construsaocivil
- Matilde Aranha
- Apr 28
- 11 min read
A 18 de fevereiro de 2026, por esparsa e passageira ejeção orbital , Construsaocivil flutuou pelo terreal do Príncipe Real. A captação desta breve fuga para o material da quaseentidade dos ecrãs da demografia pubescente (de espírito/ de hormonas) foi exclusivo do Jur.nal. A página de internet que encabeça o atual estágio da multidisciplinariedade, ocasionando variantes por todo o nosso pedaço de rede nacional, desconstruiu nos rasgos de reflexões adiante, o momento que a arte agora respira nesta sua insuspeita incubadora. Rápida, peculiar e para alguns ainda misteriosa. O fenómeno que encapsula o modo de pensar e fazer arte da geração que agora dá nomes à cultura é a pulga petulante pela qual a calmaria aparente do consenso de humores e referências dos últimos anos não esperava. Na sua estranheza, o redescobrir de um segredo que o Homem vai esquecendo e reaprendendo a cada vaga de cultura que surge: daqui a um mês já não nos achamos graça nenhuma.
A permanência no anonimato reconhecível tem sido a escolha de , nome artístico e de resto único nome que oferece porque lhe tratem os que já não se entrosaram com ele a tempo de o reconhecerem dos cabides do infantário. Mostra a cara nas redes de quando em quando por ser tática que diz correr bem. E apesar de não dar o nome cívico às massas, bastam-lhe estas breves aparições para que saibam que é a ele que se devem dirigir, os que prestam maior culto à sua página, para cravar um boné personalizado ou outro qualquer merch, já símbolo de um certo entendimento e pertença à linguagem em que se brinca neste canto de internet.
O perfil que corteja quem o visita com o ícone de justaposição de um boiadeiro de berna feliz e a aleatória palavra “arvore”, a sua ausência de acento, e, todo o assumido Dadaísmo que isso propõe e espanta ou faz ficar de rajada, é linha no fio lógico da envolvência de Zagalo com a internet que data de há 20 anos.
Fala deste começo com um certo brio de pioneiro, contando ter sido um dos primeiros da turma a desbravar esse novo que se mostrou desde logo lugar onde podia brincar, encontrar e interagir com os seus interesses e formas de estar particulares e sozinhos. Foram várias as brincadeiras que percorreu até chegar a Construsaocivil, principiando-se com uma página de frases não ditas pelo Bob Marley, ditas pelo Bob Marley, em 2014; teve um perfil de Facebook com amigos da faculdade de memes sobre cultura popular portuguesa; até que finalmente, em momento de quarentena, se deparou com as volumosas pastas que havia acumulado de memes que criara com potencial para entreter um público maior do que o de então, dos seus conhecidos no discord, criando a página que conta hoje em dia com mais de 18 mil seguidores. Referindo-se a uma publicação recente sobre garfos a trocar impressões sobre amor, explicou como o chamamento nesta relação para-social remete para a ideia do real, um real não necessariamente seu, mas que também o podia ser, genérico, de alguém certamente. E acabar por ser esse o encanto da verdade imensurável do comum vago à volta do qual acabamos todos por orbitar. Ainda sobre o que o leva a criar e publicar neste formato disse, rejeitando a perceção de que os memes são necessariamente humor, que apesar deste ser por vezes motivo, existe toda uma vontade de tomar registo, de fazer referência e apelo a sub culturas, nichos, ser o aceno inesperado a esse compartilhado simplesmente para que este exista em algum lugar.
A criação surge-lhe esporadicamente de forma automática, como um picar do ponto, algo que se leva a fazer diariamente além dos impulsos, tal como a escrita, fazendo às vezes só pelo gosto da ação em si. Reconhece que é possível detetar alguma linearidade e se se quiser até, a existência de “conjuntos” nas suas publicações- unidos ora por tema, estilo ou paranóia que lhe estivesse colada na altura. Agora talvez formados de forma mais inconsciente, quase que já com deslize da prática de quem gera conteúdo com seriedade há seis anos, mas no princípio declaradamente mais matutados e inventivos. A mudança de proposta, que pareceu ter sido reconhecida ao passo da conversa, pode ser compreendida pela sua atual escassez de tempo, apertos materiais e uma certa ponderação de interesses que levou a uma forma diferente de gerir o consumo e a escrita face a este às vezes comboio, às vezes carris, às vezes carvão, às vezes corpo pelo qual o comboio passa por cima- de tudo isso. Vê-se em fase de acertar contas entre o que já escreveu e o conteúdo que já produziu que diz estar em maior peso de satisfação ao corrente.
Na ótica dos limites do formato dos memes que o levam a repensar a sua devoção atual a esse tipo de criação, fala sobre o imediatismo preciso para sustentar a sua relevância, invejando a maior permanência ou, pelo menos, maior ausência de pressa de outros âmbitos como a moda e a escrita- temas recorrentes no seu conteúdo seja através da referência a nomes ou cliques, e planos onde gostaria de dar os próximos passos. Foi nesta maré que Zagalo se deixou levar além das porções de aperitivo que serve por vezes na sua conta a nível de ruminações intelectuais. De um cutucar nos meandros do seu fascínio e posição sobre a moda, a cedência desta instigante partilha: não assume nem o que faz (referindo-se aos memes), nem o que gostaria de fazer (referindo-se à moda) como formas de arte apesar de reconhecer que estas necessitam de partir de um artista. Sobre a segunda convicção explicou ver isto assim não só pelo utilitarismo que a circunscreve mas também pela sua condição de objeto as definir mais do que a outras coisas. Contrapõe esta limitação ao exemplo do livro que apesar de poder ser objeto já foi e pode ainda ser só palavras ditas e decoradas, um conteúdo que, ao contrário da roupa, em nada restringe. A roupa veste-nos, condiciona-nos o corpo, pode passear no sublime também mas, e cito porque só tenho como o fazer, o seu raciocínio: “(…)por defeito o sublime não é o seu único objectivo. É também, mas a roupa tem que ser usada à partida. Além disso, a roupa também pode ser alterada, e vai ser alterada à medida que a usas. Não está nunca completa sem o seu uso e mudança: um quadro não reage assim. De igual modo, na perfumaria, cada perfume vai ser fisicamente diferente conforme a pele, roupa, temperatura, etc. Essas formas de criação humana vão ser alteradas por defeito. Tu não mexes num filme: as pessoas olham para a mesma imagem numa tela, mas podem ver coisas diferentes. Há também a questão de posse. A roupa é "nossa". Há muita gente que usa apenas um perfume e é o cheiro dessa pessoa. Acontece com frequência pessoas amigas associarem um certo perfume a mim (o bois imperial), apesar de nem ser o meu perfume preferido. Mas dizem que "cheira a eu". Um filme pode-nos representar muito, mas também não comunica de forma tão directa. No fundo, a roupa e a perfumaria são uma forma de comunicação de NÓS, para o resto do mundo. e as outras formas de arte funcionam numa comunicação menos pessoal, mais DO ARTISTA PARA NÓS. Não se criam quadros para serem usados na rua, por exemplos. e quando alguém compra um quadro, contempla-o na sua privacidade. Acho que a roupa e a perfumaria são feitas muito para serem vistas pelas outras pessoas, e para sermos vistos a usá-las. Mas são também mais que isso…”.
No curso desta temática, propôs-se ainda à desmistificação dos quesitos que marcam a inescapabilidade à interseção de tudo o que se consome (moda, internet, etc.) ao ponto do gatafunho. Assumindo a esteira do pensador e disruptor cultural Mark Fisher, afirmou o seu desdém pela crescente obstinação com a nostalgia, os movimentos revivalistas de fotocópia e devoção oca e inanimada às estéticas que vão voltando, sendo o romanticismo premente com o indie sleaze um dos principais dissabores que lhe têm estragado a timeline. Sauda, em contrapartida, a abordagem feita ainda agora à estética y2k, uma abordagem que preza por ter sabido revisitar os métodos de produção e criação desse início do século, com a introdução de algo novo e diferente. Atribui como causa desta tendência para o saudosismo cego a perda de role models e a ascendente cisão entre os temas dos novos e dos mais velhos. Acrescenta que apesar de ser adepto de “por coisas em caixinhas”, reconhecer e nomear padrões e de outras coisas que acredita que estejam certamente listadas num diagnóstico do “DSM-5”, vê o enfoque a suceder anacronicamente, aderindo as pessoas a estéticas/gostos/ propostas pelo seu título, no fundo para elas próprias poderem também ter aquilo que se chamar, e não pela genuína conexão com a sua substância. Sublinha o rídiculo e desajuste do fenómeno pela evidente inexistência de nomes para as coisas no momento em que estas estavam realmente a ser vividas e da impossibilidade de uma transposição idêntica de um evento para um tempo que não o seu. Comenta sobre isto que seria além do mais contraproducente e caricato faze-lo: “Aos 17 anos quando descobri os American football fiquei maluco e achei-os fixes mas eu tenho dois dedos de testa e por isso não ia inventar ser emo em 2013”. Ainda na linha das disparidades quanto à nostalgia desmedida que avassala a internet, observou que a auto proclamação de estéticas e cores surgiam e eram compreendidas numa ótica de maximização de crédito social. Uma clara incongruência com a origem dessas sub culturas, nascidas muitas delas de tentativas de quebrar com a narrativa mais convencional e trazer algo de original. Adiante, um exemplo de uma peça fornecida por Zagalo, feita da exploração desta temática:

Uma ocorrência positiva que parece estar a difundir-se neste momento em que, como coloca o artista, “ as pessoas que gostam de meter coisas em caixinhas estão a ter mais voz “, remete para a disseminação de materiais de uso acessível para criação de peças como as da página de Construsaocivil ( é o caso do site are.na, uma base de dados imagética à qual Zagalo e pares do meio tendem a recorrer para partilhar e transferir materiais no formato de pastas temáticas) e ainda de filmagens em formato bruto, isto é, pré editado (disponíveis no site Internet Cinema), cada vez mais utilizadas por artistas que visem fazer projetos de cinema de forma módica. São suportes que não só preveem a democratização dos meios mas como também levam a criações singulares, havendo mesmo da perspetiva de Zagalo uma preferência sua inequívoca em consumir hoje em dia conteúdo feito por esses métodos, inesperados e de fórmula tão particular, face às produções de métodos convencionais. Almeja ver essa propagação atingir a esfera da moda, lamentando a sua filtração social que passa desde os preços das marcas que são cara do círculo, ao dos conteúdos e eventos, atingindo também, para sua prostração, a criação já que ao contrário da criação de memes ou da escrita, demanda materiais diversos e dispendiosos. A este problema soma ainda a enchente de produção, consumo e publicidade desmedida e despropositada que crê que afastam pessoas com possível pendor para esse espaço, repelidas por essa tríplice sufocante e supérflua. Um revés que reconhece alimentar e fortalecer mutuamente a capitalização das estéticas, que chegam a ser pensadas e ordenadas no sentido de conduzir outras previsões e controlar com maior previsibilidade as próximas cartadas do “curralo” em sites como Wiki de estéticas e Consumer Aesthetics Research Institute. Tudo isto torna evidentemente laboriosa a tarefa de ser antes de reconhecer ou querer reconhecer o que somos, muitas vezes em detrimento até de reconhecer que somos em primeira instância. O absurdo parece ser ditame dos dias e quase que uma promessa pessoal para meios tão entranhados no nosso coletivo e tão desconexos de quem lhe é base, desapontando amíude com a constatação da verdade de teorias como a proposta Trickle-down , observada por Zagalo a nível de roupas e de estéticas e tendências a que as pessoas aderem, significando isto, sinteticamente: a adoção de algo relativo às camadas sociais mais desfavorecidas ou afastadas (ou seja que não podem reivindicar a identidade ou posse de algo) pelas camadas mais altas e com poder de agência no sentido de reclamação de identidade. Os ciclos durante os quais as coisas ficam no topo e, portanto, têm engajamento com as camadas com maior poder de posse, são muito curtos. O desejo de ter é comichoso e voraz e o loop parece ser vício transversal a tudo, desde os tempos que vestimos, às camadas que vestem x e y e depois y e x, numa sucessão nauseante. A constante parece ser a amálgama familiar mas indetectável que nos passa ao lado apesar de já nos cruzarmos com ela a todo o tempo.
Tudo parece ser estrume para indústria, nada lhe resiste à absorção. Há ainda artifícios para os que muito estimam ser e produzir com algum caráter e navegar os meios de criação sem cordéis dedilhados por uma mão com nome azul na página da Wikipédia. Na moda, Zagalo reconhece neste momento como possível gesto de relutância o upcycling, na escrita e de resto no antro de fazer coisas para mostrar e publicar, apostar na imiscuição nos espaços onde as coisas se passam, sendo a melhor das hipóteses para os penetras, a piedade de uma perfilhação. Mas o clubismo pelo idealismo assemelha-se cada vez mais a marretar com a cabeça na parede para aguçar o pensamento num contexto onde as caras que tomam o palco da cultura e são vendidas com histórias de luta e unicidade sobem por degraus mantidos no breu não explicado e isso torna Zagalo desmotivado. No alastramento inodoro da aceitação crédula, Zagalo recusa-se a inalar e insiste em que as suas dúvidas se façam conhecidas: “Como é que uma pessoa que não deve nada a ninguém surge do nada e é publicada numa editora gigante? Novo fenômeno literário português, que nomes é que ela tem? (...) E outros são a mesma coisa, que os próprios admitem que isto para eles é um negócio. (...) a mim não me terão como cliente, não gosto que tratem os leitores como clientes. A mim não me vão ter (...) nem ele, nem ela (...) se apanhar aí um dos livros, queimo. Tenho esta reação visceral porque isto me ofende, profundamente. Dedico uma parte substancial do meu tempo à escrita e à leitura. E quando vejo alguém a transformá-la em mercado, em engodo, em banha da cobra, isso ataca-me. Mas não só a mim. Ataca também toda a gente que já li ao longo da história, toda a gente que se devotou à escrita ao longo da história, e toda a gente que considero colega de ofício. Escritores não são marketeers” .

“A minha proposta era usar os métodos e técnicas dos memes para fazer peças de arte”. Desta feita surge então esta estirpe do que agora consumimos, partilhamos e pensamos. Um candidato popular para a voz desta geração, ou pelo menos da sinapse comum que hoje domina, fazendo justeza ao ritmo descontinuado com que atualmente declaramos herois e paixões. Nesse país de dias, anos ou horas, com Construsaocivil como cabeça, diz que a bandeira seria um makeover da atual, estilizada com o seu sticker preferido do whatsapp (ver reprodução da ideia, abaixo) e o hino “Love Sosa” de Chief Keef.

Construsaocivil é produto e faísca de um cansaço pelas interpretações guiadas e pelas traduções uniformizadas. Um caminhar com os pés na terra, outra vez cavalos verticais. Sem trelas ou preceptoras. Comungando atrás da tela numa eucaristia de horários próprios, arbitrários e domiciliares- qualquer coisa algures no espectro das nossas capacidades de entendimento. Algures lá estamos todos, pela margem do que é possível retirar-se da composição de mescla de tempos, idades, momentos, referências, sensações que Construsaocivil amassa em indissociabilidade. Nesse fumo de lógica, a comoção de uma familiaridade que nunca chegou a existir em tal similitude e a saudade esmagadora que nos vicia e conecta. Algures lá estamos todos no incompreensível mais óbvio de amanhã, brindando a um entendimento que partilhamos numa trajetória de mais coisa menos coisa, a repostar uma semiótica de um gafanhoto num nenufar rosa com o texto “EU NÃO GOSTO DE FAZER A DIGESTÃO ONTEM”, qual badalo musicando o ruminar da vaca.
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