top of page

o que procuras?

Search this site

456 results found with an empty search

  • Políticarelle

    (Debates eleitorais 2024) Toca a despachar! 30 minutos a desfilar, Pois que a Cristina quer ir dançar! É pegar ou largar! O primeiro entra com o pé esquerdo Ou direito? (Não dá para distinguir) Vem com o gato a acompanhar E o feminismo para arguir. Com foice hasteada, vem aí camarada, mas “há aqui uma coisa fundamental. Fundamental.” Não havia melhor No Comité Central? Pois que no escorrega Do palco mais importante de Portugal, Anda o liberal. Contudo, não há contas Para justificar o corte fiscal. (são 5 mil milhões no geral?) Caiu do escorrega, Mas não há que preocupar, A mão invisível as feridas vem curar. Gémeos siameses vêm a passar, Só não tragam a Europa cá para os separar. Para estes dois, o desfile é para todos, Todos o devem integrar, Até as avózinhas vêm as rendas mostrar. Alto lá! Conseguem ver? Pelo zoom decidiu aparecer O líder da oposição a valer. Vamos ver se agora o pc não o faz esquecer O que tem para dizer. “Olhe, posso interromper?” “Não, não pode” “Poder posso, outra coisa é querer.” Na AD não vale a pena esconder, Sabemos que o machismo é para manter, Já dizia o monarca em direto na TV. Falta-nos alguém? João Adelino Faria, será? É que já o ouvi tanto falar… Oh! Não há que enganar! VEJO A NUCA DE VENTURA! A música da Lena d’Água pode tocar. Vamos pensões aumentar, (Não se pode ser fuinha) Mais cedo reformar E polícias masturbar. Para tudo isto pagar, Corrupção tem de acabar E banditos vamos exterminar. Isto custa a crer, para tudo acontecer, Não tem de se o Chega investigar? Ora, basta ver quem o anda a financiar. A fechar o desfile, de alto gabarito, Chega o garanhão, Porque pelo whatsapp teve a reunião Que lhe permitiu vir de avião. Pronto para os foguetes lançar, Teve de a avioneta pousar. “Miúdo imprudente, pare tudo!” Disse o designer da marca que se quer apresentar. Todos dos lugares levantar, Vamos aplaudir sem parar Quem isto tem andado a orquestrar. Em alto e bom som, diz sem pesar: “Vamo’ la ver, fiz ou não fiz bem em bazar?”

  • Imóvel

    Parece-me que o mundo anda depressa demais.  Os dias passam todos numa euforia de movimento, sem uma pausa para respirar, sempre a andar, sem parar, porque há sempre mais.  E assim, o mundo anda, como se estivesse a fugir de algo que o perseguisse eternamente. Mas eu, eu estou parada. É como se o meu relógio estivesse suspenso , obrigando-me simplesmente a existir no meio do caos e da loucura que é o dia-á-dia.  E que agonia é esta que me prende. Não me consigo mover, não tenho força para tal, e a inércia de qualquer movimento que eu faça não me move nem um milímetro. Portanto estou parada. No espaço, no tempo, simplesmente parada. Pergunto-me se alguma vez irei mover-me de novo. Viver a vida.  Não na azáfama e correria que uma vez vivera, mas com calma, a apreciar os momentos mais insignificantes.  Ou talvez fique por aqui, uma estátua num pedestal a ver a vida passar-se à minha frente enquanto eu, imóvel, não consigo fazer nada além de assistir. Este triste futuro parece-me cada vez mais real, tão sólido que quase lhe consigo tocar. Mas o mundo continua a andar e eu imóvel.  Esta parálise parece-me fomentada pela velocidade do resto do mundo. Porque é que as semanas passam a correr para todos menos para mim? Um estalar de dedos, acabou. Para mim, uma semana parecem anos que passam lentamente, de forma agoniante. Será um sintoma desta estagnação em que me encontro? Será este um problema só meu? Estarei renegada a observar a vida a desenrolar-se à frente dos meus olhos sem ter força, capacidade, de realmente vivê-la?

  • Os Estudantes disseram não, mas...

    Começa um novo semestre letivo nas Universidades. Neste novo semestre, os alunos do ensino superior, já desgastados, já de bolsos rotos e carteiras vazias, deparam-se agora com mais obstáculos e maiores dificuldades.             Chego à Faculdade, e deparo-me com um Bar que, apesar de recentemente ter passado a ser explorado pelos Serviços de Ação Social da UNL (SASNOVA) – o que implica preços sociais e mais baratos, subiu transversalmente os seus preços , tal como outros bares explorados pelos SASNOVA ao longo das diferentes Faculdades.             No entanto, repetidamente se vê a tentativa de órgãos diretivos da Universidade em alargar este aumento de preços a todas as áreas de atuação dos SASNOVA. Não é segredo nenhum que o Reitor e a Universidade NOVA de Lisboa têm sucessivamente tentado implementar este aumento de preços , o que se pode ver, por exemplo, no aumento de preços na Residência Universitária Alfredo de Sousa, também gerida pela mesma entidade. A novidade é a mudança do sentido de voto dos órgãos que têm algo a dizer nestas matérias , seja de forma figurativa ou vinculativa. Falo nomeadamente nos órgãos que compõem o Conselho de Estudantes da UNL (CE) – as e os presidentes de todas as Associações de Estudantes, a Administradora dos SASNOVA e o Reitor da UNL.             No dia 8 de janeiro de 2023, é emitido um comunicado assinado por várias das associações que compõem este Conselho: AEFCT (Faculdade de Ciências e Tecnologias da UNL), NIMS SU (NOVA IMS), AENMS (NOVA Medical School) NLSU (Faculdade de Direito da UNL) e AEENSP (Escola Nacional de Saúde Pública), informando a todos os estudantes que no final do ano letivo passado, deu-se uma reunião de Conselho de Estudantes, em que a proposta de aumentar a refeição social para 3,00€, tal como já aconteceu, por exemplo, nas cantinas da Universidade de Lisboa, foi chumbada por todas as associações presentes. No comunicado, pode ler-se que as Associações “acreditam que este aumento é mais uma barreira à manutenção dos estudantes no Ensino Superior”. Acontece que, apesar do Conselho de Estudantes ser um órgão consultivo, a proposta foi chumbada em Conselho de Ação Social (CAS), órgão deliberativo, pela força das 2 estudantes que o compõem, contrapondo os seus votos contra o voto a favor da Administradora dos SASNOVA. Note-se que o Reitor João Saágua não compareceu a esta reunião, pelo que não votou.             Ainda assim, no dia 7 de fevereiro de 2024, vem a público um comunicado da AEFCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), onde se pode ler que após a convocação de uma nova reunião de Conselho de Estudantes da NOVA por parte dos Serviços de Ação Social, as Associações presentes a provaram uma proposta que aumenta o preço do prato social, com um único voto contra , o da AEFCSH.             Na sequência deste comunicado, vêm as associações emissoras do primeiro comunicado emitir um segundo, no dia 8 de fevereiro, que justifica esta votação pelo facto de que se viram obrigadas a negociar um aumento de preço  que fosse menos radical que os 3,00€ por refeição, já que previam que a não negociação do preço levasse a uma aprovação por parte do CAS, previsivelmente com o voto contra das estudantes que o compõem, e com o voto a favor da Administradora dos SASNOVA e do Reitor, que neste caso possui voto de qualidade. Apesar de haver mérito na atuação das Associações nesta primeira reunião de CE, e maior mérito ainda nas estudantes que pertencem ao CAS, não sou capaz de compreender dois pontos essenciais nesta atuação: o primeiro sendo a incoerência na atuação destas AE’s, especialmente as subscritoras do comunicado acima referido, e o segundo sendo conceber a possibilidade de haver Associações de Estudantes, o órgão que representa todos os Estudantes e, acima de tudo, os protege e lhes dá voz, a votar uma proposta que faz aumentar o esforço financeiro dos estudantes  e das famílias a que pertencem . Sobre a primeira questão levantada, tendo em conta que as decisões foram tomadas em anos letivos diferentes e ainda que o comunicado tenha sido publicado já no ano letivo subsequente, só podemos supor que serão mandatos diferentes, e que as motivações de cada Associação, mudam consoante a sua Direção e consoante a sua Presidência. Ainda assim, parece existir, no que toca ao primeiro comunicado, um certo aproveitamento de ações e mudanças conseguidas por mandatos anteriores , que são agora reivindicados pela nova direção em funções. Isto torna-se ainda mais visível quando existe agora uma mudança no que é a atuação e na posição das Associações em sede de Conselho de Estudantes. Sobre o segundo ponto, não é admissível que uma Associação de Estudantes ponha à frente dos próprios estudantes a tentativa de lucro de um Serviço que não foi criado para dar lucro. Ainda que estas Associações afirmem que agiram da forma que agiram com o bem-estar dos estudantes em mente, não me parece que partamos do princípio certo se um órgão, que ainda por cima é meramente consultivo, não participando ativamente nesta decisão, que é da competência do CAS, abre a porta a estes ultimatos unilaterais por parte dos Serviços de Ação Social da Universidade. Acredito veementemente que é direito, mas também é dever, de questionar e responsabilizar as direções das Associações que agiram neste sentido . Sobre o segundo comunicado emitido, não é satisfatório mostrar que encontraram uma solução que é “o menor de dois males”, e afirmar que “os estudantes disseram não”. Os estudantes, de facto, dizem que não. Dizem que não nos corredores, quando se queixam dos preços. Dizem que não nas manifestações do Dia do Estudante e outras tantas. Dizem que não quando escrevem estes textos, e exigem mais e melhor das suas Associações. O que a NOVA Law SU e restantes Associações presentes em CE (à exceção da AEFCSH, cuja ação é de louvar) fizeram foi dizer “não, mas...”. Os Estudantes precisam de Associações fortes, que se batam e travem as suas posições e que não cedam no que toca aos seus direitos. Não é admissível, face ao contexto socioeconómico e financeiro do país, onde há cada vez mais dificuldades e onde cada estudante sofre mais e mais com o peso financeiro do Ensino Superior, que os Serviços de Ação Social, criados para mitigar as desigualdades e proteger especialmente os mais desfavorecidos, procurem a cada oportunidade esmagar qualquer alívio que os estudantes possam ter , alívios esses que são dados por obrigação legal e pelas respetivas imposições de tetos máximos, o que também se vê, por exemplo, na propina de licenciatura ou mestrado integrado, que na grande maioria dos cursos corresponde sempre ao teto máximo imposto, ou nas propinas de mestrado e doutoramento, que por não terem teto máximo, veem-se duplicadas ou triplicadas face ao preço da licenciatura. Claro está que estas tentativas hostis têm uma raiz comum: o subfinanciamento crónico do Ensino Superior e respetivo regime de financiamento , que se manifesta em todas as vertentes do ensino superior e que lhe são análogas: refeições sociais em cantinas universitárias, alojamento estudantil, entre outros, e que obriga os estudantes a suportar os seus próprios custos, não lhes permitindo estudar num ensino superior gratuito, e verdadeiramente livre ou, pior ainda, impedindo-os de o frequentar. No ano em que o acontecimento mais importante da nossa democracia celebra o seu quinquagésimo aniversário, não podemos deixar descurar o que ele nos conquistou: entre outras coisas, a luta, a liberdade. Não esqueçamos também a luta estudantil, que começou antes do 25 de abril e que até hoje continua, pelos estudantes.  Não nos contentamos pela luta da conveniência, da cedência, sem substância. Não nos contentamos pelo “mal menor”.

  • Clube de Leitura - “Cidades Invisíveis”, Italo Calvino - textos

    Okänd - Letícia Paes É com fascínio que se descobre Okänd, a pequena cidade perdida, em que tudo é nada, e o nada é tudo. Ao atravessar a divisa do infinito, há cheiro de canela dos cafés e padarias e flores dos jardins e campos. Dizem que experiência mais confortante só se vê unicamente na casa dos avós, que moram no seu centro. Todos os habitantes são praticantes da religião hyggecismo, esta é praticada nas grandes bibliotecas e florestas que deságuam em prósperos rios. Cedo ou tarde descobrimos o famoso magnomanual, descrito em linhas de Times New Roman em papiro, escritos com lápis e acompanhados de uma borracha, sempre que necessário. Sua capa macia tem escrita: Janteloven. Esta cidade soa como uma canção do Sinatra, profere como o Jorge Amado sem a violência dos Capitães da Areia, é mais luminosa que Paris e mais romântica que Veneza. Suas casas têm mais cores do que a aquarela de Toquinho. Andamos por lá sem sentir aperto no coração.Ela é uma pólis com camadas como uma cebola, mais que tudo, uma experiência, como descobrir Atlântica, impossível de desvendar-se por completo em uma só tentativa. Poderia então ser descrita como uma espécie de Salvador com Lisboa, um cruzamento lusitano, um bolo de casório com três andares, um Monte Olimpo. Talvez esta cidade foi o paraíso Maia nunca descoberto, ou talvez, é uma junção de tudo já visto e experienciado. Okänd é, acima de tudo, braços abertos que sussurram nos corações: bem-vindo à casa. Vidi - António Subtil Vidi fora uma cidade amada noutros tempos, mas não mais. Rodeada de céus violetas e aroma a rosas, foi cunhada de fama de paixões. Peregrinos passeavam pelas pontes, e pintavam os nomes das paixões em todas as paredes. “Pedro, o meu primeiro amor”, em tons de prata na praça do mercado. “Vasco, volta vivo”, vi eu a vermelho na mais velha avenida. “Sofia, sofro e sinto tanto”, cravado nos sinos dourados das catedrais. Tantas preces pedidas e desesperos expostos, que os poços se encheram de moedas, e os rios secaram, o sal de lágrimas tudo o que restou. Na calçada da ponte mais nova, alguém escreveu com as cores do arco-íris: “Vidi, a encarnação do amor”. As cores são já tão ténues. Nada resta da última letra. Vidi é agora um deserto. O deserto de Ouzer: o deserto da doença. Bauci - Mello Rodeados por nuvens – num manto branco, numa intensidade vazia, perfeitamente impalpável e que se desfaz quando se estica a mão. Crianças tentam capturar um pouco delas em largos jarros de vidro – duram pouco mais que uns segundos. Uma efemeridade que quem vive no solo nunca sonhou. Os habitantes de Bauci dão se ao luxo de tocar nas nuvens. Mais ninguém alguma vez o sentiu na pele. De que serve isso se não conhecem o solo? O cheiro de relva acabada de cortar? A terra molhada pela chuva? Enterrar uma bota num pedaço de lama e suspirar? Uma mão a tentar conter todos os grãos de areia dentro dela? O sussurro do mar contra as rochas? Uma coleção de olhos observa-nos de cima. Querem conhecer o que está longe. Querem tocar na terra. E nós queremos tocar nos céus. Mas nem todos olham para nós. Alguns nem se dignam – olham em frente, desprezando o que somos, e o que temos. Perfeitamente contentes com o que têm. Ao ponto de rejeitar o que desconhecem. De olharem por cima, e nunca para baixo. Orgulham-se das suas nuvens, da sua paisagem de algodão. Não precisam de mais. Porque descer é uma incógnita. A qualquer momento, as longas andas cor-de-rosa que suportam tudo podem dobrar-se, e se deslocar. Procurar outras nuvens. Procurar outros céus. E quem se deu à curiosidade de descer, pode bem nunca mais regressar. Por isso, dizem, é melhor ser só um olho. E não conhecer a madeira, a cortiça, as folhas e a terra. Fiquemo-nos pelas efémeras nuvens. Estão em casa. Pirra - Raquel Osório de Barros Sobre ela nada sabia - ou, pelo menos, foi isso que vim a descobrir quando por lá passei. As cidades são quem nelas vive e os nomes têm o doce problema da fidelidade a quem querem nomear. Imaginei-a alta e imponente - muralhas de uma era perdida que evocam um passado glorioso e a austeridade de um monarca que viu o seu lugar ocupado pelo herdeiro como manda a tradição. A praceta central com um poço mostraria como o critério da eficiência tinha sido ali aplicado: defesa e manutenção das necessidades. Os habitantes, atarefados, viveriam numa comunhão obrigatória, circunscritos ao espaço de proteção delimitado pelo muro, sem ver o mar que batia na muralha majestosamente, era destino apenas ouvir as ondas ao deambular no fim da tarde. Quando finalmente a vi na realidade, dei pelo nome a destruir a cidade que imaginara. Pirra era antes um conjunto de casas muito afastadas, agrupadas em ruas retas e ordenadas. A comunhão em que se baseava desapareceu para dar lugar ao individualismo dos seus habitantes - não havia poço, havia apenas, visível aos olhos de uma viajante, o armazenamento privado de madeira para aquecimento da casa no inverno. O que mais me entristeceu foi que, em vez das ondas, o que se ouvia era o som mecânico e industrial das bombas hidráulicas que alimentam a energia daquelas casas. A cidade sempre tinha sido assim, é evidente que o seu nome já não podia significar mais nada que não aquilo. A cidade estoica com o poço central e as casas contíguas existirá e procurarei achar um nome que a ela se adeque. Como pude achar que era Pirra? Fepo e Vésper - Sofia Dias Todos os poemas do mundo falam sobre elas. Todas as letrinhas existentes, juntas em  palavras, sussurram entre frases e parágrafos, a história do fim de Febo, a cidade do  Sol. Peguemos num exemplo concreto, na palavra “gato” - sabemos, empiricamente, que o  “g”, o “a”, o “t” e o “o”, tiveram a seguinte conversita: Diz-se por aí, em sussurros, que um miúdo veio a Vésper. (o T deita-se transfigurado, o O só olha para o soalho e o A aspira algum ar pesado) G, bateste com a cabeça? Ele claramente  faltou às aulas de história…. Calem-se e deixem-me acabar. Dizem que o miúdo esticou uma perna e aterrou cá, agora parece uma espécie de ponte, sabem? Como aquela que há aqui na  praça, tem uma perna lá e outra cá. Então, mas ele não fica com cãibras? Ah, sim, T, um  miúdo de Febo virou pastilha elástica e anda a mandar bitaites cá, mas o que é preocupante é  se ele não está com dores na virilha. Odeio o teu sarcasmo, continua lá a tua história… O F  disse-me que este tal de Benjamim tinha um monstrinho a morar nas costelas dele. Pronto,  agora é que o gato torce o rabo. G, isso já não existe, estás a ser tonto. Os de lá já não têm  essas coisas no corpo. Ai, mas este de certeza que tem. Ouve-se que o monstro andava a saltar  tanto lá dentro que fez com que o rapaz tivesse um espasmo numa perna e viesse cá parar. E, agora, preparem-se para o melhor de tudo, a cereja no topo do bolo, os italianos no tiramisu o miúdo. está. apaixonado. por. uma. vesperina. ————————— “Não tem de se parecer com nada” - disse ela, enquanto passava a mão pelos caracóis acaramelados  de Benjamim. - “Os nossos cabelos despenteados também não se parecem com nada. Nem as nossas  mãos em movimento.” - Vespi mexeu as mãos rapidamente à frente dos olhos dele. “Estamos rodeados de coisas abstratas. Sei que em Febo não se liga ao abstrato, liga-se ao que se  vê, ao que é palpável, ao que é reconhecível. Mas, pensa, quando pintamos alguma coisa, pintamos  uma fatia fininha da realidade, contudo, ninguém nem nenhuma coisa é só isso. Não há nada que  não seja a soma do que foi, do que é e do que será. Então, aqui, em Vésper, o que tentamos pintar é  a soma das fatias todas ao mesmo tempo.” “Ao mesmo tempo?” “Sim, não há outro tempo.” ”E consegue-se?” “O quê?” “Pintar isso tudo?” “Sim, mas não se parece com as coisas que vemos. Porque a realidade não é o que vemos. É o que  aparece num quadro como este.” “Isto é uma fotografia da realidade?”, diz ele apontando para o céu. “Podemos dizer que sim.” “Onde é que achas que ele aprendeu a pintar? Em Vésper?” “Quem? Kadinsky?” “Sim.” “Em todo o lado” “Ensinas-me a pintar como ele?” “Não sei…” “Eu não me importo de pintar às escuras! Por favor!” -Composição, Vésper, 07:00. ——————————— “Vespi, o que é aquela cadeira?” “Aquela cadeira está farta de ver rabos e de todos se irem embora. É uma colecionadora de traseiros  temporários, mas nenhum fica para sempre, levantam-se todos e ela nunca mais os vê.” “Sabes dizer-me o que é que a minha T-shirt me está a dizer?” “Está a dizer que não encontras o buraco para meter a cabeça todas as manhãs, enfias sem querer  numa manga e depois tens um ataque de claustrofobia. Também me está a dizer para me beijares a  mim, Benjamim.” - Sala de estar da cadeira e do beijo, Vésper, 03:17. —————————————— (Cresce mais uma perna ao T e este começa a parecer o número pi, cresceu mais uma cabeça  ao O e virou um 8 e o A virou-se ao contrário e parece um V) Isto é muito atípico. Muito tempestuoso. Muito onírico. Companheiros. Sim, G? Ai, ele está gelado! Sente-lhe a testa! Estás bem, G? Já repararam que não faz luz há muito tempo? Baunilha - Inês Fonseca Se as cidades podem ter nomes como “Venda das Raparigas” e “Rabo de Peixe”, porque é que não pode existir uma “Caramelo com Amendoins” ou uma “Baunilha”? Ergo aqui ambas. Cogito ergo sum, assim como o pensamento da Baunilha a faz “erguer”. Uma cidade completa, plena, elevada sob o poder do mais bonito raciocínio humano. Sempre que alguém pensar que se esqueceu de algo, uma árvore nasce; sempre que alguém pensar em dizer algo, música ecoará das nuvens, fazendo o sol brilhar com mais força; sempre que alguém pensar amar, chocolates cairão nos colos, e os corpos se unirão em prol do conforto e do calor. Há sempre a certeza de que se mora onde se devia. As bruxas que habitam Baunilha colocam nos seus regaços os sentimentos de todos, apoderando-se daquilo que poderia levar à desordem. Roubam-nos no cerne da escuridão das pálpebras fechadas em repouso, não deixando sequer a semente da possível sensação. Os Baunilhocas nunca souberam (e nunca saberão) que tiveram a hipótese de sonhar a cores. Despejam para dentro dos caldeirões os burburinhos dos corações palpitantes e das pupilas dilatadas. Borbulham sob as verdes chamas as emoções de todos os locais. Mexem e remexem com as grandes colheres de pau, da direita para a esquerda, e observam as cores que cada adição cria. Começam sempre com as tristezas, que tingem o sentido licor de azul, um azul escarlate. O paradoxo da Baunilha. Terminam sempre com as alegrias, que por sua vez avivam um amarelo purpúreo. O paradoxo da Baunilha. Nunca se vê nos céus o resultado da fusão da questão. Nunca se vê o resultado da chuva com sol, da tristeza com alegria. Ambos existem individualmente, mas um arco-íris só figura por 5 segundos no caldeirão das bruxas, e nunca acima das cabeças dos Baunilhocas. É uma cidade funcional: tem uma rede de comunicação estável, nunca acontecem desgraças, os moradores não se queixam. Têm saneamento, ruas agradáveis e muitas portas onde bater para uma simples conversa. Mas não têm vida. Não existem enquanto seres, nem se podem afirmar como tal. Para ser, é preciso ir além do cogito, entrar no espetro do sinto. E sentir que se pensa não basta. Pensar que se sente muito menos. Os habitantes ainda não chegaram a exemplares conclusões, porém, deixa-los-emos beber as suas chávenas de chá, comer as suas bolachas, e questionar um dia: Porque é que o céu não tem cor? Enquanto isso, Baunilha deixa-se repousar no fundo das nossas papilas gustativas após a ingestão de um crème brûlée. Ou, não tão óbvio e mais perspicaz, um arroz doce. E quando fecharmos os olhos, as bruxas cumprirão as suas tarefas. Há que ter garras para aprisionar os sentimentos e lançá-los aos céus por força própria. E quando virmos um arco-íris, saberemos que há um corajoso entre nós, alguém que conseguiu conservar as suas poções longe do olhar das bruxas.

  • Apatia

    A garganta está apertada, mal escorrega a água. O braço está pendurado, ao sol, enquanto o cigarro se queima. A cinza que cai para o chão faz um pequeno amontoado. O olhar vazio, fixo em algo imóvel, o corpo paralisado. A única coisa viva é o cabelo que se espanta com o vento. Reativa com a queimadura do cigarro nos dedos, que depois foi esmagado contra o pavimento resplandecente que me reflete. Examino-o, vejo-o como estou, nenhum pensamento cruza os campos de guerra da mente, ou apenas não se consegue racionalizar. Não se ouvem palavras, não se toca nas emoções, o que há é um animal mecânico do ar, que leva os que querem ser outros. O formigueiro dos pés, a dormência do corpo que se escondem na presença de alguém, que não sejam os meus fragmentos. O calor não me derrete, se assim fosse, evaporava, fundia-me com o ar, circularia por terra e mar. Leve, erguer-me-ia. O fardo transformaria-se em brisa fresca da noite e o ar abrasador do meio dia. Mas sou feita de correntes, de carga, que me impedem de me elevar. Quando entrares, a minha boca vai se rasgar, as covas vão ser fossas e a pele contraída, a ondulação. A imagem vai estar distorcida, agora é uma representação. Nem vais ver a apatia, prometo. Ela é desconfortável, é incómodo lê-la, perceber de onde vem, por isso,  senta-te ao pé de mim e aquece-me com a tua fala monótona e supérflua.

  • A intolerância não falta às aulas

    Pergunto-me se é por estarmos todos em Direito. Se é por este curso tipicamente reunir alunos que gostam mais de falar do que de ouvir e que se orgulham das suas convicções inabaláveis. Se é porque no futuro teremos que convencer um juiz de que encontrámos os melhores argumentos ou os portugueses de que é em nós que têm de votar. Se é por isso que ela passeia, intocável, pelo campus. Mas não, não pode ser por isso. Porque ela não está só aqui, na nossa faculdade. Falo da intolerância. Ela está por todo o lado e em muita gente. Vem de baixo, do interior da Terra, de onde vêm o resto dos demónios. Vai subindo e vai-se  espalhando em tudo quanto é sítio, passa pelas frinchas das portas e das janelas enquanto dormimos e entra nas nossas casas sem fazer barulho.  Depois entra em nós e toma conta de nós, vai ocupando o espaço entre os órgãos, até já não sobrar espaço, só intolerância. E levamo-la para todo o lado. É companhia, está confortável dentro de nós e nós confortáveis com a sua presença, como um parasita bem-vindo. Levamo-la para a rua, para os nossos grupos sociais, para a faculdade. E encontramos outros como nós, doentes com intolerância mas sem o saberem. Alguns têm a mesma variante de intolerância que nós; desses gostamos. Com esses partilhamos a intolerância, alimentamo-la em conjunto. Outros, têm outros tipos de intolerância; com esses não falamos. Ou se falamos não ouvimos, não vale a pena porque sabemos que a nossa intolerância é a certa, não há espaço para duas. Nem há espaço para dúvidas. Pôr em questão aquilo que sabemos é para quem ainda não tem uma intolerância dentro de si, é para quem ainda não tem o ombro amigo a que pode recorrer para confirmar aquilo em que acredita e dissipar qualquer dúvida matreira que comece a surgir. Durante uns tempos achou-se que a intolerância não conseguiria chegar às faculdades. As faculdades seriam como Harry Potter protegido pelo feitiço anti-Voldemort e anti-intolerância. Porque as faculdades, afinal, são um espaço de diálogo e de abertura a diferentes ideias, onde alunos se deveriam sentir confortáveis para exprimirem as suas opiniões e aprenderem em conjunto, dentro e fora da sala de aula. Mas enganámo-nos. A intolerância não falta às aulas, chegou às universidades e chegou à Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Acha que é invisível, mas eu, e outros, vemo-la e sentimos a sua omnipresença. Está nas discussões feias que há quatro anos seguidos a minha turma da licenciatura tem a proeza de conseguir espoletar no grupo de whatsapp do nosso ano, discussões essas que decorrem pelo facto dos intervenientes se recusarem a tentarem perceber o ponto de vista uns dos outros. Está nos juízos de valor que eu própria faço quando um colega faz perguntas pouco pertinentes na sala de aula. E está no recente super escândalo da nossa faculdade, onde alguns membros e apoiantes de ambas as listas candidatas à Associação de Estudantes não tentam compreender o lado oposto. Claro que é mais fácil ser-se intolerante. É mais fácil acharmos que somos senhores e donos da razão, vermos o mundo a preto e branco e encontrarmos paz no facto de, perante a incerteza do amanhã, pelo menos termos algumas certezas sobre o hoje. Não sabemos se começará uma nova guerra ou se teremos boa nota no próximo exame, mas pelo menos temos a certeza de que a lista D/I é que abriu o precedente dos votos em mobilidade, e quanto a isso ninguém nos pode convencer do contrário. Mas ser-se intolerante também é ser-se pobre de espírito e ignorante. Faz-nos mal, corrói-nos a nós e aos outros, como uma doença infecciosa. Leva-nos a julgar as pessoas baseado na lista ou no partido a que pertencem antes de as conhecermos, antes de lhes darmos oportunidade de explicarem as suas opiniões. Afasta-nos uns dos outros porque nos leva a presumir em vez de perguntar, a não querermos conversar ou a conversas que são bi-monólogos, em que nenhuma das partes se ouve mas ambas tentam convencer-se de que estão certas. Leva a um ambiente de faculdade hostil em que as pessoas não se aceitam, em que só nos sentimos bem junto aos que partilham da nossa opinião e, em último caso, leva a uma sociedade em que diferentes grupos religiosos, políticos e sociais não conseguem coexistir. Um dia tentei expulsar a minha intolerância. Disse-lhe que fosse para o raio que a parta que aqui já não era bem vinda. Às vezes ainda a sinto a tentar voltar, tentar entrar-me pelo nariz ou pelos ouvidos. Mas eu não deixo, e pouco a pouco, vou-me sentindo a ficar-lhe imune.

  • E eu até nem me queria chatear

    E eu até nem me queria chatear. Não queria mais ser aquela rapariga revoltada, que leva a fúria na alma e os insultos na ponta da língua, enquanto percorre um chão de injustiças. Eu não queria mais ser essa pessoa, a que ninguém quer ouvir e vos faz revirar os olhos - ou melhor, até ouvem, desde que o assunto não se torne muito sério… Eu não queria mais ser a pessoa que o mundo faz chorar de agonia e raiva - mas eu não consigo ser outra. Eu não consigo ser outra enquanto temos colegas que não comem para conseguir continuar a estudar. Eu não consigo ser outra enquanto temos colegas que não dormem a pensar em como vão pagar a renda. Eu não consigo ser outra enquanto temos colegas que já não conseguem continuar a estudar. Que são obrigados a desistir dos seus sonhos, a fazer as suas malas e a voltar para casa com os olhos em lágrimas, que são obrigados a escolher entre estudar o que querem e estudar o que está mais perto de casa, para não se sujeitarem aos preços das rendas, e que são obrigados a viver com mais sete desconhecidos e a não jantar recorrentemente para pagar as propinas, que tanto lhes custam. Eu não consigo ser outra. E talvez nem queira ser. As bolsas são indeferidas, os preços da renda aumentam, a inflação consome a comida no supermercado e os estudantes cá ficam - mais uma noite em casa, com os amigos à espera da saída que não pode voltar a acontecer (o horror a olhar para a conta da última vez…) e mais um fim-de-semana a ponderar a ida a casa - por um lado, não se gasta em comida nesses dois dias, por outro, tem de se pagar os bilhetes da viagem (afinal, há quantas semanas é que já não vejo os meus pais?) Não é fácil ser universitário - em nada se parece com os filmes do American Pie ou com as viagens luxuosas que vemos no instagram - é um constante roer de unhas e um puxar de cabelos, são contas a acumular e noites sem dormir, é ir para casa no meio de uma tempestade, porque não há dinheiro a sobrar para um uber , é escolher entre jantares de aniversário de amigos e comer massa com enlatados três dias por semana - não é fácil ser universitário. O mundo já não parece estar aos nossos pés, nós é que parecemos estar aos pés deste - vendem-nos a doce mentira de que o nosso futuro é o que fizermos dele e depois apresentam-nos os condicionantes… o teu futuro é o que quiseres que ele seja, se arranjares forma de te sustentares durante estes quatro anos, o teu futuro é o que quiseres que ele seja, se os teus pais venderem o carro para pagar a tua renda e as tuas propinas, o teu futuro é o que quiseres que ele seja, se nasceres na casa certa… pois, desculpem avisar, mas a grande maioria de nós já perdeu a lotaria social - o teu futuro é o que quiseres que ele seja, se lá conseguires chegar… Então e as bolsas? Gritam os que, felizmente, nunca tiveram de escolher entre comer e pagar a renda ou entre trabalhar e dormir - aqueles cujo coração não começa a acelerar e os suores frios a chegar quando são convidados para uma festa. As bolsas não chegam - nem o seu montante para quem dele precisa, nem a quantidade para todos os que dela necessitam. É triste, mas é o que temos: um Estado Social de Direito em que a função da “justiça” das Finanças Públicas foi passada por cima e em que o procedimento administrativo só vê números, facilmente manipuláveis, e não vê histórias - não vê o desespero dos indeferimentos, nem a indiferença de outros tantos deferimentos. E eu até nem me queria chatear… mas, se calhar, só não está chateado quem não está a ver.

  • Sonhos de menino III

    Hoje, sonhei que tentei fazer um golpe de estado com nazi na Colômbia. Infelizmente, a caminho de barco da capital, uma facção dos Nazis traiu a minha, deixando nos numa ilha deserta com um centro comercial. Assim, fui à Bertrand com o líder das SS. Hoje, sonhei que o Macron me estava a dar tiros na cama. Hoje sonhei que a Noruega tinha colapsado em vários estados separatistas e a República Popular da China organizou lá um concurso. Eu tentei ir lá de autoestrada mas impediram me na portagem porque tentei ir a pé. Disse que queria fazer um curso de autoestradas, mas não me deixaram na mesma. Cruzei-me com o ****** ******, cumprimentamo-nos, e fui embora. Fui de barco para noruega. O concurso chinês na Noruega era uma concurso de pornografia homossexual. A primeira fase era uma competição de twerking. Havia várias equipas representando as várias facetas da pornografia homossexual. Tinhas a equipa dos twinks, dos bears, dos crossdressers, de BDSM e do Andrew tate. Eu fiquei a ver. Vi o Andrew Tate a abanar a raba. Abanava bem. A segunda fase era para simular o ato sexual, a maior parte decidiu ser bué kinky. Lembro-me de ficar bué triste porque os twinks perderam. Depois, estava num escritório de advogados com a ***, mas essa parte é aborrecida, foi só deprimente. Hoje, sonhei que era o Estados Unidos e estava em guerra com o Japão na Malásia, mas perdi, então a Malásia ficou sob ocupação japonesa. Fiquei triste. Ah, e sonhei que tinha ganho um cinto novo pras calças. Hoje, sonhei que o Hitler era do futuro, e apercebeu se das ações que o Ele do passado fez, então ele voltou ao passado e está preso num ciclo eterno em que se tenta impedir a si mesmo de cometer o holocausto.

  • POEMAS DOS ESPINHOS DO AMOR - Parte IV

    “O sangue da rosa”  Não é só porque não viste o sangue, Que eu não sangrei por dentro.  A rosa tem espinhos, E eles nem sempre fazem sangrar.  Mas picam. Magoam. Cortam.  A rosa tem espinhos. E por mais que os tentemos evitar, Eles vão acabar por nos tocar.  A rosa não pode não ter espinhos. Não mais do que o céu  Pode deixar de ser azul.  A rosa não pode não picar. Não mais do que o sol Pode deixar de brilhar.   A rosa tem espinhos.  E eles picam.  Principalmente quando os tentamos evitar. “(Não) somos estranhos”  Um dia fomos estranhos.  Não sei se voltámos a ser estranhos.  (Espero que não),  Mas é o que dizem as músicas E elas raramente se enganam… Talvez a letra esteja errada.  Pois como posso eu conceber Que sejamos estranhos?  Se tu me conheces  De trás para a frente.  Se recitas de cor Todos os meus poemas.  Se trilhaste cada canto, Cada linha, cada curva.  Se por vezes gostaste mais  De mim do que eu própria. Se amaste os meus silêncios  Como quem ama o dito amor. Não. Não somos estranhos.  Nunca fomos estranhos.  Nunca seremos estranhos.  Estaremos sempre entrelaçados  Nas redes de pesca que a vida lança  Em dias de céu cinzento e de chuva.  Não somos estranhos.  “Deixar ir”  Porque, no final, Amar é deixar ir. E deixar ir é saber, Que haverá harmonia Noutra casa.  Que a dor será acolhida Noutro abraço.  Que haverá felicidade  Sem nós.  Deixar ir é amar.  Mesmo quando não queremos,  Quando parece errado,  Quando a dor nos corta.  No final, não há prova de amor Maior do que deixar ir.

  • Entrevista - representante efetiva, Maria Pires, e representante suplente, Maria Inês Paredes, do Conselho Pedagógico

    Jur.na l: Quem, ao todo, faz parte do CP? Maria Pires e Maria Inês Paredes: Atualmente, o CP é constituído pelos docentes, Rita Calçada Pires (Presidente), Filipe Brito de Bastos (Vice-presidente), Giulia Priora (vogal efetiva), Nausica Palazzo (vogal efetiva), Joana Farrajota (vogal efetiva), Felipe Pathé Duarte (vogal suplente), Jorge Morais Carvalho (vogal suplente), e pelos representantes dos estudantes dos diferentes ciclos de estudo, Maria Afonso Pires (efetivo), Leonor Nunes Marcos (efetiva), Maria Inês Berberan Paredes (suplente), Ana Leonor Faveiro Leite (suplente), Amanda Costa Novaes (efetivo) Aline Arenque (efetivo), Ana Sofia Estopa (efetiva) e José João de Avilez Ogando (suplente). A constituição do orgão encontra-se no site da faculdade, para consulta de todos. Jur.n a l: Como são eleitos os estudantes para o Conselho Pedagógico? Maria Pires e Maria Inês Paredes:   Após o término de cada mandato, que dura dois anos, os representantes são eleitos por sufrágio universal dos estudantes de cada ciclo de estudos. Os 1o e 2o ciclos, licenciatura e mestrado, elegem 4 representantes (dois efetivos e dois suplentes) e o 3o ciclo, doutoramento, elege um representante efetivo e um suplente. O método de contagem de votos utilizado é o método de D’Hondt. Jur.n a l: O que faz o Conselho Pedagógico e de que forma é que se diferencia de outros órgãos, como o Conselho da Faculdade, Conselho dos Estudantes, etc? Maria Pires e Maria Inês Paredes: As competências do Conselho Pedagógico encontram-se no artigo 16o dos estatutos da Nova School of Law. Resumidamente, O CP pronuncia-se sobre a componente letiva e pedagógica da faculdade, exercendo tarefas como pronunciar-se à cerca dos métodos de ensino e de avaliação, dos horários e da criação de diferentes ciclos de estudo e respetivos planos. É, também, este orgão que elabora o calendário de exames e que promove a elaboração de inquéritos regulares que avaliem o desempenho letivo da Faculdade. Jur.na l: De quando a quando se reúne e o que se discute? Maria Pires e Maria Inês Paredes: Reúne-se mensalmente, mas podem ser marcadas reuniões extraordinárias, se surgirem situações que assim o exigem. Nas reuniões discutem-se todas as questões de âmbito pedagógico, sejam elas calendários de exames, horários, inquéritos de satisfação dos estudantes ou questões específicas trazidas pelos docentes ou representantes. Jur. na l: Como posso expressar uma preocupação minha perante o CP? Maria Pires e Maria Inês Paredes:   Uma das razões para termos apresentado a nossa candidatura foi por considerarmos que o orgão era de muito difícil acesso, por parte dos estudantes, o que tornava a representação pouco fidedigna. Atualmente, a solução mais prática para serem exprimidas questões ou preocupações, que os estudantes queiram ver abordadas no CP, é o contacto com um dos representantes do seu ciclo de estudos ou utilizar o intermédio dos representantes de turma. Estamos a trabalhar para que estas meios sejam facilitados através de outros formatos de contacto eletrónico, mais abrangentes. Até lá, falamos pessoalmente, quando dizemos que estamos totalmente disponíveis para ouvir qualquer questão dos estudantes de licenciatura. Jur. na l: Quem e como pode ter acesso às deliberações? Maria Pires e Maria Inês Paredes: Para ter acesso às deliberações é necessário apresentar um requerimento, dirigido ao gabinete de apoio à direção, via email, para se aceder às atas de reunião, visto que estas não estão publicadas no site. Acreditem que este, para nós, foi um ponto que muito motivou a nossa candidatura e que temos toda a intenção de dar o nosso melhor para que seja mais facilitado, ou, pelo menos, mais divulgada a possibilidade de o fazer. Jur. na l: Há alguma mensagem que queira dirigir à Comunidade Académica, de forma a promover um clima de aproximação do Conselho Pedagógico junto dos estudantes? Maria Pires e Maria Inês Paredes: Gostávamos de dizer que criar um CP mais acessível e útil, para todos nós, começa com a relevância que os estudantes dão ao orgão e que nunca hesitem em contactar-nos com qualquer preocupação ou questão pedagógica que tenham. Queremos dar o nosso melhor enquanto representantes dos interesses de todos.

  • Oh, how I love being a woman

    “O sexismo não existe.” “As mulheres já são tratadas com igualdade.” “Já não se podem queixar, já têm a igualdade que queriam.” Tudo frases que ouvi ultimamente e que vêm acrescentar à conclusão que eu já tinha chegado há bastante tempo: ainda temos um caminho bastante grande para percorrer. O maior exemplo disto, ultimamente, foram os 81.o Globos de Ouro que se passaram na segunda-feira. Gostava de dizer que fiquei surpreendida com os infelizes comentários feitos sobre não só o maior filme de 2023 como sobre uma das mulheres mais bem sucedidas do mundo, mas não fiquei. Se esta situação me despertou uma onda de emoções, que quase não conseguem ser descritas? Sim, porque ingenuamente pensei que estas mulheres, estas mulheres brilhantes, com tanto sucesso, que deram tanto a tanta gente, estivessem de certa maneira “isentas” deste tipo de reflexões, mas, claro que não estão. A Margot Robbie que, não só foi magnífica no papel de Barbie, como também produziu o filme, teve o seu trabalho equiparado a uma história sobre uma “boneca de plástico com mamas grandes”, descurando completamente toda a mensagem de um filme que tocou milhões de pessoas por todo o mundo. Este filme, quer gostem dele ou não, retrata, com mestria, a luta e os obstáculos que afetam inúmeras mulheres diariamente. Este filme levou milhões de pessoas às salas de cinema, vestidas de rosa, para celebrar a feminidade e tudo o que é bom em ser mulher, sem qualquer vergonha ou timidez. Tudo para ser reduzido de uma maneira nojenta e sexista a uma piada e, ainda, comparado ao “Oppenheimer” de Christopher Nolan, porque esse é que é um filme a sério “baseado num livro de 721 páginas, vencedor do Prémio Pulitzer”. Não me interpretem mal, não quero de todo rebaixar “Oppenheimer” ou comparar os dois filmes, porque honestamente não vejo qualquer relevância em fazê-lo, mas enfurece-se como um filme que passa uma mensagem tão grande sobre o feminismo, que tem um elenco cheio que mulheres bem sucedidas, que foi dirigido por uma mulher (amo-te Greta Gerwig), tenha sido vítima (sim, vítima) de uma comparação tão maldosa e de uma piada tão mal concebida. E sim, sei que muitos de vocês provavelmente estão a pensar “foi só uma piada, que exagero” ou “não tens que levar tudo tão a sério, é só humor”, mas a verdade é que é sempre “só uma piada” e é sempre “só humor” e honestamente estou farta. Eu e diversas outras pessoas que já demonstraram o seu desagrado com esta situação. É triste que num dos espetáculos de prémios mais prestigiados de sempre algo como isto ainda seja aceite. A única coisa que consigo pensar é por quantas pessoas é que uma piada daquelas passou sem nenhuma levantar qualquer tipo de questão, e isso só me entristece mais. Passemos agora à piada feita sobre a Taylor Swift (sim a Taylor Swift), outra anedota inofensiva que conseguiu, mais uma vez, falhar no seu objetivo de fazer alguém rir. A verdade é que o que mais me irritou não foi a piada em si, mas sim a maneira como as pessoas estão a responder à reação da Taylor a algo dito sobre ela, da qual ela tem todo o direito a demonstrar o seu desgosto. Para quem não sabe, há um clipe dos Globos de Ouro na qual se vê a mesma a beber do seu copo logo após a piada ter sido feita, não demonstrando qualquer tipo de riso. Para mim, isto foi uma reação genuína de alguém que não gostou de uma piada feita à sua custa, mas o que tenho ouvido é que ela “não tinha necessidade de ter reagido assim” e foi “extremamente rude”. Honestamente, eu não sei se rir se chorar com uma situação destas porque, nos “Academy Awards” do ano passado o Will Smith levantou-se e deu um estalo no apresentador por não gostar de uma piada, mas sim, a Taylor “exagerou” na sua reação. Outra coisa que eu tenho que apontar, que novamente só demonstra o quão hilária e infeliz é esta situação, é a maneira como o Ryan Gosling está a ser aplaudido por ter tido uma reação semelhante à da Taylor, enquanto esta está a ser extremamente criticada. Nas palavras eternas da Taylor Swift “a man can react, a woman can only overreact”. Pessoalmente, podia estar a escrever sobre isto durante horas mas só queria que o meu descontentamento ficasse refletido algures. Entristece-me que tenhamos começado 2024 desta forma, que todo o trabalho de diversas mulheres tão bem sucedidas tenha sido insultado e reduzido a “meras piadas”, porque só me deixa com uma reflexão: como é que ainda há pessoas a dizer que o “sexismo não existe” e a ficar indiferentes a algo que não podia ser mais representativo daquilo que ainda é sofrido por mulheres de todo o mundo. É um pensamento assustador, que se torna aterrorizante quando chegamos à conclusão que é a realidade em que vivemos. Por isso sim, ainda temos um caminho longuíssimo pela frente mas só espero que se continuem a fazer mais filmes como “Barbie” e que as mulheres bem sucedidas deste mundo não sejam intimidadas a “reagir como devem”, porque quando isso acontecer é quando eu perco completamente a esperança.

  • cartas

    Por múltiplas vezes este semestre, pus-me a pensar na importância que damos ao mundo da faculdade, como se este fosse um ecossistema em si e não um mero habitat para onde nos transportamos diariamente. Como se a nossa vida fossem apenas aqueles corredores e aquelas salas, aquelas pessoas e aqueles olhares, como se não fossemos para casa e tudo o resto parecesse tão distante.  A realidade é que tudo parece ser tão mais profundo e intenso quando se opera neste meio - todas as tarefas parecem imperativas, todas as discussões parecem guardar a nossa vida e todos os desamores parecem incuráveis.  Somos sugados para este espaço, porque o escolhemos ser, 100% confiantes e conscientes, com um sorriso inquebrável - escolhemos aparecer e querer saber de tudo, escolhemos envolver-nos e escolhemos amar cada canto do nosso habitat, como se cada árvore fosse a mais bela coisa posta nesta Terra.  Não me tomem por hipócrita, também eu o fui, plenamente.  Creio que a culpa seja da nossa visão do mundo e da sua efemeridade; afinal de contas, nós prezamos o nosso tempo vivos, porque o entendemos limitado e aplicamos a mesma lógica a estes quatro anos - o nosso tempo a vaguear aqueles corredores e a rir naquele espaço é ainda mais limitado, bem o sabemos, então tem de ser ainda mais prezado. Tem de ser levado à última gota e à última consequência e não podem restar dúvidas de que foi aproveitado, de que aqueles quatro anos valeram, definitivamente, a pena - de que não fechámos os olhos, não adormecemos e não perdemos uma coisa.  Cada vez mais fico também convencida de que fazemos as coisas já com uma certa nostalgia em mente, como se já fosse um momento a ser relembrado, uma foto antiga para a qual vamos olhar, um momento que nos fará rir quando passar brevemente nas nossas mentes daqui a vinte anos.  Que fazemos as coisas não só pela felicidade que nos trazem, mas a pensar nas memórias que um dia serão.  Novamente, fazemo-lo porque sabemos que nunca mais estaremos aqui, a viver este momento, com estas pessoas. E, por isso, também fazemos amizades tão profundas e tão rápidas, porque precisamos de alguém de quem nos lembrar, alguém com quem partilhar estes momentos que se tornarão memórias e, acima de tudo, alguém que queira o mesmo.  E eu sei que perdi esta jogada contra o universo, caí enganada como se nada fosse, despistei-me ainda antes de entrar na estrada, deixei as cartas serem-me dadas e nem as tentei trocar.  E agora o que tenho eu? Agora tenho a maldição de querer saber demasiado e de me importar com coisas que aparentam não valer o tempo do dia, mas tenho também o privilégio de ter mais de uma mão cheia de pessoas que têm o poder de partir o meu coração em pedacinhos pequenos e outras tantas para o consertar.  No fim disto tudo e sabendo o que hoje sei, será que voltava atrás? Será que pedia para não jogar? Será que usava um capacete? Será que tentava trocar as cartas que não escolhi?  Nunca.

Deixa-nos uma mensagem, fala connosco!

Obrigado pela tua submissão!

© 2025 Jur.nal - Jornal Oficial dos Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

bottom of page