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  • Sem Direito - Filipe Brito Bastos (FBB)

    A Maria Castro Ribeiro e a Maria Leonor Baptista, coordenadoras de entrevistas do Jur.nal apresentam o segundo episódio do segmento de entrevistas Sem Direito. Desta vez, convidamos o professor Filipe Brito Bastos. E o Francisco Jesus veio tirar umas fotos. A conversa foi longa. MCR: “Filipe Brito Bastos, nascido em Vila Nova de Gaia, do signo sagitário, vive atualmente na Malveira perto dos estúdios do Big Brother. Na sua adolescência cresceu a ouvir Pink Floyd e Nirvana e diz que a música de intervenção portuguesa é o pior estilo musical. A sua série favorita é Criminal Minds. É presidente do sindicato dos funcionários judiciais, mas ainda sonha vir a ser psicólogo terapêutico em cadeias de alta segurança. No seu tempo livre é bailarino, tendo obtido uma série de prémios de bailado profissional. Todos os anos a família Brito Bastos desloca-se à Pennsylvania nos Estados Unidos para o dia do Groundhog Day. Professor, daqui o que é que podia ser verdade?” FBB: “Por ordem? Eu poderia noutra vida ter sido de facto de Vila Nova de Gaia, visto que metade da minha família é do Porto. Em segundo lugar, em relação à música, é um facto que eu passei os meus anos de adolescente a ouvir Pink Floyd e Nirvana e outras coisas. É um dos meus preferidos, aliás, apesar de hoje em dia não ouvir os Pink Floyd, devido ao Roger Waters.” MCR: “E quer dizer também que acha que a música de intervenção portuguesa não é boa?” FBB: “Não, essa é outra coisa. Eu acho-a feia, em geral. Acho-a pirosa, em geral. Mas dentro do género, imagino que hajam algumas que sejam mais decentes. Eu gosto, por exemplo, (não sei se conta como música de intervenção) mas o Acordai, acho bonito. Conta?” MCR: “Mas e um Sérgio Godinho, um José Mário Branco? Acha grosseiro?” FBB: “Acho folclórico… Mas voltando às outras questões, em relação à Malveira, é perfeitamente plausível, porque sou um orgulhoso filho da região saloia, que, como devem saber, se estende desde Alverca, passando por Loures (daí eu usar tantos casos práticos passados em Loures), Odivelas, Sintra, Malveira e acho que chega até Ericeira… mas enfim, essa zona… Sim, Malveira seria perfeitamente plausível. Bailarino? Não seria plausível, de todo. Eu não danço. No meu casamento, não houve primeira dança. Houve um concerto dado por mim e pela minha mulher. A minha mulher, embora gostando muito de dançar, sabe que, não me sinto de todo à vontade a dançar, enquanto que, tocar em público, pelo menos para a minha família sinto.” MCR: “E em relação a ser presidente do sindicato dos funcionários judiciais?” FBB: “Um completo disparate.” MLB: “Os sindicatos?!” FBB: “ Eu não tenho nada contra sindicatos… (entre risos) se era essa a insinuação… não tenho nada contra sindicatos. São um importantíssimo instrumento de contra-poder, exceto quando se tornam no poder.” MLB: “Bom mas vamos à parte cor-de-rosa da vida… o professor já está a politiquizar.” FBB: “Não, não, era mesmo só uma boca sobre a apropriação partidária de sindicatos.” MCR: “E em relação ao Groundhog Day?” FBB: “Aquela coisa das marmotas? Olhe, eu adoraria ver marmotas todos os anos, adoraria. Acho que uma peregrinação Brito Bastos até lá seria um projeto sim.” A Maria Leonor Baptista introduz o segmento que nos dá a explorar a parte mais cor-de rosa da vida. MLB: “Queremos saber como era na faculdade, mais estudioso/ mais baldas?” FBB: “O que é que acha? (entre risos) Digamos assim, há muitas experiências diferentes de quem faz o curso na FDUL. Algumas pessoas ficam a gostar muito da FDUL e de Direito, outras pessoas ficam a gostar muito de Direito… Eu talvez fosse mais do tipo estudioso, se faltava a aulas era de Direito do Trabalho, porque, enfim… não vou dizer o que penso de Direito do Trabalho ou alguns colegas meus crucificar-me-iam…” MLB: “E essa questão é mais ou menos política do que a dos sindicatos?” FBB: “De todo… se queremos ir por aí… Mas faltava essencialmente a Direito do Trabalho e a Direito da Família. Direito da Família, não por ser Direito Privado. Eu gostei muitíssimo de Direito das Obrigações, gostei muito de Direitos Reais, foi a primeira disciplina que dei, e parece que ainda circulam por aí sebentas, apontamentos e exercícios que fiz para os meus estudantes e que até partilhei com alguns estudantes do terceiro ano. Mas portanto, Reais gostei muito, Obrigações gostei muito, mas Família e Trabalho… digamos, que tudo, o que envolva estudar muita legislação, tendencionalmente, não sou grande fã.” MCR: “Mas não parece… o professor dá muita legislação a estudar agora…” FBB: “O quê?! Está a falar de Direito da Organização Administrativa? Apanhou-me.” MLB: “E em criança que profissão queria ter?” FBB: “Há uma que fica na memória mas eu era mesmo criança: Pastor de Dinossauros. Era mesmo criança, não conservei esse sonho até à adolescência (entre risos). Agora, o que me ocorreu fazer para além de Direito? Eu estive quase a estudar História e Literatura na Alemanha e imaginei-me talvez a estudar algo na área das Humanidades. E cresci bilingue na Escola Alemã de Lisboa e portanto tive a dado ponto interesse em estudar na Alemanha, até cheguei mesmo a ver residências.” MCR: “O que é que o fez não ir?” FBB: “A brutalidade crua do mercado de trabalho. Mas para além disso, o facto de, para mim ter ficado claro que mesmo em Direito o interesse por línguas estrangeiras e interpretação e pela história é algo muito importante.”´ MCR: “E olhando para a sua experiência na FDUL?” FBB: “Pois… apanhou-me! Não, não foi um estudante especialmente feliz na FDUL. Por tudo um pouco. Mas mais a relação entre os estudantes.” MLB: “Daí a sua referência Os estudantes de Direito não têm amigos?” FBB: “Sim. É uma referência à brutalidade que se vê em faculdades nas relações entre colegas. Não sei se alguma vez referi a situação dos emails de turma da FDUL. Nós não tínhamos Moodle, no meu tempo, tenho essa idade pré-histórica. O que tínhamos era um email de sub-turma. A sub-turma inteira, que eramos 30/40 tinham acesso à passe, portanto o professor enviava coisas e esperava que toda a gente entrasse no email, descarregasse os casos práticos e depois resolvesse. Por sistema, esses emails eram apagados. Mais do que competitividade, muito mais do que isso… era algo que acontecia muitas vezes ao longo do curso e foi algo que aconteceu a turmas minhas quando fui assistente na FDUL. Para mim, é uma grande fonte de sossego ver como, em geral, os estudantes da Nova SOL se tendem a dar bem. Pelo menos não temos este tipo de coisas. Não estou a dizer que as coisas são sempre fáceis… há diferenças e tal mas tanto quanto sei a regra é de entreajuda e não de sabotagem recíproca.” MLB: “E hoje se não fosse estudar Direito (pelo menos na FDUL não ia (entre risos)) que curso ia tirar?” FBB: “Se não fosse Direito? Neste momento, se me despedisse e fosse tirar uma outra licenciatura? Eu acho que sempre tive aquela veia de Humanidades, que acabei por não explorar tanto, que eu adolescente quis, portanto, acho que, talvez Clássicas. Isso ou Língua e Literatura Italiana. Algo do género. Eu, em geral, sempre gostei muito de línguas. Aliás, não sou o único aqui, entre os professores. Não sei se têm uma noção de como é que os professores comunicam entre si? Estou a falar de professores italianos e de professores que não são italianos, como é o meu caso e do professor Lúcio. Geralmente, eu e o professor Fabrizio, como nos conhecemos há bastante tempo, falávamos em inglês antigamente, mas cada vez mais o professor Fabrizio e os outros professores italianos têm insistido para que falemos em português, o que acho que é um sinal muito positivo da sua integração e acho que temos todos de estar gratos por esse esforço e por os termos connosco.” MCR: “Estamos em culturas… por isso, qual é o seu destino de sonho, de férias?” FBB: “Índia. Já viajei para a Ásia. Fui a um sítio na Ásia e foi a minha viagem, de longe, preferida. E não sei se me vai meter em apuros mas foi ao Irão. No contexto atual do conflito é complicado. Mas gostei da comida, as pessoas são super generosas, super acolhedoras, a arquitetura e a cultura são inacreditáveis. Eu tive a sorte de viver em Florença, que é uma cidade muito bonita. Lisboa é uma cidade muito bonita, Paris é uma cidade muito bonita, Amesterdão é uma cidade muito bonita… destas cidades só não vivi em Paris… mas o Irão não fica atrás, de todo. O que me faz querer ir à India é o facto de haver uma ligação familiar, o meu avô era de Goa, mas para além disso, eu acho que a diversidade, a arquitetura de tantas épocas diferentes, as influências locais, persas, hindus, do Islão, a influência cristã… acho isso mesmo muito bonito. Mesmo a natureza é muito bonita, é um pais enorme e que eu gostava de visitar.” MCR: “E dos sítios onde viveu, qual foi o seu favorito?” FBB: “Florença. Bem, não contando com Lisboa, Florença. Porque, Florença foi uma cidade perfeita para a fase de vida em que eu estava, cheguei com 23 anos, eu comecei o Doutoramento muito novo, e passei quatro anos e meio depois disso em Florença. Ora, vocês têm menos 4 anos do que isso, certo? Portanto, acho que podem imaginar o que é que fariam numa cidade como Florença, com essa idade, tendo quatro anos e meio pela frente, uma bolsa relativamente generosa. Bom, tive muitas saídas, muita exploração de Florença pela madrugada.” MCR: “Tem alguma história louca?” FBB: “De Florença? Bom, ter teria mas têm quase todas bola vermelha. Talvez haja uma e talvez vos surpreenda. Como eu vos disse, não fui um estudante ultra feliz na FDUL, fiz alguns amigos mas não passava muito tempo na faculdade, por exemplo nas Festas da Cerveja (o professor fez um parênteses na conversa para dizer que conhece a pessoa que criou o conceito das Festas da Cerveja e aparentemente essa pessoa arrepende-se profundamente de ter o ter criado), também não ia ao final de tarde do bar da faculdade, que tem happy hour… mas eu acho que nesse período, a minha vida de estudante não foi tão intensiva como a de muitos colegas. Muitas das atividades não me atraíam especialmente, mas para além disso, eu morava fora de Lisboa e demorava ainda um bocado a ir e voltar e portanto também acabava por não ir tanto. Acabei por ter uma vida social mais focada num grupo pequeno de pessoas. Em Florença, foi muito diferente. Em Florença… imaginem 400 doutorandos numa aldeia nos arredores de Florença, no meio das colinas, durante quatro anos e meio. Muito vinho, muita comida muito boa, muita cultura, muitas saídas à noite, muito estudo também obviamente. Mas tínhamos também um bar a sério na Universidade, é possível que eu e o professor Fabrizio, de vez em quando passássemos lá algum tempo… é possível que nos lembremos de tudo… ou não… Mas, quanto à história curiosa (e vou-me arrepender de a partilhar), um dos meus melhores amigos era inglês e num dia em que eu estava com especiais dúvidas em relação ao futuro, o meu amigo disse que me ia fazer uma pergunta à qual eu tinha mesmo de dizer que sim, e que era para me deixar mais em paz. A pergunta era “Aceitas fazer uma peregrinação por todos os bares irlandeses de Florença comigo desde as 7 da tarde até amanhã às 7 da manhã?”. Acabei a dizer que sim. Eu, de facto, nessa noite, e eu lembro-me da maior parte, bebi uma half pint de Guiness por cada um dos bares irlandeses. E cheguei a casa às 7, quase em ponto.” MLB: “Nessa altura, portanto, as “peregrinações” eram um hobbie… e agora, quais são os seus hobbies?” FBB: “Atualmente, gosto bastante de ler poesia. Eu já leio muito para a preparação das aulas e isto vai ser um bocado desconfortável de admitir (ou podem achar que me considero um grande intelectual, e não sou) mas muitas vezes não tenho tempo para ler romances. Ou se há períodos de grande trabalho, eu não consigo fazer o seguimento do enredo, e acabo por desistir do romance. Tenho um poeta preferido, acho que já o mencionei aqui no Jur.nal no Mergulho Profilático.” A Maria Castro Ribeiro introduz o segmento onde pede ao professor Filipe Brito Bastos que associe bebidas alcoólicas a princípios constitucionais. cerveja FBB: “Estado de Direito, porque dá com tudo. Conhece muitos pratos à refeição que não caiam bem com cerveja? Em rigor, eu nem sou um fã enorme de cerveja portuguesa. E não estou sozinho nisto. Há aquela discussão filosófica: Sagres ou Super Bock. São as duas… MCR: “Terríveis?” FBB: “Palavra sua, eu teria usado outra, muito pior.” martini FBB: “Iniciativa económica privada, porque tem classe.” MLB: “Foi o take cancelável.” vinho rosé FBB: “Pois… assim à tabela, eu diria o princípio da legalidade administrativa, porque é algo que se pode consumir numa tarde quente de verão na praia. Vocês não lêm Direito Administrativo no verão? Na verdade, como nós precisamos de ler tanto para as aulas, eu não consigo ler só Direito em casa. Muitas vezes leio em cafés, jardins e sim, já li na praia.” vinho tinto FBB: “Vinho tinto? Ação popular porque é uma grande produção portuguesa.” vinho branco FBB: “Vinho branco… eu dira o artigo que define o território nacional, porque lá se incluem os mares portugueses, onde há muito peixe e o vinho branco vai bem com peixe.” vodka FBB: “Vodka? Esta é difícil, muito difícil. O princípio da igualdade, porque o vodka afeta todos quase por igual.” A Maria Leonor Baptista introduz o segmento seguinte onde pede ao professor Filipe Brito Bastos que explique certas declarações que proferiu na rede social Twitter, agora X… MLB: “Primeiramente, o professor mencionou que Lisboa é a sua cidade preferida… mas acha que isso é compatível com o fedor que se sente em Lisboa…?” MLB: “Professor, é sobre o professor Miguel Moura que estava a falar neste tweet?” FBB: “Não, de modo algum. O professor Miguel Moura é um homem com muita classe. Estava a dirigir-me às pessoas que vejo no meu ginásio às sextas-feiras e é uma demografia de idades e de vocabulário bastante específica. Há várias culturas dentro do ginásio. Eu tenho uma personal trainer. Não tenho remédio. Eu, com a licenciatura, mestrado e doutoramento, infelizmente, com má postura, fui desenvolvendo problemas de costas e não sou o único com esta condição. Isso afeta todos os docentes. São ossos do ofício. Uma das coisas que ajuda muito é exercício físico e apercebi-me que, para não ficar pior, o exercício e a personal trainer me fazem muito melhor.” MLB: “Depois, temos aqui um tweet em que gostávamos mesmo que nos explicasse do que é que está a falar… porque pelo enunciado não conseguimos mesmo perceber.” FBB: “Isto são pastéis de nata. E tanta descrição… porque há uma forma correta de fazer as coisas.” MLB: “Mas como é que isto afeta o princípio da liberdade?” FBB: “Algumas verdades não são relativas. Há uma verdade absoluta sobre o consumo dos pastéis de nata. Próxima pergunta! Mas… isto não me incomoda, eu aceito os gostos das pessoas mas também é importante a ordem pública. E o pastel de nata está acima da liberdade individual. Mas há ocasiões em que eu me esqueço de que os meus alunos veem as coisas que eu coloco online. Estou muito próximo de deixar de ter X, porque parece uma máquina de pôr coisas frustradas, infelizes e com raiva.” MLB: “Concorda com a ideia de que existe uma cultura de cancelamento perpetuada nas redes sociais?” FBB: “Sabe, eu acho que a cultura de cancelamento existe há muito tempo, pelo lado ideológico. Eu ainda sou do tempo em que existiam cancelamentos… enfim, pressões para que não se realizassem eventos de cariz mais progressista. E agora, quando falamos em cultura de cancelamento, estamos mais a falar de estudantes, em universidades que quando observam uma opinião de que não gostam, atacam. Para começar, acho que, em geral, o que é descrito como cultura de cancelamento, não é mais do que exercício de liberdade de expressão do outro lado, de quem não concorda, que é igualmente importante. E, por outro lado, parece-me que em Direito, pelo menos, tendemos a conseguir manter uma cultura em que aceitamos que outros possam ter opiniões diferentes. Apesar de, hoje em dia, ser mais difícil ter certo tipo de discussões nas aulas, do que há 10 anos. Eu acho que a polarização em geral, de que o X se tem tornado um instrumento, tem contribuído para isso, para vermos as coisas só a preto e branco.” MLB: “Mas o X também tem coisas boas… serve para dar conselhos aos seus alunos.” MLB: “Professor, aqui também não há liberdade de escolher a resposta a dar numa entrevista de emprego?” FBB: “As pessoas têm toda a liberdade de sabotarem as suas próprias entrevistas de emprego. Eu, uma vez, fiz parte de um júri, como dirigente associativo em Florença, em representação dos estudantes no processo de recrutamento do novo Diretor. Como podem ver, uma Universidade com um determinado espírito democrático, e muito interesse nalgumas coisas. E juro-vos que, todos os candidatos deram todos esta resposta do “Sou muito impaciente para ver resultados.”. No fundo, é um não defeito. Significa apenas que sou uma pessoa ansiosa e produtiva. Mas enfim, às vezes, as pessoas erradamente em entrevistas caem neste erro ao falar no seu pior defeito. Não sejam ingénuos.” MCR: “E qual é o seu maior defeito?” FBB: “Sou muito impaciente para ver resultados. Não, agora a sério. O meu pior defeito… é para aparvalhar ou ajudar os estudantes?” MLB: “Não, para ajudar os estudantes é o seu Twitter, professor.” FBB: “Eu sei. Se a pergunta é séria… Síndrome de Impostor. Como académico, como investigador…” MLB: “Como amigo também sente?” FBB: “Como amigo?” MLB: “Sim, nas relações pessoais. A minha pergunta vem de um sítio de, num grupo de amigos onde estão todos a discutir cultura, política… às vezes não sente que ter amigos tão “fixes” o faz pensar?” FBB: “Estou a perceber… se o que quer dizer é o olhar à minha volta e ver que estou rodeado de pessoas com imenso talento e de uma inteligência enorme, altamente produtivas e que conseguem ter uma vida cultural, social muitíssimo mais enriquecedora do que a minha e me pergunto como é que conseguem? Então sim, absolutamente. Eu acho que muitos de vocês têm também. E acho que em particular há uma grande diferença entre a Nova e a Clássica. Na Clássica, sendo algo inconsciente, convive-se bem demais com a Síndrome de Impostor e com o normalizar da Síndrome de Impostor como uma característica intrínseca do bom estudante ou do bom professor. Só és bom estudante se te achares incompetente como ponto de partido. E aqui, acho que não temos tanto isso.. E faço um esforço para tirar os estudantes da zona de conforto precisamente por isso, para irem mais além.” MCR: “E sente que este é um sentimento partilhado na academia?” FBB: “Pelos professores? O pior professor é aquele que não tem Síndrome de Impostor.” MLB: “Mas aí está a perpetuar.” FBB: “Estão a rir? Os piores professores são aqueles que são vaidosos demais para reconhecerem as suas imperfeições como investigadores. Também há um extremo oposto que é, muitas vezes, ensinamos coisas que pensamos ser um desastre, muitas vezes eu saio de aulas a pensar que fui péssimo e que expliquei tudo muito mal. Do mesmo modo, o meu artigo mais bem citado, foi um que estive quase para não publicar, por achar que era uma perda de tempo.” MLB: “Professor, tem dado muitos conselhos aos seus alunos nesta entrevista, mas a questão é de quem é que gosta mais, dos seus alunos ou do senhor que passa música no metro?” FBB: “Eu já sei o que vem aí…” FBB: “Gosto mais dos alunos… E apercebo-me de que tenho formas diferentes de interagir com alunos que sei terem maneiras de agir e sentidos de humor diferentes. Acho piada, por exemplo, ao facto de poder fazer indiretas sobre petições nas aulas e ver pessoas a rirem-se, ou então, referir que sei quem vai ficar a rir por último (em referência ao sticker).” MLB: “O professor usa os seus próprios stickers?” FBB: “Às vezes. Um em particular. Aquele do “Até me emocionei”. Isto circulou até fora da faculdade. E eu acho bastante piada. Embora, este em particular seja um bocadinho cruel, porque, foi uma aula de dúvidas dada a um fim de semana e eu estava com uma conjuntivite ou algo do género. Portanto, estarem a fazer troça de alguém que estando incapacitado deu uma aula de dúvidas ao fim de semana… acham bem?” MLB: “É o princípio da liberdade a funcionar…” FBB: “Há um sticker em que a autora se esqueceu de censurar o seu nome. Acho engraçado os stickers, sim senhora. Acho piada. É uma forma de os alunos se meterem com os professores. E dos professores se meterem com os alunos- evil FBB. (sim, o professor disse isto)” MCR: “Acho que o professor é um professor atento às dinâmicas entre os alunos.” FBB: “Na medida do apropriado e do que me interessar, claro. Mas eu gosto de saber se os meus estudantes se sentem bem, por alto, não me interessam os detalhes. E se conseguimos fazer um bocado de humor e de auto-ironia todos nós, se não nos levamos demasiado a sério, acho que é uma forma simpática de convivermos.” A Maria Leonor Baptista introduz o último segmento da entrevista onde pede ao professor Filipe Brito Bastos quick-fire answers. Não foi muito fácil… Qual é a figura pública que mais o irrita? FBB: “O Eurico Brilhante Dias. É uma pessoa de quem posso dizer que nunca ouvi dizer uma coisa que não fosse ou cretina ou mentirosa, ou ambas. Há um pior ainda. O Gabriel Mithá Guerreiro. Para começar tem uma vozinha… Depois, porque faz parte de um segmento de pessoas que se querem entender como intelectuais de direita radical. O livro dele é, de longe, o livro mais reacionário que eu tenho na minha biblioteca, porque o comprei sem saber o conteúdo. Vi apenas que era um livro de história, e li e era um festival de disparates e de manipulações de factos históricos. E ele faz tudo isso dando-se a si mesmo uma autoridade ridícula por ser académico. Eu acho que há um lugar no inferno reservado para académicos que puxam dos galões desnecessariamente…” Preferia que existissem 3 ou 30 ministérios? FBB: “Preferia 30. Porque, com 3 ministros, apenas, ninguém consegue.” Que ministério implementaria que ainda não houve? FBB: “Ministério do Ensino Superior. Mas que ainda não houve mesmo, ministério da Regulação, separado da Economia. Pelo simples facto de haver muito comum, nas várias áreas da Regulação. Outro ministério que deveria existir, e não sei se já houve algum com este título especificamente, Integração Social ou Inclusão. Nós tendemos a pensar muito em categorias de pessoas como estando em risco de discriminação, e é verdade. A minha única dificuldade com essa forma de pensar… aliás, são duas. A primeira é que parte do pressuposto que somos todos oprimidos ou opressores e não somos. Muitas vezes, mesmo os oprimidos são opressores de outros, para começar. E em segundo lugar, porque o foco que damos a determinadas categorias de pessoas que são discriminadas acaba por negligenciar que todos nós podemos ser discriminados ou sofrer na vida por pertencermos a categorias diferentes ou mesmo atípicas. As pessoas, por exemplo, com problemas de saúde mental não deveriam ser uma categoria tão respeitada nas suas necessidades de inclusão como outras? Ou então, por exemplo, cuidadores. Não digo apenas mães, digo cuidadores. Há casos de homens, que conheço, que cuidam das suas esposas com deficiências e que, no resto da sua vida, são vistos como pessoas, pura e simplesmente, homens privilegiados porque são homens, de classe média alta, mas as pessoas muitas vezes não sabem que dentro da vida privada de uma pessoa vai um desafio emocional. Isto já foi um resmuganço…” Ananás na pizza, sim ou não? FBB: “Eu vivi em Itália! Eu literalmente antes de encomendar uma pizza vejo se serve pizzas com ananás. Se servir, eu não encomendo pizza daí. Fiquei chocado com a pergunta! Gosta dos seus cereais com ou sem bebés mortos? Que pergunta horrorosa! Em Lisboa, há um consenso crescente entre os professores italianos… Santa Clara é uma pizzaria absolutamente extraordinária.” Qual é o seu filme preferido? FBB: “Pulp Fiction. Mas há séries que são melhores que filmes. Sopranos, a melhor série de sempre. Deviam ver. É uma série que seria impensável hoje, devido aos seus conteúdos ofensivos, que é extremo mas o enredo e a subtileza… não é apenas violência. O meu top de séries seria Sopranos, Breaking Bad, Game of Thrones. E numa fase da minha vida, Suits. Mas acho que é uma série muito pouco adequada para pessoas com Síndrome de Impostor. Aquilo causava-me ansiedade a certo ponto. No período em que estava a dar aulas e no escritório, foi-me demasiado. Agora, os dramas de sociedades são muito verdade. Sócios a envolverem-se uns com os outros… casos secretos… Eu não vivi isso, atenção! Quero deixar isso muito explícito, se algum anterior empregador meu ler isto. Outra coisa que reflete a realidade é que os grandes escritórios são uma aliança entre nerds e pessoas que se mexem muito bem.” Qual é o nome que nunca daria a um filho ou filha? FBB: “Há uma razão para os casos práticos terem sempre nomes tão abstrusos. Para não ofender ninguém. Com todo o respeito, eu seria incapaz de dar o nome João Maria a um filho. Acho demasiado beto. Desculpe, João Maria da tuna. A raparigas, pelo mesmo motivo, acho que Benedita, neste momento. Salvador também, a mesma coisa. Depois… hoje em dia, vejo jovens com o nome Pilar, por exemplo, e que já não são tão queques.” Quantos livros já leu este ano? FBB: “Muito poucos, infelizmente. Que não de Direito, óbvio. Eu acho que li apenas 1 romance inteiro e fui lendo muita poesia. Abro um livro de poesia, leio um pouco e volto a fechar o livro. O romance que li foi a “Cidade e o Mundo”.” Qual é o melhor supermercado? FBB: “O LIDL. A história extraordinária do LIDL…” MLB: “Passou de nicho a mainstream.” FBB: “Começa por ser uma coisa low cost mas com qualidade razoável e hoje, em dia, tem uma ótima qualidade. E agora, quase todos os dias, quase dia sim dia não, passo pelo LIDL do Bairro Azul e compro os meus lanches.” Maior fobia e porquê? FBB: “Cobras. De longe. Porquê a fobia de cobras? Porque é que uma pessoa tem de explicar a sua fobia?! Por definição, é irracional.” Se tivesse de viver a vida de qualquer pessoa desta faculdade quem é que escolhia? (depois de uma pausa dramática do professor FBB, que com certeza queria apenas atrasar o fim da entrevista) FBB: “Ahm… Isto é muito difícil. Eu diria a professora Vera Lúcia Raposo.”

  • Sem Direito: Luís Heleno Terrinha

    A MCR e a MLB, coordenadoras de entrevistas do Jur.nal apresentam o terceiro episódio do segmento de entrevistas Sem Direito. Desta vez, convidamos o professor Luís Heleno, cujo último nome é efetivamente Terrinha. MLB: “Luís Heleno Terrinha, nascido e criado junto à praia de Matosinhos, é hoje professor de Direito do Trabalho, já que nunca foi “descoberto” por um agente de talentos cinematográficos. Entre os amigos é tratado por Ken porque o seu sonho era tê-lo protagonizado a personagem no novo filme da Barbie, tendo até feito os castings para o papel. Passou a vida inteira todas as suas férias de verão nas Berlengas, já que é um admirador atento da espécie de pássaros, as cagarras. O seu estilo musical de eleição é heavy metal. Apesar de toda a sua vida ter votado à esquerda, não nega que este ano não conseguirá evitar votar em Sebastião Bugalho. Professor, daqui o que é que podia ser verdade?” LHT: “(entre risos) Eu acho que podiam ser mais coisas verdade, do que falsas. Bastante mais, até. Acho que uma grande maioria podia ser verdade. Mas o que é que é falso, vamos ao contrário? Praia de Matosinhos… eu até sou de perto, a minha família é de Vila Nova de Gaia, eu nasci no Porto e fiquei sempre a viver em Vila Nova de Gaia, praticamente até aos meus 30 anos. Conheço bem Matosinhos, mas nunca fiz praia em Matosinhos. Aliás, as únicas vezes em que fiz praia no Porto era em pequeno e a minha mãe não me deixava ficar em casa sozinho. E eu aí, tinha que, infelizmente, ir à praia com ela. E sempre detestei, porque a água é geladíssima. A minha lógica de praia é: se for, de facto, para banhar, eu consigo ir à praia. Se for para estar só na areia a apanhar sol… não é uma coisa que me atraía muito. Agora… ser professor de Direito do Trabalho? Eu acho que podia ser professor de várias coisas. Acho que dentro do Direito, eu estou no Público relativamente por vocação, isso acho que sim. Acho que eventualmente tenho um perfil mais publicista do que privado. Mas neste domínio, tive um grande professor de Direito do Trabalho. E acho o domínio do Direito do Trabalho até bastante interessante. Acho que teria até um pouco mais um problema em praticar Direito do Trabalho. Tenho alguns amigos na área e todos aqueles dramas de despedir pessoas, restruturações, acho tudo isso bastante duro e portanto acho que não quereria ser advogado laboral. Mas acho que até poderia ser professor de Direito do Trabalho. Talvez não tanto pelas relações individuais de contrato de trabalho, mas as relações entre sindicatos e patronato é uma coisa interessante economicamente e portanto isso até poderia ser. Acho que a parte mais verdadeira e o que está mais certo no meio disso tudo é a minha carreira alternativa, eu podia ter tido uma carreira artística. Não porque tenha tentado mas sim, como ator, como cantor… eventualmente, eu quis durante muito tempo ser apresentador de televisão. Eu, curiosamente, adorava ter tido um talk show. Não uma coisa assim de entretenimento, mas, e aí, eu abandonava a faculdade, se me oferecessem um talk show na televisão ou qualquer coisa assim de me porem a falar, entrevistar pessoas, ter conversas, eu abandonava e ia. Quanto a ser ator… o filme da Barbie, eu não vi sequer. Acho o Ken um bocadinho irritante. Eu acho que tive Kens em criança, e Barbies, tive os dois. Mas acho que não quereria ser o Ken, acho-o um bocadinho artificial. Acho que a pessoa precisa de alguma imperfeição. Ele no filme não é a masculinidade tóxica? Não sei… eventualmente, não me estou a ver na personagem do Ken.” MCR: “Mas se fosse ator, que personagem é que gostaria de fazer?” LHT: “Essas perguntas assim à queima-roupa é difícil. Olhe, eu gostava de ser um Batman. O Batman gosto. Eu ia a um casting. Gosto dos filmes do Christopher Nolan, esses eu sou fã. Mas também podia ser uma coisa tipo Star Wars. Sempre gostei do Darth Vader. Enfim, esse apelo do lado negro da força. E agora, no último fim de semana, vi o Dune, que nunca tinha visto. Gosto bastante desses filmes assim um bocadinho mais épicos, uma história longa, mundos mais complexos. Como, muitas vezes, são histórias baseadas em livros, têm assim um bocadinho mais de densidade. Eu, curiosamente, achei que não ia gostar do Dune e achei bastante bom, por acaso. Só vi o primeiro ainda, e estou ansiosíssimo para ver o segundo, adorei aquilo. Agora, estilo musical, isso sim, estava completamente falso. Heavy metal? Nunca! Gosto de muitos estilos musicais. Normalmente depende muito de fase da minha, altura, maneira como me estou a sentir no momento. Já tive uma fase muito pop. Também não sou aquela pessoa das músicas alternativas. Nunca fui de ir aos festivais. Concertos eu vou. Festivais, nunca fui. Fui há 2 anos a um novo, o Kalorama.” MLB: “Há dois anos foi ver Artic Monkeys?” LHT: “Não conheço ninguém… o que resto, foi uma experiência engraçada. E tive uma sensação estranhíssima, que foi ficar maravilhado como há tanta gente a cantar. Porque há os vários palcos e a quantidade de artistas… a dada altura, eu pensei, como é que há tanta gente a fazer isto? Palcos? Uns atrás dos outros. E eu, de facto, fiquei maravilhado com isso. Normalmente, eu vou pouco a concertos porque acho a dinâmica um bocadinho complicada com aquela gente toda nas plateias. A última vez que fui foi para a Dua Lipa. E agora tentaram-me levar para a Taylor Swift e eu enfim… recusei… E quando me disseram que era no Estádio da Luz, eu só disse “enfim, cruzes!”. Achei que seria uma confusão. Normalmente, se for a concertos, tende a ser de música clássica. Uma coisa em que a pessoa fica ali sentada. Também já fui a concertos de música eletrónica, em que estava sentado. E gostei. Achei uma coisa muito interessante. Mas normalmente, ouço muito pop no carro e sozinho. Mas, eu sou uma pessoa, que apesar de tudo, ouço muito pouca música. Eu trabalho em silêncio. Não ponho música em casa, portanto sou o vizinho ideal. A única coisa é que para adormecer ponho uns sons de chuva e uma pessoa assim a falar lentamente, assim para acalmar. Mas a verdade é que, houve uma altura da minha vida, quando andava no secundário em que eu ouvia muita música. Foi a altura em que lançaram os IPods, e aquilo era o último grito. A minha playlist do IPod de há 20 anos deve ser muito interessante… mas no secundário, todos nós ouvíamos muita música. Mas depois, de facto, quando eu entrei para a faculdade passei a estudar em silêncio. E portanto, eu sou uma pessoa que deixei de ouvir música. No secundário, andava a par das bandas todas e das tendências todas e depois, de repente, eu vou a um festival, vou a um Kalorama e não conheço ninguém… na altura um amigo meu disse-me que íamos ver a Jessie Ware e eu achava que era outra pessoa… portanto ouvi Artic Monkeys, não conhecia música nenhuma e o resto das pessoas nem faço ideia nenhuma quem eram. Mas enfim, heavy metal, nunca. Acho que ouço tudo, desde techno a eletrónica, a clássica. Techno sempre ouvi bastante. Só vou para discotecas onde ouço techno, aliás. Não vou a festas de pop, a não ser que seja 90s, que a pessoa vai para a brincadeira.” MLB: “Professor, mas e quanto ao Sebastião Bugalho? É o seu candidato preferido?” LHT: “Não é. Não é de todo. Não tenho nada contra o Sebastião Bugalho mas não concordei com a escolha. Continuo sem concordar. Parece-me um rapaz simpático, preparado, profissional, claramente diligente e dedicado à causa. Mas discordo do princípio. Acho que, Portugal, e isso passa-se relativamente ao Sebastião Bugalho e passa-se muitas vezes em relação a outros candidatos, acho que Portugal é um país, e quando se fala em independentes, com pessoas com percursos muitíssimos interessantes, pessoas com doutoramentos fora, mestrados fora, pessoas que já trabalharam em empresas e etc. Acho que há percursos de vida muito interessantes por aí. Eventualmente, enfim, pode ser que estas sejam pessoas que não consigam ser atraídas para a política. Mas muitos deles, se calhar, se lhes oferecessem um cargo ou uma posição como cabeça de lista, muitos deles, em laboratórios aqui e ali, talvez até viessem. Acho que escolher pessoas por causa de uma notoriedade, enfim, de comentário político é um mau princípio. Acho que o problema não tem nada a ver com ser novo. Por mim, até poderia ter 22. Há muita gente com 22 anos que já fez coisas muito mais interessantes do que o Sebastião Bugalho. E portanto, se quiserem convidar uma dessas pessoas que com 22, lançaram NGOs, que fazem trabalho social, pessoas que fazem a diferença na vida de outras pessoas… para mim, o problema não é o Sebastião Bugalho, não é a idade do Sebastião Bugalho. O meu problema é o princípio de escolher alguém com base nesta notoriedade. E portanto não concordo. Enfim, espero que corra bem. Não estou a dizer que é melhor ou pior do que os outros, mas o princípio, para mim, não é um princípio com o que eu concorde.” Introduzimos, então, o segmento que nos dá a explorar a parte mais cor-de rosa da vida. MLB: “Queremos saber como era como aluno, mais estudioso/ mais baldas?” LHT: “Durante a faculdade sempre fui estudioso. Vamos lá ver, eu sou licenciado pela Católica do Porto, fiz o meu Doutoramento na Clássica, depois fiz o meu Mestrado nos Estados Unidos também, o LLM, a seguir. E ensinei tanto na Católica do Porto como aqui. Mas eu tive, vamos dizer assim, dois grandes períodos da minha vida, é o período pré-faculdade e o período em que entrei na faculdade. No período pré-faculdade, eu era o típico aluno que, de facto, estudava mas não era, de todo, marrão e etc. Eu era uma pessoa que sempre tive grande facilidade de memorização. Estava em Humanidades e portanto para mim era, de facto, muito fácil o tipo de estudo. Eu acho que verdadeiramente até ao secundário, o único momento em que estudei a sério, no sentido de estudar, de modo estruturado, de agora vou estudar uma tarde toda e uma noite, foi no período dos exames nacionais. Antes do período dos exames nacionais, eu revia a matéria à semana, umas duas horas, entre as nove e as onze, sobretudo quando havia testes. Tentava estudar um bocadinho aos fins de semana, nunca de manhã, porque achava que uma pessoa levantar-se para estudar era uma coisa tenebrosa. E, portanto, dormia até mais tarde. Depois no secundário, tinha uma grupeta de amigas, que ainda tenho, com quem passei a sair à noite. Às vezes, sexta e sábado. E no fundo conseguia ir os dois dias, se agora eu fizesse isso… No Porto, estamos a falar de uma altura em que eu tinha os meus 15, 16 anos, em que não havia baixa do Porto, havia Zona Industrial e nós corríamos as discotecas todas da Zona Industrial. Era o Via Rápida. Eu conto-lhe. Era o Via Rápida, era o Act. O Act era daquele que foi agora preso, o Manuel Serrão, era o mais trendy, tinha um bar néon vermelho, que era espetacular. E o Act, a par com a Via Rápida, foi talvez o par ao qual eu mais fui. E depois a dada altura abriu o Chique, era um sítio com um conceito um bocadinho diferente, era todo branco. Era um sítio também com uma história tenebrosa, porque depois o dono foi morto à porta. Umas pessoas que apareceram com umas pistolas e ele morreu ali. Mas corríamos todas. Aliás, numa mesma noite a pessoa corria todas. Depois havia umas amigas minhas que iam para uma que havia que era a Latina, para a qual eu evitei sempre ir. Mas era Via Rápida, Act e Chique. Quer o Act, quer o Chique tinham assim uma musiquinha mais comercial, aquele DJ… Assim um house e tal. Normalmente, o Via Rápida podia baixar assim um house mais tipo eletrónica, eventualmente um techno a partir das 5/6 da manhã. Mas o Via Rápida era uma coisa até sofisticada, a pessoa estava ali à espera para entrar, era selecionado pelo porteiro. E de facto era o que acontecia com essas minhas amigas no secundário quando chegávamos à sexta-feira, eu ainda hoje tenho essas amigas e vamos sair também. Mas o que acontecia e que eu sempre adorei é que íamos até de manhã, sempre gostei de depois tomar o pequeno almoço com elas. Houve uma altura até em que, eu ainda não tinha carro e o meu pai fazia o favor de me ir buscar às 7/7h30 quando não era para tomar o pequeno almoço. O meu pai chegou até a apanharmo-nos a todos e a irmos tomar o pequeno-almoço todos juntos, porque morávamos todos na mesma zona. Mas eu adorava sair da discoteca e ser de dia. Hoje em dia, não, porque fico logo desregulado para o resto do dia, mas na altura eu achava uma maravilha. E então chegava a casa às 8h30, se ainda não tivesse tomado o pequeno-almoço, a minha mãe fazia-me companhia para o pequeno almoço e depois eu dormia até à 1 ou às 2 e sábado estávamos lá outra vez. Fizemos isso durante vários fins de semana, era o que acontecia no Porto. Portanto, no secundário, eu estudava, tirava boas notas, tinha sempre uma média de 19 ou 19.5 mas foi sempre mais fácil, porque eu tinha uma memória boa, não tinha nada a ver com genialidade, enfim, eu tinha uma memória boa, concentrava-me, sempre tive facilidade para as línguas, para a história memorizava. Agora, quando entrei na faculdade… acho que a última vez que fui ao Via Rápida foi precisamente na semana antes de começar a faculdade. E quando começou a faculdade, eu de facto dediquei-me de alma e coração àquilo. E portanto eu levantava-me para ir às aulas e a seguir ia almoçar a casa e passava o resto do dia a estudar, todos os dias. Normalmente saía à noite, sexta-feira. Mas depois aí começou a surgir a Baixa. Esta coisa da discoteca e de ficar lá até às 8 da manhã… hoje em dia, as pessoas vão mais tomar um copo ou saem no Bairro até 2/3 da manhã. E eu passei a fazer isso com os meus amigos mas nada que me desregulasse. E continuava ao fim de semana a estudar. E isso fui eu durante 4 anos. Portanto não facilitei em nada.” MLB: “E quando veio para Lisboa?” LHT: “Eu venho para Lisboa, em dois períodos da minha vida. Eu sempre vim muito a Lisboa, porque tenho cá família. Tenho uma tia e vinha-a visitar e tal, e ela gosta muito de mim. Então, de vez em quando, os meus pais mandavam-me e eu vinha para cá. A primeira vez que me mudo para Lisboa foi quando acabei o Doutoramento. Eu tinha programado começar o estágio de advocacia na URIA. Vim para Lisboa, arranjei uma casa e mal comecei o estágio, não conhecia ninguém. Tinha cá uns amigos que já estavam em sociedades de advogados mas eu vim sozinho. E aquilo com o estágio para mim correu muito mal. E não teve nada a ver com a faculdade, mas eu tinha estado 4 anos só a estudar e a escrever o Doutoramento e quando cheguei ao escritório, de um dia para o outro, passei do que tinha sido uma vida de 4 anos de manha à noite com uma rotina militar. E por exemplo, agora sou incapaz de fazer isso, mas na altura conseguia ficar 4 dias fechado em casa. Vivia com os meus pais, não era sozinho mas conseguia ficar 4 dias fechado, a ler e a escrever quando tinha que escrever. Hoje em dia não consigo fazer isso. E olhando para trás, não sei sequer como é que conseguia. Até acho uma coisa pouco saudável mas enfim, tinha a idade que tinha. Hoje em dia, não fico em 1 dia, já tenho de estar muito cansado para estar 1 dia fechado em casa. Mas o que aconteceu foi uma transição muito abrupta, eu passei daquela minha rotina, para uma atividade de escritório e não me adaptei nada bem e despedi-me passado 1 mês e meio. A dada altura, quer dizer, levantava-me de manhã já muito afetado e eu achei que ou ia acabar num psiquiatra a tomar medicamentos ou me ia embora. E na altura a decisão foi por me ir embora. Mas não tinha nada a ver com o escritório, era bom, e as pessoas eram boas mas aquela transição… eu devia ter feito um gap year, não fiz e digamos que psicologicamente lidei muito mal com aquilo. E ao final de 1 mês e meio fui-me embora da firma. Na altura, curiosamente, uma das coisas que me custou mais foi abandonar Lisboa e o apartamento. Estava a viver sozinho, a fazer a minha rotina e, de facto, voltar ao porto naquela altura significava voltar a casa dos meus pais e isso na altura custou-me. Eu depois, passado uns meses no Porto, comecei a trabalhar na Católica do Porto, comecei a lecionar e arranjei casa para mim.” MCR: “ O que é que dava na Católica?” LHT: “Também dei Público. Sempre foi Constitucional, Administrativo, União Europeia e depois também uma cadeira de Investigação Jurídica. Mas esse período também foi, apesar de tudo, um bom período, em que eu tinha a minha casa, os meus jantares com amigos, também saíamos à noite. Eu na altura saía bastante, eu tinha os meus 25/26 anos. Ainda fiz pequenos almoços em minha casa, depois das nossas saídas e portanto ainda me lembro de um pequeno-almoço épico em que às 8 da manhã, fomos, para aí, 7 ou 8 para minha casa, enfim, todos quase a morrer, fazer torradas, depois de uma noite divertida. E depois, a dada altura, eu já estava a ficar cansado da minha rotina no Porto, da minha rotina na faculdade de lá, estava a ficar, enfim, digamos desidentificado com várias coisas e achei que era altura de ir para outra, que foi quando fui para os Estados Unidos. Estados Unidos, andei por fora... E depois, enfim, quando volto a Lisboa foi por causa da Nova, já em período de pandemia. Eu ganhei um concurso. Eu na altura estava no Porto já, pós-pandemia, candidatei-me a um concurso, eu ganhei o concurso, ainda fiz uma coisa que já me tinha comprometido a fazer e depois vim para Lisboa e aí sim foi a minha mudança definitiva. Estou cá desde essa altura, que é fevereiro/março de 2021. Eu estou em Lisboa definitivamente há 3 anos. E também não foi uma mudança sem as suas peculiaridades. Eu tinha andado muito tempo a mudar, a saltitar. Era a primeira vez, em 4 anos, que eu vinha para um sítio, com uma ideia de que seria quase para sempre. Apesar de tudo era uma cidade nova. Eu tenho cá amigos, mas quer dizer, os meus amigos têm a vida deles e eu passava a ter a minha. Depois, eu tinha estado em climas mais frios e isto aqui é muito quente. Mesmo o Porto é mais frio. E, portanto, eu também nunca gostei muito de calor. Depois era COVID. E tive uma fase de adaptação em que até, quase, o reflexo do sol na calçada me encadeava. E tive assim uma fase de adaptação estranha. E quando estávamos a falar da atividade noturna, não havia vida noturna quando eu vim para Lisboa, não havia sequer restaurantes.” MCR: “Onde é que o professor vai sair em Lisboa?” LHT: “Em Lisboa, só vou para um sítio. Descobri agora que isto é famoso, porque no Martelo ao me imitarem falou-se nisso. Mas eu de facto só vou a um sítio sair à noite, por causa de uns amigos. E só vou para o LUX. E já cheguei a ir para o LUX 3 vezes na mesma semana. Sobretudo fico na zona de baixo ou no terraço, mas circulo um bocadinho, enfim, com os meus amigos e tal. Por acaso já não vou há um tempo. Mas tive ali uma fase, no pós pandemia, em que mesmo quando exigiam os testes, eu cheguei a ir à mesma farmácia, 3 vezes na semana A Sra. da farmácia já me conhecia. Mas de facto só saio para o LUX. Só saio onde há música eletrónica. Posso fazer Bairro Alto e tal, mas eu confesso que até não acho muita piada àquela dinâmica de estar ali em pé a andar e portanto aqui em Lisboa eu diria que é a única discoteca que eu conheço. Esses meus amigos também são, enfim, uns assíduos do LUX e eu, então, vou.” MCR: “Quando era pequeno o que é que queria ser?” LHT: “Eu nunca quis seguir Direito. Quando era pequeno, eu sempre quis ser piloto de aviões, queria ser comandante. Em termos de sonhos, ou era comandante ou era o apresentador de talk show. Mas, o meu pai trabalha na área das viagens e eu sempre viajei desde muito cedo e portanto sempre andei de avião desde muito cedo e portanto tenho e continuo a ter, na verdade, um grande fascínio, pelo mundo da aviação e pelos aviões. Aliás, eu sempre fui de jogar Playstation, tive-as todas, cheguei a ter as três. Na altura consegui convencer o meu pai a dar-me as 3, uma de cada vez. E era aquele tipo de criança que estava horas à frente da televisão, sobretudo dois tipos de jogos: adorava aqueles de disparar, cheguei a comprar uma pistola, adorava, eu tinha uma pistola enorme (e se calhar é melhor essa parte não pôr na entrevista); depois, a dada altura passei para os carros, adorava carros e sou, aliás, uma pessoa que gosta de conduzir e então comprei (compraram-me) um volante e uns pedais e uma das coisas que tinha era a possibilidade de jogar em modo endurance, a pessoa tinha de fazer 80 laps na pista e isso era 80 laps vezes 5 ou 10 minutos que cada uma demorava e então isso implicava estar ali 3 horas com o carro e eu fazia isso, estava ali horas e horas. Lembro-me da minha mãe reclamar imenso com isso e dizer que aquilo que me ia fazer mal aos olhos, que é aquela coisa que as mães dizem. E depois, o segundo jogo que eu tive, para o qual também comprei os acessórios era o flight simulador. Eu punha o avião 8 horas a fazer Lisboa, Nova Iorque, era em tempo real, eu colocava aquilo em automático, ia fazer qualquer coisa e depois passadas as 8 horas, eu voltava para aterrar. E lá ia eu aterrar. Sei tudo dos aviões, sei a velocidade a que aquilo descola, sei os modelos todos. Por isso é que se repararem eu olho sempre que passa um aqui. Sei exatamente todas as variantes dos modelos e consigo identificar os barulhos que aquilo está a fazer, portanto sei essas coisas todas. E portanto sempre quis ser piloto de aviões, só que depois deu-se o caso de eu, no 9ºano, ter de fazer reconhecer que ia ser muito difícil eu ser engenheiro. Eu não tinha nenhuma apetência especial para a matemática. Também não era um daqueles casos… não era mau. Eu acho que até, ainda que não seja uma pessoa especialmente dotada para a matemática, tenho um bom raciocínio lógico, equações, física, fórmulas, calcular isso dava-me bem, mas não tinha assim uma paixão pela matemática. Mas pior que a matemática, e aí sim eu era verdadeiramente mau, era a coisa dos desenhos e da geometria. Eu a matemática não era excelente, mas nunca foi penoso, agora, no caso da EVT, e geometria, não era só a questão de eu ser mau, é que aquilo era um verdadeiro sofrimento para mim. A coisa do esquadro e não sei quê… A questão de fazer os desenhos… Eu sempre me dei bem com as pessoas das minhas turmas e então nas aulas de EVT arranjava sempre 2/3 amigos que eram melhores do que eu e que sem o professor ver iam lá à minha carteira tratar do compasso.” MLB: “Mas não tinha perceção espacial?” LHT: “Não tinha e continuo sem ter (entre risos). Aliás, os meus alunos conhecem os meus bonecos. A minha noção de espaço é essa. É unidimensional. Portanto, ainda hoje, se eu quiser fazer uma casa… um ponto de fuga… Nunca percebi sequer o que é que isso é. E portanto, quando comecei a ver o que é que eu tinha de fazer no secundário para vir a ser piloto, era matemática, era geometria descritiva e eu disse, bom, isso vai dar mau resultado. E a resolução na altura, e Portugal tem sempre esse problema que é das nossas dificuldades económicas e da pessoa ter sempre esta necessidade de seguir uma certa via profissional, que é uma coisa que não passa pela cabeça de um alemão, de um francês ou de um britânico, mas nós temos sempre isso, foi escolher algo em que eu pudesse ser bom e ser quase acima da média. Se eu fosse para as engenharias eu não iria ser bom, também não sei se ia ser péssimo, mas ia ser mediano e na altura a opção eu acho que foi humanidades e escolher aqui qualquer coisa em que eu acho que vou ser um bocadinho melhor do que os outros, em que vou ser melhor do que a média. E depois veio o Direito e eu já tinha pessoas no Direito. Mas ainda assim, até à última, na minha candidatura ao ensino superior, ainda ficou na terceira e quarta opção, Filosofia e Jornalismo. Jornalismo, por causa da televisão e do talk show. E no caso da Filosofia, não sei bem porquê mas eu gostava muito de Filosofia, depois, eu até ao 9ºano nunca fui um leitor ávido, aliás nunca fui um leitor em geral, para ser sincero, tive sempre pessoas nas turmas que liam muito mais do que eu, mas tive ali um momento de mudança no 11ºano, acho que muito por influência de um professor de Português que eu tive, que era muito bom e que me fez ver a leitura, o livro e a palavra escrita de outra maneira. E depois tive um livro no verão do 11º, que era leitura para o 12º, que me marcou muito, que era A Aparição do Virgílio Ferreira. E que é um livro daquela lógica do existencialismo e na altura, a minha avó materna estava muito mal de saúde e acabou por falecer na mesma altura e o livro, aquelas questões da finitude da existência e do que é que a pessoa é no mundo, as nossas limitações em geral, tudo aquilo veio numa altura mais difícil do ponto de vista emocional, tocou-me mais e foi um livro que eu li já com muita atenção, depois de ter tido também esse professor. E eu a partir desse momento comecei a ler muito mais e no final do 12ºano tinha essa coisa da filosofia e do pensar, dessas questões do bem, do justo e portanto a filosofia apareceu lá. Mas acabou por ser o Direito pela tal versatilidade, pela capacidade de ter uma carreira profissional. E eu também não queria ser professor de secundário e isso a filosofia punha-me numa situação mais complicada. Mas quanto ao Direito, eu nunca fui daquelas pessoas que chegam a uma altura ainda muito jovem e já querem ser advogados, porque querem defender causas. Na verdade, não me passava pela cabeça. Nunca. E muito menos ser professor. Também estar a ensinar nunca.” MLB: “Qual é o seu destino de viagem de sonho?” LHT: “Eu sou uma pessoa privilegiada. Eu já fui a muito lado e já vi muita coisa. Tenho um destino, que quero muito fazer e que tenho muita expectativa, para o qual ainda não fui que é o Japão. Eu não sou aquela pessoa de ir fazer uma coisa estilo Vietname.” MLB: “Não tem personalidade de andar de mochila às costas e chinelo?” LHT: “Não. Conheço imensa gente mas eu não vou fazer um Vietname. Não vou fazer uma Colômbia. Eu isso não vou fazer. Mas já viajei muito sozinho. Viajo muito sozinho e gosto. As pessoas, às vezes, acham um bocadinho estranho mas eu gosto muito. E tenho feito até, sobretudo em Agosto. Em Fevereiro tiro uma semana para fazer sozinho, numa espécie de retiro, para um sítio onde não me incomodem. Já fui para o México, que acho que foram as férias em que passei mais tempo de olhos fechados. Tinha um calendário diário de meditação e portanto era tudo de olhos fechados, no meio da selva. E vim, lindamente, dormia melhor, dormi lindamente lá. Depois fazíamos rituais, fiz um ritual que nem sei bem o que foi, mas fomos fazer oferendas para o mar e às deusas e a tudo. Fiz a minha entrega também lá ao fogo, numa fogueira. E depois também tive um ritual dos chás, estávamos todos a tomar um chá no meio da selva. Aquilo soube-me pela vida.” MLB: “Alinhou os chakras?” LHT: “Alinhei os chakras. E voltaria. Só não fui este ano, porque achei que ir dois anos seguidos seria demasiado. Mas viajo bastante sozinho, acho que já vi sítios muito bonitos. Tenho essa coisa com o Japão. Tenho assim 2/3 coisas que gostava de fazer e que ainda não fiz. Japão, assim uma coisa de 15 dias, em que desse para andar de comboio, eu gosto assim de uma coisa em que dê para fazer várias paragens. Normalmente, tento marcar férias mais longas em que possa andar, gosto de andar, trocar de sítio. Uma viagem também que eu adorava fazer é a travessia de cruzeiro de Londres para Nova Iorque, aquela coisa do Titanic. No fundo, é uma companhia de cruzeiros britânica que faz essas travessias. Eu gostava de fazer isso, só por essa questão histórica. E tenho uma terceira viagem, que também mete barcos curiosamente, que é, gostava de fazer uma expedição tipo ártico. É bastante caro. Já fui ver… mas é aquela coisa do gelo, eu adorava fazer. Das 3, a expedição mais de sonho é esta. Para o ártico, os pinguins, uma coisa assim desse género. A MCR introduz o segmento onde pede ao professor LHT que defenda com alguma fundamentação, mediante um frente a frente entre dois docentes, qual dos dois ganharia o prémio Lex Hérman José. professor Jorge Bacelar Gouveia vs professor Filipe Brito Bastos LHT: “Eu acho que a resposta diplomática é o professor FBB.” MLB: “Mas esta resposta é puramente diplomática?” LHT: “Não, eu vou dizer o professor FBB, porque, e vamos dizer assim, tenho notado que o professor JBG tem estado muito sério aqui na faculdade e portanto não tenho experimentado o humor do professor JBG com a frequência que tenho experimentado o humor do professor FBB. E o professor FBB, verdade seja dita, tem também um humor muito subtil, às vezes até um humor britânico e acho que ficaria muito bem entregue.” professor Vítor Neves vs professor Miguel Moura LHT: “O professor MAM! Depois do que ele fez na Gala… O tirar o puxinho do cabelo…” MLB: “E não o viu a dançar, a ir ao chão…” LHT: “Ele ficou?! É que eu fui-me embora e achei que ele tinha ido também. Mas ele ficou! Mas eu achei que a do puxinho foi imbatível e portanto o professor VPN não tinha hipóteses.” A MLB introduz o segmento onde pede ao professor LHT que atribua a docentes os seguintes prémios: Lex D. Sebastião LHT: “Vamos dar o Lex D. Sebastião ao professor Bacelar… mas eu não sei se essa figura messiânica não é uma coisa ajustada.” Lex Barney Stinson LHT: “Eu acho que me autonomeava… não estou a ver ninguém que se vista melhor do que eu. Esse ganho eu.” Lex Art Attack LHT: “Eu aí diria o professor Luís Duarte D’Almeida, porque toca piano lindamente. Que era uma coisa até que eu adoraria fazer, portanto tenho uma admiração enorme por quem toca. E já uma vez ele aqui, numa festa de final de ano, de docentes, tocou e eu fiquei maravilhado. E portanto do que conheço, eu diria, sem dúvida, o professor Luís Duarte D’Almeida.” Lex Nova Juris Spiritus LHT: “Eu diria o professor Jorge Morais Carvalho. Acho que o professor Miguel Moura também. Aliás, acho que há várias pessoas, e isso é muito positivo, que têm esse espírito muito vincado no corpo docente. Mas se eu tivesse que dizer uma pessoa que, digamos, consegue ser emblemática nesse espírito de vestir a camisola, de estar com a camisola e que eu acho inspirador e que eu acho um exemplo desse ponto de vista, eu diria o professor Jorge Morais Carvalho, sem dúvida.” Lex Papa Nites LHT: “Ahn… quem é que fuma muito? Das pessoas que eu sei que fumam, a professora Mariana França Gouveia fuma, mas não fuma muito, acho que é um fumar social.” Lex Dynamic Duo LHT: “Quem é que anda sempre…? Eu aí tenho uma dupla. Eu agora nomeava o professor Filipe Pathé Duarte e a professora Laura Íñigo, que eu vejo-os sempre juntos agora. Estão a lançar o lab e eu agora vejo-os tantas vezes juntos que acho que são um super dynamic duo.” A MCR introduz o último segmento da entrevista onde pede ao professor LHT quick-fire answers. Quantos livros já leu este ano? LHT: “Ora bem, eu tenho um problema. A resposta imediata é que, eu já devia ter lido mais do que o que li. Eu tenho um problema que acho que podia ser positivo mas na verdade é mais para o negativo e tem a ver com esta profissão. Qualquer um de nós já teve de ler muito. E portanto, a dada altura, a professora deixa de ler por prazer. Lê por hábito, lê de qualquer forma. E é engraçado, que eu leio e se me perguntaram o que é que eu li eu já não sei. Por acaso esta semana eu acabei de ler 2 livros, que já estava a ler há algum tempo.” MLB: “E estava a ler os dois em simultâneo?” LHT: “Eu leio vários em simultâneo, sim. Entre o técnico e o não técnico. Normalmente, romances, no máximo dois em simultâneo. Mas sei lá, se for à minha mesinha de cabeceira, acho que tenho 4/5 empilhados de cada lado. Ás vezes há uns que ficam a meio.” MCR: “O professor é aquela pessoa que vai comprar vários livros que depois é capaz de não ler?” LHT: “Sou. E tenho uma coisa pior que é comprar o mesmo livro várias vezes.” MLB: “Por não se lembrar que já o comprou?!” LHT: “Eu vou contar esta história… eu tive um professor de licenciatura, que aliás tinha muita piada, que uma vez disse que aquele livro devia ser muito bom, porque nunca o tinha lido mas já o tida encomendado por 3 vezes. E eu achava que isso nunca me ia acontecer. O que me aconteceu, no outro dia foi que estava em casa e olho para um livro na estante e outro que estava em cima da mesa e percebi que são muito parecidos. E cheguei à conclusão de que já me tinha acontecido mais vezes. E não li realmente. O que acontece é que a pessoa lê a descrição na Amazon e acha um máximo, fica entusiasmada, o livro vem, a pessoa não lê, mas quando volta a ler a descrição na Amazon, volta a achar um máximo e a pensar: eu quero isto. Eu acho que… devo ter lido, não querendo exagerar, uns 8 a 10 livros.” Maior Fobia LHT: “Uma grande fobia tende a ser insetos, tenho um horror a insetos. E…” MCR: “Centopeias?” LHT: “Não, porque calco. Provavelmente é melhor não escrever isso, que depois os animais… mas a coisa dos insetos é porque tudo o que voe mete-me uma impressão terrível. Aliás, eu sou aquela pessoa que, em casa, chegando o verão, tenho as tomadas todas literalmente com 8 coisinhas do raid.” MLB: “Prefere morrer intoxicado do que ter de lidar com insetos?” LHT: “Prefiro morrer a ter que lidar com os insetos. Portanto, ponho as tomadas literalmente todas e mais, viajo com elas.” MLB: “E também anda com o raid em spray na mão ou não?” LHT: “Não. E mesmo a natureza… eu já fiz, sei lá, no máximo, um hotelzinho no meio do campo. Mas sempre com algum ceticismo. Eu sofro imenso em Lisboa, aqui com este calor. Uns dias de calor aguento, 3 meses não. Agora, infelizmente não consigo sair. Mas quando não estava a fazer advocacia com tanta regularidade cheguei a ponderar sair no verão de Lisboa. As aulas acabam e eu penso: qualquer dia arranjo um Airbnb em Estocolmo e vou para lá… chegou-me a ocorrer… o problema não é o calor em si, é o calor em excesso, é a pessoa suar e ficar muito mais molengona. Custa-me porque já estive noutros sítios em que as temperaturas eram muito mais amenas. 1 mês de Agosto muito quente a pessoa aguenta, agora a pessoa chega a Setembro e precisa de frio para, no fundo, despertar. Isso incomoda-me profundamente. As pessoas aqui de Lisboa falam da luz de Lisboa e eu detesto. Acho esta luz até um exagero. Tenho de andar sempre com óculos de sol. Depois puseram a calçada toda amarela, que ainda reflete mais, acho que não lembra ao diabo…” MCR: “Mas e o professor já ponderou ir passar o verão ao Porto? LHT: “Não. Vamos lá ver, eu não sou uma pessoa muito amovível. Eu estive nos Estados Unidos e vim só para o Natal. Eu sou aquela pessoa que se alguém morrer, eu não venho para o funeral.” Restaurante de eleição em Lisboa LHT: “Há um sítio ao qual vou repetidamente, acho até que eu devia ser acionista. Eu vou muito ao je ne sais quoi. E vou muito ao sábado e domingo, sento-me ao balcão, que não tenho de marcar. Estou ao meu ritmo, estou ao balcão, quando a pessoa está sozinha tem de observar alguma coisa, gosto de ver a dinâmica dos empregados. Mas ao fim de semana, se me quiserem encontrar em Lisboa, a probabilidade é de eu estar num je ne sais quoi. E aí é sempre essa combinação de, come-se lindamente e espaço.” Pedido do McDonalds LHT: “Adoro o McChicken. Sou louco por isso.” Figura pública que mais o irrita LHT: “Irritam-me quase todos. Quem é que eu não aguento? Não aguento muita gente. Mas por exemplo, não aguento o Bruno Nogueira. Eu até gostava dele quando ele apareceu, era assim um miúdo franzino. Agora aquilo que ele faz não consigo achar piada. Mas há mais gente que eu não aguente. Ás vezes eu até ligo à minha mãe só para dizer “Ah está este agora na televisão! Já desliguei!” Tenho imensas irritações. Partidos políticos, pessoas… eu até diria que são todos. Olhe, durante muito tempo irritou-me o Claúdio (Ramos) mas agora até gosto dele, porque acho que o Claúdio teve ali uma vida difícil na televisão, durante algum tempo trataram-no mal. Os comentadores políticos… há muitos desses que me irritam. Mas vou-lhe dizer um que eu não aguento: irrita-me o Marcelo Rebelo de Sousa. Mas 30 vezes mais que o Bruno Nogueira.” MCR: “Quanto ao Marcelo, acha que já deu o que tinha a dar?” LHT: “Acho que sim. Obrigada, venha o próximo!”

  • Carta à Comunidade Praxante

    Prezada Comunidade Académica Praxante. Como é do conhecimento de muitos de vós, desde o Traçar da Capa, tenho vindo a desenvolver um projeto, uma equipa, uma lista que assegure a continuidade e a tradição praxistica da nossa faculdade, que, ao contrário da vontade de órgãos superiores da nossa instituição de ensino, permanece forte e todos os anos demonstra crescer ainda mais. No entanto, este projeto de lista candidata à Comissão de Praxe chegou hoje ao fim, e venho por este meio oferecer algumas explicações a todos aqueles que sei que apoiavam este projeto, por mo terem expressado, e dar algumas notas sobre aquilo que deve, na minha opinião, ser tido em consideração na formação e exercício de funções de futuras Comissões de Praxe e que gostaria de aplicar este ano. Quero que saibam que este projeto não terminou por falta de vontade dos seus integrantes, uma vez que, como certamente saberão, se bem me conhecerem, a Praxe é das coisas mais bonitas e importantes que tenho na minha vida académica e pessoal. Por esta razão é que levo com toda a seriedade um projeto como este. Sempre ambicionei subir um pouco mais na hierarquia praxante, tendo começado como caloiro, passado por ser vogal de 2º ano, desejando ser Presidente da Comissão de Praxe e ultimamente, ser Dux, no meu último ano de licenciatura (desejo que ainda mantenho e pretendo concretizar). Não possuo esta ambição por mera cobiça de cargos, sendo essa uma postura que veementemente condeno, mas por profundamente querer assegurar pessoalmente que a Praxe seja aquilo que de facto deve ser. Algo criado para os caloiros e não para os doutores e respetivos egos, respeitando e transmitindo sempre aquela que é a nossa própria tradição de Praxe que a todos deve orgulhar. Precisamente por ter para mim esta importância é que sempre tive em vista (e foi por esta base que a minha lista sempre se pautou) o mérito em função de Praxe de cada um dos doutores integrantes deste projeto, recusando-me sempre a preencher cargos “apenas para preencher”. Como sabem, certos cargos da Comissão têm certas exigências a serem preenchidas para que um doutor seja elegível para o mesmo, no entanto ainda que a nossa Praxe tenha tantos e tão bons doutores, o facto de ser a primeira vez desde que existe esta tradição na nossa faculdade que existem duas listas concorrentes à Comissão de Praxe, a existência de doutores elegíveis, dedicados, disponíveis e empenhados num projeto como este mostrou-se insuficiente, não havendo neste momento condições humanas suficientes para dar continuidade ao processo de candidatura da lista que me propunha presidir. Esta desistência não é uma decisão tomada de ânimo leve, por todas as razões já enumeradas, e não é certamente uma desistência da Praxe da minha parte, precisamente por querer continuar a praxar e por ainda ter tantos desejos e ambições para a Nossa Praxe que quero ver cumpridos neste ano, no próximo, e, quem sabe nos seguintes. Adicione-se que, com esta abertura com que agora se depara a outra lista candidata, não me apresentarei enquanto obstáculo ao exercício de funções da Comissão de Praxe, tendo sempre o maior respeito pelo órgão. No entanto serei sim (e não espero menos de todos os doutores) uma barreira contra a inatividade e inação da Comissão, tal como contra a ultrapassagem de limites que nunca devem ser transpostos. Posto isto, apresento algumas notas que penso serem importantes para o futuro da nossa Praxe, baseadas na minha visão e que desejava implementar neste ano académico. A Comissão deve ser aberta, acessível e transparente. Pretendia implementar esta visão através da realização de reuniões gerais de doutores facultativas a cada 2 meses ou quando se justificasse (ex: início e fim da primeira semana) para ouvir ideias, críticas e permitir o acompanhamento e escrutínio do trabalho da Comissão por parte da Comunidade Praxante. O Tribunal de Doutores deve ser levado muito a sério, devendo a designação dos acusados ser muito mais criteriosa e a atribuição de sanções ser baseada em critérios objetivos evitando situações como a atribuição de sanções iguais a uma pequena infração inofensiva e a um conjunto de infrações que atentam contra as bases e os princípios da nossa Praxe (e vice-versa). O cargo de dux deve ser uma candidatura independente e não o produto de uma congeminação de uma lista candidata à Comissão de Praxe, não só pelo que está disposto nos Estatutos da Comissão Académica, mas também por uma questão de ética e transparência. As Comissões de Praxe devem ter uma certa ótica de continuidade, não necessariamente ligada às decisões de Comissões passadas, mas como forma de garante de eficiência e eficácia de cada nova Comissão, uma vez que uma Comissão inexperiente nem sempre conhece as necessidades de funcionamento de uma Comissão de Praxe. A Praxe deve ser criada para os caloiros e somente para eles, não deve servir para alimentar ânsias de poder e popularidade de doutores. Com isto quero dizer que todos, independentemente da hierarquia, trabalhamos para os caloiros e a sua integração, não o oposto. Ainda em relação ao tópico anterior, deve ser tido em consideração, nas escolhas dos membros das listas candidatas, não só o elevado conhecimento da tradição académica e de Praxe e de todos os códigos e estatutos, mas também o mérito enquanto doutor de quem se pretende convidar para uma Comissão de Praxe. Desta forma, termino, agradecendo a todos os que apoiaram e acreditaram neste projeto, nomeadamente aos membros que dele fizeram parte, uma equipa trabalhadora, eficiente, capaz e com mérito. Lutemos, agora, todos juntos em favor da nossa Praxe que se foca na integração, acolhimento, solidariedade e entreajuda. Lutemos todos contra os desejos existentes de acabar com as tradições estudantis da nossa faculdade, contra quem quer silenciar a sua existência, mas que utiliza da mesma para se autopromover. Dvra Praxis, Sed Praxis Viva a PRAXE Francisco d’Orey

  • Flower body

    I wish I was born a flower I would bloom with the morning  And feel the warm sun in my petals I would drink from the dew  And the bees would come and feed on my nectar  I would dance in the soft wind  And relive every day with simplicity  Instead I want to be free from this body  This human body  I'm doomed to be a girl  And every night I weep myself to sleep Until a headache is formed  And I can feel my skull breaking and my eyes twitching  I cry so much I want to vomit  But I have to hold It in  I don't want to worry my mother  Please, God ...let me rest.

  • Dar Voz aos Estudantes - Conselho da Faculdade

    (entrevistas à Professora Assunção Cristas e aos alunos Luís Miranda e Isabel Costa) 1. Quem é que faz parte do Conselho da Faculdade? Luís Miranda e Isabel Costa: “Atualmente, são membros Assunção Cristas, vice-presidente do órgão, Maria Lúcia Amaral, Luís Duarte d’Almeida, Miguel de Azevedo Moura, Vítor Neves e Vera Eiró, na qualidade de membros docentes efetivos, Fabrizio Esposito, Jorge Morais Carvalho e Mariana França Gouveia, enquanto membros docentes suplentes, Luís Afonso de Miranda, enquanto representante dos estudantes efetivo e Isabel Lundbo Murta Costa, na qualidade de suplente, e Catarina de Albuquerque, que preside o órgão, Ana Casaca e Filipe Vaz Pinto, enquanto individualidades externas.” Assunção Cristas: “O conselho da faculdade é um órgão que representa uma abertura da faculdade ao exterior porque tem uma composição de pessoas de dentro e pessoas de fora.” 2. Como são eleitos os membros do Conselho da Faculdade? Luís Miranda e Isabel Costa: “Conforme resulta do artigo 7. º, n.º 2 dos Estatutos da Nova School of Law “Os/As docentes e investigadores/as são eleitos/as por um único colégio constituído pelo conjunto dos seus pares, pelo sistema de representação proporcional da média mais alta de Hondt.”, ou seja, são eleitos, em lista única, entre os docentes. No entanto, as individualidades externas são designadas pelo Reitor, por proposta dos restantes membros eleitos do Conselho.” 3. Qual é a importância deste órgão e quais os seus âmbitos de ação? Luís Miranda e Isabel Costa: “Este órgão é de extrema relevância, pois determina toda a política institucional da Faculdade, direcionando os restantes órgãos e serviços nas suas funções e naquela que é a sua atuação diária. É também um pilar essencial da democracia na nossa instituição, pois permite alterar e adaptar o plano de ação global por via de representantes eleitos pelos seu pares, promovendo uma comunicação direta e eficaz, comprometida com a expressão e compreensão dos melhores interesses de toda a comunidade académica nas suas várias vertentes, não só a nível de estudantes, docentes e não docentes no plano do ensino, mas também com preocupações na construção de um ambiente social e cultural que potencia uma formação e vivência íntegras. Cabe aos membros efetivos do Conselho, em sede de reunião, prestar informações, participar nos debates, apresentar requerimentos e formular ou responder a pedidos de esclarecimento, e, consequentemente, tomar parte das deliberações relativas às propostas apresentadas. Paralelamente a tudo isto surge um dever de estar informado sobre os assuntos correntes e os temas em debate, assim como de preparação prévia das reuniões que, por incidirem sobre assuntos técnicos e morosos, necessitam da devida atenção e compreensão.” Assunção Cristas: “É um órgão que tem competências muito diversificadas, nos casos de consulta e um órgão de reflexão sobre aquilo que a faculdade está a fazer em que a direção muitas vezes leva temas para serem do conhecimento e da discussão do próprio órgão e para colher essas opiniões, mas também é um órgão que tem de aprovar alguns documentos.” 4. Como funciona o processo interno de deliberação? Luís Miranda e Isabel Costa: “Qualquer membro do Conselho pode apresentar propostas ao Presidente do Conselho, para que este as inclua na ordem de trabalhos da reunião seguinte, devendo justificar a sua natureza, a sua necessidade e as consequências que a mesma pode acarreta. Já em sede de reunião, a proposta é debatida entre os membros, podendo ser sujeita a alterações. A discussão termina com a sua deliberação por voto direto, não secreto, dos membros efetivos, exceto nas eleições ou se estiver em causa a apreciação de comportamentos ou das qualidades de qualquer pessoa, nos quais o escrutínio será secreto. À exceção da aprovação e alteração dos Estatutos da Faculdade, que necessitam de aprovação por dois terços dos membros do Conselho, as restantes deliberações são tomadas por maioria simples dos membros presentes, salvaguardando-se o direito a prestar voto vencido. Surge então, na esfera dos membros, uma vinculação às deliberações tomadas e um dever de reserva.” Assunção Cristas: “Funciona de uma maneira bastante simples no sentido em que há uma agenda, os temas são trazidos para debate e discussão e depois quando é apenas uma troca de opiniões, portanto não há nenhuma decisão, enfim, há a discussão habitual e uma sumula sobre o resultado dessa discussão que fica em ata quando há uma decisão. Normalmente as decisões são tomadas por consenso e, portanto, a presidente do órgão ouve, retira e se for preciso coloca uma votação formal, mas em geral não é preciso colocar a votação formal e, portanto, são aprovadas por consenso.” 5. Como posso expressar uma preocupação minha perante o Conselho da Faculdade? Luís Miranda e Isabel Costa: “É possível contactar o Conselho da Faculdade por via do seu email institucional: conselho.faculdade@novalaw.unl.pt, ou diretamente qualquer um dos seus membros, cujos nomes e contactos se encontram no sítio online da Nova School of Law, no separador relativo a este órgão. Ademais, é também possível contactar os representantes dos estudantes por via do email: estudantes.cfaculdade.fdunl@gmail.com, disponibilizando-nos para responder a quaisquer questões que possam ter ou prestar esclarecimentos.”

  • For those who stay

    Grief is insane; it’s a feeling only those who experience it can explain. It’s knowing you will never  see someone again but still looking for them everywhere—in music, movies, tv shows, books,  places, parties, and within yourself. It’s trying to keep a flame alive that you know will go out; in  fact, it went out a long time ago. It’s accepting how indifferent we are and how short life is. It’s  looking back and realizing all the things you could have done but didn’t. But that’s normal grief.  Grief from suicide is different.  Grief from suicide is trying to find where you went wrong. It’s seeing that your best friend chose  to leave and didn’t give you a chance to help. Didn’t give you a chance to say how much you  loved them. Didn’t give you a chance to show how much life is worth living, how much THEY are  worth. Grief from suicide is looking at life with despair, thinking that at any moment someone  might choose to leave you, and there’s nothing you can do about it. It’s thinking: where did I go  wrong? How did I not notice? How did I not see that something was wrong that day? How do I  overcome being the last person to talk to him and still not having saved him? How do I overcome  being the one to tell your best friend’s parents that their son died and that you couldn’t do  anything? How do you understand that you were not there when he needed you the most?  For those who stay, it’s not your fault. You did what you could. Stop blaming yourself.  I know you will start clinging to your phone, always waiting for bad news. I know you will develop  empathy for everyone and learn to look at others with different eyes. I know you won’t want to  talk about your feelings to avoid making anyone uncomfortable but at the same time hope  someone asks so you can lift a weight off yourself. I know you will be ghosted by someone and  always wonder what you did, what you could have done, and always want closure. Because one  of the worst feelings is trying to talk to someone and they don’t respond. It’s that trigger taking  you back to all the “please answer me,” “please answer the phone,” “I love you, don’t leave me”  moments and never getting an answer back… because he was already gone. It’s the feeling of  preferring to be insulted and humiliated rather than ignored. And that’s something you won’t tell  people, because you don’t want anyone to think you’re weak or needy. In fact, you just want to  be able to breathe in peace.  I know you will put on the armor of a strong person, but deep down you’re not. You’ll say you’re  okay but you’re not. Or maybe you are and you don’t know. Who am I to say?  Perhaps in another life, I could have changed what happened; perhaps I couldn’t. Perhaps I  would have looked at my phone 5 minutes earlier and would have been able to call him in time;  perhaps he wouldn’t have answered anyway. What I know I would have changed was making sure  he knew how much I loved him and how much I would miss him. If heaven truly exists, I think he  knows that already.  But for those who stay, stop blaming yourself. You couldn’t have known and there was nothing  you could do. Stop thinking about what could’ve happened and move on.  For those who stay, have empathy for others, because if you don’t even know what’s going on in  your own best friend’s mind, imagine with strangers.  For those who stay, you don’t know how much tiny actions impact people in a good or bad way,  be kind.  For those who stay, say you love who you love because you’ll never know when it will be the last  time.  But above all, for those who stay, love yourself and know that someone loves you, ask for help,  talk, allow yourself to feel, and be kind to yourself. You’re stronger than you think. Life is hard,  but it is worth living.

  • Papel branco

    Papel branco mal te vejo, Mas sinto esta necessidade, De te preencher plenamente. Com as minhas palavras, apenas palavras  Não sei ainda a história que te vou contar. Sei apenas que és o meu grande confidente E que esperas que te complete pacientemente  Trago te comigo porque nunca desiludes. E eu já cai tantas vezes, Bati mesmo no fundo Da solidão inerente do mundo  Mas Foste tu a minha salvação, Desvendaste me o teu poder, Ouvi a tua melodia como se fosses uma canção, E guiaste me de volta ao meu ser As pessoas menosprezam te, amigo, Mas eu nunca faria tal atrocidade, Só vivo se viver contigo Tu és quem eu sou de verdade

  • Sonhos de Menino IV

    Hoje, sonhei que estava num videojogo onde podia voltar atrás no tempo usando saves. Estava numa festa à noite e era o Walter White, acho eu. Acabei por aperceber-me que o jogo era uma forma secreta de me punir, porque nunca conseguia ganhar: inevitavelmente mamava uma de três raparigas, mas só mamei duas porque só joguei duas vezes. Com uma, fomos ao jardim das traseiras da casa da festa, e ela transformou-se num monstro sem olhos e um sorriso demasiado grande, com a cara coberta de sangue. Com a outra, fomos a uma casa de banho mas ela transformou-se num blob deformado. Ambas me tentaram matar. Hoje, sonhei que matei o meu bebé mas foi nos sims. Atirei-o para a frente de um carro. Ele estava coberto de sangue, então eu meio que me esqueci que não estava nos sims e achei mesmo que tinha morto o meu filho, logo, a minha culpa imensa compeliu-me a procurar esconder o corpo de forma subtil. Liguei ao ******, que estava a fazer um podcast qualquer conservador. Ele sugeriu-me contactar um amigo comum nosso, que era serial killer, e, logo, teria experiência. Também contei à ********, mas por essa altura já tinha ultrapassado a culpa e estava a fazer piadas sobre o assunto. Ela ficou chateada comigo por algum motivo. Depois lembrei-me que só matei o bebé no jogo e não na vida real e fiquei muito aliviado. Isto tudo passou-se ao pé de um castelo à beira mar entre falésias. Hoje, sonhei que estava num planeta que parecia a lua, mas com grandes escavações que lhe abriam ravinas e cavernas no solo. Numa destas cavernas, encontrei várias pessoas, incluindo os meus pais e alguns amigos, e velhas da igreja. Uma das pessoas que não conhecia era um rapaz meio cromo, e quando estas pessoas foram almoçar na caverna lunar, sentei-me ao lado dele. Ele deu-me de provar uma comida qualquer e limonada, e explicou-me que fazia remo. No entanto, neste mundo do sonho, nesta versão de remo o objetivo era dar com o remo nos oponentes até toda a gente menos tu terem caído à água. O rapaz era sarcástico mas fofo e rapidamente ganhei um fraquinho. Ele também. Houve um momento em que ambos começamos a sorrir feitos parvos e ele disse "oh shiiiiit". Quando o almoço acabou, estava de volta à cozinha de minha casa, as pessoas indo embora. Ele despediu-se de mim à frente dos meus pais. Ele perguntou "beijinho?". Eu dei-lhe um no canto da boca. Depois acordei. Hoje, sonhei que estava numa casa qualquer e tive de atravessar com uma criança uma sala pantanosa com três crocodilos. Ao início correu bem, enganei os crocodilos para se atacarem entre si e dois deles morderam o outro até ele estar feito em papa, sangue por todo o lado. Mas depois, não consegui manter a criança longe dos crocodilos e isso também lhe aconteceu a ela. Quando saí da sala as pessoas estavam a chorar imenso e a culpar-me. Acho que os meus pais também lá estavam. Depois, estava numa festa de funk a dançar sentado numa cadeira com as pernas à volta de uma rapariga. Foi giro.

  • Esta é uma história de amor.

    Esta é uma história de amor.  Talvez das mais banais de todas.  É uma daquelas que não tem um final feliz, mas que nos calha a todos - a história do amor não correspondido.  A história que não tem vários capítulos, porque parece que todas as páginas são iguais - és tu a rir e eu a olhar. Simplesmente a olhar. Sou eu a analisar todas as nossas interações e a fabricar cenários que nunca vão acontecer, a cair ainda mais com cada piada e a derreter em cada sorriso partilhado.  Sou eu a tentar seguir em frente, a tentar convencer-me que não vale a pena, de que isto não faz sentido nenhum, e depois és tu a rir e, de repente, nada precisa de fazer sentido.  Sou eu a ver-te passar e a não conseguir desviar o olhar, são todos os outros rapazes a tornarem-se barulho de fundo e todas as outras conversas a diluir.  Sou eu a escrever poemas e cartas de amor que tu nunca vais ler, porque eu nunca as vou mostrar - o medo de tu saberes e dizeres que não aparenta ser mais forte do que a ínfima chance de tu concordares em cair comigo.  Sou eu a perder-me no teu ser e a já não me saber procurar - porque nada aconteceu e não vai acontecer, mas então porque é que parece que demos a volta ao mundo juntos?  E as páginas vão passando e a história continua a ser a mesma - tu a rir e eu a olhar. Simplesmente a olhar. É a história de amor mais banal. É a história de amor mais triste.  E tu nem a conheces…

  • O fogo efémero

    Vivemos a vida a correr contra o tempo. Falamos, andamos, escrevemos e dormimos como se estivéssemos sempre com falta de tempo, como se a qualquer momento esse relógio cujos ponteiros se mexem vagarosamente ao longo da vida explodissem amanhã e o relógio simplesmente deixasse de funcionar e nunca mais nos conseguíssemos mexer. Mas ao corrermos contra ao tempo, abdicamos da degustação dos seus sabores, não o tratando como o luxo que ele é.  Há quem diga que correr contra o tempo é reconhecer exatamente essa delicadeza e luxuria que é ter tempo. Se temos tempo, devemos preenchê-lo ao máximo, viver ao máximo, fazer tudo o que conseguimos dentro das limitadas 24 horas que o nosso pequeno dia tem. Assim, segundo esses maratonistas, é que se vive realmente. Mas, de repente, um dia estamos livres por um momento e encontramo-nos diante do espelho. Os nossos olhos estão carregados de círculos negros por baixo, talvez tenhamos perdido ou ganho excessivamente peso sem sequer nos apercebermos no meio da ânsia de viver, as rugas da nossa cara estão mais acentuadas, já não sorrimos da mesma maneira, o brilho da ambição que rugia fortemente nos nossos olhos agora apenas uma pequena brasa. O fogo ardeu vivamente e agora já não tem como se sustentar, já não tem combustível para reacender essa chama que vive dentro de nós. Tudo porque deixamos o fogo arder demasiado forte até que ele se apagou e apenas nos restou a memória da sua glória. Já não corremos contra o tempo, agora vagueamos nele. Perdeu-se o sentido, perdeu-se a causa. A causa é antiga, já não se mantém. O sentido é outro, já não o conhecemos. E agora que andamos, andamos em linhas incertas, linhas que não têm um princípio ou um fim, na esperança de encontrarmos de novo o fio condutor, o rastilho que vai reacender de novo o fogo que pode voltar a arder em nós. Mas para tal, para que o fogo continue a arder, é preciso cuidar dele, amá-lo, apreciá-lo, não o tomar como um dado adquirido. Esse fogo é efémero, tal como a vida é efémera, as relações são efémeras e nós somos efémeros porque a grande condição da existência humana é a sua efemeridade. Então se é efémero, há que fazê-lo durar o máximo possível, para que se possa olhar para trás um dia, quando as pernas pesarem, as pálpebras estiverem a fechar, o ar já for pouco e a vontade já não for existente, e poder dizer com toda a certeza e clareza do mundo, num último suspiro: eu vivi.

  • Sou o futuro da nova, mas… também sou uma quota

    Não que queira ser intriguista ou até “confusionista”, mas de facto ironia e hipocrisia rondam nesta faculdade com a mesma facilidade que eu tenho em cravar um cigarro. Não digo que eu mesma não tenha cometido as minhas próprias atrocidades, até diria que eu própria sou a rainha para exceder limites e zonas de conforto.  No entanto, não posso ser ignorante a coisas, que antes não me incomodavam, e que agora, apenas me deixam alerta de como aquilo que de facto é minoria em Portugal, para muitos acaba por ser a maioria. E digo, não no sentido de querer ser uma voz que sofre isto todos os dias, mas sim como uma pessoa que sempre esteve no meio dos dois mundos. Como uma pessoa que nunca foi branca o suficiente para ter a voz e os privilégios que esse grupo tem e nem negra o suficiente para que possa ser a porta-voz dos verdadeiros sofrimentos e injustiças que o outro grupo sofre. Até porque, esta nuance de pertencer ao meio desta fronteira entre os dois lados, acaba por mudar consoante o ambiente em que me deparo, mas uma coisa é certa, pelo menos nesta questão de me sentir integrada e de me sentir valorizada nunca foi posta em causa na minha terra, mas nesta, que também é minha por direito e nesta faculdade que, agora, também faz parte de mim, a história começa a ser outra. Não digo que haja uma deficiência de noção porque de facto não há, mas diria que há uma deficiência de consciência. Consciência de que ao tentar evidenciar algo que já existe (e que permanece de forma orgânica) num modo totalmente artificial, acaba por, pelo menos para a minha pessoa, desvalorizar e arrisco em dizer desrespeitar um grande número de pessoas que em primeiro lugar nunca se sentiram inferiores.  Nunca imaginei que algum dia fosse sentir um tamanho desdém em ouvir pessoas perguntar se há ou não alunos PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa) e automaticamente sentir os seus olhos em cima de mim como se esperando que eu me denuncie como não portuguesa, o que por sinal, não é verdade, nem mentira, sou os dois e não espero que me discriminem ou se iludam com essa ideia só por não parecer a típica capa daquilo a que chamam português.  Ou então a típica piada que é saber que ainda existem pessoas que se agarram e idolatram estas “minorias”. E que sentem uma “enorme” afinidade e compaixão pelas mesmas, mas lamento informar aos caros senhores doutores e doutoras que quem transporta desta “excessiva” empatia por nós, “minorias”, não passa se não acima de tudo, de um pobre coitado que não tem noção do próprio mundo que o rodeia. E a justificação para isto encontra-se nesta ignorância, nesta falta de conhecimento e esta possível curiosidade de querer conhecer e de não entender, por isso, realmente como é que as coisas funcionam. E daí surgirem questões como esta, que até podem incomodar e que eu até tento relativizar, mas como disse sou pessoa e até estes pequenos assuntos que geralmente não incomodam…às vezes incomodam. E compreendo que talvez haja uma falta de conhecimento e que haja esta constante necessidade de mostrar ao mundo a evolução e reconhecimento que por hoje passamos, mas apesar de tudo isso ser de facto verdade, não vejo, sinceramente, a urgência de ter de provar alguma coisa.  Para quê provar algo que já existe, algo que a maioria não diferencia? Então,  Querida nova, obrigado por me fazeres o teu futuro, mas por favor não me faças de mais uma quota…

  • Catarse artística

    Procurei por ti no dicionário. Significas “purificação emocional” ou “purificação das almas através de uma descarga emocional”. Tão puro, tão banal, tão ridículo. Acrescentei-te a arte ao nome e fiz de ti a minha caixa de Pandora.  [ Estou a mentir. Aristóteles encontrou-a muito antes de mim, definiu-a como “a libertação das emoções através da tragédia” e escravizou Édipo como prova. Shakespeare seguiu-lhe os exemplos e matou Romeu e Julieta, na tentativa de causar todo um exorcismo coletivo na Humanidade ]. É como se houvesse constantemente algo dentro de mim que não quer falar nem calar, não quer traduzir, não quer sair. E basta uma aparição tua, por muito curta ou ténue que seja, para esse algo abstrato passar a ser real. Seria justo personificar-te. Mais do que justo. Dizer-te que tu e a vida são um só. Sim, seria justo. És das criações mais puras de Deus, és o filho da intervenção divina, és império, igreja, mesquita, capela.  [ A catarse religiosa define-se como a libertação de todos os pecados e a comunhão com Deus. Confesso que a minha veia anti-Cristo pensa que é um conceito de propaganda religiosa ] Existes na religião, na literatura, na música e em tudo o que há de puro e de impuro. Não existe catarse sem arte, nem existe arte sem catarse. Deus faz o Homem, o Homem faz a Arte, a Arte faz a Vida. Pergunto-me se serás tudo o que tenho - tu e a depressão artística que anda de mão dada contigo. Não existem traduções suficientes para ti - longe de mim pensar que sei traduzir o que quer que seja. Mas, se mo permitires fazê-lo, definir-te-ei assim: és apocalipse e rendição, destróis e aniquilas enquanto eu assisto e digo “quero mais”. És a fuga e tortura de quem sente e o sonho de quem não sente. Faremos da vida a nossa divina comédia, inventaremos o inferno, o purgatório e o paraíso, como Dante assim quis.  Arruinaste-me a vida. E ainda assim dedico-a a ti.

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