Lesma
- Lara Cândido e Matilde Aranha
- Jun 4
- 6 min read
No dia 20 de março, o Jur.nal esteve com as Lesma na Fundação Gulbenkian, num encontro que se desenrolou como um plano-sequência de luz difusa e fumo estético. Entre odes ao tédio e colheres existenciais, o trio refletiu sobre a amizade como motor criativo e sobre uma linguagem musical construída a partir da espontaneidade e recusa em estabilizar.
O sótão perpétuo e a estética do desalento radiante
A identidade das Lesma não é algo que se possa curar ou fabricar num estúdio de marketing — é um organismo vivo que nasceu, quase por acidente, entre conversas de corredor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH), uma coluna da Barbie e a mística de um sótão que se tornou o seu útero criativo. Formadas em setembro de 2023, as Lesma juntam Beatriz Sobralinho (bateria e ocasionalmente voz gritante), Leonor Casimiro (voz, guitarra e letra) e Rita Mira (baixo), cuja “química efervescente” fez com que a banda materializasse “um sítio” onde já habitavam.
“Estamos perpetuamente no sótão”, dizem deste espaço tornado febre imorredoura. Recusam-se, por instinto, a sair desta redoma para abraçar algo "pretensioso", acreditando que a sua verdade reside exatamente nesse isolamento genuíno: “o sótão é genuíno. Eu sou o sótão”. É também nesse recreio criativo que nasce a sua girlhood sonora, alimentada por uma “felicidade tão difícil de conter que tem de sair e ser partilhada” — uma vontade de simplesmente "brincar" com a música após as aulas, sem o peso da expectativa.
O nome surgiu sem grandes aparatos simbólicos — “era só um nome”, esclarecem — escolhido impulsivamente pela estranheza viscosa e graça absurda que lhes provocava. Ainda assim, à medida que a banda se expandiu para outros andares da casa, “Lesma” deixou de ser mera aleatoriedade nominativa e tornou-se numa criatura elástica, capaz de absorver e devolver a identidade mutável do grupo e as múltiplas leituras do público — afinal, e como frisaram, “a arte também é quem a interpreta”, tornando este conjunto de cinco letras num corpo revestido por camadas sucessivas de sentido.
Se alguém quiser um guia de sobrevivência para este universo, as instruções são crípticas: “cotonete e escadote” no rider técnico e garantir que “70% do cérebro está fora”. Tudo isto sob a influência da “lesma pill”, uma entrega total à “droga chamada amizade”.

Das personagens cambaleantes à folha dobrada
Ser Lesma é habitar “personagens cambaleantes na noite”, observando o mundo com uma curiosidade devoradora e “gozona”. Tudo parece atravessar o imaginário do trio antes de regressar desconfigurado: bandas, vozes, gestos, posturas ou pequenas fixações passageiras transformam-se em personas temporárias que as próprias incorporam e ocupam, invocando o espírito de outros artistas com uma facilidade quase mística — “Mano, bora ser a Mafalda [dos Marquise]” — até se desdobrarem numa espécie de matrioska capaz de “invocar nove membros”.
O som que emana deste refúgio é uma “tela em branco” contaminada por hiperfixações, piadas recorrentes e backgrounds díspares. Entre breakbeats obsessivos que moldaram o pulso do hino “Barreiro”, metal ouvido em espiral, os ritmos de funk improvisados na cantina durante os tempos de Magurados band ou o ruído húmido dos concertos underground, o ecossistema sonoro das Lesma aglomera fragmentos fluorescentes num líquido em permanente ebulição.
As próprias recusam organizar-se sob uma genealogia musical linear: “Nós queremos fazer todas as músicas de todos os tipos que existem”, afirmam. Descrevem a sua composição como “um desenho que uma criança fez”, baseada num jogo surrealista onde a folha é dobrada e cada uma pinta a sua parte sem ver o que veio antes. Deste modo, cada elemento surge como interferência espontânea sobre o caos precedente — linhas melódicas herdadas de escutas frenéticas, explosões rítmicas moldadas pelo instinto ou frases que aparecem “do nada” e permanecem tempo suficiente para serem embebidas no seu arquivo.
Até o grafismo das Lesma parece nascer da mesma matéria instável que concebe as músicas. Entre “rabiscos espontâneos”, sketches improvisados e cartazes construídos quase em fluxo de consciência, a dimensão visual do projeto preserva a sensação de que algo permanece pendente. Assim, as Lesma permitem que as imagens brotem lentamente da convivência entre as três, como fungos luminosos nascidos do mesmo solo afetivo onde também germinam as suas canções.
Existo, logo minto
Lançado a 11 de abril de 2025 e gravado entre o Estúdio 105, em Santarém, e a Cave Sala de Ensaios, no Pinhal Novo, É Mentira surge como diagnóstico de uma mitomania coletiva — “todos os tracks têm um bocadinho de mentira”, confessam. Ainda que o título tenha emergido inicialmente a partir de “Barreiro” — faixa-charneira do disco —, essa patologia alastra-se por todo o álbum, quer seja através de geografias inventadas, personificações culinárias, personagens habitadas “entre o ter e o querer” ou pequenas observações quotidianas passeadas até ao estatuto de mantras.
A própria capa, desenvolvida com Tomás Santos — artista cujo trabalho anterior com Dinossauro Abril já fascinava o trio —, foi imediatamente reconhecida pelas Lesma como mais uma dobra desta ilusão contínua — “foi amor à primeira vista”, recordam.
Dentro deste conceptual, cada faixa desencadeia um novo surto do mesmo embuste. “Dominante Cona” abre o álbum num estado de acumulação de pressão, onde os pratos e as cordas se empurram até ao colapso. Mais à frente, “Breakdown” pega nesse mesmo estado e arrasta-o para riffs espessos e saturados. E mesmo quando abranda, o disco nunca estabiliza totalmente: “Heroína” dissolve o excesso num fluxo coloquial onde o azul hipnótico do telemóvel surge como sintoma de uma geração em torpor e fumar apresenta-se como convite de alguém com o hábito — “eu não fumo, não posso largar o telemóvel e fumar um cigarro”, admite Rita.
É também dessa deriva que nasce “Eu sou uma (colher)”, talvez o exemplo mais manifesto da lógica interna das Lesma. Inspirada pela visão quase surreal de estudantes da praxe a circularem com colheres penduradas, a música parte de uma pergunta absurda — “para que é que servem as colheres?” — até que a insistência corrói qualquer resposta concreta e transforma a colher, enquanto objeto utilitário, em identidade provisória: um delírio circular onde a piada reencontra a sua própria razão de ser.
“Maria” prolonga essa alucinação mutante através de vozes gritadas, mudanças bruscas de pele e personagens improvisadas que surgem e desaparecem. Já “Homem” — um dos singles lançados antes do álbum — surge como o joker emocional do projeto: em vez de explodir em teatralidade, paira num registo mais suspenso e espectral, deixando versos como “Estou sozinho mas estou contigo” circularem em aberto, presos entre névoa mental e física.
Mas é em “Barreiro” que É Mentira encontra a sua mentira mais eficaz. Apesar de nenhuma das integrantes ser do Barreiro, a cidade transforma-se num território imaginário onde tudo pode coexistir: periferia, ponte, parque industrial e circo — é o “Eu poder realmente ser o que eu quero”, segundo Leonor.
Deste modo, cantar sobre colheres ou sobre cidades que lhes são simultaneamente íntimas e estrangeiras deixa de ser nonsense privado e torna-se numa forma de fabulação absoluta, onde a mentira ganha densidade suficiente para substituir a própria realidade. E, algures entre sonho e memória, permanece a história de uma bateria que fugia sempre que a Beatriz se preparava para lhe tocar.
O "Ganda Step-Up": Do Teaser à Ordem do Banjo

O que ouvimos até agora é apenas um “teaser”; elas garantem com o sorriso de quem já tem dados do futuro, que “ainda nem saiu o trailer”. Esse está a ser cozinhado num behind the scenes oximórico onde a anarquia do sótão tenta conviver com a estrutura de um Google Calendar e tabelas de Excel. Este processo, que descrevem como o “ganda step-up”,
promete ser uma metamorfose de Pokémon onde a experimentação não terá teto. Com a mente aberta, estão prontas para entregar o que o instinto ditar: seja cool jazz, rock psicadélico ou até uma sonoridade pimba, com a introdução planeada de sintetizadores e, surpreendentemente, de um banjo.
No palco, a barreira entre o ídolo e o fã dissolve-se numa postura puramente riot: “Nós não estamos no palco. Estamos lá com o público, no público”. É também nesse espaço que a mentira continua a expandir-se: em “Heroína”, por exemplo, a conversa semi-improvisada da versão de estúdio nunca regressa da mesma forma, desviando-se em novas frases ou interrupções, como se cada concerto redistribuísse novamente as cartas do disco. Talvez por isso tocar, para elas, seja um ato de levitação e força animal: “Eu sinto-me como um pássaro e eu estou a voar… é andar a cavalo, galopar”.
Este circo itinerante de amizade e espontaneidade já tem o seu roteiro de galope traçado para arrebentar com tudo. A próxima paragem passa por Leiria, a 6 de junho no festival A Porta, pela Glória do Ribatejo, a 19 de junho no festival Glória ao Rock, e por Lisboa, com dois DJ sets durante o mês de julho. Instagram, Bandcamp, Spotify e YouTube permanecem como pequenas portas de entrada para este circuito de "verdades mentirosas" — três amigas prontas para fazer a roda no meio do mosh ou tocar com uma mão só, enquanto ignoram as expectativas alheias. Porque se há coisa que é verdade para as Lesma, é: “a música é nossa, nós fazemos o que quisermos”.
Fotografias: Lesma
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