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Vengeful Fate

No dia 7 de março, o Jur.nal esteve no Oriente com os Vengeful Fate, uma banda emergente que se afirma no metal como um espaço de fricção de energia indomada. Numa fase marcada pela irrupção do single “Hear the Wolves”, a 1 de abril, e pela iminência do EP de estreia Low Blow, a conversa expôs o projeto do trio num estado de combustão contínua.

Quem são os Vengeful Fate?

O núcleo inicial formou-se entre o final de 2022 e o início de 2023, quando Gonçalo Rocha (voz, guitarra e letra) e Gonçalo Gamas (conhecido por “Gamas” - bateria) se conheceram numa escola de música. Após uma atuação informal, descrita pelos próprios como “uma grande palhaçada”, surgiu o ímpeto para dar continuidade ao encontro. Os primeiros ensaios, mais inclinados para o metalcore, marcaram sobretudo o estado embrionário de uma ideia ainda difusa - quer na formação como na direção estética. A entrada messiânica de Tiago Lisboa (conhecido por “Lisboa” - baixo), ocorrendo num momento de quase desistência da dupla, acabou por fixar o projeto enquanto trio abrasivo.

O nome Vengeful Fate, retirado trivial e fortuitamente do imaginário de World of Warcraft, não foi imediatamente consensual. Inicialmente recebido com alguma ambivalência, acabou por se enraizar de forma progressiva no quotidiano da banda, tendo sido no espaço informal dos ensaios, das piadas recorrentes e da própria receção do público que o nome ganhou corpo e se tornou parte integrante da identidade do projeto.

Hoje, este nome assume-se na sua ambiguidade kitsch: simultaneamente excessivo e memorável, quase caricatural, mas eficaz naquilo que convoca - a premissa latente de um ajuste de contas sem fim. 

Influências artísticas

Se o ponto de partida se situava no metalcore contemporâneo, rapidamente esse eixo se fragmentou e incinerou. O nu-metal afirma-se hoje como núcleo incandescente do trio, permitindo condensar groove, agressividade e melodia numa pulsação incisiva que descrevem como “nu-metal da Póvoa”. Neste território ressoam impulsos que vão de Slipknot e Limp Bizkit ao espectro mais melódico do rock dos anos 2000.

Neste vórtice em rotação perpétua colidem influências de stoner, sludge e hardcore, bem como referências mais fundacionais como Black Sabbath ou Kyuss, que estruturam principalmente a dimensão rítmica e composicional. Acrescentam-se ainda ecos do metal moderno - como Lamb of God - e uma infiltração mais recente do hardcore contemporâneo por bandas como Gel ou Drain.  

A potência abrasadora é amplificada pela memória audiovisual partilhada, percetível na atenção dedicada ao universo dos videoclipes. Deftones, Linkin Park e System of a Down funcionam como modelos estéticos, onde a imagem e o som se cruzam, concebendo atmosferas que transcendem o auditivo. 

Fora da música, a banda incorpora referências do imaginário fantástico: a figura de Dumbledore, de J.K. Rowling - cujas frases marcaram momentos pessoais de reflexão - e a ambivalência aterradora e intensa de Stephen King, particularmente em It, influenciam a abordagem lírica do grupo.

Não obstante, estas influências não delimitam o contorno dos Vengeful Fate; são antes faíscas que se deixam acender no imaginário coletivo, cada uma movendo-se ao (des)sabor do próprio destino.

Processo criativo

“Isto é mesmo caos, mas funciona” - é assim que os Vengeful Fate descrevem o seu próprio processo. A composição nasce frequentemente de um esboço - um riff, uma estrutura inicial ou uma ideia lírica - que é depois submetido a um modo coletivo de escrutínio. Desmonta-se e reconfigura-se, no mote de “virar a ideia ao contrário”, até que esta encontre coerência dentro do conjunto. Como sintetizam, “entramos no estúdio e o que sair fica”.

Deste modo, a banda converte o seu estúdio num teatro de guerra, onde os seus projetos embatem, são tensionados até ao limite e apenas sobrevivem aqueles que resistem à própria transformação - uma dinâmica que se prolonga na relação com o seu arquivo, onde fragmentos antigos e ideias esquecidas ou descartadas são ressuscitados, rearmados e devolvidos ao combate.

“A música é a nossa forma de dissidência”, sublinham. Neste sentido, embora a banda não se fixe num manifesto programático, existe uma urgência que atravessa o seu ideal. A música surge como resposta direta ao ambiente envolvente - uma descarga visceral de experiências não resolvidas, de confrontos internos e externos - acumulando energia potencial até à rutura inescapável.

EP - Low Blow

A aproximação do EP de estreia dos Vengeful Fate faz-se inevitavelmente através de “Hear the Wolves”, single lançado a 1 de abril que concebe um primeiro contacto com o ambiente sonoro do projeto.

Segundo o trio, “Hear the Wolves” nasce de uma reflexão sobre sociedades onde a liberdade individual é progressivamente restringida, evocando cenários distópicos que encontram paralelos na realidade vigente. A música constrói essa sensação através de uma dinâmica movida por uma força motriz em aceleração, recusando momentos de suspensão e privilegiando ímpetos monstruosamente tenazes, que não cedem nem sob tormenta. Nesse sentido, o single atua como detonador da banda, evidenciado como transmutam insubmissão e inquietação em matéria sonora.

Low Blow expande esse desfecho inicial. Quando questionados sobre o impacto pretendido, respondem: “Tesão. Euforia. Revolta.”, uma tríade que sintetiza o impulso de ampliação sensorial do EP. O título - expressão associada a um golpe baixo ou injusto - introduz uma ideia de disputa que o atravessa, não apenas ao nível temático, mas na própria construção musical, conjugando mudanças abruptas e contrastes de intensidade.

A gravação do EP procurou preservar essa dimensão mais crua, privilegiando-se uma atmosfera mais orgânica, onde a rugosidade e irregularidade se integram no próprio som. Ainda assim, o EP não abdica de melodia, revelando a fulcralidade das influências do rock alternativo e nu-metal dos anos 2000, particularmente nas linhas vocais e nas estruturas do refrão, onde a brutalidade convive com momentos mais atmosféricos. 

Sem se organizar numa narrativa linear, o seu repertório mantém um eixo comum. Como sintetiza a própria banda, “não tem uma narrativa mas tem um tema”: uma recusa difusa assente na desavença constante face às diversas formas de opressão. Cada uma destas configura-se como um território hostil - emocional, político, existencial - que as músicas atravessam, atingindo diferentes pontos de impacto.

Importa, contudo, sublinhar o desfasamento entre este registo e a posição atual da banda. Como os próprios reconhecem, Low Blow capta “os primeiros baby steps da banda”, operando, principalmente, como um arquivo da fase inicial em que o som dos Vengeful Fate ainda se encontrava em formação.  Grande parte dos temas antecede a consolidação do seu som, refletindo um período de experimentação. Como consequência, expressam: “Este primeiro EP não reflete realmente o nosso som”.

A condição de artistas emergentes em Portugal

A relação da banda com o underground português constrói-se numa zona de instabilidade entre precariedade e pertença: se, por um lado, identificam um cenário marcado pela fragilidade estrutural - falta de investimento, encerramento progressivo de espaços, dificuldade em sustentar projetos originais -, por outro, reconhecem nesse mesmo contexto uma rede de apoio informal, impreterível à sua permanência neste terreno instável.

“As bandas do underground têm que se apoiar umas às outras”, destacam. Num ecossistema reduzido, onde as condições são frequentemente adversas, a continuidade destes projetos materializa-se a partir do espírito de entreajuda, um princípio estruturante da comunidade artística: concertos que são organizados conjuntamente, contactos que são transmitidos ou equipamento que é circulado entre bandas. “Sabemos que se fôssemos nós, também nos emprestavam”.

Ainda assim, essa coesão não anula as fragilidades do meio: a banda aponta para uma dificuldade persistente em afirmar projetos originais num contexto onde parte do público privilegia propostas mais familiares ou nostálgicas. Como sublinham, “há muita música no underground que não sobe”, identificando um descompasso entre criação e reconhecimento. Neste cenário, onde “ser bom não basta”, o percurso do grupo passa a depender de outros fatores além do seu talento, como a sua capacidade de projeção, entre construção de contactos, promoção e uma presença digital omnipresente, onde os seus reels excêntricos prolongam o seu registo irreverente.

Palco e futuro

É no palco que os Vengeful Fate encontram o seu verdadeiro território. Os concertos transformam-se em campos de batalha onde as músicas deixam de ser estruturas fixas e passam a ser colocadas à prova - expostas, prensadas e empurradas até ao limite da sua própria resistência. O contacto com o público - sobretudo com gerações mais novas - pressuriza essa condensação de stamina, devolvendo em tanta ou mais pancadaria e gritaria. 

Simultaneamente, o trio mantém um compromisso com a partilha desse espaço, procurando tocar com outras bandas emergentes e contribuir para o crescimento coletivo desse foro. Assim, nos próximos dias, a missão redentora do grupo desdobra-se em diferentes arenas: a 11 de abril, os Vengeful Fate sobem ao palco do Uncle Joe’s, em Esmoriz, ao lado de Chaosaddiction e Mau Jesus, e a 16 de abril apresentam-se no Tokyo Lisboa, com Agitam Solum, Klatter e Vaneno - duas frentes destinadas a fissurar por completo.

Após o lançamento de Low Blow e dos concertos associados, o foco desloca-se para a gravação de um álbum mais fidedigno à sua identidade atual, já em preparação e com horizonte apontado para 2027. Com um conceptual que rompe com os primeiros registos e incorpora formas mais inesperadas, o grupo antecipa: “não estamos a refazer a roda, mas estamos a fazer uma roda xpto”.

Para quem quiser acompanhar esta investida, os Vengeful Fate continuam a destrinçar a sua sina entre palcos e plataformas - Instagram, Spotify e Youtube -, com turbulência crescente no seu percurso.

Fotografia: Mafalda Noronha (@sorryimdrunk)

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