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- mulheres a ministras - discurso
A, a primeira letra do abecedário, a primeira letra de muitos nomes, muitos nomes simples, ana, anabela, andreia…. aliyah. aliyah, o meu nome há vinte e um anos, tão simples quanto os outros, mas por vezes reduzido, amolgado e violentado. a minha identidade começa aqui, como me apresento ao mundo, e como tantas outras mulheres se apresentam muitas vezes invisibilizadas e oprimidas. Nas palavras da grada kilomba, a língua, por mais poética que possa ser, tem também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade. o apresentar ao mundo, define como somos percepcionadas, mas para muitas mulheres negras, nem com uns saltos, camisa ou blazer somos merecedoras de tal respeito. e no cabelo das pessoas negras? já pensaram? às vezes parece que não nos pertence, as vezes que pertence demais, é um símbolo de resistência e revolução, e de opressão e violência. tão bem conheço o cheiro a queimado do meu cabelo a tentar que ele fique liso, para caber dentro dos parâmetros ocidentais e da beleza comercial. não serei também eu mulher? esta provocação de bell hooks, sobre a qual teorizou o tratamento das mulheres negras vítimas da escravatura, que nos leva a pensar sobre os corpos das mulher negras que foi muitas vezes esquecido durante a luta pela emancipação das mulheres. os estereótipos atribuídos às mulheres, como seres hipersexuais e selvagens, justificou muitas vezes a violência que lhes era exercida, na perspetiva sexista e racista, não se poderia violar alguém que era uma selvagem sexual. não serei também eu mulher? quando exijo o mesmo respeito, a mesma dignidade e as mesmas oportunidades. não seremos todas mulheres? a emancipação das mulheres tem que se interseccional, não pode ser separada das questões económicas e não pode esconder-se na crítica ao capitalismo, a emancipação nos termos do patriarcado capitalista branco, não serve as mulheres negras, ciganas, imigrantes, trans, queer, nem as próprias mulheres brancas, nas palavras de audre lorde, não serei livre enquanto alguma mulher não o for. então onde estão as mulheres negras? a limpar as escolas, o parlamento, os ministérios, as casas dos ministros, a suportar a sociedade na qual vivemos. no fundo é esta a história que querem que seja das mulheres negras, são o cimento e a pedra que dão a estrutura ao sistema, são quem se inquieta e combate, são as que não são vistas, são as que não são escolhidas para ocupar lugares de destaque e poder, e quando os ocupam, são usadas e silenciadas, como um pin na lapela, um biombo na sala, um mero adereço. mas nós existimos, resistimos e reclamamos, estes espaços também são nossos, tantas que os ocupam, e esquecemos de as nomear, e todas elas tem nome e sobrenome, beatriz gomes dias, joacine katar moreira, romualda fernandes, francisca van dunem, cristina roldão, aurora almada, e tantas outras que não são a primeira nem a última, nem são as protagonistas políticas da nossa história mas que deixam o seu legado e contribuem diariamente para a sociedade. e quantas de nós conhecem a virgínia quaresma, georgina ribas, titina silá, josina machel, amelia araujo. Todas elas participaram na construção de uma sociedade que não as reconhece como delas, foi sobre os ombros destas mulheres que a esta sociedade foi construída. Elas pensaram, construíram e imaginaram lutas coletivas, onde todas, mas todas as mulheres fossem vistas, ouvidas, reconhecidas e lembradas. a luta feminista não pode obedecer a hierarquias que reproduzem o patriarcado, em que as mulheres negras são subalternizadas na luta. a sororidade, permite-nos chegar mais longe, e despatriarcalizar as nossas insittuições. de mulheres a ministras Já imaginaram um governo liderado por mulheres? onde existe uma primeira ministra, onde se pensa e constrói políticas públicas que combatem as múltiplas desigualdades a que as mulheres estão sujeitas, e apresentam soluções com impacto, onde combatem a feminização da pobreza. onde existe uma política de habitação pública que garanta uma casa para quem precisa, sobretudo para as famílias monoparentais, lideradas por mulheres, que muitas vezes são vítimas de violência doméstica, e que estas tenham o direito a uma casa e não o direito a ganhar uma casa na loteria dos concursos públicos. e tantas outras políticas públicas que podiam ser implementadas, mas vivemos num país que se recusa a conhecer a sua composição etnico-racial. como é que sabemos que as jovens negras vão para o ensino superior, como é que sabemos que as juízas negras estão nas altas instâncias dos tribunais, como é que sabemos a constituição das nossas prisões, como é que desenhamos políticas públicas sem saber onde criar e para quem criar mecanismos que garantam a mesma igualdade de oportunidades. eu imagino uma sociedade, onde as mulheres, sejam elas negras, imigrantes, trans, queer, estejam nas instituições de poder. e que estas instituições de poder, não continuem o ciclo de planos e projetos e recomendações que nunca são concretizadas. é da radical imaginação das mulheres negras que vos falo hoje, e que me permitem todos os dias levantar e continuar a lutar por um país melhor. e acabo com um poema da maya angelou: ‘’You may write me down in history With your bitter, twisted lies, You may trod me in the very dirt But still, like dust, I'll rise.’’
- Em frente
Ninguém quer morrer, mas feliz daquele que for em frente. Vai a dançar endurecido para o Inferno interessante, ou para o celeste aborrecido. Uma coisa é certa, para trás não fica sozinho a chorar, por quem está muito bem a descansar. Quem vai, acaba, deixa de se preocupar. Quem fica, trabalha, desamparado a lamuriar. Até a velha tralha do novo defunto o vivo desgraçado tem que arrumar. Vivam bem intensamente e nunca tenham medo de ter que ir em frente. Ide a cantar.
- As desilusões do ser
No que se deu a imaginação, a ânsia do isolamento, a fuga da verdade e o medo do amor? Incoerências. É incoerente que uma pessoa seja as duas coisas simultaneamente, como também, é incoerente que os sentimentos sejam a todo tempo, bipartidários. A praticidade demanda um eixo, somente um! Com aquarela, é sistematicamente delineado um espaço de pertencimento à sua categoria, queira o introspectivo encaixe-se nela ou não. Assim, não se dá a relevância às suas multifacetas, pequenas particularidades e excentricidades. É, de fato, o paralelo de uma única cura à uma nação, a terceirização do pertencimento particular na sociedade, a redução do Ego pelo Superego. No fim, se dá razão àqueles que a sanidade aparenta ser externalizada com mais eficiência; aqueles que admitem, por si próprios, serem os donos do Ego superior, os reis dos portões de ouro. O resto, no entanto, são supervisores que legitimam o poder dos outros e, é claro, os de si mesmos. O que se torna de nós? Como isto nos afeta? É, no fim, uma morte de nós mesmos. Uma morte de toda a capacidade de ação autêntica e do ato de desvencilhar dos medos, da libertação das emoções. É, justamente, a desistência de si, a legitimação dada a quem nos permite viver nas margens interiores aos portões, é a submissão. No entanto, onde se encaixa o amor? Quando a mente é deturpada por uma realidade fixa, que lhe causa angústias, pedaços que há de ficarem armazenados no local incorreto. Talvez o amor seja a cura, ou talvez não. Pode, no entanto, ser uma esperança, exatamente por ter a habilidade de evocar um mosaico de emoções. Talvez o oposto da morte não seja precisamente a vida, e sim, o amor, por si, pelo outro, de outros. Em cacos, a liberdade para amar e “desamar” é o escândalo íntimo da alma e o fogo modulador ; é o que eu quero ser, a cada vez, em uma melhor versão.
- Setembro
Hoje começa o outono. Setembro sabe-me a melancolia. É o mês das comédias românticas, as protagonistas vêm ligeiramente tocadas pelo sol, ela com umas pequeninas sardas e manchinhas na pele, engordou um pouco, mas tenta todos os dias não pensar demasiado nisso. Veio com a sensação de que podia, de que devia ter vivido mais, foi tocada pelo sol, pela areia, pela água salgada, mas espera agora outro toque, mais profundo, mais íntimo. Setembro não tem saldo na conta bancária para a protagonista que é estudante, é o mês em que se quer ver livre dos pais, da sua casa, já não é criança, mas sente-se infantil, quer que lhe façam as vontades, que a peguem ao colo. Repete-se quando fala com as amigas, conta a todas a mesma história, mas muitas vezes guarda só para ela, às vezes ao chegar a casa doiem-lhe os pés, já não lava os dentes, deita-se na cama, chora e dorme e não é tudo tão bonito assim. Mas quando acorda promete que vai ser diferente, vai tomar o pequeno almoço para não acumular a fome toda para aquele deslize que lhe é costume à noite, não vai misturar o café com os comprimidos, vai usar corretor e rímel e fazer uma máquina de roupa. Não importa que ontem às 11 não se conseguisse sentir, agora são 7 da manhã e as coisas têm de mudar, ela quer melhorar. Coloca muita pressão em si, mas desculpa os outros. Sente muito, demais. Não quer ligar à mãe, só precisa de algum carinho, conforto. Os lençóis da cama têm de ser trocados e a louça da máquina despejada, a liberdade sabe a isto, e sabe bem. Não é isso que a incomoda, é sentir-se tão frágil, na mão, como se pudesse a qualquer momento ser despedaçada. Tenta ignorar aquelas bolachas antes de dormir, o cheiro a tabaco entranhado na roupa. Se ao menos conseguisse dormir em paz, chorar em paz, agradar a todos, fazer mais exercício. As folhas das árvores estão a cair, e eu só queria que me caisse esta vontade de ser perfeita, esta imposição a mim mesma, o sofrer por antecipação. Acho que não notam, só até certo ponto, só até que eu deixe, mas não me toquem na ferida, por favor. Vamos fingir que não sabem, que não veem, elogiemo-nos uns aos outros, vamos fazer por parecer bem. Caramba, eu estou bem. Não quero que me achem tão vulnerável. Não queria ser tão vulnerável. Não queria que soubessem. Não queria... só queria o verão, que é a estação do ano que menos gosto.
- Lista de Redatores, Coordenadores e Direção - 2023/2024
Redatores Do 1º Ano: André Saragoça Carolina Maia Catarina Rodrigues Constança Ferreira Diogo Simões Filipe Pedro Isadora Elias Ísis Martins João Coelho Lara Cândido Mafalda Carrôlo Maria Botelho Maria Veloso Mariana Cruz Matilde Santos Matilde Silva Matilde Proença Naima Mende Sara Schurmann Simão Lucas Tiago Carretas Do 2º Ano: Beatriz Diogo; Beatriz Franca; Beatriz Rodrigues; Bernardo Pinto; Constança Rito; Eduarda Meneses; Francisco D'Orey; Francisco Jesus; Inês Fonseca; Joana Lima; Joana Moreira; Leonor Baptista; Letícia Mendonça; Mariana Carvalho; Mateus Rego; Nuno Ferreira; Pilar Passos; Raquel Barros; Riccardo Noronha; Rita Horta; Sara Pinto; Simão Costa; Sofia Batista; Sofia Silvério; Sofia Tello Barradas; Taavi Medeiros; Ved Bagoandas. Do 3º Ano: Ana Beatriz Reis; António Subtil; Beatriz Geraldi; Beatriz Pereira; Carolina Correia; Carolina Sacavém; Fábio Pereira; Guilherme Sousa; Hugo Mendes; Inês Costa Graça; Isabel Costa; Luís Lobo; Margarida Raposo; Maria Inês Paredes; Maria Leonor Simão; Rafael Guerra; Rafael Santos; Rita Esteves; Simone Silva; Sofia Dias; Sofia Paulino; Sofia Ribeiro; Tiago Monni; Zulficar Silva. Do 4º Ano: Beatriz Mello; Diana Pry; Diogo Simões; Inês Brazão; Matilde Ribeiro; Neuza Lopes; Salomé Alexandre Lourenço. Externos: Bruno Martins. Coordenadores Beatriz Rodrigues, Coordenadora dos Podcasts; Inês Fonseca, Coordenadora da Edição Física; Joana Lima, Coordenadora da Comunicação; Maria Castro Ribeiro, Co-coordenadora das Entrevistas; Maria Leonor Baptista, Co-coordenadora das Entrevistas; Sofia Paulino, Coordenadora das Artes Plásticas; Rafael Santos, Coordenador do Clube de Leitura. Direção Sofia Dias, Diretora; António Subtil, Diretor-Adjunto; Francisco de Jesus, Diretor-Adjunto; Inês Brazão, Diretora-Adjunta.
- 1.ª Reunião de Núcleo 23/24
No âmbito do art. 7.º, n.º 2 dos Estatutos do Jur.nal, vem a Direção, neste sentido, publicitar a 1.ª Reunião de Núcleo do mandato 2023/2024. A reunião dar-se-há no dia 30 de outubro, pelas 18h, simultaneamente de forma presencial, na sala dos Núcleos, e online, através da plataforma ZOOM. No devido momento, irão os redatores receber o link no Grupo de Whatsapp Geral do Jur.nal. Esta primeira reunião terá a seguinte ordem de trabalhos: Apresentação da Direção, Coordenação e Redação; Apresentação das “regras” do Jur.nal; Apresentação do plano geral de atividades para o mandato; Discussão sobre a Edição Física; Apresentação de propostas de atividades e iniciativas por parte dos Redatores; Outros assuntos. A Direção do Jur.nal, António Subtil, Inês Brazão, Francisco de Jesus e Sofia Dias. 25 de Outubro de 2023.
- Porque não continuamos a brincar?
Às vezes, em lapsos do meu cotidiano, recorro à nostalgia do despertar de uma criança, que não sabia o que era o mundo, e que tinha como dever explorá-lo e descobrir todos os seus labirintos e entranhas. Hoje em dia, por outro lado, sou um especialista no Mundo, pois provavelmente conseguiria desenhar um mapa que incluísse todos os seus caminhos e esconderijos, sendo tudo já previsível e esperado. Portanto a minha única arma para viver é a nostalgia: quem dera se alguém apagasse a minha memória e o passado tornasse presente… Da mesma maneira que muitas crianças, eu costumava montar os meus próprios brinquedos, consternado, “vidrado” naquela ação. Poderia estar a acontecer um incêndio na cozinha, causado pelo meu irmão desastrado ou um anúncio de que a família fosse fazer uma grande viagem, que eu ainda estaria incessantemente à procura daquela maldita peça pendente para que eu pudesse completar a construção de uma das dez torres que tinha pelo caminho. Passava horas nesta atividade, “movido” por qualquer coisa que eu não sabia identificar. Apesar da indicação do resultado do brinquedo, evidenciada na própria caixa, e da existência de um passo a passo pormenorizado que indubitavelmente me levasse a tal resultado, tomava como meu dever terminar a construção que eu próprio comecei, do meu próprio jeito. Em reflexão, descobri que o que me movia era um verdadeiro Mistério, uma exigência de totalidade sobre qual, mesmo com a minha tenra idade, conseguia intuir ser infinitamente mais forte e mais potente do que o previsível manual de instruções que me apontava à construção da imagem pré formatada presente na caixa. Terminada a construção, corria diretamente ao quarto dos meus pais. Eles sorriam; e assim os meus olhos brilhavam, ao saber que fiz algo de importante. Naquele momento, através da realização da tarefa a qual me designei, me sentia pertencido, feliz. Reconhecia que nenhum manual de instrução, por mais detalhado que fosse, conseguia instruir-me até a beleza consubstanciada naquele momento. Cinco minutos depois de ter saído do quarto deles, eu volto e peço por mais um brinquedo. Por mais bela que aquela aventura tenha sido, não me encontrava satisfeito. Eles coçam a carteira, fazem contas e decidem o dia da compra. Como o dia D nunca chegava, ficava eu na fila de espera, louco para que fosse a vez da minha senha. Atualmente, tenho 20 anos e cerca de 30 brinquedos na minha coleção. Eles ficam ali, hermetizados no armário, envoltos de poeira. Agora já não brinco, já não crio. Resta-me viver afundado em uma maré de obviedades, ditas e repetidas pelos meus colegas. Nós já jogamos todos os jogos, já brincamos até mais do que deveríamos. Tornamo-nos os criadores dos manuais de instruções. O Mistério que buscávamos nos brinquedos já foi desvendado, pois agora somos donos do nosso próprio destino. O que resta é a reputação de já ter feito de tudo e o alívio de finalmente não ter nada mais por fazer. Qualquer imprevisto, surpresa, trabalho a ser resolvido ou convite inesperado é uma mosca a zumbir no nosso ouvido: matamos logo. São completamente artificiais, pois não teriam sido fruto da nossa infrutífera criação. Em cima do estandarte da nossa arrogante autossuficiência, escolhemos deliberadamente censurar o novo em prol de um reconfortante bem-estar, em que tudo é óbvio. Agora, afinal, o novo não existe. Passam-se meses e nem me apercebo do devir das coisas, pois tudo continua igual, “bem”, “tranquilo”, “normal”. De alguma forma, criamos a nossa própria linha do tempo. Até que chega o derradeiro ponto em que me sinto sozinho, mesmo quando rodeado por dezenas de amigos. Sinto-me fraco, pois parece que já não consigo possuir a realidade com as minhas próprias mãos. O ambiente de condescendência entre os meus amigos torna-se intimidante. Passados alguns dias, constatei que este nosso “tudo” não era suficiente. Volta a insatisfação, aquela que sempre me deixava inquieto enquanto criança. Já não escolho violentamente anulá-la, mas entendê-la, refletir sobre ela. Noto que a nossa autossuficiência afinal tinha prazo de validade, pois não me basto sozinho e nem quando estou com os meus amigos. Simultaneamente a esta insatisfação está uma nostalgia profunda, que procura distrair a minha memória em busca daquela época pueril, quando, para aprender a andar, eu não tinha medo de cair no chão; e mesmo assim chorava ao ralar o joelho. Chorava porque sentia na pele o impacto da vida. De uma vida “vivida”, não de uma suposta artificialidade fabricada. Sinto saudade da criança que queria construir brinquedos cada vez maiores e que ainda ficaria insatisfeita mesmo após ter finalizado o maior que já lhe foi dado. Apercebi-me que, por mais poderoso que fosse, não conseguiria saciar a sede infinita do coração com as minhas próprias obras. Preciso de algo diferente que não dependa e que não consiga ser medido por mim, porque sei que se fosse tentar resumir a potência da vida em um manual de instruções, não haveria papel suficiente. Necessito precisamente de recuperar aquele segundo antes de abrir a porta do quarto dos meus pais. Ali tudo era um imprevisto, tinha, inclusive, um pouco de medo de que eles ficassem indiferentes quanto aquilo que lhes iria apresentar. Não obstante, após uma certa hesitação, sempre decidia por, em um ato de coragem, abrir a porta e entregar-me a algo que não dependesse de mim, mas sim da obra de um outro. Assim, em uma curta reminiscência, descobri que a entrega é infinitamente mais bela do que a posse! Hoje cheguei a casa após um intenso dia na faculdade, passado junto com os meus amigos. Decido abrir o compartimento mais recôndito do meu armário e acabo por despedaçar-me a chorar. Contudo, a meio deste mar de lágrimas consigo afirmar, com uma voz trêmula: aos 20 anos, recuso-me de já ter construído o meu último brinquedo.
- Corredores
É suposto pensar em algo quando ando por corredores inacabáveis? Ao ver todas as portas de sensivelmente uns 3 cm que separam um mundo privado das restantes vidas devo pensar só em mim? Hoje pensei nos pesadelos que ao dormir muitos podiam ter. porém, debrucei-me sobretudo no facto de acordarmos sempre. Quase que como se uma força natural, sempre mais forte que qualquer um, nos force a acordar antes de encararmos cenários demasiado tristes ou assustadores para o nosso cérebro sequer criar imagens acerca destes. Parece que o sentido natural do mundo é fugir de algo que não somos capazes de processar. Algo que me fascina nestas versões bizarras de sonhos é a sua evolução ao longo de uma vida. Comecei por ter pesadelos absurdos, em que o medo causado era apenas suficiente para caber na cabeça de uma criança. Atualmente um pesadelo quase que transcende paredes de osso e de paira no ar quando tento voltar a dormir. Se olharmos para o primo mais simpático do pesadelo vemos que ele também é o parente esquecido. Um sonho é tão inútil que já não me lembro do último que tive, por outro lado, o meu último pesadelo foi tatuado na memória. Outra coisa que me faz comichão no cérebro é a dúvida de se, sabendo que as abelhas sonham ( está cientificamente comprovado) também acordam exaltadas dos seus sonhos mais infelizes? Ou será que sequer lembram-se deles ao acordar? A real comichão (está já está em carne viva de tanto coçar) recai sobre a incerteza quanto à minha suposta superioridade humana. Pensava que era especial por sonhar mas se calhar também sou só uma abelha. E se calhar até sou pior a ser uma abelha (mesmo tendo todas as faculdades humanas dadas pela evolução) do que uma própria abelha, mesmo tendo os mesmos sonhos. Outro grande problema é não saber se eu mesmo sou um sonho de um universo morto Vamos lá ver, se teoricamente o conceito de uma seta do tempo que corre tal como um rio sempre para o mesmo sentido é ilusório, qualquer parte do universo que se move tem uma certa probabilidade de, nesse tal de futuro, ocupar um lugar completamente aleatório. Quase que como uma gota de sangue num copo de água. Se deixarmos cair tantas quantas presentes em todas as pessoas, eventualmente algumas delas formarão formas, ou mais interessante ainda, estatisticamente, é possível que uma delas numa se espalhe pela água. A única diferença entre o universo e o copo de água é a infinidade de tempo pela frente de todas as partículas e das suas jornadas cósmicas. Outro exemplo é aquele dos macacos que conseguem escrever tudo se tiverem tempo suficiente. Neste caso, há tempo e há macacos (forças e tal, não sou de física). No fundo, se calhar sou só uma probabilidade e, como o sangue, apenas existo por poucos momentos até dissipar-me novamente. Isto levou-me a pensar no que sou. Um cérebro ou um corpo? Infelizmente abri aqueles 3 cm de madeira, vesti o pijama e adormeci, só para não me lembrar nem dos sonhos ou dos pesadelos que poderei ter tido.
- 2h24: monólogo interno sobre síndrome de impostor
O meu processo criativo diz muito de mim. (Uau, processo criativo, que intelectual e importante que ele é!). Estando a passar por um bloqueio criativo (again, uau, mas quem sou eu?), penso cada vez mais no porquê de não ter ideias e de quando as tenho não conseguir fisicamente escrever nada, de todo, ou nada que me agrade. Já há muito tempo, apercebi-me que o meu processo criativo advém de uma epifania, pelo menos é isso que eu penso que é, ou de uma inspiração divina (claro, não acredito nesta última). Não gosto que seja assim. Nunca me considerei uma pessoa totalmente espontânea e render-me a uma eventualidade incerta e incontrolável porque dependo dela para resultados que sejam minimamente agradáveis para mim não é algo que me traz grande felicidade. Penso: se este meu talento, como dizem, é algo que só surge através destas chamadas epifanias será mesmo um talento meu? Se não o consigo dominar e usá-lo a meu favor quando e onde me convém, será mesmo um talento? Sei que as minhas ideias surgem através de alguma associação ou de palavras-chave que eu leio, penso, imagino, elaboro e que se não as espremer e esculpir nas Notas do telemóvel ou no Word quando tenho o PC aberto, então nunca mais. A minha mente coloca-as num envelope endereçado a destinos indefinidos. Vão para o lixo e seguem no camião para se camuflarem na lixeira enquanto se deterioram. Nunca mais me é concedido acesso. Se eu nem sequer as consigo restaurar, serei mesmo um bom escritor como me têm dito vezes e vezes sem conta? “Ok, analisa isto racionalmente!” Eu nem leio assim tanta poesia e às vezes armo-me em poeta. E os livros que paro de ler passadas menos de cem páginas são quase tantos como aqueles que eu já li. Mas quem sou eu para dizer que gosto de ler e de escrever? Quer dizer, eu nem tenho uma biblioteca em casa. “Ok, calma lá, bolas de neve no verão e a esta hora não!” Às vezes escolho não pegar nos tais conceitos epifânicos porque estou a fazer qualquer outra coisa, porque tenho de estudar ou de me encontrar com certa pessoa(s). Abdico delas sabendo que serão inatingíveis passados meros minutos. Se me são assim tão descartáveis (não são, eu sei que me dão uma certa plenitude), serei mesmo um bom escritor? O Saramago escreveu em média duas páginas por dia ao longo da sua vida e eu se escrever mais de dez linhas semanalmente já me aplaudo. “Ok, nem vale a pena continuar, mais vale calares-te, voz interior, aproveita esses regalos de Deus (ou whatever it is) e deixa-me dormir.” Boa noite!
- Sonhos de Menino II
Hoje sonhei que matei o meu pai. Ele era um velho rico enrugado e pomposo, e não usava óculos. Havia um jardim na nossa mansão, um pequeno lago rodeado de árvores altas e mesas com cadeiras, com uma cerca à volta. Andavam pavões pelo jardim. Eu matei um dos pavões e cozinhei-o. Isso irritou muito o meu pai, que estava sentado numa das cadeiras e de seguida, uma de duas coisas aconteceu, talvez as duas, não me lembro. Atirei o pavão pela cerca, excepto a perna cozinhada, que atirei à cabeça do meu pai, incapacitado-o ou matando-o. E, se ele não morreu, envenenei-o com vinho. A ***** estava numa das outras mesas virada de costas e não viu o homicídio. Mas ela veio com um amigo dela (não sei quem, talvez um drogado) dar-me uma lição de vida sobre não sei o quê, talvez sobre os meus problemas com relações sociais. Infelizmente acordei a meio da lição, mas voltei a adormecer. Depois sonhei que Veneza tornara se uma zona de guerra, dividida entre três fações: alienígenas, o governo americano, e as jurisputas. Eu pertencia, claro, à fação das jurisputas. O sonho foi curto, mas lembro-me de uma catedral se tornar o novo palco de combate, mas eu só fugia e esquivava-me dos inimigos, porque eu não acredito na violência. Hoje sonhei que estava a jogar algo, mas aborreci-me e procurei uma versão alternativa do jogo. O primeiro red flag é que a comunidade à volta desse jogo era um bando de weebs, e sei disso porque nos fóruns em que eles falavam tinham todos profile pics de anime O jogo consistia em mim estar numa sala no PC, enquanto que, por detrás de mim, estava a minha mãe. Exceto, não era realmente a minha mãe. Era uma mulher desumanamente alta, pálida e magra. Os olhos dela estavam vazios e olhavam sempre a direito. Com o tempo, o cenário ia mudando. Os olhos dela iam ficando mais vazios. Iam aparecendo bebés. Os bebés iam se multiplicando, misturando-se numa massa. Eles possuíam a mãe e aí os olhos dela ficavam ainda mais brancos. Mostrava dentes afiados. E depois nada. Só eu a continuar no PC, e ela atrás de mim, mas nada aconteceu. Acordei. Suponho que o objetivo fosse prevenir de alguma forma que ela me matasse. Hoje sonhei que estava a ver vídeos da minha mãe comigo em bebé todos fofos e alegres. Mas apercebi-me que o vídeo estava no youtube e isso não fazia sentido, logo, questionei a minha mãe. Ela também não fazia ideia. Aí o mundo virou jogo em pixel de terror, um labirinto escuro, e a minha mãe a personagem jogável. Acabámos por descobrir que foi um stalker que apanhou os vídeos e os colocou online. Ele descobriu a minha mãe e perseguiu-a até ao meio do labirinto. Apesar do desfoque, porque são gráficos de pixels né, lembro-me da cabeça dele ser desumana e metálica de alguma forma, talvez em forma de holofote. Houve uma pausa no meio do labirinto. Silêncio. E depois, ele aparece e mata a minha mãe. Depois, sonhei que escrevia este sonho para o grupo das bichas, ao qual a ***** e eu comentamos que, no último sonho, eu matei o meu pai, e está a haver um padrão com mortes parentais nos meus sonhos. O sonho termina connosco a comentar que Freud teria muito a dizer sobre os meus sonhos. Hoje sonhei que estava em Torres tinha uma grande bolha de carne à volta do meu umbigo. Perguntei à minha mãe se fazia mal rebentá-la, ela disse que não. Então, puxei e tentei rebentá-la, mas acabei por puxar a minha carne em vez disso. Um pedaço de pele da minha barriga ficou meio solta, e se o puxasse, conseguia ver as minhas costelas e carne vermelha interna. Acho que desmaiei por um bocado. Quando acordei estava à mesa de jantar inclinado numa cadeira. Falei à minha mãe sobre o problema, pedi-lhe que me ajudasse. Acho que ela me deu um comprimido só, mas não era o suficiente. Disse-lhe várias vezes para me levar ao hospital, mas ela nunca o fez. Para sarar a ferida, tive de ficar ali sentado, imóvel, até aquilo sarar por si mesmo. No tempo em que estive inconsciente, a minha família encontrou as coisas que escrevi no meu PC. A minha mãe olhou para mim muito preocupada, e perguntou-me sobre um documento que se chamava "Carta de suicidio". Era uma folha em branco. Eu limitei-me a responder "É um projeto artístico para o qual ainda não tive inspiração".
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