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  • MAIS UMA DA NOVA ESCOLA DA LEI

    Caros leitores, Este é um sticker do meu grupo de turma do WhatsApp, a par dos muitos que são partilhados sobre os vários e várias professoras, que, para não ser processada (sendo que estamos todos no curso certo para isso), garanto que não ofendem, não difamam, são apenas caricatos e dão a conhecer um pouco sobre cada um deles. Contudo, estou a desviar-me do rumo. Estou aqui para relatar o que, para mim, constitui este dito “Mais uma da NOVA Escola da Lei”, que, de resto, varia de aluno para aluno, e acredito mesmo, que também varie de funcionário para funcionário, e no extremo, e com algum descaramento, de professor(a) para professor(a). Como a página do Instagram gosta tanto de anunciar, a NOVA School of Law (a designação em inglês também já deu que falar e já foi para alguém o seu “Mais uma da NOVA Escola da Lei”), encontra-se nos lugares mais elevados de quase todos os mais prestigiados rankings educativos. Assim, calcular-se-ia que não haveria nada a apontar nesta faculdade de excelência. Mas não é bem assim. Ora, o meu “Mais uma da NOVA Escola da Lei” é a NOVA SOL e o seu Cartão de Estudante. Pelo que os gatinhos que passeiam na faculdade me contaram, dos últimos anos de curso, apenas uma rapariga (estrangeira) conseguiu obter o seu Cartão. Como, gostava eu de saber. Sendo que já fui aos Serviços Académicos presenciais perguntar sobre o dito cujo, e me redirecionaram para o Santander, banco com que a faculdade estabeleceu parceria para emitir os Cartões (como a Universidade de Lisboa e a Universidade Católica Portuguesa estabeleceram parceria, só que com a Caixa Geral de Depósitos, que, pelos meus parcos conhecimentos e informações privilegiadas – nem tanto – já os alunos receberam o seu Cartão pouco depois do início do seu primeiro ano letivo). Esperançosa, fui ao balcão Santander, mesmo ao lado da nossa faculdade, o que veio mesmo a calhar. Ora, os funcionários redirecionaram-me para os Serviços Administrativos da Faculdade, porque são eles os responsáveis, declararam. Que grande palhaçada. Enviei email para os Serviços Académicos. Enviaram-me um link para preencher com os meus dados. Contudo, este link serve para a dupla modalidade de Cartão Estudante com conta bancária associada. Mas eu não quero conta bancária associada, já tenho a minha. Liguei para o Call Center do Santander. A “senhora” que me atendeu, que só me apetece chamar de incompetente e outros nomes, após serena e calmamente eu lhe ter exposto a situação, começou a gritar comigo, a mandar-me (quem é que ela pensa que é?) para os Serviços Académicos da Faculdade. Após muito se debater e barafustar, desligou-me o telefone na cara, e eu não resolvi nada. Frustrada e melindrada, tentei fazer uma reclamação online no Livro de Reclamações, mas ou sou eu que sou muito incompetente e não percebo nada disto, ou então é algo novamente criado pelo complicómetro tuga, que ninguém consegue perceber e desiste pelo caminho. (Não, não concluí a reclamação). Adiante. Depois de me ter exaltado com isto tudo, liguei outra vez para o Santander. Desta vez, Deus abençoou-me com uma senhora extremamente educada e competente, que se prestou logo a pedir perdão pela (…) colega e a resolver com a rapidez e eficácia desejáveis a situação. Ora, guiou-me, como um pastor guia o seu rebanho pelo website desta Instituição Financeira, e lá pedi APENAS o Cartão de Estudante. Afinal, é possível, se não se amarrar o burro e se não se autoproclamar a detentora de toda a verdade, fornecer-me uma solução (quem me dera ter fixado o nome da primeira “senhora”). Contudo, e isto sem culpa dela, parece-me que não vai dar em nada, porque se pede o cartão de maneira muito simples, sem dados pessoais quase nenhuns, afirmando que o Cartão vai ser emitido e enviado para os Serviços Centrais da Faculdade. Procedendo tudo isto, enviei email aos Serviços Académicos a relatar as minhas aventuras e a pedir que me informassem da chegada do meu Cartão, para o poder requisitar. Aguardo resposta ainda. E os meus queridos e prezados leitores, também aguardarão pelos próximos capítulos. Pois, prometo não vos deixar com um final aberto. P.S.: escusado será mencionar a importância do Cartão de Estudante, mas, mesmo assim, fá-lo-ei e recordar-vos-ei a todos, para que a quem de direito se consciencialize e possa resolver esta situação com a máxima brevidade e urgência (preferencialmente para ontem), para que todos os alunos desta ilustre instituição sejam restituídos do seu Cartão de Estudante. Ora, ponto número 1: serve de documento de identificação na faculdade (apesar de eu saber que este ponto não há de ter muita utilidade — mas poderia vir a ter, como por exemplo, para a realização dos exames, para a identificação do aluno). Ponto número 2: para os mais pragmáticos e práticos, este Cartão providencia várias bonificações e vantagens em diversos serviços e situações exteriores à Faculdade (já tive de pagar um bilhete por inteiro na Rede Expressos, porque não tinha o Cartão. Sim, eu sei, ridículo, é 1 euro a mais, mas o português é de si forreta, e ajuda a minha argumentação. Também poderia ter mostrado a Área Reservada, mas estou a defender o lado oposto e NÃO quero — e quem não tem dados móveis?). Ponto número 3: para os mais emproados e snobes (quiçá eu me insira nesta designação), apenas quero o cartão de recordação sentimentalista (como as minhas amigas gostam tanto de gozar comigo, afirmando que levarei o letreiro da Faculdade quando acabar o curso – isto porque elas já presenciaram, inúmeras vezes, a minha obsessão com o merch da Faculdade), mas também para apresentar o meu Cartão da NOVA SOL, com o maior orgulho de ser sua estudante, e com o merecido show-off (que, de resto, o meu namorado e a minha melhor amiga estão fartos de me mostrar os seus e eu quero competir com eles, porque não gosto de ficar para trás). Concluo, com o veredicto de que toda esta situação é muito caricata. E se já perdi um ano a tentar obter o meu Cartão, este ano azucrinarei outra vez o juízo a muita gente para o obter (or die trying).

  • Patente do Amor

    “Acho que gosto de me prostituir emocionalmente”, digo ao Afonso. Ele ri-se e encosta a cara à janela da carruagem do metro, enquanto olha para mim. Estamos os dois levemente embriagados por causa de uma festa que a Mafalda e o Rodrigo deram em honra da compra da casa nova. Sim, a Mafalda e o Rodrigo têm dinheiro para comprar casa em Lisboa, impressionante, eu sei. “Gosto das pessoas muito facilmente. Gosto de colecionar cérebros, apaixono-me rapidamente por eles. Uma amiga minha disse-me que não via ninguém a apaixonar-se pelo dela, mas mal sabe a tonta que eu o tenho guardado numa gavetinha, decorada com brilhantes e estrelas. Para mim, é comum tropeçar num cérebro e querer metê-lo logo numa caixa ao lado do dela.” O Afonso sorri carinhosamente e diz: “E, eu que pensava que eras uma mulher independente, que não se apegava às pessoas assim e que se focava na carreira e no trabalho! Onde está o teu feminismo?” O homem que estava no banco ao lado do Afonso sai da carruagem, eu levanto-me e sento-me no banco abandonado por ele. “Ó, sabes muito bem que esse discurso me irrita. Repugna-me a importância que se dá ao indivíduo na nossa cultura atual e em certos tipos de feminismo. Quando falamos que queremos estar numa relação com alguém o que nos dizem é: “Para quê? Estás tão bem sozinha! Aproveita o tempo enquanto ainda és jovem para seres independente!”, como se partíssemos da premissa de que a nossa liberdade é, automaticamente, subtraída por gostarmos de alguém. Acho que a minha vida sem a comunhão com os outros seria menos satisfatória, independentemente da “quantidade” de amor próprio que tenha.” O Afonso faz uma expressão de contentamento, como se a nossa conversa fosse um jogo de ténis de mesa, em que ele sabe calcular a força com a qual eu lancei a bola, antes sequer de eu a ter lançado. Ele mexe-se no banco e fica mais perto de mim, enquanto uma mulher com uma criança ao colo se senta à nossa frente e o bebé entretém-se, mexendo no pendente do colar que ela tem ao pescoço. A mulher olha para mim e esboça um sorriso. Eu retribuo-lhe a expressão e ela vira-se para o bebé e diz, enquanto lhe toca na cara: “Aquela senhora também tem covinhas como tu!”. O Afonso leva o dedo indicador às minhas bochechas e diz, entusiasticamente: “Pois tem!” Sinto a cara quente e sussurro-lhe ao ouvido o óbvio: “Estás bêbado.” Ele confirma-o e acusa-me do mesmo. “Sabes, Afonso, acontece-me muitas vezes olhar para um quadro e sentir um sentimento incontrolável de raiva para com o autor da obra. Isto, porque o artista descobriu uma coisa que eu só percebi que estava escondida em mim depois de olhar para a pintura, depois de ele a descobrir primeiro. É, essencialmente, inveja. Inveja de não me ter lembrado daquilo antes, de não o ter pintado antes, aquilo que é uma coisa tão minha, mas também tão dele. Acho que sinto isso relativamente ao Amor também. Sei que não fui eu que inventei o Amor, mas eu sinto-o como se ele fosse meu, como se ele fosse invenção minha, como se eu o tivesse pintado com todas as cores do universo, para depois voltar a cobrir tudo de branco, enquanto deito lágrimas dos olhos, porque é isso que faço sempre. ” Ele faz-me uma cara de pena, dirigida, essencialmente, ao que eu disse por último e retorque: “Ser criador do Amor é soberbo! Imagina venderes a patente do amor, ficavas rica!” “Acho que estou sempre a vender a patente do meu amor, mas desta vez do meu amor com letra minúscula. As vendas é que não correm muito bem, o produto acaba sempre por valer menos do que o preço pelo qual o consumidor está disposto a dar. Claro que, por valer menos não quer dizer que valha pouco.” Confuso, pergunta-me: “Porque é que achas que o teu amor tem valido menos do que aquilo que estiveram dispostos a pagar por ele?” “Aquilo que mais me chateou nas minhas relações anteriores foi o facto de os meus parceiros me terem colado a uma imagem de uma personagem secundária que é divertida e cintilante, cujo papel no filme é apenas ajudar o protagonista a encontrar a felicidade. Quase todos amaram a ideia que criaram de mim, muito mais valiosa, e não amaram a Catarina em si.” Ele acena afirmativamente, mostrando que compreendeu. “Romantizar-te em prol de desejos egoístas, invalidando e ignorando o que queres e o que sonhas é cruel, mas não será impossível amar a Catarina em si? O teu eu primário?” Finjo que fiquei ofendida, tocando com a mão no peito e dizendo agudamente: “Uau, obrigada pela parte que me toca, não sabia que era uma pessoa impossível de amar!” O Afonso revira os olhos. “Sabes que não falo nesse sentido. Acho que é impossível amar qualquer pessoa em bruto, nós apaixonamo-nos sempre pela perceção que temos uns dos outros, pela ideia que criamos. Seria errado eu dizer que gosto de ti como a Mafalda gosta de ti. A Mafalda gosta da perceção que tem de ti, que é diferente da minha. Qual destas perceções corresponde ao teu eu primário?” “Nenhuma” “Exato. Para mim, a realidade e o amor são contraditórios. Quando amas, amas uma versão distorcida daquilo que é a realidade. É como se cada um de nós tivesse óculos personalizados. Podemos estar a olhar todos para a mesma coisa, mas se trocarmos de lentes com outra pessoa aquilo que vemos é, astronomicamente, diferente.” O bebé deixou cair o colar que a mãe, anteriormente, tinha retirado do pescoço para ele lhe poder mexer livremente. Eu inclino-me para o apanhar, sentindo que a minha cabeça está presa a um saco com pedregulhos, e devolvo-o. O bebé esboça-me um sorriso, enquanto encosto a cabeça ao ombro do Afonso. Continuo a olhar para a criança, que mexe nas contas do colar, e digo: “Isso até é bonito. Pensar que cada uma das pessoas que gostam de mim tem a sua própria Catarina para amar. Dantes deprimia-me a ideia de ninguém conseguir gostar do meu eu em bruto.” Ele toca-me no joelho e diz: “Para isso acontecer, era preciso encontrá-lo.” “Achas que ele anda fugido, Afonso?”, levanto a cabeça do ombro dele, olhando-o nos olhos, como se, ao fazê-lo, conseguisse encontrar a resposta que procuro neles. “Penso que todos os nossos eus em bruto andam fugidos. Foram comprar cigarros e nunca mais voltaram, nem deixaram rasto para os podermos encontrar. Aquilo que somos anda perdido dentro de nós e, talvez, o desejo mais profundo do ser humano seja descobrir o que não se deixa encontrar.” Contento-me com a resposta, inclino a cabeça para trás e fecho os olhos e decido que, talvez, vá pôr o cérebro do Afonso numa das minhas caixas.

  • O comboio da vida não tem paragens

    É comum presumirmos, na nossa inocência, que existe apenas um de nós no universo. Por incrível e inacreditável que pareça, existem vários e diversos eus a vaguear, por aqui e por ali, a criar laços e a interagir com o mundo, todos dentro de um mesmo ser, um mesmo complexo de carne e osso. Talvez seja por esta ideia de multiplicidade interior que, sempre que me sinto obrigada a falar do ser-humano, o descrevo como diverso, multifacetado, e, até mesmo, fragmentado. Acredito vivamente que cada um de nós possui muitas vidas, muitos eus a coexistir dentro de si (nem sempre em harmonia). Alguns são companheiros de longa data, habitam esta carcaça terrestre desde o primeiro momento, e, dificilmente, desaparecerão antes dela. Outros, mais tímidos, apenas aparecem quando lhes convém, preferem manter-se longe dos holofotes do momento, e deixam as luzes da ribalta para os mais rotineiros. Há ainda aqueles que desconhecemos, que ainda não se apresentaram, mas que, eventualmente, se mostrarão para demarcar uma nova etapa da nossa vida. Apesar de múltiplos, todos desempenham uma função, todos têm o seu lugar dentro de nós. Excluir um seria chacinar um pedaço daquilo que consideramos ser. Todos os momentos, sentimentos, pensamentos e ações associados cairiam num sono profundo, uma lembrança daquilo que outrora fomos. Mas é necessário, se não crucial, o conjunto completo para fazer a máquina funcionar. Vejamos: um comboio apenas funciona com os seus maquinistas. Sem eles, a locomotiva permanece imóvel, estancada no tempo e no espaço. No entanto, já que pegámos nesta metáfora, podemos ir mais longe, estender o olhar para as suas carruagens, os seus passageiros. No comboio da vida transportamos memórias e vivências, mas também pessoas, que, de alguma forma, se destacaram pelos vestígios que deixaram para trás, com cada um de nós. Cada parte de quem somos dita uma porção do destino final destes passageiros, tem a inevitável responsabilidade de lhes assegurar o lugar correto e garantir uma confortável estadia. Caso contrário, o que os impediria de sabotar a nossa locomotiva e tornar a viagem mais morosa e difícil do que é necessário? O comboio da vida não foi concebido para efetuar paragens. O seu ritmo deve ser constante, focado no progresso, de forma a atingir o destino último de todos os seres humanos. Mas, por vezes, a máquina sofre as suas interferências, avarias e coisas do tipo, nas quais raramente possuímos mão: fazem parte das facetas do destino. É aqui que nós, múltiplos e diversos, entramos para cumprir a única tarefa que nos foi incumbida: manter a máquina a funcionar até à estação final. Mas o comboio é, mais uma vez, apenas uma metáfora, um recurso estilístico que os escritores sempre tiveram um especial apreço por utilizar. Existem outras formas, mais cruas e insípidas, de descrever a vida e as suas reviravoltas. Prefiro manter este panorama vago e criativo, garantir que cada um retira a interpretação que acredita ser mais indicada, que se encaixa melhor às suas vivências. Retiro-me apenas com uma questão à qual ainda não encontrei resposta adequada: o comboio da vida não funciona sem maquinistas… funcionará sem passageiros?

  • Amor: um fogo que arde sem se ver?

    O que é o amor? Porque o sentimos? Em que nos transforma? Camões diria que o amor “é fogo que arde sem se ver”. Não estará ele certo? Amor aquece-nos o coração, mas também o queima e magoa. Aparece quando menos o esperamos, fica à espreita num canto da porta pelo momento perfeito para fazer a sua entrada e, quando a faz, leva consigo tudo o que temos para entregar de nós. Defini-lo é trabalho árduo para qualquer um. É um sentimento diverso, repartido, fragmentado. Uma emoção complicada, que faz jus à complexa natureza humana. Toma como palco a nossa vida. O enredo é ele que escolhe. É ator e encenador de toda a peça, e só ele conhece o desenlace da ação. Acabará em tragédia? Como Romeu e Julieta ou Amor de Perdição . Ou entregará um final feliz? O final pelo qual todos anseiam. Amor é, portanto, um arriscado jogo de apostas, em que podemos perder mais do que tínhamos para dar, ou ganhar mais do que sequer desejávamos. Todos participamos nesta brincadeira, nesta encenação. Não há sequer como recusar: no seu campo, o amor funciona como um verdadeiro tirano, não ouve a lógica da mente e controla o coração como bem entende. Portanto, que mais fazer se não o aceitar de braços abertos e cabeça erguida? Lutar contra ele é uma batalha perdida. Tentar destroná-lo requer esforço desmedido. Nem todos podemos ser estóicos e epicuristas, procurar atingir a aponia e a ataraxia na vida, ideais tão afastados da essência humana. Deixemos antes estas filosofias gregas para Ricardo Reis e Lídia e observemos, contentes ou descontentes, a tragédia ou a comédia que ele nos teceu, como espetadores, como atores, mas nunca como dramaturgos, no palco da vida. Amor é, será e deixará de ser. Amor tem-se, escreve-se, pinta-se, fala-se, exprime-se, demonstra-se. Mas amor não se controla, não se restringe, não se evita. Por vezes finge-se, por vezes engana, por vezes mente. Amor é, na sua essência, um fogo que arde, chama que se sente, uma brasa impaciente, lume impertinente.

  • Crescer: um olhar atento ao coração

    Francisco, carinhosamente chamado pelos pais de Chico, sempre foi um menino extremamente resguardado, assim como muitos da sua idade: circunscritos por uma bolha estanque de inibição, constituída pelo distanciamento em relação aos outros e pelo refúgio em meios impessoais, protótipos de uma suposta interatividade social, para “fazer passar os dias”. Em sua escola, mantinha conversas com um ou outro, sempre portando uma forte armadura social, sem externalizar os seus sentimentos, pois, para ele, bastava abrir-se com os pais, o que de si só já exigia um grande esforço. Neste mundo tão confuso, as faces o assustavam; contactá-las e encarar reações em diferentes medidas seria muito perigoso. "Então e se fizessem uma cara feia? E se discordassem mesmo da maior frivolidade que eu poderia inventar? É muito arriscado, prefiro estar acompanhado dos meus brinquedos e videogames , que nunca me surpreendem". Apesar da nítida introversão, os pais satisfaziam-se e permaneciam estáticos, pois Chico sempre foi muito bem comportado, como todo o pai gosta: "te recompensamos pelo seu bom comportamento, compramos mais um jogo ou o novo lego". E assim permaneceu até aos seus 16 anos, nesta constante ociosidade, caracterizada pela profunda solidão disfarçada pela imagem do menino bom e obediente. Todavia, a perspetiva se altera drasticamente: nesta altura da vida, surgem as dúvidas profundas (ou "perguntas últimas") quanto ao seu lugar no mundo e ao sentido final da existência e, com o ingresso à faculdade no retrovisor, Chico, incentivado pelos pais, decide adotar outra postura: “Será que essas faces são mesmo tão assustadoras?” "Que tal dar uma chance às pessoas?" Então, ao chegar à faculdade, procurou logo dar-se com todos. Prática-solução de um passado tímido e sossegado, caracterizado pelo olhar aos próprios pés e pela pura inatividade. De fronte com qualquer pessoa, esforça-se ao máximo para usar as palavras mais certeiras e usuais no intuito de não a deixar escapar. É assim que, paulatinamente, constrói um forte cimento relacional sobre o terreno baldio e inócuo que lhe é reminiscente. Recorre aos meios mais fáceis e inofensivos ao seu dispor (hiperboliza sentimentos fugazes, acelera processos, põe uma estrelinha verde no Insta, etc) na virtude de conservar essa fulgurante sensação que lhe é inédita. Nesse sentido, no regresso à casa, o seu maior alívio é ter encarado as faces de forma corajosa, porém com a segurança de que não saiu por aí a tocar em corações, pois esses, ainda, são inatingíveis. Está a apreciar intensamente essa vida de contar cartas e registar o novo inventário. Afinal, quem não se vislumbra com a repentina metamorfose da solidão diária para estar sempre rodeado por quem nomeia como amigos? Ergue-se então a pergunta: "esta metamorfose, contudo, é apenas repentina ou também apressada?" Para Chico não importa, pois é como se tivesse nascido outra vez: sai de seu invólucro solitário assim como saiu do ventre de sua mãe e está agora a ver a vida com o mesmo olhar fascinado que portava quando se abriu ao mundo em uma sala de um hospital. Nesse sentido, completamente encantado por estar a “ver a vida pela primeira vez”, opta por adotar uma simples e otimista interpretação: retira do pouco que sabe de cada figura que recentemente conheceu (essencialmente a face) a conceptualização mais solene e pura do Ser Humano, fruto de uma pretensa gratidão por terem, de certa forma, preenchido imediatamente o vazio terreno de sua alma, isto é, o terem conduzido ao seu renascimento para o Mundo. Ademais, mesmo que pense que está iludido ou demasiado inocente, não lhe será importante, devido à proeminência desta inédita e confortável abordagem. Atentamente a esse ponto, temos nós o poder de conceder juízo sobre como Chico está a abordar a sua vida? Penso que não. É comum que optássemos por subir no estandarte de nossa arrogante experiência pessoal, constituída por todas as nossas deceções, incertezas, inseguranças e pequenas ambições, e julgássemos o menino, atribuindo-lhe uma pueril ingenuidade, dissonante de sua já não tão tenra idade, mas afinal, qual de nós, benditos experientes da vida, nunca teve a vontade de retornar à própria infância para escapar desta sóbria e crua realidade, que tanto nos machuca e nos pauperiza? Qual de nós nunca desejou retroceder a um tempo em que não tínhamos nem sequer a audácia de conhecer as pessoas suficientemente para nos dececionarmos? Esse é um sentimento corrente, um aparente escapismo das corriqueiras situações que tanto nos afligem. Precisamente, é o olhar cuidadoso às fotografias da infância que sempre podem nos animar, provocando-nos um distintivo sorriso inocente em meio ao diário esmorecimento. Todavia, mesmo que não seja completamente honesto de nossa parte julgar Chico, é possível aduzir que a sua prática não é duradoura e, ainda por cima, não leva a um correto realismo, no melhor, colabora com uma efêmera utopia. Considerar os indivíduos apenas ao nível de sua epiderme significa obstar-se completamente à verdade inextirpável de que todos os indivíduos atribuem sentimentos aos factos que os rondam consoante o seu coração , ao passo que corrobora a realidade premente de que os mesmos se revestem das mais sofisticadas armaduras para acobertar as suas emoções (provenientes dos sentimentos) no sentido de produzir imagens-tipo para a tácita anuência de terceiros. Todos os indivíduos percebem, em certos momentos decisivos, de escala temporal indeterminada, que a força interior que nos conduz exige um olhar mais complexo, que não se satisfaça simplesmente com estas faces produzidas e comuns, mas que foque nos corações ferventes determinantes à nossa conduta (é o “tudo bem?”*, a preocupação intimista com o outro). Isso para elucidar a existência de duas diferentes realidades, uma mutável remetente ao exterior e outro singular e imensurável, ligada ao nosso coração ("interior"), que devem ser cuidadosamente analisadas e distinguidas, partindo, em adição, de um olhar revestido do mínimo preconceito, a "pobreza de espírito", o que nos leva a igualmente valorizar a conduta levada a cabo por Chico na faculdade, caracterizada por ser pura (não superficial) e dissociada de preconceções. Portanto, o "bom e comportado" rapaz a qual nos detemos, agora que é corajoso o suficiente para encarar as faces, deve aprender a olhar através delas, para descobrir uma bonita realidade. Esse passo não trivial é indispensável, pois, apesar de desafiador, (devido às faces cada vez mais intimidantes) e não-linear, é fulcral para o crescimento do Ser Humano, elemento capaz de considerar a realidade de forma total. Assim, finalmente, o Chico torna-se Francisco! “Não tenhas medo da quebra de expectativas! O teu amadurecimento requer algo além do mero reconhecimento de sorrisos fáceis e fisicalidades intencionalmente dóceis, grita por sentir o fervor do coração, mesmo que te queimes". *A própria expressão refere-se à busca da totalidade da realidade de seu interlocutor, apesar de que banalizou-se, sendo dita automaticamente e descarregada de seu significado original.

  • Uma união (im)provável

    Existe a narrativa comum de que grupos religiosos e grupos Queer são como cão e gato, que funcionam como polos opostos, não existindo quaisquer alianças entre os dois. O que o livro Queer and Religious Alliances In Family Law Politics And Beyond pretende, ambiciosamente, revelar, segundo Nausica Palazzo, uma das editoras e autoras da obra, é que tal narrativa poderá conter algumas falhas, alguns recantos escuros que são necessários iluminar. O Jur.nal esteve presente no lançamento do livro que se realizou no dia 12 de junho, pelas 16 horas. No evento, participou a Professora Doutora Mariana França Gouveia, que nos elucidou sobre a importância da Nova School of Law promover e dar espaço a eventos como este. Para além disso, tivemos o prazer de ouvir os autores da obra: Jeffrey A. Redding, da Universidade de Melbourne; Nausica Palazzo, da Universidade NOVA de Lisboa; Robin Fretwell Wilson, da Universidade de Illinois; Noy Naaman, da Universidade de Toronto; Ayelet Blecher-Prigat, da Academic College of Law and Science e Laura Kessler, da Universidade de Utah. À discussão, juntou-se Ruth Halperin-Kaddari, da Universidade de Bar-Ilan e Adrienne Davis, da Universidade de Washington em St. Louis, ambas convidadas para comentarem o projeto. Segundo Palazzo, o livro apresenta a possibilidade de grupos conservadores religiosos e grupos progressistas poderem trabalhar em conjunto para expandir o reconhecimento do Direito da Família para além da família tradicional, “patrocinada” pelo Estado. Salientou que vários grupos religiosos demonstram interesse em promover estruturas familiares alternativas. Por exemplo, certas comunidades muçulmanas e mórmons ao defenderem a poligamia vão de encontro com o interesse de grupos Queer em superar a incorporação da monogamia na lei estadual. Para além disso, o anseio de conservadores religiosos norte-americanos por reformas em favor de famílias não conjugais e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo coincidem, também, com certos esforços queer, destinados a legitimar amizades e famílias que se distanciam da dita “tradicional”. Jeffrey Reading mencionou o facto de o livro levantar questões cruciais no que toca a política queer, ligadas aos principais desenvolvimentos da matéria em questão, ocorridos nos Estados Unidos, na Índia e noutros países. Cada um dos autores procedeu a uma pequena apresentação do capítulo que redigiu. Robin Wilson argumentou contra a separação do Casamento do Estado, sustentando-se no desenvolvimento da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos. Já Noy Naaman e Ayelet Blecher-Prigat sustentaram o contrário, tendo por base do seu estudo Israel, defenderam a abolição do casamento civil como um projeto queer e religioso, crendo que só assim é que os dois grupos beneficiavam. Laura Kessler propôs algo igualmente provocante: a ideia de conseguir igualdade sem a existência necessária de uma Constituição. Kessler revelou que, no livro, aborda a possibilidade de desenvolver uma pluralidade de respostas que vêm acompanhadas de legislação eficaz para proteger grupos Queer, sem a necessidade da existência de uma Lei Fundamental. Reading abordou, ainda, o facto de o livro ser, pelas palavras de Laura Kessler, um “pandemic baby”. As formas com os autores exploravam os assuntos mudaram com o confinamento, dando-lhe novas perspetivas acerca das relações interpessoais que estudavam. Por outro lado, também revelou a complexidade do processo de edição da obra, já que, ao ter vários autores, era difícil conseguir uma linguagem consistente ao longo do projeto, nomeadamente no que toca à nomenclatura que utilizaram para falar nos diferentes grupos sociais objetos de estudo. Questionada acerca de quais os temas que poderiam ter sido deixados de lado, para dar espaço a uma investigação mais detalhada em certos ramos, Nausica Palazzo afirmou que ainda há muito por onde explorar, conectando a questão, por exemplo, ao Direito dos Contratos. O importante, realçou, é que se construiu um vocabulário essencial para se falar sobre estas questões, pronto a ser utilizado, quem sabe, até noutro livro. Afastando-se das narrativas dominantes das chamadas “culture wars”, o livro é oportuno para o entendimento de uma problemática em constante mudança. Esta não é apenas uma questão de juristas, mas de Direitos Humanos, tal como os oradores o conseguiram transmitir, pelas suas áreas de estudo e diferentes opiniões, oferecendo ideias cruciais para o entendimento da problemática em questão. Demais, o jur.nal felicita esta iniciativa pioneira da parte da Professora Nausica Palazzo e dos autores e espera continuar a acompanhar este projeto, alusivo a um assunto assaz relevante.

  • Luz ao Fundo da Garrafa

    Acordo exausto. Lembro-me de quando acordava sem sequelas, refrescado. Agora até a memória seca. Vozes chamam por mim, António? dizem do lado esquerdo, mas do lado esquerdo só chama a roupa de ontem que não me lembro de despir, com a garrafa que despi de vodka. Chamam mais e mais, coro de vozes que conheço, desprovidas do dono, António? António? António? António António António. Sons de preocupação. A realidade desfalece e os lábios são pressionados, caio na cama mas não caio, foi só susto, e levanto-me no quarto escuro. Olho para o telemóvel. 10 da manhã. Mais uma aula perdida. Às 10 da noite há jantar e bar. Ocorre-me que não estaria a sair da cama e comer, se às 10 da noite não houvesse jantar e bar. E que não comer me fizesse bem de vez em quando, se não quero a barriga do meu tio que opina altamente sobre o estado do SNS no bar da vila às 3 da tarde. E que, debaixo da cama, expirando profundamente, há quatro garrafas cheias. Mas não faço nada com o facto, não teria piada, só tem quando há outros iguais à volta, quando hoje à noite gritarmos Vai uma saúde!, e tragarmos saúde, até alguém vomitar a um canto e entrarmos em pânico, como parteiras em pânico por estar a nascer um bebé. Brincamos sobre como somos drogados com o riso ligeiramente nervoso de que talvez seja verdade, a conta de 36 euros em copos suportada pelo facto de ter sido culpa de grupo. Piadas não a têm sem que todos a entendam. De outra forma, seria só triste. Trágico, sermos empurrados por quem foi também empurrado a juntar-se à comédia. Mas todos sabemos a verdade: procuramos o bem e evitamos o mal. Não nos culpo, nem me arrependo, nem nada expio. Enquanto isto nos fizer mais feliz que miseráveis, enquanto nos ajudar a evitar este curso que nos amarra e abraça, esta cidade que nos encanta enquanto engana, é a calçada escura mas branca por que iremos cambalear. Alguns dizem que isto não é uma vida. Mas deixem-me dizer: também não é uma morte.

  • Sem título

    Corro atrás do tempo. Ele foge. Corro tanto que fico cansada. Neste jogo das apanhadas incessante e perpetuamente circular que é a vida, o tempo ganha sempre. Nunca o apanho. Ele vira-se para trás e vê-me aflita. Então abranda. Deixa-me aproximar. Tudo para depois me despistar. E perco-o de vista outra vez. No dia a seguir meto-me no comboio rumo a casa. E assim que chego, o tempo senta-se comigo. Não há pessoas a ir e a vir, nem carros a arrancar. Não tenho medo de adormecer e perder o autocarro. Nem tenho de contar os minutos até ao intervalo. Nos primeiros momentos em casa o tempo dá-me um desconto. Há silêncio. Há calma. Há paz. Mas, como se o tempo me quisesse mesmo atraiçoar, de repente estou outra vez no comboio, rumo a um sítio onde ele não pára. Tento esticá-lo, pedir-lhe para me deixar ficar mais tempo. Onde há conforto, e família, e tanto tanto verde. Onde o cheiro da comida se espalha docemente pela casa. Onde cantam comigo as músicas que oiço desde pequena. Onde os abraços são mais aconchegantes. Mas o tempo não deixa. Leva-me dali para fora, como outrora me arrancou do escorrega do infantário onde aprendi que as feridas nos joelhos se curam, um pouco como as feridas do coração; como me puxou da carteira da primária onde aprendi a ler; como me levou da madrugada do meu baile de finalistas. Leva-me dali para fora como noutros momentos acabou com as tardes de praia ao fazer o sol pôr-se, ou com as vésperas de Natal quando fazia com que soassem as doze badaladas. O tempo traz-me para o sítio onde ele adora correr. Aqui os minutos são contados aos segundos para que tudo encaixe nos vaivéns rotineiros dos transeuntes que agora passam por mim. Levanto o pulso esquerdo para ver as horas num gesto automático, apesar de hoje não estar com pressa. Não ter nada para fazer parece anormal, ao ponto de me pesar na consciência. Mas não penso nisso. Se o tempo insiste em correr, eu insisto em estar parada. Quero, nem que seja por um dia, que seja o tempo a correr atrás de mim. Por isso, começo a medir o tempo não em horas, mas em lugares. Meço-o em palavras, em gestos. Meço-o em canções que me transportam para diferentes momentos. Meço-o em pessoas. Deixo de olhar para o relógio. Tomo um café com uma amiga e só me levanto quando me dói o rosto de tanto rir. Almoço às cinco da tarde no jardim, deitando-me na relva a ouvir a minha música favorita vezes sem conta. Abraço alguém de quem gosto até sentir as pernas dormentes. Tiro fotografias mentais à flor bonita na berma do passeio, ao casal de mãos dadas que passou por mim, e à cor dourada dos pastéis de nata que acabaram de sair do forno. Recuso-me a deixar o tempo apagá-las. Só saio do metro no fim da linha, já noite caída. Faço conversa com o senhor que parece stressado para que ele tire um tempinho para pensar noutra coisa que não o tempo a esgotar-se. Leio o meu livro sem pensar na hora a que tenho de parar para ir dormir. No dia seguinte coloco o relógio no pulso, obrigada a mergulhar na minha rotina. Ao longo do dia tenho pressa muitas vezes, mas a certa altura estou sentada a almoçar com os meus amigos e apercebo-me que não existe qualquer preocupação dentro de mim. Apercebo-me que consigo apanhar o tempo de vez em quando, em instantes particulares. E penso: talvez nestes momentos ele pare de correr. Ou talvez seja eu a forçar-me a não correr atrás dele, porque, apercebendo-me de que ele se esvai por entre os meus dedos de cada vez que tento fechar a mão, decido que quero tornar esses momentos eternos dentro da sua inevitável efemeridade. E então, retenho-os ao máximo, guardando-os para sempre na minha memória. Guardo-os com todos os sorrisos e olhares e sons e cheiros e sentimentos que consigo absorver. Tiro fotografias e coleciono objetos que me façam mais tarde abrir gavetas de memórias. Vivo-os intensamente; para não esquecer. Estes momentos são microcosmos em que o tempo cessa, em que “para sempre” não tem rasteira. Momentos a que posso sempre voltar, porque são perpetuados em mim. Na memória, no coração, na alma, o onde fica à escolha de cada um – só sei que os encontro algures cá dentro. E se passo grande parte do tempo a correr, concluo que é por isso que valorizo mais os tais momentos em que estou parada. A brevidade é o que me faz querer memorizá-los. A raridade é o que os torna únicos. E eles, os mais experientes passageiros, são parte da minha felicidade. Concluo que construo o meu caminho entre a corrida e a paragem, num equilíbrio que me faz ir avançando. Concluo que não posso estar sempre a correr. Concluo que sessenta segundos podem ter dentro de si uma eternidade. E que dentro dessa eternidade eu posso estar parada. Não corro atrás do tempo. Ele que fuja se quiser.

  • Fundo da piscina

    O Afonso deixa-me à porta do edifício e dá-me um abraço de despedida. Saio do carro e entro com o cabelo preso nos botões do casaco e com a franja despenteada, por causa do vento. Não visito a avó Lúcia há algum tempo, mas a minha mãe está sempre a chatear-me para a ir visitar. Vejo-a de longe, está sentada na mesma cadeira de sempre e na mesma posição, com as mãos uma em cima da outra, pousadas no colo. Caminho na direção dela e digo “Olá, avó!”, sentando-me na cadeira ao lado da dela e da de outra senhora. Ela diz-me olá. Anseio por uma expressão de reconhecimento, mas recebo a mesma expressão confusa de sempre. A minha avó não se lembra das vezes que encostou a cara dela à minha, quando eu cabia nas mãos dela, para me cheirar. Nem se lembra de quando me vinha buscar à escola e eu demorava muito tempo a ir ter com ela, porque tinha ficado a falar com as minhas amigas no recreio. Esqueceu-se que me levava ao café do bairro para irmos comer torradas e eu ficava cheia de gordura na cara. Às vezes reconhece a minha mãe, mas já não se lembra de mim. “Avó, sou a Catarina, tua neta, acabei de vir do trabalho.” Ela sorri e eu começo a contar-lhe como foi o meu dia para a distrair. Muitas das visitas que lhe faço são assim agora. Ela ouve relatos aborrecidos sobre o que se passa na minha vida, sorrindo e acenando. Acabo de descrever a visita guiada que fiz hoje à nova exposição que está na galeria e ela sorri e acena. “Já chega! Não quero o “sorrir e acenar”! Isto é ridículo, sempre que cá venho só sorris e acenas. Não quero isso, quero que me digas que estou demasiado magra e que devia comer mais, como dizias sempre, quero que me digas que estou muito alta, apesar de saberes que já não cresço mais, quero que me dês uma nota para eu comprar um gelado. Chega de me acenares com a cabeça, quero que me grites, que me corrijas e que me digas para endireitar as costas. Porque é que já não me dizes para endireitar as costas? Já não te lembras do que me disseste quando tinha dezoito anos e achava que nunca ninguém me ia amar, porque o Pedro da secundária não respondeu à carta de amor que lhe escrevi. Nessa altura, pensava que ele era o único rapaz de quem eu ia alguma vez gostar. Lembro-me de olhares para mim e dizeres, calmamente: “Catarina, para de ser tolinha! Vais amar outra pessoa e vai ser como deve ser. Não vai ser como gostas deste patife. Vais amar com todas as entranhas, porque é isso que fazes. Vais dar todo o teu ser à criatura e mergulhar na piscina que é a alma dela até encontrares o fundo e lá deitares a tua cabecinha e adormeceres, lentamente, como fazias quando eras pequenina. Ser amado por ti vai ser o maior privilégio que alguém poderá ter, tal como vai ser amar-te.” Avó, não percebes? O que mais quero é adormecer, mas no fundo da piscina que é o teu colo e que me contes a história dos três porquinhos. Antigamente, bastava olhar para ti para perceberes que o que queria era só mais uma história, só mais um bocadinho acordada para depois adormecer, lentamente, a pensar no castanho dos teus olhos, que é igual ao castanho dos meus. Porque a coisa da qual mais tenho certeza é que eu sou feita de pedacinhos teus. Não falo de genética e dos teus olhos, falo de pedacinhos da avó Lúcia, da Lúcia pessoa. Eu sou feita de ti e tu és feita de muitas outras pessoas que já se cruzaram com os teus lindos olhos castanhos. Talvez até sejas feita de pessoas que se cruzaram com as pessoas que se cruzaram com os teus olhos. E eu também sou feita delas. E sabes o melhor de tudo, o mais fascinante nisto tudo? É que tu também és feita de mim, o que quer que eu seja. Somos reciclagem uma da outra. Já viste? Nenhum de nós é original, nenhum de nós é completamente “puro”. Eu sem os “outros” não sou nada. E tu também. De todas as coisas que dizem sobre a Humanidade, esta é a mais bonita. Na epígrafe do “Todos os nomes”, de Saramago está escrito: “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.” É verdade, a mim deram-me o nome de Catarina, mas esse é apenas o nome que me deram, não o nome que eu tenho. Eu sou uma substância feita de outros nomes. O Sr. José, no final do livro, chega à conclusão que separar os vivos dos mortos, quer no sentido literal, como se faz com as fichas das pessoas na conservatória, quer no sentido metafórico, é, para além de ridículo, impossível. Somos todos uma coletânea de pessoas que já morreram e de pessoas que ainda estão vivas. Não é maravilhoso? Sabes como sou cética, mas de todas as coisas suscetíveis de serem verdade, para mim, esta é a mais acertada.” O que é certo é que não digo isto, não digo nada disto. Limito-me a perguntar como é que ela se está a sentir, como se entretém durante o dia e se precisa de alguma coisa. Ela diz-me para me ir embora, porque a vida é muito mais do que estar a falar com uma velhota quase a bater as botas. Pode não se lembrar bem de mim, mas o sentido de humor continua o mesmo. Faço o que ela diz. Levanto-me e despeço-me, dando-lhe um abraço apertado. EXTRA - Carta de amor ao Pedro da Secundária: Querido, Pedro Venho falar-te do assunto que deixa todos os poetas acordados à noite, as velhinhas curiosas e as barrigas doridas. Já adivinhaste qual é? Ainda não? Vou dar-te mais uma pista. É aquela coisa que “quando se revela não se sabe revelar”. Custa desvendá-la, custa descobri-la, quanto mais contá-la. Explicá-la é a coisa mais difícil no mundo e a mais fácil ao mesmo tempo. Estou a ser paradoxal, eu sei, mas a coisa também o é. Coisa misteriosa esta… Toda a gente que é gente a conhece. Para muitos é uma coisa enfadonha e que não merece ser digna de palavras – “Para quê escrever sobre o amor (ups, escapou), se é mais útil escrever sobre coisas muito mais importantes e dignas, como os escalões do IRS?”. O amor não já não é matéria dita “intelectual”, porque um curso não te vai fazer entendê-lo. Descrevo-te com frases ocas o que é o amor e falho e falharei sempre, porque quando falo parece que minto. O amor não precisa de fazer sentido para ser sentido. Prefiro sofrê-lo a cogitá-lo. Acho que cogitar o amor é coisa de Ricardo Reis, que se aplicarmos as regras da lógica ao amor, chegamos à conclusão de que não devemos enlaçar as mãos com ninguém, porque isso é muito cansativo. Mas, eu gosto de me cansar, prefiro cansar-me a ficar a ver o rio passar. Sempre gostei mais de Álvaro de Campos. Ensinou-me que as cartas de amor são ridículas, mas também é ridículo aquele que não as escreve. E, tu, Pedro, escreves cartas de amor? Da tua colega do lado nas aulas de Português, Catarina. NOTA do autor: Isto é uma carta de amor à Beatriz, porque me mostrou que escrever cartas é uma forma muito bonita de arrumar a tralha inútil (pensamentos) do meu sótão (cabeça).

  • Untitled

    You’ve eaten And satiated Your ego demands a room To vomit The verbal fruit Inflated You’ve eaten And now you’ll feed the masses The feedback like black molasses From you, loudspeaker Passes Onto the floor Saturated They shall all slip Upon it Plant their face in your murky vomit They’ll regurgitate What, copied, they did not meditate They’ll swallow You, prophet As you swallowed Politely And seedlings, in black molasses Shall grow tall trees with such shade That’ll hide famine, death and trade That, biased, highest classes favored When classes made And no eyeglasses No platonic sunlight Shall protrude such darkness For trees themselves are murky, fathered By black molasses YOUR black molasses Oh, how mistaken I am, you regurgitated Just as them Suicide is passed down from man to man Without pause and contemplation That legacy The bird’s education Eat the liquid and jump flying Those who death have manned defying Gravity When the gravity’s in their wings compliance To the wind Of olden doctrine read and written You in the floor Have not lived And aren’t dying Only quitting For you’re the bird whose name reverbs As the loudspeaker who did no thinking Reverbed Politely

  • Quem?

    A brisa fresca num dia quente tem algo em comum com a pele que há em nós. Há algo na matéria que compõe esse ar tão leve que também se encontra na fibra que se enlaça para compor este tecido que nos reveste. E isto é como uma abelha que, ao entrar numa flor, sabe que o açúcar que se lhe oferece, irá garantir-lhe sustento. Dá vida a esse encontro com o néctar que a espera, desejoso, e depois faz o mel. Também o calor que nos habita se regozija ao sentir-se tocado pelas partículas de frescura que furam de levezinho a pele e nos chegam, uma a uma, ao que temos cá dentro. Não sei se todos entendem isto, se pensam nisto sequer. Não, isso acho que não, tenho quase a certeza. Há a quem baste sentir e pronto. Ah, que fresquinho , e já está, lá voou o pensamento com a próxima corrente de ar fresco incessante, que há de ir e voltar depois. Mas percebe que isto não é isto e mais nada. Há mais sobre o que eu disse, mais para além desta vaga noção. Quando as cordas vibrantes de uma guitarra provocam o ar farto que descansava vazio em si, enchem-no de qualquer coisa que lhe faltava, e toda a gente repara. O ar toma forma de onda e essas vêm a nadar aos nossos ouvidos, que se deleitam com a harmonia. Agora, o ar está pleno. E se se juntar um pranto cantado a esse instante, choram-nos os olhos de qualquer coisa que sentimos e não sabemos dizer. Fomos nós que criámos as palavras. Elas não estavam lá no início e por isso não aprenderam a contar o que há no mundo. Pelo menos não tudo, são muitas coisas. É que isto parece tudo propositado, percebes? Só podia ser tão perfeito assim se alguém tivesse pensado nisso antes de o ser. Não, alguém não. Qualquer um se esqueceria do mero detalhe e poria em causa todo o ciclo que nos pauta a existência. Só se Deus... Não, também não foi Ele. Não me venhas com Deus que eu não suporto a hegemonia! Quem...? o quê!?... Se me deito e olho o céu estrelado, algo se curva diante de mim, para lá da imagem. Há uma troca ineludível entre o que olha e o que é olhado. Chega-me de lá uma serenidade, e não é a luz que a traz. Porque, se pudesse ser medida, seria muito pequena para ser levada, seria daquelas coisas que nem se tocam de tão sublimes. Mas sentem-se. E também eu dou de mim qualquer coisa que brilha baixinho, tão baixinho que não se vê. Pelo menos não com os olhos... Não te questionas sobre quem terá plantado tal completude? Eu gostava de saber, para ao menos lhe perguntar o que fazer com os excessos que criámos. É que sinto que qualquer dia o ciclo rebenta. Ninguém avisou a quem fez tudo isto que nós viéssemos e enchêssemos tanto tudo. Que deitássemos mão a tanta coisa que já cá estava e funcionava tão bem por si. Se pudesses, não lhe perguntavas o que fazer? Que farás tu se deixares de sentir as estrelas? Se não te fizerem mais chorar as ondinhas de ar que te entram nos ouvidos? O que restará se o teu calor não se agitar mais com a brisa fresca? Pior, se não houver mais quente em ti? Pergunto-te porque não sei o que farei eu, e se ao menos tivesses ideia... Talvez seja melhor esperar que a resposta brote em flor. Pode ser que essa já tenha sido plantada há muito, e que fizesse parte disto sentirmos o medo de que te falo. Pode ser que o fruto que depois vem tenha em si o doce de mais um círculo perpétuo. Só espero que não traga consigo o dom de dizer o que ainda não conseguimos, acho que não nos faz falta. Não achas?

  • A realidade do Direito

    Chegada ao fim do primeiro ano do curso em que sempre quis ingressar, deparei-me com uma triste realidade: os estudantes estão a perder o seu idealismo, a sua esperança, a sua luz… Sejamos honestos, pelo menos aqui e hoje, eu serei; muitos de nós, como eu, entram neste curso pela sua paixão pela justiça, pelo seu sentimento de indignação perante as injustiças verificadas no mundo e porque querem melhorar isso; a certo ponto todos queremos, e acreditamos que podemos, mudar o mundo; queremos ser o próximo Nelson Mandela ou o próximo Harvey Milk, queremos ser a pessoa que não se resignou, aquela que lutou até ao fim e fez a diferença – todos queremos o nosso momento Brown vs. The Board of Education or Roe vs. Wade; queremos alterar a ordem vigente e atingir a igualdade. No entanto, entramos no edifício da “elite intelectual” e encontramos muita indiferença e muito elitismo e, no fundo, o que nos resta é um sentimento de impotência. Se calhar tudo com que sonhamos foi exatamente isso: apenas um sonho. Um idealismo infantil, um grito revolucionário dos anos da adolescência, que de nada serve contra o mundo burocrático e corporativo com que nos deparamos. Se calhar já ninguém quer discutir tudo o que ainda falta alcançar, mas sim quão monetariamente irrelevantes essas questões são; esse é o trabalho que não dá dinheiro, sem dinheiro não podemos viver, sem dinheiro de nada serve um curso universitário, sem dinheiro não temos nem podemos fazer nada; pois, sem direitos, os outros também não. Assim, após 10 meses do curso que eu achava que ia mudar a minha vida, ela, de facto, mudou; está agora emergida num mundo fútil de discussão sobre as melhores firmas, onde um estágio seria o jackpot académico, porque “só assim terás um bom salário” (não me tenham por hipócrita, eu também entendo que é assim que funciona), num mundo em que Direito da Família não diz respeito à necessidade de proteger as crianças, mas sim dos fundos exorbitantes que a resolução de um litígio de divórcio pode proporcionar, um mundo em que até o imposto progressivo é discutível, porque nem sempre é justo para quem tem mais dinheiro. Este mundo engoliu-me, como engole a muitos, e é triste passar a ver vidas como cifrões e, mesmo que seja apenas por um segundo mínimo antes da racionalidade nos atingir, não o podemos negar. Somos sugados pela ganância e perdidos no meio dela, vemos como toda a justiça funciona e não piamos, pois sabemos que, só por aqui estarmos, estamos num ponto de privilégio. Mas temos que subir à superfície e lembrarmo-nos que é por estarmos nesta posição que podemos e devemos piar; é esta posição que faz as nossas vozes valerem algo; mesmo que pareçam mínimas no meio de todas as outras e completamente insignificantes perante a doutrina (muito unilateral) que nos absorve, é sempre superior à de quem está de fora. É por vermos, por dentro, como isto tudo funciona que podemos agir, que sabemos como agir. Não percamos o idealismo que ainda vibra dentro de nós, não nos resignemos, não apaguemos aquela chama que se acende sempre que vemos a justiça vencer. Por muito que pareça que este lado leva apenas a um voto de pobreza, pois não é o alvo das grandes firmas, há tantas coisas que é possível fazer, há tantos lados por onde começar e há tanto a exercer. O mundo tem inúmeras vertentes e nenhuma delas está minimamente aperfeiçoada, há, sem dúvida, algo para todos os gostos, mas só há um caminho possível: o da evolução conjunta em sociedade e esta só evolui se for melhor para todos. Não existe evolução unilateral, não existe evolução de 20% com o detrimento das condições dos outros 80%, não existe evolução se a maioria continua estagnada, ou, pelo menos, não deveria existir. Não digo que devemos todos viver mal para não existirem injustiças e desigualdades, digo exatamente o oposto, que devemos trabalhar para que todos possam viver um pouco melhor; as injustiças estão cá, não vale a pena negá-las, nem as glorificar. Sim, certas pessoas trabalharam muito para viver mais confortavelmente, isso está tudo certo e não podem de forma nenhuma ser prejudicadas pelo seu esforço, mas tem que existir um outro esforço para garantir que todos conseguem atingir esse patamar. A ideia base não é impedir ninguém de chegar a certo patamar, mas sim trabalhar para que todos tenham oportunidade de lá chegar. Nós não podemos determinar quem ganha a lotaria natural ou social, mas podemos lutar para que todos consigam comprar o bilhete. Por isso, sim, o mundo do direito mostrou-me uma realidade um pouco infeliz, com indiferença e ganância, mas também me mostrou o que eu sempre senti: que, independentemente do funcionamento atual desta área, os problemas continuam aqui, cada vez mais sentidos e cada vez mais reportados até, e continuam a ter que ser combatidos e nós temos as ferramentas para o fazer. Daqui a uns anos, nós seremos a linha da frente da justiça (e talvez da Política, considerando a quantidade de juristas no Governo e no Parlamento) e nós escolhemos em que direção a pretendemos levar. Não é altura de perder a esperança, mesmo que seja difícil com tudo o que vemos a acontecer nos bastidores, é altura de erguer as nossas vozes num grito conjunto e perceber que, mesmo que seja navegar contra a corrente, queremos fazer algo que nos orgulhe. Queremos ser a geração de juristas que não se conformou com o elitismo da área e que não cruzou os braços, a que “saiu à rua” quando era necessário, e combateu um mundo que só funciona para alguns. Enfim, acho que o que quero realmente dizer é que nunca devem perder o vosso idealismo, é o que vos faz mexer, é o que vos faz acordar de manhã e aguentar mais uma época de exame e é, essencialmente, o que vos fará mudar o mundo…. Gozamos diariamente com o slogan da nossa faculdade “Sê um agente da mudança”, mas não é mentira, nós temos a capacidade para o ser nos nossos moldes. Nós temos, e teremos ainda mais, o poder para tomar as decisões que alteram a ordem vigente, se assistirmos às grandes ruturas positivas (a meu ver) que decorreram ao longo da História, elas foram executadas por juristas (ou juristas de alma), estas consolidações ocorreram em tribunais ou em parlamentos, depois de serem reivindicadas nas ruas, claro. Nós temos sim o poder para mudar o mundo e temos o conhecimento para o fazer, por isso, não deixemos todo este conhecimento ser desperdiçado em disputas fúteis ou injustas, e apliquemo-lo à mudança que queremos ver no mundo. O futuro é já amanhã e todos os dias há algo que pode ser feito; atualmente o nosso papel é estudar, o que já de si é um grande privilégio, para que futuramente consigamos usar tudo isto para atingir avanços nas condições sociais globais, para que mais ninguém tenha que desistir dos seus próprios sonhos e para que mais ninguém se sinta inferior num mundo em que somos todos iguais.

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