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- As vantagens de ser invisível? O caso da Eriteia
Em Portugal, as empresas de televisão generalistas, como a TVI, a SIC, ou o RTP, têm canais próprios especializados (SIC Notícias, CNN Portugal, RTP 3) que emitem notícias 24 horas sobre 24 horas, 7 dias por semana, todos os dias do ano, à semelhança dos modelos das suas congéneres europeias. Na grelha de programação destes canais informativos, passam, a certas horas, principalmente no horário noturno, documentários produzidos por outras empresas de produção de conteúdos, quase sempre estrangeiras, como a BBC ou o Canal+. Estes documentários são muitas vezes os programas mais curiosos, esclarecedores e informativos que se encontram nesses canais, onde podemos escapar do Loop das notícias que são repetidas ad nauseam. Estes documentários, porque são feitos para a televisão, não querem ter qualquer pretensão de serem “obras cinematográficas”, que têm de ter uma muito maior preocupação estética. Pretendem ser peças jornalísticas, informativas. Os documentários que vão sendo emitidos no nosso país abordam temas díspares e extremamente variados. Uns podem expor as dificuldades das mulheres no Irão rural, enquanto outros podem mostrar o funcionamento do submundo do tráfico de droga numa cidade de média dimensão nos EUA. Outra característica que me agrada nestes programas é a sua duração, que normalmente não excede uma hora. Vem isto a propósito de um documentário que vi recentemente, na RTP3, sobre o atual estado da Eritreia, que me impressionou profundamente. Mas, antes de mais, importa conhecer alguns dados, como o contexto histórico relativo a este pequeno país africano, dado que não se consegue compreender o presente sem conhecer o passado. A Eritreia é um pequeno Estado situado no corno de África, com uma população de aproximadamente cinco milhões de habitantes. Em termos de composição étnica, é um país multiétnico: o grupo maioritário são os tigrinos , mas também vivem neste país membros do povo Saho, Kunama, ou até o povo tigre (hoje, na vizinha Etiópia, forças separatistas tigre estão a travar uma guerra sangrenta contra o governo federal). Em relação à religião, cerca de metade da população é cristã, e a outra metade é praticante do islamismo. Portanto, existe muita diversidade, quer religiosa, quer étnica. Historicamente, a Eritreia foi dominada por duas potências coloniais: a Itália e, depois, o Reino Unido. Em 1952, a Eritreia, com o patrocínio da ONU, foi incorporada na Etiópia de Haile Selassie (curiosamente, para o movimento Rastafári, este governante é considerado um símbolo religioso, sendo um Deus encarnado, um messias redentor). Só depois de 30 anos de uma extremamente longa guerra de independência, encabeçada pela Frente de Libertação do Povo Eritreu, a Eritreia conquista, em 1993, finalmente, a sua independência. Este movimento de independência, tal como noutros países africanos, converteu-se em partido, a Frente Popular pela Democracia e Justiça, que governa o país com uma mão de ferro até aos dias de hoje. O documentário que vi na RTP 3 era precisamente sobre as condições de vida das pessoas, que não são, como era de adivinhar, as melhores; isto é, de facto, morar na Eritreia é viver num dos estados mais pobres, e mais limitadores das liberdades básicas dos seus cidadãos. Vale a pena citar, na íntegra, o que a Human Rights Watch tem a dizer sobre a Eritreia: “O governo da Eritreia é extraordinariamente repressivo, submetendo a sua população a trabalho forçado e alistamento generalizado, impondo restrições à liberdade de expressão, opinião e fé e restringindo o escrutínio independente por monitores internacionais. Como uma ditadura de um homem só sob o presidente Isaias Afewerki, a Eritreia não tem legislatura, nenhuma organização independente da sociedade civil ou meios de comunicação, e nenhum sistema judicial independente. As eleições nunca foram realizadas no país desde que conquistou a independência em 1993, e o governo nunca implementou a constituição de 1997 garantindo os direitos civis e limitando o poder executivo. Desde a assinatura do acordo de paz com a Etiópia em 2018, o governo aumentou o seu envolvimento diplomático regional e internacional, mas não tomou medidas para melhorar a situação dos eritreus.” Este documentário era precisamente sobre as condições de vida neste país, que também é conhecido por "Coreia do Norte africana" (nunca é bom sinal ser-se comparado com a Coreia do Norte!). Enfim, foram várias as situações que me deixaram estupefato, como as grandes restrições de circulação a que estão sujeitos os eritreus: por exemplo, não se pode sair da capital sem um visto. Há ainda grandes entraves ao acesso à internet, e o estado das prisões é simplesmente deplorável. No entanto, o objetivo deste artigo não é apenas denunciar a atual situação de um estado onde as violações dos direitos humanos são o pão nosso de cada dia; queria também chamar a atenção para a quase ausência de cobertura mediática, por parte de órgãos de comunicação social internacionais, com fortes ligações a países ocidentais (como a Reuters ou a Associated Press). A meu ver, parece que este critério jornalístico não é o mais adequado. É “perfeitamente natural” existir uma intensa cobertura mediática da guerra da Ucrânia, contudo, apesar de ser “humano” darmos mais atenção ao que nos é mais próximo, não é desculpa para a falta de atenção que os media fazem ao caso da Eritreia, até porque num mundo globalizado o que afeta um pequeno país de África pode ter consequências noutras latitudes. Noutro plano, também é curioso concluir que os países, que na ótica dos países do primeiro mundo têm interesses contrários aos do “mundo ocidental”, a título de exemplo, o caso da Venezuela, ou de Cuba. veem aumentar de forma substancial a cobertura mediática. Lembro-me, recentemente, do caso das manifestações em Cuba ou quando Juan Guaidó se autoproclamou Presidente da Venezuela, que tiveram uma ampla cobertura mediática, mas não houve nenhuma notícia dos média tradicionais sobre as MUITO mais graves violações dos direitos fundamentais básicos que se verificam na Eritreia. Dominam nas agências de comunicação norte-americanas e europeias uma quase lógica clubística. Os países vistos pelo “ocidente” como adversários (China, Venezuela, Irão, Cuba) são significativamente mais escrutinados em relação aos direitos humanos do que os estados aliados do “ocidente” (Arábia Saudita, Paquistão, Egito). Pelo contrário, as repetidas violações dos direitos humanos pela Arábia Saudita são noticiadas, mas com uma muito menor intensidade. Quero deixar claro que todas as violações dos direitos humanos devem ser condenadas, mas não consigo perceber a diferenciação da cobertura mediática em relação a países alinhados com os EUA e aos seus adversários. Esta diferenciação é prejudicial e não tem fundamento para além da disputa geopolítica. O caso da Eritreia, nesse sentido, é peculiar, na medida em que se trata de um regime ditatorial “ideologicamente neutro”, no sentido em que não está alinhado nem com os liberalismos, nem com socialismos. O que é extremamente vantajoso. A falta de ideologia e, já agora, de petróleo, “ajuda” a perpetuar o regime. Se fosse um estado autoritário ideologicamente contrário ao ocidente, nesse caso, seria mais fácil para a comunidade internacional agir.
- Jogo da Cabra-Cega
Estou convencido de que algures nos nossos dias acordámos todos em cair coletivamente numa burla grotesca e chamá-la de vida. É a última explicação que me resta, se me tiram esta, não sei mais o que faça. Quem discordar, que me diga então onde não está a burla quando dou metade do meu salário para poder ter um teto por cima da cabeça; que me diga então onde está a verdade quando gasto na minha formação mais do que aquilo que muitas pessoas têm nas suas poupanças só para depois acabar no olho da rua ou num escritório a trabalhar de graça para umas quantas gravatas gordas; que me olhe nos olhos e me diga que as propinas não deviam acabar e que o saloio deverá estar condenado a ser saloio por mais mil gerações e que o filho de engenheiros deverá ser para sempre filho de engenheiros e não de caixas que recebem pouco mais que o salário mínimo. Que me diga onde está o mérito nisto tudo, caramba, quando o único mérito que vejo é o de termos herdado um mundo que foi pontapeado para a beira do seu fenecimento por homens de meia idade que já cá não estarão quando for preciso racionar o oxigénio que respiramos; que me diga onde está o racional por detrás da devoção sacrossanta ao lucro – sim, o lucro nosso que estais na bolsa, santificada seja a sua economia improdutiva e artificial, venha a nós o vosso neoliberalismo, seja feita a sua especulação… – desculpe, mas você tem 70 anos e não está a trabalhar? Olhe que agora com a esperança média de vida nos 120 você vai ter que trabalhar com pujança até aos 90, oxalá houvesse um sistema onde não meter a população toda a exaurir três quartos da sua vida a trabalhar não significasse a economia toda a colapsar e a morte de toda a Humanidade. Isto por vezes parece ser tão histericamente falso que sinto estar completamente bêbedo, mas isso foi só ontem à noite e hoje dói-me demasiado a cabeça para não estar de ressaca; quiçá poderia ser um sketch terrivelmente mau dos Monty Python, mas eles já estão todos mortos e infelizmente hipotecámos a cultura por ela não dar lucro – bendito seja o fruto do vosso stock … –, por isso receio nunca ver os seus sucessores em vida; porventura podia ser tão-só um belíssimo excerto de Kafka, mas ele nunca imaginou que poderia existir algo pior do que acordar escaravelho gigante de pernas para o ar. E descartadas todas estas opções, repetido o processo, feito e refeito o raciocínio, sobra-me sempre a pior das alternativas: sobra-me aquela em que tenho que me resignar com a intragável verdade de que esta é apenas a realidade que os homens mais poderosos do planeta nos deram para as mãos, em nome de uns quantos gráficos e umas linhas cujo declive aumenta quando deixamos morrer pessoas à fome e bombardeamos países em nome da democracia e liberdade – leia-se, reservas chorudas de petróleo. A verdade é que jogamos todos à cabra-cega, mas ainda nenhum de nós percebeu que somos sempre nós os vendados. Mas a vida continua. E vão uma, duas e três voltas, e cá vamos nós outra vez – e ai de quem se atrever a parar o jogo. E lá vai o zé-povinho, a tatear o ar e a fazer figura de boçal, porque ainda não percebeu que não joga com mais ninguém senão os outros zés-povinhos que, por motivo insondável, também jogam de olhos fechados, talvez por solidariedade e comiseradora empatia para com o que está vendado. E lá vão mais uma, duas e três voltas, e já estou tonto – alguém que me ampare, porque os senhores donos disto tudo rodam-nos e rodam-nos e rodam-nos e depois deixam-nos para aqui à nossa sorte a titubear de um lado para o outro. E mais uma, duas, três entrevistas de emprego, e não sei se aguento muito mais – então, diga lá, estou contratado ou não? Lamentamos, mas o senhor não tem experiência nenhuma, o máximo que lhe conseguimos oferecer é um estágio. Não remunerado? Pois claro que sim, não remunerado, evidentemente, estava à espera do quê? Não há almoços grátis. Mas ouça, eu tenho um mestrado e preciso mesmo do trabalho, há 6 anos que pago a minha formação e não ganho absolutamente nada, não será mesmo possível? Desculpe, mas não é suficiente, volte quando estiver morto. O quê? E mais uma, duas e três voltas. E preciso de mais uma cerveja. Que o que vale é que sempre temos a cerveja; e o amor – e mesmo assim esse não é de se fiar muito, mas podemos sempre apaixonar-nos por uma noite e, quem sabe, talvez casar amanhã no vendaval dos lençóis; mas para isso preciso de mais uma cerveja, não penses muito nisso meu amor, que o importante é mesmo a cerveja: preciso de enfiar a consciência dentro de uma garrafa de tequila, porque a maratona para o marido que mais bate na mulher começa cada vez mais cedo nesta economia de sonhos. O quê? Ter filhos? Querida, eu ainda nem fiz 30, esperemos pelos 40, talvez por essa altura o mercado imobiliário já tenha acabado e todos os senhorios deste mundo tenham morrido e assim possamos finalmente comprar uma casa. E mais uma, duas e três crises, e sobe o gás, a luz, a renda, o pão, e a água, e, com eles, também sobe a nossa tesão em pelejar corajosamente contra os fantoches e os espantalhos que nos jogam à cara enquanto deixamos passar impunes as mãos e as vozes que os animam. E que nem pensem em não apertar o cinto, que agora é hora de mão férrea sobre o pobre que nem sabe ler e mão querida, afagante e submissa sobre os ricos que arrebentaram uma vez mais com o sistema económico em que vivemos; que nem se atrevam em tirar as vendas agora, que esta é a parte mais divertida do jogo – lá vão mais uma, duas e três mentiras, pois isto está claro que são os impostos, e é o Estado gordo, e é o cidadão mandrião, e é o subsídio-dependente, e é a falta de competitividade, e falta lucro (louvado seja Ele) e empreendedorismo (o famigerado); pois está claro que isto será sempre o que quiserem, desde que não sejam os mercados e o sistema em que vivemos. E vão mais uma e duas e – parem de uma vez por todas este jogo, porque eu estou farto desta merda. Tiremos todos as vendas e deixemos de compactuar com jogos que nunca gostámos de jogar. Não sei se alguma vez acordámos em cair nesta burla delirante, mas sei com todas as minhas forças que podemos todos acordar em viver numa verdade que não nos saiba a acre nos lábios – resta saber se é isso que queremos verdadeiramente ou se a cegueira das vendas nos foi sempre congénita e a equivocámos por forçada.
- Face à História, a Pessoa não existe
(ou, Como a Guerra não é um Combate de Boxe ) Hitler não era Deus. Ou, se o era, era um Deus surgido da Máquina . Essa é a tese do advogado Hans Rolfe na mais famosa cena do filme de 1961, O Julgamento de Nuremberga . Em vez de defender per se a inocência dos nazis, Rolfe aborda a culpa na sua verdadeira extensão. Pergunta-se, se o Vaticano assinou uma Concordata com o Reich em 1933, legitimando-o aos olhos do mundo católico, não seria tal uma traição a Jesus Cristo, Rei dos Judeus? Se a União Soviética assinou um pacto em 1939 com a Alemanha, permitindo a divisão entre da Europa de Leste entre si, não terão estes comunistas pactuado com o fascismo? Se indústrias americanas operaram e negociaram com os Nazis até durante a guerra, não estarão os dólares sujos de sangue de milhões? Rolfe conclui, “É fácil condenar um homem. (…) Se ele é culpado, [a sua culpa] é do mundo.” Se há crítica que se possa fazer a Rolfe, é que a sua crítica não vai longe o suficiente. Hitler não fundou o Partido Nacional Socialista, não criou a democracia fraturada alemã que lhe permitiria tomar poder, não assinou o Tratado de Versalhes que procurava vingar-se da Alemanha sem a enfraquecer o suficiente para não se rearmar, não pariu as 17 milhões de pessoas que nele votaram em 1933, nem os 14 milhões que serviram no exército, não inventou o antissemitismo que vivia e prosperava nas entranhas da Europa desde o Império Romano, não baleou pessoalmente dezenas de milhões de soldados nem conduziu os comboios que seriam a última viagem de milhões de Judeus, Ciganos, Eslavos, enfim, Pessoas. Hitler era um Deus surgido da Máquina. Sem esta Máquina política, burocrática, militar, não haveria Deus. Essa é a democracia perversa de qualquer ditadura: mantém-se desde que mantenha o povo satisfeito o suficiente para não ser enforcada. É por isso que não podemos dizer que Hitler era um louco, um invasor, ou um homicida. Não, lidámos sim com um povo louco, um povo invasor, um povo homicida. Não, até isso é simplista: lidámos com uma rede mundial de loucos, uma rede mundial de invasores, uma rede mundial de homicidas – os Nazis e todos os que colaboraram ou nos deixaram seguir em frente, rumo à estrada do Inferno. Ora, por esta altura poderão ter a mais leve suspeita que eu não estou realmente a falar de Hitler, ou da Alemanha dos anos 30. Vladimir Putin não é Deus. Ou, se o é, é um Deus surgido da Máquina . A opinião pública ocidental centrou grande parte da discussão em torno da Guerra na Ucrânia à volta de um homem. Bem, talvez dois. Pois se é verdade que fazemos de pessoas singulares a face do mal, também fazemos de outros grandes heróis. Se Putin tem por trás um governo inteiro, um aparelho burocrático, um exército, e uma população conservadora habituada à ideia de ditadura que, na sua maioria, apoia o nacionalismo e imperialismo russo, Volodymyr Zelensky não é um herói grego lutando contra ursos, mas sim apenas a face do exército ucraniano, do pessoal médico, dos que mantém a economia a funcionar, de todos os que mundo fora apoiam militar e humanitariamente a nação da qual ele, por acaso, é apenas um cidadão. A Guerra não é um Combate de Boxe entre Vladimir e Volodymir, ou uma corrida para ver quem é assassinado primeiro. Cortar a cabeça de um não irá ganhar a guerra, surgirão sempre novas cabeças para liderar a hidra que é a humanidade. A Guerra é uma Guerra de massas. Na face da História, a Pessoa não existe.
- O desenho como a verdade do Sileno
O ato de desenhar é apenas uma outra maneira de filosofar, talvez até mais pura, pois prescinde das dificuldades e limitações que o uso da linguagem apresenta. O professor, filósofo e ex-baixista dos Mata ratos, Antonio Caeiro, frisa que o significado etimológico, ao contrário do que nos ensinam no secundário, Filo-Amor e Sofia-Conhecimento, ou seja um amor por conhecimento, é na verdade uma tradução feita a partir do latim, que por sua vez deturpou o significado original da palavra do grego antigo. Filo traduz-se por obsessão/necessidade e Sofia por transparência/claridade. Para inicialmente clarificarmos esta questão e debruçarmo-nos sobre o ato de desenhar, irei apropriar-me do seguinte excerto do livro “O Nascimento da Tragédia” de Nietzsche. “Existe a velha lenda segundo a qual o rei Midas perseguiu por muito tempo sábio Sileno, companheiro de Dioniso, sem o apanhar. Quando por fim ele caiu no seu poder, o rei pergunta o que haveria de melhor e mais excelso para o ser humano. Inflexível e imóvel, o demónio silencia; até que, coagido pelo rei, solta com um riso estridente estas palavras: «Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e da fadiga, porque me obrigas a dizer-te o que para ti é mais proveitoso não ouvir? O melhor é para ti totalmente inatingível: não haver nascido, não ser, nada ser. Mas a segunda melhor para ti é morrer em breve.” 1a Fig. 1: Fresco da máscara de Sileno, Villa Of Fannius Synistor, Pompeii. O Sileno poderá representar o aparo e/ou o stiletto que percorre a confusa floresta abrindo o caminho à sua frente com bruscos, mas calculados movimentos, enquanto o Rei Midas (desenhador/artista), o segue loucamente obcecado pela informação preciosa que este tem em sua posse. Ao capturar o elusivo Sileno, acabando o percurso, finalizando a obra demarcada na floresta pelas flores pisadas e a terra remexida, o Rei Midas depara-se com o horror da verdade e perde todo o seu propósito naquele momento de clareza. Penso que a representação da figura humana decorre de uma necessidade de procura inventiva denominada de desocultação: quando o ser humano impregna a terra com o mundo, ao colocar a sua própria imagem na realidade, o ser humano está a questionar e/ou a afirmar a sua posição face ao exterior e ao interior. Segundo uma antiga fábula romantizada, escrita por Plínio, o desenho foi criado pelo amor. Uma figura feminina apelidada de “Amante Coríntia” deparou-se com a seu amado a relaxar e/ou a dormir, ele estaria, segundo alguns relatos, prestes a partir para a guerra e possivelmente nunca mais voltaria. Tipicamente representados numa sala sozinhos apenas iluminados pela luz de uma chama, a amante desenha os contornos da sombra do amado, que está a ser projetada na parede atrás do mesmo, delimitando o seu perfil. Aqui o desenho é utilizado como uma forma de imortalizar a presença do seu amor, tirando do mundo natural a vida do amado e preservando parte dele para a posterioridade. Uma intervenção Apolínea que tenta subverter a ordem natural da realidade. Analisando esta história a fundo encontramos paralelos inquestionáveis com as pinturas rupestres da Cueva De Las Manos na Argentina executadas entre 13 000 e 9500 anos atrás, composta por diversos stencils de mãos humanas. Por muitos considerados os mais antigos retratos/autorretratos executados, feitos numa caverna escura iluminada pelo fogo, pensava-se que pelo tamanho das mãos pertencessem a mulheres e/ou crianças, talvez mães que temessem a morte precoce dos seus filhos, ou até mesmo que temessem o seu próprio desencarnar. Fazendo menção a como foi apelidada de Apolínia a história da “Amante Coríntia”, teremos de respeitar as regras impostas pelo pré-socrático Heráclito e nomear a manifestação artística da Cueva De Las Manos de Dionisíaca; sem grande receio estético afirmo-o. A composição desordeira e conflituosa, a luta que provavelmente ocorreu para conseguir os melhores lugares da parede da caverna, as mãos que sobrepuseram e taparam outras mãos: um claro sinal da atividade do deus Dioniso ou até do seu fiel seguidor Sileno. Como referido, as mãos foram executadas com a técnica de stencil, algum tipo de aglutinante de origem animal misturado com carvão, óxido de ferro, ou giz, que era inserido na boca e depois soprado em direção à mão. Ambas as histórias demarcam uma forma numa superfície para tentar sobrepor o vazio/dor emocional que se seguirá à partida dos seus amados. Para fazer justiça à vontade aristotélica de encontrar a medida do meio, teremos de deturpar ambas as histórias em função de uma ficção realista que acalme os ânimos extremistas de Apolo e Dionísio. Imaginemos agora a “Amante Coríntia” a soprar tinta em direção ao perfil do amante que repousa antes da sua partida. O resultado seria na sua essência idêntico, um stencil do perfil do amante ficaria desenhado na parede da gruta/domus, mas ao acordar o rapaz do seu sono, num momento de raiva e cegueira, este levanta-se e agride-a, confuso e magoado, pois as ações primitivas da amante em muito rebaixam a perfeição apolínea inerte no amante. Fig. 2: Joseph Benoit Suvee, The Invention of the Art of Drawing, 1791. Groeningemuseum, Bruges Fig. 3: Cueva de las manos, Santa Cruz, Argentina A “Amante Coríntia”: o amor e o sexo A “Amante coríntia” é uma manifestação de Eros (o deus do amor). Não é uma deusa, mas também não é mortal, esta existe entre o sábio e o ignorante, pois apresenta uma necessidade de filosofar. Uma figura que tenciona trazer as preces dos homens aos deuses (imortalidade). Ao querer imortalizar o seu amor, o objeto de desejo, ela age de acordo com o que procura, ao soprar os pigmentos na direção do amado ela pergunta, e ao ser agredida obtém como resposta os resultados que estão de acordo com os conhecimentos do sábio Sileno. N’O Banquete de Platão, o tema central é a indagação sobre o que é o amor e a resposta mais sábia é relatada por Sócrates, mas atribuída a Diotima, figura ausente que se acredita ter sido inventada pelo mesmo. No decorrer do simpósio todos acreditam que Eros é um deus belo e sábio, mas no discurso de Diotima essa ideia é desmitificada pelo facto de que os deuses não desejam o que é bom e belo porque a sua essência já participa nessas ideias, enquanto Eros efetivamente procura esses atributos; ou seja, este não pode participar neles, não pode possuí-los: alguém que já é bom não procura ser bom, simplesmente o é nasua essência. Em consequência disto, Eros é rotulado como o meio-termo, pois se fosse ignorante(mortal), não teria consciência destas ideias; ele é um filósofo, ele é um artista. O artista é como Eros, o génio que medeia entre deus e o ser mortal. Procurando aquilo que deseja. O amor tão debatido neste livro é uma obsessão, uma doença crónica que nos aflige e a “Amante coríntia” é uma iluminada que está a tentar engravidar, ao contrário da virgem Maria que engravidou por ouvir as palavras de Deus, uma personagem passiva e entregue à vontade de terceiros, a nossa amante é uma agente ativa, uma mulher de ação. “...De facto, ó Sócrates, todos os homens têm a sua fecundidade segundo o corpo e segundo a alma, chegada uma certa idade, a nossa natureza deseja gerar....”2a Dentro das suas limitações, o mundo natural ostenta imortalizar-se por meio da procriação, deixando sempre um indivíduo novo no lugar de um velho. Todos os seres vivos participam nesta ideia de imortalidade, mas a espécie humana está munida de uma psique, um espírito que só nele habita que o impulsiona a ambicionar uma perpetuação imaterial. E é neste sentido que a “Amante coríntia” tenta engravidar. Mas esta é uma interpretação otimista e apolínea de caracterizar o propósito da nossa procura. Como contraponto dionisíaco e oferecendo uma visão mais pessimista, intento investigar a questão do erotismo, pois até este momento ainda só indagamos sobre o amor. Escrevendo de modo mais lato, a questão que está a ser trazida é: serão o amor e sexo a mesma coisa, em função da verdade do Sileno? Não nos limitemos pela produção de algo para atingir a imortalidade, podemos também encontrá-la no nosso interior. “O erotismo é, na consciência do homem, aquilo que nele põe em causa o ser.”3a O ato de desenhar possui muito em comum com o erótico, nomeadamente quando se destina ao estudo da figura humana. Georges Bataille propõe uma visão interior do erotismo e começa por afirmar que entre a existência de cada indivíduo existe uma descontinuidade vertiginosa. O vazio entre cada ser humano é o nada. Não existe nenhum percurso num lugar onde não existe essência. Transgredir da descontinuidade para a continuidade é o que o erotismo procura. Cada ser existe preso e confinado na sua existência, mas este não a suporta, passar pelo tempo é um castigo. O processo de transgressão apenas ocorre devido ao fenómeno estético imposto pelo ser racional, pois a continuidade pertence ao mundo dionisíaco anti-platónico. Platão com o seu positivismo, que depois verte para o cristianismo, acredita na perpetuação da vida através de meios espirituais, pois a imortalidade é conseguida através do meio corporal com a reprodução e a alma subsequentemente segue para o mundo das ideias. Esta noção do “depois” é uma praga que o pessimismo não aguenta suportar, não existe um “a seguir”, logo, a imortalidade do indivíduo só pode ser atingida em momentos específicos durante a vida do sujeito. O conceito de transgressão implica que o homem abandone o fenómeno estético, o seu estado racional e se entregue à continuidade que apenas pode possuir durante breves momentos. Durante o ato sexual dá-se a ocorrência de um fenómeno apelidado de “petit mort”, ou em português a pequena morte, no clímax do ato. Aquando desta ocorrência, dá-se a refração da consciência humana, o indivíduo entra em colapso e perde noção da sua identidade, do seu passado e do seu futuro, entrega-se ao uno primordial. A demora na execução do desenho é fatal para a sua essência. Apenas a espontaneidade calculada ou não do momento fará do desenho um ato honesto. Tempo livre é o luxo do homem racional, um benefício desonesto para com a natureza animal inerte no corpo e na psique (consciência). A pintura, ou melhor, o ato de pintar está predestinado antes da primeira pincelada ser lançada. A pintura é um ato apenas otimista, e não estou aqui a diferenciar o desenho da pintura meramente por temas ou materiais, nem mesmo por tempo de execução. A invisibilidade que preenche cada um dos conceitos é que os separa. A pintura é otimista e o desenho é pessimista, essa é a diferença independentemente das intenções do artista. O tempo é uma ilusão humana e acreditar que podemos utilizá-lo como queremos é uma mentira. Andar é como pintar uma paisagem ou um retrato: achamos que temos tempo para dispensar, refletindo enquanto respiramos o ar, o precioso oxigénio; a maior ironia do mundo natural. O desenhador deverá estar sempre com falta de ar, como se estivesse perpetuamente a afogar-se. Quando o medo infeta a psique as respostas são honestas. Correr é uma certeza vinda da pré-história, o homem primitivo a fugir dos predadores ou a perseguir a sua presa, a sobrevivência subsiste à base da velocidade e do momento decisivo. A obra demorada e/ou atrasada não sobrevive é perdida para a violência da savana primordial Africana. Quando a produção de uma obra se estende por vários dias, meses ou anos ela já está destinada a falhar. Sempre que o artista pousa os materiais e volta a pegar neles para continuar a trabalhar, a disposição atmosférica do atelier está completamente alterada, tudo muda, é como se ele estivesse a começar de novo. Quando tropeçamos ao retomar o andar o caminho altera-se. Este incessante parar e retomar deturpa a ideia inicial e faz dela uma mentira (uma religião), em que acreditamos demasiado e nos estagna, lentamente restringindo o nosso círculo de procura. Claro que se procurarmos perfeição gráfica e estética por vezes a obra terá que ser trabalhada durante um longo período de tempo, pois só assim se atinge a resolução desejada. Que se mantenha na ilusão então, morrerá ele e a obra de qualquer modo. O privilégio pessimista não é o saber, mas sim a perceção. A execução rápida e desinteressada será mais verdadeira, feita num único momento de fuga, o golpe que matará a presa, degolando-a e extraindo a sua preciosa vontade. O sangue que cobre o suporte mostrará o real intento do feroz desenhador. Não estando aqui a principiar uma veneração cega a exercícios de gestualidade e afins, tipicamente reconhecidos pela rapidez de execução, pois muitas vezes estes serão os mais desonestos. O desenho pessimista é definido pelo momento da verdade antes da morte corporal e espiritual, ou seja, está limitado ao tempo que o descarnar pessimista durar (popularmente definido como a concentração). Se a obra não for concluída nesse período, morrerá de imediato. A arte tem de ser feita num só momento, o atraso destrói a concessão artística. O problema das artes demoradas reside na sua essência de atraso temporal. O verme artístico Agora, já algo distantes do pensamento inicial, procuramos concluir. O artista pessimista deverá ser um verme. Na reprodução assexuada reside a liberdade do criador, não é requerida a imensa pletora necessária para a reprodução sexual, nem uma terceira entidade. O fetiche da criação é a morte da identidade, até este ponto já concluímos. Assim que a abundância de vontade canibalizada excede os limites da pele do verme gordo, começa a verter num momento crítico de crise/deleite de egoísmo artístico, o verme pode assumir duas disposições: o luxo do homem racional ou a embriaguez do vagabundo. Ambos foram as causas da morte de Deus (do propósito), e tudo entre eles são meros seguidores do já falecido fenómeno estético. Nenhum artista deve advogar estas causas do meio senão é enganado a agradar terceiros. O artista não deve executar obras porque lhes são pedidas ou porque as quer fazer, a obra em si é que deve impor-se ao artista. No mundo animal a reprodução é preferencial nas estações de abundância, na espécie humana é preferível começar uma família em tempos de prosperidade económica. Nestes exemplos existe uma escolha e uma decisão, o uso do livre arbítrio. Os vermes assexuados quando mutilados pela ação de forças externas não morrem, eles multiplicam-se. A primeira entidade morre e duas novas surgem, mas estas são meramente a deturpação da forma inicial. Foi-lhes imposta a criação, não sob o signo da liberdade do livre arbítrio, mas sobre a única liberdade que existe no mundo pessimista, a reação. A ação é sempre imparcial apenas controlamos a nossa reação. O artista pessimista não deve ter mão no volante, deve-se deixar mergulhar na caverna primordial. 1a - NIETZSCHE, Friedrich, “O Nascimento da Tragédia e Acerca da Verdade e da Mentira”, pag.34; 2a - PLATÃO, “ O Banquete”, pag. 127; 3a - BATAILLE, George, “O erotismo”, pag. 33.
- Mestres Do Nosso Destino Absurdo: Como Viver Apesar Do Sofrimento
Sísifo é o azarado protagonista do antigo mito grego que, tendo perturbado os Deuses, é condenado por toda a eternidade a empurrar uma rocha montanha acima, apenas para que esta role de volta quando chega ao topo, sem significado algum. Por mais desprovida de propósito que pareça a história, na verdade a situação de Sísifo consagra-se como uma brilhante metáfora para a nossa própria existência, não apenas reflete a mundanidade cíclica da nossa vida quotidiana como captura perfeitamente o paradoxo que tem por base a experiência humana - por um lado, somos por natureza animais curiosos que anseiam por significado e propósito, por outro, não estamos equipados para jamais satisfazer este terrível anseio. Desta forma, ocupamos uma espécie de espaço sem esperança entre o impulso de pensar respostas a perguntas profundas e a nossa intrínseca incapacidade de respondê-las - um espaço rotulado de "o absurdo". Daí a imagem de Sísifo: nós, seres conscientes, distintos dos demais seres vivos, primariamente, pela consciência da morte, construímos teorias sobre o sentido e significado da vida para tornar a nossa própria existência suportável, no entanto, estas inevitavelmente desabam e compulsivamente começamos de novo. Assim, vivemos no absurdo. No entanto, ao invés de culparmos a tristeza que nos guarda o destino a cada momento, recordo os esforços de Sísifo, para cima e para baixo da montanha, enquanto conquistas triunfais - cada vez que a rocha desaba, confirmando a futilidade do seu esforço, Sísifo não desiste, em vez disso aprecia a vista, observando a pedra cair, mantendo a cabeça erguida. Sorrindo, aproveita o ar fresco, marchando de volta montanha abaixo, e mesmo reconhecendo a extensão da sua miserável existência, toda a sua silenciosa alegria está contida na rocha. Esta é a questão fundamental a ser explorada: vês-te como uma vítima do mundo ou como todo o maravilhoso processo que é o universo? Se te defines meramente como a parte voluntária do teu sistema nervoso, então defines-te como a vítima do jogo, e sentes que a vida é um tipo de armadilha que te foi imposta por Deus, pelo destino ou por algum tipo de mecanismo cósmico, e que assim como Sísofo, és obrigado a viver e a repetir tarefas mundanas sem significado aparente, a empurrar uma rocha montanha acima por toda a eternidade sem propósito algum. Por outro lado, se também incluíres na definição de ti mesmo aquilo que fazes involuntariamente defines-te como tudo aquilo que existe, como todos os processos do universo, e não é este precisamente o caso? Possuis todos estes complexos sistemas biológicos que te permitem viver e que, em relação com o mundo exterior, te permitem experienciar a realidade de forma consciente, não é simplesmente espantoso? Podes não ser capaz de explicar como o concebes, mas és tu que fazes bater o teu próprio coração, o cabelo crescer, o sol brilhar, as árvores crescerem, e todos os infinitos processos que se dão a todos os segundos no universo - quer saibas da sua existência ou não, és tu que os fazes, e assim podes reivindicar a tua vida e proclamar com gosto: "Eu sou o responsável, seja ela comédia ou tragédia, fui eu que assim a fiz”. Os japoneses possuem a palavra que descreve exatamente a sensação que tenho vindo a tentar transmitir, “Yuugen” (幽玄), significando precisamente este curioso sentimento para além da consciência humana, uma profunda perceção sobre o misterioso sentido e beleza do universo, e triste beleza do sofrimento humano - do intangível, do abstrato, da inevitável impermanência das coisas, da compreensão daquilo que não pode ser compreendido, daquilo que pode apenas ser intuído, apreciado pela mente e jamais verbalizado, desencadeando respostas emocionais demasiado profundas e poderosas para palavras. E isto porque, assim como Sísifo empurra a rocha novamente em direção ao cume, sabendo que o mesmo destino o aguarda vezes sem conta, tornamo-nos autenticamente vivos ao enfrentar o absurdo da nossa condição através do cultivo da sensibilidade cósmica, ao maravilhar-nos com a complexidade, a perfeição, o milagre que é viver e experienciar todo este imenso espetáculo de energia que envolve todas as coisas e processos do mundo sem exceção, reconhecendo não só a beleza melancólica que envolve a nossa condição, como ao chegarmos à realização de que não somos vítimas nisto tudo, mas sim todo o processo, que quis que o que quer que seja que é, assim o fosse, continuando, mesmo sem significado, de cabeças erguidas - abordando a vida com plena consciência, reconhecendo a falta de sentido da vida, e vivendo bem independentemente disso, é assim que nos tornamos mestres do nosso destino absurdo.
- Patriotismo e Projeção de Portugal no Estrangeiro
O patriotismo é um valor muito importante, sobretudo na conjuntura pandémica em que nos encontramos: é um dos maiores desafios da história portuguesa que exige uma resposta sólida para mitigarmos os efeitos do Covid-19. Nesse sentido, os valores patrióticos nunca foram tão importantes, uma vez que todos temos de estar mobilizados e preparados para agirmos enquanto comunidade e sociedade para respondermos a este grande desafio de desígnio nacional. Ser patriota é ser um agente de exaltação de valores nacionais, é estar preocupado com os interesses de Portugal. Contudo, o patriotismo tem caído em desuso; todos ficam muito admirados quando alguém diz que Portugal é uma grande nação e que a maior riqueza de Portugal é o povo português, sendo cada um dos portugueses de extrema importância para a construção de um Portugal melhor. Numa ótica mais económica, considero cada vez mais que o patriotismo é crucial para a atração de investimento direto estrangeiro para Portugal: ser patriota é promover a imagem de Portugal no estrangeiro para que, desse modo, as empresas invistam mais em Portugal e encontrem condições aqui que não encontram noutros países. Portugal foi a primeira nação num pequeno recanto da Europa a ser independente e foi pioneiro na descoberta de novas terras, e é por isso que o povo lusitano tem que olhar para si mesmo sem vergonhas e de uma maneira positiva, abraçando o orgulho em ser português e não procurando o que vem do estrangeiro! Termino dizendo que, quem não é patriota, não é português nem tem a coragem lusitana para ultrapassar estes grandes desafios da nossa vida em sociedade. Enfim, faço um apelo para que todos os portugueses sejam patriotas e vivam intensamente esses valores na sua vida convidando outros a serem patriotas. Viva Portugal! Viva o povo português!
- Análise literário-jurídica de "O Processo", de Franz Kafka
“Alguém deve ter difamado Joseph K. pois que numa linda manhã foi preso sem ter cometido qualquer crime.” Assim se principia uma das obras mais perturbadoras e mórbidas do século XX, O Processo , de Franz Kafka. O enredo centra-se em Joseph K., funcionário de alta patente num banco que, precisamente no dia do seu trigésimo aniversário, acorda com dois oficiais de justiça no seu quarto, pretendendo detê-lo. Sublinhe-se que, ao longo de toda a trama, K. é mantido em liberdade e leva sua vida “normalmente”, com a única diferença de que agora ele carrega um pesado fardo: um processo incógnito quanto aos motivos e respetivos pormenores. Conforme o processo se vai desenrolando, Joseph apresenta-se em audiências sem fim em lugares velhos e claustrofóbicos. Pode, neste ponto, estabelecer-se uma analogia entre o espaço físico e mental: os corredores intermináveis e escuros simbolizam a busca incessante pela prova de inocência, a luta pela retidão da justiça, a “procura de luz” num processo completamente descabido. É até comparável ao paradigma da justiça dos nossos dias, onde muitas vezes é desconhecido o que ocorre durante um processo, ficando meio que às “cegas”, dependendo somente do poder judicial. Esta obra oferece uma análise rica em detalhes jurídicos, na medida em que se verifica a violação flagrante de inúmeros princípios jurídicos basilares, tais como o do devido processo legal (dado que K. não teve direito a um processo justo e equitativo, começando pela própria acusação, que nem sequer foi fundamentada) e o princípio da publicidade (tanto K., quanto o seu advogado não sabiam o porquê da sua detenção. Existe uma total falta de conhecimento sobre os processos deste tribunal, como se ele não fosse, de facto, público). Outro princípio ignorado do começo ao fim deste romance é o princípio da duração razoável do processo. A morte de K. – ponto mais marcante da obra - é precisamente despoletada pela demora absurda do processo. O desespero, o medo a roçar o desvario foram simplesmente demasiado para um protagonista exausto e desorientado. Ademais, é importante salientar que ninguém sabia o real motivo da detenção, nem foi dada a Joseph a chance de se defender, o que atualmente feriria o princípio do contraditório. Para finalizar, obviamente que a presunção de inocência também foi menosprezada, o que configura um gravíssimo atentado não só aos direitos individuais de K., mas também aos direitos humanos em geral, dado que esta seria, segundo a obra, uma prática recorrente. Todas estas transgressões contrariam veementemente a lógica da segurança jurídica, um dos pilares da convivência social harmoniosa. Está claro que n’ O processo escrito por Kafka, não há segurança jurídica em nenhuma dessas vertentes, uma vez que um processo arbitrário jamais poderá conduzir à paz social. Paralelamente ao processo kafkiano, na atualidade também se continuam a apontar, em alguns países, as mesmas críticas: a insatisfação generalizada com o poder judiciário, a sua morosidade e ineficácia, a falta de participação dos próprios envolvidos no conflito (o que começa a ser, contudo, gradualmente minimizado pelas formas de justiça participativa, como a mediação e os tribunais arbitrais) e a utilização de vocabulário dificilmente compreensível pelo comum dos cidadãos no meio jurídico (apreciação esta que deve ser abordada cautelosamente, pois o Direito, enquanto campo científico-jurídico do conhecimento, necessita de uma linguagem específica e detalhada que lhe faça jus). “Tal como um cão!”. A frase derradeira de Joseph K. resume perfeitamente o tratamento que este recebeu durante todo o processo, não enquanto Ser Humano, respeitando todos os seus direitos individuais e fundamentais, mas como um animal, desprovido de qualquer racionalidade e dignidade. O modo como decorreu todo o procedimento torna percetível a fragilidade do Homem diante da mecanização e do desenrolar dos processos sociais nos quais estamos inseridos, em que os valores e a vida do Ser Humano são relegados a um plano inferior. Assim, a alienação toma conta da razão e da sensibilidade humanas, pois a consciência fica totalmente dominada por essas fragilidades e imposições da sociedade. O sujeito é desmedidamente mais preso quando a sua própria consciência está amordaçada. O pior controlo e repressão são aquelas que se exercem na mente, onde a esperança não consegue mais alcançar. Ser controlado por dentro, no seu próprio espírito, é a maior das brutalidades – Joseph parece ter perdido a capacidade de sentir-se um ser livre, logo, estaria automaticamente morto sob quaisquer que fossem as circunstâncias. A trama de O Processo é nitidamente claustrofóbica e obscura, passível de variadas sub-interpretações. Destarte, destaca-se a aceção de que o processo pode até ser encarado como a própria vida, na qual muitos não sabem (ou não entendem) o verdadeiro motivo da sua existência e que, perante as situações desesperantes que enfrentam dia após dia, a única coisa que almejam é o fim desse mesmo “processo”. Podem também, neste ponto, tecer-se algumas considerações paradoxais: se a lei é supostamente uma expressão de justiça que transcende todos os casos humanos individuais por ser de caráter genérico, mas é, de facto, injusta precisamente por ser tão abstrata, porque é alheia ao caso humano individual, como podemos chegar a um meio-termo ideal? Outro paradoxo interessante é que, embora a lei seja abstrata e descrita como estando acima de todos os assuntos humanos, a verdade é que ela satura e escrutina esses mesmos temas humanos, ou seja, ninguém pode, de qualquer das formas, escapar às “garras da lei.” Em suma, O Processo não deve ser entendido no seu mero sentido literal, apenas como uma história de um indivíduo que fica “preso” num processo judicial. O livro vai muito além disso. É uma alegoria da situação do homem decadente, do seu estado de culpa permanente e irremediável (mesmo sendo, na realidade, inocente) num mundo onde toda a esperança foi esmagada.
- Jardins Abandonados
Impaciência. Angústia. Isolamento. Medo. Dúvida. Desordem. Desacordo. Caos. Como nos deixamos embrulhar nesta sequência degradante e perfeitamente previsível, adivinhável em cada passo que lhe confere continuidade? Como fomos tão imprudentes ao avistar a sua vinda? Como sobrevivemos à sua efetiva presença na nossa rotina? Como lhe arrancaremos pelas raízes a essência maligna, que nos invade como se não passássemos de jardins por cultivar, sem propósito, deixados ao abandono. Como nos transformámos em tal coisa? Precisamos de respirar para viver e, para alguns, essa será a nossa maior fraqueza. Pois, se mergulhamos por muito tempo, se voarmos demasiado alto, ou se simplesmente nos taparem o nariz e a boca, morremos. Ainda assim, acredito que se tenham esquecido, esses que consideram a respiração uma fraqueza superior do contacto humano. Precisamos e buscamos, de uma forma um tanto exaustiva, o contacto uns com os outros. E criaram-se gestos que legitimam esta necessidade comum, criaram-se tradições que trazem a convivência para a rotina, sem que pareça suspeito. Buscam-se, nos lugares mais estranhos, estímulos de sentimentos, através da compra do toque, da companhia, do ser-se querido e desejado por alguém. Atravessam-se os caminhos mais controversos como meio de alcançar ideais que, por vermos nos outros, desejamos para nós. No fim, muitos trocam a função do caminho, um simples meio, para que este passe a ser o fim. Submetem-se aos meios duvidosos, encurralando-se nas emboscadas das fraquezas alheias, que os impedem de prosseguir. Vivem vazios e ocos por dentro. São fraquezas destas que nos tornam dependentes uns dos outros. Subtilmente dependentes, numa situação comum quotidiana, mas não em estado de crise. Que coisa controversa, estarmos unidos por uma fraqueza comum, que tanto nos beneficia, como é capaz de nos trazer os piores venenos, que nós próprios plantámos, noutro canto qualquer do mundo, conferindo uma eterna verdade à lei de causa e efeito. O ar, que tanto nos liga, espalha as notícias e nos dá vida, também ele nos sufoca, contamina e aprisiona. O isolamento, que tanto nos dá tempo, nos permite introspeção, também ele nos leva à loucura, nos enche de saudades, nos tira a mobilidade, nos põe em causa. Na natureza, os animais estão divididos por reinos, filos, classes, ordens, famílias, géneros e espécies. Sabemos que, aqueles que pertencem à mesma espécie, se reproduzem entre si, caçam e migram em grupo, entre outras atividades coletivas. Verificamos que o espírito de liderança, de companheirismo e compromisso são muito mais efetivos nos animais irracionais do que na nossa espécie. E porquê? Talvez porque eles não percam tempo a encontrar fatores que os agrupem ou separem. Talvez porque lhes baste o instinto daquilo que já é evidente - a vida em comunidade dentro da mesma espécie. Eles protegem-se uns aos outros. E nós, humanos, dotados de racionalidade e de ferramentas excecionais, somos historicamente ambiciosos e autodestrutivos. Separamo-nos, dentro da mesma espécie, entre ricos e pobres, pretos e brancos, cristãos e muçulmanos, apoiantes do clube A e do clube B. Mas não em estado de crise. Tentamos elevar-nos uns aos outros para preencher os tais vazios que nos conferem triste isolamento. Procuramos seguidores que aprovem tais feitos, e julgamo-nos felizes. Mas não somos. A verdade é que, na época em que vivemos, pouco ou nada importa se me acho mais importante que o meu vizinho da mesma espécie. Pouco ou nada ajuda eu ser mais rico que ele. Se não formos solidários, se escolhermos caminhar sozinhos, se nos afastarmos do sentido de comunidade no seu expoente mais elevado, não poderemos sair ilesos, não em estado de crise. Porquê? Porque somos iguais. Caracterizamo-nos pelas mesmas fraquezas. O ar que me contamina, irá contaminar o meu vizinho. O isolamento que me põe em causa, irá pô-lo em causa também. Porque quando somos reduzidos à nossa essência, não somos mais que rosas de cores, tamanhos e aromas diferentes, vindas de outros lugares, únicas na sua identidade. Porque, talvez, lembrarmo-nos da nossa essência comum, num tempo de crise assim, não nos reduzirá a nada. Pelo contrário, elevar-nos-á a uma humanidade grandiosa que fomos perdendo, em tantos meios controversos, em tantos fins duvidosos, feitos de caminhos pouco prováveis. Ser mais, neste momento, passa por ser menos. Passa por ser. Apenas ser. Livrar-nos das máscaras que visam melhorar o nosso estatuto. Porque o ar é de todos. Ele é igual, imparcial, é severo. E só juntos, como um todo, nos poderemos nos proteger das suas ações mais cruéis. Só em comunidade, como um bando de leões, que procura proteger o seu parente ferido, nos poderemos curar. Nunca sozinhos.
- masculinidade tóxica.
Vivemos num mundo em que, desde crianças, somos bombardeados com expressões, atitudes e reações que nos moldam de forma a sermos tudo o que é esperado de nós. Seja pelo ideal de homem que a sociedade tem, seja pela única noção de masculinidade que (ambos!) os nossos progenitores têm e colocam em prática na relação entre eles e para connosco. Enquanto homem com 19 anos, gostaria de dizer que nunca tive medo de me expressar e de me mostrar vulnerável, mas esse não é o caso. Sempre notei que os rapazes à minha volta, tal como eu numa determinada fase, evitavam demonstrar as suas emoções com medo de serem percecionados como fracos, vivendo numa narrativa que os prendia - e prende - a normas culturais tóxicas. E a partir do momento em que um quebra essas normas, é automaticamente marginalizado e/ou, em muitos casos, alvo de bullying . São frases como: “Os rapazes não choram”, “A ginástica e a dança são para meninas”, “No homo”, “O meu filho é um garanhão”, “Quem veste as calças?” e “Não sejas maricas!” que reforçam a clausura e a espessura da parede que divide o homem da sua realidade emocional, criando um teto de vidro gerador de consequências pejorativas. Na mesma nota, o impacto destas expressões e de tantas outras é corrosivo. O efeito é prejudicial para a saúde mental dos homens, que, em todos os aspetos que a influencia, deve ser priorizada. O estudo “ Masculinity and suicidal thinking ”, realizado por uma equipa de investigadores da Universidade de Melbourne, em 2016, concluiu que os homens que se identificam com um elemento particular da masculinidade dominante – ser autossuficiente – poderiam estar em risco de terem pensamentos suicidas. Atualmente, os homens vivem menos devido a alguns fatores, incluindo a supressão das suas emoções, o que se pode traduzir no facto de as taxas de suicídio em Portugal evidenciarem uma discrepância ensurdecedora entre homens e mulheres, 15,4% face a 4,4%, respetivamente, em 2019. Mas, afinal, o que é ser homem? O que é a masculinidade e a virilidade? Estes conceitos são construções sociais, com uma alta carga subjetiva, havendo inúmeras noções de masculinidade e virilidade. Contudo, uma coisa é certa: antes de sermos homens, somos pessoas, pessoas com emoções, inseguranças e questões. Portanto, em vez de agirmos em torno de um ideal inalcançável pela sua inquestionável irrealidade, não devíamos ensinar-nos mutuamente a sermos autênticos e a procurar ajuda sempre que precisarmos? As emoções devem ser abraçadas, celebradas e, sobretudo, abordadas. É urgente assumir esta realidade, desconstruí-la e tratá-la como deve ser tratada. É urgente sermos corajosos o suficiente para não termos medo de sermos vulneráveis. Larguemos o guião. Sejamos humanos! (na imagem, está presente o cantor Tiago Iorc, no vídeo da sua música “Masculinidade”, que, desde já, recomendo, e que serviu de inspiração para a construção deste texto).
- A Cruzada
Recebi um chamado . Uma chance de novas aventuras, e fugir do quotidiano, sair do lar, em busca do inesperado. Possuo objetivos próprios, só desejo afirmar a minha liberdade; mas viajarei sob uma bandeira, que definirá o que foi e o que será. Reconheço meu egoísmo e anseio, mas respondo ao chamado. Deixo pra trás o lar, família e amigos; porém, ainda, carregando um sorriso ansioso e nervoso. Ponho a minha armadura para cobrir o frio na barriga, e uma espada para repelir ataques. Sinto o peso e desconforto, no entanto, só me motivo. Corro atrás do tempo perdido e viajo quilômetros, para, finalmente, alcançar o grupo, mas continuo longe. Pessoas de diversos lugares, com diversas histórias e ambições, trata-se de um ar acolhedor e intimidador. Ainda é o início, mas as minhas pernas já doem e respiro ofegante, busco apoio nos outros mas continuo mancando. Comecei o percurso antes, mas já passei por florestas, pântanos e colinas com os outros, que logo se aproximam de mim. A armadura vai enferrujando e desgastando, ao lutar contra o tempo e o ambiente. Brigas, discussões e intrigas surgem ao longo do caminho, não sei como lidar, mas devo aprender. Meses já se passaram, e já não sei quem, nem de onde sou, já não me identifico com quem eu era, já não reconheço de onde eu era; o que e quem deixei para trás mudaram, e eu também; me pergunto se há para onde voltar no fim. Apesar da mudança, vários problemas ainda continuam, devo olhar para dentro, mas já não sei o que quero, nem o que pensar. Percebo que o meu objetivo é a jornada, e não quero só as virtudes, honras e glórias; apenas estará completa com o sofrimento e o suor. A linha de chegada se aproxima, e o que eu vim fazer aqui se torna mais real; mas nada disso importa. No momento, o fim não importa.
- Um Martelo que já não se ouve há anos
Uma dramatização encenada e interpretada por estudantes de uma Faculdade, que tem como elenco de personagens vários professores da casa, e que tem como principal objetivo a satirização e o escárnio das suas idiossincrasias mais marcantes e caricaturais, reservando a primeira fila da plateia justamente para aqueles que são o alvo da chacota – o proposto é arrojado (em algumas faculdades talvez mesmo arriscado, diríamos), mas na NOVA SOL é uma realidade, e uma realidade bem arraigada na comunidade estudantil: na verdade, chama-se “Martelo” (as alusões à magistratura e ao Direito são óbvias), e é uma das mais longas tradições existentes na nossa Faculdade, organizada pelo Grupo da Retórica, um dos nossos núcleos de estudantes. Sendo um dos maiores exemplos da proximidade existente entre alunos e professores da nossa instituição, a verdade é que nos últimos anos esta tradição tem sofrido, lamentavelmente, uma forte coibição e debilitação por conta da pandemia e das restrições que esta trouxe: à conversa com o Jur.nal, Matilde Ribeiro, a atual coordenadora do Grupo da Retórica, relembrou-nos que os alunos até ao 3.º ano da Licenciatura ainda não tiveram a oportunidade de presenciar ao vivo uma edição do “Martelo”, e que, em virtude disso, aquele que era antigamente um evento que granjeava uma adesão notável no seio da comunidade estudantil (pessoas de pé e sentadas no chão dos anfiteatros e das salas para poderem assistir), tem definhado num discreto e passageiro acontecimento cuja razão de ser muitos dos alunos mais recentes desconhecem por completo. Este ano, porém, pode (e deve) ser o ponto de inflexão para o “Martelo”: voltando ao modelo presencial, acontecendo nesta terça-feira, dia 17 de maio, às 18h30 no Anfiteatro B, este será o primeiro ano em que o Martelo irá voltar a ecoar com toda a sua força e vigor, e todos nós temos o dever de o ouvir – esta é uma tradição que merece ser prezada e preservada por todos nós, pois é o testemunho que as relações entre aluno e professor (especialmente numa Faculdade de Direito) podem ser radicalmente melhores e diferentes do que é o padrão.
- E Eu Tremi…
Estaremos a fugir de algo que podia, no mínimo, ser bom ou, pelo menos, divertido, por estarmos acorrentados às razões morais com as quais nem nos identificamos? Agora apenas comunicamos entre olhares escondidos e, talvez demasiado, ingénuos, e ataques fugazes e picantes dirigidos pelo poder das palavras, que já nada alcançam com os nossos corpos cansados de querer. Eu não vejo os novos horizontes que tu proclamas e tu não entendes a luta que eu preconizo e essa é a maior desculpa para noites longas e efémeras a discutir pacífica e ardentemente um futuro que não está ao alcance de só duas pessoas. Creio que os outros fingem não entender, mas, de facto, nem sei se tu próprio entendes, nem sem se queres entender, aparenta ser muito mais pragmático e adequado às nossas posturas apenas fugir de tentar e fingir não entender, continuar esta corrida desde o momento que entras até ao momento que sais e tudo fica igual, exceto, claro, a minha mente, que se confunde ainda mais com cada olhar e efervesce com cada declaração insignificante, que até me leva a acreditar em borboletas; a mim! Eu nem sei que mais escrever; todos aqueles momentos e todas aquelas entrelinhas que eu fujo de perceber para não complicar o que já é inexoravelmente complexo, por muito simples que seja. É tudo tão claro… Ficou uma noite esquecida que nenhum de nós esqueceu, uma noite perdida e desperdiçada em que rejeitamos os desejos dos nossos corpos novos e selvagens e fugimos à tentação, andámos horas para trás e para a frente, entre conversas e pequenos beijos roubados e nunca saímos do mesmo lugar. Naquele dia, era uma cama quente, cheia de sonhos e esperanças, no seguinte, estava vazia e nela guardava todos os segredos de algo que nunca chegou a acontecer; agora é a minha eterna confidente e esconde tudo o que eu não sou capaz de dizer, aliás, esconde conversas ternurentas e elogios sublimes, esconde preocupações e dúvidas trocadas, esconde pernas a tremer de prazer e corações a bater de emoção... esconde tudo o que ficou por acabar e as mil palavras por dizer e, por fim, esconde o teu golpe final, cujo não sei se foi em tua ou minha misericórdia. Há tanto que eu não sei... na verdade, também não sei se quero realmente saber, poderá ser mais fácil continuar no purgatório, no eterno sem saber em que só temos que viver com a vergonha do que já fizemos e nada mais, viver com a constante pergunta do que poderá ser e nunca dar aquele último passo mortal, que pode até nada mudar. É como ter insónias constantes o dia inteiro, a mente deambula por todos estes pensamentos e momentos e tudo está tão difuso, exceto a vontade de conversar contigo sobre tudo e sobre nada e de continuar este nosso jogo provocador, que me enche de esperança e me rebenta ao mesmo tempo. O meu desejo incomunicado de que tu fiques mais tempo e te sentes mais perto e a minha desilusão quando és o único que não aparece ou és o primeiro a sair, ou pior ainda, quando ela chega e eu sinto que começo a desaparecer, a verdade é que nunca consigo entender, mas não pergunto a ninguém, muito menos a ti, e apenas continuo, como sempre faço, as minhas piadas vazias que me vão comendo aos pedaços... Parece-me que os teus olhos já nem brilham tanto quando olhas para ela, mas não comento com medo que seja a minha esperança a tentar iludir-me, apenas continuo… porque tu também continuas a discutir os confins do universo e o sexo dos anjos comigo e, nesses momentos, nada me parece mais simples do que essas horas infinitas de desabafos sobre os problemas sérios de que somos irremediavelmente fãs e aos quais tentamos dar resposta das maneiras mais diversas possíveis e com as piadas mais estúpidas. Mas é tudo tão claro e ao mesmo tempo tão difuso e o teu odor a gin barato não sai da minha mente… E há dias em que penso que se calhar nem gosto de gin tónico, mas depois sinto aquele aroma perfumado familiar e os meus lábios encontram aquele sabor intenso, porém refrescante e, de repente, sou novamente refém de algo que nunca escolhi apreciar... E, no fundo, só sei que eu tremi…
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