Devaneio
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
- Jan 15
- 5 min read
No dia 6 de novembro de 2025, o Jur.nal esteve na Casa do Comum com os Devaneio, uma das bandas emergentes mais singulares da música alternativa portuguesa. Entre memórias, processos e inquietações, o trio revisitou a sua origem, a construção estética que tem vindo a definir a sua identidade musical e a forma como convertem tensão em criação.
Quem são os Devaneio?

Formados em outubro de 2023, os Devaneio nasceram na Margem Sul e juntam "Joe" - voz, composição e bateria -, Margarida “Manga” - guitarra e voz - e Petko - baixo e fotógrafo profissional. "Joe" e Petko já partilhavam terreno no cenário musical de Setúbal quando se cruzaram com Margarida, então integrante de aboiband, a sua primeira banda. O encontro deu-se no ambiente cruzado das bandas locais e, a partir daí, a formação tornou-se inevitável: primeiro jams soltas, depois demos trocadas entre quartos e salas de ensaio, até que as primeiras canções começaram a ganhar forma.
O primeiro nome, “Alucinação Coletiva", acabou por ser substituído por Devaneio - termo sugerido pelo guitarrista Rodrigo Lopes, antigo membro da banda. Assim, o que começou como uma palavra solta profetizou um diagnóstico e manifesto, descrevendo a forma como o trio cria, vive e observa o seu próprio lugar no mundo artístico: entre impulsos, deriva e imaginação.
Influências artísticas
Durante a fase inicial - sobretudo nos dois primeiros EPs - os Devaneio descrevem o seu som como “bossa nova punk”, um ponto de partida que continua presente na sua música, mesmo depois de explorarem outros géneros e estilos no álbum Sublime. As influências que reconhecem mais abertamente - Manel Cruz e Boogarins - ajudam a situar o seu território estético, entre introspeção poética e psicadelismo desconstruído.
Ainda assim, a banda insiste que o essencial está na mutabilidade: “Estás sempre a mudar um bocado as influências; todos os sons estão sempre um bocado diferentes uns dos outros”, disse "Joe". É nessa polivalência que constroem um universo onde a bossa nova convive com o punk, a eletrónica se enlaça ao rock e a poesia íntima se cruza com um sarcasmo feroz.
Ouvir Devaneio é mergulhar numa paisagem emocional mais do que num género musical específico. O som oscila entre melancolia e agressividade, groove e beleza, quase sempre marcado por uma dramaticidade que é fruto tanto da introspeção como de uma sensibilidade claramente cinematográfica. Ao longo das faixas, fazem-se notar tensões prolongadas, contrastes bruscos, silêncios densos e explosões emocionantes.
Essa estética estende-se também ao material gráfico. A capa do álbum Sublime, construída a partir de nove edições da capa dos singles “Nuvem” e "No Final"- fotografia captada por Petko - funciona como um rolo de filme fragmentado, evidenciando a influência do cinema no processo criativo da banda.
EPs
O primeiro EP, Terapia Alternativa, expõe a banda no seu estado mais cru. O trio afirma que este projeto funcionou como um exercício expurgador, tal como o nome sugere: muitas das letras surgiram num fluxo quase automático, sem grande edição, transformando em matéria sonora a sua turbulência interior - produto de um frenesim de emoções, conflitos interiores, estados e hábitos decadentes. Entre faixas como “Arte é uma necessidade”, “Justificação” ou “Aziado” (videoclipe disponível no YouTube), Terapia Alternativa abre uma janela onde a sensação de desperdício, o medo de “passar a vida a anhar”, o delírio e e ansiedade entram e saem sem filtros.
Seguiu-se Todo o Meu Tempo, um EP que explora o desgaste da repetição e a impressão de que, por mais que se tente aprender e sair do ponto estagnante, a vida insiste em regressar ao mesmo lugar - num loop profundamente paradoxal entre “ter vontade e ficar sempre a moer”. Desta forma, músicas como “Rotina do Passa” ou “Na Merda” espelham esse labirinto emocional, enquanto o EP mistura bossa nova punk, eletrónica distorcida e impulsos psicadélicos. Adicionalmente, o título deste projeto liga-se diretamente à canção homónima, que explora simultaneamente paixão e ausência numa envolvência de urgência.
Álbum - Sublime
Publicado a 24 de outubro do ano passado, Sublime, representa a fase mais expansiva dos Devaneio - o lugar onde tudo o que tinham experimentado até então se consolida e se multiplica. O disco reúne inquietações, frustrações, crítica social e vulnerabilidade, moldando-as numa convivência improvável entre suavidade, alucinação, apatia e ruído.
Sublime assume também um certo carácter cronológico: parte das faixas são composições antigas, resgatadas e reinventadas, que a banda não queria deixar estagnar. Tal gesto acabou por ampliar o espectro sonoro do álbum, explicando o seu carácter heterogéneo - um laboratório onde convivem punk, bossa nova desconstruída, funk-rock abrasivo, eletrónica experimental e grooves hipnóticos.
O experimentalismo instrumental ganha destaque em faixas como “Psicose Teknológica” - atravessada por uma energia eletrónica quase maquinal - e em “606” - uma paisagem densa e totalmente instrumental nascida, segundo a banda, de uma fase “marada” onde comunicavam mais a tocar do que a falar.
Entre as músicas há ainda espaço para algumas mensagens subtis e quase ocultas, que reforçam o carácter multifacetado do disco, como em “Songa-monga (Mango Song)” - a primeira composição de Margarida “Manga” para a banda - ou em “0202”, que traduz os acordes usados na sua conceção.
Quando questionados sobre o título do disco, riem: “Era isso ou Suculento” - uma referência a um billboard de um restaurante de buffet em Palmela que encontravam repetidamente durante o processo de criação, um fragmento de realidade tão absurdo quanto o seu humor. Sublime ficou, desta forma, pelo seu sentido poético, como puro devaneio sublime.
Uma geração à deriva

Ainda que a banda tenha músicas e estilos para todas as idades, os temas que atravessam Sublime retratam um sentimento coletivo de deriva - um diagnóstico de uma geração que tenta existir num tempo sem mapas nem instruções. Assim, os Devaneio dão voz a uma juventude adulta presa entre saturação digital (“Fdz o Insta”); ausência de rumo (“À Deriva”); ansiedade existencial (“Meio Frango na Grelha Só Leva um Alho”); decisões acumuladas entre inércia (“0202”), e a procura incessante de sentido (“O Caminho do Ser”, “Pedir Muito”), entre outras temáticas.
A condição de artistas emergentes em Portugal
Questionados sobre o cenário artístico nacional, não hesitam: “Falta apoio, faltam espaços, falta abertura para quem está a começar. Muitas vezes pedem para tocar baixinho, ou preferem que faças covers. Não há lugar para experimentação”.
Ainda assim, em vez de cederem a este desencanto, respondem criativamente. Um exemplo da transmutação da sua frustração em música é a faixa “Não Vales um Cu”, incluída no álbum, onde a banda confronta diretamente o desinteresse institucional e social pela arte. Neste sentido, o próprio grupo reconhece que, para eles, criar é igualmente um gesto de resistência num cenário em que a arte é frequentemente tratada como ruído suplementar.
É neste território que surge a intenção dos Devaneio perante o público: provocar consciência, inquietação e até um certo desconforto. “Devaneio é tipo... baza experimentar estilo que choca as pessoas”, afirmam.
Palco e futuro
Com mais de quinze concertos ao vivo desde a sua formação, os Devaneio afirmam-se no panorama independente com performances cruas e imprevisíveis. A força da banda reside na forma como articulam mistura, risco e intenção, sendo cada faixa um exercício de experimentação consciente, e cada atuação uma extensão física da sua inquietação criativa.
Quanto ao futuro, não traçam planos rígidos, mas revelam ambicionar criar mais músicas em que experimentam ao máximo diversos estilos e géneros, entrando ainda mais a fundo no contexto pluridimensional artístico.
Para quem quiser acompanhar de perto este percurso - e testemunhar ao vivo a imprevisibilidade que tanto os define - a banda atua dia 18 de janeiro na Fábrica de Alternativas (Algés), com entrada livre. As restantes atualizações estão disponíveis no Instagram e no Spotify.

Fotografias: Devaneio
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