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  • A atual "Sociedade do Cansaço"

    Já alguma vez deste por ti a fazer algo de que gostas, a passar tempo com os teus amigos, ou simplesmente a descansar e te veio à cabeça a sensação de estares a “desperdiçar tempo”? Cada vez mais, tudo o que fazemos parece obedecer a uma lógica de produtividade, que se tem vindo a tornar num fardo tão pesado, que o mero repouso resulta num excessivo sentimento de culpa e insuficiência. Na azáfama da atual sociedade, caminhamos para um abismo de intolerância ao tédio e de incapacidade contemplativa: existe em nós uma ansiedade constante que nos impede de usufruir cada momento sem sermos dominados por pensamentos acerca do que deveríamos estar a fazer, do que deveríamos ter feito ou de tudo aquilo que ainda temos para fazer. Somos todos os dias bombardeados com propaganda de auto-realização, seja em formato de livros, vídeos e até mesmo palestras e workshops , que nos incumbem de “dar o máximo de nós próprios no mínimo que fazemos”: de acordar todos os dias antes do sol nascer, meditar pelo menos durante meia hora e, claro, não nos pode faltar disciplina para o exercício matinal. “Porque de manhã é que se começa o dia”. Isto tudo para termos tempo para passar as restantes horas sentados em frente a um computador, e à semelhança da própria máquina, só desligar quando a bateria se esgotar totalmente. À primeira vista, a produtividade pode soar como sendo algo positivo. Na verdade, não deixa de o ser. O problema surge quando ser produtivo, tanto a nível pessoal como profissional, se transforma numa obsessão: uma preocupação constante por querer atender às expectativas, não apenas da sociedade em geral, mas sobretudo de nós próprios. Neste cenário, a tão propagada “auto-realização”, conduz-nos precisamente à autodestruição. São inúmeros os estudos que provam que os problemas associados à saúde mental, nomeadamente à ansiedade, à hiperatividade, à síndrome do “burnout” e à própria depressão, têm vindo a afetar, como nunca antes, a nossa geração. Esta “produtividade tóxica” enquadra-se num fenómeno social mais amplo, a que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han designa “Sociedade do cansaço”: um ambiente patológico de neuroses, pautado por uma positividade excessiva, onde existe uma normalização e sobretudo uma glorificação de indivíduos inquietos e hiperativos, tudo isto sob o pano da produtividade. O nosso valor e a nossa identidade são portanto reduzidos àquilo que conseguimos fazer e produzir, motivados por uma obsessão pela disciplina e pela eficácia. A atual sociedade neoliberalista, cada vez mais competitiva e individualista, leva-nos a assumir o papel de “chefes de nós próprios”, que se reflete numa servidão voluntária pós-marxista, na medida em que a “alienação” não demanda mais um terceiro. Alcançada esta condição, deixamos de ter como máxima a obediência ao outro, o cumprimento da lei e do dever, mas antes um sentimento ilusório de “liberdade” e de “autonomia”, que nos conduz à exploração de todos os nossos recursos físicos e mentais e nos aproxima de um colapso. Este fenómeno está também associado ao “excesso de positividade” presente em todas as esferas da sociedade contemporânea, em que predominam mensagens de ação produtiva e a ideia de que todas as metas são alcançáveis através do esforço e da disciplina. O perigo desta lógica é que no lugar do enunciado disciplinar - “tu deves” - imposto por um terceiro, entra em cena um novo enunciado - “eu posso”- o qual, no seu aspeto imanente, remete a uma falsa sensação de liberdade. A verdade é que somos seres limitados – não apenas fisicamente, mas também social e economicamente - pelo que estas premissas levam a uma constante frustração, que é por elas próprias romantizada. Será sempre possível conquistar uma melhor versão de nós próprios, pelo que nunca devemos parar até atingirmos a excelência e o sucesso. Este positivismo extremo leva-nos ainda a impor a nós próprios – e aos outros - uma atitude falsamente positiva: generalizamos um estado feliz e otimista, independentemente da situação, através de um silenciamento de emoções "negativas", tanto nossas como das pessoas à nossa volta. “É só pensar positivo”. Neste cenário de “auto-exploração”, em que nos tornamos escravos de nós próprios e em que suprimimos todos os aspetos emocionais que sentimos diante de qualquer situação que nos represente um desafio, surge portanto uma nova forma de violência: a violência neural, que deixa de estar associada a uma negatividade exterior, manifestada através do confronto entre duas ou mais entidades, para passar a se manifestar cada vez mais subtil e silenciosamente, estabelecendo uma relação unipessoal, em que o próprio agressor é vítima de si mesmo. Vivemos numa luta constante connosco próprios. Porém, ao concorrer contra a nossa pessoa, somos incapazes de chegar a uma conclusão. Jamais alcançamos o ponto de repouso da gratificação. Passamos a viver constantemente num sentimento de carência e de culpa, procurando obsessivamente superar-nos a nós próprios, até sucumbirmos. Será este o nosso futuro?

  • O Rapaz Que Vendeu Versos ao Diabo

    I Vagueio errantemente pela cidade nesta glamorosa tarde de verão. Os pequenos pardais cantam jubilosamente, enquanto o brilho alaranjado do sol começa a dar mostras do seu vigor, sem que por isso uma leve e fresca brisa deixe de dar, simultaneamente, ar de sua graça. O céu pinta o rio com um tom tão resplandecente que não há gaivota que se prive de, no seu níveo dorso, refletir o brilho azulado da água cristalina. A placidez do ambiente contrasta com o frenesim no qual se encontram todas as pessoas que por mim passam, assemelhando-se a marionetas ambulantes, comandadas por um sujeito constituído por números e ponteiros. A natureza derrama uma lágrima sempre que os relógios não nos permitem admirar a sua beleza, nem que seja por breves instantes. Ao invés da maioria, para além de não ter relógio, não me privo da livre comunhão com o que de mais apolíneo existe no mundo em que fomos despejados – talvez seja uma forma de não permitir que me roubem a alegria de sentir na plenitude tudo o que me rodeia. O tic-tac dos relógios transforma os homens em máquinas com momentos específicos para sentir e, quando deixam estes de sentir porque soou um tic-tac a mais, deixam de ser homens. Entre a calçada moída e os sapatos transeuntes, reparo num pedaço de papel sujo e rasgado pelas solas que a todos os instantes a desgastam. É uma página de jornal. Prontamente a apanho, e nela leio que uma companhia de teatro procura atores para representar Hamlet . Ainda ontem à noite fui o príncipe Hamlet sobre o banco onde costumo pernoitar. O sangue da arte não pode ser menos do que pó de estrelas. É essa a única explicação para que um sem-abrigo se sinta um príncipe através de meras palavras. Caminho até à morada indicada pelo jornal e chego sem dificuldade ao meu destino. A porta encontra-se entreaberta, pelo que entro cautelosamente e insiro-me na fila, nem grande nem pequena, que porventura me separa da oportunidade de comer nos próximos dias. Um calor abrasador, motivado tanto pelo clima próprio da época quanto pela aglomeração de gente num espaço exíguo, mancha-me de suor a camisa já amarelada. Chega, enfim, a minha vez. Tento disfarçar o tremor que me percorre as pernas ao contemplar a sumptuosidade do jurado – alto, espadaúdo, de semblante fino e cabelo grisalho. Tem a aparência de um nobre, tanto pela postura altiva como pelo refinado traje, e ainda pelo seu pelo típico e arcaico anel aristocrático. — Julga que vou observar a sua investida? — pergunta, olhando-me de soslaio. — Porque não? — retruco, fitando-o. — Porque descreio em criaturas míseras! — vocifera altivamente, balançando a cabeça para trás num jeito efeminado. — Como pode o senhor conjeturar que me incluo nessa categoria? — Até um olho míope o perceberia — responde com desdém —, o menino não passa de um sandeu! Apresentar-se perante mim de pele imunda e vestes esfarrapadas… Pelo amor de Deus! Sabe porventura quem foi o senhor meu avô? Que verme petulante me saiu este plebeu horroroso! Saia-me da frente, não impurifique este chão com os seus pés encardidos! Uma dor surda entranha-se-me no corpo. Sinto-a enraivecida, fitando-me tão intensamente que me despe. Contempla-me sombriamente a alma, penetrando-a de seguida como quem com uma farpa penetra um touro, afogando-me num tempestuoso inferno. Olho para as paredes sujas e rachadas vendo-me. Sinto que cadeiras coxas têm as minhas pernas. Sou uma porta cansada de bater infindavelmente, obrigada por um vento inacabado. Um desespero enlouquecido em mim cresce, no entorpecido e no grotesco me faz ver, me faz sentir. Doente me torna a consciência de que este ódio lancinante me transforma a nobre alma em plebeia, alma outrora semelhante às vestes do jurado, mas agora, pelo rancor, similar à sua índole. Que consciência tão aterrorizadora quanto as trevas da cave do Demónio! Ah, consciência que me tornas fétido! Morre! Morre e contigo leva aquele fidalgo pretensioso! Morre! Saio e percorro o caminho inverso ao que trilhei para aqui chegar. Por vezes na vida há que voltar atrás, já com a consciência de que uma das frentes é mais retrógrada do que o ponto inicial, e depois intentar percorrer uma trajetória divergente, na esperança de que o destino de tal rumo seja mais clemente. É-me imprescindível esquecer este incidente, que me suscitou desejos horrendos com os quais não quero conspurcar a minha alma. O que eu não daria para que a perceção de que não sou tão bom homem quanto gostaria me abandonasse… Estes nobres, que nobres nasciam e nada de grandioso (ou sequer útil) precisavam de fazer para que se lhes tivesse estima, sempre foram muito soberbos. Ao que parece, um grupo substancial de plebeus não compreendeu ainda que, desde 1910 (ano apenas triste pela morte de uma das maiores figuras da literatura mundial), os títulos nobiliárquicos nada representam. Devido a tal ignorância, ou ao péssimo e anacrónico hábito suscitado pelo complexo da inferioridade, continuam a tratar os de sangue azulado como se superiores fossem. Enfim, aquele senhor tem tanto de valor quanto de sangue azul. Julgo até que o que lhe corre pelas veias seja negro, e por momentos fez com que o meu sangue se enegrecesse também. Contudo, mais pena dele tenho que de mim, pois o meu voltou a avermelhar-se em instantes. A tarde vai-se metamorfoseando em noite e o céu torna-se ainda mais belo, tal como o ledo cantarolar dos passarocos que esvoaçam dançando à volta do velho banco onde me aconchego, do meu velho banco. “Talvez apenas consiga ser o príncipe Hamlet em cima de ti”, penso alto. Abro um livro que alguém cuspiu para o chão numa noite destas, um pequeno e sublime livro, de seu nome Noites Brancas . Li-o todo ontem, assim que o encontrei; contudo, elevou-me de tal modo o espírito que o lerei hoje uma vez mais. Costumo ler quase tudo o que a vida me oferece e, quando tenho a sorte de ser presenteado com belas palavras que, em conjunto, formam pensamentos elevados, fico com o dia feito; caso contrário, aprendo como não se deve escrever. Dostoiévski foi um génio, portanto não tem grandes dificuldades em fazer-me o dia. A alma vai ficando saciada, mas para o estômago não tenho nada. Amanhã, bem cedo, procurarei novamente um novo trabalho. Desce uma noite tão deslumbrante quanto o sonho mas mais fria do que o mundo, e apenas me mantenho minimamente aquecido porque não me esqueci de trazer as mantas da casa de onde me despojaram. Um homem perde o pai e a herança e já não é ninguém. O seu nome era Jorge, um pequeno comerciante de gado com lucros consideráveis, lucros esses que lhe permitiam pagar-me um salário razoável. Trabalhávamos e vivíamos juntos. Era um bonito homem, tanto de pele quanto de caráter, mas tinha um temperamento eminentemente prático. Em fevereiro, a doença que o levou começou a fazer-se sentir cada vez mais intensamente, até que a sua vitalidade declinou por completo e, em poucos meses, morreu. Suspeita-se que foi a tuberculose que o levou. Tentei salvar o que era nosso, mas não fui bem-sucedido. Ao meu inexistente jeito para negócios se uniu uma terrível praga que nos colheu mais de três quartos do gado, e o nosso património foi sepultado. O desgraçado ainda viveu tempo suficiente para me ver perder tudo. Jamais esquecerei o seu rosto, marcado pela mágoa e encharcado em lágrimas. Viu o seu único filho perder, em cinco meses, o que construíra numa vida. E, ainda assim, entre o estado febril e a agigantada angústia, teve tenacidade bastante para me dizer que não me preocupasse, que iria correr tudo bem porque ainda tinha os meus poemas e o hipotético sustento que eles me trariam. Depois de terem estas palavras saído dos seus secos lábios, adormeceu para não mais acordar – foi como se contrariasse toda a teoria por si defendida em vida antes do suspiro que o conduziu à morte. Em tempos mostrei-lhe a minha poesia, mas, segundo ele, “o trabalho só é trabalho quando dá dinheiro”. Provavelmente as suas últimas palavras resultaram de um delírio proveniente da febre que lhe assolou o juízo nos últimos dias, ou então de uma visão divina entre a passagem da tirania dos vivos para a democracia dos mortos – um local maravilhoso e plácido, utópico, visto por Ivan Ilitch, em que cada ser é tão valorizado que o simples vislumbre da sua proximidade dá a um cego vista. Gosto de pensar que as suas palavras foram o efeito dessa contemplação luminosa, mas não creio em ideias quiméricas. Enfim, já vai sendo tarde. Não será fácil que o sono tenha mais força do que a dor, pois embora a insensibilidade do meu pai me magoasse, ele era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. E eu não gosto de muita gente.

  • Marxismo ao contrário

    Vários são os acontecimentos que têm vindo a deixar a sua destacada marca na história da humanidade, influenciando sociedades, inspirando grupos e fazendo mover o mundo social e político, cujo girar depende inteiramente das ideias e filosofias de que esses mesmos acontecimentos se fazem acompanhar, numa relação quase (se não totalmente) interdependente e simbiótica. Ora, como em tudo, há sempre dois lados da mesma moeda: por um lado, grande parte desses momentos contribuíram para o avançar e desenvolver da raça humana, de forma direta e sem a necessidade do conhecido sofrendo, aprendendo característico de tantas outras situações (o período dos Descobrimentos, por exemplo, ou a invenção da locomotiva a vapor); por outro, uma também significativa quantidade de eventos forçaram-nos a uma evolução assente na dor e no sofrimento, unicamente justificada por cenários horríficos outrora vividos. É nestes últimos que se centrará este modesto texto. Exemplifiquemos: os horrores do nazismo são hoje reconhecidos por todo o mundo e desprezados por todos (ou assim se espera), desprezo esse assente numa crítica constante que parece querer forçar a (re)lembrança desses tempos e das atrocidades experienciadas. Assumindo que qualquer democrata e, acima disso, qualquer ser humano – no sentido não de espécie, mas axiológico e, ainda que redundante, humano – se insurge contra aquilo que foi e que todos sabemos ter sido a Alemanha Nazi, não gastarei muito mais linhas na tentativa de condenar aquilo para o qual não existem sequer suficientes palavras (ou palavras com sentido forte o suficiente) para condenar. Torna-se, no entanto, fundamental o apontar de uma situação assaz controversa e antíctone quando comparada com a já exposta acima: a aceitação do ideário marxista e das suas várias ramificações. Não seria, no mínimo, coerente condenar com a mesma força a ditadura do proletariado como se o faz com o nacionalismo extremado? Não nos faria menos hipócritas a crítica de Estaline e Lenine com a mesma austeridade e intolerância com que criticamos Hitler ou Mussolini? Ignorando (finjamos que por lapso) o facto de os regimes comunistas terem nos seus armários um número inimaginável de cadáveres, quando comparados com os extremismos de direita, este fenómeno tem uma fácil e simples explicação, pelo menos no que ao que se passa «dentro de casa» diz respeito: o amor que Portugal nutre às esquerdas. Muitos diriam que, desde a Revolução dos Cravos, o nosso país não recuperou da sua crónica alergia à direita e às suas principais bandeiras. Já eu, prefiro ouvir dizer-se que aceitou uma patologia autoimune bem pior que uma simples alergo-constipação: a chamada esquerdopatia. Já várias são as provas dadas de que, em solo português, poucas são as ocasiões em que a coerência e o bom senso são tomadas em consideração. Nada disto terá que ver com a vincada presença da ala esquerda nos aparelhos de governação, ao longo do tempo de democracia… Tomemos como exemplo a tradição constitucional portuguesa. Tem-se insistido bastante - quase transparecendo uma imensa vontade de perpetuar os estereótipos de abril - na manutenção do famoso «caminho para uma sociedade socialista» , que, mesmo apenas sendo parte do preâmbulo da constituição, demonstra a obsessão e o deslumbre de que falo. Proíbem-se, também, e com a superioridade moral do costume, «movimentos que perfilhem a ideologia fascista» . Compreensível, legítimo, e sem defeitos a assinalar, não fosse o caso de nada se dizer sobre os pressupostos-base das teorias da foice e do martelo. A estes juntam-se outros exemplos, não só escritos, mas, também, costumeiros, que demonstram sem margem para dúvidas o porquê de Portugal não crescer, não se desenvolver e não evoluir – e o porquê de estar estagnado. Naturalmente que não faço cair sobre os ombros de uns quantos membros da brigada do reumático toda esta imensa e complexa culpa/responsabilidade. Não estão sozinhos, não! A eles juntam-se todos os seus camaradas adeptos de nacionalizações e estatizações, paladinos e defensores ávidos da extinção das classes sociais para que possam, eles próprios, assumir-se como a classe mais abastada e confortável das duas que passarão a existir, ignorando por completo o povo e as suas vontades e necessidades. Os reis e rainhas do utópico, idílico e onírico, portanto. Se apenas um suave toque de utopia, não vejo como possa ser prejudicial. Até pelo contrário. Estamos, porém, perante um agarrar total – e pelo pescoço – do sistema em que hoje se vive, tirando a um capacitado país (com provas dadas dessas capacidades) o ar de que necessita para se voltar a erguer - ar desprovido de moralismos e filosofias não funcionais, mas cheio de vida, fulgor, direitos, liberdades, e iniciativa privada. É por tudo isto que me assumo como marxista ao contrário.

  • Carceral Society: An ode to Foucault

    The way words turn into verbs and into actions Legitimizing factors The drivers and dividers of units split into factions Biproducts of a fraction Of centralized intelligence That built the pretense Of the viralized bought doctrine of the indigent Irreverently profitable To the Apostle of the dissonant Cognition The intellectual prophet’s repetition His pocket’s fingerprint In the crime scene he’ll imprint With every dollar made in slaughter Or the contaminated water of flint The warehouse collapse in Illinois The six dead that he employed And the kids in Bangladesh See the Veil of Ignorance is real but too is mesh See-through Like the policies of Congress deployment of troops Through words is derived licit “righteous” abuse Through words they build the ruse And the archive they connive Made to deprive our mind of use Can but confuse When the screws are fake the chains we can refuse The path is ever open Though stolen, can’t be defused And many chapels many castles Were once upon a time accused Can’t be defused Resistance a pestilence ever ensued Ever pursued For doubt is the sprout that’ll out protrude Mental jails into open air Widen minds into open room The Carceral Society’s dead If we all create its tomb.

  • Eiichiro Oda

    Eiichiro Oda , conhecido pela sua obra One Piece , nasceu a 1 de janeiro de 1975. Decidiu, com apenas 4 anos, que seria um mangaka (artista de banda desenhada japonesa). Tal decisão baseou-se, principalmente, na tentativa de evitar ter um “trabalho verdadeiro”. Com várias mangas adaptadas em anime pelo mundo fora, todos nós desde pequenos, já tivemos algum contacto com algumas delas: Oliver e Benji, Beyblade, Pokémon, Dragon Ball . Todas estas são adaptações animadas destas histórias escritas e desenhadas em quadradinhos, sendo natural que os autores de gerações futuras absorvam algum tipo de influência das histórias criadas pelos seus ídolos. Para Eiichiro Oda , a sua inspiração foi o mangaka do Dragon Ball , Akira Toriyama . E a sua inspiração para fazer uma história num mundo de piratas, deu-se com a série aninada de televisão Vickie, o Viking . O primeiro passo que o nosso autor deu na sua jornada para criar a manga mais vendida do mundo, One Piece (480 milhões de vendas), sucedeu quando o mesmo se encontrava no último ano do secundário. Com apenas 17 anos, publicou o seu primeiro trabalho intitulado de Wanted!, muitíssimo galardoado. Este feito permitiu-lhe arranjar o seu primeiro trabalho, como assistente, na Weekly Shōnen Jump , uma das revistas de manga mais conhecidas. Durante esta altura da sua vida, o autor publicou uma pequena história num mundo de piratas a que chamou de Romance Dawn , que mais tarde seria a primeira arc da sua obra-prima One Piece . Nesta pequena história, que o mesmo não saberia se lhe seria dada a possibilidade de a continuar ou não, apresentou-nos o protagonista da manga mais vendida do mundo, Monkey D. Luffy . Mais tarde, Oda recebeu a notícia do sucesso que tinha sido a sua pequena história, tendo sido a mesma publicada pela Weekly Shōnen Jump . A partir desse dia, esta “pequena” história tornou-se umas das mangas com maior longevidade e mais conhecidas no mundo, estando até hoje, apesar de ter começado em 1997 , a ser publicada e a quebrar recordes. No dia 3 de janeiro de 2021, a obra de Oda viu publicada o seu capítulo 1000 , mostrando o autor uma genialidade e criatividade soberba ao deixar a sua história cada vez mais intrigante com cada capítulo que passa. Os leitores ficaram de tal forma “agarrados” a esta história, aos seus personagens, e a este mundo, que durante quase um quarto de um século continuam a acompanhar a história desta manga a cada semana que sai um novo capítulo (atualmente no 1043), continuando a mesma a angariar cada vez mais fãs. Esta manga recebeu a sua adaptação para anime no dia 20 de outubro de 1999 e vai hoje no seu episódio 1013. Já foram feitos 14 filmes sobre o One Piece , bem como 30 jogos de vídeo, sendo o net worth do autor avaliado em 200 milhões de euros. A história começa com Gol D. Roger, conhecido como o Rei dos Piratas, o mais forte e famoso pirata que alguma vez navegou a Grand Line . Gol D. Roger foi capturado e executado publicamente pelo governo mundial, nas últimas palavras que lhe foram dadas, o mesmo revelou a existência do maior tesouro que alguma vez existiu - One Piece . As suas últimas palavras deram origem àquilo que iria ser a grande era dos piratas, todos em busca deste tesouro, e consigo, o título de Rei dos Piratas. 22 anos mais tarde, somos apresentados ao protagonista da história, Monkey D. Luffy , um rapaz de 17 anos. Em vez de ser um pirata normal, isto é, perverso, horroroso e desdentado, que saqueia vilas e mata pessoas por diversão, a razão de Luffy se ter tornado um pirata deve-se à sua natureza curiosa e à vontade de viver uma aventura emocionante que o leve a conhecer um mundo maravilhoso cheio de pessoas intrigantes, e consequentemente, com a sua tripulação, encontrar o prometido tesouro. Seguindo os passos do seu herói de infância, e inspirado, como muitos outros, pelas últimas palavras de Gol D. Roger , Luffy e a sua tripulação viajam pela Grand Line , vivenciando todo o tipo de aventuras que trazem consigo mistérios sombrios, bem como são deparados na sua jornada com inimigos fortes pelos quais têm de passar para alcançar a mais cobiçadas de todas as fortunas – One Piece .

  • ANIMUS, do latim: alma, espírito, coração

    No passado dia 23 de abril, a JurisTuna, a tuna mista da Faculdade de Direito da Universidade NOVA de Lisboa, deu vida ao seu primeiro festival, o Animus. Animus, uma palavra que no Direito nos aconchega com o seu “espírito, alma, coração e disposição” é um pequeno espelho da essência da JurisTuna. Foi com grande esforço, investimento e sacrifício que, após 10 anos desde a sua formação, foi finalmente colocado em palco o tema “Terra-mãe” - um tema, por si só, acompanhado da melancolia nostálgica da saudade. Na verdade, era um sonho há muito ambicionado pela JurisTuna a realização deste festival, que acabou por surgir com o tema do regresso a casa, depois da partida para outra cidade; uma realidade vivida por tantos jovens que sabem bem qual é a sensação de voltar à terra-mãe, à família, aos amigos, e à paz que só o lar pode dar. Neste enquadramento, estiveram presentes a VETuna (tuna mista da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa), a Tuna Médica de Lisboa (tuna mista da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e da Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa), a TUIMS (tuna universitária da Nova Information Management School da Universidade Nova de Lisboa) e a Magna Tuna ApocalISCSPiana (tuna mista do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa). Cada uma à sua maneira, estas tunas trouxeram animação e muita música ao dia, com repertórios singulares fieis à essência de cada uma delas. Chegadas por volta das nove, as tunas foram apresentadas aos seus guias, com os quais passaram o dia. Depois de uma visita ao campus da faculdade, todas as tunas se dirigiram ao lar das Irmãzinhas dos Pobres, onde cantaram em conjunto várias músicas para quem as ouvia das janelas e varandas. Depois almoçaram, nunca deixando de ter uma guitarra ou uma pandeireta a incitar alguém a cantar, o que se transformava rapidamente numa coletividade de vozes que enchiam os corredores da faculdade. À tarde houve uma gincana - uma série de jogos organizada pela JurisTuna - no relvado do campus, ao mesmo tempo que os testes de som ocorriam na reitoria. Depois de algum tempo livre, as tunas foram todas para o buliçoso jantar no pátio da Nova IMS, seguindo-se, por volta das oito, o início do I ANIMUS, no auditório da reitoria. A noite terminou com um convívio no pátio da Faculdade da IMS onde se partilharam experiências, canções, danças e o amor pela tuna; e onde, acima de tudo, no seio da comunidade académica lisboeta, se forjaram novas amizades. Não foram poucas as pessoas que se disponibilizaram e contribuíram avidamente para o bom funcionamento do Festival. Durante todo o dia, múltiplos tunantes acompanharam e prepararam atividades para as tunas convidadas. Contou-se também com um painel de júris constituído pelo Professor Miguel Moura, o artista Caio, o ex-magister da JurisTuna, Paulo Oliveira e João Ribas, tunante da Tuna Académica de Lisboa e membro do grupo Sétima Corda, que premiou os convidados nas diversas categorias. A TUIMS brilhou nos estandartes, tendo sido galardoada com o Prémio Melhor Estandarte. Com uma atuação excelente a todos os níveis, a VETuna brilhou nas pandeiretas onde conquistou o respetivo prémio e o Prémio Tuna Mais Tuna. A Magna Tuna ApocalISCSPiana também se distinguiu com um solo brilhante que os encaminhou para o Prémio Melhor Solista. Finalmente, a Tuna Médica, com a sua atuação notável, arrecadou os prémios de Melhor Tuna, Melhor Instrumental e Melhor Original. Claro que não podemos deixar de fazer um apontamento sobre o público, não estivesse praticamente cheio o auditório da reitoria! Depois de conversarmos com alguns transeuntes, já no fim do espetáculo, o feedback foi positivo, o I ANIMUS caracterizado como “um sucesso” e “para repetir!” Permitindo-nos um pouco de parcialidade, enquanto membros da JurisTuna, não podemos deixar de expressar o quão gratas nos sentimos por podermos ter feito parte do I ANIMUS no nosso primeiro ano. Com todas as palavras que existem na nossa bonita língua, faltam-nos as que consigam descrever o orgulho que sentimos no trabalho, tempo e esforço que cada tunante pôs na preparação deste festival, como faltam para descrever a sensação de pertença àquilo que é uma família da nossa faculdade. A JurisTuna, estando para muitos de nós longe da respetiva terra-mãe, deu-nos uma segunda casa. Terminamos com a certeza de que o I ANIMUS ficará para sempre nos nossos corações, e nos de todos os que vêm assistindo ao crescimento da JurisTuna, que, não temos dúvidas, está no início de um caminho que trilha brilhantemente e com a resiliência que só o amor pela música consegue criar. Nascido de um sonho intergeracional, o I ANIMUS surgiu como o maior evento cultural organizado na NOVA School of Law desde há muitos anos. Estiveram presentes Tunas de grande calibre, originárias da nossa tão querida cidade de Lisboa: Magna Tuna ApocalISCSPiana, VETuna, Tuna Médica de Lisboa e TUIMS. Pessoalmente, ter visto o trabalho de todos os tunantes, o tempo que dedicaram nos últimos meses a este projeto, deixa-me de coração cheio. Viver o dia a dia ao lado de pessoas tão talentosas, divertidas, dedicadas e apaixonadas pela JurisTuna é tudo o que um Magister pode pedir, e, por termos isso, eu não me podia sentir mais sortuda. Inês Alves, Magister da JurisTuna O I Animus fez jus ao nome que solenemente lhe foi atribuído, pelo seu caráter, dinâmica e espírito de grupo (ou casa, como gostamos de lhe chamar). Apanágios esses que apenas foram experienciados por quem se deslocou ao Campus de Campolide graças aos tunantes, sempre ávidos para ajudar onde quer que fosse necessário. Só desta forma foi possível dar corpo e alma a um sonho longínquo, que superou todas as expectativas. Valeu a pena? Tudo vale a pena, quando é feito por amor. Pedro Ribeiro, Vice-Magister da JurisTuna

  • O Estado da Nação

    Portugal com quase nove séculos de história é símbolo do heroísmo, tenacidade e bravura do povo português que conquistou a sua independência na região mais ocidental da Península Ibérica. Conhecer quem fomos é saber quem somos, e torna ainda mais seguro o amor à nossa pátria “à beira-mar plantada”. Nas duas últimas décadas tenho assistido com muita inquietação ao rumo que o país leva. Portugal não cria riqueza, não tem empresas e um tecido empresarial robusto e com capacidade de investimento, vivendo-se numa estagnação que parece eterna com um povo resignado e que muitas vezes parece derrotado. Como cidadão português, patriota e orgulhoso do meu país, considero que Portugal tem um grande potencial para ser melhor, oferecendo sólidas perspetivas de crescimento económico o que se tem de consubstanciar numa significativa melhoria das condições de vida dos portugueses. Assim, para de forma mais clara ilustrar o retrato de uma nação heróica no passado e que tem tudo para ser heroica no futuro, apresentarei sucintamente alguns dados que não são animadores. Nesta conformidade, analisando os indicadores, concluímos que Portugal tem a terceira maior dívida pública da União Europeia, tendo registado um valor de 130,5% do PIB no terceiro trimestre de 2021, no PIB per capita Portugal foi ultrapassado por quatro economias de leste em 20 anos, tem uma fraca competitividade, produtividade e taxa de poupança. Na educação, Portugal é o terceiro país da União Europeia mais iletrado nas novas tecnologias, é o oitavo país da União Europeia com menos jovens a frequentar o ensino superior e, se considerarmos toda a população portuguesa, é o país menos educado da Europa . A tendência demográfica é preocupante, uma vez que Portugal é o segundo país da União Europeia com mais idosos face ao número de jovens (há mais 60% de idosos do que jovens), o que ameaça a sustentabilidade social e económica do país no futuro. De tudo isto, retiramos que Portugal é um país estagnado e adiado há 20 anos e, citando “ Os Maias ” de Eça de Queirós “ Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar… ”. Concluindo, Portugal face a esta difícil situação em que se encontra precisa de uma alternativa galvanizadora e mobilizadora que devolva a esperança ao povo português e faça uma mudança de políticas que se traduza numa melhoria substancial em termos económicos, sociais, culturais e políticos do desempenho do país. Neste sentido, fazendo das palavras de Adolfo Mesquita Nunes as minhas “ Os dados que temos do Eurostat e da OCDE são preocupantes, temos um problema de competitividade e crescimento e continuamos a ser ultrapassados por economias de leste. É preciso fazer reformas! ”. Termino com dois versos do poema Infante de Fernando Pessoa “ Cumpriu-se o mar e o Império se desfez / Senhor, falta cumprir-se Portugal! ”.

  • O esquecimento de uma Democracia

    Cravos ao peito, Espingardas na mão Lá iam os soldados, Preparando a revolução. São palavras semelhantes às presentes nestes versos que escrevo que nos surgem na memória quando festejamos uma vez mais o 25 de abril. Data marcante, além de histórica, pois claro, mas parece que o seu significado esmorece no coração do povo português. Todos os anos, comuns ou bissextos, dia útil ou fim de semana, festejamos esta data com grande fervor nas ruas. Aclamamos o fim de uma ditadura, o fim de um regime que causou sofrimento a milhares (até milhões), isolou Portugal do mundo e do desenvolvimento, desconectou-o do seu verdadeiro ser. Celebramos tudo isto (e muito mais) no dia de hoje. Ainda assim, por muito que seja uma data ilustre, não podemos deixar passar de soslaio a hipocrisia que ela faz sobressair em quase metade da população portuguesa (42%, para ser mais exata). Imensos são capazes de lançar fogo de artificio aos céus para aplaudir uma revolução que aconteceu há 48 anos, mas parecem incapacitados de sair das suas confortáveis e acolhedoras casas uma vez de quatro em quatro anos para desempenhar um dever cívico. A situação em que o povo lusitano se encontrava há pouco menos de meio século atrás não é inconceptível na atualidade. Não basta cantar "Grândola Vila Morena" ou recordar Salazar e Marcelo Caetano como os líderes do sofrimento passado. Não basta agradecer o fim da PIDE, da Censura, ou a queda do Tarrafal. Não basta rezar a pés juntos para que aqueles tempos escurecidos não obstruam uma vez mais o futuro da nossa comunidade. Não basta agradecer o regresso da democracia desfilando com cravos nas mãos pela Baixa de Lisboa. É preciso fazê-la perpetuar-se no tempo, manter os seus alicerces bem firmes para impedir que aquele ciclo da história se repita uma vez mais. Este simples texto não passa de um apelo à consciência dos leitores, uma pequena chama de esperança de que, num próximo momento eleitoral, tanto a música do José Afonso como a flor escarlate surjam no espírito de cada um dos portugueses, que causem uma verdadeira revolução interior, despertem um desejo pessoal de defender a nossa herança mais querida, o supremo poder que possuímos enquanto povo de Portugal - a nossa Democracia.

  • Lenda de Abril

    Veio a lenda de Abril Do movimento estudantil Ser atrapalhado, encurralado Pelo ralo do funil Do conformismo Individualismo ou Xuxalismo Do sistema, o mecanismo Voz que faz da água do pensamento O autoclismo Que desvanece O sentido, invertido, desaparece O partido, pela luta de Abril, Não se reconhece Pelo povo, que pelo laboro Da frente se aquece Na luz que tomba a cruz E dedica à verdade sua prece Liberdade, Igualdade Não existe Só a farsa positivista que junta direitos à lista Só consiste De palavras ocas, realidade positiva não persiste Liberdade negativa, idade triste Faculdade sem faculdades Direito sem direitos Reivindicações, sonhos, gritos De Abril, morrem desfeitos Preconceitos pelos meios De comunicação são propagados Enterrados, os sensos críticos Dos povos, pobres povoados Magoados, adormecidos Envergonhados, mas não vencidos Serão unidos Estudantes, empregados, renascidos Pomares com olhares entenebrecidos Onde está a maçã da insurgência? Onde morre o coitadinho Nasce nu de inocência Que nos falte a paciência! Ó educados, doutores, Senhores, homens letrados Para que servem vossos livros se racionalizam os pecados Fazer lógico o apológico desumanismo pelos mercados Terão vós orgulho desses legados? Coitados, coitadinhos Sejamos Homens, não meninos Em sarilhos Perdidos, extraviados sem os trilhos Da mão invísivel Ou o punho de ferro Recomecemos estaca zero Reviremos este inferno Do avesso Livres, desacorrentados no recomeço O punho em vez do terço Que o Terreiro do Paço não tenha sido só um acaso Um fracasso Que sejamos mais que cem mil Que em diante, nos acalente, o quente sol d’Abril.

  • Verdade(s)

    Estou cansado que nos vendam miséria esmaltada em ouro. Estou cansado dessa verdade enfarpelada e enaltecida pelas elites e pela escola. Dessa verdade aprumada e deliberadamente excisada das suas características mais vis e verdadeiras pelos que estão no topo – estou cansado que nos falem da vida retratada do cimo de uma cadeira de um qualquer executivo quando nós todos vivemos dobrados sobre nossos próprios rins numa labuta infinda que nunca nos trará mais nada senão cansaço e vazio. Eu quero a má verdade; quero a verdade feia – aquela destrutiva, remordente e insuportável. Aquela mutilada pela fome e pela pobreza, pela indigência, pelo sacrifício, pela injustiça. Eu quero a verdade do povo. Esse que se farta de criar riqueza mas que acaba inexplicavelmente todos os meses com um par de bolsos vazios e um estômago à míngua. Esse que não se cansa de ouvir falar no elevador social mas que há muito que teve tirada das suas mãos calejadas a única escada que alguma vez teve. Esse que há muito que deixou adormecer no seu peito abril e vê setenta e quatro como um mero oásis na aridez seca da mediocridade política portuguesa. Estou cansado de ouvir os mesmos quatro comentadores na televisão a falarem de problemas e de assuntos com os quais nunca terão de lidar após a emissão terminar. Já alguém pensou em entrevistar a prostituta em horário nobre e lhe perguntar o que acha da sua condição? Já alguém ponderou em interpelar o pobre e mostrar a Portugal inteiro o que é que o aumento do salário mínimo significaria para a sua vida? Conseguirá alguém apurar o grotesco em não haver um único afrodescendente nos órgãos de comunicação social a expressar a sua opinião depois de um incidente de brutalidade policial contra corpos negros à porta do seu local de residência? E os homossexuais? O que terão eles a dizer sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo? Porque é que sobre todos estes assuntos nunca ouvimos a opinião daqueles que de facto sofrem na pele as consequências do debate político e da opinião que saiu vitoriosa da altercação? Já alguém teve a inaudita e genial ideia de interrogar a adolescente que teve um brutal e sangrento aborto clandestino num vão de escada e perguntar-lhe o que é que esta acha da descriminalização da interrupção voluntária da gravidez? Mãe, porque é que estão quatro homens a falar na televisão sobre as vinte e três mulheres que morreram vítimas de violência doméstica no ano passado e não há qualquer voz feminina a opinar? Bem sei o que tu dirias se pudesses, mas as nódoas negras e os hematomas que tens no corpo não são suficientes para poderes ter uma opinião, primeiro precisas de ter um curso superior e um pós-graduamento. Pai, porque é que na rádio quando é para falar sobre o aumento dos impostos às grandes fortunas e para combater a evasão fiscal falam sempre só com os empresários e os mais abastados e não há uma única voz a falar em defesa de todos aqueles que beneficiariam de um maior investimento nas infraestruturas e nos serviços públicos? Bem sei em como seria um alívio para nós lá em casa não termos de pagar passes de transportes públicos ou se não tivéssemos de pagar as propinas da mana. Mas não há almoços grátis… oxalá houvesse, só Deus sabe a fome que já tive que enganar com sobras de pão e uma pouca de água, ou os sonhos de ser artista que me forcei a renunciar por não termos dinheiro e só irem migalhas do orçamento de Estado para a cultura. E eu, preso a este corpo que repudio, que abomino, que execro com todas as minhas forças, que me arrasto pelos dias com uma depressão severa porque me veem como mulher quando eu me amo como homem, porque é que quando é para falar dos transgéneros e da operação da mudança de sexo não há vivalma que se lembre de centrar o debate à volta de quem de facto sente na pele a ostracização e a violência de não poder escolher ser quem é, e porque é que continuam a relegar cinicamente as pessoas transgénero para o papel de espectador desinteressado num assunto que muitas vezes lhes é uma questão de vida ou de morte? Estou cansado desta açambarcagem vil e abjeta da verdade. Estou cansado que coloquem um v maiúsculo quando falam dela e que continuem a fingir que há só uma no meio de todas estas pessoas indescritivelmente diferentes e inapreensivelmente únicas entre si. A verdade nunca foi unívoca – há tantas verdades quanto há corações palpitantes por esse mundo fora, e isso é incontornável: cada alma é uma forma singular de se relacionar com a realidade e de a condicionar; cada alma é uma constelação irreproduzível de experiências e de acasos; cada alma é um universo inteiro encapsulado numa forma única de ser. E no entanto saem sempre nos ecrãs e nos rádios as mesmas e pisoteadas verdades a que estamos tão habituados e nauseados de ouvir – a verdade do homem; a verdade do branco; a verdade do heterossexual; a verdade do rico. Tornemo-nos de uma vez por todas intransigentes nisto. Reclamemos finalmente um pouco de espaço no campo discursivo para as nossas verdades – as verdades da mulher; as verdades do negro; as verdades do homossexual e do transgénero; as verdades do pobre – uma democracia que abraça uma verdade unidimensional e inequívoca é uma democracia que está gravemente doente. Uma democracia saudável, uma democracia sadia, uma democracia como aquela que abril imaginou, é aquela que se encontra em permanente tensão; é aquela onde as verdades se multiplicam irrazoavelmente e se sobrepõem umas às outras! É aquela onde nenhuma das infinitas verdades se arroga o direito de superintendência e superioridade em detrimento das outras! Reivindiquem o vosso lugar, reivindiquem a vossa história, afirmem a vossa verdade! Peguem com as vossas mãos o legado de possibilidades que 74 nos fez herdar e entrever.

  • Nada disto é assim

    Escritas no pergaminho do tempo Estão as marcas de mil sonhos, De mil canções trazidas pelo vento De tantos gritos abafados Por paredes de cimento. Estão desenhadas na tela do desalento As pegadas inconformáveis com o destino severo, Que procura privá-las do ímpeto violento Que habita o seu coração sincero. Largos são os passos Levados pelos pés que caminham Guiados pela crença de que estarão sempre a dois passos Do desfecho que há tanto imaginam. E o solo chora baixinho Cada vez que pegadas errantes Enrugam o seu rosto cansado De tantos passos dados em falso Em busca do seu sentido. Procuro o teu rasto, ó liberdade Nos trilhos do meu caminho. Procuro por onde fugir deste lugar vazio, Que conheço justamente como as linhas Que cruzam as palmas destas mãos. Pra onde foste? E o que levaste contigo… Sinto a terra Por baixo dos meus pés. Imagino para lá do muro que nos cerca, A ponte que um dia nos há de unir Quando será que nos deixam ir? Palavras. Que palavras trarão de volta O meu corpo e alma vagabundos Sem porto onde atracar? Que corpos e que almas Trarão de volta As palavras que me foram roubadas E trocadas por mentiras Que não me deixam descansar… Parecer é tão mais fácil que ser E, parecendo que não, Há muito que ruímos imbuídos no engodo, Desta vida em modo simulação. Onde parece que decidimos, Que sonhamos e fazemos acontecer Que alcançámos naquele dia de abril Algo que jamais iremos perder. Onde parece que sabemos, Que acedemos à pura verdade do que existe Que o mundo não é assim tão triste Que queremos e podemos. Nada disto é assim Mas não me privo de nada E vou guardando mais um sonho um desejo, Neste mar sobejo Daquilo que quero e de quem sou. Traço linhas esquivas Sintonizadas com o tempo Serpenteando ao ritmo da pulsação Fluindo no momento. Venha a falsa liberdade, Venha o ocultar da verdade. Venha a alegre subordinação, ou Levem-nos a vontade Nada disso importa Pois quem conseguir decifrar Os carateres desenhados No livro do meu cauteloso palpitar Saberá sempre por que direção Este (livre) coração há de andar.

  • Quem é contra a guerra

    Quem é contra a guerra não a faz. Quem é contra a guerra não grita por armas. Quem é contra a guerra não provoca belicosamente. Quem é contra a guerra não arma civis, pois armar civis é, já por si, armar um morto. Quem é contra a guerra não define os “bons” e os “maus”: a guerra é já a maior perda. Quem é contra a guerra não apoia um lado, pois tal coisa é apoiar a morte. Mas bem, vós é que sabeis, não é? Vós que fazeis a paz semeando a guerra, vós que hipocritamente clamam pela vitória do vosso lado, quando tal é a consequência de uma caminhada sobre os corpos dos vossos irmãos. Vós, que dizeis que a paz só existe quando saída da vossa boca. Vós, que armais pais e filhos pela “liberdade” e “democracia” (com muitas aspas). Desta forma é difícil ser contra a guerra, porque, para vós, a única solução para alcançar a paz é fazendo, precisamente, a guerra.

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