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Carta aberta aos sonâmbulos perto das janelas

Hoje não é dia 1 de maio, é dia do trabalhador.

Há dias não foi dia 25 de abril mas dia 25 de abril.

Poder saber a diferença de significados dessas enunciações idênticas, poder provar os dias como mais do que subcategorias de um itinerário mudo, de resto,  os porquês em que estas faculdades assentam, não são mutações de parto e trato próprios. Têm pai e padroeiro. Não tornam a brotar por obra espontânea e imaculada nem se autopreservam até à indestrutibilidade, sem limite. Mas hoje estamos cansados, já cercamos o Carmo, mobilizamos a greve geral lá dos trabalhadores, ou por outra, dissemos que existiu quando aconteceu noutro país e até fizemos um feriado a propósito do assunto quase um século depois, aliás, o cansaço já estava para aqui acumulado - andamos cansados, ainda noutro dia tivemos que implantar a monarquia, e antes disso ainda foi preciso tratar da sanfona do regicídio e antes disso ainda houve aquela massada de deixar de ser condado, isto anda tudo muito apertado para que um tipo se ponha com grandes registos… E nesta lástima, o rei segue nu, seguro de que veste suntuosidade, de glúteos ao frio e ilusão ao léu. Esquecemo-nos de que a História tem humor sádico e que prega rasteiras cíclicas aos que insistem em tropeçar no mesmo esbarro, no mesmo entrave de adiar olhar, adiar falar, adiar conhecer, adiar saber para ADIAR VIVER E ANTECIPAR MORRER. Estendemos o regozijo das conquistas acreditando-as garantias. Incorremos no risco de perder a data, o bolo e as velas ao colocarmos o cone de festa e batermos as mãos só quando é óbvio que é para cantar. Votamos como quem sopra velas: um gesto repetido e mecânico, com a esperança infantil de que algo mude no escuro. Individualizamos teimosamente acontecimentos, circunscrevemo-los às suas especificidades, repudiamos a nossa relação às coisas. Odiamos estar relacionados às coisas. Praguejamos o azar, de mão ainda na massa. A morte não é pincelada mas mosaico, é o conjunto de tudo o que se deixa de fazer. O propósito e a vontade são frágeis face ao que consumimos, e são boca e cauda das nossas ações. A perda de agência na determinação do que nos importa materializa-se na inação, perfeito pêndulo de Newton respirante neste quadro, onde nada se desloca.

O Jur.nal surgiu em novembro de 1998 com Vera Eiró como espaço-além incomum para que os estudantes de Direito pudessem criar além do pensamento académico. Partindo de um pressuposto até que sair do círculo aguça a perspetiva. Este mandato introduziu as rubricas de cobertura de assuntos correntes pela elucidação de especialistas e a de descoberta cultural pelas vozes dos próximos nomes. O Jur.nal não precisa de existir até porque não existe, existe um site que se pode desmantelar, uma conta de edição paga que se pode cancelar, pastas que se podem arquivar, grupos de que se pode sair. O Jur.nal não cai até porque não anda. O Jur.nal não morre até porque não metaboliza nada. O Jur.nal é só instrumento de um porquê, a língua entre a mistela e o sabor. Hoje estamos cansados, já escrevemos muito para o Jur.nal, eles lá no site já  têm várias edições lá na secção do arquivo… O Jur.nal é só instrumento de um porquê. Se os estudantes cederem a vez das perguntas, quem lhes reconhece o conhecer das respostas?

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