Os exageros de quem não cá mora e está lá longe (a uma hora de carro)
- Maria Miguel Veloso
- 2 hours ago
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Uma tempestadezinha... Filha, tenha calma, que eles exageram sempre, não sabe como são os meteorologistas, metem medo às pessoas, pode estar aviso encarnado mas é só para eu não dispensar a empregada. É da maneira que amanhã vou para o Palácio de sapatos de veludo e beijo o pacóvio do tempo de antena para ver se ele me deixa trabalhar em paz e sossego sem ter os ratos dele a mordiscar-me os dedos. Vou de Mercedes preto que é uma maravilha, já sentiu a brisa no banco de trás? Bancos quentinhos, que regozijo, tamanho júbilo. Oh mamã, olhe que eu acho que vai ventar muito, avisaram as pessoas? Claro que avisamos, acha que eu sou parva? Estúpida? Incompetente? Que nasci ontem? Já lá está você com coisas, tome um diazepam e vá dormir. Mas oh mamã. Mas cale-se que não há vento coisa nenhuma.
Acordo eu no dia a seguir na calmaria da bolha por onde nada entra mas tudo passa. Gelado está o azulejo e o ronronar da porcaria das máquinas do empreendimento bilionário ao lado enche-me os ouvidos, está tudo intocado, podiam pelo menos ter fingido que passou um paninho de feltro, e meto-me outra vez na cama. Chatos do raio, vou lá ver como foi o vento. Afinal estava uma desgraça. Mas caem sempre umas árvores refilonas em Leiria, não fossem os meus vinte e um anos prova disso, natural da Caranguejeira mas nem nasci lá, Leiria está sempre lá certinha no meu cartão de cidadão. Meto o nariz nos livros, ainda bem que tenho aquecedor porque olha o frio, mas algo não está, está muito frio.
Ligo à minha avó. O poste discorda. Ligo outra vez. Mas a menina tem noção do que aconteceu?, diz-me o estúpido do poste vertido ao chão, diz-me ele e os outros sessenta e oito que devem estar à procura da campa do padre da Azoia. Abro outra vez o ecrã brilhante que vive agarrado à minha mão e vejo as escombros e pedaços do lugar que por uma dúzia e mais meia de anos chamei Casa.
Escorrem-me rios como se o Lis galgasse as margens enquanto me tento manter em pé no meio da caixa metálica que me leva em linha reta e faz um barulho infernal. Achei que que estava a vivenciar o inferno católico numa dramaturgia estrépita e mal feita. Olho, vejo se está alguém para aí virado na peça de teatro, nada, não há peça de teatro coisa nenhuma. Compro frango seco para o jantar, nada. Meto-me outra vez na cama fria, nada. Ligo a estúpida da minha televisão que está sempre fora da tomada, nada. Ligo à minha avó, nada. Vou comprar açúcar na esperança que o horror não me cause cáries primeiro.
Diz filha, Oh avó eu só quero saber se vocês estão todos bem, Mais ou menos, o telhado lá se foi, e a cidade está virada de pernas para o ar, mandaram uma bomba, não está por cá ninguém para nos ajudar. Queres que eu vá? Não, não vás, nem aqui consegues entrar.
E os filhos da puta de sapatos de veludo continuam sentados nas suas poltronas lustrosas e almofadadas a dizer que não há merda nenhuma para se fazer, vamos todos comer um bife, batatinha frita, tão bom que sabe. Olhe Sr. Ministro, acho que umas coisas caíram lá na terra daquela gente. Então vamos lá, vamos dar umas boas energias, que esta gente precisa mas é de acreditar em curas homeopáticas, Em nome da Banca, das Seguradoras e do Espírito Santo. Trazemos a Ministra? Acha, ela está a tomar o seu soro anti-internamento. Que se foda a calamidade, exagerados. E chegam todos engomados à clara de ovo, protegidos dos pinguins da chuva, que o cavalinho já se tirou. Lamento imenso, mas agora tenho de voltar para o Palácio porque já passa a hora do meu chá!
Oh Mimi, nem tenho tomado a medicação, andamos todos só a comer umas sandes com o que se arranja, tomei um banho quente só hoje. Oh Mimi, estamos todos abandonados aqui, não há ninguém a vir nos acudir, falta-nos tudo e já apoquenta, andamos todos a fazer o que dá, já não há lonas. Oh Mimi, está tudo destruído, entrou-me a árvore casa a dentro, sabes aquela grande com muitos anos, tenho infiltrações por todo o lado. Lembras-te daquele barracão, daquele pavilhão, daquele edifício, daquele jardim, daquela clarabóia, daquele pinhal, daquele carro vermelho, daquele muro do castelo, da tua escola secundária, dos estores de tua casa, das cadeiras dos banhos de sol, das árvores do tribunal, do que restava do Pinhal, do telhado, da luz, da água?, da puta que vos pariu toda que ninguém nos socorre, ninguém nos ajuda, estamos sozinhos, não venhas para aqui que não consegues entrar.
Faço o que posso encerrada e enclausurada na capital. Choro nos braços dela, que nunca soube de nada, só acha que foi um ventinho. Aguentem-se, vejam o meu novo vídeo a fingir que trabalho, grito de raiva e escorrem-me Lises e Lises, inundo-me de desespero, procuro onde estão todos, não está cá ninguém, estão ocupados a beber Murganheira. Se queres que avisemos, faz tu! Vai lá tu! Que a nossa solidariedade vem sempre atrasada porque a gente gosta de viver devagar, cada dia de cada vez.
Cada dia de cada vez enquanto vejo mártires sem paredes e crianças sem recreio a limpar os destroços de um sonho de quarenta e sete gerações e não sei quantos reis e de um castelo que se ergue no meio de árvores tornadas gravetos para os cães roerem. Mamã, porque não posso ir brincar com os meus amigos? Minha filha, a tua escola o vento comeu ao jantar e o nosso teto está feito em papa.
Cansa-me a incompetência, a insensibilidade, os pseudo-carinhos de quem não se importa, de quem nada faz, morreu mais um velho com telhas na mão com a mulher com quem vergou uma vida a ver, o homem já não pode mandar as suas filhas para Lisboa porque a sua fábrica está a descansar no céu com as estrelinhas, a mãe que não pode aquecer um banho quente para o seu filho com um bicho qualquer que apanhou na creche antes da creche ser só chão, o cão que choraminga pelo dono, que lhe pede uma festa de despedida, depois de lhe cair um pinheiro em cima da casota.
Sofrimento esdrúxulo, superlativo, tenho de usar palavras assim ou o ministro não me entende, que ele não fala para o povo, ele está-se a cagar para o povo, fala para os seus sapatinhos de veludo e as suas saias de filó. União? Europa? Mas nós ainda nem descosemos o bolso todo! Olhe os leirienses, marinhenses, vieirenses, coimbrenses, caldenses, nazarenos, pedroguenses, pombalenses, figueiroenses, trabalham todos tão bem, acha que vamos ajudar até que o último caia morrido por intoxicação de monóxido ou de traumatismo craniano? Haja povo eficiente, o espírito ronaldense, trabalhem, trabalhem, que o pobre é que se fode.
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