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  • Mente-me, que eu gosto

    Querido Xavier, Todas as mentiras têm um pingo de verdade. É isso que as torna tão perigosas: as mentiras nunca são totalmente mentira. Mas as tuas são diferentes, deixam um sabor doce na boca e não aquele trave amargo tão característico. Acho que é a maneira como quase me consegues enganar que me encanta, sempre que me olhas nos olhos e lanças as tuas palavras como flechas na minha direção. A tua pontaria não é perfeita, sejando sincera, nunca foste ótimo no tiro ao alvo, e muitas vezes falhas completamente o centro. Eu finjo que não noto, porque também não sou excecional neste jogo, embora seja de longe melhor do que tu. Por isso, proponho que continuemos a disparar tiros no escuro e contemos quem acerta mais vezes, quem perde primeiro: o certo é que sairemos aos buracos, sempre com algumas partes do outro e com menos partes de nós. E assim eu oiço-te, miro-te, concordo com o que dizes, finjo-me de surpresa. Riu um pouco, porque é a minha vez de dar espetáculo: é a minha vez de atuar nesta tragédia. E que belo papel que faço, uma performance impecável - afinal, a prática leva à perfeição. Talvez a minha verdadeira vocação fosse o teatro... E tu ouves-me, miras-me, concordas com o que digo, finges-te de surpreso. Ris-te um pouco. Vejo que também conheces bem a arte da sedução, além de gostares de mentir à descarada. E assim dançamos: um passo em frente, dois ao lado, agora eu dou uma volta. Uma pausa. Um sorriso. Um olhar. Talvez não seja tão mau assim, viver no conforto da incerteza. Observas-me e estudas-me por mais um momento, medes-me de cima a baixo, imitas o que eu faço como se fosses o meu reflexo num espelho. E eu faço o mesmo contigo: fico reduzida ao reflexo de um reflexo, algo que gostaria de ser e não sou. E depois falamos. Falamos muito, porque contigo as conversas são sempre longas e as noites demasiado curtas e quentes: o verão é a altura ideal para as conversas de café que não têm nada a acrescentar. Tu falas, pouco dizes. Felizmente para ti, eu tenho sempre tanto para contar. Gosto de pensar nisto como uma troca inocente de presentes, em que cada um dá o que pode oferecer. E, se um dia, durante o nosso cochichar, no meio deste câmbio de ideias e segredos, procurasses a minha sinceridade - se um dia eu quisesse ser sincera – dir-te-ia: lá no fundo, nos recônditos do meu coração, eu até gosto das tuas mentiras, porque sei que a tua verdade não será tão agradável aos meus ouvidos. E, se um dia, procurasse a tua sinceridade - algo que dificilmente ainda sabes usar - dir-me-ias que gostas daquelas que eu te conto, que te trazem conforto para a alma e alegria para o espírito. Por isso, acho que talvez não sejamos uma causa totalmente perdida, e só um caso extremamente difícil: uma dinâmica demasiado requintada para os olhos alheios do mundo compreenderem. Mas, e se formos? Bem, nesse caso, é como toda a gente diz: pelo menos, só se estraga uma casa. Ontem, sentados nos degraus à porta do meu prédio, sussurraste-me ao ouvido, enquanto eras invisível ao mundo e só o vento te conseguia ouvir: "Amo-te". As palavras enganam, mas os olhos não mentem. E eu ri-me, como sempre: "Aí, Xavier, mente-me. Mente-me, que eu gosto." Penélope.

  • Qual é o fim último de ser?

    Qual é o fim último de ser? O que nos amarra a um comportamento específico, a lutar por uma certa ambição, a combater os pensamentos e a atirarmo-nos de cabeça a um pensamento? Não é o desejo de ser, é o desejo de pertencer. De que resta saber tudo, ser mais educado, mais correto na forma de agir, se não temos ombro para chorar ao fim do dia, se não há ninguém que celebre connosco. O mundo não aplaude as diferenças, o mundo pressiona-nos a ser iguais, como uma marca, marca de telemóvel, tirar a carta aos 18 anos, média de 15, roupa impecável e de preferência não uses essas calças mais do que 3 vezes, à 4ª já vão notar que só te restam 6 pares no armário e não vai parecer suficiente. Para ti não é suficiente, porque comparas, ele é mais bem sucedido e aquele tipo de calças fica melhor a raparigas como ela. Não nos compreendemos, não queremos ver os outros, queremos ser iguais aos outros, de preferência um pouco melhores, para que sejam os outros agora, a querer ser um bocadinho melhores do que nós. Tem de ter impacto, é preciso que vejam que cheguei atrasado, estaria a dar demasiada importância ao momento se chegasse à hora exata, o que é que iam pensar? Que eu estava desesperada! Não, não devem ver-me, tenho de vender a minha imagem, estou serena e isto não me afeta. Não poderia afetar-me, é menor do que eu. Afinal, este é o meu mundo, eu defino as regras, as regras que os outros também definiram e que usamos para nos compararmos uns aos outros, que usamos uns contra os outros. Porque eu também me atraso, seria incapaz de vos acusar, se também eu fosse perfeita. Ou talvez o desejo que temos de todos sermos perfeitos, é o que nos leva a acusações. Qual é o fim último de ser? O que nos amarra a um comportamento específico, a lutar por uma certa ambição, a combater os pensamentos e a atirarmo-nos de cabeça a um pensamento? Não é o desejo de ser, é o desejo de pertencer.

  • A JMJ e a máquina do tempo

    Em Lisboa, de 1 a 6 de agosto, decorreram as Jornadas Mundiais da Juventude, das quais tive a alegria de participar. A cidade sofreu a infestação de milhares de jovens que ressignificaram as suas ruas, os seus pontos turísticos e o seu dia-a-dia. Convívios, espetáculos de dança, passeios, exposições e eventos de grande escala levaram com que jovens de polos opostos no mundo conhecessem uns aos outros, em encontros inesperados. Por outro lado, a meio de todo o barulho e da excessividade de pessoas por metro quadrado, parecia percorrer uma leve brisa, que procurava tocar o coração de todos os presentes. A felicidade genuína no rosto dos participantes combinava com o ressoar das palavras do Papa no sentido de ajudar cada um no seu encontro pessoal com Cristo, em um caminho de descoberta do seu verdadeiro Eu. Sei que estas palavras podem parecer estranhas, seguramente atemporais. Isto porque, nos dias de hoje, não é normal ser católico. É demasiado arriscado escapar das circunstâncias e tendências deste tempo, de uma sociedade cada vez mais volátil, das aparências, lobby de uma felicidade de supermercado, para aderir à beleza de um acontecimento que teve a sua origem há mais de 2.000 anos. Por que 1,5 milhão de pessoas se deslocariam a Lisboa para ouvir um homem idoso, rouco e de cadeira de rodas a falar? Por que se ajoelham perante um mero pedaço de pão? Só podem ser loucos. Atualmente, ser católico é ser louco, ser radical. Partindo desta mesma perspetiva, nota-se que o evento sofreu muitas críticas. Por que o Estado vai gastar tanto com as Jornadas? Para que gastar sequer? São perguntas válidas, razoáveis de serem feitas e discutidas, muito embora estudos apontem para um enorme retorno financeiro para o país, além da projeção internacional de Portugal como um país global e capaz de abrigar um evento de tão grande escala. Também se questionou dos mais de 4.800 abusos cometidos por sacerdotes em Portugal nos últimos 70 anos. Trata-se de atos praticados por seres abomináveis, que se revestem da Palavra de Deus para agir de uma forma que não poderia estar mais distante Desta. É dever de uma geração ativista fazer memória destes factos e cobrar uma postura mais ativa e “imperativa” da Igreja em relação ao assunto. Mas aonde será que está essa geração ativista? Creio que muitos dos críticos em relação ao evento não puderam acessar uma outra ótica, decerto menos popular. O Papa Francisco veio trazer palavras simples e progressistas, para todos os jovens que se julgam fazer parte de uma geração ativista. São palavras que, penso eu, mostram-se capazes de modificar a imagem da Igreja que há muito tempo perdura no imaginário popular: uma instituição velha, engessada, que não responde às questões do presente. Durante os 5 dias que passou em Portugal, o Santo Padre apontou à necessidade do combate às desigualdades sociais, especialmente no acesso ao ensino superior, à emergência de uma ecologia integral, denunciando uma produção industrial irresponsável e imediatista e à uma Igreja universal e acolhedora que aceita Todos (Todos, Todos). Não obstante, dsta multitude de problemas, veio realçar um ainda mais grave: o facto de que muitos de nós deixamos de ser jovens. Nos nossos núcleos de amizade, no estudo, em questões políticas, com a família, procuramos teimosamente por respostas a perguntas que nunca foram feitas; perguntas que surgem de qualquer lugarzinho medíocre que não do nosso coração. E nisto nos conformamos, lutando por sonhos artificiais. Passamos então a viver em contínua nostalgia, desejando um futuro que já é passado, ou ainda, um futuro irrealizável; raiz da profunda melancolia que nos assola. Seduzimo-nos pelos nossos confortáveis sofás, nos quais visualizamos o passar da nossa vida através de uma televisão. Assim, em um piscar de olhos, tornamo-nos velhos rabugentos, próximos do deletério fim da nossa vida. Para isso que o Papa alerta: “Preocupamo-nos antes quando estamos prontos a substituir a estrada a fazer por uma paragem em qualquer estação de serviço que nos dê a ilusão de conforto”1. Junto com todas as suas frases que estão a circular pela internet, surgem reflexões e ensinamentos acutilantes, diante das quais devemos procurar receber de braços abertos, ao invés de fechar os nossos ouvidos a qualquer afirmação que nos incomoda. Se nos incomoda é porque diz respeito a nós mesmos. Dilatando os meus ouvidos, percebi que está na hora de iniciarmos um caminho: largarmos os comandos que nos entregam um conforto pré-definido e deixarmos com que sejamos feridos pela Beleza da realidade, por tudo aquilo que é prenhe de significado. Neste percurso, pode haver percalços, tropeços e acidentes, mas o mais importante é nunca permanecermos caídos. Este é o nosso derradeiro destino: cansarmo-nos, cairmos, levantarmo-nos. Um constante recomeço, mas sempre fora do sofá. E que nunca esqueçamos dos outros, verdadeiros irmãos, já enrugados e cheios de problemas nos joelhos, que permanecem no sofá: precisamos de erguê-los, a fazer memória de que “o único momento em que é lícito olhar de cima para baixo uma pessoa é para ajudar a levantar-se”2. Assim, após um longo tempo sentado no sofá, apareceram na televisão da minha vida, no seguimento de um curto-circuito, o Papa Francisco e mais de um milhão de jovens, que em conjunto, vieram propor a realização de um caminho. Subitamente aprendi que trilhar esse caminho é a única máquina do tempo capaz de me fazer voltar a ser jovem. 1. Encontro com os jovens universitários 2. Vigília com os jovens

  • ansiedade do ser e do estar

    Coração, pára de bater. Peço-te. Imploro-te. Parece uma bomba-relógio. Tique-taque-tique-taque-tique-taque-tique-taque. Explodirás algum dia? O meu corpo não aguenta o barulho que fazes. Pim-pum-pim-pum. Queres gritar, abrir-me um buraco no peito, esventrar-me até às entranhas. O estômago faz o mesmo. Dói-me tudo. Posso abdicar de ter órgãos? Quero abdicar do ser e do estar, da burocracia de respirar, que por si só já se começa a revelar uma tarefa pesada. Não aguento, tenho a boca seca, tenho de beber água. Pego na garrafa, está vazia, foda-se. Tenho dentro de mim toda a maquinaria existente, trabalha vinte e quatro horas sem parar sem qualquer manutenção de tal maneira que Álvaro de Campos olharia para mim e exclamaria todas as onomatopeias que o seu vocabulário alguma vez poderia encontrar. Pulmões, tenho pulmões, tenho mais pulmões do que aqueles que se aprende em anatomia. Ou o raio que a parta. Ansiedade que vive dentro de mim como um feto que nunca nascerá, cala-te. Não aguento tal, mas tenho de escrever, escreve escreve escreve. Só um exorcismo resolveria isto. Mas provavelmente nem Satanás alguma vez viu alguma coisa assim. Tenho mensagens para receber, jantares para ir, planos para ir, matéria para estudar, sítios onde tenho de estar, não te atrases, vai, não vás, mas se não fores sentes-te mal. Ainda me dói o estômago. Quero ir à sanita vomitar os meus pesadelos, até querer continuar a vomitar mas não ter absolutamente nada empírico, físico, palpável no estômago. As horas passam, viras e reviras na cama, não vais adormecer, são duas da manhã e não vais adormecer e amanhã vais sobreviver à base da má vontade e do café e dormir é uma tarefa tão difícil porquê? É só fechar os olhos, fecha os olhos, não te mexas, pode ser que adormeças, mas já passou uma vida inteira e tu nem dormir consegues. Três quatro cinco da manhã, vírgulas para quê, se estás preso no teu próprio ser? Mas também não sou Saramago para ter a pretensiosidade de não usar vírgulas. De quem me fui lembrar. Se Saramago ainda caminhasse neste planeta, dir-lhe-ia que gostei do Ano da Morte, pedir-lhe-ia desculpa pela ignorância dos bonecos que nunca se deram ao trabalho de ler um dos seus livros, jurar-lhe-ia ler tudo o que ele escreveu até morrer. A psicóloga perguntou por aquilo que mais me incomoda. E eu respondi: a mim incomoda não ser omnipotente para poder fazer ler ver saber tudo. E ela esbugalhou os bonitos olhos verdes. Não ouvi o que disse a seguir. Mas sei que ela esbugalhou os bonitos olhos verdes, (mataria para ter nascido com eles), e suspirou. E eu, dentro da minha cabeça confusa, lembro-me de pensar que ela me mandou mentalmente à merda.

  • Soneto da Cabra/Haiku do Cabrão

    Soneto da Cabra Passei por Santos, Mamei uns betos, Quantos? Seiscentos. Deixei-os retos. Que seca Absoluta. Sou boneca, Mas sou – Os conservadores estão errados mas não podem estar completamente errados Eu não sinto nada por eles quando eles me sentem o corpo todo não quero ter mamas Quando me. Entram. Eu mal respiro a culpa é minha a culpa não dos meus namorados Quero atenção não quero amor quero amor não quero atenção quero mais do que camas Eu odeio estas noites hipnóticas. As mulheres são tão eróticas. Haiku do Cabrão Quero-a tanto. Como é ser um palco? Invejo-a tão.

  • À minha frente sentava-se uma mulher

    À minha frente sentava-se uma mulher em cujas rugas se inscrevia o cansaço de muitas décadas de vida, mas também a reflexão face à mudança dos tempos que apreendia ao observar o seu redor. Notavelmente religiosa, não tivesse esta a cabeça coberta por um longo lenço que contava cinco voltas em torno de si mesma e, ademais, uma camisola excessivamente comprida com o rosto de “nossa senhora de algures” impresso, observava expressivamente o desenvolvimento da segunda geração depois de si. Os cabelos longos ou curtos ao descoberto, de cores diferentes e chamativos. Os decotes, costas abertas, saias acima dos joelhos e não abaixo como foi costume outrora. Enfim, uma cambada de heresias destinadas a chamar a atenção, mas que, no fundo, desejava, ela própria, que nos seus tempos tivesse tido a liberdade de se expressar de tal forma, afastando rapidamente esse pensamento com receio de pecar. Não, prefiro viver humildemente. A minha vida foi dura, mas, pelo menos, sempre tive o conforto de saber que Deus tinha um desígnio guardado para mim, coisa que os jovens, hoje, dificilmente conseguem afirmar. Encontram-se desviados. É uma pena, julgava ela. E, de facto, é uma pena que o fim dos papéis sociais opressivos tenha gerado, por fim, uma crise existencialista profunda que se abate sobre os mais novos que, hoje, podendo identificar-se com qualquer coisa acabam por não se identificar com nada, questionando frequentemente a sua razão de ser.

  • Nota à comunicação social - Professor Jorge Bacelar Gouveia

    Ministra do Ensino Superior e Inspeção-Geral da Educação e Ciência declaram ilegal o uso apenas em inglês do nome da Faculdade de Direito da Nova, numa decisão que terá consequências sobre todas as instituições de ensino superior que se denominem somente em inglês, como sucede com boa parte das unidades orgânicas da Universidade Nova de Lisboa. 1. Na sequência de queixa por mim apresentada à Inspeção-Geral da Educação e Ciência em 10.5.2021, este organismo entendeu - através de parecer emitido pelo inspetor em 28.7.2921, com declaração de concordância com o mesmo por parte do Chefe da Equipa Multidisciplinar do Ensino Superior e Ciência do dia seguinte, documento estranhamente homologado pela atual Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior só em 4.7.2023 (dois anos depois...) – que a utilização exclusiva do inglês na denominação da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa (FDUNL) é ilegal. Com efeito, esse comportamento viola o art. 10°, n° 1, do RJIES (Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, aprovado pela Lei n° 62/2007, de 10 de setembro), em cujos termos "] – As instituições de ensino superior devem ter denominação própria e característica, em língua portuguesa, que as identifique de forma inequívoca, sem prejuízo da utilização conjunta de versões da denominação em línguas estrangeiras". 2. Ora, no caso da FDUNL, esta infração não podia ser mais óbvia compulsando os seus Estatutos, nos quais se diz, expressis verbis, que "A Faculdade adota a designação de «NOVA School of Law» em língua inglesa" [art. 1°, n° 5, dos respetivos Estatutos, Despacho n° 9852/2022 do reitor da Universidade Nova de Lisboa (UNL), publicado no DR, 2ª série, Parte E, n° 153, de 9 de agosto de 2022, pp. 205 e ss.]. Problema maior será o facto de esta ilegalidade, agora declarada, afetar boa parte das unidades orgânicas da UNL, as quais - embora tal sendo negado a título oficial, mas com "pouca habilidade" – não só deixaram de se nomear em português, usando exclusivamente abreviaturas/acrónimos em inglês, como qualquer sua alusão em português nem sequer consta já dos correspondentes sítios eletrónicos, documentos oficiais ou redes sociais. Diga-se ainda que este imbróglio se avolumará quando se souber que nenhuma das designações "anglófonas" de unidades orgânicas da UNL consta do registo que as instituições do ensino superior mantêm na Direção-Geral do Ensino Superior, na qual são unicamente registadas em português, ilegalidade essa que pode conduzir ao cancelamento da respetiva inscrição. 3. Depois desta decisão, espero bem que as entidades que tutelam a legalidade em Portugal – a legalidade democrática em geral e, sobretudo, a legalidade universitária - atuem sobre aqueles que são os responsáveis por tais condutas antijurídicas (inconstitucionais e ilegais), ou que foram coniventes com a sua difusão e execução. Além do mais, mesmo que isso que não fosse inconstitucional ou ilegal, num país que tem como língua oficial o Português (tal como se diz no art. 11°, n°3, da Constituição ou no art. 54° do Código do Procedimento Administrativo), que é a 5ª língua mais falada do Mundo, esta seria sempre uma atitude "antipatriótica", fundada, aliás, no raciocínio demasiado "elementar" de que a internacionalização universitária se pode fazer, algo magicamente, com a simples mudança da nomenclatura das instituições de ensino superior para inglês. Recordo, a este propósito, que por razões de preservação da identidade nacional começa a surgir legislação que impõe limites ao emprego de línguas estrangeiras na lecionação de cursos superiores, como sucedeu nos Países Baixos, assim como vai sendo prática - na Alemanha, por exemplo - obrigar que a língua nacional seja falada por pelo menos metade dos oradores em colóquios internacionais. Da minha parte, além da vigilância contínua, fica a promessa de vos oferecer, a breve trecho, um livro científico sobre este assunto. Lisboa, 20 de julho de 2023

  • Sonhos de menino

    Sonho 1 Hoje sonhei que estava a ver uma série com a minha família. Depois estava na ilha da série, em que havia um asilo, mas eu era simultaneamente eu  e uma das personagens, uma criança. Estávamos a correr pela ilha, numa cena pastoral idílica, e chegámos a uma casa, e quando entramos estava lá o pai dela (e o meu, simultaneamente). Mas o pai só parecia o pai na visão periférica. Ele visto de frente era um lobo gigante esquelético, quase só pele e osso. Ele atirou-se violentamente contra ela/eu e olhou para nós, farejando-nos. Saiu de cima de nós e entrou numa sala. Da sala saíram 5 raparigas jovens, eram pessoas que eu conhecia, uma era ****  e a outra era a minha *****. Eu estava num canto, encolhido e elas passaram num corredor, a minha ***** viu-me, sorriu-me e acenou, antes de três delas entrarem numa sala. Uma das restantes entrou na casa de banho com o pai/lobo. A outra olhou pra mim e disse "Lembra-te, o Professor não olha, nem fala, nem reconhece a Professora" e depois entrou na sala. Vi pela janela uma sala onde estava uma senhora, a presumível professora. A casa de banho era a única divisão que tinha a porta que dava para a rua. Eu/ela entrámos a correr na casa de banho, saí porta fora e corri pela minha vida. Acordei enquanto corria. Sonho 2 Hoje sonhei que ainda estávamos na gala. Mas algo mudou e de repente estávamos dentro de um complexo gigante, parecido à estrutura do El Corte Inglês, mas todo branco. Não havia saídas. Apareceram os nossos anfitriões, homens cobertos dos pés à cabeça de preto, que nos explicaram que isto era meio uma experiência social, e que íamos ficar ali presos para sempre. Muitos de nós começaram a tentar fazer paz com o fim das suas vidas enquanto a conheciam. Passou algum tempo. Estava a um canto com a ** e outras bichas e estávamos a discutir por causa de algo. Apareceram esses homens atrás de mim, do nada. Eles apareciam e sumiam do nada. Eles fizeram meio que um teatro improvisado on the spot, e nuvens apareceram. Narraram e explicaram que havia algo muito grave que eu tinha feito no passado, algo que estava profundamente errado comigo. No meio dessas nuvens, estava um espaço vazio, negro, que representava esse algo que eles não especificaram. Eu acho que era sobre doença mental. No final, deram-me asas de anjo, e depois substituíram-nas por asas pretas. Essas asas caíram ao chão. Depois disso, as bichas ficaram a olhar-me de lado, então fui-me embora. Noutro canto, passado uns tempos estava deitado num banco de jardim, lembro-me que a *** e o ****  estavam lá e mais algumas pessoas. Alguém comentou que já que o 4º ano não ia embora, porque estávamos presos lá, eles iam fazer a edição física do próximo ano. A *** olhou para mim e disse "António, precisas de maquilhagem" e sacou de um estojo e começou a pintar-me. Ela disse "é que a tua cara precisa um bocado...." O **** interrompeu e disse "não és giro". Alguém comentou alguma coisa sobre o *********, e ficaram a falar dele, até que a *** disse "pois, o ********* tem imensa facilidade em arranjar raparigas, nem tem de se esforçar, enquanto que o António bem se rói e tenta mas falha sempre". Fui-me embora. Comecei a andar numa direção e não parei. Andei e andei, até estar de volta aos jardins de Torres Vedras. Era noite e o céu estava cheio de estrelas, o espaço branco desaparecera. Encontrei uma trotinete elétrica, peguei nela e comecei a andar por aí, a velocidades incríveis. Foi excitante. Quando parei, acordei.

  • Um saco de pão

    Estou na cama que nunca foi minha, mas que verão sim, verão não, se torna mais do que minha durante alguns dias. O quarto é frio devido à construção rasca das paredes. Ao menos está decorado a teu gosto, com memórias da tua vida e algumas da minha, ainda que eu só tenha entrado em cena há 6 anos. Viro-me para o outro lado e deparo-me com molduras pousadas na tua mesa de cabeceira, à espera de serem penduradas, ainda que, aquele pareça ser o lugar delas. Reparo que tens uma foto dos primos e outra minha. A foto mais escondida é a do teu próprio marido, do amor da tua vida, ultrapassado pelos novos amores que foram surgindo por meio da família que criaste. Gostava de ter o teu apelido, mas ele morreu contigo. Entras na divisão e convences-me a sair da cama, prometes que faremos pulseiras com as missangas que tens guardadas, debaixo da sombrinha da figueira, e que me ensinarás a costurar. Cumpres sempre com as tuas promessas, então levanto-me mais depressa que as velhas que terminam a peregrinação de joelhos pela faixa do chão de Fátima, ansiosas por se sentarem com gelo nas dobradiças, satisfeitas com a audição das suas preces. Reparo que estamos a comer o meu almoço favorito há três almoços seguidos. Digo-te que não me importo de comer o peixe que o avô tanto gosta e abandonar os hambúrgueres com batatas fritas, ainda que os teus sejam os meus preferidos. Respondes que ele está tão velho e gasto que aquelas papilas gustativas já não conseguem diferenciar peixe de carne. Na minha inocência, rio-me, mas sei que se o avô não estivesse tão atento às notícias, teria-se levantado em direção ao congelador e teria apanhado o último gelado, enquanto te assombrava “SE O VELHO JÁ NÃO SABOREIA, ENTÃO DIZ-ME LÁ SE ISTO NÃO É GELADO DE MORANGO!”. Mal saberia ele que, sempre que chegava a semana de eu vir para o campo, tu nunca compravas de morango, era sempre de chocolate. Continuamos o almoço, embebidos em paz e harmonia, no ruído da reportagem que passa na televisão e no cheiro de roupas antigas, que tinhas para passar a ferro de seguida. Ouço a buzina estridente do padeiro e pergunto-te se meteste o saco no portão para receber as bolinhas de pão. A resposta é afirmativa. aliás, quem serias tu se não tivesses pedido pão. Saio disparada da mesa (sei que foi falta de respeito, mas era uma emergência), em direção às portadas amareladas, e pego no saquinho já cheio. Agradeço mentalmente à mãe do padeiro por ter posto na terra o homem dos meus sonhos, e volto a correr para a cozinha. Ultrapasso o cão, que espera ansiosamente por comida, mas compadeço-me por ele e dou-lhe um pedaço de pão, ainda que hoje em dia saiba que há maravilhas gastronómicas que não são apreciadas por cães. Continuo a minha corrida, alcanço a cozinha, mas a luz está apagada. Não há sinal, nem de ti, nem do avô. Eu jurava que tinha corrido o mais depressa possível, para onde é que vocês foram? Os pratos com restos de comida continuam em cima da mesa, a máquina de café está ligada, mas não há vestígios de café nas vossas chávenas. Acho estranho, mas vou até à figueira ver se foste mais rápida que eu e se já começaste as nossas pulseiras. A figueira está rodeada de ervas daninhas, tem ramos cortados, e não vejo um único figo. Penso que talvez esteja a alucinar e, por isso, vou até ao galinheiro ver se por acaso foste dar os pães antigos, demolhados em água, aos animais. Não ouço o galo, mas entro à mesma no espaço. Assusto-me e penso que é impossível estar a imaginar coisas. Claro que a mente de uma criança está constantemente no pico da criatividade, mas era demasiado real para ser imaginado. Olho para o chão, e para surpresa minha, vejo que já não tenho os meus ténis rosa com luzinhas que tu tanto elogiaste, até disseste que querias uns iguais. No lugar deles vejo umas botas pretas, pesadas demais para serem suportadas pelos meus pés de menina de 6 anos. Começo a sentir-me zonza e dirijo-me à casa de banho. Olho, a medo, para o espelho, enquanto lavo a cara com a água fria corrente. Aquela não sou eu. Não posso ser. Seco a cara à pressa e vou até ao telefone fixo. Marco o número da mãe e ela atende com o tom mais preocupado que consegue encaixar na sua doce voz. “FILIPA, FILHA! FINALMENTE! ONDE É QUE TU ANDAS?” Franzo as sobrancelhas e cerro os olhos enquanto a ouço disparar frases exclamativas e interrogativas em simultâneo. Penso: “mas que raio, como assim onde é que eu ando? Vim passar uma semana a casa da avó…”. Até que levanto o olhar para a parede à minha frente. Um calendário com o ano “2023” encabeçado a negrito deixa-me estática. O telefone escapa-me da mão direita, perco a força nos dedos da mão esquerda, o saco de pão solta-se, e

  • Lista da Redação, da Coordenação e da Direção - Ano Letivo 2022/2023

    Redatores Do 1º Ano: Beatriz Diogo; Beatriz Rodrigues; Francisco D'Orey; Francisco Jesus; Inês Fonseca; Joana Moreira; Leonor Baptista; Letícia Mendonça; Margarida Raposo; Maria Eduarda Meneses; Mariana Carvalho; Marta Fernandes; Mateus Rego; Nuno Ferreira; Pilar Passos; Riccardo Noronha; Sara Pinto; Simão Costa; Sofia Batista; Sofia Silvério; Taavi Medeiros; Ved Bagoandas. Do 2º Ano: Ana Beatriz Reis; António Subtil; Beatriz Geraldi; Beatriz Pereira; Carolina Correia; Carolina Sacavém; Fábio Pereira; Filipe Ferreira; Guilherme Sousa; Hugo Mendes; Inês Costa Graça; Isabel Costa; Joana Almeida; Luana Fernandes; Luís Lobo; Maria Leonor Simão; Rafael Guerra; Rafael Santos; Rita Esteves; Simone Silva; Sofia Dias; Sofia Paulino; Tiago Monni; Zulficar Silva. Do 3º Ano: Beatriz Mello; Diana Pry; Diogo Simões; Inês Brazão; Luís Miranda; Neuza Lopes. Do 4º Ano: Pedro Serra; Raquel Lopes. Externos: André Neves. Coordenadores Beatriz Rodrigues, Coordenadora dos Podcasts; Francisco Jesus, Coordenador da Comunicação; Rafael Santos, Coordenador do Clube de Leitura. Direção Isabel Costa, Diretora; António Subtil, Diretor-Adjunto; Hugo Mendes, Diretor-Adjunto; Sofia Dias, Diretora-Adjunta.

  • Como é que voltamos atrás?

    Como é que voltamos atrás? Como é que vivemos com o que já sabemos E sabemos que não podemos usar? Como é que se volta ao “normal”? Se o normal deixou de ser uma palavra E tudo o resto parece diferente? Se a vida já teve cor, Como é que voltamos a tons de cinzento? Como é que voltamos a uma rotina A uma rotina onde nenhum de nós existe, A um espaço no tempo em que nos temos de apagar E viver o amanhã a esquecer o ontem? Como é que se continua? Será que sequer é possível? Passar num relvado e ser só verde, Não ser nenhuma daquelas coisas que representa? Não ser um sorriso ou um abraço, Não ser uma canção, nem um silêncio Ser apenas o que realmente é, Um espaço infinito de verde. Como é que voltamos atrás?

  • Logo Se Vê - melopeias

    Track 1 - Jeito Pra Tudo Melopeia : A essência do ser humano só por ele pode ser criada. Sendo algo intrínseco a cada um e formulado como e conforme cada qual, não deixa de ser curioso quando se ouve “tens jeito para x” ou “tu brilhas ao fazeres y”. Fui eu que criei “o meu jeito” e só os outros o conseguem ver. Estúpido, não? Eu dei-lhe comida, água, até a mão para atravessar a estrada, porém, ele é um filho (quase) rebelde, que prefere ver a minha cara zangada ou confusa a ver-me satisfeita com os seus atos. Afinal, é sempre mais divertido mudar de ar (ao espelho) a cada ano, do que se manter estável, ou não? Como é que eu digo ao “meu jeito” para descansar e deixar-se simplesmente ser quando nem a sua dona o é? Dizias que eu tenho jeito para quê, desculpa? Ahhhhhh Abro os olhos Já meio cansado de acordar Eu não quero, eu não quero ver Mais um dia a se perder Vou-me desculpando E deixando tudo pra depois Eu não quero, eu não quero ver Uma vida a se perder Jeito pra tudo, jeito pra nada Mas por enquanto vou ficando por casa Dá-me um beijo, não me sinto tão bem Mas isto são fases, isto vai e vem Jeito pra tudo Tanto jeito que não serve pra nada Quando centro, as minhas forças Na coisa errada Mais uma semana de frio Mais um espaço para o vazio Mais um almoço precoce Ou um pequeno-almoço tardio É que o tempo passa, a vida corre Já não vais pra novo, faz o que te comove Não deixes esmorecer (Eu não quero, eu não quero ver) Eu não quero ver A minha vida a se perder assim Devagarinho caminho para o fim E vai-se esgotando a fé que tenho em mim Deixa-te estar A quem é que tens de provar Dá tempo pra continuar E hoje mereces descansar Track 2 - Aparentemente Melopeia: Se olhares com atenção, há a não tão ínfima possibilidade de captares um sorriso no rosto da Mona Lisa. Não há evidências de tal, porém eu gosto de crer que a feição dela muda aos olhos de cada um, para se aproximar mais daquilo que a pessoa sente e servir de choque térmico de realidade. Há quem morra de choques térmicos. Aparentemente uma vida normal Mais leve que as outras Mas de resto tudo igual Aparentemente uma casa normal Com vista para o mar, lá do terceiro andar E um pouco mais central Aparentemente uma miúda normal Mais inteligente, bonita, diferente Mas de resto tudo igual Aparentemente uma vida normal Deixa de ser aparente, quando olho para a gente Fora do meu pedestal Fui acertando em todas as chaves Destranquei a sorte Viciada para o meu lado Num caminho enviesado Já jogo sem querer ganhar Continua a me calhar A vida tranquila que quis O mundo conspira pra me fazer feliz Procuro e ela não se esconde de mim Há quem não tenha a sorte de ser assim Pistas elaboradas Evidencias escondidas No fundo da estrada, errada A inquietação Torna o desespero a solução E eu na minha paz A leste do que o mundo traz Olho o espelho inocente Vejo aparentemente Uma vida normal Uma vida normal Uma vida normal Fui acertando em todas as chaves Destranquei a sorte Viciada para o meu lado Num caminho enviesado Já jogo sem querer ganhar Continua a me calhar A vida tranquila que quis O mundo conspira pra me fazer feliz Track 3 - Luz Do Túnel Melopeia: Preciso de um momento para assentar. Sinto-me num loop constante entre o jogo da “cabra cega” e o jogo do “macaquinho do chinês”. Perguntas-me o que é que estes têm em comum. Tanto a cabra, como o macaco, são obrigados a ver- sem ver. Uma quase reencarnação do “Ensaio Sobre a Cegueira”. A parte positiva é que, eventualmente, se vive em paz com a cegueira ou se aprende a ver para além de ver. Se deixar de ver a luz, a escuridão passará a ser a minha melhor amiga e passarei a ver nela a luminosidade possível. Ultrapassar, andar, correr, saltar, mover. Sair de onde estou para (1) não criar raízes e (2) ter a possibilidade de ver flores de cores diferentes florescer (3) pelas mãos da mesma jardineira, que com certeza não foi feita para cavar buracos na terra, mas aprendeu a fazê-los na areia da praia, com auxílio de uma pá azul e um balde amarelo. Ah, escuro outra vez ‘Tava tão bem visível o caminho Que tinha de tomar Era só continuar Tenho uma queixa a fazer A quem quer que esteja lá no fundo do túnel a mandar A luz não para de alternar Falsa esperança que me deixa a alucinar Já perdi a conta das vezes, vem Uma mágoa aguda só de pensar Nos caminhos às cegas Que a luz me fez tomar Já me perdi, encontrei Tive em sítios que nem sei Como lá fui parar Mas cheguеi aqui Pouco ou nada me vai desorientar O túnеl virou labirinto Num desafio mesquinho Sombras contraditórias Dissuadem o caminho Já corri p'ra todo o lado P'ra cá e p'ra lá Oiço as pernas a dizer "Não dá" Mas faço-me acreditar Que esta vez vai ser diferente O fumo carregado Dissipou-se lentamente E tu na minha cabeça P'ra cá e p'ra lá Oiço o coração dizer Já perdi a conta das vezes, vem Uma mágoa aguda só de pensar Nos caminhos às cegas Que a luz me fez tomar Já me perdi, encontrei Tive em sítios que nem sei Como lá fui parar Mas cheguei aqui Pouco ou nada me vai desorientar Track 4 - Gigantes Melopeia : Olha para mim e diz-me exatamente como me vês. Eu não sei como me vejo e preciso que alguém me faça um desenho do que vê por mim. Entra em detalhes e diz-me o que sou. Acreditarei com mil vezes mais força nas tuas palavras do que nos meus olhos. Aliás, talvez não devas dedicar tempo a observar-me. Não, não olhes para mim. Guarda o que quer que penses de mim, desde que esse pensamento te mantenha aqui. Eu posso arranjar-te uma venda, se preferires. Uma da tua cor favorita. É laranja, não é? Sei que terá de ser uma opaca, para tu não veres (obviamente) e para eu não me embebedar na cor dos teus olhos. Se quiseres que eu faça um desenho do que tu és, eu faço. Nem preciso de olhar para ti. Traz-me uma folha de papel e uma esferográfica, nem de borracha farei uso. De repente somos gigantes E nada interessa Atrasamos o tempo Que nos voa depressa Amanhã já somos formigas Ressacados de afeto Era tão bom Quando estavas por perto Há quem diga Que ainda sentes coisas por mim Há quem diga Que ainda há amores assim Quando estás por cá eu não saio Fico aqui bem colado A sede da tua presença Açambarcou o meu estado Sou sortuda apesar de tudo Apenas por saber Com toda a certeza Não te posso perder Deixa-te estar Que eu viro o desta vez Só para te ver mais um segundo Só por um instante Que se devolve o sentido Que se constrói um paraíso Que se relembra um sonho antigo Viro o mundo outra vez Pra poder voltar Mas eu vou tão cedo que a Saudade se esconde Demorou, descomplico Agora que sorriste Mas eu vou tão cedo que a Saudade se esconde Demorou, descomplicou Agora que sorriste Track 5 - Não Admira Melopeia: A retrospectiva é sempre mais bonita do que a perspetiva. Infernal, miserável ou repugnante, um dia tornam-se sinónimos de glorioso, rico e sedutor. Cai no esquecimento do cérebro humano, o quanto desgostou, para que seja mais apetecível cometer o mesmo erro. Para que se recorde com saudade do que fora, quando na altura seria capaz de vender órgãos para desaparecer do mapa. Olho pra trás, o mar está calmo Sei que houve tempestade Mas a saudade Tratou de a acalmar Olho pra trás, que céu tão lindo Sei que a chuva caiu E a memória insistiu Fazê-la esbater Não admira, que vivamos no passado Se a saudade torna tudo mais bonito O tempo passa, mas os anos dourados Serão sempre os que já foram vividos Não admira, que vivamos no passado Se a saudade torna tudo mais bonito O tempo passa, mas os anos dourados Serão sempre os que já foram vividos No meu tempo é que era Gente pura e de verdade Por mim fico aqui pelo rеstelo Que eu já não tеnho vossa idade Imaginem só meus amigos Há milhares e milhares de anos O paraíso que não era o nosso mundo Quando decidiu abrir portas aos Humanos Não admira, que vivamos no passado Se a saudade torna tudo mais bonito O tempo passa, mas os anos dourados Serão sempre os que já foram vividos Não admira, que vivamos no passado Se a saudade torna tudo mais bonito O tempo passa, mas os anos dourados Serão sempre os que já foram vividos Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Lembro o bom e esqueço o errado Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Vivo contigo novinha a meu lado Vivo tão bem no passado Era tão bonito o anel de noivado Track 6 - Todos Os Loucos Melopeia : Há quedas de paraquedas de vivências que trazem vida às vidas. Parte da Clara outrora fez parte do Miguel. A Clara: ouve música enquanto anda de bicicleta, tal e qual como fazia ao sair da escola com o Miguel; põe queijo ralado por cima das pizzas congeladas antes de as levar ao forno, porque o Miguel dizia que o queijo presente era mínimo devido à fome do capitalismo; começa todos os seus textos com uma frase curta, para depois prolongar a ideia, exatamente como ela apreciava na escrita dele, que era tão somente dele; cumprimenta todos os animais de estimação com um “Olá, pequenino!”, pois ouviu-o falar assim com um cão e achou a doçura (novamente) na voz dele; usa os atacadores atados em torno dos tornozelos, porque, uma vez ele atou-os assim pela piada. Há peças dele, nela. E aposto que dela, nele. Há puzzles de vida que nunca param de se expandir, e é tão bonito ver o que pertence a quem já pertenceu. Alugueres de maneirismos. De todos os loucos do mundo Foste logo escolher a mim Um poço de insegurança Com certeza que há alguém que não seja assim De todos os loucos do mundo Foste logo escolher a mim Daqui do cimo do ócio vejo Tanta gente que não é assim Não, não conheci o mundo inteiro Tampouco todos os recantos corriqueiros Sei que este amor é apenas o terceiro Mas consigo te dizer Que da minha agulha Desconhecia o paradeiro Encontrei-a no meio do palheiro, assim que te vi Tão bonita Tanto, tanto mar E nem uma ideia por onde começar Contento-me com a miragem E na minha costa Desembarcaste só de passagem Mera aprendizagem O teu corpo partiu E o resto ficou cá Não, não conheci o mundo inteiro Tampouco todos os recantos corriqueiros Sei que este amor é apenas o terceiro Mas consigo te dizer Que da minha agulha Desconhecia o paradeiro Encontrei-a no meio do palheiro, assim que te vi Tão bonita Track 7 - Lembra Melopeia: A luta pela presença na cama de solteiro. O choque de corpos pelo espaço inexistente. Deixa-me mergulhar de cabeça no teu espaço, compartilhar sono e sonhos. Dizer-te que “vai ficar tudo bem” e que “foi só um pesadelo” quando acordares de rompante. Acalmar-te, apaziguar-te, embalar-te, aconchegar-te. Figurar nos teus pensamentos além sonhos. Assinar termos e condições de amor. Dormir profundamente. Ou nem dormir de todo por não passarem de utopias. Lembra-te do começo Vivemos tudo de uma vez Na certeza que não nos ia restar nada Depois daquela madrugada Lembra-te do começo O tempo baralhava-se Esticava e comprimia Era linda essa magia de estar contigo Parecia um amor antigo O tempo baralhava-se Passei a viver a vida a antecipar Imaginar O dia em que deixava de sonhar E abria a porta para poderes entrar Mas valia sempre a pena Mas valia sempre a pena Mas valia sempre a pena Mas valia sempre a pena Os dias desfiavam E os nossos corpos costurados, destinados Pela forma que encaixavam Tudo no seu lugar Os dias desfiavam E nesse mar quentinho Não me canso de banhar Eu sou bom a navegar, quando vejo o fundo O meu corpo é um barquinho Nesse mar quentinho Passei a viver a vida a antecipar Imaginar O dia em que deixava de sonhar E abria a porta para poderes entrar Valeu sempre a pena Valeu sempre a pena Valeu sempre a pena Valeu sempre a pena Esperar por nós dois Inventar caminhos Desistir, voltar Fintar o destino Esperar por nós dois Inventar caminhos Desistir, voltar Track 8 - Assim, Sem Fim Melopeia : O barco não pode parar no meio do oceano. Eu não sei quando ele parou, mas sei que aqui não pode estar. Acorda o capitão e o seu ajudante, diz-lhes para içar as velas, aproveitar esta rajada de vento, deslocar, não estagnar. Promete-lhes terra, terra cada vez mais próxima, que eles não desistam agora. Relembra-os das famílias que os aguardam na ilha, dos almoços e dos beijos. Sem ler as letras invisíveis Aceitei os termos e condições De um plano de emergência Para a manutenção dos corações Uma garantia de estender a ilusão Amor pré-pago, tempo escasso A mesma paixão de sempre Crescente Uma bela cidade (vai saber a pouco) Fugindo da realidade (vai saber a pouco) Na hora de partida Vai saber a pouco tudo menos Que uma vida É claro que todo o amor nos sabe a pouco Enquanto andarmos a remar no sentido D’um contra o outro O vеnto em popa depressa fingiu-se sopro Foi pouco tempo a pendurar-me no teu dorso Achas que eu nunca soube como tudo num dia rompe? Esperança que essa vela folgada ainda vá longe Tentaste encarcerar-me com palavras Não há culpa tudo no eixo Eu quis prender-te com a cola do meu beijo Poesia ou anzol, âncora ou cais? Marés que luas regem não nos trouxeram sinais Enquanto declaro tudo ao nosso amor maravilha: Só te nego a volta ao mundo Que eu já não saio desta ilha Sei que sabes como o barco parou Mas não sei dos dois: Quem foi um fim? Assim (sem) Sei que sabes quando o barco parou Quem se afundou (logo se vê) Quem chorou mais? (logo se vê) Quando (logo se vê) Combinei com a verdade (logo se vê) Para ver onde vai o futuro (logo se vê) Apenas uma direção (Eu e tu eu, eu e tu eu) Quando (logo se vê) Combinei com o futuro (logo se vê) Para ver onde vai a verdade (logo se vê) Apenas uma direção (Eu e tu eu, eu e tu eu) Ah, a sorte Fica comigo até perder o norte Sigo o instinto que me leva a ti Fico assim, sem fim Track 9 - Ficamos Assim Melopeia : “Amor. Linda palavra. Infinito. Linda palavra. Amor infinito? Miserável. De 400 mil palavras no dicionário, vamos contentar-nos com duas que já foram usadas milhões de vezes juntas?” Ficamos assim, cada um do seu lado Vou fingindo que não estou apaixonado Pode ser Que acabe por me enganar Ficamos assim, ao menos estou triste Escapei da dormência fatal que me persiste Vejo a beleza na tristeza Acabo por me consolar Hey hey hey hey hey, oh Que bom enganar-me assim Hey hey hey hey hey, oh Esfrego os olhos na areia por ti Cavámos memórias, cada vez mais fundo Rompemos cidades de diversos mundos Era escusável tentá-lo esconder O amor encontrava sempre forma de aparecer Se nos amamos assim E a vida se arrasta por aí E o verso, sai cada vez mais perto Do escuro da minha cabeça seja o que aconteça Que vale adiar, ficar, esperar Eu não te perdi Ficámos assim, logo depois notámos Mesmo sem ver e ter ainda nos amamos E a alma aguentava O corpo frio a desmembrar Hey hey hey hey hey, oh Que bom enganar-me assim Hey hey hey hey hey, oh Esfrego os olhos na areia por ti Cavámos memórias, cada vez mais fundo Rompemos cidades de diversos mundos Era escusável tentá-lo esconder O amor encontrava sempre forma de aparecer Cavámos remorsos, cada vez mais fundo De várias cidades do meu submundo Era escusável tentá-lo esconder O amor encontrava sempre forma de aparecer Track 10 - Monte de Nada Melopeia: “não sobraram fotografias do justino ou do paulinho, por isso escrevi os seus nomes num papel e pu-lo diante de mim como modo de chamar por eles. para que os lembrasse. e li aqueles nomes vezes sem conta à espera de que dentro de mim algo atendesse por eles. aterrorizava-me que se apagasse da minha memória o jeito de cada um, a expressão que tinham quando lhes falava, quando me perguntavam coisas difíceis. benjamin, que acontece se morrermos e não haver ninguém no céu que nos conheça.” Pega no teu amor E joga fora O que é que fica? Um monte de nada Pega no amor da tua vida E joga fora O que é que fica? O que é que fica? Acabou o tempo, tudo desabou Levaste o céu contigo Sem sequer me avisar Afundo na muda solidão Arrasto os despojos do meu corpo Que insistem em ficar Acabou o tempo, tudo desabou Levaste o céu contigo Sem sequer me avisar Afundo na muda solidão Arrasto os despojos do meu corpo Que insistem em ficar Mas fica a sensação Uma rede debaixo do coração Quando me fazеs sonhar Que um dia mais tarde tu vais Aparecеr no meu portão De braços abertos e uma canção Que nos faz relembrar De quando era tão fácil se Apaixonar Pega no teu amor E joga fora O que é que fica? O que é que fica? O que é que fica? O que é que fica? Track 11 - Volta E Meia Melopeia : Se eu te atirar uma corda, consegues fazer força suficiente para saíres desse buraco de coelho? Se eu te abrir as cortinas, consegues enfrentar a radiação solar e apreciar a dança das folhas das árvores? E se eu te trouxer a tua sobremesa favorita, tiras duas colheres da gaveta? Então é aqui o fim da história? Nem me apercebi Estava tudo tão confuso no guião Não era o final que eu previ Prolongo no teu abraço Espremo a ternura que me vai salvar Quando cair o pano e eu não souber de ti E o mundo amanhecer Fora do lugar Pensava que seria mais fácil Ao amadurecer Pensava que estaria tão longe deste amor Morrer Volta e meia tu voltas Deixas-me assim Três e meia descolas Sem regresso e sem vontade de partir Porque não ficas por cá? Imagina Tornamos a alegria a nossa rotina Volta e meia tu voltas Deixas-me assim Três e meia descolas Sem regresso e sem vontade de partir Porque não ficas por cá? Porque não ficas por cá? Daqui a uns anos voltamos de coração sarado Prontos para renamorar Refazemos a história à sombra de um telhado De uma casa junto ao mar Tu escreves os teus livros Eu as minhas canções Vai valer cada segundo Quando chegar o fim Da história mais linda do mundo

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