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- à deriva
sinto o barco que já soube conduzir, a afundar comecei a viagem, estava preparado, pensava eu. tinha o mérito, o estudo, tinha a dedicação. acreditava que não havia onda que me derrubasse. no início a ondulação estava calminha. e eu conduzia o barco suavemente, nas calmas, era eu e o barco e o mar, unidos num só, em sintonia e amizade, em direção a bom porto. aventurei-me, brinquei, deixei o barco chapinhar na água calma e tenra, tinha tudo controlado. a primeira onda, nem dei por ela. foi tão suave, nem a senti. continuei a minha viagem. veio uma segunda, uma terceira, continuei como se nada fosse, um bom capitão sabe lidar com alguma ondulação. e de repente já não eram três, eram dez, vinte o barco abanava por todos os lados, por mais que tentasse o leme já não obedecia, e vi-me forçado a questionar a minha capitania. era um bom capitão, ou tive um mar fácil de mais? quero voltar ao mar calminho e conhecido. quero fugir destas ondas que me atacam, me violentam, me odeiam. destas que se esforçam para me afogar vezes sem conta. estou cansado de me proteger contra o embate. estou desperado por uma faixa de areia onde possa deixar o barco e nunca mais voltar ao mar. quero que as ondas voltem a ser minhas amigas, quero voltar a ser eu, o meu barco e elas, em amizade, sintonia e ligação. quero parar de odiar o que outrora amei. quero chegar com o barco, direito, a bom porto. é pedir muito? estou cansado. cansado das ondas, da viagem, da batalha. quero descanso. não aguento mais os dedos engelhados e a rispidez da onda bruta que abana o barco que com tanto carinho construí. como aproveito a viagem se é ela a razão do meu desespero?
- Creio que me escasseia a espontaneidade
Tento e persisto no tentar, mas ainda no agora ela me foge. Talvez, o mais provável (mas que recuso a aceitar) é que nunca a persigo de verdade. Esculpo letras sob a bandeira da intelectualização dos devaneios que não assumo, mas sou incapaz de lhes dar os respetivos nomes de família, localizações e quaisquer especificidades que me aproximem da situação relatada, como se manter tal frieza de algo adiantasse. O devaneio persiste, e eu na tentativa em vão de uma escrita floreada. Persisto na pontuação (quase) certa, na gramática mais correta que consigo fabricar no momento - sem prejudicar o meu modo de expressão - em nunca finitas correções, em escrever num teclado antes de cravar para a posteridade a tinta da minha caneta preferida no meu caderninho prateado que comprei a meios de uma adolescência atormentada. Ainda agora o faço, incapaz de romper com o vício da tentativa de perfeição literária. Ai, o ultraje de escrever diretamente no papel que ficaria riscado! Ai, assumir aqui uso Lakudo 0.7 desde que descobri a sua existência na papelaria do liceu! O ultraje que seria personalizar textinhos que não chegam nem aos olhos do meu público mais próximo. Escrever a quilómetros da minha realidade, como se disso beneficiasse, como se adiantasse, como se um alguém fosse analisar tais construções sintáticas. Queria ser como aquelas pessoas que escrevem “A fez-me B, isso magoou-me porque C. Sinto x” - objeções principais: i) recuso-me a aceitar que a minha vida seja típica assim, que os meus sentimentos se resumam à lei causa-efeito da física e demais ciências concretas e que não seja tudo mais complexo; ii) descreve-lo, assim, tornaria a situação real (como se deixasse de o ser por eu cometer omissões); iii) fazê-lo seria abdicar da minha esperança de que estas palavras tenham valor para além daquele que lhes dou. Devia aceitar que não sou o próximo Pessoa, que estes devaneios não têm valor. Devia perder o desejo literário, o desejo de emanar poesia, o desejo da arte. Devia ser só eu, orgulhosamente. Devia assumir que as palavras que aqui ficam não são mais que confissões longas e doloridas da minha adolescente incurada (ou será criança?) - mas persisto, e persistirei, nestas frases que perdem sentido com a falta de detalhes. Não me parece natural dá-los, mas sobretudo dói-me. Talvez partilhar o meu tipo de caneta predileta seja demais (devia apagar??). É que magoa. Creio que torna a situação real, e não o quero. Quero mantê-la longe, noutro planeta se possível, por favor, e deixa-la sossegadinha no pretérito em que ocorreu. Que ela me largue, por favor! Que ela fique lá, e eu aqui, não génio, com o desejo implícito de ser génio irreconhecido, ignorado, mal tratado por um mundo cruel. Separadas, assim, talvez possamos encontrar a paz última que prometeu a sacra igreja, que essa seja estóica como RR e bucólica como Caeiro, já que nem isto consigo decidir, e que não me consuma o pouco que me sobra. Que a separação me deixe sã, que eu tanto preciso. Que me deixe viver, que me tire as amarras, que me liberte desta prisão que sempre fui eu, da minha memória enviesada para o traumático. Que não seja a morte, que essa não chega para o tanto que descrevi. Que não seja dolorosa, que dores já tenho de sobra. Que seja rápida, que o cansaço já me pesa. Ou que seja, só, se possível for; se não, aqui ficarei, amarrada à insuficiência que sou e serei, até ao fim dececionada com tal.
- Lembro-me que... (versão batismo do caloiro 23/24) - parte II
Sissi Leve é um adjetivo estranho para caraterizar um dia tão intenso quanto o dia do Batismo. Não consigo evitar que seja essa sensação de leveza que me invade quando, como se se tratasse de algo que tivesse acontecido há uns bons anos, relembro já saudosa aquela mágica tarde que, para alguns de nós que tiveram horas infinitas a tentar reaver a dignidade capilar, se prolongou num excelente início de noite. Sentada no relvado imagino o que estarão a pensar aqueles olhos que, do outro lado do lago, se espantam ao verem o seu tão apreciado café pós-almoço ou a sua tarde de confraternização interrompida por um espetáculo peculiar: os volterini e uma manada de minions vermelhos a encaminharem-se, vez a vez, a pares ou em trios, em direção à água para realizar um ritual, no mínimo, interessante e até cómico dada a colher gigante envolvida. Houve quem face a esse cenário instintivamente tirasse os telemóveis para fotografar tão invulgar momento e, assim, munir-se de suporte fotográfico para quando aquele cafezinho na linha d’água no dia 17 de novembro surgir espontaneamente em conversa. Vi estes e outros olhos a esbugalharem-se ao longo das várias horas que passei enquanto bom minion vermelho sentada a aplaudir os meus colegas e até alguns que já considero verdadeiros amigos, mas que há dois meses nada mais eram do que completos estranhos que tinham colocado a mesma opção que eu. Apesar de ser sempre referido como um dia inesquecível, senti sempre que havia uma certa aureola de mistério em torno daquele evento, um certo secretismo que, agora, compreendo que só tornou tudo mais mágico, porque quando não criamos expectativas, baixamos a guarda e estamos mais predispostos a deixar ser, a deixar fluir. “Vai um a um? Vou ter que ver esta gente toda? Não podia ir toda a gente ao mesmo tempo para ser mais rápido? Que grande seca”, pensei. Agora a minha opinião é outra, sei que fazia tudo parte do processo, desde não ouvir o nome de praxe a ser proclamado pela Comissão- devido à fraca qualidade do altifalante, não querendo de modo algum desrespeitar tão nobre conjunto de doutores e veteranos- seguido do levantar rápido, o descer aquela pequena inclinação de relva até o tirar as sapatilhas e colocar os pés no frio chão, o olhar para os lados e ver duas pessoas que não me eram nada e que agora são casa. No seu meio caminhei até considerarem que atingíamos a profundidade de água certa para, de joelhos e “de quatro”, levar com água da colher e com alguns chapinhos de água extra, por fim levantei a cabeça e sorri. O sol já se tinha posto, existia um friozinho inegável a trespassar-me, mas o coração estava quente, pois fora invadido por uma rajada de felicidade, daquelas que não se sentem todos os dias, daquelas raras, fugazes, que se costumam associar aos momentos mais mágicos e puros. Durante aqueles instantes nada mais importou, não os olhares de estranhos, não os uivos dos colegas e amigos, não as mil e uma coisas que tinha para fazer em casa ou para a universidade, nem mesmo as angústias associadas a esta nova etapa da vida, até alguma réstia sobrevivente de inibição social foi renegada para segundo plano. Toda a minha energia estava concentrada ali e somente naquele momento e naquelas duas almas bonitas com quem tive o privilégio de conectar nesta minha aventura. Confessemos, esta abstração total só acontece quando experienciamos algo mesmo mágico, certo? Sofia Barradas lembro-me que a maioria tinha sacos do lixo por baixo de si, para não sujarem nada. lembro-me de a minha madrinha tirar a capa dos ombros e dizer "podes ficar sobre a minha capa. é para isso que ela serve. para estes momentos." lembro-me que depois ela sugeriu tirarmos uma foto. eu, toda suja, pousei com receio a alguma distância dela, para não lhe sujar o traje. lembro-me que ela me abraçou com força, e lá tirámos a foto. sujas. eu, ela, e a capa dela. e ficámos assim. Mariana Cruz Lembro-me de pensar que nunca me tinha sentido tão feliz por estar completamente suja dos pés à cabeça. E de pensar que nunca mais queria comer piza na minha vida, nunca. E, principalmente, de ter a certeza absoluta de que, por muitos anos que passem, este dia vai ser uma das memórias mais bonitas que vou guardar comigo. Lara Cândido Lembro-me que… finalmente tinha chegado o dia derradeiro; o dia pelo qual eu ansiava com um misto de esperança - por saber que ia ser um marco importantíssimo - e de medo - por não saber exatamente porquê. Lá fomos nós, com a nossa prova mais viva do percurso que temos andado a demarcar desde o primeiro dia (aka a t shirt do caloiro, completamente imunda), para a linha água no Parque Eduardo VII, dando início ao primeiro momento solene da praxe. Lembro-me que foi incrível do início ao fim: a Comissão Académica de Praxe começou por nos dar a conhecer qual o peso simbólico deste evento - e as implicações do mesmo -, de modo a abduzir, da nossa parte, qualquer ideia de superficialidade ou de irrelevância. E, desta forma, percebi a razão pela qual o batismo seria um marco tão importante: é o dia em que não só passamos de bichos a caloiros, mas o dia em que passamos de miúdos que estavam sozinhos e perdidos para alunos que são simultânea e explicitamente elementos constituintes desta casa - à qual outras pessoas chamam faculdade -, e desta família enorme que tem tantos conselhos, tanto apoio e tanto amor para dar. Depois desta introdução, cada um de nós teve a honra de ser batizado com a colher da Magnânima Dux, mas apenas alguns é que tiveram a coragem de consumar o seu enorme apreço por este momento, ao renascerem por completo, ao mergulharem inteiramente na água. No entanto, o batismo apenas se deu por terminado após a sessão intensa de emporcalhamento pelos nossos queridos e queridas padrinhos e madrinhas, e que bela sessão foi esta: caloiros que representavam pizzas humanas; caloiros que tomaram o lugar de candeeiros andantes, pela quantidade absurda de glitter com que levaram,… havia de tudo, como se estivéssemos naquelas cenas dos filmes em que começavam uma luta de comida na cantina. Não quer isto dizer que não tivesse sido um momento igualmente marcante, uma vez que tudo isto faz parte da nossa tradição, e é como nós fazemos história no mundo académico: a minha madrinha sujou-me da mesma maneira que foi sujada pela madrinha dela, mas também adicionou um elemento novo - deixando, assim, o seu legado nesta linha histórica e de apadrinhamento que caracteriza a cultura praxista. Assim, enquanto a minha madrinha (e, devo salientar, a melhor madrinha que poderia ter encontrado) me deixou completamente suja de canela, vinho e glitter pelo corpo todo (tendo algum, até hoje, no cabelo), simultaneamente me inspirou e me transmitiu os melhores valores possíveis - abriu-me a porta à casa que é a FDUNL, e fez-me sentir o mais acomodada possível (e deixou-me tomar banho na casa dela). Assim, durante esta passagem embebida - não só de água, mas de apoio, amizade e amor - entre os padrinhos e os caloiros, senti uma enorme alegria e compaixão por todos nós, caloiros, doutores e veteranos, e, agora, espero pelo momento em que começarei, enquanto elemento decorativo e representativo desta faculdade, a ganhar pó - a espalhar a tradição e o meu legado, como a “condutora sem carta de metro”. João Coelho “No dia 17 de Novembro de 2023 deixei finalmente de ser o que era e passei a ser o sou, um caloiro.” Esta brincadeira intelectual entre os tempos do verbo “ser” pareceu-me uma boa forma de começar este testemunho. Não para mostrar que me esmero na escolha de tempos verbais (o que acontece, indiscutivelmente), mas para resumir o que aconteceu naquela tarde, a “tarde mais longa de todas as tardes”, como dizia Ary do Santos (Segunda nota intelectual do texto - e tudo isto com apenas três frases). Desde o caminho até ao local, ao sal que elegantemente nos atiraram, ou desde o frio que tive, ao conforto quente do abraço da Maria, esta foi uma tarde bonita. Quando por fim chamaram o nome para mim tinha escolhido, apenas tive tempo de pôr os meus chinelos e caminhar com ela em direção à água. (Nota relevante: Devido ao meu receio (real) de pisar uma pedra que me magoasse o pé e que me imobilizasse para a vida e ao medo (igualmente real) de pés, decidi levar chinelos) Lembro-me das palmas e dos comentários simpáticos das pessoas que estavam no local. Lembro-me de sentir o percurso meigo da água a passar pela minha cabeça, pelo meu pescoço, pelas minhas bochechas e, por fim, a pingar aos poucos para o lago. Estava finalmente batizado. Depois disto, estava realmente pronto para que cozinhassem nas minhas costas. E foi o que aconteceu. Enquanto o vinho branco era derramado nas minhas costas ou enquanto a farinha formava um pasta que escorria pela minha cara, a Maria perguntava-me incessantemente se eu estava bem. Estava. Estava genuinamente feliz. Após isto tudo, a minha madrinha chama-me à parte e dá-me o presente. Lembro-me de estar a tremer de frio, embrulhado na capa dela e de fazer um esforço hercúleo para não estragar o papel de embrulho, para o poder guardar como recordação. Lembro-me de conseguir, por fim, ver o meu presente. E, acima de tudo, lembro-me do que senti quando pude ver o meu presente: uma edição clássica dos Contos, do meu querido Eça, com uma dedicatória que me comoveu e que me comove. Mal sabia eu, quando estava a caminhar para a Linha d’Água, que o dia ia ser assim. Ainda bem que não sabia. Afinal de contas, a vida fica interessante com o elemento de surpresa. Quem diria.
- Lembro-me que... (versão batismo do caloiro 23/24) - parte 1
Matilde Proença Como assim? Como assim, levei com uma bolonhesa na cabeça, temperada com ingredientes duvidosos e até gostei? Como assim, integrei o espetáculo da tarde da linha d’água e, mesmo enregelada, parte de mim não se queria vir embora? Como assim, sorria, quase orgulhosa, às pessoas que olhavam de lado para a louca, de toalha às costas, que fui no autocarro de volta para casa? Das cadeiras de esplanada, dispostas como se da primeira fila do teatro se tratasse, percebo o quão estranho o espetáculo parecia. Percebo que se tenham desatado a rir, sentido vergonha alheia, ficado chocadas com o que viam… percebo… com certeza também já olhei assim para fenómenos semelhantes. Mas ali, com o corpo frio e molhado e a cabeça cheia de purpurinas e outras m*****, só consegui sorrir e tentar absorver a cada minuto toda a confusão que invadiu aquele (já não tão) verde relvado. Penso nisto e acho estranho. Como é que é possível ter gostado? Como é que é possível ter ficado feliz por ter ido e não me arrepender de nada? Que mundo é este que conheci? Quando olhei para os olhos deles percebi. Quando ouvi as suas gargalhadas maquiavélicas, enquanto faziam na minha cabeça o cozinhado mais complexo, como nenhum outro feito nas suas cozinhas. Quando me atiraram com ingredientes, com que, há um ano, também foram batizados … Quando me abraçaram, apesar de estar encharcada. Quando me lavaram a cabeça e me ajudaram a trocar de roupa. Quando se emocionaram e me deixaram vislumbrar uma pequena lágrima no canto do olho. Como assim? Como assim, conheci estes indivíduos há pouco mais que dois meses e hoje chamo-lhes madrinha e padrinho e já os quero guardar para sempre. Como assim? Olho para os meus colegas, hoje, talvez amigos, e rimo-nos juntos dos respetivos cabelos fedorentos e roupas sujas. Parece irreal (surreal?!) … Ainda assim, das poucas certezas que tenho, é que daquela tarde nenhum de nós se irá esquecer. Francisco de Jesus lembro-me bem do meu batismo. vou poupá-los dos detalhes, já que não é dele que vos vou falar. começo só por dizer que se as minhas afilhadas gostaram metade do delas como eu gostei do meu, são as meninas mais sortudas deste universo. foi um prazer vê-las crescer até aqui, vê-las tornarem-se caloiras, vê-las sofrer e levar com todas as merdas que lhes pus em cima de sorriso na cara (espero que não tenha sido muito bruto k k k k). no envelope que ofereci a cada uma, escrevi: o início de algo bonito. acredito veementemente que esta tarde terá sido, sem dúvida alguma, a viagem mais bonita que terei o prazer de viajar: a viagem do amor entre padrinho e afilhadas. que orgulho das minhas meninas! Isadora Elias Não sei o que passava na minha cabeça quando decidi sair do meu incrível país subdesenvolvido, da minha faculdade desconhecida e da minha ilha (sim, eu vivia literalmente em uma ilha), para entrar nessa faculdade cheia de alunos vestidos de Harry Potter, falando um português incompreensível e, ainda por cima, me mandando ficar de joelhos e gritar "ai mãezinha". Foi logo nos primeiros dias que eu me sentei, e pensei “realmente, esses europeus não batem bem da cabeça...." Quase comprei minha passagem de volta? Sim, mas resolvi dar uma chance aos colonizadores. Desde que me conheço como gente, já tinha uma rixa com os portugueses - mesmo sem conhecer nenhum, e ignorando o fato que eu sou metade portuguesa, visto que algum parente meu veio ao Brasil roubar o ouro e por coincidência me deixou com o sobrenome “de Castro”. O cara invadiu meu país, roubou nossos bens, mas me dar o direito de ter passaporte europeu que é bom... nada né? Fugiu com tudo que prestava e desapareceu, nem o nome do velho eu sei.... Mas tudo bem, voltando ao que interessa, essa rixa é meio verdade sim.... Brasileiros tem um pé atrás com portugueses, não importa o que digam e vocês nem tem o direito de reclamar. O semestre foi passando e eu fui tendo a chance de efetivamente conhecer os portugueses; de ver onde vivem, como vivem, o que gostam, o que comem, etc..., como um especial do Discovery Channel, sabe? Mas devo admitir, que já se passaram 3 meses e ainda não entendo nada que vocês falam, me desculpa. Eu poderia mentir e falar que amei todos que conheci até agora, mas prefiro dizer que gostei da maioria...... Gostei do jeito que vocês são sérios, de como ficam com cara fechada até se sentirem confortáveis e depois se soltam, de como são muito metódicos, de como se divertem com músicas brasileiras, do jeito que bebem horrores, e por aí continua. Prefiro me abster de falar dos xenofóbicos, que por algum motivo acham que sou burra e não percebo as brincadeiras, mas esses são poucos e opto por não me estressar. Voltando ao assunto das praxes, surpreendentemente eu me diverti horrores. Passei a gostar do “ai mãezinha", de encher, de chamar os “mais velhos” de doutores com a maior formalidade possível (apesar de eu ser mais velha que todos eles), e de todas as brincadeiras que eu participei e me humilhei em níveis inesperados, mas sem me arrepender de nada. Quando disseram que nós tínhamos que escolher padrinhos e madrinhas para o batismo, fiquei bem animada. Acabei escolhendo a primeira e única pessoa que eu sempre tive certeza, uma rapariga loira, de óculos, super agitada, que logo no primeiro dia das praxes foi apresentar um tal de Jur.nal e me deu a certeza, naquele mesmo instante, que eventualmente seríamos amigas. Essa Tuga é mais brasileira que muitos brasileiros nativos que eu conheço, é a única europeia que, se eu soltasse no meio do Rio de Janeiro (que é apenas pros fortes), saia ilesa e ainda colocava moral em todo mundo lá, sendo capaz de resolver todos os problemas que nenhum prefeito conseguiu até hoje. Por outro lado, coincidência ou não, escolhi também um carioca, com o sotaque mais forte que já vi (talvez tenha sido por isso que eu escolhi, já que é uma das únicas pessoas que eu consigo entender). Como uma boa brasileira, eu preciso de alguém ao meu lado que compartilhe da minha cultura, do meu instinto de sobrevivência, das piadas típicas brasileiras – com um senso de humor duvidoso, e um carisma absurdo. Meu padrinho foi uma das primeiras pessoas que veio efetivamente falar comigo e me conhecer nas praxes, assim que falaram pra ele que vínhamos do mesmo país; além de ter sido o primeiro a perguntar algo de verdade sobre mim, salvo o meu nome e de onde eu vinha.... admito que tinha meio medo dele no início, o “júri de praxe", quase uma majestade pra todo mundo ali, e eu não entendia nada. Achei que juntar essas duas figuras cheias de personalidade ia ser tranquilo, até chegar o batismo. No momento em que minha madrinha colocou a capa dela (imunda) no chão, percebi que havia juntado dois doidos. Esses seres ilustres jogaram tantas coisas no meu cabelo, que mesmo hoje, após 4 dias, ele ainda segue radioativo. Sinceramente, ouvir a risada genuína dos dois enquanto jogavam Guinness, leite condensado, ração de gato, salsicha, molho de tomate e por aí vai, no meu cabelo, fez tudo valer a pena. Lembro-me de quando fui caloira pela primeira vez – como foi no Brasil, caloura – e como tradição, passaram tinta em mim e consequentemente fiquei azul por uns três dias. O batismo da praxe me lembrou de casa, me lembrou da minha antiga faculdade, dos meus amigos, da minha família, e do meu sonho, que é o motivo deste texto existir. Para uns pode parecer bobeira, só umas pessoas te sujando, mas para mim é a realização de um sonho, e de todo o investimento de largar o curso na metade e começar de novo em outro país, o que faz toda essa radioatividade ter um sentido, e se tornar ainda mais incrível. Lembro-me também de uma frase que escutei pela primeira vez, de um sujeito que é conhecido por usar nossas havaianas brasileiras, que dizia mais ou menos o seguinte: “mas o que importa no fundo, são os amigos que fazemos pelo caminho". E quando volto ao que escrevi aqui no início, percebo que se não tivesse dado uma chance aos colonizadores, não teria conhecido esse ser de havaianas, o menino da terrinha, a menina do 758, a figura que adora encher, o fã da Luisa Sonza, as brasileiras fazendo colonização reversa, a líder que ama gringos, a menina que vive com freiras, o Ross Lynch da Wish, o heterotop e seu amigo namoradeiro, o comerciante nato, o menino bravo dos Açores, e por fim, a minha madrinha comunista e meu padrinho carioca. Termino esse relato da minha experiência, com um trecho da carta que minha madrinha escreveu, que por surpresa, fez essa menina de coração de pedra chorar: “whatever you do in this life, it’s not legendary, unless your friends are there to see it”. Beatriz Rodrigues Lembro-me de olhar para o dinheiro na minha conta e pensar se teria suficiente para tudo. Lembro-me de ir ao Lidl com a Maki e a Mello, de andarmos de um lado para o outro à procura das coisas, de desistirmos da farinha porque daria demasiado trabalho a tirar. E da jola que levámos em vez disso. Lembro-me de uma das minhas afilhadas me perguntar se a iria afogar. Respondi-lhe que não prometeria nada, mas ri-me por dentro. Lembro-me de sentir o chão e o frio da água nos pés. Lembro-me de batizar a Daniela mais cedo, pois fugia-lhe o tempo. De tentar não lhe sujar tanto a T-shirt e de lhe lavar rapidamente o cabelo. De pensar que o jogo do sabão no primeiro dia só me trazia a sorte grande. Chamei-lhe de afilhada winx, ela chamou-me de madrinha. Lembro-me de batizar a Raquel mais tarde. Perguntei-lhe qual era o meu sumo preferido, respondeu-me que não sabia. Gritei “sumo de pêra!” antes de lho despejar em cima. (Talvez o verdadeiro tesouro sejam as piadas dos padrinhos que recriamos pelo caminho.) Fiz questão de lhe dizer o quanto gosto dela e que estava orgulhosa. Lembro-me da nostalgia ao ver caloiros a serem batizados da mesma maneira que os padrinhos o foram. Lembro-me de abraçar as minhas afilhadas e de elas me agradecerem por ter aceitado ser madrinha delas. E eu só pensava que, por elas, finjo que já sou crescida e dar-lhes-ei o exemplo que me é dado todos os dias. Anónimo Estranho é pensar que alguém gosta de entrar no lago e ficar toda molhada. Estranho é pensar que é engraçado alguém sujar todo o nosso cabelo com os mais diversos produtos. Estranho é pensar que gostamos do espírito do nosso grupo de praxe quando nos incentiva a mergulhar no lago "mergulha!!!". Estranho é ter encontrado pessoas tão incríveis ao fazer as figuras mais atipicas da minha vida. Estranho é ter criado ligação com pessoas mais velhas que usam um traje. Estranho é querer conheçê-las melhor porque estou a adorar a relação que estou a criar com elas. Estranho é eu há um ano atrás nunca pensar entrar na praxe e agora ter sido batizada por dois seres humanos incríveis. Realmente a vida é estranha, E é estranha esta estranheza que experienciei. Mas se a vida não é feita para arriscar em coisas que parecem estranhas e depois surpreendem nos então não sei bem o que é. Se isto é estranho, estou feliz por estar a ser cada vez mais estranha. Mello Lembro-me de chegar e de me sentar com o meu querido António, e de com a Jéssica. De tomar café e comer um donut. De uma pausa para fofocar, de uma pausa para pensar. De ir lá fora, cumprimentar tudo e todos, e de me voltar a sentar. De gostarem da minha corrente no traje, que eu tão entusiasticamente respondia com ’12 rosas – 12 afilhados!’. Lembro-me de chamar a minha Afilhada Francisca – caloirinha, coitadinha – ao bar para lhe dar a prenda – com as 4 folhas que lhe tinha escrito, e que tinha mandado a imensa gente para ver se achavam bonito. De lhe ter dado o caderno para ler, e de ter fingido que não estava com medo da reação. Foi boa. Foi muito boa. Esbocei-lhe um sorriso. Voltou para a aula. Lembro-me da Mouquinho me ter chamado à sala de estudo do segundo andar. De ter mandado SMS à Francisca, e lhe dito ‘vem comigo e traz as flores. Oportunidade perfeita de a pedir’. Margaridas rosas. Como eu sugeri. E ela nervosa – já não me lembro o que é os nervos de ser caloira, e de pedir uma madrinha. Passou demasiado tempo. Lembro-me do pedido – de me chegar para o lado para revelar a Francisca, de ela se meter de joelhos, e a pedir para a batizar. Da Maki estar feliz de irmos batizar juntas alguém. Minha querida. Minhas queridas. Lembro-me de ficar imenso tempo a conversar com o Joura. De ele se queixar do colete arrebentado, descosido, e eu com as minhas agulhas de bolso. Mas não tinha linha – ela desfez-se nas minhas mãos. Agradeceu-me à mesma. Disse que já se ‘sentia com o colete cosido’ só do meu esforço. Pensei que iria ficar triste se ele se fosse embora para o ano. Ele. E todos os outros. Enquanto eu fico. Lembro-me de nos metermos a caminho. De ver o Afonso e conversar com ele num instante. De preencher o diploma da Francisca, de a Maki ver um erro no do Fernando, e de eu ir à AE em busca de corretor. Do Gonçalo me dizer ‘Olha a gaja’. É verdade. Sou eu. A gaja. Lembro-me de ir a reviver memórias na maioria do caminho. De chamar pelo António e de lhe dar a mão. De dar um abraço ao Riccardo e perguntar se estava entusiasmado. Dos caloiros dos Favaius. Dos caloiros dos Favaius. Queridos. Lembro-me de me sentar com o Afonso na capa da Sofia (acho eu?) e de ficarmos a apanhar uma seca descomunal. De falarmos de tudo, de não falarmos de nada. Passaram por nós umas quantas pessoas. Passaram-se duas horas num instante, passaram-se duas horas numa eternidade. Lembro-me de ir ter com a minha irmã Joana, com o cabelo cada vez mais vermelho. De mandarmos foto à Rita. De combinarmos ir almoçar com ele segunda. E fomos. Lembro-me de ter frio, de nunca mais ser a vez da Francisca. Lembro-me da minha Gi ter nomes intermináveis para os Afilhados dela, todos com coroas de flores. Lembro-me de pegar na Maki e irmos batizar a Francisca, e lembro-me de que queria despachar tudo porque tínhamos ainda de passar por minha casa. Lembro-me de glitter. De massa crua em coroas. Lembro-me de apanhar o António pelo meio do caos, e de me encostar a ele. Lembro-me da Isabel e do Riccardo a encharcarem o caloiro deles, e de comentar ‘eles não sabem brincar, meu deus. Lindos.’. Lembro-me de embrulhar a Francisca na minha capa, e depois na capa da Maki, pois ela não tinha frio. Do Orey, e do abraço forte que me deu – como se o precisasse mesmo. Espero ter ajudado, neto. Lembro-me de pegar na Maki, na Francisca, no Tiago e na Bea e de nos tentarmos meter num Uber. De termos situações bizarras com eles. De conseguir chegar a casa. Lembro-me de lavar o cabelo à Francisca. De falarmos do que raio ela estava a fazer em Direito. De ela me responder que só não queria desperdiçar uma boa média. Que compreendia. Dei-lhe umas toalhas. Fui conversar com o resto. Estivemos os 4 entre a varanda e o meu escritório, e falamos de muito. Falamos do Jur.nal. Do António – só coisas boas, filho; que gostamos dos teus textos. Das pessoas. Falamos de Jaloiros, de Tatus. De mim e da Maki. De como estávamos atrasados. Lembro-me de chegar. Do batom vermelho da Ana Leite. Da minha Maki e da minha Beatriz Jesus me ajudarem a pagar por não haver MBway. De pedir para sair com a Sofia Tello Barradas, e com a Maki. De falarmos de um pouco de tudo. Da Francisca estar ao telefone. De falarmos. De falarmos e falarmos e falarmos. De ir ver os Reclusos, porque queria imenso estar perto da minha Isabel, e do António. De querer ver o Joura. De ser interrompida pelo Rafael, que, sempre persistente, me ladrou e me fez 30 por uma linha para me pedir como Madrinha. Mandei o pastar. Ri-me, porque que mais podia fazer? Ri-me. Fui ver da Francisca. Fui ver da Maki. Fui ver dos Favaius. Lembro-me de não conseguir chegar à minha Gi. Do Joura esconder um jarro de cerveja e dizer que era dele, mas que abria exceção para mim. Do ‘fumas connosco, certo?’ e eu, com um grande sorriso, respondi que ‘claro’. De dar as voltas. Da Eva se rir, se rir para mim, tal qual como o Padrinho dela faz. E falando nele, estava eu finalmente com o meu querido António, e lá vem o fulano. Estica a capa, mete-a no alcatrão da estrada, e perante o olhar da AnaCom e da Luana, mete a testa no chão, colada aos meus pés e implorar que eu seja Madrinha dele. Elogiou-me. Disse que gostava muito de mim. Disse que ele era um mentiroso. Continuo a achar que é mentira. Lá lhe disse que ‘vá, pronto, pode ser’. Celebrou-se – desapareci com o meu António, e encostamo-nos longe da confusão. Rimo-nos do absurdo que tínhamos vivido. Disse-lhe que ele era muito especial para mim. Que ele era, e sempre seria, o meu menino. Que no meio de tudo, eramos sempre nós os dois. Encostamos a cabeça um ao outro. Lembro-me da minha Maki – sim, já a mencionei dezenas de vezes. Perdoem-me. Ela é demasiado importante para falar só de passagem. Fiquei triste quando me apercebi que já tinha ido embora. Mas que a minha conexão com ela é algo de natural, sem palavras. Faz sentido. Ela compreende o que somos uma para a outra, e eu o mesmo. Simples, honesto, sem defeitos. Lembro-me de estarem todos felizes. Demasiado, por vezes. De coisas das quais não posso falar. Da Beatriz Jesus a pegar em mim, e dizer ao Rafael que não me queria partilhar com ele. Da Laura ser um estrondo, e de me fazer rir. De estar com as meninas, de cantarem todos Lana Del Rey em pleno pulmão. De estarem todos felizes. Também o estava. E sóbria. Muito, muito sóbria. Sentia frio. Queria a minha cama. Da Francisca, da Maria, e da namorada dela – Sofia, certo? – me fazerem companhia enquanto esperava pela minha boleia. Do António se ir embora com o Francisco e a Concha – esta que me disse para não esquecer que eramos ‘manas da costura’ – e de ficarmos as 4 para trás. De esperarem comigo. De arrancar uns sorrisos. Da Francisca perceber que vou ficar mais um ano, e de suspirar de alívio. Alivio, certo? Ela estava feliz de eu ficar mais um ano. Querida. Querida. Caloirinha. Princesa.
- Ne me quitte pas
Lisboa, algures pelo quente tempo de outubro de 2023 Querido amor, meu carinho, minha ternura, meu doce Drummond dizia que comer sem fome, amar sem desejo é tudo a mesma coisa. E que fome de leão eu tenho. Sabes quando gostas tanto de uma coisa ao ponto de a quereres trincar e mastigar? Amo-te tanto que era capaz de te engolir, cairias pelo meu esófago e dormirias a sesta no meu estômago. Lamento se ele te perturbaria o sono, às vezes, não funciona muito bem. Ninguém, mesmo que tentasse com muita força e fechasse os olhos até as pestanas causarem buracos, conseguiria sonhar alguém tão perfeitinho como tu. Matas Niilismos, trovões e atores de novela que nem mentir que sentem sabem. Desperdiçar tempo contigo neste mundo doente tem sido a maior alegria da minha vida. Não me lembro do primeiro dia que te vi, não me lembro como te conheci, acho que sempre viveste dentro da minha cabeça e que te conheço há exatamente 20 anos. Penso que só agora, inocentemente, é que fui capaz de reconhecer o que me diziam: “Sempre te apaixonaste pelo Amor, mais do que por qualquer pessoa no mundo”. E o mundo é tão grande, Amor. Tão, mas tão grande. Eu tento agarrá-lo e ele foge-me sempre pelas mãos. E é verdade, amo-te só por pensares, por existires, por seres, isso basta-me. Sabes que respirares tranquiliza-me, apaixona-me, cega-me. Isto não acontece com Ninguém. Nunca Ninguém me fez afundar como tu, nunca Ninguém me fez querer vomitar as entranhas como tu, nunca Ninguém leu tão bem a minha letra manuscrita quanto tu. Não sei se o endeusamento que te faço é bom para o nosso caso, mas não faz mal. Eu sempre fui muito tolinha e me imaginei muito pequena. Se tiver de andar em bicos dos pés a minha vida inteira para me poder embriagar a olhar para os teus olhos, fá-lo-ei. Sabes como me interesso por tudo e me comprometo a nada, mas não serás alvo da minha irresponsabilidade, a ti rezo e faço de ti minha oração: Deixa-me descascar-te as laranjas, deixa-me ficar em bolinha na tua cama quando a noite soprar frio, deixa-me dar-te beijos demorados antes de dormir, deixa-me dar-te pontapés de baixo da mesa quando dizes algo inapropriado, deixa-me encostar a minha bochecha à tua, espalmando as duas faces como se fossem duas panquecas, deixa-me contar-te os dedos das mãos e os dedos dos pés, deixa-me soprar-te na cara depois de chorares dos olhos, deixa-me agarrar no teu coração como se fosse um urso de peluche, deixa-me usar os teus casacos grandes e fingir que sou um gigante, deixa-me dar-te beijinhos atrás da orelha, deixa-me domar o tempo por ti, quando não o consigo fazer com ninguém, deixa-me fazer-te café queimado. Deixa-me gostar de ti. Je ferai un domaine Où l'amour sera roi Où l'amour sera loi Où tu seras reine Ne me quitte pas Ne me quitte pas. Sofia. —------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Lisboa, semi-frio de 14 de novembro Querido Amor, Vou-te contar a história de um dia de verão em que te vi em todo o lado. Acordei muito cedinho, acho que era agosto. Inícios de agosto, sim! Lembro-me de ter registado os inícios do mês no caderno preto, sentada num banco do jardim e de escrever sobre a incomensurável passagem do tempo, porque… era agosto. Fui no autocarro para a Estrela. Um casal idoso entrou de mãos dadas. Tinham camisas muito à hipster e equilibravam-se um ao outro sempre que o autocarro fazia uma paragem brusca, dizendo “Oh, outra vez…”, mas sempre sorrindo um para o outro. Saíram umas paragens mais à frente. Caminhei até ao Jardim da Estrela sozinha, sentei-me no pior banco de jardim do parque, era o que estava ao pé das obras. Olhei muito tempo ao meu redor. Um cão cheirou-me o pé, eu sorri-lhe e a dona sorriu-me também, como se fosse a ela que tivesse esboçado um sorriso. Uma mulher muito bem vestida riu-se quando viu um bebé a correr para ela e um homem atrapalhado atrás da criatura minúscula. Um rapaz alto estava a jogar à bola com um menino, presumivelmente, seu irmão e sorriu-me. Nesse dia, estava sozinha a la Caeiro, a diferença é que pensava. Pensava muito, sabes como eu sou. Penso sempre muito. Mas, desta vez, não quis puxar os meus pensamentos pelo colarinho da camisa, agarrar-lhes pelos ombros e chorar-lhes para que parassem de se mexer. Nesse dia, fui amiga, eles sussurravam, não gritavam, eram tão bonitos, apetecia-me dar-lhes sopinha à boca. Nesse dia, escrevi sobre o início de agosto no caderno preto, mas também escrevi sobre ti. Sobre te ver em todas as coisas que beijavam os meus olhos nessa manhã. Hoje, não é verão. Estamos nos fins do outono. Escrevo-te com a auto-perceção de que foste sempre o destinatário fiel das minhas palavras. E, apesar de não ser ingénua o suficiente para acreditar que não continuarás a dormir nas estrelinhas do que escrevo e em tudo o que vejo, estou aqui para te dizer que os meus gritos para que não me abandones foram tolos. Tu não me abandonas. Não abandonas Ninguém. Não sabes abandonar. E eu sei que nunca fui muito de largar nada, tenho todos os postais que me deram presos à tinta das paredes do meu quadro, mas já não te prendo. Não te amarei obsessivamente. Não serás a musa de todos os meus poemas, onde te canto com desesperos perdidos. Não serás mais alvo do meu medo de abandono. Acho que o meu sujeito poético gritava por ti com medo de que me escorresses entre os dedos. Mas, inocentemente, como uma criança que faltou às aulas de físico-química para ir roubar gomas à loja em frente à escola, esqueci-me de que estares em estado líquido é fisicamente impossível e, assim, os meus dedos não podiam espernear e contrair para te agarrar. Deixemos o meu sujeito poético descansar. Vamos destituí-lo do seu papel de crente que implora e pede cegamente. Deixemo-lo apaixonar-se por outros conceitos com letra grande. Deixemo-lo respirar por saber que não te vais embora. Deixemo-lo sem calos nos dedos, pode ser? O Amor que serena, não termina e, a mim, já me doem muito os dedos por ter que andar sempre em biquinhos dos pés para te ver. Sofia.
- Não sou como tu, não somos iguais
Não sou como tu, não somos iguais. Já estás assente na tua pedra enquanto eu procuro a minha, então não me dites direções que apenas coordenam o teu caminho e não o meu. Não sou como tu, não somos iguais. Reconheço-te a grandiosidade, mas não a cobiço, não a desejo. Deixo-a para ti, porque apenas TU sabes lidar com tamanha luminosidade, pois, se ma desses, não saberia lidar, não por não ser capaz, mas por não ser a minha luz a agarrar. E por isso amo-te, amo-te por te reconhecer a luz que te ilumina e a luz que te falta. E se assim não fosse não te amaria, apenas te idolatraria. Não te idolatro, nem te venero, apenas te reconheço e te amo. Mas como disse não sou como tu, não somos iguais. Então não me mistures com os teus ideais, não sou a tua luz ainda que me ilumines, não sou tua ainda que me guies. Apenas passo por ti reconhecendo e apreciando a luz que, agora, me dás. E és hipócrita por pensar que só tu sabes o meu caminho e eu sou hipócrita por achar que já o sei. Não o sei, mas vou alcançá-lo, mas para isso… dá-me o espaço que eu te dou ao invés de o invadires. Não és o maior e eu também certamente não sou, então não me preenchas com o teu ego que apenas serve para te cegar de entender que, de facto, não sou como tu e que não somos iguais. Dá-me espaço e deixa-me crescer, porque tu já encontraste o teu espaço. Posso não ser como tu e podemos não ser iguais, mas isso não faz de ti sabedor mesmo que já saibas onde estás, apenas faz de ti uma luz que já sabe do seu lugar. Mas lembra-te... estrelas cadentes ainda são estrelas mesmo sem terem o seu lugar. E sei que faz de mim uma hipócrita achar que estamos no mesmo patamar, mas não confundas a minha hipocrisia com não saber pensar. Eu sei onde estás e sei onde EU quero chegar. Então lembra-te, não sou como tu, não somos iguais. Eu interrompo-te e tu interrompes-me. Mas amo-te e amo-te mais do que possas imaginar. Amo-te até doer, mas não quero ser como és, perdoa-me, mas não quero. Retiro o que reconheço como valioso, mas naquilo em que falhas (porque sim, tens falhas) vou ser melhor. E amo-te com falhas e amo-te com defeitos, se não os reconhecesse em ti não te amaria, não te amaria de facto. Acho-me hipócrita, mas sinto-te hipócrita, pedes e exiges de mim um nível de compreensão que ainda não me é capaz, mas não cumpres com aquilo que já supostamente deverias dominar. Não justifico os meus atos por achá-los corretos, ainda que eu mesma encontre neles uma razão honesta. Sim, sou de facto explosiva, sim sou de facto bruta, mas, talvez não te custe pensar que todo o meu molde surge da atmosfera em que me criaste. Não sei o que esperas de mim, se toda a minha vida não me deste espaço de ser sensível, nem criaste um espaço onde fosse seguro eu ser como sou sem este meu modo explosivo e bruto. E sim, a atmosfera molda-me, mas são as minhas ações que ditam o meu caráter e são os meus pensamentos que ditam os meus ideais. Não és tu, nem ninguém que me obrigam a ser quem sou, mas reconhece pelo menos o dedo que tens na resolução de pessoa que em parte sou. Não somos iguais (deus me livre de o sermos) se te fosse um clone, não seria alguém, não seria tua também... E fazer parte do teu ego não implica que tenha de ser como tu, mas sim em parte, melhor que tu. Hoje não me ouves, mas amanhã ouvirás. Não sou como tu e não somos iguais. Apenas espero que me ames, ainda que seja com diferentes ideais.
- doçura cortante
Nunca provei mel. Nunca diretamente do pote, nunca com uma colher, nunca na ponta dos dedos. Mel sempre esteve barrado em excesso sob cacos de um pote de vidro, no chão da minha casa de banho. Pote de vidro esse que, depois de ter insistido ficar cerrado à força das minhas mãos desesperadas, caiu no azulejo e criou uma pintura semelhante às de Kandinsky. Pego nos pedaços maiores daquela mistura contranatura, para tentar reter o maior doce possível nas minhas papilas gustativas, mas fico com a língua em sangue imediatamente após a primeira lambidela. Acabo por provar o meu próprio sangue, por diluir a saliva que me resta na textura do vidro. Nunca provei mel. O mel que eu melhor conheço está no fundo da arma com que disparo um tiro no meu pé direito. Só depois de soltar a bala, no único alvo possível, é que ele escorre. Pinga para o chão que piso, e ainda assim, tento deitar-me de barriga para baixo, e lamber o que consigo. Torno a minha casa de banho um local de crime horripilantemente açucarado. Há dias sonhei que tinha provado um dióspiro sem fios. Que tinha vindo parar ao meu prato a fruta perfeita. Que podia abri-la, desfia-la, tirar uma colher da gaveta e espeta-la no seu interior carnudo e alaranjado. Levar à boca e perder-me. Sonhei que estava ali mesmo, à minha frente, que bastava arrastar a cadeira para mais perto e pegar-lhe. Riscar o chão de madeira com os pés da cadeira, para alcançar a perfeição. Espernear-me, inclinar-me para a frente e para trás para tentar ganhar balanço. A cadeira não é o baloiço do parque infantil, fico sempiternamente estagnada na iminência de estar tão perto, mas tão longe. Ver trilhos e trilhos de tentativas nas tábuas de madeira que piso e repiso, em vão de me aproximar da mesa. Reparar na quantidade de linhas aos zigue-zagues que tenho em volta das meias às riscas, e perceber que já tentei todas as combinações e que talvez precise de alguém para empurrar as costas da cadeira em que me sento. Juro partilhar o dióspiro. Hoje, a cama abraçou-me com mais força, desde o amanhecer ao anoitecer. Fiquei presa no conforto, sem coragem de dele sair. Tive direito a piedade e empatia, e jantar levado num tabuleiro. Tinha esparguete com bastante cenoura, raspada das profundezas do tacho de propósito para mim. Tinha uma taça com banana cortada e outra com uma pera rocha fatiada, da mais rija. Tinha amor em cada pedaço de vidro amolecido. Tive um conforto maior no coração, do que em todo o corpo, que repousava na cama desde o dia anterior. Quem me arranjou o tabuleiro queria que eu provasse mel. Sabe bem saber que há quem saiba o que me sabe bem. Nunca provei mel. Mas uma vez, ao andar à chuva com a pessoa que mais admirava, vi como as gotas de água se depositavam nas suas pestanas, e como, distraída, pouco ou nada se importava com o facto de dar casa à chuva foragida das nuvens, do conforto de uma almofada fofinha. Os seus olhos eram os mais bonitos que eu alguma vez tinha visto, tanto que me lembro de invejar a posição daquelas partículas alcalinas. Falávamos sobre o que faríamos mal viesse o verão, porém, eu dava tudo para estarmos impotentemente presos a um inverno chuvoso. Ali, naquela calçada escorregadia, e com um corpo caminhante a meu lado, jurei ter provado um pingo de mel.
- Qualquer semelhança com a realidade é simplesmente acidental
Suponhamos, por razões meramente recreativas, que num dia aleatório, tive uma aula da cadeira X com um professor Y. - quem nunca o supôs, que atire a primeira pedra. Depois de um elegante atraso de 7 minutos - quase ao nível de uma Elizabeth Taylor a chegar propositadamente atrasada ao próprio funeral - Y entrou na sala, lamentando 168 vezes pela demora. Qual fora a causa do atraso? Talvez um problema pessoal ou, porventura, uma avaria no carro? Ninguém sabia. Permaneceu o mistério. Tendo enfrentado alguns problemas técnicos (um misto entre uma trágica mudança de cabos e um tedioso projetor anómalo), Y teve de recorrer à prestável ajuda técnica que, como David defrontou Golias, resolveu o problema herculeamente retirando um cabo que estava incorretamente posicionado. Já com o equipamento efetivamente pronto, Y estava agora pronto para começar a aula de X. Nos primeiros 20 minutos, Y parece perder-se na emoção do mundo dos camiões, referindo todos os aspectos divertidos que lhe são inerentes (dos fabulosos preços aos míticos cartéis de camiões). De seguida, achando os alunos ingénuos que iam de facto fazer exercícios da cadeira X, o nosso caro Y inicia uma elucidação deslumbrante sobre o pensamento “fora da caixa”, - uma expressão que me traz uma repulsa física - estando acompanhado por um diagrama aparentemente muito importante. Inevitavelmente (para Y é sem dúvida inevitavelmente), a conversa leva-o a um mistério do detetive britânico Sherlock Holmes. Percebendo agora toda a importância de pensar “fora da caixa” (quer seja para resolver um mistério de um cavalo furtado ou para a vida em geral), Y lança uma pergunta para o ar: “o que é que estamos aqui a fazer?”. Pois, amigo, não faço a mínima ideia. Sem dar resposta à pergunta por si mesmo lançada, avança abruptamente, dizendo com uma certa voracidade a palavra “térmitas”, acrescentando que íamos agora, por fim, “estudar o mundo das térmitas”. O ânimo no rosto dos alunos era simplesmente inexplicável (ou inexistente, caberá a dedução ao leitor). Depois da entusiasmante exposição sobre o mundo das térmitas e da sua ligação à arquitetura, Y inicia uma explicação sobre a importância de trazer os nossos hobbies para o trabalho, dando o exemplo de uma colega que, a partir do momento em que trouxe o seu hobbie para o escritório, viu o seu desempenho melhorar drasticamente - suponho que, se os hobbies desta senhora fossem, por exemplo, o boxe ou o esqui, a situação seria ligeiramente diferente. Depois de outra exposição brilhante, já tendo passados 49 minutos do início da aula, Y afirma com assertividade “agora vamos ao que interessa”. Os alunos, mais uma vez ingénuos, pensaram que agora, efetivamente iam começar a fazer exercícios. Mas não. O divertido e interessante Y tinha outros planos. Passa o slide, com um certo suspense, e vemos, escrito a letras garrafais, a expressão “MODELOS MENTAIS”. De seguida, com o seu charme já característico, Y afirma: “não sei se gostam da história da aviação”. Momentos depois, lá estava ele, todo contente, a explicar toda a história da aviação, incluindo o famoso Princípio de Bernoulli, chegando até a mostrar um slide com um desenho a explicar o funcionamento de uma asa (sendo a termodinâmica um assunto fundamental para um aluno de direito, como todos sabem). Com um sorriso na cara, Y lamenta que tinha um “slide de medicina”, mas que decidiu tirar, visto que achou serem “muitos slides”. Muitos slides, caro Y? Suponho que o nosso meigo Y não conheça o termo “muitos”, dado que, anteriormente, mostrara 247 slides sobre a termodinâmica, mas adiante… Querendo dar à aula um cheirinho dos Current Affairs, o versátil Y inicia uma explanação sobre o controverso “Pacote Mais Habitação”, coisa que imediatamente fez torcer o nariz dos neo-liberais no local. De seguida, os alunos tiveram a sorte de ouvir uma “breve” exposição (de 17 minutos) sobre os “five whys” (tendo passado por histórias divertidas sobre Jeff Bezos e sobre o Lincoln Memorial). A 20 minutos do final da aula, Y pergunta se alguém sabia o que eram biónicos. “Ufa” pensei eu “ao menos há pessoas que sabem… Não estava para ouvir outra história sobre biónicos.” Que tolo que sou. Sim, ouvimos mais histórias sobre biónicos e sobre legos e sobre cavalos a comerem cenouras e sobre outras coisas decerto fundamentais para o futuro. “No próximo dia, vamos falar de criatividade”, diz calorosamente o nosso gentil e afável Y. Aguardarei. A aula era de quê? Pois, eis a questão. Até para semana
- Onde almas se perdem
Naquele dia fui à praia. Não foi planeado, não tinha qualquer esperança de ver o mar, as suas ondas que agitam a alma e o som delas que acalma os dias mais turbulentos. Não estava calor, mas o brilho do sol justificava a tentativa. Foi de estranhar, especialmente considerando que dias antes estivera numa praia vizinha, repleta de águas calmas onde, apesar das esperanças que flutuavam em cada onda mal arrebentada, no fundo dos seus mais profundos mares, encontravam-se as mentiras enterradas. Um dia tentei visitar essa costa distante, para recordar aquilo que no passado tive medo de conhecer. Corri o risco. Mas o risco é que acabou de correr com pedaços meus e levá-los para onde jamais os reencontraria. Mas, se a vida é feita de riscos, deixaria aquela praia fazer-me perder o amor por cada onda agitada, por cada sensação que sentia ao tocar naquela areia suave? Não seria isso perder o amor por amar? Desta forma, naquela quarta-feira 13, decidi colocar os pés na beira-mar novamente. Numa areia diferente, desconhecida. Estava receosa no início, até disse para mim mesma para dar cada passo calmamente de forma a não me magoar. Mas, assim que te afeiçoas a algo diferente, acreditas que finalmente encontras o lugar a que pertences. E que bom que foi, cada passo, cada corrida que fiz naquele areal. Neste não seria um “apesar”, mas sim “felizmente” que a areia fosse diferente. De facto, voltei lá todos os dias, e quando não estava lá só pensava no nervosismo que sentia por cada vez que a voltaria a ver. Mas era sempre tão bom. Até que, numa noite, tudo mudou. As ondas pareciam calmas de início, o céu estava limpo. Viam-se lindas estrelas, como que a formar uma linha para o horizonte, em direção ao além. Contudo, só se começa a ver a areia a estar cada vez mais próxima, e aquela água cada vez mais distante. Aquela areia que outrora gostara, que não me magoara, agora me feria a cada passo em direção à água que se afastava. Tentei saltar para evitar a dor, mas não valia a pena. A cada passo que dava, a cada sobressalto só sentia cada vez mais os picos, os vidros estilhaçados, as beatas a queimarem-me. Mas logo compreendi que, por cada passo que desse, a água nunca estaria mais perto de mim. Não valia a pena. A areia ficaria cada vez mais áspera, e a água cada vez mais distante. Não há nada a fazer. Na realidade, aquele litoral que outrora amei encheu-se da areia que noutros tempos cuidou de mim, e o mar cada vez mais calmo, mais calado, já não era algo radiante. Na realidade, era um tsunami, para o qual a única saída seria perder a esperança de voltar a qualquer dia pisar uma praia.
- não somos bem
Não somos bem amor. Ele gosta de chamar-me pelo nome e contar-me sobre o dia dele. Eu gosto de me levantar cedo, às vezes às horas a que ele se deita para dormir. É para ele que ligo quando sou eu a deitar-me tarde. Com ele, não sei discutir. Sei ouvir, fico sentada ali e quero absorver tudo. Não pressiono, só espero saber um pouco mais. Ser um pouco mais. Nunca o digo em voz alta, mas às vezes penso nele antes de dormir. Às vezes não vou dormir logo, mas ele também não liga. É estranho como não quero mais nada. Basta-me estar perto, ouvir a voz dele. Saber que se vai sentar comigo um pouco e que me vai dar o lugar de dentro do passeio. Fico tímida e não sou bem eu. Estou a pairar por uns instantes, e quero ficar irritada, gritar-lhe mas não sou assim. Esta presença basta-me. É mais platónico do que poético. É mais privado do que prosa. Mas é muito menos. Afinal, não somos bem amor.
- das balas perdidas perdidas na guerra
Nunca me falaram de guerras até ter idade para as perceber. Ouvia falar da batalha x ou y, de quem as ganhava, de quem conquistava a terra. Ensinaram-me a invariável da guerra: que era para ganhar ou perder. Não precisei de me pôr em bicos de pés para ver o caixão branco. É uma memória sem qualquer sabor que guardo comigo e à qual volto para relembrar. Lembro-me de olhar para a minha mãe e de lhe perguntar “e agora?”, como a criança inocente que era. E ela respondeu-me secamente “a vida continua”. E eu fui, de lábio a tremer, abraçar a L. e repetir-lhe em tom de murmúrio “a vida continua”. Não me respondeu, e hoje em dia eu também não saberia o que responder. [ Desculpa, L.. Tenho consciência de que é injusto falar sobre isto. Mas tu também já não existes para me dizeres isso. Quem me dera que o dissesses. ]. Foi nesse momento que me apercebi do verdadeiro significado de guerra sem ter de procurar pelo sentido etimológico da palavra. A partir daí fiz a minha coleção de cartas e vi outros a fazerem a sua. É uma narrativa melancolicamente bonita, mas que sempre me soube mal na boca. Ver-me a mim e aos outros a pintar quadros de romantismo, em telas gastas e com pincéis usados, para depois chorar lágrimas secas porque temos todos mãos destreinadas [ tenho tendência para pintar com a mão esquerda sem ser canhota ]. Resta-me pôr-me em bicos de pés e oferecer o ombro e um abraço, mesmo tendo estado no mesmo lugar, horas antes, a extravasar a cabeça e o coração, e repetir a cantiga que me embala os dois: a vida continua. “O mundo não é só isto, o mundo é tanta coisa!”. “Mas o mundo grita-me aos ouvidos e eu sofro de surdez crónica.” Pergunto-me constantemente se as guerras são para ganhar, perder ou apenas sobreviver. Rendo-me sempre ao responder pela ignorância. Ninguém tem respostas para tudo [ e está tudo bem com isso ]. Mas é uma verdade amarga de que, na maioria delas, tudo o que se pode fazer é sobreviver. Não há sentido ou razão inerente ao ato de disparar numa guerra. Talvez seja porque o barulho à volta se torna ensurdecedor e só queremos que ele faça silêncio. “Nunca quis cravar-te uma bala na carne, perdoa-me, até peguei na arma sem querer”. Está tudo bem, asseguro que está tudo bem, porque a voz falha e o cansaço ganha. E no meio do caos estupidamente excessivo, apercebo-me de que ninguém me falou das balas que se perdem pelo caminho. Falam-me das que acertam no peito ou numa perna, das que matam e das que ferem, mas nunca souberam aproximar-se e sussurrar-me ao ouvido “em todas as guerras há pelo menos uma bala disparada em vão. Ou várias. Mas há sempre uma que se perde pelo caminho.”
- Nota de Imprensa - Manifestação Nacional Academia não Assedia
Aos órgãos da comunicação social agradecemos a divulgação da seguinte NOTA DE IMPRENSA MANIFESTAÇÃO NACIONAL ACADEMIA NÃO ASSEDIA 7 de novembro – 18h00 O assédio no meio académico dura há demasiado tempo e com a complacência da comunidade académica, sendo que o assédio não tem lugar nas nossas universidades, e infelizmente, esta prática está sistematizada e institucionalizada. Os números não nos surpreendem. De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Évora concluiu-se que mais de um terço dos discentes do ensino superior já sofreu assédio sexual e metade de assédio moral. Nos últimos dois anos temos sabido inúmeros casos de assédio moral e sexual de norte a sul do país. No entanto, o corpo estudantil sabe que os casos que saem para fora e são divulgados pelas fontes mediáticas são residuais. Mais recentemente, tivemos casos de assédio na Universidade de Coimbra, que até então já receberam 42 queixas. Na Universidade do Minho, no final de 2021, foram registadas mais de 100 denúncias de assédio sexual. Na Universidade da Madeira os discentes falam de casos de assédio sexual e moral. Na Universidade de Aveiro tínhamos estudantes que reclamavam da faculdade ser cúmplice deste problema. O Instituto Superior Técnico registou mais de 300 estudantes que afirmaram que tinham sido alvo de assédio moral e quase 100 alvo de assédio sexual. Na FDUL, em 11 dias foram feitas cerca de 50 denúncias de assédio, relativas a 10% dos professores. O movimento Academia Não Assedia exige uma Academia segura e inclusiva, onde sejam efetuadas medidas eficazes para colmatar este problema. Com isto dito, o movimento irá realizar uma manifestação nacional no dia 7 de novembro, às 18h00, em vários pontos do país: Minho – Universidade do Minho, Campus de Gualtar (Prometeu); Porto – Universidade do Porto, em frente à reitoria; Coimbra – Praça de D. Dinis; Lisboa – Universidade de Lisboa, em frente à reitoria. Segue o link com o manifesto: https://ugc.production.linktr.ee/3cd08183-c300-4b84-b83c-7e60daa05a93_Manifesto---Academia-N-o-Assedia.pdf Redes sociais e contactos: Instagram: https://www.instagram.com/academianaoassedia/ Twitter: https://twitter.com/Anaoassedia E-mail: academianaoassedia@gmail.com Colocamo-nos ao dispor para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais ou declarações sobre a Manifestação!
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