Astra Vaga
- Lara Cândido
- Feb 25
- 7 min read
No dia 30 de janeiro, o Jur.nal esteve na Casa Capitão, onde Astra Vaga deu início à digressão de apresentação do álbum de estreia Unção Honrosa. Foi nesse contexto que a conversa com Pedro Ledo ocorreu, incidindo no projeto a solo que reúne experiências acumuladas ao longo de vários anos e propõe um novo momento no percurso do músico.
Quem é Astra Vaga?

Antes de Astra Vaga, houve uma constelação de estilos e palcos - durante cerca de quinze anos, Pedro Ledo foi afinando a sua identidade em diferentes projetos, movendo-se sobretudo em territórios experimentais: passou pela banda de surf rock Lululemon e integrou também The Miami Flu, um projeto de inclinação psicadélica que lhe permitiu explorar outras texturas e linguagens.
O fim dos The Miami Flu marcou, porém, um desvio na sua trajetória, não apenas pela dissolução da banda, mas pela vocação que este sentiu em experimentar outra língua e outro grau de exposição. O português, enquanto língua em que pensa e sonha, cuja métrica e musicalidade próprias passaram a orientar a composição, fê-lo ver uma nova luz mais íntima. “É muito mais transparente para a minha alma transcrever para português tudo o que quero dizer”, confessa.
Licenciado em Economia e impedido desde cedo de estudar música formalmente, Pedro construiu durante doze anos uma carreira estável numa empresa, enquanto a música existia em paralelo. A decisão de abandonar essa estabilidade não foi, portanto, súbita, tendo sido antes um gradual desalinhamento interior até que o corporate deixou de ser suficiente para o manter nessa órbita. Despediu-se há cerca de um ano para se dedicar inteiramente à música e afirma sem hesitação: “Nunca fui tão feliz na vida”.
É desse gesto de rutura que nasce Astra Vaga. O nome, de raiz latina, pode traduzir-se por “estrela cintilante” ou “estrela vagabunda”, condensando o fascínio pelo que é distante e intocável e pelo percurso autónomo, sem elipses impostas. A estreia deu-se a 17 de abril do ano passado, com o single “Lamento”, a primeira afirmação pública deste novo ciclo.
Influências artísticas
A música de Astra Vaga desenha-se numa zona crepuscular entre o post-punk e o dream pop. Nessa cartografia sonora fulguram referências como Bauhaus, Depeche Mode, New Order, Tears for Fears, The Cure e The Smiths - astros de densidade rítmica e melancolia elétrica. Noutra camada, mais difusa, expandem-se nebulosas como Cocteau Twins e My Bloody Valentine, onde o som se dissolve em reverberação e textura. Ainda assim, estas influências atravessam a música sem a fixar. “Eu gosto de música como um todo”, confirma.
Essa recusa de fixação manifesta-se numa mobilidade estética assumida: ao longo do seu percurso, Pedro explorou sonoridades associadas aos anos 60, passou por linguagens mais psicadélicas dos anos 70 e, mais recentemente, aproximou-se de um imaginário post-punk de contornos oitentistas. Cada projeto inscreve-se num momento distinto, pelo que a repetição enquanto fórmula segura não lhe apraz.
Na arquitetura do som, a nitidez não é fundamento. O recurso a ferramentas como o bitcrusher ou o glitch fragmenta o sinal e introduz distorção deliberada, recusando o polimento absoluto e afirmando o ruído como linguagem expressiva. Tal escolha encontra eco na estética singular dos videojogos antigos, marcada por limitações técnicas como redução de bits e interferências.
Esta lógica estende-se também à dimensão visual do projeto, que invoca suportes analógicos como o vídeo em VHS ou a utilização de televisões CRT como forma de reintroduzir a imperfeição no olhar. Desses meios nascem granulações, vibrações e falhas subtis que, ao fazerem perder contornos e ganhar atmosfera, resistem ao presente hiper definido e criam uma ponte até ao imaginário nostálgico.
Essa linguagem manifesta-se de forma particularmente evidente nos singles “Lamento”, “Roxo”, “Cor-de-Rosa” e “Noite a Cair”, lançados individualmente antes de integrarem Unção Honrosa. As respetivas capas e videoclipes prolongam essa estética: imagens atravessadas por grão, sombras densas e tonalidades crepusculares que ecoam a matéria sonora.

Processo criativo
Se o percurso anterior de Pedro Ledo foi marcado pela lógica de banda - com ensaios partilhados, decisões negociadas e validação coletiva -, Astra Vaga inaugura um método mais solitário e mais exigente. O seu centro de gravidade deslocou-se, deixando de se situar na reação imediata dos outros e passando a residir numa escuta interna mais rigorosa, espaço onde se concentram a composição, os arranjos e a direção artística, ainda que conte com músicos que o acompanham ao vivo e, pontualmente, em estúdio.
“Foi complicado este processo de ter sido eu mesmo, de ter de ser eu a aprovar as minhas próprias ideias e não depender dos outros”, reconhece. No entanto, a autonomia, inicialmente desconfortável, revelou-se libertadora, tendo encontrado nesse exercício de responsabilidade total uma forma de trabalho que pretende preservar, por ser mais fiel à sua própria intuição.
Álbum - Unção Honrosa
Unção Honrosa, lançado a 15 de janeiro e disponível em edição física de vinil através da editora Saliva Diva, nasce de uma ambivalência assumida, sendo simultaneamente ritual de cura e inventário de feridas. O título aproxima dois gestos simbólicos - a unção e a menção honrosa - para expor a tensão central do disco: a obsessão pela validação exterior e a fulcralidade de a substituir por um gesto íntimo de reconhecimento próprio. “As pessoas andam à procura de ser validadas - pelos pais, pelos amigos, pela sociedade”, reflete Pedro. “Mas eu cheguei a um ponto em que percebi que a validação não vale nada. Não traz felicidade, não traz realização”.
Essa consciência não nasceu sob a luz do dia, mas nas margens do tempo, quando as horas já não pertencem a ninguém. Muitas das canções foram escritas em after hours, madrugada dentro, quando a música coexistia ainda com uma carreira fora dela. Para além das madrugadas, Unção Honrosa foi tomando forma nas várias casas em que Pedro viveu no Porto, conservando memórias dos lugares onde o som se acendeu. “Eu lembro-me onde estava às quatro da manhã quando surgiu aquela linha de baixo… tenho a imagem fotográfica do sítio”, recorda.
Recusando a linearidade, o álbum organiza-se como um atlas emocional, feito de oscilações e contrastes. Move-se num campo gravitacional instável entre combustão e apagamento, entre a intensidade que incendeia e o gesto abrupto de desligar a luz, um modus operandi que o próprio músico reconhece em si: “Eu sou uma pessoa muito intensa. Ou estou a sentir tudo com muita força ou desligo completamente”.
O percurso inicia-se sob o signo da nostalgia. “Cor-de-Rosa” instala a memória como espaço de abrigo, onde a fantasia se integra no campo onírico. O passado surge filtrado por uma luz suave e irrecuperável - belo, precisamente porque já não pode ser resgatado. Essa mesma tonalidade melancólica adensa-se em faixas como “Ninguém Me Vê” e “Nada a Meu Favor”, onde o sujeito poético oscila entre o desejo de permanecer e a tentação de desaparecer, deixando-se num estado inerte.

À medida que o disco avança, essa inércia começa a fissurar-se. A desilusão romântica ocupa o centro de “Lamento”, onde a ligação se constrói tanto pela presença como pela ausência. Fiel à sua própria intensidade, Pedro recusa afetos incompletos - ou há admiração e desejo na mesma frequência, ou resta apenas o lamento, que deixa de ser apenas sentimental para assumir contornos existenciais.
A tensão interior corporiza-se em “Desfeito”, onde a imagem de condução em contramão metaforiza um corpo em luta consigo mesmo e que acelera apesar da ausência de direção. Essa vertigem mental encontra a sua forma mais explícita em “Noite a Cair”, onde o verso “eu não paro de pensar e penso até explodir” condensa o embate constante entre euforia criativa e exaustão interior.
É a partir desse ponto de saturação que o álbum se desloca do colapso para a afirmação. “Ilusão” introduz um gesto claro de liberação: a ilusão já não é projetada no outro, mas nas narrativas herdadas - familiares, profissionais, sociais - e na imagem do que se “devia ser”. Essa tomada de posição aprofunda-se em “Quem Queria Ser”, onde a fragmentação sonora acompanha a recusa definitiva de validação exterior.
O álbum encerra com “Roxo”, faixa deliberadamente deslocada do eixo post-punk dominante e mais próxima do rock psicadélico, cuja energia sugere menos um desfecho do que uma abertura, deixando ecoar uma curiosidade voltada para o futuro e para o que ainda permanece por desvendar.
Exposição e risco
Ao longo do seu percurso - e de forma particularmente clara em Unção Honrosa -, Astra Vaga afirma-se como um projeto que recusa fazer música como resposta a expectativas externas. Com o tempo, Pedro percebeu que a validação é um motor frágil, incapaz de sustentar um gesto criativo duradouro, identificando o erro de ter pensado a música pelo olhar dos outros no seu próprio passado.
A criação surge, deste modo, como necessidade de um espaço onde a identidade se constrói sem negociação, mesmo que implique risco e exposição. Ainda assim, subjaz um paradoxo. “Se fosse por paixão pura, fazia sozinho e não mostrava a ninguém”, admite. A partilha, não nascendo da vontade de reconhecimento, advém da possibilidade de os ouvintes se reverem na mesma oscilação que Astra Vaga transmite.
Palco e futuro
No presente, Astra Vaga abandona o recolhimento noturno do estúdio e projeta-se no espaço público do palco. A digressão de apresentação de Unção Honrosa começou na Casa Capitão (Lisboa) a 30 de janeiro, seguindo depois para o Teatrão (Coimbra), para o MAVY (Braga) e para o Maus Hábitos (Porto). A estrada prolonga esse movimento de exposição gradual com novas datas já confirmadas no CAAA (Guimarães) a 14 de março e na Barreirinha (Funchal) a 27 de março.
Mas este movimento não se esgota na estrada, já se anunciando o futuro do projeto em estado embrionário. Pedro revela ter já algumas composições prontas, apontando para outras estéticas.
Enquanto projeto emergente, Astra Vaga apresenta-se na carta celeste da música enquanto estrela sem destino previamente traçado. Para quem quiser sondar o seu percurso antes que o vórtice temporal o atravesse, estão disponíveis as plataformas digitais - como o Instagram e o Spotify.

Fotos: Astra Vaga
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