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  • Hoje não tenho um final feliz...

    A vida está cheia de grandes questões… aquelas que nos roubam horas de sono, que nos fazem dar voltas e voltas e empurrar os lençóis para fora da cama, que nos inquietam nos momentos mais inesperados e nos mais previsíveis. Tantas incertezas e tantas dúvidas, tantos gritos sem resposta e olhares sem correspondência. Tantos campos por preencher. Passamos os nossos supostos melhores anos nesta grande reviravolta, a questionar o que sabemos e o que ainda nos falta aprender, a tentar assimilar todo o conhecimento possível para sairmos pela porta e conquistarmos o mundo que queremos para nós… apenas para chegar à conclusão de que sabemos muito menos do que duvidamos. Duvidamos muito mais do que sabemos. Fingimos entender e engolimos as nossas agonias até à nossa hora mais sozinha, a hora em que somos só nós e a nossa parte mais pura, a hora em que todo o teatro é desmontado e só restam os nossos pensamentos. A hora em que nos apercebemos que, por muito que nos esforcemos, há coisas que nunca vamos perceber, há dúvidas que vão sempre persistir, e por muito que pensemos que conseguimos chegar ao resultado, o amanhã está a chegar com mais questões. Ontem, eu sabia responder ao que quer que me perguntassem e hoje nem levanto a mão. Ontem, eu era a primeira a entrar e hoje tenho medo de passar pela porta. Ontem, eu escalei uma montanha e hoje nem sei andar. Que filosófico, mais uma (semi) adulta que não sabe que raio anda aqui a fazer, mais uma adolescente (fora do prazo) que não entende a gramática da vida, que não consegue construir uma frase sem ponderar o uso de cada palavra. Mas será que a mudança de uma palavra mudaria o que quer que seja? Será que faria assim tanta diferença? Porque é que passamos horas a pensar nas palavras certas, a escrever e reescrever a nossa história, se elas nada alteram? E de que nos servem os dicionários se metade delas continuam indecifráveis? Se o contexto as muda completamente? Se simplesmente não são sentidas? Quando era mais nova entregaram-me um dicionário, mas nunca me deram um manual para compreender todo o peso que as palavras carregam, todos os seus diferentes significados e todas as suas emoções. Ontem, eu li todas as definições e hoje elas já não faziam sentido. Ontem, eu escrevi um livro e hoje fiquei sem palavras. Ontem, eu sabia tudo e hoje já não sei nada. As alterações são tão constantes e os destinos são tão finais. Se os objetivos do ser humano estão tão definidos pela sociedade, porque é que raio é que são tão difíceis de alcançar, porque é que cada vez que nos aproximamos eles se afastam mais um pouco? Porque é que tudo o que eu hoje sei amanhã é mentira? Que agonia constante que é viver. Nunca saber o que está certo, nunca saber por que caminho ir e nunca saber o que vem depois da curva. Tantas incertezas e nenhuma solução, tantos passos dados em vão e tantos que parecem ter propósito, espero que sim. Esta narrativa, que nos persegue, de que a vida é uma caminhada para um momento em que finalmente vamos ser felizes, em que vamos ter o emprego certo e a casa certa e a família certa e tudo vai fazer sentido. Esta mentira em que nós acreditamos para dar um propósito aos anos que cá passamos e que, pelo menos, tentamos concretizar. Como se não olhássemos para o mundo à volta e víssemos que todas as pessoas que é suposto estarem nesse momento da sua vida continuam a ter dúvidas e continuam a lutar contra todas as incertezas pelas quais todos nós passamos. Então digam-me porque é que continuamos a acreditar? Porque é que continuamos a fingir que todo o sofrimento atual será recompensado com uma vedação branca e três cães a correr? Porque é que continuamos a fingir que a relva será mais verde do outro lado? Porque é que nos pressionamos tanto com uma fantasia? Com uma falsa ideia de final feliz de Hollywood? Que crise existencial. Eu também não sei responder. (Acho que nunca vou saber) Mas essa também é a beleza da vida, não temos de saber porque é que estamos a dar um passo para o dar, não temos de saber porque é que queremos falar para o concretizar, não temos de perceber o que estamos a fazer e porque é que o estamos a fazer para efetivamente o executar. Às vezes temos só de continuar. Eu tenho mil dúvidas e algumas nunca serão respondidas e claro que isso é incrivelmente assustador e angustiante e me faz querer esconder na cama até que alguém apareça com um livro com todas as respostas. Mas, na realidade, isso nunca vai acontecer. Nunca chegaremos ao ponto em que temos certezas (também não sei se as queremos ter, talvez o mistério seja o ingrediente principal da nossa existência, tal como o momento mais entusiasmante de qualquer beijo é a sua inesperada correspondência) e nunca chegaremos ao ponto em que isso não nos vai incomodar, em que conseguimos sair de casa seguros de que tudo será igual quando voltarmos... não vai ser… cada momento que vivemos altera completamente toda a nossa existência e todas as nossas noções. Mas temos de continuar a sair de casa, certo? Temos de continuar a viver, não podemos só sucumbir às nossas dúvidas e dizer que por agora chega . Não, porque não há botão de pausa, só há uma grande continuidade incerta que nos pode trazer as maiores tragédias, mas também as maiores alegrias. É por isso que temos de continuar. É por isso que continuamos, porque, independentemente de tudo o resto, ao final da curva pode estar o melhor beijo da nossa vida, ao final da estrada pode estar uma esplanada recheada de amigos a celebrar uma nova vida, ao virar no cruzamento pode estar o trabalho que sempre quisemos. Essa é a beleza da incerteza. Tudo pode acontecer. Cada momento vive irremediavelmente separado e conectado ao anterior e ao seguinte, cada momento reserva o seu mistério. A propaganda artística afoga-nos em expectativas que nem sempre são correspondidas, em esperanças que nunca chegam e em sentimentos que nunca experienciamos. Obriga-nos a viver a nossa vida apontando numa certa direção que pode nem existir e a sofrer com uma estrada sem fim. Hoje não tenho final feliz. Talvez amanhã tenha…

  • A Casa (mais ou menos) Real de António Costa

    O início do século XX em Portugal foi marcado pelo regicídio e pela abolição da monarquia, dando início à Implantação da República e à plena Democracia. No entanto, deparamo-nos atualmente sob o reinado de um grupo de indivíduos que escolheu governar num estilo (no mínimo) “Habsburgueano”. O governo do Partido Socialista tem vindo a mostrar crescentemente uma aptidão para impedir as relações à distância e a desagregação familiar, colocando casais e irmãos (e fico-me por aqui para não ter de enumerar todos os graus de parentesco) a trabalhar sob o mesmo tecto (neste caso) governamental. É uma espécie de grande família que, como tal, nos devia transmitir serenidade e harmonia. Mas, claro que nesta família Socialisto-Habsburgo nada corre como devido e a consanguinidade já começa a mostrar os seus resultados políticos. No seu longo reinado governativo (apenas interrompido brevemente por uma pequena dinastia filipina encabeçada pelo PSD), o Partido Socialista alcançou bastantes marcos, infelizmente alguém se esqueceu de avisar esta reinante família que estes marcos deveriam ser positivos para Portugal. Alcançámos e celebrámos finalmente a conclusão do problema do novo aeroporto de Lisboa que, segundo certos polígrafos, nos atormenta há mais de 50 anos. No entanto, fomos enganados, a confirmação desta solução que esperávamos da parte d’el rei Doutor António Costa nunca chegou e tivemos de nos contentar com um devaneio irresponsável de um dos príncipes herdeiros, o (então) ministro Pedro Nuno Santos. Este esquecera-se de informar o seu superior da tomada de uma decisão de extrema importância com um peso económico relevante para o país. Ora, numa empresa, se um funcionário tomasse uma decisão por iniciativa própria que implicasse um investimento monstruoso por parte do seu patrão e não informasse o mesmo, podemos concordar que seria despedido, suspenso ou, no mínimo, despromovido. Todavia, na grande família socialista apenas se sucede um pequeno puxão de orelhas e um “para a próxima não faças isso” porque afinal, para que servem os pais se não para educar os filhos? Esta problemática vem obviamente aliada a uma outra questão pertinente, o financiamento da empresa que trata dos coches reais do país reinado por Dom António Costa, empresa esta mais conhecida como TAP (e não se esqueçam que nesta desnecessariamente longa metáfora monárquica, esta empresa chama-se Transportadora Aristocrática Portuguesa, o que é coerente com a realidade dado o bolso relativamente sem fundo que é necessário ter para nela viajar). O bárbaro investimento aplicado a esta empresa, de que o nosso governante tão bem fala, mas não usa, custou o suficiente para concretizar todas as propostas de aeroportos já realizadas, quase que dava (se é que realmente não dava) para uma missão espacial a Marte e claro, em último caso, daria sempre para manter esse dinheiro no bolso do povo, a quem ele realmente pertence. Mas não, a generosidade da nossa Dinastia Socialista optou por uma opção mais engenhosa, em vez de realizar um investimento nacional em algo que realmente beneficiasse o povo ou até mesmo mantendo os 3,2 mil milhões de euros na posse de quem foi taxativamente assaltado para os obter, os nossos nobres governantes decidiram apenas atirar umas quantas migalhas (mais concretamente 125 migalhas numa primeira vez e 240 numa segunda) a cada um dos súbditos para que estes não se revoltassem. Mas, mais uma vez, alguém fez mal as contas, uma vez que se veio a descobrir que este desejável prémio era apenas uma ínfima parte daquilo que o povo pagara em tributos à casa real de Costa. Mais recentemente, assistimos a um desmoronar desta mui nobre família mais ou menos real, tendo nos últimos 9 meses perdido 13 (por enquanto!) dos seus mais nobres membros. Uns por incompetência, outros porque se desentenderam com a família sobre se deveriam cobrar menos tributos aos aldeões, outros porque não souberam gerir o que lhes cabia e ainda uns quantos por corrupções de que (“coitados”) não sabiam de nada. Entre estes e muitos outros feitos, vemos um Partido Socialista capaz de tudo e de nada ao mesmo tempo, um Partido Socialista que sendo o partido com mais tempo de governo no país, realizou tanto que em tão pouco ou nada se traduziu. É uma bonita (mas não tanto) história de uma família governativa que em vez de contribuir para elevar a situação nacional, decidiu certo dia ir a uma loja de material de construção, comprar uma pá, cavar um buraco bem fundo, colocar lá dentro o futuro do país, tapar com material radioativo e esperar que dali surgisse uma nação que desse fruto. Contudo, mais uma vez, alguém se esqueceu de que a nobreza também precisa de ir à escola aprender que a radiação não é compatível com a vida, pelo menos com a vida saudável. Termino esta longa lamentação dirigindo-me a quem, porventura, se possa ter sentido ofendido, dizendo que me ressuscitem quando outra dinastia subir ao poder para sobre eles poder fazer também um bonito retrato literário. Nota: o desenho presente no post - state of the art: ícaro nuno santos é da autoria de Pedro Viera.

  • Poemas dos espinhos do amor - Parte II

    “Querer fugir” No início quis fugir. O medo do passado tentou vencer, Sobrepor-se à esperança do futuro. Tentei ignorar os sinais. E se correr mal? E se voltar a sofrer?... Dizia que não. Mesmo quando à minha volta Abanavam a cabeça que sim. Toda a gente sabia. Menos nós. Nós ainda queríamos fugir. “Relvado de outono” Naquela tarde de outono, Que mais parecia verão, Tocaste-me no ombro e disseste “Precisamos de falar”. Pegaste na minha mão, E lá seguimos sem rumo. À nossa volta apenas verde, Tal como no primeiro dia… Até hoje não sei bem Qual o feitiço que usaste, Para o meu coração acalmar E eu olhar nos teus olhos. Quando dei por mim As palavras já tinham saído, Da minha boca para os teus ouvidos, Como há muito deveria ter sido. A ti a voz tremia-te, De mim as palavras fugiam. Nos lábios os sorrisos Eram as únicas certezas. Parámos. Respirámos fundo. Olhámos em volta como crianças Que viam a cores pela primeira vez. E foi aí que soubemos Que aquele relvado, Onde já rimos e já chorámos, Nunca mais seria o mesmo. “A minha mãe perguntou por ti” Hoje a minha mãe perguntou por ti. Disse-lhe que estava tudo bem. Na minha mente as imagens daquele dia Passavam devagar como um filme. A chuva cai com pressa Mas aquele prédio é o nosso abrigo. Falamos por horas, Sem trocar uma palavra. Faz-me esquecer onde estou, Deixa o mundo ruir à nossa volta. Sussurra-me ao ouvido Que eu prometo sorrir lentamente. Olhamos de relance para o relógio, Fazemos dele nosso inimigo. Digo-te que tenho de ir, Mas tu fazes-me ficar. Em redor o caos da cidade. E eu que odeio a chuva, Percebo que, nos teus braços, Aguentava uma tempestade. “O enlace” Vem juntar a tua insignificância à minha. Vagueemos sem rumo pela vida, Mas lado a lado, mão na mão... Põe de lado os teus medos, Deixa as palavras passarem a ação. E flutuemos, sem tocar o chão, Como fantasmas que perderam a vida. Vem cantar comigo. Traz todas as tuas inseguranças... Talvez te mostre as minhas também. Ignora qualquer instinto, Esquece o que parece fazer sentido. Deixa a coragem entrar em ti E dá o salto no escuro que tanto temes... Vem ser uma marioneta a meu lado. Balancemos juntos no mesmo fio, Sem saber o que fazemos nem o que faremos... Respira, sem preocupações, E deixa que eu te tire toda a dor. Liberta-te das amarras, Sê leve, nem que seja por um dia... Vem ter comigo e ri. Sem que nada te impeça, E falemos sobre nada e sobre tudo... Saibamos o nosso lugar um para o outro, Sem pensar demasiado nele. Aprendamos a cuidar um do outro Sem esperar nada em troca... Vem viver a vida comigo. Juntos sem saber bem porquê, Sabendo somente que faz sentido, mesmo sem fazer. E fiquemos tristes juntos. Sintamos o peso da vida sobre nós... Mas no fim, saibamos aliviar-nos um ao outro, E voemos para onde o vento nos levar... Sem nunca desenlaçarmos as mãos, Certos apenas de estarmos certos um para o outro...

  • Este ano, vai ser 20/20

    Este ano, vai ser 20/20”. Acho que a frase era esta. Se não era esta, era algo do género. Lembro-me de estar sentado num dos sofás dos meus avós, a televisão sintonizada na TVI24, e da voz de homem, grossa, calma, confiante, repetir, ad nauseam: “Este ano, vai ser 20/20”. Isto era nos intervalos. Quando retomavam a programação, que os meus avós e a minha mãe seguiam distraidamente, mostravam a cara de gente sorridente, gente nova, velha, casada, solteira, toda diferentemente, mas unanimemente feliz, em êxtase, com o ano que ia ser 20/20 – lembro-me que alguns até usavam uns óculos vagamente ridículos, em forma de 2020. Se soubessem na altura o que sabem hoje, provavelmente não teriam dado um tostão por eles… Pela minha parte, estava a escolher a playlist da meia-noite, as músicas que ouço na passagem de ano. Naquele réveillon, ia entrar ao som de Comfortably Numb, dos Pink Floyd, e de Heaven and Hell, dos Black Sabbath. As escolhas foram boas, e tive sorte: o momento em que soaram as doze badaladas foi o momento exato, preciso, em que começou o solo do David Gilmour. Foi mágico: os meus olhos a deliciarem-se com o céu iluminado com o fogo de artificio, e os meus ouvidos a ronronarem de prazer com aquela guitarra única que encerra Comfortably Numb. Para uma pessoa obcecada com o simbolismo, a simetria e a perfeição das coisas, como eu, aquilo era ouro sobre azul, era a confirmação: o ano ia mesmo ser 20/20… E foi. Até março. 2020 representou o fim de muita coisa, e acho que todos nós sentimos isso, com maior ou menor acuidade, com maior ou menor dor. Amizades arrefeceram; sonhos foram adiados, ou extintos; empregos foram perdidos; famílias despedaçaram-se; liberdades que dávamos como adquiridas foram espezinhadas, mesmo quando não era necessário; pessoas que amávamos morreram. Para mim não foi diferente. É verdade, não tive só coisas más. Se não fosse o medo e o confinamento, por exemplo, não me tinha aproximado tanto de uma amiga que mantenho até hoje, e por quem tenho o maior carinho. Mas, 2020 ditou o fim, pelo menos temporário, da minha noção de tempo. Que quero dizer com isto? Pura e simplesmente que ainda sinto que tudo aquilo que se passou naquele ano, naqueles meses, entre março e outubro, ainda está extraordinariamente próximo. Que ainda estou prestes a entrar para Faculdade. Que ainda estou para fazer 18 anos. Que ainda estou em confinamento, à espera de poder sair, de me devolverem a liberdade derradeira. Muito recentemente, como que despertei dessa letargia. Percebi que já passaram quase três anos. Que não estou prestes a fazer 18; que, na realidade, estou a poucos meses de chegar aos 21. Que não estou na iminência de entrar para a Faculdade, mas que já cá estou, e que alguns que entraram comigo a terminam este ano. Que já sou livre, que não há uma liberdade ideal com que preciso de sonhar, porque ela já aqui está, para ser usufruída em pleno. Poderia dizer que tudo mudou, mas que ficou tudo na mesma, mas estaria a mentir-me. E a mentir-vos. As amizades que arrefeceram, não voltaram a aquecer. As pessoas que morreram já não voltam, e deixam saudades, senão mesmo feridas. Até lugares físicos, onde vivi dos momentos mais felizes da minha vida, desapareceram, quase sem esperança de algum dia os poder voltar a visitar. Outra coisa de que me apercebi, com este recuperar da consciência do tempo, é da decadência. Do envelhecer. Do cansaço. As pessoas com quem festejei a passagem de ano de 2019/2020 tinham garra, faziam barulho, davam tiros de caçadeira para o ar (sempre quatro cartuchos), batiam panelas, e terminavam tudo com umas gambas e um berbigão com molho de manteiga e alho cozinhados na hora, acompanhados de umas tostas. O calado era eu, que ficava no meu cantinho, a ver o fogo e a ouvir a minha música, satisfeito com a ordem das coisas. Este ano não foi assim. Eu continuei na mesma. A minha playlist da meia-noite deste ano, depois de um hiato em 2021/2022, foi The Great Gig In The Sky, dos Pink Floyd, seguida de Runnin’ Up That Hill, da Kate Bush (novamente, acertei em cheio, e confesso que fiquei de olhos marejados a ouvir as duas músicas enquanto as cores do fogo de artificio consumiam o céu à minha volta). Já o resto das pessoas com quem celebro estavam espalhadas pela casa, ora a dormir, ora a vigiar os cães, com ar pensativo, na marquise, nas traseiras, ora a ir despejar o lixo. O festim, algo azeiteiro, confesso, mas sempre bem-vindo e já tradicional, a que estava habituado desde miúdo, foi cedendo lugar, desde 2020, a um silêncio resignado e cansado, apenas quebrado, a espaços, pelos estalidos do fogo de artificio. Não sei como vai ser 2023. Agora que estou um pouco mais desperto da letargia em que tinha caido, talvez possa aproveitar o ano de uma melhor forma. Talvez fique mais tempo a viver realidade, do que a sonhar com uma liberdade futura. Mas, também não estou certo de que viver a realidade, o aqui e agora, seja melhor, ou faça melhor, do que o sonhar: a realidade, tenho me apercebido, é a decadência lenta e inexorável. É uma espécie de caminhada para o fim, para a morte. Os sonhos servem para que nos esqueçamos que estamos a fazer esta caminhada. Para que nos esqueçamos que a decadência existe, que ela pode ser observada e tocada, se assim desejarmos. Talvez me volte a esquecer da caminhada. Dentro em breve, pode ser que me volte a embrenhar em sonhos de liberdade e de um futuro melhor. Mas, por enquanto, estou consciente dela, sei que posso contar com ela. Aliás, neste início de 2023, sei que posso contar com três coisas: a solidão, a decadência, e a morte.

  • Por uma geração de apaixonados

    O evento no alto do monte se inicia e traz muitas pessoas. Todos sabiam à partida que seria um sucesso, especialmente pela qualidade do marketing e da produção de imagem. A atração foi alta pela cerveja a 1 euro e pela possibilidade de promoções caso sejam pedidas várias (ainda que tivessem de pagar separadamente pelo copo; ecologicamente interessante, mas que ninguém se lembra de utilizar nas próximas vezes). Ademais, uma imagem de anúncio jovial e instigante contaminou as telas de todos, devido ao massivo compartilhamento por parte dos “mesmos de sempre”, exalantes de uma distintiva confiança no sucesso do evento. Por último, apenas foi preciso que os voláteis grupos de WhatsApp fizessem o seu trabalho. A palavra se espalhou! A atmosfera constrói-se desde os precedentes, do que foi necessário para chegar lá. O metro que se atrasa, o Uber que não chega e o longo tempo de arrumação, enfeitando se das cores tendenciais da moda. O caminho é longo e tortuoso até o primeiro grande momento, a chegada ao evento. Aqui, as expectativas, os desejos e as paixões construídas diluem-se nos empreendimentos noturnos e conduzam as decisões do Homem, porque este é o momento da atitude e da atividade, especialmente para aqueles que apodrecem diariamente em sua própria inércia, que exacerbam e semeiam os chamados “momentos” para redimirem-se de suas diárias imperfeições. “É aqui. É agora. As intenções efêmeras transformam-se em ações. Na verdade, TÊM de se transformar, porque se não agora, quando? O amanhã é superestimado”. Pronto, lá vai mais um gole. É urgente saciar o coração sedento. Contudo, passado algum tempo, os presentes começaram a notar certas particularidades. A música já não está a tocar e a cerveja dentro do copo “megaecológico” não tem gosto de nada. Os mais perspicazes, por sua vez, captam um elemento mais significativo, que vai alterar a sua perspetiva: relembram que aquelas imagens bonitinhas de anúncio, na verdade, não continham nenhuma informação, além da hora e do local. Não falavam sobre o que o evento realmente se tratava. “Ah fomos enganados! Isto é uma fraude!” Entretanto, a luz do local também se apagou e ninguém sabe porquê, de forma que ficam todos a olhar para as silhuetas uns dos outros. Nesse sentido, após uma rápida reflexão, percebem que, como um educado rebanho, quase por automatismo, seguiram os inquestionáveis ditames das redes e foram parar naquele local, sem dúvidas nem reticências. Pensaram na cerveja, na música, e também (espero que não soe estranho) no indomável poder que tem um homem dançante ao fim de noite e pronto, se sentiram atraídos, quase que “vinculados”. Mas agora, neste singular momento, não se apresenta nada disso que lhes é usual, que cultivam e idolatram no dia a dia; as promessas vazias que fizeram e que costumam fazer a si mesmo não se concretizaram. Com a generalidade das pessoas tendo se apercebido da “estranheza” daquele momento, a sensação torna-se comum. Esta, contudo, não é de deceção, ou de raiva, mas sim algo praticamente incompreensível, de maneira que reina a calmaria e a reflexão. Parece um hiato na vida, um intervalo no ordeiro. Chega das conversas fúteis que tentam driblar a música para alcançar o interlocutor, chega de homens dançantes ao espírito de Baco, chega de sorrisos forçados, chega de teatro. Estes indivíduos, que já que não escutam nada e veem pouco, resignam-se a pensar, a refletir e a questionar-se internamente. “Por que este momento não está a ser como era suposto?”, “O que eu vim cá fazer?”,” Para que servem todas estas pessoas?”, “Afinal, por que estou aqui?”. Então, chegam a conclusão de que sempre estiveram perdidos, mas só notaram agora. Na verdade, o que melhor lhes define, e que também se aplica a nós, é que são constante e insistentemente mendicantes. Urgem por uma resposta, pois lhes é inata a necessidade indelével de um significado, de preencher um vazio para chegar a um suposto “uno”; algo que nunca obtiveram, mas que diariamente sentem a necessidade, agonizando em desespero. Numa retrospeção mais profunda, verificaram que estiveram até agora a viver um ciclo de soluções fáceis, promessas e confortos efémeros que fazem a si mesmo para viver mais um ou dois dias, para depois buscarem outros, substancialmente iguais, mas que exalam um atraente ar de “novidade”, para prender os seus olhos e ações. Nada lhes é suficiente, nada lhes completa. Então qual é a resposta? Francamente, a definitiva, não sei, mas tenho e adquiri a certeza que está ali mesmo, no alto do monte. À medida que os olhares, mesmo na escuridão, se entrelaçam, as silhuetas ficam cada vez mais claras e identificáveis, tornando-se um possível alento ao meio da profunda e incerta reflexão. Dessa maneira, as pessoas já não se consideram estranhas, pois passam a gozar de uma tácita e inédita sensação de conexão. Isto porque, talvez já não visualizem as camadas e rusgas que diariamente colocam sobre si próprios (óbvio, está tudo escuro), mas focam naquilo que lhes é puro e impreterivelmente comum, a fonte de todos os seus questionamentos e indagações que clarificaram naquela noite: o pulsar fervente dos seus mendicantes corações. Ao identificarem esta flama comum que nunca apaga, libertam-se. Assumem-se livres para dançar, não como protagonistas em um teatro que falsamente criaram, mas da forma que bem entenderem, sem amarras, nem censuras, pois já não julgam mais ninguém e já nenhum olhar reprovador lhes observa. Resta-lhes apenas a letícia de estar com iguais, viver com os outros. De vez em quando, juntos, decidem parar para observar as estrelas e toda a imensidão que o alto do monte lhes proporciona. Assim, valorizam ainda mais uns aos outros: percebem o quão pequeno são diante da magnitude do universo, mas continuam a desfrutar, pois sabem que se é para viver nestes trilhares de quilómetros quadrados, o devem fazer com esses ao seu lado. Que história bonita e emocionante, acho que eles descobriram a beleza da vida. Transpondo para a realidade, esta atitude generalizada pode nos valer como ensinamento. Indica-nos a audácia de dar um passo não-trivial de desapego total perante as faces e coisas que aparecem em primeiro plano, para, em um olhar despido de preconceitos, passarmos a considerar como irmãos os corações igualmente insaciáveis ao redor. Significa corajosamente cegar-se às coisas passageiras (especialmente, as piores que se possa achar de uma pessoa) para visualizar nitidamente os nossos elementos absolutos e originários, reveladores do belo, condizentes com a forma e com o porquê de que fomos criados. Finalmente, acho que agora já sei a resposta definitiva: o amor irremediável, interminável, insuperável e incensurável pelo Homem. Foi isso que encontrei, depois de cego por tanto tempo! Ademais, provindo desse amor, vejo que não basta surgirem apenas aqueles que amam episodicamente, destinados somente a um agrado dos seus favoritos, quando lhes convém, para aparecer bem nas fotos; mas sim um “exército de enamorados”, que tem a contínua coragem de dançar com liberdade, em conjunto, no alto do monte, independentemente das circunstâncias. Em uma nota final, agora sobre mim, que pretensiosamente vem aqui vos escrever, sei que não sou perfeito, apesar de ineficazmente o tentar ser. Apaixono-me e deixo-me seduzir pelas coisas mais efémeras e frívolas possíveis, e porventura não me preocupo de expressar os meus preconceitos. Só tento estar sóbrio o suficiente para caminhar até o bendito alto do monte, onde sei que posso encontrar a resposta para o meu coração, em um trajeto que só vale a pena se estiver acompanhado dos meus irmãos.

  • Poemas dos espinhos do amor - Parte I

    “Quando amanhã não voltares” Senta-te ao meu lado e sorri, Prometo não te olhar nos olhos... Olha em frente e pergunta como estou, Prometo mentir na resposta. Ri devagar e fica envergonhado, Prometo ser eu a levar a conversa. Fala sobre tudo o que não importa, Prometo fingir o interesse. Conta-me aquilo que não quero saber, Prometo não perguntar mais nada. Brinca como fazíamos dantes, Prometo não sentir saudades. Irrita-me como só tu sabes, Prometo virar furacão por um segundo. Solta uma gargalhada e sorri, Prometo acreditar que foi verdadeiro. Finge que não queríamos ser sinceros, Prometo não insistir contigo. Pede desculpa mais uma vez, Prometo ignorar a minha intuição. Depois levanta-te, sorri, e desaparece... Prometo não esperar que voltes. Mas quando amanhã voltares, E eu já não me importar; Quando todos os outros forem, E eu tiver ficado apesar de tudo... Talvez nunca mais queira sentir o teu cheiro, E talvez não mais queira juntar as nossas vozes... Quando acordares e olhares em volta, E perceberes que estive sempre lá… Quando finalmente te olhar nos olhos, E tu já não quiseres desviar o olhar... Talvez eu não queira mais que voltes. Talvez nunca mais vá ter saudades. “Os espinhos da rosa” Magoaste-me como a água magoa o fogo... Devagar desfizeste o que construímos. Brincaste comigo como se um jogo fosse, E de um dia para o outro, já não rimos. Arrancaste a primeira página do livro Que pouco a pouco íamos escrevendo. Apagaste uma parte escondida de mim, Que agora sinto que não mais voltará. Dizias que as rosas têm espinhos, E que é bom picarmo-nos. Mas como poderei eu saber, Se nunca me deste um ramo?

  • Faz todo o sentido

    O surrealismo literário possui deveras potencial temático, dado eu poder escrever: “Hoje olhei para o céu e a Lua estava amarela, o que me indica que virou queijo ou, mais provável, esfolou a pele ao pai Sol Ámon-Rá por amor, ódio e inveja, mas se lhe pegares no cantinho e arrancares, ela esborra as pedras lunares juntos com os sete rins, cinco braços, três pianos a mais e nenhum cérebro, e quando te afogares nas suas vísceras desidratas-te que estás no deserto com as pirâmides de Gizé a mostrarem os dentes e a rirem-se da tua cara, cara com a qual lhes dás um pontapé, mas as gargalhadas não param mesmo porque nunca param, e dizem «Nós matámos demasiados dias para que não nos sejas verme» e viras mesmo verme, feito arqueólogo pelos cadáveres colossais que morrem melhor que tu vives, e passaram-se 7117 dias e ainda não encontraste o mijo dourado dos Faraós, deixaram-te pó, aquele Ozymerdas, porque nunca vais encontrar, sejamos honestos, não te enfiaram nos dentes ouro nem picaretas nem canetas nem afeto, não esperes receber nada do Nilo ou da Amazónia, e vai ver agora como ela arde, como um fogo que arde mas bem se vê, há gajos mesmo cegos mas chamam-se poetas na mesma, o teu peito não consegue respirar o ar das vacas que manjam nos olhos, orelhas e lábios dos índios e cagam Reais de carne, e atira-te à água que não é aqui que te vais afogar, e sentes o sal do rio a encher-te os pulmões até saber a bacalhau, porque estás no jantar de Natal e há oito nortenhos a olhar para ti, e depois olhar para a Estrela cadente de David que corre desde galáxia Andrómeda até à galáxia Eu Nunca Percebi Nada de Ciências o Que é uma Pena Porque Dizem que Pagam Melhor e São Mais Felizes, olham para ela, e para ti, para ela e para ti, para ela e para ti, e tu dás-lhes oito tiros com a motosserra que ficam todos vesgos e conseguem olhar para ela para ti ao mesmo tempo, e aí pedem o seu desejo; o desejo é que o David te caia em cima e te foda, mas os cornos e não o cu, e queres comer o peru e beber o binho e a cerbeja e o sangue das beias de cima, mais o bómito que há de aparecer porque tudo é bómito quando se está à mesa não é mesmo, devorar tudo até virares Ouroboros Azteca que consome o Sol que começou esta lengalenga toda não é verdade, portanto bem vistas as coisas a culpa é da vela não é, digam que é, ou fiquem mudos que tu também és surdo, mas até Sócrates sabe que a culpa é da vela que te acendeu portanto mais vale coser de volta e enfiar os bebés nos raios solares e dizer aos senhores doutores «Lamento mas Isto não está bom para existir, nunca esteve, nunca estará, não damos consentimento, nem batizamos, muito menos oramos, queimem e deitem abaixo esta Cruz.” E você pergunta-se “O que é que acabei de ler? O que é que significa?”, e eu posso-me a si agachar, estender os braços por detrás das costas e coração, colocar os lábios ao ouvido, e sussurrar: “Não digo, fode-te.”

  • zona de conforto

    Desde pequena que gosto de escrever e, desde então, que me dizem que sou boa nisso, mas mesmo assim, faço-o poucas vezes. Normalmente, faço-o só para mim, quase como se fosse terapia. Acho que não o faço tantas vezes como gostava porque sinto que escrever torna as coisas reais. Se escrevi algo que estou a sentir, então isso torna-se real e definitivo, não posso negá-lo mais. Não posso fingir que não dói ou que não me deixa triste. É por isso que para mim, escrever é das coisas mais assustadoras que há. Mas, é também necessário. Precisamos de nos fazer ouvir, porque quem sabe, pode ser que esteja lá alguém para o fazer. A verdade é que procuramos nas palavras dos outros respostas, uma explicação, um amigo, preencher um vazio que nem sabemos bem o que é. E, porque faz bem, talvez à alma ou a algo do género. Talvez seja por isso que decidi arriscar, sair da minha zona de conforto, porque se escrever já é assustador, então mostrar às pessoas aquilo que nos vai na cabeça é ainda mais. Há sempre tantas dúvidas - Será que está bom o suficiente? Será que as pessoas vão gostar? Será que vão sequer querer saber? Mas, sair da zona de conforto é necessário. Assustador, mas necessário (tal como escrever). Preciso de parar de dizer que quero escrever e começar a fazê-lo, pegar numa caneta e ver onde me leva, tal como estou a fazer agora. A escrita sempre foi algo que me fez sentir vulnerável, por isso quero aproveitar esta oportunidade e encontrar um sítio onde possa ser vulnerável sem ter tanto medo (porque ser vulnerável é, também, por vezes, necessário) e aproveitar esse medo para inspiração.

  • Flytrap

    starchild, are you listening? they can see me, they are coming, to in their forked leaves trap me. there's three, three of us, closing in below the scorching sun, massively grey and bloodied, hungry for my flesh and for the wretched son. my beloved, where do you hide ? drawing so near, I'm sorry i lied. pulling me close, wide-eyed, deep into the otherside. starchild, are you listening ? I died that day. below the star and below your heart, so far apart. three, magick number three, the kiss of death so close to my lungs, at the tender age of eighteen, the first of us lost in tongues. sunk deep into the maws of something great, larger than life itself, their sharp teeth filled with hate, forcing me to watch as you lose yourself. starchild, are you listening? as long as there is death, there will be hope. until one of us draws our last breath.

  • Entrevista a Pedro Berjano de Oliveira

    NOTA DO AUTOR: “És Nova no meu coração, és Direito até ao fim”. Isto nos diz a Juristuna, tuna da nossa faculdade, na música “Tens”, sempre que temos a felicidade de a ouvir. E claro, isto é tudo muito bonito, mas deixa em aberto uma questão: E depois do fim? O que fazemos depois de “gritar alegremente aos sete ventos Direito venci”? , como nos diz uma outra canção interpretada por este grupo. Nesta coletânea de artigos, os nossos leitores vão encontrar uma de três entrevistas a ex-alunos de Direito. A primeira entrevista é ao Árbitro do Tribunal Arbitral do Desporto, Pedro Berjano, que nos conta um pouco da área tão pouco explorada que é o Direito do Desporto. Agora, para explicar no que consiste este projeto, passo a explicar o porquê de o realizar. Sempre fui uma criança muito ansiosa, sempre focada no presente, mas com muito medo do futuro e, portanto, sempre a tentar descobrir o que vinha depois, para que não me apanhasse de surpresa. Assim, não é de estranhar se dissesse que antes de ingressar nesta aventura que é a licenciatura, já sabia exatamente que disciplinas iria ter este semestre, como me iria deslocar para a faculdade, que material escolar precisava, como era o campus e a vida académica. Como tal, redigi este artigo não só para os meus colegas finalistas, que irão ingressar no mercado de trabalho, e que querem saber o que lhes espera, mas também para satisfazer a minha criança interior e todos os leitores que tiveram uma parecida, sempre a dizer-lhes “Isto é bom, mas quero mais. Isto é giro, mas e a seguir?”. Antes de começar efetivamente o trabalho jornalístico, queria agradecer a todos os entrevistados, por me terem recebido no seu local de trabalho e dedicado o seu tempo para nos dar a conhecer a sua vida profissional. Queria também agradecer ao Professor Luís Duarte de Almeida, pela oportunidade de fazer um trabalho como este, e por não deixar morrer a criatividade. Por fim, queria agradecer ao Jur.nal, jornal da NOVA School of Law, por me dar a plataforma necessária para que este artigo possa efetivamente ajudar alguém, e não ser apenas um projeto pessoal. ENTREVISTA Pedro Berjano de Oliveira, informações : - Diretor de Serviços da Confederação do Desporto de Portugal - Árbitro no Tribunal Arbitral do Desporto - Professor de Direito do Desporto - Advogado - Treinador Francisco de Jesus (FJ): Licenciou-se em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa. Como foi o curso? Consegue destacar algumas disciplinas que o marcaram? Pedro Berjano (PB): A minha família não tinha condições para eu estudar, então tive de recorrer a bolsas e, portanto, tinha duas: uma da própria universidade e uma do concelho de Oeiras, onde vivia. E, portanto, isso acabou por marcar um bocadinho toda a experiência porque, se calhar, tornou as coisas um bocadinho diferentes do que seriam se não fosse essa a circunstância. Eu sempre valorizei muito as coisas fora da própria universidade, nunca fui um aluno de propriamente estudar muito. Quando digo as coisas fora da faculdade é, essencialmente, a parte desportiva, que sempre valorizei muito. Nunca gostei muito das borgas e por aí fora, e, portanto, a minha vida era muito relacionada com a universidade e com aquilo que eu vivia fora desta em termos desportivos. A universidade era sagrada para mim. Não faltava a uma aula, estava sempre a absorver o máximo possível, escrevia tudo e mais alguma coisa daquilo que era dito pelos professores, tentava aplicar-me verdadeiramente e acho que isso acabou por fazer alguma diferença. Exatamente por isto que estou a dizer, o que me acabou por marcar mais foram aquelas cadeiras onde tinha professores que gostavam de discutir e gostavam de conversar sobre as coisas, e não aqueles que, por muito conhecidos que sejam, chegavam e abriam um código e, “Vamos ao Artigo 124.º, e aquilo que o artigo diz é isto, isto e isto” e pouco mais. Nunca achei tão fascinante. Acabou por ser muito a experiência muita das vezes ligada não só ao que era a matéria, mas também ao que era o professor. Isto para dizer que acabei por ter boas notas a algumas cadeiras, como Direitos Reais, Obrigações, Direito da Família, Penal, que não eram à partida cadeiras fáceis, e que acabaram por me correr bem porque tive professores que me puxavam mais. FJ: A sua área sempre foi Direito do Desporto. Porquê esta área? Conte-nos um pouco sobre como é ser jurista neste ramo. PB: Eu acho que, hoje em dia, nós temos uma franja muito grande de pessoas que vêm para o Direito pelos motivos errados. Acho que devemos começar por aquilo que temos dentro de nós, aquilo que verdadeiramente é o nosso drive , aquilo que gostamos, e depois ir à procura daquilo que nos poderá fazer felizes profissionalmente, e eu acho que há muitas pessoas que começam ao contrário, porque “se for para ali tenho a expectativa de ganhar muito dinheiro”, de ter uma carreira dentro de certo tipo de padrões, e, portanto, na minha opinião, deveria ser completamente ao contrário. Para mim, aquilo que fazia sentido era eu estar ligado à área que eu gosto, ao Desporto, e tentar compatibilizá-la com a outra área que eu também gostava, que era o Direito. O meu caminho foi descoberto de dentro para fora, independentemente da altura, e estamos a falar do início dos anos 90, não se falava praticamente desta área. Não obstante, para mim fazia sentido, porque era o meu sentimento que me levava a isto mais do que uma decisão racional. Porquê o Direito do Desporto? Na altura tinha ainda esse fascínio extra por ser muito difícil, por não haver praticamente nada, e, portanto, ainda mais interessante, na minha opinião, era eu poder trabalhar e tentar desbravar um caminho, por muito difícil que fosse, que não era um caminho trilhado. O Direito do Desporto acabou por, lá está, me permitir começar a desatar nós e começar a perceber coisas que eu vivia no dia-a-dia desportivo, fosse como dirigente desportivo, fosse como atleta, fosse como treinador, e as coisas começaram a fazer sentido. O que é que faz um jurista ligado ao Direito do Desporto? Os campos são muitos de atuação. Podes ter uma área relacionada com, imagine, contratos profissionais da área do desporto, sejam treinadores, sejam jogadores; patrocínios e direitos de imagem associados; a nível das federações, pode falar de processos de utilidade pública desportiva, de processos de utilidade pública simples, da própria estrutura e organização dentro da federação, a nível de estatutos, a nível de regulamentos internos, a regulamentos disciplinares; pode lidar com ginásios, com quais são as obrigações legais de um ginásio, que tipo de situações é que têm de ser cumpridas em termos de que tipo de formação têm que ter as pessoas que estão a trabalhar no ginásio, que tipos de serviços é que podem ser oferecidos e por quem, quais são os limites a esses serviços, portanto é uma área muito prática, não é aquela coisa pesada e muito teórica, é uma área que sente que depois na prática lhe pode ajudar a resolver problemas das pessoas no dia-a-dia. FJ: Uma das suas principais funções neste momento é a de Árbitro no Tribunal Arbitral do Desporto. Quando é que assumiu este desafio, e em que é que ele consiste? Que tipos de casos lidam com? PB: O Tribunal Arbitral do Desporto tem, penso eu, 40 árbitros. Eu tenho a felicidade de estar lá desde que se constituiu, e estamos no segundo mandato, creio que começou em 2016. O TAD, no fundo, é um tribunal que só trata de casos relacionados com o desporto. Aquilo que nós fazemos são sentenças iguais às de qualquer outro tribunal, qualquer outro juiz, e, portanto, aparece-nos tudo aquilo que chega ao limite dentro de uma federação. Dentro de uma federação, existem órgãos próprios, como o Conselho de Disciplina, o Conselho de Justiça, por aí fora e, portanto, tudo aquilo que chegou ao seu limite salta, digamos assim, para o TAD. Chegam-nos desde, vamos imaginar, um atleta que não se conforma porque acha que é injusta a aplicação de determinada suspensão, porque foi expulso num jogo e portanto quer recorrer, recorre para nós; desde distúrbios de uma claque durante um jogo e, por isso, aquela equipa passa a ter jogos à porta fechada, recorre para nós para perceber se faz ou não sentido a aplicação daquela sanção; desde salários em atraso de jogadores, funcionários, situações dessas; portanto, lá está, mais uma vez são situações concretas do dia-a-dia, aí numa perspetiva diferente, que é a perspetiva de que nós podemos decidir fazer uma sentença sobre aqueles casos em concreto. FJ: Ou seja, no fundo acabam por lidar quase que com todos os “ramos” do Direito aplicados à área do Desporto? PB: Sim, ou seja, ainda que o tribunal seja específico e concreto apenas para o Desporto, aquilo que acaba por acontecer é que nos aparece de tudo, e isso é uma característica do Direito do Desporto: é muito transversal. Tem questões relacionadas com Direito do Trabalho, imenso Direito Administrativo, com normas constitucionais, com Direito Europeu, porque atualmente os atletas tanto podem ser portugueses como de outra nacionalidade qualquer, e isso traz-nos também jurisdições internacionais para aquilo que são as nossas tomadas de decisão no dia-a-dia. O Direito do Desporto, assim, acaba por abranger um bocado de tudo. É muito interessante por isso. FJ: Desde 2004, é regente da cadeira de Direito do Desporto, na UAL. Sente-se, no fundo, “o treinador” destes alunos? PB : O facto de eu, na altura, ter começado nesta área de Direito do Desporto, leva a que, na brincadeira, haja várias pessoas que me identificam como um dos “pais” desta área em Portugal, não por ser especialmente dotado, mas, porque fui um dos primeiros, e acaba por acontecer. Eu acho que faz todo o sentido essa analogia com o treinador, porque aquilo que nós queremos, de facto, e pelo menos na minha visão de como as aulas devem ser dadas, é que os alunos se sintam parte de algo e se sintam envolvidos, que tenham interesse em procurar por eles outros caminhos. O que fazemos é abrir horizontes, e eu acredito muito mais nisso, e na participação, e no sentido de equipa, do que chegar ali e pôr-me a ler algo... nunca acreditei nesse tipo de ensino. E, como tal, para mim faz todo o sentido que às vezes os alunos possam sair das minhas aulas até com mais perguntas do que respostas, para irem depois à procura dessas respostas, para depois voltarmos a discutir já com a resposta encontrada pela cabeça de cada um, acho que é muito mais divertido assim. Há sempre a tendência de procurar uma verdade absoluta, mas as coisas nem sempre são pretas ou brancas, muitas vezes há uma sombra intermédia, uma sombra cinzenta, e é isso o mais fascinante no Direito. Queria só deixar uma nota de rodapé a esta pergunta. Hoje em dia estou ligado à Universidade Autónoma, apenas em pós-graduações. Depois, estou também ligado à Universidade Lusófona, e dou também, neste momento, no Porto, Direito do Fitness. FJ: Uma outra vertente do Pedro é o seu cargo como Diretor de Serviços da Confederação do Desporto de Portugal. Quais são as competências da CDP? De que trata? PB: A CDP é, numa linguagem mais fácil, como se fosse um sindicato das federações, onde todas as federações, independentemente de serem olímpicas ou não, encontram uma casa comum. É como se nós fossemos o irmão gémeo do Comité Olímpico, mas, enquanto eles são apenas para as federações olímpicas, nós somos para todas. A Confederação trata de tudo o que é comum às várias confederações, porque há problemas que são transversais independentemente de estarmos a falar de federações grandes como a Federação de Futebol, ou de federações pequenas, como a da petanca ou a do xadrez. Por exemplo, estejamos a falar de um novo Decreto-lei, que abrange os seguros de Acidentes Pessoais/Seguros Desportivos, tanto têm de fazer seguros desportivos os atletas de uma modalidade grande, como da pequena, e o que é preciso encontrarmos é soluções para quando aquela pessoa se lesiona, haver mínimos independentemente daquela pessoa pertencer à federação A, B ou C, nomeadamente em termos do que é coberto, desse tipo de valências. Assim, há aqui uma dimensão política e legislativa, de formação a agentes desportivos, como treinadores, por exemplo, e, portanto, há um trabalho transversal da confederação não só em termos políticos, mas também no dia-a-dia das pessoas. Temos, por exemplo, a Gala do Desporto, que é conhecida como os “Óscares” do Desporto nacional. Há 25 anos que a CDP faz essa festa para ser eleito o melhor treinador do ano, o melhor atleta masculino e feminino do ano, a melhor equipa, entre outros. Para além disso, todos os campeões do mundo e da Europa na última época também são galardoados nesta gala e, portanto, é uma gala de grande prestígio, onde se junta o desporto português para homenagear quem, naquele ano, se destacou em termos de resultados. FJ: Ainda bem que referiu da Gala do Desporto, assunto ao qual iria chegar agora. No site da CDP, no âmbito da sua nomeação para o prémio de Melhor Treinador, e desde já os meus parabéns, pode ler-se que 3 palavras que o descrevem são: o Trabalho, a Dedicação e a Determinação. Assim sendo, queria saber se considera estas características fundamentais para todos os juristas. PB: Nós há pouco falávamos da importância que tem conhecermos mais mundo do que só o mundo da Academia, da Faculdade, e eu acho que quanto mais conhecermos por força de outro tipo de atividades melhor preparados nós estamos. Essas características são muito determinantes, quer na Academia, quer fora. Eu tenho alguns lemas na minha vida, um deles é “Que nunca seja por falta de trabalho e de empenho”. E isto aplica-se quer eu esteja a falar como treinador, como estudante, como professor, como jurista, o que seja. Na nossa vida, e acredito plenamente nisto, há determinado tipo de valores que são totalmente transferíveis nas nossas várias vertentes, até mesmo nas pessoais, e, portanto, fazem todo o sentido; sim, claramente esses são valores que fazem com que bons juristas possam ser melhores, porque isso leva a uma procura constante por tentar ser melhor, por tentar dar o seu melhor. Às vezes até pode não se conseguir os resultados, mas lá está, sabemos que o empenho estava lá e, por isso, podemos ficar descansados no final do dia. FJ: O desporto não está só presente na sua vida de mãos dadas com o Direito. Falo do seu cargo como treinador de uma equipa de Corfebol. Ora, eu já conheço a modalidade, mas queria que contasse aos nossos leitores o que é, e que nos falasse sobre o nosso clube. PB: O Corfebol é a única modalidade obrigatoriamente mista que existe no mundo, são 4 rapazes e 4 raparigas numa equipa. É um desporto obrigatoriamente de cooperação, ou seja, uma pessoa não pode driblar, não pode fintar toda a gente, depende sempre da colaboração com os outros. Só por estas características, já é um desporto que tem tudo a ver com a nossa sociedade, e também por isso ser um desporto muito bem recebido no seio escolar, porque facilita uma série de questões aos professores. Os rapazes são obrigados a jogar com as raparigas e não jogam sozinhos, o que pode acontecer com outras modalidades, e depois esta dinâmica de colaboração também tem outras vertentes que são muito ricas. Por exemplo, uma pessoa não pode ser espetacular a marcar e a fazer cestos, e depois não querer saber da defesa. Não, porque mediante aquele que seja o resultado, de 2 em 2 pontos quem está a atacar passa a defender, e vice-versa. E, portanto, são tantas vertentes onde o Corfebol espelha o que é a nossa sociedade, e tem muitas ferramentas educacionais de teamwork que são muito evidentes. Portugal tem, tradicionalmente, participado em campeonatos da Europa e campeonatos do mundo. Tradicionalmente, é também uma seleção muito competitiva, e temos seleção sub-15, sub-17, sub-19, sub-21 e sénior. É um desporto que tem demorado um bocadinho a ser conhecido, talvez até mais do que merecia, apesar de eu ser suspeito, e tem sido uma aventura muito interessante estar ligado a essa modalidade. O clube é o Clube Corfebol de Oeiras, um gigante adormecido durante muitos anos, um dos maiores de Portugal, mas acabou por passar por uma fase complicada e nos últimos anos, felizmente, tem conseguido se reativar: voltou ao seu lugar, um dos maiores de Portugal. E, principalmente, tem uma dinâmica muito intergeracional, temos pais que jogam com filhos, temos miúdos que começaram com cinco, seis anos e que agora têm quinze e dezasseis em equipas mais competitivas. Temos uma equipa em cada divisão (são 3), a equipa da primeira divisão está a lutar por títulos, e, portanto, tem sido uma aventura muito interessante, e tem tudo a ver com aquilo que nós estamos a falar. Tem tudo a ver com aquilo que se faz depois fora de campo, nas vidas profissionais e pessoais de cada um, tudo isto está interligado, os valores e os princípios são os mesmos. FJ: Queria agradecer-lhe imenso por esta conversa. Acho que foi extremamente esclarecedor, tanto para mim, como para os nossos leitores. Para terminar, um conselho de treinador para os nossos leitores. Como fazem para ganhar o jogo da licenciatura? PB: Acho que é um bocadinho o que já referi. Passa pelas pessoas olharem para dentro de si, acho que isso ajuda, porque há tanta influência exterior, direta e indireta, que muitas vezes me parece que há pessoas que acabam por seguir um caminho que não é bem o seu. Olhar para dentro, descobrir o seu caminho e, a partir daí é ir atrás dele com o tal empenho, a tal determinação e vontade, e acredito sinceramente que há sempre espaço para quem tenha esta visão. Hoje em dia, está tudo vocacionado nos resultados, na faculdade X, na nota Y, isso é importante, mas claramente não é tudo, e acredito que, no futuro, vai deixar cada vez mais de ser a única coisa que importa. É perfeitamente possível conciliar uma pessoa que tem vida académica, mas também pessoal, desportiva, com os amigos, e isso está um pouco esquecido hoje em dia. E esse tipo de atividades, ainda por cima em Direito, que é um curso extremamente competitivo, e que parece que as pessoas têm que pôr tudo na prateleira e tornarem-se quase robóticos para terem notas melhores do que as outras pessoas, serem melhores que as outras pessoas, e é possível fazer caminhos diferentes. Se há uma coisa boa que eu tenho na minha vida é, se calhar, provar isso. Eu não tinha dinheiro para estudar, não era um aluno fantástico, e depois comecei a ser, lá está, porque comecei a descobrir do que gostava, e, portanto, acredito verdadeiramente que há espaço para isso e um caminho para isso, cada um tem é que descobrir o seu, e dar tudo para lá chegar.

  • Estudante em desespero

    Enquanto escrevo isto, tenho um monte de coisas por fazer. Tenho documentos para analisar, tenho páginas para ler, sublinhar, estudar e decorar; tenho atividades às quais me quero dedicar, porque realmente as adoro; tenho chamadas telefónicas por fazer só para verificar que está tudo bem; tenho o jantar por fazer; tenho um almoço amanhã e ainda um convívio ao qual gostava de ir para desanuviar. Mas amanhã tenho teste. Um teste importante para o qual não me sinto, de todo, preparado. Tenho de fazer uma noitada? Talvez seja necessária para salvar a nota, mas sei que se o fizer não vou estar com a cabeça fresca o suficiente para dar o meu máximo amanhã…Penso nas avaliações depois deste teste. Penso no que terei de organizar, preparar e conciliar. Penso nos dramas entre amigos. Penso na vida em geral… Tento. Tento dar o meu melhor. Mesmo quando sinto que não serve de nada porque nunca chegarei onde quero. Tento fazer tudo. Tento dar atenção aos meus amigos. Tento não discutir, insultar ou passar-me com certas pessoas. Tento respirar… À beira da ravina. Constantemente à beira do choro. Lágrimas que não são exteriorizadas, mas que estão lá. Lágrimas que querem sair, mas que não se dão a esse luxo. Lágrimas que acordam comigo. Lágrimas que me vão rebentar. Saúde mental, onde estás? É de ti que eu preciso - estou consciente disso - mas não posso parar. A tempestade atual não se compara à que se avizinha. E agora? Vale a pena sequer continuar a tentar? Tu que devias estar sempre em primeiro lugar, onde te encontras? É de ti que eu preciso urgentemente. Quero a tua mão entrelaçada na minha. Quero viver sempre contigo a meu lado. Quero sair deste demónio para poder estar contigo a toda a hora. Sei que não me serve de nada esta idealização. Sei que não me compensa pensar no futuro. Sei que é uma perda de tempo no meio de tudo isto… No fundo da minha mente, estou consciente de que tenho de trabalhar para estar contigo. Por isso, tento inspirar e expirar. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Inspiro…expiro…. Inspiro… inspiro… inspiro, não consigo expirar e não há mais ar para inspirar. Repito: inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Inspiro…expiro. Ainda não está a resultar…. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Noto os ombros a baixarem e tento continuar…. Começo a relativizar e a colocar-te onde sempre devias ter estado - sobretudo agora – em primeiro lugar. Quero que permaneças, mas sei que para isso me tenho de esforçar. Sei, no entanto, que não terei sempre tempo para te posicionar no topo da pirâmide. Estarás imediatamente a seguir, temporariamente em segundo ou em terceiro, com a garantia de que subirás assim que possível. Aliás, com a garantia de que subirás amanhã ou depois de amanhã. LOGO. Porque mereces e porque sem ti não consigo. PORQUE ÉS URGENTE E DEVIAS SER PERMANENTE. Porque te devia querer, aliás, porque te quero.

  • As histórias esquecidas do Mundial da lavandaria

    Muito já se disse, escreveu e discutiu sobre o Mundial de Futebol que há algumas semanas começou. Seja qual for a seleção que leve o título de campeã do mundo, esta competição será historicamente lembrada como aquela em que os interesses económicos de uma instituição e os interesses políticos de um Estado autocrático se sobrepuseram aos valores fundamentais que, enquanto comunidade, deveríamos privilegiar, e do próprio espírito do futebol, enquanto elemento que agrega as massas, exortando paixões e emoções. Desde 2010, ano em que foi atribuída a organização deste campeonato do mundo de futebol ao Catar, muitas vozes se têm levantado a propósito dos motivos que levaram a esta escolha, e da transparência da mesma. Ainda antes da atribuição em concreto, todo este processo estava já envolto em polémica. Começando na votação, a cargo do Comité Executivo da FIFA, organização essa que é a entidade máxima ao nível do futebol mundial, foram afastados dois membros deste Comité após uma reportagem do jornal inglês Sunday Times , que reportava que aqueles se dispuseram a vender o seu voto. A partir daí, as suspeitas de corrupção sucederam-se, num efeito bola de neve. No buffet de suspeições a propósito deste Mundial, foram servidas tanto denúncias de subornos de vários membros do Comité Executivo, como ofertas de investimento a troco de votos, bem regadas com influências políticas. No ano de 2013, foram ainda chamados à ficha de jogo de obscuridades, o então presidente francês Nicolas Sarkozy, Michel Platini (presidente da UEFA na época) e o emir do Catar, que segundo o jornal France Football , se encontraram para almoçar dias antes da votação. A investigação que, até ao momento, produziu mais informação, foi levada a cabo pelas autoridades norte-americanas, e ainda se encontra a decorrer. Esta resultou na detenção de 40 pessoas por suspeitas dos singelos crimes de enriquecimento ilícito, gestão danosa e lavagem de dinheiro no processo de atribuição dos Mundiais de 2018 e 2022. A verdade é que todas as investigações lançadas pelas mais diversas entidades ao longo dos anos, chegaram inevitavelmente à mesma conclusão: valores mais altos se levantaram no decurso do procedimento de seleção dos anfitriões destes dois campeonatos do mundo, nomeadamente o valor do dinheiro e do poder, que corroem as instituições de maior gabarito internacional. Como se as suspeitas de corrupção não fossem suficientes, ainda se vieram juntar à equipa titular deste campeonato do mundo as violações de direitos humanos que ocorrem no Catar, em particular, os direitos dos trabalhadores migrantes. O Catar, um pequeno país da península arábica, tem sensivelmente 3 milhões de habitantes, sendo que 88% dessas pessoas são estrangeiros. Estima-se que 2 milhões dessas pessoas sejam trabalhadores migrantes, constituindo 95% da população empregada. A maioria destes trabalhadores são homens originários de países como as Filipinas, a Índia, o Paquistão, o Nepal e o Bangladesh. Desde o ano da atribuição já foram gastos cerca de 19,3 mil milhões de euros na construção de estádios, estradas, hotéis, linhas de metro e outras infraestruturas necessárias para o torneio. Todas essas estruturas estão indelevelmente marcadas pelo sucessivo desrespeito pelos mais básicos princípios, que, em teoria, deveriam pautar a Humanidade como um todo, e que ocorreram debaixo dos olhares de todo o mundo. Na busca incessante por proporcionar melhores condições às suas famílias, estes trabalhadores foram subjugados a situações de autêntica escravatura moderna. Até ao ano de 2020, vigorava no Catar o regime da kafala , segundo o qual os trabalhadores ficavam dependentes de um tutor (o empregador, por exemplo), que lhes confiscava os documentos, impedindo a mudança de emprego, e até, a saída do país. A Amnistia Internacional, num relatório por si publicado em 2016, tornou público que os trabalhadores migrantes que estavam encarregues de construir os novos estádios "sofreram abusos sistemáticos, em alguns casos trabalho forçado". Dos 132 trabalhadores entrevistados por esta organização, todos revelaram ter sofrido algum tipo de abuso. A real dimensão desta tragédia ficou patente após uma investigação do jornal inglês The Guardian , publicada no ano passado, que chegou à conclusão de que, desde que o Catar foi designado como organizador do campeonato do mundo de 2022, morreram mais de 6.500 trabalhadores da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka. Todavia, o próprio jornal ressalva que estes números são, na realidade, superiores, porque não incluem as vítimas mortais oriundas de países como as Filipinas ou o Quénia, nem as mortes ocorridas no final de 2020. Dados do próprio governo catariano indicam algumas das causas de morte destes trabalhadores, figurando nestas os acidentes rodoviários, acidentes no local de trabalho e suicídio. No entanto, a mais comum das explicações é apresentada como “causas naturais”. De acordo com o The Guardian , 69% das mortes entre trabalhadores indianos, nepaleses e do Bangladesh e 80% entre os trabalhadores indianos são enquadradas nesta categoria. O jornal inglês acredita que estas classificações são realizadas sem que haja qualquer tipo de autópsia e não oferecem uma explicação médica verossímil para a causa das mortes. Como tão bem afirmou o jornal Expresso : “A estatística mais assustadora do Mundial 2022 é, na verdade, um número desconhecido. Ninguém o sabe determinar ao certo. Mas não são golos marcados, dribles realizados ou defesas efetuadas. Trata-se de abusos e exploração. São mortes.”. É importante nunca esquecer que estes números são mais do que meros algarismos, representam vidas, histórias de pessoas como nós. Foi com este intuito que a plataforma de jornalismo de investigação sueca Blankspot desenvolveu o projeto Cards of Qatar . Estes jornalistas decidiram dar um twist às tradicionais coleções de cromos de futebol, elaborando uma coleção dedicada aos trabalhadores que perderam a vida no âmbito da preparação para o Catar receber o campeonato do mundo. Estas cartas permitem materializar o lado humano dos números, ao exibirem uma fotografia da pessoa, o seu país de origem, a sua data de nascimento e morte e, no verso, uma breve exposição do contexto que rodeou a sua morte. Martin Schibbye, editor-chefe e cofundador da Blankspot , deslocou-se às terras-natais de algumas das pessoas por detrás das cartas - aldeias e vilas perdidas no meio de montanhas e vales - e falou com as famílias, mostrou-lhes as cartas. Numa comovente partilha, estas mães, pais, viúvas, órfãos, irmãos, amigos, contaram mais sobre os seus entes queridos que, sem que nada o fizesse prever, adquiriram um bilhete sem regresso para aquele pequeno estado da Península Arábica. Uma dessas histórias é a de Sita Kumari e dos seus três filhos, Sunita (19), Salina (11) e Manish (9). O marido de Sita, Kubir Singh, emigrou do Nepal para o Catar pouco depois de a primeira filha de ambos ter nascido. Kubir trabalhava na construção civil, era operador de equipamento pesado, e, mais importante, era o “ganha-pão” da família. Durante 19 anos, Kubir fez do Catar a sua casa, regressando ocasionalmente ao Nepal. Sita conta que nas suas últimas conversas com o marido, este mostrava desejo de voltar ao seu país. Ocasionalmente dizia-lhe que se encontrava doente, e os seus colegas de trabalho também. Sita relata que se eles faltassem um dia ao trabalho, ficariam sem dois dias de salário. Eram assim as regras. A narrativa começa a ganhar contornos trágicos quando, num dia de trabalho, Kubir sentiu-se mal e caiu do rolo compressor que conduzia. A viúva afirma que ele interpretou este momento como um sinal e comprou um bilhete de avião para casa. Infelizmente, Kubir não teve a oportunidade de concretizar o seu plano: na sequência de outro desmaio foi levado para o hospital. Dez dias depois, o seu corpo aterrou no aeroporto de Kathmandu, a capital do Nepal. Do seu certificado de óbito constava que a causa da morte era “hipertensão arterial, que afetou os rins”. Sita acusa a empresa para a qual o marido trabalhava de não lhe ter prestado os cuidados médicos adequados e de não ter tido em atenção o seu estado de saúde. A família recebeu, da empresa, uma indemnização no valor de 4.500 dólares. Kubir era a sua única fonte de rendimento, foi graças às quase duas décadas que este passou no Catar que os filhos puderam frequentar a escola, e que ambicionavam, no futuro, construir uma casa para toda a família. Agora, todas essas aspirações encontram-se comprometidas: Sita e os filhos viram-se forçados a mudar para uma casa com piores condições de habitabilidade (tendo sido danificada por um terramoto, a renda desta é mais baixa), e será praticamente impossível os filhos manterem-se a estudar. Este é apenas um exemplo, entre outros que ficaram registados para a posteridade nas cartas. A receita do bolo de polémicas confecionada pelo Estado do Catar e pela FIFA não estaria completa sem mencionar os valores retrógrados pelos quais se pauta este país. Poucos dias antes do início do campeonato do mundo, Khalid Salman, embaixador desta competição e ex-jogador do Catar, afirmou, em entrevista ao canal de televisão alemão ZDF , que a “homossexualidade é haram [proibido]”, e, antes de ser interrompido por um assessor, teve a oportunidade de completar: “E haram porque é um distúrbio mental”. Nesta senda, nunca é demais relembrar que a homossexualidade é prevista como crime no Código Penal catariano. Numa manifestação de apoio para com a hostilizada comunidade LGBTQIA+, capitães de várias seleções (Inglaterra, País de Gales, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha e Dinamarca) planeavam utilizar a braçadeira “One Love”. Esta braçadeira, com um coração preenchido pelas cores da bandeira arco-íris e um 1, no centro, representa a luta pela diversidade, inclusão e pelos direitos sociais da comunidade. Porém, estas 7 equipas desistiram da iniciativa após a FIFA ameaçar que o jogador que entrasse em campo envergando a braçadeira em questão, seria punido com cartão amarelo. De acordo com esta entidade, os equipamentos das seleções não podem conter qualquer tipo de mensagens políticas, religiosas ou pessoais, nem imagens. Fica, então, bem patente a hipocrisia de uma instituição como a FIFA, e a sua dualidade de critérios. Se em fevereiro deste ano não hesitou, a par da UEFA (entidade máxima do futebol a nível europeu), em banir a seleção e os clubes russos das competições por si organizadas, na sequência da invasão à Ucrânia por parte da Rússia, agora, a FIFA vem, nem que de modo indireto, apelar a que não se faça do futebol um espaço político. Não questiono a pertinência e adequação da primeira decisão; ponho em causa, isso sim, o facto de existirem dois pesos e duas medidas quando se abordam este tipo de questões no âmbito futebolístico. Das duas uma: ou bem que se fazem campanhas publicitárias a incitar ao respeito e não discriminação, e se sancionam as equipas de futebol de determinado Estado pelas decisões tirânicas dos seus líderes, ou bem que se assobia para o lado e se diz que são 22 senhores a correr atrás de uma bola, e o que interessa é se a mesma entra ou não na baliza, sendo tudo o resto secundário. Fica o meu apelo à FIFA, através deste singelo texto, que escolha um lado. A poucas semanas da final, é visível a aderência da população mundial, num geral (e nesta me incluo a mim própria), a esta competição. O fenómeno de sportswashing , ou seja, o uso de um evento desportivo para desviar as atenções de problemas graves de direitos humanos, encaixa que nem uma luva no que tem sido o Mundial 2022 desde a sua raiz. Para a FIFA e para o Catar este é apenas um instrumento para atingir os seus fins. No caso da FIFA e da teia de interesses que nela habita, para se enriquecerem. Já o propósito do Catar, sendo um modesto território cercado pelos poderosos estados da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irão, deseja aumentar a sua exposição e relevo e demonstrar a sua abertura ao resto do mundo. O Catar, à boleia da FIFA, moldou astuciosamente uma imagem que quis vender à comunidade internacional, por forma a ser convocado para a equipa das grandes potências e a poder dialogar com os titulares da política global. Contudo, e apesar da popularidade deste torneio, a reputação do Catar enquanto país sofreu danos em função de todas estas controvérsias bem conhecidas, não se podendo afirmar que este plano foi bem sucedido na sua totalidade. É, por isso, imperativo garantir que nenhum outro acontecimento social, cultural, artístico ou desportivo tenha as implicações e antecedentes deste Mundial. Não poderia finalizar este périplo sem antes citar um dos grandes humoristas da nossa praça, Ricardo Araújo Pereira, que, na edição de 18 de novembro da Revista Expresso, com o humor mordaz a que nos habituou, escreveu o seguinte: “O Mundial do Catar tem ainda a vantagem de demonstrar uma teoria que formulei há muito: se desumanidades forem cometidas com uma bola de futebol por perto, ninguém leva a mal”. Para saber mais sobre o projeto Cards of Qatar : https://cardsofqatar.com/en/ Instagram: CardsOfQatar Twitter: CardsOfQatar Referências: https://maisfutebol.iol.pt/mundial-2022/qatar/como-e-que-o-mundial-2022-foi-parar-ao-qatar https://www.theguardian.com/football/2022/nov/27/qatar-deaths-how-many-migrant-workers-died-world-cup-number-toll https://www.tsf.pt/mundo/catar-diz-que-entre-400-e-500-trabalhadores-morreram-nas-construcoes-para-o-mundial-15398122.html https://www.rtp.pt/noticias/mundo/catar-mais-de-6500-trabalhadores-migrantes-morreram-enquanto-se-prepara-mundial-de-2022_n1299512 https://www.theguardian.com/global-development/2021/feb/23/revealed-migrant-worker-deaths-qatar-fifa-world-cup-2022 https://tribuna.expresso.pt/mundial-2022/2022-11-19-Alem-das-estatisticas-ha-cartas-manchadas-de-sangue-no-Catar-O-legado-deste-Mundial-sao-viuvas-a-chorarem-maridos-13c534ed https://blankspot.se/part-1-families-whose-dreams-were-crushed-in-qatar/ https://www.publico.pt/2022/11/08/desporto/noticia/mundial-futebol-embaixador-prova-homossexualidade-disturbio-mental-2026908 https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2022/11/entenda-o-que-e-a-bracadeira-one-love-e-por-que-a-fifa-a-proibiu.shtml https://www.publico.pt/2022/11/18/desporto/noticia/qatar-2022-soft-power-afinal-sportswashing-2028180

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