Nunca Mates o Mandarim
- Matilde Aranha
- 4 days ago
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Na noite de 8 de janeiro de 2026, o Jur.nal esteve nos bastidores do MUSA de Marvila com os Nunca Mates o Mandarim, na úvula daquela que seria a introdução do álbum primogénito da banda a Lisboa. No átrio sôfrego do que a noite prometia, deu-se voz às meditações que decorrem da escuta dos Mandarim, devolvidas por esclarecimentos e pano para outras tantas, depois tingido e complexificado com o presentear de Bola de Bilhar.
Quem são os Nunca Mates o Mandarim?
Procurar conhecê-los na internet é ler em todas as páginas que são projeto nascido do terem tempo de sobra para queimar - confessam que assim o era na génese do grupo de carimbo portuense e guelra de rock alternativo que apalpou terreno na cena nacional em 2023 com a estreia do EP Parou p’ra ver. Hoje dizem-se mais azafamados e jubilosos por isso, com a agenda recheada entre o semeio do novo álbum pelos palcos do Porto, Braga e Lisboa, e o mesmerizar do país com “Fumo”, a música com que se inauguram no Festival da Canção deste ano.
Salvo a conjuntura juvenil do remanescente de tempo que juntou Manuel Dinis (guitarra), João Campello (bateria e baixo/voz) e João Amorim (voz, composição e guitarra), admitem que o processo criativo é-lhes estado ininterrupto, advindo desde trocas de riffs férteis pela noite, pelo telemóvel, a raquetadas de lampejos em sessões de jam (disseram ser dos campeões que não têm medo do papão de brincar com os rascunhos à frente uns dos outros), à colheita de inspiração pela vida fora. O Amorim matizou-os perspicuamente como extrativistas relativamente às influências, relatando irem beber desde o mundano da tristeza e das vicissitudes do coração, à nódoa deixada por outros artistas. O João Campello apontou o Desmond Doss como referência recente.

O que sabem eles de campainhas mágicas?
Num jogo de intelectos, uma pergunta alusiva ao livro de Eça de Queiroz que lhes dá nome: Em que campainhas mágicas já tocaram ou quiseram tocar no decorrer deste projeto? Responderam que faziam por ser ponderados nos passos que davam como grupo, procurando não ceder a impulsos precipitados, à cautela dos mandarins que pudessem matar por lapso de ação. Reconheceram que se houvesse campainha mágica em que desejassem tocar, garantida a ausência de consequências, seria a de tornar possível viver da música em Portugal, o que não é o caso de nenhum dos três atualmente apesar do repertório patrimonial que têm vindo a oferecer ao país desde a sua formação, o qual conta com arranjos dos grandes êxitos “purpurina portuguesa”, reunidos no seu EP de 2024, dando uma sensualidade caliginosa a clássicos desde as Doce a Carlos Paião.
O caçula no acervo dos Mandarim, Bola de Bilhar, é soma parente à coleção de músicas de até então, cuja sonoridade parece pairar entre um familiar caseiro e um misticismo envolvente. Nasce duma meditação sobre o tempo, físico e mental, escrito do e no entretanto das viagens de Amorim de compromissos divididos entre Porto e Lisboa, sendo o single “Coimbra B” o apóstolo espacial do estar entre uma coisa e a outra e de por isso não se estar em lado nenhum. Desta reflexão a banda concebeu 30 faixas, depois despidas até às 9 camadas - as que temos no disco - unidas por um elo comum: o jogo. Também o jogo da interpelação, de noites e músicas outras, continua a marcar presença nesta Bola de Bilhar. Entre os convocados quer por referência ou inspiração: Saramago, García Márquez, Rita Lee, Jorge Palma, Rui Veloso, Leonard Cohen. O liricismo do novo álbum promete com estes modelos fazer por merecer o precedente conseguido pelos projetos antecessores de ter grafitada numa parede do Porto uma letra. Eis a letra escolhida pelo fã que lhes realizou este sonho: Se tu eras o Paiva / Não fui o isqueiro / que o foi acender, da música “Um outono qualquer”. As escolhas da banda para uma próxima “grafitada”: bocados da “Boulevard 61” (Diz-me o preço do galão e da torrada / e eu dir-te-ei se sou de cá, com direito a desenho dos perecíveis), da “Quero” (Quero ter pais ricos) e da “Bola de bilhar” (Não sou nada / não sou nada de novo, letra que acena ao leitmotiv da interpelação).
Naquele momento de ânsia, para chamar a descontração e abrir a porta a esta nova brisa que Lisboa conheceria daí a minutos, pareceu perspicaz atualizar a lista das vontades enumeradas na sua icónica “Quero”. Descanso, pediu o Amorim. Cinco senhas de finos, pediu o Manuel. Sol, pediu o Campello.
Fazem batota no bilhar?
“Eu não consigo fugir ao que eu era há cinco anos atrás e sou agora uma consequência disso”, uma nota feita pelo
Amorim entre reparos sobre o influxo do tema da herança de um destino, apanhado de “Cem anos de solidão”. Esta sua máxima transborda pelo álbum que o trio apresentou à capital nas paredes do MUSA.
Bola de Bilhar é história contada entre o verter dos copos de finos (vestindo as cores do Porto) sob a mesa do jogo que nem se joga nem se acaba, e rasgada pelas cortadas da música que toca além da nossa vontade, acima do gosto, acima da voz. Ouvimo-la aos bocados, rimos quando não apanhamos, ficamos com os sons, os silêncios, e os entretantos. Somos jogados no decorrer dum pensamento, e juntamo-nos à marcha pela curiosidade do destino. A história dá-nos toques no ombro de quando em quando, sabores que o paladar conhece, parafraseando nomes e histórias outras. É o caso de “12 Badaladas” que dá largada ao tema da distância e do tempo e da nossa incapacidade perante esses dois gigantes, pondo estas ideias num cenário análogo ao da história d’ “A gata borralheira”.
O tema “Histórias” surge como matrioska neste reconto com cheiro a noite e cambaleio a vida. Entre tacadas e goles ávidos, a história segue. Agarramo-nos à mão-mote do jogo que nos guia e nos passeia pelas faixas quatro, cinco e seis, revisitando-nos na faixa oito que dá título ao disco, burilando a história com alusões a uma gama de jogos desde os do recreio, aos de mesa, aos de risco que na verdade é o que é a cogitação que se faz por este álbum fora: um perigo para o Homem que de bicos dos pés não gosta de saber que continua pequenino.
No contar da história, descobrimos que no amigo que pensávamos conhecer de cor ecoa uma voz que nos era desconhecida. Em “Três Noites”, um som maciço e inesperado da voz que até então parecia ser entregue à leveza. Um desvio, ou talvez um novo caminho neste percurso que traçamos ao passo que o narrador traça. Uma antecâmara para o convite que nos é feito em “Bola de Bilhar” (Vem comigo ao fim dos tempos) e à localização que nos é dada em “Coimbra B”, a glabela física do compositor (o meio do caminho entre Lisboa e Porto) ou a mental (não se pertencer nem a uma coisa nem a outra na totalidade). O espaço é uma questão de espírito. O fim da nona música é o impulso de pôr a tocar de novo a primeira no entendimento que esta corrida de raciocínio a que nos juntámos aparentemente pela metade vai dar à cauda do pensamento, das personagens que nunca morrem e que se montam com a mecanicidade das regras de um jogo que nos ficam. Bola de Bilhar é manual para uma meditação que marca.
Nessa noite não jogaram bilhar, mas prometeram que quando jogavam não faziam batota. Só havia ping-pong.

Fotografias: Leonardo Tavares
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