Nero
- Matilde Aranha
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No dia 6 de março, o Jur.nal deixou-se conduzir pelo poeta Nero pela reunião da curvatura dos círculos do tempo. Algures nessa dobra mística entre o que herdamos, perdemos, esquecemos mas somos : a obra e o pensar de Nero e os granulados de si que partilhou nesse dia.
A mão por detrás do gesto Nero é Roberto Simões, algarvio nascido em 1987, que divide a devoção entre a docência de Português e Literatura e a construção de um universo literário que recusa a pressa. Autor de maturação em lume brando, permitiu-se a preparar a sua voz numa antecâmara de humildade voraz, agarrando os saberes e hipóteses que advém da exposição profunda ao estudo da língua e da literatura, como frasco de vaga-lumes, querendo percebe-la antes de a proferir sua. Estreou-se com "Oceano - O Reino das Águas" em 2021, onde fundiu, de forma inédita, o rigor da poesia épica clássica com a liberdade da fantasia moderna.
A génese da obra de Nero não se encontra no conforto da inspiração súbita, mas num longo e penoso período de impasse. Durante quase duas décadas, o autor carregou o peso de uma hiperconsciência do texto, exacerbada pela sua passagem pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ali, a perceção de que na poesia as palavras não podem estar ao acaso — de que cada som e cada vírgula carregam uma responsabilidade ontológica — imobilizou-o. O perfecionismo tornou-se uma angústia espiritual; Nero sentia a escrita como chamada para se cumprir, mas via-se por vezes truta em céus de pássaros pelo obstinado contacto com os grandes, cuja inspiração por vezes é tanta que nos assopra do ringue, de tentar.
Foi necessário o regresso ao equilíbrio da sua geografia algarvia para que esse nó se desatasse. A escrita revelou-se, então, como um processo psicoativo: uma ferramenta de equilíbrio químico e mental, capaz de harmonizar o espírito com o mundo. O seu primeiro livro, "Oceano", é o testemunho dessa libertação. Inspirado pelo contacto infantil com o mar do litoral algarvio, onde a imaginação estendia o desenho do horizonte do que estaria oculto sob as ondas, Nero criou uma epopeia onde seres fantásticos guerreiam em cenários submersos.
Imiscuír-nos no pensar de Nero é descobrir um arquiteto que planeia os seus livros com uma obsessão rigorosa pela simetria, uma característica que associa a uma certa "alma árabe", onde a arquitetura é feita de equilíbrios geométricos. Influenciado pela estética visual de realizadores como Stanley Kubrick ou Wes Anderson, o poeta organiza a sua produção através de jogos de espelhos e centros de equilíbrio.
Cada volume da sua "Trilogia do Espírito" rege-se por uma numerologia e um elemento próprios. "Oceano" (Água) é dominado pela simbologia do número cinco; "Telúria" (Terra) foca-se no número três, espelhando a transição do campo para a cidade e o posterior regresso à natureza; "Akbar" (Fogo) estrutura-se sobre o número quatro, correspondendo às fases da lua. Esta organização não é meramente cosmética; é uma estrutura de suporte para o espírito e para o livro enquanto objeto visual total, onde os frontispícios e as cores das capas comunicam entre si.

Com formação musical pelo conservatório, Nero admite que os seus versos nascem frequentemente no som antes da palavra. Aglomeram-se sonoridades na sua mente, intuições rítmicas que acabam por ditar a escolha dos vocábulos. Para o autor, a musicalidade é um território que a poesia contemporânea tem muitas vezes negligenciado, mas que ele reclama como essencial, explorando ritmos que vão para além da rima tradicional e que tornam os poemas mais vivos.
Esta ligação ao som levou-o a uma nova dimensão: a recitação ao vivo. Se inicialmente hesitava em dizer os seus próprios textos, a experiência em festivais como o MED ou a Feira Medieval de Silves mudou a sua perceção. Ao declamar acompanhado por instrumentos como o rubab afegão, o alaúde árabe ou a flauta ney, Nero descobriu que os seus textos passam a "respirar de outra forma", ganhando camadas de sentimento que a leitura silenciosa nem sempre revela.
Em "Akbar — Lunário Poético duma Alma ainda Árabe", publicado em 2025, Nero respira a memória depositada nas pedras de Silves. O livro é uma resposta à curiosidade sobre a influência árabe que persiste na agricultura, na arquitetura e na alma da região. Mais do que um exercício histórico, o título remete para o que é "maior", cruzando a ideia de destino com um lunário poético que divide a narrativa em quatro partes: do nascimento da fé islâmica à queda do império e às pontes com o presente multicultural.
Apresentado à sombra das muralhas de grés, no Café Inglês, a obra propõe o silêncio e a tolerância como instrumentos de convivência. Para o autor, este livro devolve ao leitor uma parte de si que permanecia adormecida, evocando o legado de figuras como Ibn 'Ammar e al-Mu'tamid.
O percurso de Nero tem sido um caminho de abertura. A sua experiência internacional em Marrocos e Espanha, através do projeto "Poesias do Mundo" alavancou um gosto pelo qual admite vir a aventurar-se, sem levantar para já o pano além da dose de introdução necessária aos curiosos.
Embora recuse o papel de ativista explícito, Nero reconhece que a sua poesia carrega bandeiras de diálogo intercultural e autoconhecimento. O seu próximo projeto literário promete alargar o círculo para lá do Mediterrâneo, mergulhando na sabedoria ancestral da Amazónia e na cosmogonia Tupi-Guarani. Ali, procura explorar a ideia de que a palavra e a alma são a mesma coisa: nomear um ser é assumir a sua alma.
No horizonte está ainda um trabalho sobre neurodivergências, um tema que Nero encara como uma exploração da singularidade do cérebro e como parte de uma busca contínua pela serenidade. Nero vai deste modo compondo origamis de peso e luz dos meandros e interseções dos mundos que existem no passo que tomamos, no que tomaremos, na terra e debaixo do sol em que isso se dá. Como um ourives da palavra, um bardo do verso, o Zéfiro dos vários quandos e formas do ser.
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