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Poseidon Drag

No dia 15 de dezembro de 2025, o Jur.nal esteve no Café Jeronymo do Cais do Sodré com Poseidon Drag. Numa conversa polvilhada de risos e brilhos, a drag queen do momento falou-nos da sua viagem de Recife para o mundo, de como os sonhos se moldam com a matéria dura da realidade e do significado de partilhar o protagonismo do palco com o peso simbólico de representar toda uma comunidade.

Quem é Poseidon?

Poseidon nasceu no seio teatral. Afastando-se do drama puro, equilibra no seu ser a versatilidade do oito ao oitenta, fruto de coprotagonismo da comédia e do horror na sua vida e, consequentemente, na sua arte – “Prazer, doida!”.

Artista desde que se lembra, Poseidon deu os seus primeiros passos no grande palco há vinte e cinco anos. Sonhava em ser atriz, e até artista de circo - chega a confessar -, mas os pequenos sussurros do seu chamamento para o drag foram sendo cada vez mais altos – “sabe quando é assim, Deus chega e fala que você vai e você foi, sem nem querer…”. Hoje, treze anos depois, abraça com orgulho o papel da sua vida, que se tornou a sua mais completa expressão.

Influências Artísticas

O teatro e o cinema são as suas principais musas. Estando no ramo há mais de duas décadas, as suas referências enraizaram-se de tal forma no trabalho de Poseidon que, agora, dificilmente se consegue afastar e buscar inspiração noutras dimensões.

Com influências culturais imaculadas, a artista leva-nos numa viagem pelo mundo da arte como quem nos mostra a sua casa. Tal versatilidade advinda do seu ecletismo acaba por lhe dar o charme de quem vive pela sua paixão pulsante.


De Recife Para O Mundo

Quando iniciou o seu percurso no drag, há treze anos, a ambição e determinação alimentavam a máquina incansável de brilhos, competições e lip syncs: participava em concursos locais, trabalhava em festas, fazia espetáculos em discotecas e tudo mais que lhe permitisse mostrar que Poseidon era mais que um sonho.

Contudo, admite que nem sempre foi fácil. As dificuldades de entrar num meio ainda estigmatizado levaram-na a esconder a sua verdadeira pessoa, tendo mantido a sua arte em segredo por muito tempo. 

Ademais, o drag surgiu espontaneamente na sua vida fruto do teatro, levando a que os primeiros tempos – quando ainda era conhecida por Poseidon Pussy – ficassem marcados pela inexperiência de quem ia não só se descobria a si mesmo, como ao seu lugar no palco. “Quando eu comecei eu não sabia costurar, não sabia me maquilhar, não sabia fazer uma peruca, não sabia comprar um salto…”, chega a admitir.

Aliás, foi fruto da necessidade enquanto drag queen que a costura surgiu na sua vida. Num universo em que as exigências e os custos são elevados, aprender a conceber o seu próprio guarda-roupa tornou-se numa verdadeira mais-valia. Assim, e ainda que inicialmente a costura fosse uma ferramenta acessória para o drag, mais tarde tornou-se numa profissão por si exercida, de modo ao seu portfólio ser composto por renomados artistas internacionais – desde Lady Gaga a Lana del Rey, entre outras figuras de destaque.

Atualmente, com o amadurecimento artístico, Poseidon usufrui do mérito e privilégio provenientes de todo o seu árduo esforço. Tal é refletido na possibilidade de escolher os projetos que melhor se adequam ao rumo pretendido para a sua carreira, um “recuo” necessário para que o brio do seu trabalho não ficasse comprometido com a sua ambição, algo que anteriormente era inexequível. Acrescenta: “Eu também tento focar noutro projetos na minha vida para a Poseidon: sair da boîte e, sei lá, focar numa novela, num filme…, então se tem projetos que eu quero fazer além da boîte, é preciso recuar. Antigamente eu não iria recuar: iria estar na boîte e com esses projetos e eu iria enlouquecer (e me jogar de um prédio de trinta andares)”.

Assim, Poseidon catapultou-se do Recife para palcos espalhados pelo mundo. E em cada um deles deixa a sua marca: performances onde o riso é garantido, o glamour é a gosto e a loucura é o charme – pois se antes era ela quem lutava pelo holofote, hoje é ele que não a consegue largar.

Com esse percurso, Poseidon deixou de ser meramente mais um nome na noite para ocupar um lugar central no imaginário do público: entre festas, concursos e discotecas, fez com que o seu trabalho ultrapassasse os limites do palco noturno, prolongando-se até à luz do dia e ao horário nobre. Muitas outras questões podem ter mudado com a inevitabilidade temporal, mas Poseidon? Essa é sempre a mesma!


Drag Queen ou Rainha do Drag?

No Brasil, a sua carreira foi inicialmente marcada pela participação em inúmeros concursos de drag – palcos onde o pódio raramente lhe escapava e através dos quais começou a dar-se a conhecer ao grande público. A esse percurso juntou-se a residência na discoteca Pink Flamingo, no Rio de Janeiro, espaço que mantém até hoje e que identifica como o primeiro lugar onde sentiu, verdadeiramente, o seu trabalho ser valorizado.

Foi também a partir de uma visita familiar que Poseidon teve a sua primeira experiência profissional em Portugal, aproveitando a estadia para explorar palcos deste lado do Atlântico. Confessa, no entanto, que a vivência se revelou difícil: as necessidades financeiras e as condições de trabalho pouco favoráveis marcaram negativamente esse período, ainda que tanto adore o país.

Tudo mudou com o Drag Race. A atual Rugirl participou na última edição do Drag Race Brasil, de onde leva a aprendizagem de uma vida, serves imaculados e o terceiro lugar. Ainda assim, não esconde o sentimento agridoce que acompanha este reconhecimento tardio - o de ver a visibilidade surgir associada ao programa, e não aos muitos anos de dedicação anteriores: “É a questão de usar a minha imagem antes de ser uma Rugirl por exemplo…, eu não era valorizada, eu não tinha trabalho… eu trabalhava num lugar que é a Pink Flamingo que me abriu as portas. Eu trabalho lá até hoje, mas as outras boîtes não queriam trabalhar comigo e hoje todo o mundo quer!”

Não obstante, o sucesso decorrente do programa levou-a numa tour europeia ao lado de Ruby Nox e Paola Hoffman Van Cartier, também concorrentes desta edição. Em Portugal - incluindo palcos que já conhecia - Poseidon sentiu, desta vez, ser tratada de “outra forma” em relação à sua última experiência, sublinhando a forma como a projeção mediática altera a perceção e valorização do trabalho artístico. 

Nesta lógica, enfatiza a necessidade de dignificar a carreira de quem trabalha na vida noturna, independentemente da projeção que tenha: “eu estou sendo valorizada agora, mas e se amanhã elas [outras drag queens] ficarem famosas como eu, vão ser valorizadas também, mas elas têm de ser valorizadas agora, porque a Poseidon de antes é a mesma de agora, só tenho um holofote a mais do que as outras que não estão tendo. Então isso me deixa um pouco triste, porque a valorização dentro da boîte devia ser a mesma – na boîte, SIM, deveria ser tudo o mundo igual”.

Apesar dos obstáculos, Poseidon destaca o carinho e apoio dos seus fãs como cruciais para o seu sucesso. Recorda, com emoção, a primeira vez que foi reconhecida na rua: num misto de timidez e felicidade, um empregado de mesa durante um almoço pede-lhe que traga a coroa para “casa”, numa referência simbólica à vitória no Drag Race. Partilha, ainda, o episódio caricato em que foi um fã quem as “libertou” do metro de Lisboa que, à chegada das queens à capital portuguesa, as recebeu com o seu charme tão característico.

Brasil e Portugal

Separados por um oceano, mas unidos por um amor comum, ambos os países preenchem o coração de Poseidon, que não esconde o seu gosto em trabalhar cá. 

Para si, acredita que em Portugal (apesar da visão mais conservadora do país em relação ao drag) existe mais respeito e valorização - especialmente a nível financeiro - e segurança: “eu sinto que aqui consigo viver mais como uma pessoa “normal”, saindo na rua montada (…) as pessoas olham e ficam na delas”. Ainda assim, aponta para a persistente dificuldade em ver as drag queens reconhecidas como artistas completos, para além da lógica de “contratar para ficar no palco”, o que limita irremediavelmente as oportunidades de crescimento profissional no país.

Neste sentido, não consegue deixar de realçar o Brasil como público-chave para a sua arte. A maior abertura das redes sociais ao drag facilita a visibilidade e a possibilidade de conseguir ter o seu “grande momento” – algo que considera ainda pouco explorado na Europa, em parte devido à reticência comercial em investir plenamente neste universo: “É que no Brasil tem alguém na porta te recebendo, você paga para ela, tem as drags no salão, tem uma drag no palco, tem drag vendendo bebida. Pink Flamingo, lá no Brasil tem drag em tudo quanto é lado!”.

Porém, adiciona que a projeção social nem sempre é acompanhada pelo respeito que as carreiras em drag merecem. Assim, entre os dois países estabelece-se quase uma dança de compensações: se num lado a valorização é sobretudo monetária, mas culturalmente frágil, no outro há reconhecimento simbólico sem o necessário suporte socioeconómico.

Drag não é só glitter

Por detrás da cortina, o drag nem sempre mantém o ofuscante brilho que lhe é característico: a subvalorização, o desrespeito e a exploração continuam a fazer parte do quotidiano de muitas queens - por vezes, inclusive dentro da própria comunidade LGBT+.

Poseidon admite que o preconceito apenas tende a ser atenuado com a fama, algo que lhe causa perplexidade. Para si é algo completamente ininteligível, já que vê as drags como armas poderosas (e escudos) na luta contra a estigmatização, funcionando como verdadeira “porta de entrada” para uma progressiva inclusão: “As drags estão lá à frente junto com as travestis e com as trans… com os gays e com as lésbicas. A gente é a cara da bandeira: a porta da comunidade. Então, como é que você vai desrespeitar alguém que luta para você estar na rua? Isso me deixa muito triste, as pessoas saberem que somos a porta de entrada do mundo LGBT+ e desrespeitarem-nos.”.

É de salientar, ainda, que neste meio instalou-se o universo do showbiz, um recinto tão conceitualizado que até ao desrespeito lhe corresponde uma personagem própria. Sob a máscara de ativismo performativo, grandes corporações e detentores de poder capitalizam a popularidade das queens, transformando identidades, lutas e sonhos em mercadoria - e sem nunca devolverem o aplauso digno de quem sustenta o espetáculo. O Pink Money impõe-se como moeda corrente: a visibilidade cultural de um membro da comunidade circula como capital simbólico, convertendo-se em lucro para grandes entidades que, no sonho de um artista, veem simultaneamente uma oportunidade de negócio (e de pontos de moralidade!).

A entrega de corpo e alma à sua arte, muitas das vezes inclui uma entrega da sua dignidade: quando quem está no poder não valoriza a cultura pela sua essência, mas sim pelo seu lucro, o sofrimento do artista é o sucesso mais certo.


Luta pela Comunidade

As confissões de Poseidon levantam uma questão recorrente: por que razão é que, tantas vezes, o trabalho de artistas apenas é verdadeiramente significado após passar pelo grande ecrã? A própria identifica este fenómeno como um dos problemas omnipresentes no mundo do entretenimento, especialmente na vida noturna, que peca por não valorizar de forma equitativa quem o sustenta.

Contudo, Poseidon apela à humanidade do público, desmitificando a ideia de que “artista é tudo louco”, afirmando que é esse mesmo “exagero de espetáculo” a única forma de que quem assiste, realmente os veja: “Ahh, as pessoas pensam que eu sou doida e eu não sou doida – drag não é doida. Na minha entrada do programa é exatamente essa metáfora que eu faço: “ah artista é doido”, mas não a gente não é doido, é só esquecido…não é visto. Então, tudo o que é normal para vocês que não é visto como normal na sociedade é visto como doido, é tudo mito. A gente é gente normal!”

É precisamente aqui que a noção de humanidade se impõe como central, especialmente na questão da proteção das queens numa sociedade gradativamente mais acentuada sob a falsa pretensão de progresso. A artista reconhece que o estigma em torno do drag é oriundo de um lugar de incompreensão e relutância do outro que - na sua caverna platónica - acaba por sucumbir à intolerância alheia: “Todo o mundo devia ter o direito básico de amar e de ser uma “pessoa normal”: nós não somos monstros e devemos ter os mesmos direitos de uma pessoa que se diz “normal” na sociedade”. 

Poseidon adiciona ainda como a falta de compaixão contribui para esta visão retrógada da realidade, que tão frequentemente ataca a comunidade – “Se eu tenho pinto, tenho bunda, tenho cabelo todo café igual você…nós somos iguais, todos. Só que eu gosto do mesmo que você – e isso é um problema para você?. Então é esse o direito que a gente devia ter: de casar e amar e foda-se.”.

Neste aspeto, a Rugirl relembra a importância de projetos como o Drag Race – um programa realizado pela comunidade e para a comunidade – cuja projeção serve como impulsionador de abertura, mesmo das mentes mais fechadas. Afirma: “É em relação a isso que surge a mensagem que o Drag Race passa: é justamente humanizar o artista e o que a gente passa, te mostrar que eu sou igual a você. Até para quem vê o programa, a gente aparece mais de homem do que de drag – para mostrar que eu passo por situações que você também passa, e que estou ali, superei aquilo tudo para poder estar naquele lugar.”.

A essa dimensão coletiva soma-se uma responsabilidade profundamente pessoal. Poseidon assume o desejo de ser exemplo para quem ficou no Brasil, com a intenção de provar que a arte não precisa de permanecer confinada ao estatuto de sonho distante. Acredita, por outro lado, que o sucesso é possível e que o esforço, apesar de tudo, compensa. Assim, não esconde o entusiasmo com a possibilidade de voltar “aonde tudo começou” e encorajar outras queens e artistas independentes a acreditarem em si mesmos - como quem diz que quer “voltar lá e falar: agora vamos todo o mundo!”.

Perspetiva Futura

A dimensão representativa deixa de habitar apenas o território da inspiração e impõe-se, com peso e consciência, na vida e na carreira da artista. 

Poseidon não esconde o desejo de se aventurar por novos projetos que a desafiem, mostrando-se aberta a descobrir diferentes formas de se projetar no mundo cultural. Da televisão — e do fabuloso universo do reality TV e das telenovelas — ao cinema e, como seria de esperar, ao teatro, a artista acolhe a multiplicidade de palcos com curiosidade e ambição.

Bravo Final


Espírito (quase) indomável, Poseidon é o alter ego de um jovem menino gay que em si encontrou a sua expressão mais autêntica. É a manifestação mais genuína de como a arte, quando pulsante, dificilmente consegue ficar adormecida. É um grito de coragem contra o medo e o preconceito. A voz de quem sonha – e sabe – que há sempre lugar para mais um… para todos.

Força livre da natureza, Poseidon encanta quem a assiste: o brilho dos seus olhos inspira qualquer um, conectando-se com o interior mais íntimo de cada pessoa e trazendo-o à superfície num gesto de libertação conjunta. Se o universo artístico é uma grande ostra, Poseidon será decerto a sua preciosa pérola.

Para quem não se consegue segurar na sua curiosidade, recomendamos visitar a sua página do Instagram ou até mesmo aventurar-se numa maratona da segunda temporada do Drag Race Brasil (disponível na plataforma WOW Present Plus).

Fotografias: Poseidon Drag

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