o que procuras?
Search this site
456 results found with an empty search
- feridas que não podem ser beijadas
Sendo da Margem Sul, para ir para a universidade tenho de apanhar um comboio e um autocarro todos os dias. Hoje em dia, já estou habituada. É algo banal. Mas a Lara uma semana antes do começo do primeiro semestre pensava que se ia perder no meio do caminho, e que seria capturada, desmembrada e contrabandeada no mercado negro. Disseram-me que a universidade ia ser o auge. Que eu ia fazer tudo o que não pude fazer antes, e outras coisas que nem nem teriam sido meu objeto de pensamento. E eu acreditei, plenamente, que seria verdade. Sonhava que a partir do primeiro momento que lá metesse os pés estaria interioziada naquela vida universitária dos filmes americanos. A Lara, uma semana antes do primeiro semestre, pensava, realmente, que se conhecia - pelo menos, a níveis mínimos - a si mesma, e que se iria reecontrar e descobrir ainda mais. Mas a verdade é que não foi isso aconteceu. À medida que o tempo passou, tal como disse, o caminho para a universidade começou a ser rotineiro. E nunca me perdi - a Lara uma semana antes do primeiro semestre não acreditaria. Mas esta também não acreditaria que, ao longo dos dias, se ia sentir presa nos pensamentos imperdoáveis da sua mente, que lhe seriam, por via da ironia, incompreensíveis, porque sentiria, no ser, que apenas lhe trariam dores inconsoláveis. Mas é verdade. Passado este primeiro semestre, deixei-me assentir numa conformidade apática com a minha melancolia - que não sei, exatamente, de outro provém. E o pior é que não existem palavras que possam adocicar esta minha amargura - eu bem tentei procurar no dicionário. E, portanto, só me sinto, constantemente, marcada por uma desilusão cortante. E, ainda que saiba muito pouco sobre o mundo, sei - e sinto - que não deveria ser como sou; que devia ser mais, saber mais, fazer mais, conhecer mais, mais tudo e menos nada. Menos inércia, menos apatia, menos self doubting - menos medo. E sei que devia tentar mais, ir mais além. Adormeço a pensar no que poderia ter feito - e que eu tanto queria - e no que poderia ter acontecido se eu tivesse sido capaz. Nas coisas que eu poderia ter dito - mas que deixei ficarem entaladas na minha garganta. Mas sinto um obstáculo incomensurável entre o querer e o arquitetar; entre o almejar e o ser e entre o que podia ser, e o que é. E, na realidade, o que é é nada. Não sou nada . Nunca fui nada, mas cada vez mais sinto esse nada a construir uma muralha de pedra na minha garganta que não me deixa falar, e que me afunda o coração na desilusão de não a conseguir deitar abaixo. Porque, para isso, eu teria de saber quem sou. E eu não sei. Apenas sei que não queria ser assim. Qualquer coisa seria preferível a ser assim. Mas a força para mudar escasseia; a força para acreditar em mim e no que eu posso ser perde-se a cada dia que passa, como aquele monte de areia que desaparece, aos pouquinhos, da nossa mão - e sabemos que é assim que deveria ser; nunca o conseguiríamos manter, é a natureza. Cheguei desamparada à universidade, e agora ainda estou mais perdida.
- Pouca terra, pouca terra - Um caso prático do dilema do comboio
O dilema do comboio é provavelmente o dilema da filosofia mais conhecido de sempre, portanto perdoem-me o cliché, mas quero chegar a uma estação. Neste cenário, um comboio a alta velocidade está prestes a atropelar cinco pessoas presas aos carris, mas, tendo à nossa frente uma alavanca que os controla, podemos redirecionar o comboio para uma linha alternativa na qual só se encontra presa uma pessoa. Só podendo escolher entre deixar cinco pessoas morrer ou matar uma pessoa, o que fazer? A resposta mais popular é a matar em vez de deixar morrer, porque intuitivamente, a maior parte das pessoas coloca mais valor na vida de vários do que um. Esta suposição não deve mudar de acordo com a escala: matar dez para salvar cinquenta, cem para quinhentos, etc.: o princípio é o mesmo. A segunda variante do dilema descarta a alavanca e dá-nos um gordo. Podemos impedir que o comboio atropele cinco pessoas se empurrarmos para a linha um homem tão mitologicamente obeso que a sua massa consegue por si só parar um comboio em movimento. Continuamos a ter a decisão de sacrificar uma pessoa para salvar cinco, mas esta torna-se geralmente uma decisão mais controversa, pelo ato de empurrar o homem ser mais violento e direto que a decisão relativamente indireta de puxar uma alavanca. As consequências são as mesmas: num cenário onde estas são as duas decisões possíveis, escolher não matar um é matar cinco. A diferença entre o homem e a alavanca é estética e não releva à moralidade. Releva à lei, claro. Fazer do homem um meio é das violações legais mais basilares, mas falamos aqui de moralidade, não direito. Suponhamos agora que estes acidentes são regulares, e centenas morrem por ano. Sabemos que isto acontece porque o gestor dos caminhos de ferro os gere mal, e sabemos que qualquer gestão que se siga irá impedir estes acidentes. O mesmo princípio aplica-se, se estas forem as únicas escolhas. No mundo real, claro, existem mais escolhas: podemos levar o gestor à justiça, ou pelo menos aos tribunais. Mas mesmo, assumindo uma justiça eficiente, ainda demora tempo, e a cada dia, alguém é atropelado. Isto assumindo que o caso é mais que claro, que as ações do gestor são evidentemente ilegais. Mas e se a forma de gerir não for ilegal? Voltamos ao dilema, assumindo só entre matar e deixar morrer. Mas talvez o gestor possa apenas ser coagido a deixar o cargo, e aí salva-se sem matar sequer. Coação, fui informado, continua a ser crime, mas se diretamente levar ao salvamento de vidas, então esta mutação do dilema coloca-nos a escolha entre um ato ilegal mas moral, e permitir um ato legal mas imoral. O dilema do comboio é nos cada vez mais útil quantas mais carruagens acrescentarmos, andando cada vez mais como anda na nossa terra. Há um sem-fim de carruagens, rodas e vapores a carvão, linhas múltiplas que se entrecruzam entortadas, e demasiados que morrem. Há também avalanches de alavancas. Eis o que sabemos sobre a grande máquina, e isto é claro e científico: sabemos que milhões vão morrer, e milhões vão ficar sem nada, numa escala ultrapassada por todos os genocídios. Sabemos o que se pode fazer para o evitar: as alavancas têm de ser travadas, e isso é possível de alcançar por meio da política pública, da lei. Sabemos que o comboio continua a avançar e não está a abrandar o suficiente: a cada segundo que passa, alguém é atropelado e escolhemos que se seja atropelado. Só podemos questionar quantos vão morrer antes de finalmente parar. Sabemos que não está a parar. Não sabemos como alcançar as alavancas. Fazer os agentes que podem, agir. E talvez não haja uma resposta concreta, talvez a resposta seja disparar em todas as situações e ver onde se acerta. Que se atire tinta, que se vote, que se proteste, e boicote e se promova, escreva-se e discuta-se, que se sabote, subsidie e sancione. Se sacrifique. A solução climática tem necessariamente de ser global e eclética, entre o moral e o imoral, o legal e ilegal, mas sempre vivaz, porque é sempre desesperada. É uma guerra que se está a perder, mas é preciso tentar fazer-se justiça, dentro dos tribunais e fora deles. Ou caem os céus, canibalizados por comboios.
- It’s called Falasteen/إنها تسمى فلسطين
عندما يرتفع القمر فوق أرض الأقصى المقدسة مطر من الدموع سوف يروي العطش من الجائعين خديجة تبكي فوق الأرض التي يرقد فيها الشهداء صوت الأصوات قراءة سورة الفاتحة من غزة إلى المدينة المنورة أغرق تلك الأصوات المروعة وسيلعب الأطفال الحمم البركانية الملعونة التي تغمر شارع غزة ستتحول يومًا ما إلى حجر ولن يحركوها أبدًا أبداً When the moon rises Over the holy land of Al-Aqsa A rain of tears Will quench the thirst Of the hungry Khadija weeps Over the land where the martyrs lie The sound of voices Reciting Surat al-Fatiha From Gaza to Medina Drown out those dreadful voices And the children will play The cursed lava that floods Gaza Street will one day turn to stone And they will never move it Never
- momentos
Numa noite como esta, a vida para. Numa noite como esta, a excitação contagiante e extática dos bares e discotecas e dos grupos de amigos alcoolicamente alegres que se passeiam mutuamente pelas calçadas de Lisboa, não é suficiente para me carregar para lá do limite do meu aconchego. Hoje apenas me deito e penso. Penso no que fui, no que sou, no que poderei ser e poderia ter sido. Enfim, maluquices de um desejo por algo que nunca vem. Quem será o tolo que deseja alcançar o impossível apenas por se deixar marinar no conforto de uns lençóis de algodão? Não se deixem enganar. É possível. Nesta noite não tenho responsabilidades. Não sou eu quem aqui está deitada alheia às horas e ao meu corpo que implora por uma reposição do descanso perdido para os estudos e para a farra. Ou só pela arte do não fazer nada. Ouço a minha colega de quarto. Mulher calada que é. Acho que nunca me dirigiu sequer uma palavra que não fosse temperada com o azedume do sarcasmo, e talvez um leve desgosto. Tudo o que sei sobre ela me leva apenas a fazer suposições que se ramificam até ao mais fantástico e improvável. Tudo para encontrar sentido para a existência de um ser humano desinteressante e, francamente, insosso. Sabemos que o nosso estado é talvez um de delírio quando a mente se ocupa até com a mais insignificante das pessoas em vez de cumprir os seus deveres de central de controlo do ser humano. É inútil? Talvez. Mas é pensamento. Leva-me a questionar realmente o quanto vale um pensamento. Como tudo, o tempo que eu gasto a pensar nas futilidades dos pequenos detalhes, é tempo que me escorrega das mãos e nunca mais volta. Poderia estudar, fazer malas e deixar a minha mãe feliz com a minha responsabilidade, mas não. Em vez disso penso. Escolho passar a noite mergulhada nos sombreados e nos contornos da vida. Mas afinal, são eles que lhe dão forma; que a fazem real. Numa noite como esta, sinto-me viva. Viajo no tempo que escasseia, passam as horas mas para mim já passaram anos! Para a frente, para trás e assim sucessivamente…Olho a vida como um pêndulo. E os carros passam. A porta da minha colega de casa bate em simultâneo com o soar do heavy metal que me enche os ouvidos e me limpa a névoa da rotina atarefada do dia a dia. É verdadeiramente sinfónico, o engrenar do homem e do meio envolvente. Se no decurso da história o ser humano sempre se guiou pela natureza, então agora fá-lo mais que nunca. Uma natureza por vezes adulterada, sim. Mas é a nossa natureza. Numa noite como esta…estou há horas a vaguear na minha essência à procura de quê? Não sei. Mas sei que numa noite como esta, o fardo do pensamento só chegará quando o chiar incessante do despertador interromper bruscamente a paz de um curto sono.
- Jornada de Esperança: Três Anos de Missão Encerram
A Missão País é um projeto católico de universitários que tem como objetivo espalhar a fé cristã e o amor de Jesus por Portugal. Nasceu em 2003 e desde aí tem evidenciado um crescimento tremendo. Em 2024, a Missão Pais previu atingir o marco dos 4080 jovens, distribuídos por 68 missões, em todos os cantos do país, durante as férias entre semestres (de janeiro a março). O dia-a-dia da missão passa por visitar lares de idosos, centros de deficientes, escolas, creches, animar os intervalos das escolas e partilhar o momento da Eucaristia diariamente com a respetiva comunidade. Durante três anos, Alvaiázere foi mais do que uma simples localidade para os missionários da Missão Pais da Universidade Nova de Lisboa IMS e de Direito que ali se entregaram de corpo e alma. Foi um refúgio de alegria, fé e solidariedade, onde cada gesto era um testemunho de amor e cada encontro uma oportunidade de crescimento espiritual. Desde o primeiro contacto em 2022, quando os corações se encheram de entusiasmo e incerteza diante do desconhecido, até às três missões subsequentes, o vínculo entre os missionários e a comunidade floresceu em experiências inesquecíveis. Dizem que Alvaiázere os acolheu de braços abertos, envolvendo-os numa teia de calor humano que transcendia as diferenças. Desde a organização da loja social até às visitas porta a porta, cada interação foi permeada por sorrisos, histórias e aprendizagens. A presença tão generosa do Padre André foi um pilar imprescindível que guiou os missionários através dos desafios e das alegrias da jornada ao longo dos 4 anos, tendo um deles sido através do contacto virtual durante a pandemia em 2021. O Padre António Ribeiro de Matos também acompanhou os missionários e a comunidade de Alvaiázere durante os últimos dois anos, referindo que "A Missão País é uma manifestação concreta da atualidade do Evangelho e da vitalidade da Igreja. Todos aqueles que nos cruzamos com este projeto somos marcados por eles: missionários, comunidade acolhedora, padres e tantos outros. Alegra-me ver tantos jovens que decidem dar um sentido tão belo ao seu tempo de férias. Na Missão País podemos saborear um bocadinho do Céu." Em 2023, o retorno da Missão País trouxe consigo um grupo de aproximadamente 60 jovens determinados a deixar uma marca de esperança e caridade. Nas instituições locais, nos encontros com os mais velhos, nas atividades escolares e nos momentos de teatro, a energia contagiante dos missionários iluminou os corações dos alvaiazerenses. “Agradecemos à comunidade de Alvaiázere pelos sorrisos, pelas partilhas, pela generosidade com que nos receberam nas suas casas, e também por todos os mimos que nos deram ao longo da semana. Esperamos ter marcado Alvaiázere assim como esta vila marcou cada missionário. Regressamos a Lisboa de coração cheio e ansiosos por voltar no ano que vem!" E concluíram, "Alegra-te, Ele está contigo!". Esta foi a última partilha de agradecimento por parte dos missionários antes do regresso deste ano, (2024), o último ano em Alvaiázere. Relativamente aos dias passados a animar os lares durante os últimos anos temos o registo de alguns missionários “Foram vários dias consecutivos em que senti que, a chegada ao lar, trazia uma felicidade que se fazia sentir em cada rosto. Sentir que levarmos o coração aberto, a mãe peregrina, e o espírito de Deus em cada olhar e em cada toque, foi o suficiente para tornarmos esta semana um verdadeiro testemunho de esperança em cada um de nós. Foi uma semana em que me esqueci que havia mundo exterior, que havia mais vida para além dos telemóveis e que foi muito importante para conhecer outras realidades de pessoas que se sentem sozinhas e pouco acompanhadas. Fez me perceber que basta uma conversa, um sorriso, ou uma simples pergunta para o dia ter mais sentido. Incrível perceber como é que foi a vida de cada um, e mesmo aqueles que não podiam falar, reagirem ao toque e ao sorriso foi simplesmente avassalador. Senti-me próxima deles, senti-me próxima de Deus, que me assegurava de que aquilo era a minha missão e de que não estava sozinha e que os velhinhos precisavam da nossa companhia.” Para além do tempo passado com a comunidade mais velha de Alvaiázere, houve também um grande espírito de criança e de felicidade que se revelou nos rostos de cada missionário quando regressavam diariamente de um longo, alegre dia passado na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Ribeiro Ferreira. “Participar na missão pais em Alvaiázere, especialmente na escola local, foi uma experiência profundamente marcante e transformadora para mim. A interação com a comunidade escolar foi particularmente enriquecedora, permitindo-me criar laços inesquecíveis com pessoas extraordinárias que partilharam comigo não só conhecimentos, mas também momentos de verdadeira conexão humana e espiritual. Nas várias conversas que tive ao longo da semana com alunos, professores, e funcionários da escola tive a oportunidade de ouvir histórias de vida, sonhos para o futuro, e pensamentos que inquietam. Para mim, a Missão significou brincar, ouvir, conversar e, acima de tudo, transmitir que ninguém está sozinho, que todos os pensamentos são valiosos e que todas preocupações devem ser ouvidas. Vi Deus nos momentos em que as crianças corriam em direção a nós a sorrir, vi Deus no que os alunos mais velhos tinham para dizer sobre a sua fé, vi Deus na dedicação e empenho dos professores e funcionários que todos os dias dão o seu melhor” Estas são palavras marcantes que alguns missionários partilharam sobre a sua experiência que viveram ao longo destes anos rodeados por uma parte da comunidade juvenil de Alvaiázere. Ao longo dos anos, uma tradição valiosa permaneceu inalterada: o toque à porta, com o objetivo de mostrar um símbolo de companheirismo e de trazer a presença reconfortante de Jesus às casas mais solitárias. As palavras que se seguem são de uma missionária que vive esta experiência de forma notável. “Por cada casa por onde passávamos eu pensava: "Incrível, esta pessoa que não nos conhece de lado nenhum, abriu as portas da sua casa e recebeu-nos mesmo de coração aberto”. É muito bonito pensar que Deus me chamou a estar ali, com aquelas pessoas, naquela comunidade, Deus chamou-me a servir em Alvaiázere!! E acho que quando vemos as coisas desta forma tudo muda e parece que há algo que se apodera de nós e damos tudo, a cada pessoa com quem nos cruzamos, é uma alegria que acho que só acontece em missão e em Jesus. Levar Jesus às pessoas através da alegria, da escuta, às vezes só era preciso isso: ouvir. E encontrámos pessoas com histórias incríveis de vida e com uma postura e forma de estar na vida que inspiram.” Falando agora sobre uma atividade com menos presença diária, mas que, no entanto, conseguiu chegar aos corações de toda a comunidade de Alvaiázere e dos missionários através de uma belíssima representação no último dia de cada semana passada em Alvaiázere entre 2022 e 2024. “O teatro é uma comunidade especial. Não andamos tanto à vista, mas é por um motivo maravilhoso. Todos os dias, passamos muitas horas a preparar com a maior das emoções um miminho para os habitantes de Alvaiázere. Nessas horas, em que somos movidos pela vontade de conseguir melhorar o dia daqueles que nos assistem, somos também movidos pela enorme cumplicidade que entre nós emerge. É um caminho de superação, “desinstalação”, entreajuda e muita, muita alegria aquele que percorremos ao longo da semana de Missão, movidos pelo amor de Jesus, que transborda a todas as horas. Não podíamos terminar o projeto mais satisfeitos nem com um maior sentimento de missão cumprida!”. Este foi o testemunho de uma das jovens missionárias que esteve na primeira linha da realização do teatro deste ano final. Os relatos dos missionários ecoam com emoção e gratidão. Cada palavra ressoa com o eco de vidas transformadas, de corações tocados e de almas fortalecidas. Nas palavras de um deles, "Fui profundamente feliz em Alvaiázere". E, de facto, a felicidade que encontraram ali transcendeu as fronteiras do tempo e do espaço, deixando uma marca indelével nas suas vidas e na da comunidade. Alvaiázere não foi apenas um destino, foi um lar espiritual onde cada missionário encontrou sentido e propósito. O seu legado perdurará para além das três missões, como um testemunho vivo do poder transformador do amor e da fé. Que estas experiências sirvam de inspiração para futuras gerações, recordando-nos da importância de nos entregarmos ao serviço do próximo com generosidade e compaixão. Os missionários do ano de 2022 relatam realmente terem podido presenciar a presença de Deus através dos detalhes de Alvaiázere no seu primeiro ano. “No sol bom de fevereiro que apanhámos, na alegria acompanhada da tranquilidade e silêncio das ruas, nas amizades que foram nascendo entre missionários e entre nós e a comunidade, na boa disposição e curiosidade de toda a gente, que nos ia sempre perguntando que cruzes trazíamos e que T-shirt era aquela que vestíamos, e, principalmente, na atenção carinhosa e acolhimento que recebemos, que verdadeiramente nos deixou a todos com o coração quentinho. Fosse um “bom dia” sorridente, uma porta de casa que nos era aberta, uma refeição oferecida, ou uma conversa que se prolongava, a hospitalidade estava sempre presente, fomos mesmo recebidos de braços abertos. Em apenas uma semana, a viver uma rotina completamente oposta à que todos levávamos em Lisboa, com aulas e exames, Alvaiázere soube-nos a casa. E foi esse sentimento tão bom que nos fez regressar mais duas vezes.” Por último, aqui se seguem umas palavras finais dos jovens universitários que se despedem de Alvaiázere ao fim de 3 anos consecutivos com especial agradecimento à Câmara Municipal que tão bem os acolheu. “Toda esta hospitalidade e alegria sentida nesta comunidade, só foi possível também graças à máxima e incansável disponibilidade vinda da Câmara Municipal, mencionando em especial o Rodrigo Joaquim através da ponte feita entre os missionários e a Câmara. Nunca nos disseram que não em nada, procurando sempre disponibilizar e oferecer tudo o quanto possível, seja em relação a transportes, estadia, material, refeições! Sem a Câmara, a Missão País da Nova IMS não teria acontecido e não teria tido o notório impacto que teve. Por tudo isto, um obrigado nunca vai chegar para agradecer em relação a todo o carinho sentido pela Missão País. Portanto a Missão País só deseja prosperidade à Câmara Municipal de Alvaiázere e a maior das felicidades a todos os funcionários desta instituição.” Agora uma mensagem mais direcionada a toda a comunidade de Alvaiázere: “É com imensa gratidão e emoção que nos dirigimos a vocês neste momento. Ao longo de três anos, tivemos a sorte de ser acolhidos pelas vossas ruas, casas e, acima de tudo, pelos vossos corações generosos. É difícil expressar em palavras o quão gratos nos sentimos pela receção que nos proporcionaram. Desde o primeiro dia em que chegamos, fomos envolvidos por uma onda de amor e bondade que ultrapassa qualquer barreira. Vocês receberam-nos não apenas como visitantes, mas como membros de uma família. Em cada instituição, em cada escola, em cada lar, encontrámos não só abrigo, mas também um sentimento de pertença. As vossas histórias, e a vossa fé enriqueceram-nos de maneiras que jamais poderíamos ter imaginado. À medida que partimos de Alvaiázere, levamos connosco não só memórias que permaneceram para sempre, mas também lições de amor, serviço e solidariedade. Um grande obrigado por estes 3 anos marcantes na vida de cada um de nós que por Alvaiázere passou. Continuaremos a rezar por toda a comunidade e a ansiar o nosso regresso. Até sempre!”
- Errância
Todos os anos se escrevem textos sobre este dia. Nada do que escreverei aqui será novo, talvez a maneira como o farei estará ligada intrinsecamente à forma própria da minha escrita, mas nem isso considero especificamente inovador. Mesmo assim, sinto necessidade de escrever algo. Anteriormente, disse que o ato da escrita me era uma questão de imposição. Uso-o para me impor. É talvez uma jogada sádica, mas é a única coisa que sinto que consigo agarrar realmente pelas mãos. Atrevo-me a adivinhar que a impotência que sinto perante certos aspetos do mundo que não a escrita se deve um pouco/muito ao facto de ser mulher. Reconheço que o meu síndrome de impostor tem laivos de misoginia internalizada. Contudo, ambiciono fazer da escrita a prova de que é possível encontrar poder na minha feminilidade e não numa versão distorcida de masculinidade. Não pretendo copiar dicionários do léxico da típica liberdade masculina tóxica, traduzi-la, estudá-la, aproveitar o que me interessa e deitar fora o resto. Não pretendo apagar a minha Mulher para poder sentir um vestígio de poder fictício momentâneo, coisa na qual o movimento feminista cai vezes e vezes sem conta. Chega de justificações e introspeções. Vamos ao que interessa. Em Portugal, em termos normativos, legislativos, penso que o caminho tem sido feito. A maior parte da mudança está feita (sim, é importante pensar acerca de como a lei do aborto está feita para promover o contrário do seu propósito. Há problemas.), mas o machismo parece estar mais presente na nossa cultura em si. A sociedade parece não acompanhar a lei. É percetível a olho nu que o Patriarcado, para além de ser um sistema em termos institucionalmente ditos, perdura em micro-agressões, em misoginia internalizada, em condescendência, em apalpões, em um homem explicar o que é percetível a uma mulher, em vitimização masculina desmedida, em trabalho doméstico feminino excessivo, na tendência de encaixar mulheres brilhantes na categoria de “mulher brilhante” e não “pessoa brilhante” (o masculino sempre pareceu o padrão de excelência e normalidade, será a mulher constantemente o “outro”?)... Mudar mentes demora mais do que aprovar legislação. O nosso trabalho mais doloroso é esse. E é o trabalho mais doloroso, porque é o que apresenta mais resistência. Atualmente, acompanhando também o crescimento do Fascismo na Europa, têm surgido discursos retrógrados e bafientos no que toca aos direitos das mulheres na opinião pública, como reação aos progressos feitos até agora. Atrevo-me a dizer que esta resistência, não só se deve ao facto da forma não tão certa como temos adotado o movimento, não só se deve à falta de educação prestada aos homens relativamente a este tema, mas também à inevitável ideia de que a defesa pelos direitos das mulheres ameaça a ideia de superioridade masculina, tão psicologicamente intrínseca na maior parte dos homens, que, se já mudada institucionalmente, como se tem feito, muito facilmente poderá também ser ameaçada nas relações interpessoais. Quando certos homens insistem na inferioridade da Mulher, estão mais focados em sustentar a sua superioridade do que na suposta crença de que a feminilidade é algo inferior. Escreve Virginia Woolf: “A vida para ambos os sexos – e olhei para eles seguindo lado a lado no passeio – é árdua, difícil, uma luta perpétua. Exige coragem e força gigantescas. Mais do que tudo o resto, talvez, sendo nós criaturas de ilusão, exige confiança em nós mesmos. (...) E qual a maneira mais rápide de gerar esta imponderável qualidade, que no entanto é tão inestimável? Pensando que os outros são inferiores a nós. Sentindo que temos uma qualquer superioridade inata – pode ser riqueza ou estatuto ou um nariz direito ou o retrato de um avô pintado por Romey – (...). Donde a enorme importância para o patriarca, que tem de conquista, que tem de dominar, que tem de sentir que um grande número de pessoas, nada menos do que metade da raça humana, é por natureza inferior a ele.”. Para os nossos companheiros masculinos rejeitarem o próprio sistema que os beneficia em desproporcionalidade face às mulheres, têm de encarar a dura realidade de que são o que mais temem ser – “um bicho da terra tão pequeno”, um mero ser mortal. Chega de heróis. Ouçam-nos. Procurem conhecer. Quanto a nós, há que matar o homem machista que vive dentro das nossas cabeças. Resta-nos ser mais compreensivas umas com as outras. Resta-nos não julgar a roupa que outras têm vestida. Resta-nos não ser cúmplice de comentários misóginos por parte dos homens que fazem parte da nossa vida. Resta-nos revoltar-nos quando uma amiga nossa é violentada. Resta-nos tentar ignorar a voz dentro da nossa cabeça que nos diz a todo o custo que não merecemos fazer o que fazemos, trabalhar onde trabalhamos, ganhar o que ganhamos. Pratiquem feminismo como acharem ser o mais correto. Manifestem-se. Mudem leis. Eduquem. Votem. Deem um abraço gigante à vossa avó. Discutam com o vosso pai à mesa. Leiam. Conversem com um bom copo de vinho (as discussões feministas mais complexas e interessantes que tive foram em jantares banais com as minhas amigas). Escrevam. Façam-no como quiserem, mas não se deixem ser convencidas de que isto acabou. De que já não vale a pena. O anseio pela liberdade, ainda que sempre bem retratado em teoria de género, encontrará a sua rebeldia, o seu maior teor revolucionário, entre as estrelinhas, entre a saia de uma avó, entre tintas de uma tela, entre o vermelho de uns lábios, entre o dançar frenético num bar. Entre a errância. Entre a errância sobretudo. (Que palavra bonita!) E, na minha forma preferida, entre um A e um B.
- Um 5 será sempre um 5!
Se há algo garantido sobre a época de exames é que no final de janeiro vamos estar todos pelos cabelos com palavras. Em janeiro, palavras não faltam. Principalmente num curso como o nosso, onde há palavras em todo o lado, seja na constituição, nos códigos, na lei X, no acordum Y (cursos muito teóricos é o que dá) …, e números? Bom esses só mesmo nos artigos – e ainda bem. Eu sempre preferi palavras a números. Sempre as achei mais interessantes do que aquelas coisas matemáticas, daí ter vindo parar a um curso de Direito e ter evitado qualquer forma e feitio que a engenharia pudesse assumir. Mas não é sobre isto a reflexão, é sobre as palavras serem como tintas ao dispor de cada um de nós pintores. A verdade é que cada um de nós, assim como os pintores com as suas tintas, podemos ser criativos e brincar, extrapolar, rir, pintar com as palavras, pois é certo que com certa palavra e a pincelada certa podemos pintar todo um quadro às pessoas a que nos dirigimos e o melhor é q esse quadro pode assumir várias formas, feitios... Está aberto a todo um mundo de interpretações. Ao dizer, por exemplo, bola, há quem pense em bolas de neve, outros em bolas de futebol, outros em bola de carne, etc. Ademais, com cada toque do pincel na tela podemos aprofundar o que pretendemos transmitir ou borrar a pintura por completo… ...Mas números? Esses não mudam. Não tomam forma. Não são dissecados. Não são interpretados. Não são fabricados. Não são imaginados. Criatividade, aqui? 0, zero (perceberam?) Um número 5 é sempre um número cinco independentemente do contexto, é sempre 5: 1,2,3,4,5... 5! Há 10 anos (10 ou seja 10, dez, d e z - mais nada) um 5 era um 5, hoje, em Portugal um 5 é um 5, na China 5 é 5, 5 maçãs é igual a 1,2,3,4,5 maçãs. E amanhã, provavelmente, 5 continuará a ser isso mesmo: 5. Que aborrecido, não é? (Não admira que a malta do técnico ande sempre depressiva). E mais, com meia dúzia de palavras consigo montar uma obra prima, um cenário, um conto de fadas, um mundo novo, um romance, uma fantasia, paisagens nunca antes vistas, criaturas nunca antes vistas, pessoas nunca antes vistas, apenas existentes na imaginação montadas como um puzzle. Não sei quanto a outros, mas a única realidade que pude montar com o 5 foi a referida contagem até ao 5 e flashbacks (traumas) das aulas de matemática. De facto, é um tanto chocante como simples aglomerados de letras, e um simples aglomerado de simples aglomerados de letras pode causar um colossal impacto num amigo, num conhecido, num desconhecido, numa nação e, talvez quem sabe, no mundo. Sim, porque as palavras, apesar de se tratarem só de letras coladas, têm o poder de mudar corações, de penetrarem neles, de fazer a diferença, de ajudar pessoas, de curar um coração partido, de abraçar alguém, de consolar alguém, de relembrar alguém … Então e os números? Consolam? Não, mas calafrios dão. Já alguém fez alguém sorrir com o uso de números? Não, mas, certamente, muitos exames de matemática já fizeram alguém chorar. Mudam o mundo? Meh, mas, certamente, tornam-no mais secante e rígido, ou como os catedráticos engravatados gostam de dizer: mais “objetivo e racional”. Termos este dom, este privilégio de ter acesso às palavras, seja de que língua forem, e sermos capaz de as usar, é algo invejável por outras formas de vida, principalmente o facto de, muitas vezes, nos expressarmos através delas. Não é à toa que o fazemos através das palavras, que eu saiba um 5 não consegue exprimir nem um milésimo da complexidade das emoções humanas, mas já as palavras… palavras por si, sozinhas, isoladas, não, mas para isso existe a poesia. Estas coisas com letras, quando postas de uma determinada maneira, numa determinada ordem, em perfeita sintonia, chegam o mais próximo, daquilo que é possível, das emoções humanas. Por isso é que as maiores demonstrações e formulações sobre o Amor, por exemplo, são sempre em formato de poesia. O mais irónico é que algo assim tão poderoso como as palavras está completamente dependente de nós. Somos, além de pintores, arquitetos, na medida em que não são as palavras que se fazem, somos nós que as fazemos. A meu ver, além de pintores e arquitetos, ainda podemos ser considerados Deuses pelas palavras, porque não só somos nós que lhes damos vida e sentido, como elas se movem, existem, andam de acordo com a nossa vontade. E acima de tudo: obedecem-nos. Já os números… aquelas pestes estão se pouco marimbando para a nós, para a nossa vontade, o que seja. Que atire a primeira pedra quem, num exercício de “mostre que X = 5”, fez todas as continhas, e, pasmem, no final, X deu 7, e por mais que tentessem obrigar o 7 a passar a ser 5, ele não se demovia. Gritaram e o 7 não se mexeu. Atiraram com o lápis e o 7 nem para o lado andou. Choraram e nem um cabelo do 7 se moveu. Viraram a folha ao contrário e, nop, continua a ser 7. Solução? Refazer o exercício TODO (francamente…). Isto com as palavras era inconcebível! Era só preciso pegar na frase, chegar umas vírgulas para lá, mexer numas letras, trocar um ou outra palavra (e elas, educadas como sempre, não se importavam de chegar para o lado para receber uma nova palavra, ou até mesmo desaparecer) e cá está: uma frase com um sentido completamente diferente. Tudo isto para dizer que devíamos ser mais gratos pelas palavras existirem e por as encararmos no dia a dia no nosso curso, porque podíamos estar piores, acreditem, podíamos estar à procura de X ou a multiplicar 5 por números que nem existem, ou a encontrar o cubo do quadrado da hipotenusa, sei lá. Ou talvez não, dado de que tudo isto dito aqui é produto de um cérebro já esmiuçado e feito em papas por estar a olhar para palavras há demasiado tempo.
- Em Amora era tudo mais fácil
deixas-me perder na tua tempestade em mares perigosos em pequenos copos cambalhotas no sofá a medo, saio na tua paragem é-me mais familiar o gato de rua cumprimenta-me vejo as árvores e flores ao andar ofereço-te ponto de desembarque estrada para ponto morto gotas de baunilha na massa do bolo agulha e linha para a bainha das calças deixo que saltes na poça enlameada que me descubras sempre nas escondidas que trauteies a tua melodia favorita e que te surpreendas sempre que a completar sol que derrete os teus fios de caramelo cócegas no nariz, café a 45 cêntimos chávena de chá preto maço de tabaco no bolso de trás ergues aos sete céus o garfo de quatro pontas da minha casa à tua são três morangos e de mim a ti são duas romãs e eu aceito que me alimentes à colher deposita no mapa as tuas palavras mostra que não precisas de escalas que a tua régua se mede às frutas contornando as formigas que se aproximam evito dizer as palavras concretas “ia embora e era tudo mais fácil” corrijo a banda, alinho as nuvens no céu “em Amora era tudo mais fácil” lábios pintados de framboesas camisolas tricotadas de bolachas restos da tua presença enfim, pestanas alagadas caneta que nunca foi tua sala de espera do escritor abandono do banco de jardim escuridão lateral no mindinho direito praga dos deuses do olimpo absolvição dos átomos da madeira destruição da lenga-lenga do resumo de paixões a figos secos candelabro que se funde acima da minha cabeça desvio de olhar inerte toca e foge do teu perfume panos húmidos empregues cacos de vidro espremidos na pele pegadas das tuas mãos nas minhas água que ainda ferve para o teu chá ofereces-me fósforos imploras para que ateie fogo à única casa que conheceste prevejo queimaduras nos braços
- Lu & Gomitas
(Esta carta é resultado de profunda manipulação emocional ocorrida em território espanhol mediante queixas de insuficientes discursos acerca das minhas melhores amigas no meu aniversário. Portanto aqui está, de forma ainda mais pública do que a que ocorreu na minha garagem acompanhada de bolo de chocolate, a minha grande declaração de amor). Lu e Gomitas, Há uma cena no fim do “Harry Potter: a Pedra Filosofal”, em que o Harry está a sair de Hogwarts e diz que não está a voltar para casa, não verdadeiramente. Eu - fã a um nível pouco saudável da saga - penso muitas vezes nessa cena quando penso em vocês. Cheguei a Lisboa há três anos, sozinha, no auge da minha condição de estudante deslocada, meio desamparada e com o meu pequeno coração a agarrar-se à esperança de encontrar algo, alguém, que o acolhesse e o protegesse. E o que eu encontrei – através de nada mais nada menos do que uma marosca para fazer as leituras de IDPJ – foram duas miúdas que mais do que acolher e proteger, lhe deram uma nova casa. Sinto-me um pouco como o Harry sempre que me despeço de vocês – e sabemos bem o quão frequente isso é, porque “lá vai ela para a Covilhã” – já que sinto sempre que, ainda que esteja a voltar a casa, ao mesmo tempo me afasto de uma outra que entretanto encontrei. Não há palavras que possam explicá-lo nem discursos que alguma vez sentirei serem suficientes para vocês as duas - o vocabulário português, ainda que imensamente bonito, não contém as palavras necessárias para explicar o quão casa vocês são; para falar dessa casa tudo parece pouco, tudo parece fabricado, e vocês merecem a magia do real – aquela que só se sente com um abraço, um olhar, ou um sorriso – palavras para quê? De uma maneira ou de outra, se eu tivesse de escolher de entre as palavras, escolheria para vocês a palavra “saudade”. Enquanto seres humanos invariavelmente condenados à tristeza, nós não costumamos associar a palavra saudade a bons sentimentos. Costumamos associá-la a sofrimento, e a vazio, e a luto. Mas vocês não são esse tipo de saudade. Vocês são a saudade que se sente quando estamos à mesa de um café e nos apercebemos de que o tempo que temos com as pessoas com quem estamos sentados é finito. São a saudade de uma noite longa com bochechas rosadas e olhos brilhantes e muita música. São a saudade de uma troca de olhares cúmplice que não exige uma pergunta. São a saudade de andar pelas ruas de braço dado e de chamadas noturnas sem minutos. São a saudade de rir até doer a barriga e de falar até o sol nascer. Vocês são a saudade de tudo o que passou, a saudade de tudo o que agora há, a saudade de tudo o que ainda virá. São o desejo do para sempre, o antónimo da efemeridade; a completude do tudo, a negação do nunca. São a saudade de casa. Se houver um bom tipo de saudade - aquele tipo de saudade que sentimos num pôr do sol de fim de verão - vocês são a sua materialização. E eu sei - o Harry Potter ensinou-me - que toda essa saudade, que é só amor em forma de balão de ar quente, faz com que vocês nunca me deixem, com que estejam sempre comigo. A vossa presença na minha vida é astronómica e é completamente inconcebível para mim existir sem vocês, que se alojaram irreversivelmente em todas as partes de mim que são melhores por vossa causa. Por isso, mesmo que eu tenha falhado catastroficamente no discurso de garagem, e mesmo que não o diga tanto quanto devia, eu espero que vocês saibam o quão inumanamente feliz eu sou diariamente por poder ter o privilégio de vos encontrar em áudios de 8 minutos, na minha caneca favorita, em qualquer comida sem queijo, em conversas com os meus pais, na paz do mar e na serenidade das montanhas, em sombras de olhos brilhantes, em chamadas recentes do atendedor, em reclamações matinais, e em todas as conversas sérias e menos sérias, confianças e inseguranças, sentimentos confusos e claros e memórias exponencialmente mais caóticas e bonitas e inesquecíveis por serem completamente nossas e que vão existir indefinidamente no universo - porque o amor nunca morre, espalha-se pelas estrelas que são tuas, Leonor, e reflete-se na tua lua, Luana. Falham-me de novo as palavras, por isso manter-me-ei por algo simples: gosto mais de vocês do que de Harry Potter. E se isso não for suficiente, então acrescentarei: eu abdicaria de toda a magia do mundo em troca de uma vida de muggle em que vocês estivessem sempre comigo. Porque, na verdade, eu experiencio magia todos os dias, então sei que ela existe. Sei que tenho a sorte de ser um terço de uma amizade mágica. De um amor universalmente mágico que me faz sentir saudades vossas mesmo quando estão pertinho de mim. E deixem-me que vos diga: que universo tão real e perfeito (afinal é possível) em que existe magia no mundo, e essa magia são vocês.
- Em ti eu penso
(Desabafos de uma corna) Penso logo existo Por isso preferia não existir Porque quando penso, sinto E quando sinto, sinto por ti E sentir é um peso no peito É um ardor e uma mágoa sem fim Quem me dera a mim ser como tu Que nada sentes por mim Mas eu finjo que não reparo (Com doces palavras já te menti) Mas viver neste desamparo É de longe demasiado ruim E eu tento remediar este defeito Consertá-lo, juro que sim! Bastava que não me olhasses desse jeito Que já não precisava de agir assim… E tu em nada reparas Recusas-te a ler nas entrelinhas E por isso nunca te deparas Com as minhas pequenas mentiras E mesmo assim eu aceito Aceito mesmo! Já desisti… Sei que nem todos temos um final perfeito De todo espero isso de ti Pena: porque em ti eu penso Penso até estar fora de mim Penso até sentir aquilo Que gostava que sentisses, mas enfim... 31/08/2023
- Troca-pés
à mesa de jantar estou com o meu apetite pelo meio mas é a fome do teu olhar que me prende e me faz erguer a boca do prato para poder em ti repousar por ti não me importo que o tempo nos escape ou que o frio nos congele sei que no teu conforto tenho todo o tempo do mundo e todo o calor do teu amor nunca pensei que as cores se pudessem avivar ou que o sol pudesse brilhar tanto mais com a tua presença que um perfume me pudesse cativar ou que uns lábios me pudessem enclausurar tanto quanto é bom te amar aos poucos vamos despertando enquanto aos poucos vou percebendo que o meu sonho bom continua a meu lado que não foi uma ilusão dos meus olhos cansados eis a minha eterna benção poder cair, esfolar os joelhos como uma criança apaixonada sabendo que tu desinfetarás com doces beijos as minhas feridas tontas de amor em cada morango te provo em cada chocolate te sinto como é tão doce te ter derreter me em ti mergulhar nos teus olhos e de lá não sair abro a janela gosto de ver os teus cabelos ao vento gosto de sentir o teu perfume gosto de acordar e voltar a sonhar só por te ver só por te cheirar só por te amar
_edited.png)










