Flor Girino
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
- 1 day ago
- 7 min read
No dia 20 de novembro de 2025, o Jur.nal encontrou-se na Padaria Portuguesa do Cais de Sodré com Lucas Calheiros, vocalista e guitarrista principal dos Flor Girino. A banda, ainda emergente mas já marcada por um imaginário próprio, refletiu sobre o seu percurso, as metamorfoses que os definem e a forma como convertem esses estados liminares em música.
Quem são os Flor Girino?

Tudo começou em 2020/2021, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), quando Lucas Calheiros conheceu Matilde Ho “Mati”, futura baterista. A ideia de tocarem juntos ganhou forma ao convidarem Bruno para o baixo e, pouco depois, Tony para a guitarra. Com o tempo, a formação foi mudando: Bruno foi substituído por Gabriel Cerutti e “Jaca”, sem guitarra para esquerdinos, passou para o teclado, aprendendo à medida que se integrava na banda. Com Tony ainda na guitarra, estrearam as primeiras músicas em concertos na FLUL e depois em bares de Lisboa e das Caldas da Rainha, onde começaram a consolidar o quarteto que viria a ser a formação atual dos Flor Girino.
Antes de Flor Girino, passaram por nomes como “Petricor” - o aroma causado pela chuva - e “21 Gramas” - uma referência ao filme sobre o peso da alma. Porém, esses nomes acabaram por ser descartados. Assim, na preparação do seu primeiro concerto, recorreram a um gerador de palavras que concebeu opções como Flor Girino, Pose Colapso, Trigo Côncavo e Perfume Cinza - e o resto já se sabe.
Unir flor e girino - delicadeza e viscosidade, luz e transfiguração - foi involuntariamente perfeito. Cada membro encontrou um reflexo pessoal: natureza, sustentabilidade, ruralidade e descontinuidade. Por conseguinte, este antagonismo entre graciosidade e grotesco percorre letras, sonoridades e atmosferas, moldando o paradigma artístico da banda: crescer na lama para florescer.
Influências artísticas
Ainda que brotem do solo do rock, os Flor Girino nadam num charco sonoro onde a palavra género chega sempre tarde demais. Lucas descreve a banda como rock alternativo “por falta de melhor”, mas vê nesse rótulo apenas uma antecâmara para um território mais mutante. A sua música alterna euforia e nostalgia, dissolve-se em momentos sublimes e irrompe em explosões súbitas, como se cada faixa atravessasse várias fases de uma mutação interna.
Se tivessem de escolher referências, talvez falassem de um rock alternativo contaminado por impulsos progressivos, por um psicadelismo frenético e por um glam primordial que ecoa Bowie. No entanto, tudo isto continua a ser apenas superfície - a corrente subterrânea do seu trabalho é a versatilidade: camadas que se enrolam umas nas outras, atmosferas densas em espiral e composições que se constroem mais ao nível da sensação intuitiva do que da estrutura formal.
Essa pluralidade estética nasce também da mistura de interesses de cada membro. Lucas e “Mati” partilham a admiração pelos Smashing Pumpkins; Lucas junta-lhe o shoegaze, o rock alternativo com influência punk e indie rock dos anos 2000. “Mati” traz ecos de soul, R&B e blues; Cerutti injeta a energia abrasiva do pop‑punk brasileiro; e “Jaca” cruza referências de indie pop, indie rock dos anos 2000, eletrónica e videojogos, inteligíveis nas texturas melódicas nos teclados. Esta disparidade de referências musicais acaba por trazer maior força criativa - em vez de um estilo único, a banda cria um ecossistema sonoro incomparável.
Além da música, há um imaginário conceptual inerente: cinema, literatura, poesia e filosofia alimentam o seu universo. Ecos de David Lynch, William Burroughs, António Maria Lisboa, Mário Cesariny e Schopenhauer (entre outros) percorrem silenciosamente o seu trabalho, insinuando-se nas escolhas de forma, ritmo e sensação, como sombras que se alongam. Do surrealismo, bebem a liberdade de narrativas oníricas; do grotesco, o gosto pela ferida simbólica e a capacidade de transformar o corpo e o sensorial em metáfora; da filosofia, a perceção de que a realidade se desdobra sempre em camadas de ilusão.
A exploração estética dos Flor Girino também vive na relação entre música e imagem. Lucas explica que a banda sempre procurou “transferir o universo das letras e do som para o visual”, criando um microcosmos próprio onde o etéreo, a estranheza e a intensidade coexistem como uma mesma língua. Esse fio condutor atravessa capas, videoclipes e ambientes sonoros: as capas dos primeiros singles surgiram a partir de fotografias manipuladas pela própria banda, enquanto a capa do álbum e dos singles integrantes deste foram concebidos em colaboração com Pedro Ho, irmão de “Mati”.
Processo criativo
Criar dentro dos Flor Girino implica vulnerabilidade - mas também uma espécie de disciplina afetiva. A banda compõe num regime de experimentação fluida e contínua, onde cada membro traz impulsos que nem sempre encaixam à primeira. Às vezes o ensaio é um puzzle; outras, uma colisão. Mas o vínculo entre os quatro permite que esse processo, potencialmente fraturante, se transforme num lugar de construção.
“Temos a sorte de sermos muito amigos”, diz Lucas. É essa amizade que permite negociar ideias difíceis, abandonar partes de músicas que adoravam e distinguir entre aquilo que funciona para a banda a tocar e aquilo que funciona para o ouvinte a ouvir. Destaca-se a faixa “Avião 4512”, que originalmente tinha doze minutos e foi reduzida para metade.
O surrealismo das letras nasce frequentemente de estados inconscientes. Como explica Lucas: “Às vezes escrevemos e só depois percebemos que descrevemos algo que estávamos a sentir”. O processo de composição é, assim, quase biológico, com a música e as palavras a crescer como organismos vivos. E é nesse interstício - entre sonho, charco e febre - que se articula a coerência estética e narrativa do projeto.
Singles
Antes de Charcolepsia, o grupo foi descobrindo o seu território através de singles que funcionaram como ensaios de identidade: “Corvos” foi o seu primeiro lançamento - entretanto retirado do Spotify para futura regravação, “melhor executada e melhor produzida”, como sublinha Lucas, que faz ainda questão de agradecer a Sara Silva, “a pessoa sem a qual teria sido impossível lançarmos música pela primeira vez” -, onde já se pressentia o fascínio pela viscosidade imagética e pela resistência bruta.
Seguiu-se “Lixívia”, composta por Lucas ainda antes da existência da banda e cuja versão original permanece disponível no SoundCloud - uma dissolução elegíaca, onde tudo parece ruir por dentro. “Cálcio” adensa esse delírio: lógicas ordenhadas até à exaustão, metais que minguam ao calor e materiais que se confundem como num sonho químico em combustão.
“Praia Dançante”, “Grilo Grávido” e “Fonte de Gesso”, lançados antes mas incorporados no álbum, acenderam os primeiros vestígios da narrativa incandescentemente ácida que consolidaria Charcolepsia.
Cada um destes singles ganhou corpo visual, contando com videoclipes disponíveis no YouTube - peças que, funcionando como extensões sensoriais do universo da banda, montam o puzzle flor-giriniano.
Álbum - Charcoplepsia
Lançado dia 14 de março de 2025, Charcolepsia é um mergulho no inconsciente, uma exploração de imagens absurdas e sensações físicas que atravessam o corpo e a alma. O título - um trocadilho em “charco” e “narcolepsia” - materializa a intenção de criar um universo onde o ouvinte oscila entre vigília e sonho, num estado de consciência incerto. As músicas transitam entre violência imagética, poesia surreal e momentos instrumentais contemplativos.
Como explica Lucas, “há uma narrativa, mas não necessariamente linear - é como se alguém apagasse e acordasse em certos tipos de momentos, sem decidir em que tempo da sua consciência está”. Faixas como “Espião” e “Riachos”, que separam ou silenciam a voz, mostram a importância do silêncio na experiência do álbum, permitindo ao ouvinte escolher como se aproxima da música e reforçando a dimensão quase pós-vida de algumas composições, destacando-se “180 (e cinco)”.
O álbum traz várias inspirações literárias e contemplativas, sublinhando-se, por exemplo, “Avião 4512”, fortemente inspirado em Alice no País das Maravilhas, que incorpora frases quase literais como “Londres é a capital de Paris”. A faixa aborda a sensação de impostor na própria vida e a experiência de queda constante - um reflexo da dificuldade de “aterrar” na existência -, havendo ao longo da faixa a sensação paradoxal de queda e aceleração. “Espião”, por sua vez, é baseado num hexagrama do I Ching, reforçando a temática da vulnerabilidade e do sentimento de deslocamento.
A exploração de conceitos filosóficos também marca Charcolepsia. Em “Véu de Maya”, refletem sobre ideias e ilusões da realidade, inspirada por Schopenhauer e pelo hinduísmo, mas trabalhada como matéria poética.
No que toca às letras, algumas nascem de experiências concretas: a segunda parte de “Grilo Grávido”, por exemplo, surgiu quando “Jaca” pisou um ancinho, espetando-se no pé, episódio que inspirou o verso final da faixa; já outras emergem do fascínio pelo sombrio e sensorial, metaforizando-se sensações de fragmentação (primeira parte de “Grilo Grávido”) e sufoco (“Chuva Ácida”), entre tantas outras. Esta fusão real-imaginário reforça a hibridez surrealista do álbum, levando o ouvinte a uma viagem psicadélica pela mente e sonho.
A condição de artistas emergentes em Portugal
Ser artista emergente em Portugal exige navegar entre oportunidades dispersas e limitações estruturais. Lisboa oferece uma audiência recetiva e apoio significativo, mas os espaços para atuação vão-se tornando cada vez mais escassos. Lucas refere: “Alguns dos que têm mais recursos dão menos valor às bandas emergentes, enquanto outros com menos meios cuidam mais do evento e da escolha dos artistas”.
No contexto destas dificuldades, os Flor Girino procuram manter a sua coerência artística, um equilíbrio entre experimentação e identidade própria, onde cada decisão - musical ou estética - reflete a sua maneira singular de abordar a criação, com pequenas fissuras que desafiam convenções e expectativas.
A banda reconhece que estar presente neste contexto lhes permite, de forma natural, apontar para dissonâncias ou injustiças que observam - não como último manifesto, mas como consequência do lugar que ocupam.
Palco e Futuro
O palco é para os Flor Girino onde a sua música se materializa e se transmuta em êxtase coletiva. Vários concertos marcaram a banda, como a atuação de estreia do Arraial do Instituto Superior Técnico (IST) em 2024, e a abertura para os Ornatos Violeta nas festas de Oeiras do ano passado, um concerto que exigiu adaptação e um novo rigor na preparação do espetáculo. Esse cuidado com a performance tem sido acompanhado por um registo visual crescente: além dos videoclipes, a banda documenta também o seu percurso ao vivo - como no vlog e no vídeo do concerto com os Ornatos -, disponível no YouTube.
Quanto ao futuro, os Flor Girino pretendem expandir-se e experimentar mais, explorando estruturas musicais menos convencionais e novos formatos de composição. Já trabalham em faixas novas e entraram no processo de gravação, ainda sem definir se o próximo lançamento será um conjunto de singles, um EP ou um novo álbum. O que permanece constante é a vontade de continuar a desafiar-se - de distorcer, metamorfosear e sinestesiar.
No imediato, a banda sobe ao palco do Tokyo Lisboa no dia 17 de janeiro, numa noite partilhada com Folívora, Lesma, Pangeia e Prisão Platão. Para quem quiser seguir de perto este projeto em curso - e entrar num universo onde o delírio se torna linguagem - as novidades da banda continuam a surgir nos seus palcos e plataformas - Instagram e Spotify -, onde os Flor Girino vão deixando rasto do que está por vir.

Fotografias: Flor Girino
_edited.png)

Comments