitual divisão, como fizera também em 86 entre Zenha e Soares.

Nestas presidenciais encontramos, essencialmente, quatro candidatos que se situam à esquerda no espectro político: desde António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido socialista; António Filipe, ex-presidente de mesa da Assembleia da República; Catarina Martins ex-líder do Bloco de esquerda e Jorge Pinto, deputado pelo Livre.

Quando me deparei com a lista de dez candidatos à Presidência da República, tive de decidir não o melhor candidato, mas o que tem menos falhas, o que me leva a questionar

“A partir de que momento é que deixou de haver critérios, definidos socialmente, para a candidatura a Presidente da República?”

Inicialmente, apercebi-me que uma das características que mais se tem vindo a perder na esfera política é o espírito de “sentido de estado”. Um Presidente zela por todos, independentemente de serem ricos, pobres, mulheres, homens, do litoral ou do interior. Ao Presidente acresce-lhe a responsabilidade de representar diplomaticamente o nosso país, chefiando as forças armadas, mediando as guerras políticas e a “cultura de trincheiras”, que se instaurou no país.

Por essa razão, excluo automaticamente André Ventura, pelas suas posições intransigentes perante o Presidente angolano e o Presidente brasileiro; Catarina Martins e António Filipe por se afastarem do modelo de valores europeus que residem na nossa Constituição da República e Jorge Pinto, por ainda não ter experiência mediadora suficiente para um cargo de tamanha importância.

Deste modo sobram de maneira geral quatro candidatos que se vão aproximando do centro democrático: Almirante Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo, Luís Marques Mendes e, por fim, António José Seguro.

No último debate realizado, entre Luís Marques Mendes e Almirante Gouveia e Melo, apercebi-me exatamente dos dois modelos de presidente que Portugal não deve eleger para assegurar a estabilidade. Por um lado, o candidato da continuidade: que ainda que experiente, viveu toda a sua vida na política ou no lobbying e que admite proceder de forma semelhante a Marcelo Rebelo de Sousa em casos futuros (Luís Marques Mendes) e por outro, o candidato da rutura, que com o seu espírito colérico e intempestivo acredita que a mudança em Portugal se faz fora do sistema e não com o melhor que o sistema tem.

Com isto, da esquerda à direita existem dois candidatos que se destacam pela sua singularidade. Em primeiro lugar, João Cotrim de Figueiredo que embora muito ideológico, é um candidato prático e terra-a-terra, crescendo imenso através do seu marketing brilhante que conquista os mais jovens nas redes sociais. Porém, a Cotrim falta-lhe a empatia e a defesa do elevador social que carecem no seu discurso ainda muito liberal. O ex-líder da IL é certamente ambicioso e trabalhador, mas ainda é preciso mais para se ser Presidente.

E é por isto que António José Seguro, ainda que seja conotado por muitos como “mais um herdeiro do Partido socialista”, é exatamente o meu modelo de político. Pautado pelo humanismo, pela seriedade e pela transparência, Seguro é figura humilde, que não tem medo de defender convictamente a justiça social, mas de forma coerente e acima de tudo responsável. Realço, então, o seu “sentido de estado”, principalmente na Troika, onde sacrificou os interesses do eleitorado do Partido socialista, para garantir a credibilidade do nosso país.

Deste modo, Seguro é verdadeiramente um candidato abrangente, apoiado pelo partido que o formou, por figuras mais à esquerda e por alguns eleitores de centro-direita, onde me enquadro. E por essa razão, é necessária a união de todos os democratas, da esquerda à direita, em torno desta candidatura. Isto é fulcral porque o passado conta-nos que a hegemonia de um partido em todos os órgãos de soberania origina ausências no escrutínio e no progresso social.

Por isso, na dúvida prefiro jogar pelo seguro a arriscar e dar um tiro no escuro e ter o azar de votar num fator de instabilidade, num compassivo com radicalismos ou num candidato que serve um partido e não os portugueses. Desta forma, não devemos meter os ovos todos no mesmo cesto, já que quem sofrerá não será o cesto, mas quem lá colocou os ovos.



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