Prisão Platão
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
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No dia 9 de novembro de 2025, o Jur.nal esteve no Quiosque dos Coruchéus com os Prisão Platão. Entre pulsão, rutura e construção coletiva, a banda emergente lisboeta falou sobre a sua formação, a sua ética criativa e o lançamento iminente do seu EP, ponto de ignição de um projeto simultaneamente introspetivo e interativo.
Quem são os Prisão Platão?
A banda surgiu em 2021, a partir de aproximações sucessivas e de um contacto constante com a música ao vivo. O núcleo inicial - Francisco Gallis “Fran” (voz, guitarra e composição) e Tiago Lisboa “Lisboa” (baixo) - deu-se na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT), num contexto ainda marcado por experiências paralelas na guitarra e na bateria. Mais tarde o grupo consolidou a sua identidade e ajustou a formação, com Gonçalo Gamas “Gamas” na bateria e Francisco Adónis “Adónis” como guitarrista principal.
O nome Prisão Platão ressoa como um riff imaculável: duas palavras em P, rimadas, simétricas em sílabas e letras, pulsando música por si só, com ecos inerentes de rock português na génese. O seu paradigma, ainda assim, reside em deixar o significado à deriva na maresia de interpretações dos ouvintes.

Influências artísticas
Prisão Platão apresenta-se como uma banda de rock alternativo, marcada por impulsos de funk, post-punk e new wave - não como etiquetas fixas, mas como matérias de fricção estilística.

No contexto do rock português, a associação aos Ornatos Violeta surge de forma quase inevitável. Foi a partir desse imaginário - e, em particular, do verso da canção “Punk Moda Funk”, “o punk moda funk um dia vai voltar” - que surgiu a questão sobre se essa ideia de retorno atravessaria a música do grupo. A sua resposta foi clara: para eles, esse regresso não está por cumprir - a sua força motriz reside na procura de um novo funk, atravessado por uma base mais rock e por uma urgência contemporânea.
Emergem ainda referências como The Doors, David Bowie ou Velvet Underground, influências que pertencem sobretudo ao estilo individual, sendo a partir dos contrastes de géneros musicais que nasce a identidade sonora da banda: cada membro traz um repertório próprio, nem sempre inteligível à superfície, mas determinante na forma de evolução do projeto. O grupo, envolvido numa conjuntura em mutação estilística, concebe um som idiossincrático que, como reconhecem, acaba por “soar a Platão”.
Processo Criativo
Para os Prisão Platão criar é negociação constante - entre vontades, tempos e sensibilidades -, um exercício orgânico mas exigente que comparam a um “casamento poliamoroso entre quatro gajos extremamente hormonais e apaixonados por aquilo que fazem”.
As suas canções nascem de uma necessidade interna, de músicas que gostariam de ouvir e que ainda não existem fora do seu universo. A composição arranca pelo som e energia, encaixando-se no que já existe, assumindo-se mais como extensão sensorial do que como chave interpretativa. A letra deixa o sentido sem dilucidação para que o ouvinte se debruce ativamente, o que amplifica a sua imersão sonora.
A parte mais desafiante? O tempo que tudo leva: conciliar ritmos e visões enquanto a gaveta transborda de material novo, ansioso por sair, sendo nesse equilíbrio inquietante que o EP vindouro emerge com força - não como rutura total com os projetos anteriores, mas como a sua própria era. “O som evoluiu”, dizem, fundindo intenção, escrita e som num território único.
Singles
Até agora, o percurso da banda tem sido marcado por três singles lançados em 2023. “Novo Mundo” surge como ponto de viragem: em constante mutação, fixa-se na coexistência de perda, confronto com o desconhecido e reconstrução, num processo de resiliência e passagem. “Melodia Mordomia”, mais densa e poética, percorre críticas sociais e imagens ambíguas. Já “Funkomania” - pensada para o movimento - desloca-se para o corpo, afirmando-se em concerto como uma plena libertação coletiva que vibra em palco e plateia, sendo descrita como “uma música para a malta mexer, para dançar”.
Surge ainda “Paciência”, uma das faixas mais antigas da coleção que, ainda não tendo edição oficial, é das mais reconhecidas ao vivo, ganhando um carácter quase ritual com a repetição incessante de “tem paciência”. “É um mantra”, explicam, “ uma frase dita vezes suficientes até se tornar verdade”.
Hoje, a banda sente estes singles como marcas de uma era já finda. Nesse aspeto, confessam estarem “presos à era dos singles” - uma etapa necessária que abriu caminho, mas agora eclipsada pela vastidão narrativa e conceitual do EP que lateja no horizonte.
EP
Descrito pela banda como a história do “lento caminhar da civilização à selva”, este projeto constitui o primeiro gesto verdadeiramente coeso dos Prisão Platão. Mais do que uma coleção de faixas, apresenta-se como um percurso narrativo conduzido por um sujeito poético único, cuja vida civil vai sendo progressivamente corroída - afastando-se da tecnologia e do quotidiano urbano - até entrar num estado de selvajaria, tanto concreta como metaforicamente.
Esta narrativa desenvolve-se a partir de um ponto de vista assumidamente enviesado, sendo tudo filtrado pela experiência desse sujeito. O que permanece deliberadamente em aberto é a natureza dessa transição - será uma queda ou uma elevação? Uma perda irreversível ou um gesto de libertação? O EP não responde, expondo o conflito e deixando-o pulsar.
Ao longo do disco, emergem temas como identidade, fragmentação, ausência e reconstrução. A selva funciona simultaneamente como metáfora interior e espaço possível, espelhando um processo de degradação gradual da identidade anterior. Não há uma rutura súbita, mas antes um desgaste contínuo - um deslocamento lento que transforma o quotidiano em estranheza.
Musicalmente, o EP marca uma expansão clara do espectro da banda. Sem abandonar a base rock, os Prisão Platão abrem espaço ao experimentalismo, à dilatação de estruturas e a momentos em que o som se sobrepõe à forma tradicional da canção. Há faixas que se constroem pela tensão, outras pela acumulação, outras ainda pela suspensão, refletindo o próprio percurso instável do sujeito poético.
No meio dessa expansão sonora, reaparece “Paciência”, surgindo desta vez em versão de estúdio, revista e “melhorada em certos aspetos”, segundo a própria banda.
Essa ideia de transformação progressiva encontra eco também no plano visual. A capa do EP, concebida pelo Coletivo Triciclo, traduz graficamente essa passagem da ordem à degradação, acompanhando o imaginário do disco e reforçando a noção de percurso num estado cada vez mais selvagem.
A condição de artistas emergentes em Portugal
Enquanto banda emergente, o grupo identifica um panorama marcado por limitações estruturais: escassez de espaços para tocar, precariedade económica e um circuito cultural cada vez mais fechado sobre si próprio. Apontam, simultaneamente, para a existência de uma “bolha” que tende a afastar novos públicos da música independente, num contexto em que a descoberta é frequentemente suplantada pela reiteração algorítmica e pelo conforto do tributo.

Nesse cenário, a música arrisca transformar-se em ruído de fundo - algo que se ouve “enquanto se faz qualquer coisa”, em vez de um gesto de escuta ativa. Como afirmam, haverá sempre dois tipos de pessoas: “aquelas que escolhem o Novo Mundo e as que não escolhem, ficando no antigo”.
Neste contexto, criar assume-se como resistência. Cantar português, fora dos grandes circuitos e sem concessões fáceis torna-se num ato político e cultural; numa insistência na curiosidade, no risco e na provocação deliberada de consciência.
Esta consciência não se traduz, no entanto, em mensagens fechadas ou moralizantes - os Prisão Platão preferem levantar questões, expor dissonâncias e estimular reflexão, reconhecendo sincronicamente a responsabilidade inerente ao acesso a um público. O sentido final da música escapa sempre ao controlo de quem os cria. Deste modo a música torna-se, entre exposição e apropriação, numa ligação contínua entre o artista, o ouvinte e os significados que dançam perpetuamente no imaginário interpretativo.
Palco e futuro
É em palco que os Prisão Platão sentem a sua música completar-se. O concerto é pensado como extensão da narrativa do EP, começando num registo mais contido e culminando numa revolução sensorial.
A banda prepara-se para apresentar em breve este novo trabalho ao vivo, com o seu lançamento previsto para o início deste ano. O primeiro concerto de 2026 será dia 17 de janeiro no Tokyo Lisboa, numa noite organizada pelo próprio grupo e partilhada com Flor Girino, Folívora, Lesma e Pangeia. Para quem quiser debruçar-se no seu trajeto selvagem, a banda continua a deixar sinais nas plataformas digitais - Instagram, Spotify e YouTube.

Fotografias: Prisão Platão.
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