Changuito
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
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No dia 7 de fevereiro, o Jur.nal esteve na livraria Poesia Incompleta, a única livraria de poesia do país, e conversou com Changuito. Entre páginas e memórias, o encontro versou sobre a história da livraria, tecida de cantos excêntricos, percorrendo a cultura, os desafios de a sustentar e o que significa uma porta aberta numa cidade em transformação.
As várias moradas da poesia

Entrar na Poesia Incompleta é como entrar num lugar que parece existir em paralelo à cidade, não fora dela, mas ligeiramente desalinhado do seu ritmo. Há um estendal atravessado por gravatas de poetas, fotografias, poemas e desenhos, um micropalco e livros empilhados segundo uma lógica mais afetiva que comercial. Mas o que sobressai é a sensação inerente de que este espaço não foi concebido para ser visitado com pressa.
Quando surge atrás da sua secretária, Changuito não corresponde à imagem clássica de livreiro: fala como quem conta histórias num café, ri-se das próprias frases antes de as terminar e alterna uma lucidez quase cruel com um humor ácido que nunca chega a ser leve.
A livraria, tal como existe hoje, abriu em 2018, mas a sua história começa muito antes deste endereço. Em 2006, na Bica, Changuito tinha um bar chamado Da Mariquinhas. Num recanto onde ninguém se sentava, começou a colocar, quase por instinto, uma pequena seleção de livros de poesia, como consequência natural de alguém que diariamente lê poesia.
Quando o bar fechou, ajudou num projeto ligado a livros no Bairro Alto e em 2008 abriu no Príncipe Real a primeira livraria exclusivamente dedicada à poesia. Passados alguns anos após o seu encerramento, reabriu noutro ponto da cidade. Assim, ainda que tenha sido um processo multiforme, o mote de ter uma casa somente dedicada à poesia foi sempre o alicerce.
Só livros, só isso
“A génese desta livraria está em eu ser leitor. Não está em eu ser homem de negócios - que eu não sou. Nem muito um homem, para ser sincero”, profere. Assim, a livraria não nasce de uma estratégia comercial, mas de um impulso de criar um lugar onde a poesia pudesse existir como cerne.
Num país com uma antologia poética extensa que atravessa séculos, desde os cancioneiros medievais até aos poetas modernos, pareceu extremamente estranho a Changuito a poesia permanecer nas prateleiras laterais das livrarias generalistas. Contudo, ao falar mais tarde com editores estrangeiros, apercebeu-se que as livrarias dedicadas à poesia são raras como um manuscrito intacto no fundo de um naufrágio.
A conceção da Poesia Incompleta surge também como reação à homogeneização progressiva das cidades. Changuito fala de uma Lisboa que se repete a si mesma, ocupada por restaurantes temáticos, lojas de souvenirs e cafés pensados para quem paga demasiado por um galão rebatizado de latte - espaços que se multiplicam exponencialmente.
Para ele, uma cidade torna-se tanto mais rica quanto mais diversa for. Quanto mais espaço houver para negócios que não obedecem à mesma lógica - livrarias de poesia, de viagens, de teatro -, mais respirável se torna o tecido urbano. Uma cidade composta por repetições, insiste, empobrece-se: “Se houver 15 Burger Kings, a cidade é mais pobre. Se houver FNACs, Bertrands e Almedinas, também é mais pobre”.
O título da livraria proveio de uma constatação inevitável, quase aforística: “A poesia não tem como ser completa”. Uma pessoa pode dominar a poesia do Paraguai, e logo surge a pergunta sobre a poesia do Uruguai. Pode-se conhecer os tupi-guarani, mas faltam os astecas. Descobrem-se manuscritos do século XIX do Curdistão, e amanhã alguém mencionará poetas eróticos religiosos de um país que nunca se ouviu nomear.
Ao contrário de outras artes, como o cinema ou a fotografia, que são organizáveis em períodos relativamente delimitáveis, a poesia é um bordado contínuo com mais de quarenta séculos que repete temas primordiais - amor, ciúme, desespero, memória, morte - em milhares de línguas, geografias e épocas. “A poesia é o Galeto com um balcão até ao infinito”, chega até a sobredimensionar.
O mais poético dos seres nunca escreveu um verso
O ato de dar a alguém uma flor não é necessariamente poesia. Podem existir pessoas que vivem poeticamente sem escrever um verso e podem existir poetas geniais que são humanamente áridos. Tal constatação demanda uma distinção, segundo Changuito, entre a vivência e a conceção poéticas: “A poesia, stricto sensu, é uma produção literária feita a partir de leitura”.
Assim, não acredita em grandes poetas que não leem, correlacionando inspiração com tradição literária - a poesia acaba sempre por consistir num diálogo com o que veio antes; num trabalho com uma linguagem cujas letras carregam memória e metal fundente. Cita, a este propósito, um verso de Ary dos Santos: “Original é o poeta que se origina a si mesmo”.
Quando fala de poetas, não os coloca num pedestal mítico, mas sim num pedestal épico, equiparando-os a super-heróis. O que faz um poeta ser um super-herói? O mesmo que torna um médico excecional nas urgências do São José ou um grande cozinheiro capaz de devolver a infância num prato: “O talento e a sabedoria. Esse binómio é uma espécie de super-heroísmo”.
A par deste tema épico, conta a história de um homem belíssimo que, numa discoteca, insistia em aproximar-se dele até que um dia desistiu dessa tentativa e começou a falar apaixonadamente da sua tese de doutoramento sobre morangos em estufas. Entre música alta e luzes intermitentes, deixou-se encantar pela forma como aquele homem falava do cultivo, luz e temperatura. Diz ainda que foi aí que percebeu genuinamente a força do conhecimento quando aliado ao entusiasmo, fusão tal que reconhece nos grandes poetas. É neste sentido que atribui, por exemplo, a Herberto Helder “capa e vários poderes”.
Poesia nascida cantada
Antes de ser livreiro, Changuito foi, sobretudo, ouvinte. A sua relação com a poesia germina num território antigo e quase biológico, enraizada numa infância em que as palavras circulavam como respiração coletiva: a avó fazia rádio e possuía uma voz que ele ainda hoje descreve como bela; a mãe e o tio sabiam poemas de cor desde crianças, e a irmã fechava-se no quarto a cantar discos, criando uma atmosfera em que dizer, cantar e escutar eram formas naturais de estar no mundo. Refere que o seu privilégio “não foi ser branco ou heterossexual. O meu maior privilégio foi crescer com amor”, o que o moldou de forma definitiva.
A cultura foi, nesse contexto, omnipresente na sua vida: música, histórias, dança improvisada a horas improváveis, inteligência acompanhada de riso. Sublinha que crescer assim muda a forma de viver. Tal como quem cresce entre tachos e acaba por desenvolver uma relação orgânica com a cozinha, crescer rodeado de palavras, vozes e imaginação cria uma intimidade precoce com a linguagem e o sonho, enquanto prática quotidiana de liberdade.
Lê poesia em privado desde os 16 anos e em público desde 1999, mas insiste que ler para alguém não é simplesmente recitar, mas sim conduzir: pegar numa pessoa pela mão e colocá-la diante do tríptico de Bosch, ou de fazê-la ouvir Bach pela primeira vez, criando uma experiência que transcende o texto.
Deste modo, afirma que “ouvir poesia mal dita pode afastar alguém da poesia para sempre”. Não porque se considere um leitor excecional, mas porque lê apenas aquilo que conhece profundamente. Recorda, a propósito, uma visita de alunos de teatro que chegaram à livraria reticentes quanto ao espaço e à poesia. Uma leitura prolongada por horas, atravessada por Camões e Nicanor Parra, fez com que dos dezassete nove regressassem. Para Changuito, isso confirma que a poesia antes de ser página, foi sempre voz, e que somente continua viva quando ainda é capaz de libertar.
O que passa pela porta
Ter uma porta aberta para a rua é aceitar o imprevisto como parte do quotidiano. Na Poesia Incompleta, tal abertura converteu o espaço num palco involuntário de episódios saídos de uma cena surrealista.
Fazem parte do repertório absurdo uma grávida convencida de que, por detrás da cortina que escondia o micropalco, funcionava um centro de saúde indicado pelo Google Maps; um homem com ar de pregador que insistia que o lugar era “estranho”, incapaz de aceitar estantes vermelhas numa livraria, mas ironicamente confortável com a ideia de que à noite Changuito retiraria os poemas, as gravatas e as fotografias para estender roupa no mesmo sítio; ou ainda quem exigisse que o seu cão assistisse a uma leitura de poesia porque “estava habituado”, ou quem trouxesse um bebé para ouvir poemas no escuro - afinal, como resume, “ter uma porta aberta é meio caminho andado para ter muitas histórias tragicómicas”.
O País dos Sonhos
Vista de fora, a vida de Changuito parece um sonho: dias passados entre estantes de poesia, leituras infindas, conversas sobre versos e viagens literárias aos países mais recônditos.
“Isto não é um sonho”, diz. “Isto é um inferno”. E não cai numa hipérbole. A Poesia Incompleta assemelha-se a um Inferno de Dante contemporâneo, não feito de fogo, mas de números e ausências- um círculo para as rendas, outro para as faturas, outro para os dias vazios, outro para quem entra, elogia e sai sem comprar e voltar, outro para a dependência absoluta de leitores incertos… No centro do labirinto, apenas resta uma certeza obstinada: “Só vendo uma porcaria: livros. Não vendo postais, não vendo tote bags, não vendo azeite”.
Dessa recusa nasce um paradoxo: a livraria que muitos chamariam “independente” é, na verdade, profundamente dependente - dependente de leitores e compradores.
Changuito fala de dinheiro tal como fala de poesia - sem romantizar a precariedade nem transformá-la numa epopeia. Evoca uma advogada que entrou encantada, repetindo que aquela era “uma vida de sonho”. À quarta insistência, perguntou-lhe quanto ganhava e quantos dias de férias tinha por ano. Depois contrapôs com a sua própria realidade: cerca de metade de um salário mínimo por mês e apenas treze dias de férias ao longo de mais de uma década.
É por isso que ressalta, sem dramatismo, que “a vida é digna ou indigna por muito pouco”.
Ler para não desaparecer
Num mundo que celebra a velocidade e mede tudo em produtividade, Changuito defende que abrir um livro pode ser um gesto radical. Ler é suspender a lógica da aceleração contínua e recuperar um tempo que nos é continuamente subtraído. Num sistema que coloniza até o sono, a leitura torna-se subversiva, precisamente por não produzir resultados mensuráveis, mas por munir os leitores de ideias e ferramentas que ampliam o campo do possível.
Ao longo da conversa percebe-se que, mais do que vender livros, a Poesia Incompleta existe para criar condições de encontro com eles. Consubstancia-se num lugar onde a leitura pode ser partilhada, ouvida e discutida como experiência viva.
Como chave d’ouro, quando lhe perguntam que recurso estilístico escolheria para sonhar, Changuito sorri e responde que muitos sonhos já são metáforas por natureza. Ficaria, assim, com a hipérbole - pela comédia e tragédia - alternada com repetições e aliterações, como se a própria língua tivesse de insistir para não desaparecer.
Talvez seja isso que esta livraria faz diariamente: enfatizar a importância dos livros para que o mundo não os esqueça e repetir a necessidade de ler para que a pressa não nos devore. Entre números e poemas, a Poesia Incompleta continua ali de porta aberta para os soldados do futuro que trocam a espada por livros.

Fotos: Matilde Aranha
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