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  • Entrevista ao Escritório de Advogados Morais Leitão

    ZS : O que acham do modelo de ensino das faculdades de Direito portuguesas e europeias? É um modelo de ensino que gostam? A minha faculdade (Nova School of Law) é muito voltada para o internacional, por isso é que perguntei sobre as europeias. ML : Para a Morais Leitão, independentemente das características formais do modelo, voltadas desde Bolonha para um sentido tendencialmente em duas fases, licenciatura mais generalista e mestrado de especialização, conta muito a cultura própria de cada instituição. Isto é: formalmente, os modelos são semelhantes, variando porventura em conteúdos abordados, procedimentos de avaliação e prioridades; no entanto, é no conjunto das normas informais que formam uma instituição que vemos maiores diferenças. O estilo ou forma de estar dos professores e alunos, o tipo de aulas, a curiosidade e o ambiente de debate que se forma, a maneira como se apresentam as matérias e se trabalha a capacidade de raciocínio e crítica; tudo isto é fundamental no desenvolvimento do espírito do futuro jurista ou advogado. As faculdades têm um papel central tanto a ensinar as hardskills que são as áreas e disciplinas do Direito, enquanto ciência social, com os seus fundamentos e lógicas próprios como a promover as soft skills , as características mais individuais que moldam a maneira de trabalhar o direito. ZS : O que esperam de um aluno recém-licenciado em Direito que queira trabalhar convosco? ML : Esperamos simultaneamente muito e pouco. Muito, no sentido em que deve ser, evidentemente, um bom aluno, com boas bases de direito, mas também uma boa pessoa, na sua integridade humana. Cooperante, curioso, ético, rigoroso e exigente nas diferentes esferas da vida e com princípios bem vincados. Pouco, no sentido em que obviamente aprendeu Direito na faculdade, mas aprenderá agora a exercer numa sociedade de advogados, vocacionada para a aplicação prática e concreta do Direito ao serviço das necessidades e estratégias de um cliente, e, portanto, a nossa expectativa é de alguém sem experiência considerável, que vem para um processo de formação. ZS : Como funciona uma das maiores firmas do país? Em que áreas estão mais focados? MS : Na Morais Leitão, funciona com muito trabalho e um fortíssimo espírito de equipa. Estão formalmente divididos em duas grandes estruturas: tem a estrutura profissional, integrada por cerca de 270 advogados, e a estrutura de gestão, com mais de cem profissionais. Os advogados integram nove departamentos de áreas jurídicas, organizando-se em equipas. Com grande frequência, trabalham em matérias multidisciplinares, com colegas de outras equipas e jurisdições. Existe uma enorme preocupação com o rigor no trabalho jurídico, é uma vaidade que tem e que, bem ou mal, passa por todos: prestar, todos os dias, o melhor serviço jurídico possível mesmo que nunca tenha sido feito, mesmo que rompa com modelos e paradigmas. Isto implica estudo, conhecimento, e capacidade de ouvir o outro, para ir ao seu encontro. É uma Sociedade full-service , que cobre todas as áreas do Direito. Indo ao encontro do cliente, trabalhando em novos setores muitas vezes ainda por regular ou com normativos ainda pouco trabalhados. ZS : E, por último, quais são as principais áreas do Direito e como acham que será o Direito no futuro? ML : O Direito acompanha a sociedade em que vivemos e os seus desenvolvimentos. Assim, acompanha a digitalização e todos os temas conexos, da inteligência artificial ao blockchain , dos serviços digitais aos mercados digitais, dos tech contracts às novas questões de propriedade intelectual ou de cibersegurança, com mudanças tanto na forma, por serem temas novos, como na maneira de prestar serviços, com novas ferramentas e culturas de trabalho. Acompanha as alterações na economia, com princípios de ESG, com novas formas de financiamento e de investimento, com novas empresas e novas regras de concorrência e de regulação. Acompanha as mudanças no trabalho, com a hibridização e desmaterialização dos postos de trabalho. Acompanha as mudanças no setor público, com diferenças relevantes no Estado e na forma como este interage. Qualquer pessoa que tente prever o futuro no Direito vai falhar tanto quanto qualquer pessoa que tente imaginar a nossa vida daqui a vinte anos. E, por isso, a sociedade tem uma mensagem importante: a curiosidade e a abertura são centrais para quem queira exercer Direito. Temos de aprender com o mundo e tentar, em troca, dar-lhe alguma ordem e previsibilidade com o nosso trabalho. NOTA FINAL DO AUTOR: "Queria agradecer à sociedade por terem dado esta entrevista!"

  • Função do Irregular e do Absurdo f(x)=x?

    Eu cambaleio na corda bamba da descontinuidade, mergulho naquilo que me é núpero e solto gargalhadas enquanto nado. Eu não fui feita para me derreter e evaporar por algo/alguém segundo a fórmula: f(x) = ax. Eu fui feita para dançar, para andar em folias, para jogar à apanhada, para brincar, para saltar sem olhar para o chão. “Sofia, é hoje que vamos ver o mar?” “É sim, Inês!” “É que estavas sempre a prometer e a marcar para outro dia, não tinha grandes esperanças de que fosse hoje!” “É hoje, sim. Prepara o fato de banho!” Eu fui feita para levar alguém a ir ver o mar e para depois desaparecer nas ondas e deixar que elas me levem diretamente a outro alvo da minha estima. Esta última revela-se fatalmente efémera, levando à repetição de todo o processo. Tudo interstícios, tudo aproximações, tudo função do irregular e do absurdo: (f(x) = x? Perfeitamente insaciada com as possibilidades de casacos que posso vestir e amar. Talvez o que há de mais cíclico em mim, o que há de mais rotineiro seja a minha capacidade de dizer adeus, de me despedir docemente daquilo que antes recebi com um esperançoso “olá”. Nutre-se, então, um luto por algo que não chegou a ser corpóreo, mas que foi algo suficientemente intenso para o meu peito mergulhar de cabeça, bater com o queixo no fundo da piscina e afogar-se em saudade. Sei que para existir um corte de uma sequência tem de existir sempre algo que lhe suceda. A minha continuidade encontra a sua cama na descontinuidade, ama-a e faz amor com ela vezes e vezes seguidas. Se tal não acontecesse, não existiria nenhuma das duas no meu universo metafísico. Só existiria Branco. Silêncio. Vazio. Se não existir algo para substituir o que lhe antecedeu; se a minha mente já não conseguir inventar mais; se eu não me puder multiplicar e eliminar o que anteriormente fui; se já não conseguir saborear este espaço entre eu e mim mesma; se a minha alma já não me procurar; se eu já não andar a monte - o meu cérebro deixará de cheirar a laranjas e de ter uma música. Ficará sem cheiro. O silêncio permanente vai fazer com que pare de estar tonta com tantas voltas dadas no carrossel da metafísica. Vai matar as insónias e fazer com que eu, finalmente, consiga adormecer sobre mim mesma.

  • O jogo das cadeiras da Universidade Nova de Lisboa

    Reza a lenda, num mundo muito longínquo, havia um rei com uma promessa de melhorar o seu reino. Basicamente, o Rei tinha muitos terrenos, e não sabia o que com eles haveria de fazer. No entanto, sabia uma coisa: queria mudar todos os seus habitantes de terreno, não vão eles enjoar-se do sítio onde vivem. O mundo muito longínquo, é o nosso. E o Rei, a Universidade Nova de Lisboa. O ano era 2018, e seria inaugurada a nova Nova School of Business and Economics – com as espectativas de ser “a Escola do Futuro”, citando o então diretor, Daniel Traça, numa entrevista à Dinheiro Vivo. Começava assim o jogo das cadeiras, sendo o primeiro jogador a NOVA SBE, que trocou Campolide por Carcavelos, leiloando aos investidores privados partes da Faculdade, aproveitando-se do ego de quem as pode pagar, apenas para poder dizer que têm uma biblioteca, ou um auditório em seu nome. No entanto, havia um problema óbvio: apesar da SBE ter mudado de ares e de se ter instalado a dois passos da praia, deixou para trás a Residência Alfredo de Sousa que, ironia das ironias, tem o seu nome em homenagem ao fundador da Faculdade de Economia. Mas, nada temam, porque foi instalada uma residência à porta do campus! No entanto, na tradução da SBE para o inglês, o Social em Alojamento Social caiu, e os estudantes terão de arrendar quartos que começam nos 700€ mensais, uma subida de 56% comparada com o quarto mais caro na residência de ação social. A alternativa será manterem-se junto ao seu fundador, na Residência de Campolide ou na Residência do Lumiar, ambas a sensivelmente uma hora e meia da “ Nova way of life ”. Na verdade, não foi só o Alojamento que perdeu o Social, mas a Alimentação também viu o seu removido, quando os surfistas largaram a citadina Cantina de Campolide, e abraçaram a zona de restauração da SBE, onde dificilmente se come por 2,79€. Infelizmente, a SBE não seria caso isolado, e em 2019 é anunciada a migração das Faculdades, perdão das Schools , de Medicina e Direito: a Nova Medical School e a Nova School of Law , que largam os estetoscópios e a Constituição para agarrarem a prancha de surf. A primeira, larga o velho Campo Santana, que nunca teve condições para uma Universidade, quanto mais de medicina, e emigra para Cascais, numa parceria com – pasmem-se – a CUF Saúde. Mas não há problema, como o que não faltam por aí são médicos que querem vir para o SNS, podemos dispensar os graduados da NMS. Só que não. Mais uma Nova School que abandona a sua casa. Esperemos ao menos que seja uma mudança para o melhor, tendo em conta que viver numa casa degradada e que só garantiu refeições de ação social há menos tempo do que eu me encontro na universidade, não é fácil. A segunda. Ai, a segunda. Foi em setembro que passei a chamar a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa a minha casa. E foi em setembro que me apercebi que, como tudo na vida, não era um mar de rosas. Atualmente, estamos sentados na nossa cadeira. O nosso campus. A nossa casa. Mas, no entanto, a nossa casa não é perfeita. A nossa casa tem 3 salas de aulas, uma sala de audiências e 2 anfiteatros. Para 5 turmas de licenciatura – duas de primeiro ano, e uma de cada um dos anos restantes – 9 mestrados e um doutoramento. Isto significa que muitas das vezes, as aulas são dadas nas Salas do Colégio Almada Negreiros, e mesmo que nos digam que dele fazemos parte, é como irmos jantar à casa do vizinho e ele dar-nos umas pantufas e dizer-nos para nos sentirmos em casa. Temos uma sala de estudo, em que não cabe um quarto de uma turma e que está fechada aos fins de semana, tendo que recorrer a outros espaços na cidade. No entanto, aqui venho eu reclamar da nossa ida, da nossa participação no jogo das cadeiras, já que querem à força toda que me torne um advogado-surfista. Levanto vários problemas com esta mudança, mas acho que o mais relevante é a incerteza. Esta mudança foi anunciada em 2019. Para referência, os colegas que começaram a Licenciatura em Direito em 2019 serão finalistas no próximo ano letivo. É duro começar um curso sem saber se irei ou não receber o meu diploma salpicado com a água do mar. Surge então outra coisa que me incomoda: não quero estudar numa faculdade que leiloa os seus espaços, trocando homenagens que poderiam ser simbólicas e significativas, por investidores que ajudaram a pagar os espaços. Não estou interessado em ter aulas no PLMJ Auditorium ou estudar na Abreu Library . Terei tempo para o fazer se lá trabalhar. Não me interessa uma faculdade que seja trendy , e que tenha supermercados cashless , e que tenha restaurantes maravilhosos, se não houver um prato de ação social, se não houver habitação estudantil social e viável. Não me interessa a mim, e não interessa os estudantes. Ao longo deste artigo, referi já 2 cadeiras abandonadas, ou que o serão, na zona de jogo de Campolide. No entanto, 3 restam: a NOVA IMS, Information and Management School , a Reitoria da Universidade, e a Residência Alfredo de Sousa. Está na hora de falarmos sobre quem as vai ocupar. No dia 27 de abril de 2021, na Cerimónia do Campus de Campolide, foi anunciada a venda dos edifícios da NOVA FCSH: surpreendentemente a única que não tem nome pomposo em inglês. Ora, com a venda destes espaços, foi anunciada a migração da FCSH para Campolide, que começou a ser feita gradualmente. Até à data, duas das 14 licenciaturas trocaram as torres de Berna pelo castelinho amarelo: Sociologia e Ciência Política e Relações Internacionais, assim como alguns centros de investigação, a biblioteca e parte da Divisão Académica. Tenho de dar o devido mérito à FCSH, por disponibilizar um shuttle gratuito Berna – Campolide, mas é o único mérito que lhe posso dar, porque se levantam inúmeras questões com esta mudança, sendo a principal a mesma da Faculdade de Direito: ninguém sabe se vai acabar o curso na Avenida de Berna, ou no Campus de Campolide. Ou até outras, como a distância física do seu próprio campus, afastados da Associação de Estudantes e da restante Faculdade. Entretanto, nessa mesma cerimónia que há pouco referi, foram anunciados 2 novos empreendimentos no Campus: a expansão da NOVA IMS, e a construção de mais um edifício para albergar a NOVA FCSH, que começariam a ser construídos no ano passado, mas que até agora não passaram apenas de um oásis. Espero firmemente que, pelo menos, esta construção contemple uma sala de estudo 24 horas para reposição do “Aquário”, que foi retirado aos estudantes através de uma decisão autocrática de lá instalar a NOVA Desporto. Não há problema: não estudam, mas façam um pilates ou uma sessão de yoga e isso passa. A Reitoria. Alojada agora no que é o maior edifício do Campus de Campolide, também abandonará a sua cadeira. Faz as malas, e emigra para o Campo Santana, deixado vazio pela Medical School . Mas, então, o que se faz com o edifício da Reitoria? Um edifício relativamente novo, completamente desadequado para ser utilizado como um espaço de ensino, que conta apenas com 2 auditórios fantásticos, exceto para os alunos, que só os usufruem em eventos da sua Faculdade, a não ser que os aluguem. Esperemos para ver. Agora, se há coisa positiva que saiu destas mudanças, foi que ficando em Campolide ou migrando para Carcavelos, estarei longe do local onde estas decisões estão a ser tomadas. Não nos devemos esquecer da NOVA que reside do outro lado do Tejo, a NOVA FCT, ou agora NOVA SST: NOVA School of Science and Technology . Choca-me francamente que não tenha sido sugerida a mudança desta que é a maior Faculdade da UNL. Mas não foi esquecida, por azar. Ainda que se mantenha do outro lado da ponte, há planos para a NOVA FCT, e são no mínimo ambiciosos, no máximo irrealistas. Numa entrevista para o Diário de Notícias, o Vice-Reitor para a área do desenvolvimento José Ferreira Machado, explicou todo este jogo de cadeiras, intitulado Campi 21, e contou ao público a “cidade” que planeia construir na Caparica. Surgiu a ideia de montar um empreendimento monstruoso, que segundo o vice-reitor, “é 18% superior à área de intervenção da Expo"98”. O problema, lá está, é que este empreendimento pode servir os interesses da Universidade, mas não serve o dos estudantes. Na mesma entrevista, o vice-reitor refere que já estão a intervir na FCT, criando uma residência de estudantes – não de ação social, porque já têm uma com 300 camas para 8000 alunos e, portanto, podem concessionar a privados e fazer mais lucro, obrigando os estudantes a, das duas uma: a batalhar por uma cama da Residência Fraústo da Silva, ou a abrir mais o bolso, que já está aberto o suficiente, para poderem ter uma habitação digna que não seja em cascos de rolha. A outra construção que já foi efetuada foi: não uma biblioteca, não uma maior cantina, mas um supermercado de grande superfície. Assim se vê, mais uma vez, as prioridades da Universidade. Termina assim o jogo das cadeiras da UNL. Quando comecei a pesquisar sobre estas mudanças, fui ficando progressivamente mais confuso com toda estas trocas. E cada vez mais, estou mais ciente que quem está a fazer estas mudanças também começa a ficar confuso com os espaços que estão ou não ocupados, e onde é que ainda pode mandar construir. Universidade que me és tão querida, ouve o teu staff e os teus docentes, mas principalmente: ouve os teus estudantes. Pergunta, e ouve as respostas. Ninguém, absolutamente ninguém, te vai responder que estes planos de construção desenfreada são a solução. Enquanto instituição pública, serve os estudantes e não os investidores. Podem ser eles que te pagam as contas, mas não são eles que te dão os rankings de que tanto te orgulhas. Enquanto aluno, não te peço muito. Peço o mínimo. Habitação social e digna, alimentação social e decente, e condições boas para estudar. Dizer que vamos inovar, e que vamos expandir, e que nos vamos tornar uma das maiores Universidades do país, pode ficar muito bonito nas redes sociais. Convém é anunciar que a inovação não vem associada à melhoria do bem-estar dos estudantes. Quando se dá um passo maior que a perna, 10 em cada 10 vezes não corre bem. No início do meu percurso Universitário, na NOVA Direito, disseram-me que iria tornar-me um “agente de mudança”. Se as mudanças são estas, está na hora de repensar a minha formação.

  • A Epifania do Perdão

    Em uma tarde, os lençóis sacudiram o ar puro em uma noite, a água quente avermelhou a minha pele em uma manhã, os pássaros me parabenizaram. Em fotografias, ficaram minhas cicatrizes em cores, desmancharam-se no preto asfalto em cafés, diluíra-los em leite em sangue, centrifugaram a plaquetas. em um dia, os feches de luz congelaram-se em uma semana, os montes de areia foram sequestrados pelas marés em um mês, o astigmatismo evolui-se para a miopia em um ano, espetei-me no campo e vesti-me de espantalho em teu jardim. Em uma epifania, por relevância tamanha que não expressa-se em específico, ou em uma respiração -que liberta o peito e destrói o diafragma- Eu, você, nós, não parecíamos mais gigantes, ou inalcançáveis e miseráveis que imploram por um feijão peculiar. Em um momento, éramos um único nó, um nó com duas cores opostas, unidas a um só rasgo de pano branco. Éramos o infungível, por vinho das veias, éramos insolúveis como óleo e água, éramos nós, como sempre fomos, e sempre seremos. Em um belo dia, ao nascer da manhã, dilacerei meus fios e você, estava ali. Assim, deitei-me a chorar nas penas da almofada, no vestido em rasgos e na poeira do ar. Por isso, me disse então, nada havia a não ser abraçar a estrela que a ti, tem andando por voltas e retrocessos. Aos raios que borbulhas ardentes já ocasionaram em minha pele, angustiadas em constantes erupções, agora mornos, como um par de braços, me adormecem em noites de trovão. Ao caso de, beber por dias só cafés gelados e tigelas vazias, sei que estará lá, todas as manhãs, até os fins dos teus dias.

  • As borboletas da independência

    Não sei se posso começar por dizer neste texto que este já foi, (ou continua a ser), um desejo que todos nós temos. Eu pelo menos sei que o tive e tudo devido a um daqueles livros teen , que li com os meus doze anos. Esse tal livro, que já nem me recordo do nome, foi o livro que despertou em mim a vontade de estudar no estrangeiro. Eu sei, provavelmente estavam à espera de um sonho maior. É um facto que todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que já o fez, é algo que atualmente até se pode considerar bastante banal, mas era o meu sonho. E os sonhos não se medem aos palmos. Passaram os anos e, infelizmente, nunca surgiu oportunidade para conseguir concretizar este sonho, que me seguiu até ao final do ensino secundário. Mas, para minha surpresa, nesse mesmo ano, em junho de 2022, recebi a notícia que ia embarcar numa aventura que LITERALMENTE mudou a minha vida. Sim, acabei de usar a típica frase cliché do “mudou a minha vida”, mas podem ter a certeza de que não há melhor frase para definir esta viagem. Dia 10 de julho de 2022, embarquei, completamente sozinha, num voo com destino a Dublin. Dublin era apenas o ponto de paragem, pois o destino final era o Aeroporto Internacional de Los Angeles. Tal como qualquer outra pessoa com dezoito anos, estava a sentir um misto incrível de sentimentos, que intercalavam do nervosismo ao excitamento total. Com uma mala quase maior que eu (levei o meu armário inteiro, nunca se sabe que outfit podemos acabar por desperdiçar), cheguei ao aeroporto de Lisboa confiante de que tudo ia correr bem. Porque não haveria? Que eu saiba não estou em nenhum filme da Bridget Jones, achava eu... Começou logo tudo mal quando aquele típico senhor do check-in que, apesar de serem seis da manhã, estava com uma cara que já não conseguia aturar mais ninguém, como se tivesse chegado ao limite do seu dia – aquela cara que todos já fizemos a olhar para a matéria de constitucional - e me despachou apressadamente, a dizer que estava a haver um erro qualquer informático e que apenas me conseguia dar um dos dois bilhetes de embarque – “Basta mostrar isto quando chegar a Dublin e vai servir” – está bem, está. Assim que passei a alfândega senti algo que nunca tinha sentido em toda a minha vida. Um sentimento de liberdade e independência inexplicável, senti que era capaz de fazer tudo. Se me permitirem, até direi que senti borboletas na barriga, não daquelas parvas que sentimos quando temos catorze e gostamos de alguém, mas sim de umas fortes, que nos fazem olhar o mundo com outros olhos e que são sempre tão fáceis de recordar, as borboletas da independência. Mas, retomando, quando aterrei em Dublin, acordada pelo piloto e os seus suspiros de boca colada ao microfone – nada satisfatórios, completamente contrários a um vídeo de ASMR - num chinês disfarçado de inglês (porque irlandês não se percebe de todo, não se deixem enganar pelos Peaky Blinders ), fui informada que o voo se atrasou e que tinha apenas vinte minutos para apanhar o voo para Los Angeles, num aeroporto que não conhecia. Corri pela minha vida e quando cheguei, fiz o que o senhor do check-in me tinha dito. Podem adivinhar o que aconteceu a seguir. Já que estamos numa época de exames, vai como uma resposta de escolha múltipla: a) apanhei o voo e fui feliz para Los Angeles; b) não me deixaram passar, porque não tinha o bilhete de embarque, perdi o voo, mendiguei uma noite no aeroporto de Dublin sozinha e tive que comprar um voo para o Canadá (única maneira de chegar a LA no dia a seguir). Acho que a resposta é óbvia. Mas, não sinto que me possa queixar. Foi uma das melhores experiências da minha vida, um mês na Califórnia, especialmente em Santa Bárbara (cidade que me ficou muito querida), com grandes amizades e amigos de todo o mundo, não esquecendo também, da oportunidade de frequentar aquelas casas de banho tecnológicas, em Vancouver, em que se levanta o rabo e o autoclismo puxa sozinho (ansiosa que essas cheguem a Portugal, uma maravilha). Hoje sei duas coisas, e provavelmente não mais, que já estamos a chegar ao fim de Janeiro e me estou a transformar num autêntico Sócrates: se não fosse por esta viagem, em que as minhas borboletas da independência voaram tão alto, eu estaria muito mais desesperada com esta mudança de estudante deslocada; e que, se um dia quiserem uma tour completíssima ao aeroporto de Dublin, eu posso dá-la de bom grado. Por isso já sabem, se algum dia sentirem uma necessidade enorme de se tornarem mais independentes, façam uma viagem estilo Bridget Jones, prometo que resulta. P.S.: Fui burlada no Canadá e fiquei sem malas durante uma semana nos Estados Unidos (imaginem o pânico, tinha lá o meu armário).

  • Poemas dos Espinhos do Amor - Parte III

    “Querer ficar” Fugir é mais fácil que ficar.  As vozes à nossa volta ecoam  Como pedras atiradas a um lago. Por vezes o ruído do mundo  É demasiado e tenta sobrepor-se.  Mas quando me abraças, Quando te olho nos olhos… As vozes desaparecem,  O ruído dissipa-se devagar.  De repente estamos sós, Mesmo numa sala cheia.  A única voz que oiço é a tua, E é a única que quero ouvir.  Fugir é mais fácil que ficar, Calar é mais fácil que falar.  Mas se o lago fores tu, Eu escolho mergulhar.  Porque ficar é mais bonito que fugir.  “Falam-me em borboletas” Falam-me em borboletas, Mas acho que elas são overrated. Contigo sinto-me segura, Não preciso de asas para voar. Sim, as borboletas são bonitas, Mas não são segurança. E segurança é o que me dás, Mesmo que num só sorriso. Sim, as borboletas são bonitas, Mas não são felicidade. E felicidade é o que eu sinto Sempre que estou contigo.  Sim, as borboletas são bonitas, Mas não são casa.  E casa é aquilo que sinto  Dentro do teu abraço.  Falam-me em borboletas.  E as borboletas são bonitas.  Mas são inquietude, São incerteza e são medos. Sim, borboletas são bonitas,  Mas não são segurança. Não são felicidade. Não são casa. Borboletas são bonitas.  Mas não são tu.  “As palavras do silêncio” Dizes mais naquilo que calas, Do que nas palavras que te falham. Na verdade, as palavras Nunca foram o nosso forte. Pensamos tanto nelas que Nenhuma parece ser a certa. Por isso calamos. Deixamos o silêncio falar  E esperamos que chegue,  Que fale mais alto.  Hoje sei, que nada fala mais alto Que as palavras do silêncio.

  • Entrevista ao deputado Carlos Guimarães Pinto

    NOTA DO AUTOR: Esta entrevista, baseada no tema da inflação, conta com as ideias do deputado da Assembleia da República, Carlos Guimarães Pinto, doutorado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, tem como objetivo explicar à comunidade académica da Nova School of Law a problemática da inflação. Gostaria, ainda, de agradecer ao Doutor Carlos Guimarães Pinto pela colaboração nesta entrevista. ENTREVISTA: ZS : Como surgiu a atual inflação? CGP : A inflação atual surgiu devido à pandemia do COVID-19 e da guerra na Ucrânia. No período pandémico ocorreu uma forte injeção de dinheiro na economia, uma das maiores injeções monetárias da história, no período de 2020 e 2021. Devido à pandemia, tínhamos muito dinheiro na economia e as cadeias de produção quebraram, devido às pessoas não consumirem. Com o fim da pandemia, as pessoas começaram a sair à rua e a gastar todo aquele dinheiro que acumularam durante a pandemia, havendo muito dinheiro e poucas coisas a serem produzidas. Com isto, os preços acabam por subir, o que já se verificava antes da guerra na Ucrânia. Com a guerra da Ucrânia, ocorreu choque nos preços dos combustíveis e dos bens agrícolas, porque a oferta destes produtos diminuiu. A Rússia e a Ucrânia passaram a ter mais dificuldades em alocar a sua produção agrícola no mercado. Esta mistura de muito dinheiro parado e uma guerra que originou a dificuldade de obtenção dos produtos agrícolas levou ao incremento da inflação que podemos verificar atualmente. ZS : Qual é a principal diferença entre a atual inflação e a inflação dos anos 80? CGP : A diferença da inflação dos anos 80 para a atualidade é que, na época, Portugal tinha moeda própria. Portanto, a inflação era consequência das decisões que o país tomava: o país financiava muito da sua despesa pública através da injeção de moeda. No fundo, o estado imprimia dinheiro para pagar as suas despesas. Atualmente, Portugal não tem moeda própria, então a decisão não está apenas em nós. Foi o Banco Central Europeu que tomou esse tipo de decisão. Quanto ao resto, não há diferença. É a injeção monetária na economia que não tem uma capacidade produtiva à altura, o que faz com que os preços subam. ZS : Como é que poderemos sair desta situação? É possível voltar aos preços de 2019? CGP : Não é possível voltar aos preços de 2019, mesmo que a inflação fosse 0. Isso só aconteceria se houvesse deflação, um cenário muito improvável. É muito raro haver deflação elevada, sendo que, quando aconteceu, não ultrapassou o 1%. O que pode acontecer é uma subida a velocidade mais baixa, sendo que o objetivo dos Bancos Centrais é não ultrapassar os 2% ao ano. E para isso, não há formas fáceis. O que os Bancos Centrais têm feito é buscar todo o dinheiro que injetaram através do aumento das taxas de juro. E isto tem um efeito: as pessoas que têm prestações de casas e empréstimos ao banco são obrigadas a pagar uma prestação maior. Historicamente, a única forma de diminuir a inflação é diminuindo a taxa de juro. ZS : Qual é a influência dos Bancos Centrais nesta situação? CGP : Quando os bancos centrais mantiveram as taxas de juro baixas, alimentaram a potencial inflação, e fizeram mais que manter as taxas de juro. Fizeram algo que nunca tinham feito antes, o chamado quantitativismo. A compra direta de ativos, injetaram dinheiro porque eles próprios imprimiam dinheiro para comprar coisas no mercado. E os bancos centrais tiveram um papel essencial tanto na inflação dos preços dos consumidores, como ainda, muito antes disso, a inflação do preço dos ativos, como as casas. Nós falamos agora muito da inflação que chegou aos bens de consumo, mas este fenómeno já se verificava nos preços da habitação muito antes, que é para onde normalmente vão os empréstimos. ZS : Os bancos centrais deveriam ser órgãos ligados ao estado ou totalmente independentes? CGP : Totalmente independentes. Acho que foi a politização dos Bancos Centrais que levou a estas injeções monetárias. Se tivéssemos bancos centrais dependentes da política, tínhamos esta inflação para sempre, como acontecia nos anos 70 e 80 em Portugal. ZS : Quais são as principais medidas dos partidos políticos para combater a inflação? CGP : A inflação é muito difícil de combater com medidas políticas. Acho que deve ser com medidas monetárias. O banco central europeu combate a inflação bastante melhor do que qualquer partido político. No entanto, existem várias medidas adotadas pelos partidos políticos: alguns partidos apoiam que o estado diminua o IVA para permitir que os preços não cresçam tanto, como a Iniciativa Liberal, e outros partidos têm defendido para alguns produtos específicos; outros partidos defendem apoios sociais directos, como o que o PS tem feito - já que os preços estão a subir, dá-se às pessoas algum dinheiro para que possam comprar mais coisas; com um histórico de funcionamento muito mau, temos também o controlo de preços, através da proibição do aumento dos preços, como acontece em países comunistas quando há inflação. Esta medida gera escassez, uma vez que, quando os preços são impedidos de subir, as pessoas deixam de os conseguir vender. Temos visto isso no mercado farmacêutico, em que os preços são tabelados e não podem subir sem autorização. Nos últimos tempos, como há inflação e os preços dos medicamentos subiram num mercado livre, manteve-se os preços baixos e os medicamentos não estão disponíveis. Isto é um problema maior do que o preço aumentar alguns cêntimos. CONCLUSÃO Em suma, esta entrevista foi realizada por um estudante de direito a um deputado da Assembleia da República, onde o principal objetivo foi clarificar o que é a inflação e como ela funciona, e, além disto, como sair da situação de inflação. Esta entrevista foi feita com o principal intuito da comunidade académica da Nova School of Law percebesse do assunto que esta tem nas nossas vidas atualmente. E queria agradecer novamente ao Sr. Deputado Carlos Guimarães Pinto pela sua disponibilidade.

  • Pedaços de Mim

    Aqui estou eu, a aventurar-me na prosa. Para efeitos de transparência, a ideia por detrás deste texto não foi propriamente original. Na verdade surgiu-me de algo que vi há dias, num scroll casual pelas redes sociais. A frase era algo do género: “colecionamos tantas peças de pessoas que amamos ao longo da vida, que somos um mosaico de toda a gente que alguma vez amámos (mesmo que apenas por um segundo)”. Além de ser uma ideia bastante bonita, fez-me refletir. É evidente que, no dia-a-dia, vamos apanhando diferentes frases, expressões, tiques e manias das pessoas com quem mais tempo passamos; aprendemos com elas, partilhamos vivências, temos conversas marcantes… Mas será que tudo isto perdura, mesmo quando essas mesmas pessoas saem da nossa vida? Será que toda a gente que se cruza no nosso caminho e deixa uma marca (por pequena que seja), deixa connosco uma parte de si? Será por isso que custa tanto quando os caminhos se descruzam; que essa dor vai ecoando pelos anos que passam? Pus-me a pensar. Rapidamente me apercebi que até hoje eu como primeiro o que gosto menos no prato (para deixar o melhor para o final), como me ensinou a minha educadora de infância, e que me acalmo assim que oiço a letra do “encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora”, porque ela me cantava essa música quando eu estava triste (o que será feito da Elisa…). Que o meu animal preferido é a raposa porque o meu avô me chamava a sua raposinha. Que toquei violino porque com cinco anos fui a um concerto e me fascinei pela violinista, que reparou e passou o tempo todo a sorrir para mim, e que comecei a aprender ukelele sozinha porque alguém do conservatório me disse (quando desisti do violino) para, dali a uns anos, “pegar numa guitarra ou qualquer coisa do género”, que eu conseguiria de certeza e que me faria bem. Que gosto de usar cor-de-rosa porque me lembro da minha diretora de turma preferida, que uma vez me disse que era “a minha cor” (a professora Eleonora fez-me gostar de artes…). Que ganhei um amor pelo flamenco para a vida, porque por sorte se cruzou no meu caminho uma professora e bailarina incrível, que me ensinou muito (quem me dera ter metade da alegria da Tatiana). Que ainda sorrio quando canto porque uma professora querida me ensinou, no 1º ano, que “a música fica mais bonita quando estamos a sorrir, essas coisas dão para ouvir” (já nem me lembro do nome dela…), e porque a professora Inês tantas vezes me chamou para a frente de todos no coro para “verem o sorriso da Carolina a cantar esta música e fazerem como ela”. Que continuo a usar o meu colar com uma estrela porque era o nome carinhoso que dava a uma amiga (sei que continuas a ser uma estrelinha na vida de toda a gente, Susanita). Que já vi a série “Gilmore Girls” 3 vezes porque uma amiga do secundário a recomendou uma vez (saudades tuas, Nês). Que sei de cor a “Ouvi dizer” dos Melim por todas as manhãs passadas a cantá-la com o meu colega de mesa da escola, nas aulas de matemática (António, meu salvador do 11º ano). Sei que hoje não estaria em Direito não me tivessem o professor Francisco e a professora Luísa, de português, encorajado a fugir das ciências e seguir o meu rumo (fosse ele qual fosse). Que não teria continuado a cantar se não fosse o sussurro da professora Inês quando se despediu de mim: “por favor não deixes de cantar quando eu me for embora” (estas saudades são das que mais doem até hoje…). Que não estaria aqui a escrever não fosse a professora Beatriz do colégio ter-me dado a confiança que eu precisava ao pôr-me à frente do jornal escolar. Acho que todas as músicas que já ouvi, os livros que li, os filmes que vi, as coreografias que dancei, os sítios que visitei, as coisas que vivi, deixaram uma marca e fazem parte de mim, mesmo aqueles que há anos ficaram para trás e, aparentemente, caíram no esquecimento. Somos sim mosaicos. Somos construções imperfeitas mas coesas de tudo e todos os que por nós passaram e, por um ou outro motivo, nos deixaram. É por isso que, passados anos, ainda penso em todos os excelentes professores que passaram pelo meu percurso, ainda sorrio quando estou a cantar em atuações da tuna, ainda tenho uma obsessão por raposas, ainda me lembro da Inês sempre que vejo a Rory Gilmore na televisão, ainda fecho os olhos quando oiço o som de um violino, ainda passo as mãos com carinho pela estrelinha no meu colar, ainda me acalma ouvir música brasileira, e ainda dói lembrar-me da professora Inês. Dói? Esta dor é uma dor bonita, mas não deixa de ser dor… Fomos feitos para o vaivém da vida, para vermos as pessoas irem e virem como se fosse um aeroporto em época alta. Mas dói. Dói precisamente porque elas deixaram para trás um pedaço de si, e dói porque, de uma maneira ou de outra, em maior ou menor medida, as amámos e elas nos amaram a nós. Talvez nunca mais tenhamos falado com elas, mas elas vão vivendo dentro de nós todos os dias, muitas vezes sem sequer nos apercebermos, nos nossos gestos mais mundanos e nos nossos hábitos mais irrefletidos. É bonito pensar na marca que podemos também deixar no caminho dos outros. Quem sabe não estarei eu na “lista” de alguém. Podemos ter sido feitos para o “entra e sai” que é a vida, mas as pessoas que realmente importaram nunca sairão de nós, por mais que o passar do tempo e o sopro da memória as tentem apagar. Por isso, a todos cujos caminhos se cruzaram com o meu (e depois se descruzaram), e deixaram uma marca positiva: obrigada. Vocês são as minhas partes preferidas de mim. São o que muitas vezes me aquece o coração nos dias cinzentos. São a felicidade e o conforto das boas memórias, e o impulso do meu futuro. São pedaços de mim .

  • Faculdade, e depois de ti? - Parte II

    NOTA DO AUTOR Olá, caros leitores. Antes de mais, agradeço aos corajosos que abriram esta segunda parte da coletânea de entrevistas, depois do que possivelmente terá sido uma leitura tanto quanto entediante da primeira entrevista. Gostava de acreditar que não, pois se há coisa que aprendi com este projeto, foi que nunca é demais ouvir o produto da experiência de vida de quem já a ganhou, especialmente de quem está a trabalhar na área em que imaginamos. Como tal, espero que partilhem do mesmo entusiasmo. A próxima convidada foi a Sofia Barata, Head of Corporate Services na Vieira d’Almeida e Associados. ENTREVISTA FJ: Olá Sofia. Antes de mais, queria agradecer-lhe por ter aceitado o meu convite. Por favor, apresente-se aos nossos leitores. Sofia Barata (SB): Olá Francisco. O meu nome é Sofia Barata, sou advogada, Head of Practice dos Corporate Services da VdA e responsável pela implementação do projeto de IA aplicado à revisão de documentação e pela automação de contratos. FJ: Sofia, tirou a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O que nos pode dizer da sua experiência enquanto estudante? Alguma disciplina que a marcou? SB: Tirei o curso no início dos anos 90 numa Faculdade de Direito com Professores extraordinários com quem aprendi muitíssimo. Destaco o Marcelo Rebelo de Sousa, o Freitas do Amaral, Menezes Cordeiro e outros também muito importantes, mas de que não gostava tanto, como o Jorge Miranda, que dava Direito Constitucional, uma das disciplinas mais importantes do curso. A minha experiência foi muito enriquecedora, foram anos muito importantes no meu crescimento que me definiram de forma muito marcante. Foram os anos em que acho que me tornei naquilo que sou. O mais importante foi aprender a pensar e a resolver problemas. A perceber que temos de ser nós a encontrar as ferramentas e a melhor forma de encontrar respostas. E claro, foram anos muito divertidos, em que se tem a vida toda pela frente. Foi na FDUL que fiz amigos para a vida e de quem sou muito próxima. Da minha experiência enquanto estudante de Direito destaco um processo evolutivo, tive várias ideias ao longo dos 5 anos, pensei em várias hipóteses de carreira e depois foi tudo acontecendo de forma um pouco diferente e com imensas oportunidades que foram surgindo. Destaco Teoria Geral do Direito Civil e Obrigações – para mim que gosto de direito civil, direito privado – e, claro, penal e processo penal. FJ: Pode ler-se no site da VdA que possui "uma longa experiência na área de M&A". Pode contar-nos em que é que esta área consiste e falar-nos da sua experiência enquanto advogada de M&A? SB: A área de M&A, ou Mergers and Aquisitions, tem uma vocação essencialmente transacional e uma experiência em operações de fusões e aquisições. Aqui na VdA, o nosso portfólio de clientes inclui empresas e investidores internacionais e nacionais de várias ordens e naturezas. Participei ao longo dos anos em transações em setores chave como a banca, energia, as infraestruturas, a saúde, as comunicações e tecnologia. A atividade da área de M&A centra-se essencialmente em processos de aquisição e venda de empresas, fusões, cisões, joint ventures, parcerias, privatizações, reorganizações societárias, restruturações e ofertas públicas de aquisição e de venda. Trabalhamos em conjunto com as várias competências da firma e asseguramos, através de uma abordagem integrada dessas valências e expertise setorial (nomeadamente em matéria fiscal, financeira, regulatória, concorrência, laboral e propriedade industrial, entre outras), o desenho de soluções inovadoras orientadas para os objetivos e resultados do cliente. Temos sempre em conta as especificidades do respetivo assunto. FJ: O seu trabalho prende-se com a implementação da Inteligência Artificial e da inovação digital por parte das firmas de advogados. Como é trilhar este caminho digital numa firma tão relevante e importante como a VdA? SB: A VdA tem a inovação no seu ADN e, como tal, o desafio da digitalização – da transformação digital - foi abraçado de forma consistente e a transformação tecnológica reflete-se de forma natural na nossa prática e no nosso dia a dia em diversos ângulos, designadamente na mobilidade, na colaboração e na eficiência. A eficiência, em particular, é trabalhada em diversas frentes, destacando-se as plataformas de inteligência artificial e inferência estatística/analítica e plataformas de automação de documentos. Neste enquadramento, incorporamos no nosso dia a dia diferentes ferramentas tecnológicas num só ecossistema; VdA e os advogados beneficiam de uma realidade mais conectada e versátil de acesso às ferramentas de trabalho, mais eficiente na sua utilização, sem nunca comprometer a segurança. O nosso principal objetivo por detrás da adoção das novas tecnologias é criar valor para os Clientes, prestando serviços mais eficientes e otimizados num modelo mais apelativo, com o estabelecimento de entendimentos mais dinâmicos e próximos. A transformação digital e tecnológica vai intensificar-se sobretudo nos ganhos de eficiência e otimização, através do reforço da análise, classificação e automação documental - muito por via da aplicação consistente de plataformas de inteligência artificial, tecnologia de bots para automação de tarefas - da otimização e gestão de processos judiciais e administrativos e gestão de projetos. FJ: Quais os principais desafios e tendências que a profissão enfrenta nos próximos anos? De que forma pode a automação de tarefas e o mundo paperless contribuir para uma entrega mais eficiente? SB: Há sempre uma discussão ou um debate teórico acerca da IA e do seu impacto. Mas, considerando a IA uma inevitabilidade, julgo o debate se deve centrar em “Como vamos beneficiar destas tecnologias, e como será a melhor maneira de as implementar” – como vamos ser os Advogados que os Clientes esperam que sejamos. Como implementar de forma consistente como um novo paradigma? Como avaliamos o impacto, como ultrapassamos as resistências? A resposta é: com compromisso, suporte dos Sócios, do Management, com treino, formação dos novos advogados, com investimento. Este tema surgiu na minha vida quando liderei duas das maiores operações de due diligence levadas a cabo em Portugal – uma no âmbito da venda de uma empresa de telecomunicações e outra no âmbito da venda de um banco. Pode imaginar a quantidade de documentos que tiveram de ser analisados manualmente. Comecei então a pensar numa forma de agilizar estes processos. À data de hoje (novembro de 2022) estamos todos conscientes de que não será possível vencer os desafios dos tempos modernos, em particular os relativos ao valor e ao futuro do trabalho na área da advocacia e do direito, sem abraçar as tecnologias que precisamente os tornam modernos. Somos confrontados com os agentes da mudança: a urgência de eficiência e otimização, o aparecimento de novos concorrentes (tradicionais ou não), novos modelos de pricing e pressão nos fees e a fulgurante ingerência das novas tecnologias em todos os setores da economia. Há, assim, uma necessidade de olhar com naturalidade e inevitável certeza para a inscrição das novas tecnologias como a inteligência artificial e a automação de documentos no contexto da prestação de serviços jurídicos. Os clientes continuam a querer que os serviços jurídicos sejam prestados por advogados com expertise, conhecimento e talento verdadeiramente humano mas, com a ingerência da tecnologia em todos os setores da economia é também certo que, uma vez disponíveis, vão exigir que os mesmos serviços contem com as vantagens - em particular, a eficiência e o rigor - das novas tecnologias de inteligência artificial e obviamente da digitalização que naturalmente a precede o que permitirá o foco e a dedicação do advogado ao que os clientes mais valorizam e pretendem, o aconselhamento jurídico para a melhor tomada de decisão. FJ: Para terminar, consegue dar aos nossos leitores algum conselho para o seu curso e futura vida profissional? SB: São três conselhos que tenho para vos dar. O primeiro: leiam. Leiam muito, seja o que for. Romances, por exemplo. Não digo romances no sentido de histórias de amor, mas no sentido de ficção literária. Tenham interesses para além do curso, seja qual forem. Aproveitem esta altura das vossas vidas para alargarem os vossos horizontes. O segundo, interessem-se por política. Pelos direitos humanos. Está na hora de subscreverem um jornal, de lerem um pouco as notícias. De se tornarem jovens informados. O terceiro, e mais importante: aproveitem muito!

  • Porque nos importamos?

    O tempo é inexorável Já dizia Ricardo Reis Mas se é tão irremediável Porque nos importamos? Não conseguimos voltar atrás Por mais que queiramos Então, porque nos importamos? Será que alguma vez voltaremos à inocência de quando éramos crianças, de aproveitar o momento sem qualquer desalento? Seremos capazes de espremer e saborear cada momento, sem pensar no que poderíamos mudar ou no arrependimento? São questões que nos deixam a pensar naqueles instantes que devíamos ter usufruído, agora convertidos em memórias inquietantes. O nosso tempo neste mundo está contado pelo cronómetro de Cronos. Então, porque não tirar o máximo proveito e deixarmos para o passado aquilo que já foi ultrapassado...

  • A homeostasia da calma

    Às vezes, apetece-me chorar. Não porque alguém partiu, ou algo se perdeu. Principalmente quando nada de triste se passou, apetece-me chorar. Como se das águas paradas de um lago, de repente principiasse uma chuva sincera para dentro, molhando a água e as algas e os peixes. Como se, em terreno firme e imóvel, inusitadamente se rebelasse uma partícula, capaz de fazer a estrutura ceder. Como se, no espaço infindável e adormecido, um algo de nada algures se expandisse aos bocadinhos, fazendo eclodir o Universo. A mim, por vezes, apetece-me chorar. Há certos momentos de calma que causam em mim compulsões internas, junto do coração, isto é, que me comovem. Quando olho alguém que amo e me recordo das verdades que esse conceito figura. Quando ouço certa melodia. Quando leio esta ou outra passagem. Por meras razões de homeostasia, pequenas gotas de mar diluído fazem eclodir os depósitos em que se encontram nos cantinhos dos meus olhos e deixam-se escorregar, isto é, choro. Não vou dizer que choro de alegria, não acredito que seja essa a razão subjacente a todo este processo. Acho que há uma certa tristeza nas coisas calmas, nas coisas certas, nas coisas que nos fazem felizes. Porque todas as verdades têm dois polos e a felicidade não pode ser diferente se vigora no mesmo plano que tudo o resto. Há alguma melancolia naquilo que é alegre, uma certa alegria em tudo o que é triste. Talvez chore porque o sei, ou melhor, porque o sinto, sem o saber. Talvez a tristeza e a alegria sejam a mesma coisa, com jeitos diferentes de se mostrar. Talvez sejam coisas diferentes que se mostram da mesma maneira, já que ambas me fazem chorar. Ou uma delas. Ou aquela que é também a outra, ao mesmo tempo. É que nenhuma constante é eternamente constante. Só o é enquanto não chove, enquanto não se rebelam as partículas, e enquanto os bocados de nada não decidirem expandir-se imprevisivelmente. Talvez seja esse o outro polo da alegria, o da sua efemeridade. Se assim for, apetece-me chorar porque aquilo que me comove tem um fim certo, mas imprevisível. Porque a calma não antecipa o momento em que será posta em causa, ou não seria calma. Porque os finais me amedrontam e a extinção da rotina é uma ideia tão difícil de suportar. Mas isto não é certo, porque as coisas não acabam verdadeiramente. As verdades que parecem acabar apenas se transformaram noutra coisa qualquer. Deve haver espaço, nessa transformação para que a felicidade se converta também. Não em tristeza, mas numa outra versão de si mesma. Afinal, o amor não pode simplesmente desintegrar-se, e não há perda na transformação. Comovo-me, então, pela beleza que subjaz a todos estes câmbios encadeados de verdades. Pela multiplicidade de variáveis que cabem dentro de cada certeza. Não choro de alegria, nem choro de tristeza. Independentemente disso, agora, apetece-me chorar - esta manhã, o meu pai sorriu para mim ao despedir-se para ir trabalhar. Não me sinto feliz, tão-pouco me sinto triste. Tudo está calmo.

  • Uma colher de açúcar, meia de sal: a receita secreta para um processo criativo atribulado

    Enquanto redatores, nasce connosco um dever de transmitir em palavras as nossas deambulações mentais. Por vezes, é aquilo que sentimos numa sexta-feira à tarde, depois de 8 horas de aulas sobre a 'lei das coisas'. Por outras, uma das muitas tragédias que a vida nos dá de presente, num embrulho cor-de-rosa com um lacinho dourado (para parecer menos trágico, claro). Ocasionalmente, são as pequenas reflexões que resultam de momentos mais ou menos filosóficos que nascem e procriam dentro das nossas cabeças. Agarramos num papel, escrevemos. Escrevemos e apagamos, apagamos para escrever de novo, mas de uma forma diferente. As nossas palavras são meros enfeites para uma ideia: procuramos sempre deixá-la bonita, percetível aos olhos de todos. Não há nada mais temível para um escritor que a falta de clareza. A lógica, contudo, nem sempre se aplica. Como transformar pensamentos descabidos em algo minimamente coerente? Como escrever em algumas frases conexões neurológicas pouco claras e incongruentes? Nem mesmo as palavras alcançam essa proeza: a elas está reservado um domínio diferente, o que deixa a ideia apelativa ao público. A frase não fica bem desta forma, ou será a reflexão que não faz sentido? Será que entenderão o que quero dizer? E se entenderem e não gostarem? Ou se gostarem dos adereços da ideia, mas não da ideia em si? Ah, se eu pudesse vomitar tudo o que penso e sinto para um pedaço de papel e chamá-lo de texto! Mas não posso. Há que trabalhar na coisa, há que aperfeiçoar, reescrever, triturar, misturar, adicionar uma colher de açúcar e meia de sal e levar ao forno para ficar pronto em... tempo indefinido? Provavelmente uma eternidade, com sorte em 2 dias úteis, por milagre em 3 horas. E se não fosse este dever, este sentimento, esta vontade de partilhar o nosso engenho, o papel ficaria vazio, a caneta cheia, e os leitores sem nada para remoer dentro do próprio juízo. Mas não o fazemos só pelos leitores, fazemo-lo por nós próprios, fazemo-lo porque nascemos assim: é uma condição que nos é inerente. E que fazer quanto a isso? Nada! Aceitamos a nossa conjuntura e arranjamos remédio para o problema: não há como fugir ao processo criativo nem à satisfação que um texto terminado e novinho em folha nos traz. Assim, recapitulando, mais uma vez: agarramos num papel, escrevemos, escrevemos para apagar, escrevemos para reescrever, reescrevemos para repensar. Paramos para depois recomeçar de novo. Por fim, rasgamos a folha, apagamos o parágrafo que redigimos durante a última meia hora. Desesperamos, mas o pensamento, a ideia, o sentimento, esses não desaparecem, são insanáveis e insistentes. O dever não evapora, a vontade não se extingue. Que chatice, não há como escapar ao nosso destino ou evitar quem somos. Por fim, rendemo-nos ao impulso: escrevemos, escrevemos muito, sentimos ainda mais, escrevemos porque sentimos, escrevemos porque é isso que somos: ideias bonitas num papel com tinta colorida e uma assinatura.

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