Não deixem o GR morrer!
- Matilde Almeida
- 2 days ago
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Em celebração do Dia Mundial do Teatro (assinalado a 27 de março), o Grupo de Retórica deliciou a faculdade com um conjunto de dinâmicas teatrais: em bom estilo de GR, invadiram as aulas e deram espetáculo.
Para surpresa de muitos, e regozijo de outros, o trabalho desenvolvido não foi o alívio cómico que estamos habituados a que este grupo proporcione. Antes, a sua aposta foi de um tom mais sério (quem sabe até, num presságio sobre a sua própria entidade), abordando a temática de sonhos deitados a perder pela conjetura social que, como se verifica em muitos casos, leva à morte do artista. De certo modo, a abordagem foi refrescante, é bonito ver o GR a reinventar-se, provando que o seu teatro vai além da jocosa representação do bobo da corte e que, contrariando os mais céticos, é capaz de se alinhar no espírito artístico do teatro e tornar um aborrecido momento de aula numa chamada de atenção em tom de crítica social.
Quando questionada acerca da escolha deste molde e do tema abordado, Beatriz Geraldi, membro da coordenação do núcleo, confessou que a ideia de um flash teatro partiu da sua fantasia pessoal de poder dar vida às peças que constrói. Contudo, reforça a importância de atividades como esta que mostram que o “GR não é só comédia”, e que a sua versatilidade se molda ao gosto de cada um, que o integre e que o assista.
Neste sentido, somos relembrados do quão essencial é o envolvimento da comunidade em núcleos deste género, de como é a partir dela que vive e respira e, só assim, lhe consegue soprar as doces brisas de recompensa em retorno.
Desde o seu começo, pelas mãos da, atualmente jubilada, Professora Ana Prata, o GR afirmou-se como lugar de fuga: entre códigos, doutrinas, corpus e animus que arrastam os alunos, a cultura seria uma forma de os levar a viajar, num escape idílico em que a expressão artística se sobrepunha a qualquer tédio jurídico.
Inicialmente, ainda longe dos seus dias comédia e riso, o GR tinha um tom mais sisudo e erudito, dedicando-se ao aprimoramento da arte do bem falar, honrando o seu nome civil. Porém, não sendo um corpo estático, foi-se moldando ao génio das diferentes coordenações que por si passavam: ora mais culto ora mais espirituoso, o GR sempre abraçou a mudança na comunidade.
O fator comunidade é, para como muitos outros núcleos, o elemento que dá vida ao GR. Tendo sido para si criada, é natural que só consigo se edifique: é na comunidade académica que se encontram os atores, o público, os apoiantes…é neles que se encontra a arte; portanto, sem o seu suporte, o GR desvitaliza-se e a vida na faculdade perde o brilho que ele traz. A bonita relação simbiótica entre os Estudantes e o GR só se sustenta havendo reciprocidade de contribuição. A existência de um núcleo (atualmente) de teatro é uma mais-valia numa faculdade dedicada a uma área tão densa como é o Direito, em que facilmente nos perdemos na frieza das normas a que o Bento – pessoa média, mas, ainda assim, assassino, ladrão, menor incapaz, entidade coletiva pública e juiz – está sujeito constantemente: a leveza do teatro e da cultura trazem a “lufada de ar fresco” que todos merecemos e precisamos.
Contudo, o cenário ideal de contribuição mútua está cada vez mais longe da realidade. Como a própria coordenação afirma, por vezes é difícil encontrar quem partilhe o mesmo entusiasmo pelo projeto, antes preferindo colher os seus frutos que ajudar a plantar as sementes. A inércia da comunidade perante o núcleo é algo que a atual coordenação teme, pois vê um projeto que com tanto carinho cuidou arriscar cair na doce nostalgia dos “bons velhos tempos”. Neste sentido, exorta todos os Estudantes a saírem das suas bolhas e se desafiarem a abraçar os seus Tchaikovski ou Beatriz Costa interiores, e libertarem a sua alma no GR (agradecer-lhe-ão depois, confiem)
O GR não está fora da zona de risco: os esforços que atualmente tem feito vêm de um amor profundo que os seus membros e coordenação têm por si; contudo, não é de amor que a arte se sustenta, portanto é essencial que haja um maior envolvimento. Quando questionados acerca do que os mantém motivados, a coordenação relembra como o GR é o lugar onde vivem os seus sonhos de menino: de ser ator, de ser trágico e cómico simultaneamente…enfim, de serem livres.
O “lindo caos”, como os próprios coordenadores a si se dirigem, é o espaço seguro que todos nós buscamos, mas não sabemos onde encontrar. É o lugar onde podemos pousar a fatigada máscara da seriedade e vestimos a nossa verdadeira personagem. O GR é mais do que Martelo. O GR é dos poucos espaços que ainda se encontram, que oferecem a genuinidade e simplicidade do ser humano a ser ele próprio. É o sonho do Gil Vicente dos nossos dias, que pega na sua própria Barca e a leva para libertar os prisioneiros do fastidioso dia-a-dia burocrático, sugado pela esmagadora oferta de escapes e fugas momentâneas que se tentam substituir à genuína conexão que só a criação em comunidade traz.
Hoje, mais que nunca, espaços como o GR são essenciais: são resquícios da vida humana que se afirmam contra a fugacidade da vida fabricada pela constante estimulação digital. São pequenos oásis em que a criatividade flui e o ser humano reencontra-se no seu ser.
Portanto, não condenem o GR ao destino dos soldados que esta semana pela sua mão conheceram e apareçam! Apareçam no Slam Poetry, no Fanimus, no Moot Court do Improviso, no Cluedo, no Quiz Cultural e em todas as outras iniciativas do GR que, muito mais que teatro, são hoje um marco de resistência.
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