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Entre Abril e o Abismo: um país em alerta

Portugal aproxima-se da segunda volta das eleições presidenciais como quem caminha num nevoeiro espesso. De um lado, a continuidade das instituições; do outro, forças que prometem soluções fáceis, mas ameaçam os fundamentos da nossa democracia. Não se trata apenas de escolher um Presidente da República. Trata-se de decidir que país queremos ser, e, sobretudo, que país recusamos deixar de ser.

Nas últimas décadas, habituámo-nos a uma democracia imperfeita, por vezes lenta, muitas vezes frustrante, mas livre. Hoje, essa liberdade já não é um dado adquirido. O que vemos crescer diante de nós é um processo silencioso, e por isso ainda mais perigoso, de um processo que chamo “desdemocratização”. Não se trata de uma ruptura abrupta com o sistema, uma Revolução; trata-se de um processo lento, a erosão da confiança nas instituições, a normalização do insulto, a substituição do debate pela provocação, da verdade pela mentira repetida vezes suficientes para parecer verdade.

Há quem simplifique problemas complexos, crie inimigos internos, espalhe fake news e desacredite a imprensa, a justiça e tudo o que limite o poder de um líder que se apresenta como “salvador”. Não é novo. Não é original. E nunca acabou bem, em lado nenhum.

A democracia não morre de repente. Morre aos poucos, quando deixamos passar. Quando encolhemos os ombros perante a mentira. Quando confundimos liberdade de expressão com licença para destruir o próprio espaço democrático. Quando aceitamos que o ódio e a raiva ditem o voto.

É precisamente por isso que esta eleição importa tanto.

O Presidente da República não governa, mas simboliza. Representa. Dá o tom. Pode ser um garante da Constituição, ou alguém que a contorne. Pode ser um travão aos excessos, ou o seu megafone. Pode unir, ou dividir deliberadamente para ganhar poder político.

No próximo dia 8 de fevereiro, não está apenas em jogo um nome. Está em jogo a memória coletiva de um país que, há pouco mais de cinquenta anos, acordou para a liberdade.

O 25 de Abril não foi apenas uma data histórica. Foi um grito. Um ponto final no medo. Um compromisso entre gerações: nunca mais ditadura, nunca mais censura, nunca mais um país governado pela mentira e pelo silêncio forçado. A democracia portuguesa nasceu da coragem de quem acreditou que valia a pena arriscar tudo para que hoje pudéssemos viver livremente.

E é isso que está agora a ser testado: se somos dignos desse legado.

A abstenção, nestas circunstâncias, não é neutralidade; é desistência. O voto em projetos que banalizam o autoritarismo não é protesto; é gasolina lançada sobre um fogo que não se controlará facilmente. A história europeia está cheia de avisos para quem queira ouvir.

Acordar é um dever cívico. Informar-se é um ato de resistência. Votar de forma consciente é, hoje, um gesto profundamente democrático.

Não se trata de gostar mais ou menos de uma pessoa, de um partido político. Não é sobre ser de esquerda ou de direita. Trata-se de escolher entre um caminho que, com todos os seus defeitos, respeita a democracia, e outro que brinca perigosamente com a sua destruição.

No dia 8 de fevereiro, Portugal olha-se ao espelho. Que não seja para reconhecer, tarde demais, que deixámos Abril adormecer.

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