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Sobre as Presidenciais

A melhor maneira de descrever o entusiasmo e o apoio que suscitam o Doutor Seguro, é comparando-os a um vampiro: anda, fala, até grita, pula e corre. Mas se lhe apertamos o pulso, não há batimento; se lhe abrimos a veia, não escorre pinga de sangue.


Em janeiro, lá temos mais umas eleiçõezinhas. Que maçada. Ainda por cima, para o mais estranho de todos os cargos: a Presidência da República. Digo já: por mim, nem existia. A Chefia do Estado é da pertença exclusiva da Sereníssima Casa de Bragança, por herança histórica e direito divino. Infelizmente, há 115 anos, uma minoria jacobina achou que não era assim, que Portugal devia ser República, e impôs a dita cuja à força. O Estado Novo persistiu no erro. E quando chegou o regime dito “democrático”, o erro ganhou um manto de legalidade sacrossanta, incrustando-se entre os limites materiais de revisão do absurdo 288.º do folhetim constitucional. E assim vivemos neste paradoxo: o povo pode dizer quem quer para Presidente; só não pode é querer o Rei! Desgraçada lógica a dos constituintes…

E por falar em desgraças, já viram os candidatos? Já vão em nove (!), todos diferentes, mas todos caducos. Façamos um sumário das peças, para realçar o horror. 

Comecemos pelos candidatos da extrema-esquerda, a Dra. Catarina Martins, o Doutor António Filipe e o Doutor Jorge Pinto. Sendo pessoas diferentes, desempenham o mesmo papel: representar um setor (temporariamente) moribundo da política portuguesa. É duro. Não lhes nego coragem. Mas deles não vai rezar a história: vão defender as barbaridades do costume; os da caravana vão ouvir e seguir caminho. Sem espigas. 

A seguir temos o Dr. Cotrim Figueiredo. Só vai a jogo porque sabe que vai perder. É um segredo mal-escondido que se houvesse uma sombra de hipótese de vencer, de ter de deixar a confortável vida de eurodeputado, com conta bem recheada e estadia em Bruxelas, nunca se meteria nesta alhada, nem mesmo por amor à camisola. Ou melhor, muito menos por amor à camisola! 

Por falar em candidatos que não querem ganhar, ei-lo: o Doutor André Ventura, man of the hour! Aliás, não é que o Doutor Ventura não quer ganhar: ele reza todos os dias, ajoelhado no genuflexório do quarto, para levar uma abada na segunda volta! É que nem é pelo que podia acontecer ao país, que isso é-lhe indiferente – afinal de contas, ele é o político que em matéria de economia e finanças públicas defende, pela direita, todos os sonhos inconfessáveis da esquerda mais desvairada! -; é mesmo pelo que ia acontecer ao Chega. É que se o Doutor Ventura sai da liderança, o partido tem um grande sarilho. E se o Chega tem um grande sarilho, tremo de imaginar em que sitio os revoltados com os rotativos iriam depositar o seu furibundo voto “de protesto”. 

Depois temos o Doutor António José Seguro. A melhor maneira de descrever o entusiasmo e o apoio que suscitam o Doutor Seguro, é comparando-os a um vampiro: anda, fala, até grita, pula e corre. Mas se lhe apertamos o pulso, não há batimento; se lhe abrimos a veia, não escorre pinga de sangue. Há uns dias um comentador disse que os políticos decentes das democracias avançadas são mesmo assim, mortiços. A tese é boa, até porque, como é sabido, a Sra. Thatcher e o Sr. Churchill estiveram ao leme de uma nação do terceiro-mundo, em regime de transição… 

Por falar em leme, também temos na corrida o Sr. Almirante Gouveia e Melo. O seu capital político teve origem num facto absolutamente singular na política portuguesa dos últimos trinta anos: foi competente. Fez bem o seu trabalho. Por tão pouco, viu-se logo nele alguém desejável para a chefia do Estado. Se isto não diz tudo sobre a moderna política portuguesa, não sei o que mais dirá. O que sei é que com um capital político tão exíguo, não é de surpreender que as cada vez mais frequentes aparições façam deslizar o Sr. Almirante nas sondagens: de um ideal de ordem passou a ser apenas “mais um”. 

Por fim, temos o Dr. Marques Mendes. É o candidato que se ajusta ao Sr. Primeiro-Ministro. Como ele, farta-se de dizer platitudes. Também como ele, está sempre na posição de mudar de posição, conforme as conveniências. É o candidato da vacuidade política absoluta, muito ao gosto do PSD. Assim, não vale a pena alongar-me; deixo apenas uma pergunta: depois da ascensão de Ventura e da presidência de Marcelo, os portugueses vão mesmo dar poder a mais uma criatura da televisão e do comentariado?

Como se vê, a safra de 2026 é francamente má. Mas condiz - com os tempos, com a elite, com o regime, e com o povo. Sim, com o povo. Nunca se esqueça que vivemos em democracia, e em democracia, o povo tem aquilo que merece.

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