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  • E se me matasse

    Acordo canso-me e durmo e estou farto portanto vou dormir para sempre. Se me quiserem enterrar estarei no meu quarto a apodrecer depois de uma overdose de vinho erva e uma boa masturbação que é isso que estes virgens que não fazem nada da vida merecem. Porra. Ah mas vai ao psicólogo dizem vocês não queres ser feliz? Para me dizerem na verdade os teus problemas surgem da tua infância ORA MUITO OBRIGADO SENHOR DOUTOR QUER ME DAR UMA MÁQUINA NO TEMPO? E dizer ah já pensaste que viver é muito bom na verdade e tudo o que precisas é uma droga ou uma ideologia para acreditares Sofro de síndrome de vida de merda. Não sou do julio de matos. Olhei para a vida objetivamente e concluí que não é para mim. Assim me vou. Faço nada disto como todos vocês fazem nada a fingir que fazem tudo. Neste curso há dois tipos de pessoas: os que acham que vão mudar o mundo e mudam de ideias ao fim de dois dias e os que acham que são o mundo e nunca mudam de ideias. Os primeiros deviam estar em artes e os segundos vão para a política e para os bancos e para os escritórios mas todos acabam na miséria exceto quando conseguem defecar em cima de alguém que não há maior prazer para quem estudou direito que iludir-se que está no sítio certo. Mas também para onde iriam? Nós merecemos a faculdade e ela merece-nos - casal feito no inferno. Onde mais enfiaríamos estes gajos que sabem chupar o professor ou o senhor presidente da associacomissãodeussabeoque que se não acertarem com a boca na pila haverão de acertar nos tomates isto tudo para depois poderem ser eles a fazer ordens e vestir se de fatinhos e uns falarem ordens como se tivessem mínima significância e outros para poderem falar de acórdãos como se alguém acordasse coisa alguma na porra do direito Estes direitolas que concordam muito que “O Direito deve ser democratizado e desburocratizado” mas depois não sabiam responder a um teste de português do 3º ano sem pedir 2 folhas extra ao professor só existia Direito porque o Código Civil foi escrito por gajos do Estado Novo que só sabiam falar latim e todos nós achamos por bem não falar como pessoas normais que o Direito não é para o povo ora essa és o quê comuna o Direito é para Política essa merda da política estes que vão ser os próximos políticos com os seus dramazinhos e tachos estes nucleozinhos que só servem para “networking” como eles dizem estes liberais que querem desmantelar o sistema e criar um pior estes comunas que acham escrever poesia no Twitter bué revolucionário aqueles fachos que haverão de dar aulas estou farto de vocês todos e de se acharem importantes os vossos Deuses não percebem que Deus não existe? as vossas ideiazinhas tão profundas como a cova das Marianas mas como ela vazias que vão todos acabar na exploração ou a ser explorados estágios não renumerados depois de exames que pagaram para chumbar porque o Direito Porque o Direito é Dinheiro e é por isso que eu vou pessoalmente explodir com Madrid se vos vir outra vez de férias lá a meio do semestre enquanto dizem que estudam direito enquanto eu vivo ABAIXO DE SALÁRIO MINIMO NA CIDADE MAIS CARA DO PAÍS E AINDA POUPO NO FINAL DO MÊS Mas não têm culpa de nada eu sei e vão me chamar hipócrita porque uma vez bebi café no Starbucks eu sei porque ninguém tem culpa de nada num sistema somos todos vítimas não é mesmo mas ai de quem critique sistemas que isso são ataques pessoais Vão dizer que estou errado que não sei do que falo que estou a ser desnecessariamente incendiário mas olhai me nos olhos eu não quero saber se a casa pega fogo se já estou a arder eu não vou sobreviver portanto estou me perfeitamente a cagar Vocês sabem que estou certo. Vão dizer que não, mas quando se olharem ao espelho, vão se lembrar de mim. E no vosso interior, podre de sonhos mortos e cegueiras, vão-me dar razão. Até dizerem bom dia a um jurista e fingirem que amam isto tudo e que são senhores muito bonitinhos e inteligentes e respeitados. Fodam-se todos. O meu problema é que quis saber de vocês, e amei-vos. E querer saber magoa tanto. Estou cansado e dormir não descansa. Quero gritar mas isso não alivia nada. Nada alivia nada. Portanto, recuso-me. Adeus, sejam felizes a ser escravos do sistema, eu vou ser livre.

  • Adeus que me vou embora

    ou uma carta de amor aos corredores por onde passei e a novos começos há cerca de dois anos o futuro chegou e deixou de ser um amanhã longínquo desejado por quem tinha planeado a sua vida até ao mais ínfimo detalhe sem qualquer margem para erro ou desvios. a meu ver, existem poucas coisas das quais podemos ter absoluta certeza, mas sempre me imaginei a amar o curso que escolhi e a fazer dele o meu destino. não aconteceu. as minhas intenções e vontade de querer realmente gostar de algo não foram suficientes para me sentir satisfeita com o caminho cheio de incertezas que estava a traçar enquanto estudante de direito. o meu coração já pertencia a tantas outras coisas, mas eu, cega pelos ideais de o que é que um bom aluno deve ou não fazer, nunca as consegui enfrentar. lutei contra isso durante mais tempo do que aquele que gostaria de admitir e, ainda que o presente fosse doloroso por me impedir de sonhar com o futuro, só continuei a caminhar por estar rodeada de pessoas que nunca me deixaram desistir. isto não é uma carta de amor à faculdade, mas sim a quem frequenta os seus corredores e tem um abraço pronto para aqueles cujas certezas sobre a sua mera existência foram abaladas. a minha estadia em campolide não foi e não será muito longa, mas seria incapaz de não me despedir daqueles que ficaram quase mais felizes do que eu aquando a minha perseguição pelas paixões que me assombraram a vida inteira. estarei para sempre grata por novos começos, mas deixo uma parte de mim convosco, ainda que tal não me pareça um agradecimento suficientemente digno. yours truly, magna araújo amorim.

  • Entrevista à Associação Direito Mental

    NOTA Esta entrevista foi realizada entre o nosso Redator e Diretor-Adjunto Hugo Mendes e a Cofundadora e Vogal da Direito Mental Raquel Sampaio, que, desde já, agradecemos pela disponibilidade, simpatia e profissionalismo. Tem como objetivos divulgar a Associação e abordar a importância da saúde mental. Como surgiu a ideia do projeto e quais as principais missões do projeto? A ideia do projeto foi de um dos fundadores, Nuno Castelão, porque passou por um burnout em 2019 e, entretanto, a pandemia piorou o período difícil pelo qual passou. Posteriormente, contactou o Martim Krupenski, Diretor-Geral da Morais Leitão, que, por sua vez, contactou Rita Rendeiro, Presidente da Direito Mental, que, por sua vez, contactou a própria Raquel Sampaio. Esta, diz, sempre foi explícita relativamente aos seus próprios problemas de saúde mental, fazendo alguns posts sobre estas questões “e eles acharam que nós os quatro fazíamos um bom encaixe”. O Nuno, que tinha trabalhado muito tempo em Londres, vinha de lá com a ideia da LawCare, uma charity com mais de 25 anos, que também trabalha nesta área para advogados, staff e business development com uma linha telefónica interpares. Tendo esta associação britânica como exemplo, e como estavam bem posicionados na comunidade jurídica, começaram a contactar várias sociedades de advogados. Montaram a estrutura do projeto, definindo, a nível jurídico, que seria uma associação sem fins lucrativos. Raquel acrescenta que foi há mais ou menos um ano que oficializaram a associação na Conservatória, começaram a trabalhar no site e no que poderiam oferecer. Estabeleceram como linhas-mestres: ajudar de forma interpares, uma vez que não são psicólogos nem psiquiatras; sensibilizar para quebrar o estigma, desconstruindo e contribuindo para uma delimitação dos termos corretos de stress, ansiedade, burnout , etc.; e, para além disso, queriam ter algum tipo de dados, recolhendo e divulgando dados, porque “não queríamos basear-nos em achismos”. O lançamento do projeto decorreu no dia 26 de maio de 2022, pelas 18h, no Auditório da Morais Leitão, que começou precisamente pela sensibilização da causa numa abordagem “na primeira pessoa”, feita de testemunhos pessoais, por exemplo, de José Eduardo Martins e Sofia Leite Borges que falaram das suas próprias experiências; e contou, ainda, com a presença do psiquiatra Luís Madeira. Desde então, têm feito eventos com os Associados relacionados com a gestão do stress e da ansiedade, como dormir melhor, como organizar o dia, como não estar sempre em urgência, etc. Entretanto, foram convidados para falar de diversidade de inclusão, como atrair e reter talento, e perceberam que “seria aí a chave de entrada nesta indústria”. Conseguiram perceber que havia um problema comum a este tipo de organizações que se traduzia no desafio de como oferecer melhores condições às futuras gerações. Em 2023, têm trabalhado nessas áreas, em eventos de sensibilização, têm tido oferta formativa e têm estado sempre em parceria com psicólogos e psiquiatras. Lançaram um estudo em parceria com a ProChild CoLAB e com o Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho (CIPsi), denominado “O impacto da cultura organizacional na saúde mental e bem-estar dos/as profissionais do direito”, cujos resultados serão apresentados no final do ano. A título pessoal, qual a importância que a saúde mental tem na sua vida? E quais os episódios que destaca como momentos propulsores para embarcar neste projeto? Os desafios da saúde mental, no caso de Raquel Sampaio, têm um histórico familiar que se fez refletir na própria e que, quando começou a trabalhar, se traduziu em episódios bastante agudos da depressão, em que não era funcional, não conseguia levantar-se da cama, não via qualquer tipo de horizonte nem conseguia manter uma rotina. Vivia num mundo de contrastes, entre ter imensa ou nenhuma fome, entre ter muito ou nenhum sono e sem saber lidar com a situação, apesar dos antecedentes familiares. A partir do momento em que é diagnosticada como tendo depressão, começa a ser medicada, com um acompanhamento psiquiatra e psicoterapêutico simultâneo. “A partir daí, a minha vida mudou completamente!”. O diagnóstico e a psicoterapia permitiram-lhe perceber-se melhor não só a si própria enquanto pessoa, mas também aos seus sintomas e aos seus limites; é o que “faz de mim o que eu sou hoje”. Quais são os objetivos e as prioridades da associação para o futuro próximo? Estão a pensar fazer algum tipo de formação contínua na área da saúde mental nas faculdades? O principal objetivo, para 2023, é precisamente o estudo anteriormente mencionado, não só pelo seu enorme encargo financeiro, mas também pela consolidação científica que requer e que necessita de uma profundidade para que os resultados reflitam a realidade. Farão uma série de roadshows por todo o país, para que tenha a maior representatividade possível. Em relação às faculdades, pretendem ouvir os alunos das diversas faculdades de Direito para perceber melhor as necessidades do seu público-alvo, o que faria sentido e o que teria adesão por parte da comunidade académica. Estão disponíveis para serem contactados e para dialogar com as Associações de Estudantes, bem como com as Faculdades. Como é que os estudantes de direito podem ajudar a vossa causa e as vossas iniciativas? Pensam integrar alguns voluntários e/ou estagiários? “Testemunhos na primeira pessoa são sempre mais valiosos no que toca à saúde mental .” No ano passado, realizaram um evento intergeracional em parceria com a Linklaters, em que o painel de convidados era composto por um estudante, um estagiário, um associado júnior, um associado sénior e um sócio - interessante pelas várias perspetivas na escala hierárquica dos escritórios de advogados. Neste sentido, estão abertos a qualquer oferta de voluntariado. Ao mesmo tempo, e a outro nível, têm considerado a montagem de uma linha ou um Whatssap em que as pessoas possam ter algum tipo de apoio. No entanto, Raquel confessa um certo receio de que não tenha adesão, sobretudo porque já existem muitas linhas telefónicas nesse âmbito. Toda a divulgação das atividades da Associação e toda a participação que os jovens possam vir a ter “é essencial”, bem como no anúncio dos resultados do estudo, apontado para 10 de outubro, Dia da Saúde Mental. Na sua opinião, porque razão tantos alunos universitários têm problemas de saúde mental? Quais os conselhos que pode dar para contornar esses problemas e, no fundo, “sobrevivermos” ao curso de Direito, tendo já passado por isso? Primeiramente, os riscos são óbvios: a pressão que vem de todos os lados, quer dos colegas, quer dos pais, quer do próprio mundo do trabalho, que inicia no primeiro dia, relacionada com os estágios durante a faculdade e no verão, com o currículo impecável com inúmeras atividades extracurriculares, etc. A pressão e a concorrência são multilaterais e as consequências psicossociais são enormes . Muita gente pensa, erradamente, que a advocacia é a única saída e acabam por depositar uma certeza absoluta naquele resultado que, se não acontecer, a vida desmorona. A realidade é que existem várias alternativas que não passam por se ser advogado. Para lidar com tudo isto, Raquel aponta os básicos: para além de partir de uma base de autoconhecimento, muito desenvolvido na terapia ou noutro método adaptado ao indivíduo (porque não pode ser “one-size-fits-all” ); dormir bem e com qualidade, comer de forma saudável e ter algum tipo de lazer que nos tire do contexto académico, porque às vezes deixamos de ter perspetiva e confundimos as barreiras entre o trabalho e a vida pessoal. É importante ter, a cada semana ou a cada mês, um ponto de autoperspetivação e autorreflexão, perceber que a faculdade não é tudo na vida : há desporto, há amor, há amigos, há concertos, há lazer, há ler outros livros que não sejam académicos, há passear um cão. São esses momentos em que nos distraímos desses contextos, que são rios de pressão, que nos dão esse horizonte. Mesmo nos momentos de maior desespero, conseguimos ter essa visão de dentro para fora: “quando estás na ilha não tens perspetiva, quando sais da ilha já consegues olhar e perceber”. Na sua opinião, como é que os estudantes de Direito se podem preparar, a nível mental, para o mercado de trabalho? A informação é essencial. Hoje em dia, não é só a organização que nos está a entrevistar, nós também os estamos a entrevistar a eles; também devemos, em entrevistas e em jobshops perceber logo quais são as condições de trabalho: qual é a política de férias, se há ou não um regime de trabalho híbrido ou alguma flexibilidade nesse sentido, falar com pessoas que já passaram por lá, etc. Para além disso, Raquel aconselha a que tenhamos o máximo de experiências possíveis, tal como a própria que participou numa panóplia de coisas diferentes, tendo vivido em Moçambique, Nova Iorque, Timor-Leste, tendo feito Erasmus e tendo trabalhado no Governo enquanto Adjunta do Gabinete do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do XXI Governo Constitucional para as áreas de Ambiente e Economia; porque “não sabemos se não experimentarmos”. No que toca à competitividade do dia a dia, devemos garantir um bom horário de sono, uma alimentação saudável regular e procurar retirar a pressão diária ao descansar e ao ter algumas bolhas de segurança que propiciem sossego. O que fazer para nos tornarmos ativistas na área da saúde mental? Raquel começa por dizer que só se apercebeu que era uma ativista aquando do processo da depressão e depois de passar por essa “travessia do deserto”: um período de vergonha, medo de retaliação, medo de não conseguir manter o trabalho e, ainda, de ter passado por essa vulnerabilidade e fragilidade toda, que achava que era e que devia pôr uma cara bonita e ir trabalhar (mas não é, admitir que nos sentimos mal e que precisamos de ajuda é um ato corajoso). “Eu não quero que mais pessoas passem por experiências como chorar no parque de estacionamento da sociedade de advogados” . Basicamente, deve-se procurar receber o máximo de informação e transmiti-la. “Para ser ativista, tens de ter informação e dados científicos sobre o assunto”. Para além disso, a ajuda passa por pequenas contribuições com sugestões de conteúdos para o site, no caso da Direito Mental – o ativismo passa, também, por estas pequenas ações, porque “nem todo o ativismo tem de ser na primeira pessoa”. É possível começar de várias formas, mas Raquel aconselha a procurar informação para poder transmiti-la da melhor forma sem cairmos nos “achismos”, nos populismos e nos clichés fáceis das publicações do Instagram. VER: https://www.cuf.pt/mais-saude/stress-cronico-sindrome-de-burnout ; https://www.santander.pt/salto/sindrome-burnout-o-que-e ; https://www.helpguide.org/articles/stress/burnout-prevention-and-recovery.htm https://www.lawcare.org.uk/   Abreu Advogados, CMS, LinkLaters, Miranda e Associados, Morais Leitão Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, DLA Piper, PLMJ, SRS Advogados, VdA Vieria de Almeida, Úria Menéndez – Proença de Carvalho, FARFETCH, TELLES, Sofia Leite Borges e Associados, SPS e Cuatrecasas.   http://prochildforms.prochildcolab.pt/ci     https://saudemental.pt/recursos/

  • Entrevista ao primeiro preso político pós 25 de Abril

    NOTA INTRODUTÓRIA: Esta entrevista foi feita ao Dr. Rodrigo Moita de Deus, que é empresário, escritor e comentador. Atualmente é comentador no programa O último apaga a Luz. Esta entrevista será como se fosse a contar uma história e não estará dividida por perguntas. A entrevista é sobre como o dr. Rodrigo Moita de Deus e o seu grupo o 31 da Amarda que foram os primeiros presos políticos no pós 25 de Abril. Entrevista foi feita para o jur.nal o jornal da Nova School of Law. Entrevista realizada por Zulficar Silva e está escrita em forma de história. ENTREVISTA ESCRITA EM FORMA DE HISTÓRIA: Em 2009, num jantar de amigos, o Dr. Rodrigo Moita de Deus e o seu grupo, o 31 da Armada, tiveram a ideia de substituir a bandeira Republicana pela Monárquica na câmara de Lisboa. A substituição aconteceu às 22h. Mesmo tendo duas esquadras de polícia ao lado da câmara, acabaram por não ser presos, provavelmente porque os polícias que passaram pensaram que o grupo estaria a tratar de umas lonas, já que havia algumas no edifício nesse dia. Após a substituição, o grupo do Dr. Rodrigo Moita de Deus manteve contacto com a câmara através dos jornais. Tendo sido acusados por furto da bandeira, o grupo exigiu uma troca de bandeiras. O mesmo se sucedeu, o grupo realizou uma operação para a troca de bandeiras, em que “Darth Vader” (referindo-se ao Dr. Rodrigo Moita de Deus) apareceria no parque de estacionamento do município a entregar a bandeira a outro elemento do 31 da armada, enquanto gravavam o sucedido. Por fim, dirigiu-se à câmara e devolveu a bandeira roubada, pedindo de volta a monárquica, no entanto, quando chegaram ao hall da câmara foram detidos. A ironia desta detenção é que os polícias não iam com grande vontade, mas sim por ordens superiores. Ao deterem o grupo por obrigação originou um interrogatório algo cómico, no sentido em que a polícia fazia as suas questões e davam respostas engraçadas. Este interrogatório ocorreu na PSP, sendo acusados de furto e invasão, mas, apesar disso, saíram no mesmo dia, não ficando detidos. Esta detenção originou, no mesmo dia, uma notícia peculiar nos canais de comunicação social, referindo que um grupo de jovens foi preso por troca de bandeiras. Quanto à defesa judicial, o grupo não necessitou de fazer uma grande defesa, pois o ministério público acabou por arquivar o processo, sem chamar o grupo novamente. As razões do ministério público para terem arquivado o processo tinham que ver com o facto de que o grupo devolveu o objeto, e em bom estado, sem, assim, ficar provada a intenção de furto, já que devolveram o mesmo. Quanto à invasão do espaço público, também não deram tanta importância, pois o grupo subiu por umas escadas ao terraço, não tendo entrado no espaço. Por fim, o ministério público referiu que todas as bandeiras, atuais ou anteriores, são símbolos nacionais constitucionalmente protegidos, desde o tempo de D. Afonso Henriques até agora, concluindo que, qualquer bandeira nacional pode estar lá. A acusação mais grave que fizeram ao grupo foi a de uma tentativa de golpe de estado. Neste caso, o magistrado do ministério público gostou de fazer este parecer de arquivamento. Nesse parecer cita Paiva Couceiro, uma figura histórica portuguesa que, este sim, atentou diversas vezes contra a República, e pelas armas, chegando quase a declarar a independência da região norte do país e criou a monarquia do Norte por um período de 3 meses. Por fim, relembra que nem Paiva Couceiro foi acusado de supressão do Estado, sendo, assim, era disparatado o grupo ser acusado de tal coisa. Esta história, no meio de um parecer de 30 e tal páginas bem justificado e pensado, serviu para justificar o arquivamento do caso, já que o grupo apenas ergueu um símbolo nacional. Desta forma, o grupo conseguiu demonstrar que é possível passar uma imagem política por parte do grupo, sem necessidade de ser agressivo, tendo na mesma um forte impacto político, tendo em conta que o grupo realizou essa operação, no mesmo sítio que se fez o 5 de Outubro, onde ocorreu o fim da Monarquia e a implementação da República. No entanto, existiram algumas replicas, outros grupos fizeram a mesma brincadeira pelo país, sendo a mais conhecida a do Castelo de Guimarães. Isto fez com que a varanda vira-se um pouco chacota e, como consequência, o Presidenta da República não subiu à varanda para hastear a bandeira. Tudo isto aconteceu em 2009, mas em 2010 era a comemoração dos 100 anos da República, que em vez de ser comemorada na varanda, acabou por ser noutro sitio. CONCLUSÃO: Entrevista ao primeiro preso político pós 25 de Abril Em suma, foi contada a história de como o Dr. Rodrigo Moita de Deus e o seu grupo o 31 da Armada, foram os primeiros presos políticos no pós 25 de Abril. E queria agradecer ao Dr. Rodrigo Moita de Deus por ter-me dado esta entrevista.

  • Rosa - Melopeias

    Track 1 - Nádia Melopeia: Abres o livro e, de repente, novas personagens passam a figurar na tua história. A tua existência só a ti pertence, mas algo em mim flutua sempre que me lembro que dela faço parte. No próximo capítulo, espero um papel com mais carga (não emocional, por favor). Por enquanto, deixo-me navegar naqueles que são os parágrafos que tu aprendes a colocar. Nádia sem nada a perder Nádia quer tudo esquecer Quer ser outra mulher num lugar qualquer Longe do que a viu nascer Nádia sem nada a temer Nádia com tudo a temer atravessa o mar Egeu Escuro como breu dois filhos, um abraço Frio, medo e cansaço Dias e dias, noites e noites De uma viagem sem fim Podem um começo e um final Ser tão iguais assim? Dias e dias, noites e noites De uma viagem sem fim Podem um começo e um final Ser tão iguais assim? Podem um começo e um final Ser tão iguais assim? Nádia não sabe nadar nádia no meio do mar Tem a cara já molhada ajuda a disfarçar As lágrimas que devolve ao mar ah ah ah Track 2 - O Melhor Presente Melopeia: A chama brilha e apazigua. É impossível mantê-la em cativeiro, guardá-la só para mim. A chama, de vez em quando ameaça, ou apagar-se, ou incendiar tudo a seu redor. Solta uns palavrões, quer quando os tachos caem das suas mãos trémulas, como quando tenta sair da cama às escuras e esbarra contra móveis que sempre ali estiveram (ainda que ela jure que não); chora quando percebe que nem os bombeiros conseguirão extinguir o seu excesso; ensina a mover montanhas, e a chegar até elas; mostra que nem tudo o que causa arrepios na espinha é mau (mas arroz de peixe é, ainda que feito por ela); e acima de tudo, prova que o amor não cabe em potes. No colo da minha chama sinto-me tão mais quente, tão mais viva. Quem me dera que os relógios se queimassem, os calendários ardessem, e que tudo a cinzas restasse, apenas para que o meu pequeno fogo comigo permanecesse. Para que ao seu colo pudesse sempre voltar. Vais receber o melhor presente Que o saibas estimar e querê-lo pra sempre Que o saibas cuidar tudo ensinar Que o saibas amar Vais receber um melhor amigo Que vai partilhar a vida toda contigo Os irmãos mais velhos são Os heróis do batalhão da nova geração E no meu colo sempre haverá espaço pra dois Que o colo de uma mãe Aumenta quando chega alguém Por mais que ainda não Entendas posso prometer Que este é o melhor presente que irás receber Vão discutir, não vais ter paciência Vais exigir a tua independência Tudo isso é normal fica sempre igual Não te vou mentir ah ah ah Vão discutir quem tem o comando O lugar do carro, quem toma banho primeiro Mas uma coisa eu sei não vai haver ninguém Que te conheça tão bem E no meu colo sempre haverá espaço pra dois Que o colo de uma mãe Aumenta quando chega alguém Por mais que ainda não Entendas posso prometer Que este é o melhor presente Que este é o melhor presente Que este é o melhor presente que irás receber Track 3 - O Verdadeiro Amor Melopeia: “We didn´t realize we were making memories. We just knew we were having fun.” Se eu fosse tua e tu fosses meu O mundo inteiro iria ver O verdadeiro amor acontecer E esse amor seria para o mundo inspiração E em cada canto, cada lugar Alguém se iria apaixonar Dentro do meu peito há um amor prisioneiro Que anseia a liberdade Mas teme a perpetuidade De amar sem ser inteiro Mas eu sou tão tua e tu não és meu E o mundo inteiro não irá ver O verdadeiro amor acontecer Track 4 - Dois Namorados Melopeia: “I’ll go.” “And I’ll stay.” “And we’ll be okay.” Quando nada indicava Que a vida que levava Fosse mudar rápido assim Pois eu era mais velha Que os velhinhos do jardim Quando os dias não passavam E só falava na saude Vi-te na rua, reconheci-te Dos nossos tempos de juventude Não tinhas casado Nem tinhas ninguém E disseste ser feliz assim Que a única mulher De quem gostaste de verdade Mas que já tinha cara-metade Foi de mim E dormimos encaixados Dois namorados Sem tempo a perder Cabelos brancos desalinhados Pés entrelaçados Já sem medo de adormecer E eu que acreditava Que a vida só nos dava Um amor assim uma só vez Dou-te um abraço apertado E vamos de braço dado Para todos verem o que a vida fez E dormimos encaixados Dois namorados Sem tempo a perder Cabelos brancos desalinhados Pés entrelaçados Já sem medo de adormecer Já sem medo de adormecer Track 5 - Benjamim Melopeia: Voam os beija-flores atrás das suas bagas, por entre o cimento da vida moderna, com o seu bater de asa acelerado, para que se fale em “efeito borboleta”. E os patos? Que um dia acordaram e decidiram usar todas as capacidades, que em uníssono, foram rejeitadas aos humanos, sabe-se lá por quem quer que nos tenha feito (eu sei exatamente quem me fez, já tu…). Os patos voam, andam e nadam. E nós, míseros humanos, ficamos contentes por termos máquinas (atenção, por nós criadas) a fazer o mesmo serviço que um patinho cambaleante do Jardim da Gulbenkian. Pobre, Benjamim. Que não se pode dar ao luxo de voar livremente como um beija-flor, ou de ter todas as capacidades do pato do Pocoyo, mas que nele possui a racionalidade de amar outro alguém. Quer dizer, será que possui tal razão? Sabes tudo de mim o meu princípio e fim Onde quero ir e onde não vou Sabes ver dentro de mim Onde ninguém pode entrar onde os que vieram Não querem voltar E assim vivemos os dois Sem fazer conta de nada somos morada Dos nossos corações amando só porque sim Vivemos assim eu pra ti, tu pra mim Meu Benjamim Amas mesmo em dia não E quando não peço perdão Quando o vento sopra noutra direção E assim vivemos os dois Sem fazer conta de nada somos morada Dos nossos corações amando só porque sim Vivemos assim eu pra ti, tu pra mim Meu Benjamim Track 6 - Só Um Beijo Melopeia: “Vá, anda!” “Eu canto a parte da Luísa.” “Okay, eu fico com a do Salvador.” Todas as minhas mini criaturas, encarregues das minhas emoções, estagnaram as suas tarefas diárias, para que naquele momento, só os meus olhos, os meus ouvidos e o meu coração, trabalhassem. Um batimento falhou, uma nota não foi captada, e a minha visão rapidamente ficou turva. Francamente, que trabalho tão mal feito. Já te pedi Até insisti Para não chegares perto Perto de mim Que é melhor assim Que é algo incerto E eu não sou de grandes paixões Quebrar corações não é para mim Prefiro evitar, no meu canto ficar É melhor assim Mas tu não me quiseste ouvir Voltaste a insistir A chegar perto assim Egoísta ruim Sei que foi só um beijo Mas não foi só um beijo P'ra mim No instante em que te vi Deixei de procurar Não tinha mais sentido Se aquilo que buscava E sem saber sonhava Era contigo E desde logo, ignorei o teu pedido Pois o que dizia a tua boca Era pelos olhos desmentido Investi sem hesitar Nunca quis nada tanto assim Tudo fiz por um beijo Mas não foi só um beijo P'ra mim Já te pedi (no instante em que te vi) Até insisti (deixei de procurar) P'ra não chegares perto (não tinha mais sentido) Perto de mim (se aquilo que buscava) É melhor assim, que é algo (e sem saber sonhava) Incerto (era contigo) E eu não sou de grandes paixões (e desde logo) Quebrar corações não é para mim (ignorei o teu pedido) Prefiro evitar, no meu canto ficar (pois o que dizia a tua boca) É melhor assim, mas tu (era pelos olhos desmentido) Não me quiseste ouvir, voltaste a insistir (investi sem hesitar) A chegar perto assim (nunca quis) Egoísta ruim (nada tanto assim) Sei que foi só um beijo (tudo fiz por um beijo) Mas não foi só um beijo (mas não foi só um beijo) P'ra mim (pra mim) Track 7 - Maria do Mar Melopeia: “Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»” Todos os dias Maria olhava o mar pela janela Maria era do mar mas o mar não era dela E por viver numa ilha No meio do azul plantada maria além do nome Tinha o mar como morada Maria, Maria do Mar se o vento voltar Solta o cabelo vai ver os barcos partir O dia há-de vir em que um queira ficar E só no teu nome navegar Sabe prever tempestades conhece as marés E os peixes que bem cedo Lhe vêm beijar os pés Maria, Maria do Mar se o vento voltar Solta o cabelo vai ver os barcos partir O dia há-de vir em que um queira ficar E só no teu nome navegar Uh uh uh uh uh uh uh uh Uh uh uh uh uh uh uh uh Uh uh uh uh uh uh uh uh Maria, Maria do Mar se o vento voltar Solta o cabelo vai ver os barcos partir O dia há-de vir em que um queira ficar E só no teu nome navegar E só no teu nome navegar E só no teu nome navegar Track 8 - Não Sei Ser Melopeia: Provavelmente, o que aqui escrevo só faz sentido devido ao prolongar da noite. No entanto, é com as estrelas que percebo que a minha vida é uma pintura, na qual somente eu tenho o pincel. É com as estrelas que percebo que se o que penso me faz sentido enquanto ser pensante, ao menos uma pessoa, dentro das muitas outras que por esta altura já no terceiro sono se encontram, concorda comigo. Não há outra sensação como a de concordância com nós mesmos. Quem sabe se a lua também concorda. Pena que alguém, verdadeiramente esfomeado por respostas, lhe deu uma trinca tão grande, que hoje ela nem sabe o que vestir para na festa dos meus pensamentos aparecer. Assim que nasce a manhã E me acorda bem devagar Vejo se decidiste voltar E a desilusão faz de mim derrotista Balanço na corda da vida como um equilibrista Não sei ser não sei ser sem ti Não sei ser não sei ser sem ti Já só com um sopro canto Até que ele chegue ao fim E há um vazio no peito Um não saber ser por direito E algo que sem se ver Faz-me um ser imperfeito Não sei ser não sei ser sem ti Não sei ser não sei ser sem ti Já só com um sopro canto Já só com um sopro canto ah ah ah Ah ah ah até que ele chegue ao fim Track 9- Querida Rosa Melopeia: Petit Gateau de caneca! Ingredientes: - 4 colheres (sopa) de farinha de trigo; - 4 colheres (sopa) de açúcar; - 4 colheres (sopa) achocolatado em pó; - 1 ovo; - 2 colheres (sopa) de leite; - 2 colheres (sopa) de óleo. Preparação: 1) Numa caneca de cerca de 300ml (que possa ir ao microondas) misture bem a farinha, o açúcar e o achocolatado; 2) Acrescente o ovo e misture bem com um garfo; 3) Por último, misture o leite e o óleo; 4) Leve ao microondas em potência alta por 3 minutos (dica: a partir da metade do tempo, quando a massa começar a subir, desligue o microondas, espere que a misture baixe e ligue novamente, repita a operação até que a massa não baixe mais: o bolo estará pronto). Bon appétit! Querida Rosa, és a flor mais bonita Que algum jardim viu nascer Pode haver no teu canteiro uma rosa parecida Mas nenhuma tem o cheiro Da flor da minha vida Querida Rosa, minha prosa, poesia És a mais bela sem saber E se alguém vier certeiro Pra ter colher, primeiro Terá antes de me ver morrer Serei o teu fiel jardineiro Mesmo quando a primavera terminar Se te crescer um espinho Cuidarei com carinho Para que ele não te possa magoar Querida Rosa, se o mundo acabasse E só ficasses tu e eu Para mim bastaria saber que acordaria Cada dia com um beijo teu Serei o teu fiel jardineiro Mesmo quando a primavera terminar Se te crescer um espinho Cuidarei com carinho Para que ele não te possa magoar Se te crescer um espinho Cuidarei com carinho Para que ele não te possa magoar Track 10 - Mesma Rua Mesmo Lado Melopeia: A esperança média de vida, em Portugal, regista-se entre os 77 e os 83 anos. Setenta e sete anos são anos a mais para quem se resigna com o que tem. Alguém que se conforma com a vida que leva, bem pode esperar que essa vida se conforme consigo. Desde pequena fui ensinada a “relativizar”. Se o meu irmão berrava a plenos pulmões, eu devia “relativizar”. Se a educadora se esquecia de colocar o meu desenho no quadro que ficava, na entrada da sala, à vista dos pais, eu devia “relativizar”. Hoje em dia, quando o Spotify se lembra de enfiar, sorrateiramente, um anúncio (um ou seis) na minha playlist, eu devo “relativizar”. Contudo, ninguém me diz que devo “relativizar” a minha existência e aquilo que quero fazer dela. Eu não quero ser como o Carlos (chamemo-lo assim) desta música, que “relativizou” demais, até ver a vida a passar-lhe à frente dos olhos. Nada contra os “Carlos”, mas também nada a favor. Às vezes, também me sinto um “Carlos”. Eram os dois da mesma aldeia Mesma rua, mesmo largo Mesmo jeito de criança Mesmo olhar envergonhado Havia até quem dizia Que eram uma só pessoa Pois só se separavam À noite quando chegavam À rua onde moravam Mas o tempo foi passando Com ele o jeito de criança E aquela uma só pessoa Já era quase só lembrança Ele esperava por ela Mas ela tinha outros planos Tinha encontrado o amor Amor que ele conhecia Há tantos, tantos anos Foi da janela do quarto Que a viu sair para o casamento Chorou como se estivesse No altar naquele momento E foi dizendo bem baixinho Que prometia ser fiel E a ali naquele momento Sentiu o toque dela E lhe deu o anel Preferiu viver sozinho Para se ela quisesse voltar Mesmo quando bem velhinho Não se cansou de esperar Sabia que ela estava longe Mas não deixou de acreditar Que um dia ela viveria Na mesma aldeia Mesma rua, mesmo lado Mesmo lar Track 11- Envergonhado Melopeia: “Como é que cabe tanto fulgor, tanta vida, tanto amor, dentro de alguém? E como é que esse alguém consegue viver num mundo tão restritivo, num mundo onde ter raízes fixas é a obrigatoriedade da existência das árvores, num mundo onde os cafés vêm queimados e custam mais de 50 cêntimos?” “Podes dar um dia de folga ao teu coração? Estou farta de o ouvir resmungar.” “Ele tem umas cordas vocais fortes, não achas?” “Eu só queria beber o meu café.” Não fiques triste se eu pareço desligada Isso não quer dizer Que não esteja apaixonada Enquanto outros escrevem poemas, declarações Eu sinto mas baixinho sem mostrar as emoções Quero que saibas, meu amor Também eu arrasto a asa E há uma festa cá dentro Sempre que chegas a casa Que quando acordo e vejo Que ainda não foste embora É noite de santos cá dentro Mesmo não se ouvindo aí fora Perdoa então meu bem o meu modo abrutalhado Porque este amor apesar de grande É também envergonhado

  • A Importância da Representatividade

    Quando éramos crianças, ansiávamos pelo momento em que acordávamos às 7h da manhã e nos dirigíamos à sala de estar para ver desenhos animados. H20, Gormiti, Power Rangers, Porquinha Peppa, Oliver e Benji. Vibrávamos com cada segundo dos seus episódios. Uns anos depois, recordamo-los nostalgicamente, mas, por vezes, não nos apercebemos que até esses, e sobretudo muitos outros, começaram a moldar-nos enquanto pessoas. Num mundo em constante algazarra, onde se demorares 2 horas a ler 50 páginas de um livro de Direito Administrativo te culpabilizas pelo tempo que despendeste, apercebendo-te que devias ter tirado apontamentos ao longo da leitura e que, por não o ter feito, terás de te safar de outra forma caso contrário serás condenado à leitura das mesmas 50 páginas por mais 2 horas da tua vida; nunca valorizámos tanto os nossos momentos - também eles urgentes - de lazer. Estes passam, precisamente, pela visualização de um filme, de um episódio de uma série, de um vídeo no YouTube (ou muitos, porque é sempre “só mais um e depois vou estudar”), ou pela leitura de um livro. No entanto, já pararam para pensar que dessas séries, filmes e livros vamos captando as aparências, maneirismos e falas das suas personagens, seja consciente ou inconscientemente? Quantas vezes veem o casal heterossexual composto por um homem branco gerente de uma empresa e uma mulher branca que trabalha num salão de beleza nas novelas nacionais? Quantas vezes veem as irmãs gémeas separadas à nascença que se tornam inimigas? Quantas vezes veem o rapaz homossexual, branco, magro, histérico e fofoqueiro? Quantas vezes veem a mulher das limpezas, negra, pobre e obediente? Fruto desta mal representação, são estas imagens e perceções que ficam incutidas na nossa mente e que transparecem nas nossas atitudes. É exatamente essa representação irrealista, distorcida e perversa que tem efeitos depreciativos em muitos indivíduos abrangidos por essa representação sem representatividade, desde uma falta de um sentimento de pertença, de inclusão e, ainda, o desenvolvimento de doenças como distúrbios alimentares, (não só, mas também) motivadas pelo facto de apenas se verem - generalizando - raparigas magras e rapazes musculados. Ou, por exemplo, o clareamento da pele numa tentativa de corresponder aos padrões de beleza que a sociedade nos impõe. A criação de estereótipos podres, cada vez mais enraizados e com uma fundação tão sólida que tornaram árduo (mas possível) desenterrá-los por completo. O surgimento de um efeito dominó, sendo que essa representação infiel por parte dos media força a que as expectativas, esperanças e sonhos das crianças se encolham, normalizando preconceitos e rejeitando a realidade; acompanhando-as ao longo do seu crescimento. Enfim…, mas quem sou eu? Não tenho qualquer formação nesta área, apenas dois olhos e um coração. Acredito que a representatividade efetivamente contribui para a construção da identidade e do autoconhecimento. Confere poder de autodeterminação, faz com que acreditem que têm potencial, motiva a confiança. Ajuda a sentirem-se compreendidos/as. Incentiva a um diálogo aberto sobre os seus problemas. Combate a discriminação. Quanto é que isso não vale? Quando programas cheios de conteúdo fútil, como a “Ex-periência”, contribuem para o reforço desses estereótipos, neste caso, de género e que possuem 0 representatividade, nomeadamente, queer e negra; nota-se a urgência da mesma em Portugal, como em muitos países que ainda têm muito a percorrer. Quando vemos que as mulheres latinas ainda são percecionadas como donas de casa boazonas sem competências para “trabalhos sérios” e que personagens como a da Sofia Vergara em Modern Family contribuem para tal, é que finalmente percebemos a necessidade da inclusão da diversidade. Porém, felizmente, nos últimos anos, esta questão tem vindo a melhorar. São séries como HeartStopper, Ms.Marvel, Sex Education, Dear White People, The Fosters, Good Trouble e Love, Victor que, na minha opinião, têm contribuído para o virar da página deste paradigma. Algo que ainda é preciso aplaudir, apesar de não dever ser. Cada vez mais existe maior representatividade nas assembleias e parlamentos, e ainda bem, porque esta mudança é mais eficaz (através da aprovação de leis que conferem direitos ou estatutos que se revelam groundbreaking e exemplo para outros países) do que uma mudança de mentalidades, que, infelizmente, demora eternidades. Isto é, numa primeira instância, leis de paridade e quotas nos parlamentos e em empresas assegura que, pelo menos a curto prazo, exista alguma representatividade – embora parca – que poderá abrir asas a alguns avanços que, posteriormente, poderão resultar nessa tal viragem de arquétipo. Claro que não se pode imputar tudo e todos pela gravidade deste problema; afinal, sem quaisquer candidatos LGBTQIA+, negros, ciganos, indígenas, muçulmanos, latinos, mestiços, etc., para a indústria de Hollywood, para cargos políticos, para as empresas, ou quando têm menos competências, não podemos apontar dedos aos diretores de casting, aos partidos políticos e aos diretores das empresas – é uma questão de escolha dentro dos possíveis candidatos, claro, quando não é exequível a procura. A ideia de contratar/escolher pessoas exclusivamente para aumentar a diversidade na empresa, por exemplo, não se afigura eficaz porque deturpa o objetivo da representatividade e configura um sentimento de hipocrisia perante a entidade em questão. Mas é nos casos em que têm mais competências que as empresas, que os partidos políticos e que os diretores de casting devem atuar, deixando os preconceitos fora da sala de decisão e escolhendo realmente quem tem mais capacidades. Para além disso, as estruturas de poder dos media devem reconhecer o papel que têm nesta perpetuação do ciclo da discriminação e em todas as camadas que esta pode revestir, de forma a tomarem uma diferente abordagem em relação a todo este problema. Não que isso seja o suprassumo medicamento, claro, mas indubitavelmente ajudaria. Para terminar, proponho que cada um de vós, no vosso quotidiano, se questione acerca dos vossos preconceitos, suas origens e soluções, quer a curto quer a longo prazo, porque, a meu ver, é esse constante questionamento que fará com que as atitudes e os agentes da mudança efetivamente façam a mudança. NOTA DO AUTOR Com a elaboração deste texto apenas pretendo consciencializar o quão importante é a fiel representatividade porque influencia as nossas atitudes, comportamentos, viés e preconceitos. Não pretendo ferir quaisquer suscetibilidades das minorias, aliás, pretendia dar voz às mesmas e propor possíveis soluções relativamente a esta questão, após demonstrar o meu ponto de vista.

  • Mergulho da Próstata

    EPISÓDIO POEMA ESCOLHIDO A Água "Meus senhores eu sou a água que lava a cara, que lava os olhos que lava a rata e os entrefolhos que lava a nabiça e os agriões que lava a piça e os colhões que lava as damas e o que está vago pois lava as mamas e por onde cago. Meus senhores aqui está a água que rega a salsa e o rabanete que lava a língua a quem faz minete que lava o chibo mesmo da raspa tira o cheiro a bacalhau rasca que bebe o homem, que bebe o cão que lava a cona e o berbigão. Meus senhores aqui está a água que lava os olhos e os grelinhos que lava a cona e os paninhos que lava o sangue das grandes lutas que lava sérias e lava putas apaga o lume e o borralho e que lava as guelras ao caralho Meus senhores aqui está a água que rega rosas e manjericos que lava o bidé, que lava penicos tira mau cheiro das algibeiras dá de beber ás fressureiras lava a tromba a qualquer fantoche e lava a boca depois de um broche." - Bocage

  • Mergulho Profilático - Ep 2

    EPISÓDIO POEMAS ESCOLHIDOS "A dor é inevitável O amor é eterno! Partida não significa perda Vimos um barco no mar Deixamos de o ver, mas ele continua a Navegar" - Etelvina 4:40 "comportamento errante foi por isso que ele a deixou comportamento errante e hoje aqui estamos 4:40 num bar onde as casas de banho se transformam numa espécie de casa de fados em cocaína eu só bebo mas ainda assim inegável a beleza destes microclimas: fados no wc espelhado de um club onde só passam techno o saxofonista de jazz apanhado a dançar diz que gosta esta repetição em loop de alguma forma recorda-lhe coltrane hoje vim aqui à procura de alguém que não estava mas há o nietzsche, ele escreveu qualquer coisa sobre o desejo da necessidade a necessidade do desejo (demasiado tarde para o citar em condições) nos fados é obrigatório o desalento e por isso a elaine dizia 98% dos dias não sei o que faço aqui a sara dizia a mim só me apetece chorar e ela não falava da nostalgia do fado de beber demasiado e tudo junto referia-se sim a uma cicuta diária essa espécie de vazio inconsequente e por isso interminável. teimosamente fingindo saber o meu lugar no mundo ignorante de bençãos coroada de amores sádicos mas tentando recuperar as tropas eu agarrava o copo e explicava, ainda que pisando armadilhas, falhamos mas estamos aqui falhamos mas olha para nós tantos gatilhos que nunca chegámos a apertar isso só pode ser uma vitória uma meta que nunca ninguém anunciou quem eu queria não apareceu mas olha só estou em casa sã estou em casa salva e afinal não é o amor que resgata sou eu e o táxi que conseguiu aparecer apesar da chuva torrencial falta dizer o que ninguém diz destas mulheres é que a solidão é o preço a pagar pela resistência: às vezes seria mais fácil aprender a brincar às donas de casa ignorar o patriarca debaixo do tapete e os anelares encontrados debaixo da ponte mas é mais difícil matar um potro que não foge em sentido único e desse ponto de vista o que nos mata será também a única salvação. sabes, o que não se diz nunca sobre a errância é que quando se diz errância diz-se sobre tudo: liberdade." - Francisca Camelo

  • FACULDADE, E DEPOIS DE TI? – PARTE III

    NOTA DO AUTOR: Com esta terceira parte, concluo o que foi o meu Trabalho Criativo da disciplina de Introdução ao Direito e ao Pensamento Jurídico. Deixei a minha favorita para o final: a entrevista à Dra. Ana Margarida Santos, Senior Partner da própria firma, e que foi, até recentemente, Conselheira na Superior da Ordem dos Advogados. Especialista na área de Direito Fiscal, (quase) sempre trabalhou com instituições bancárias. Considero esta a minha entrevista favorita uma vez que esta senhora é uma pessoa que admiro muito, que sempre esteve disponível para o que precisei e que já tive o privilégio de ver defender os seus clientes e as suas causas. Assim sendo, o último agradecimento é para esta incrível profissional, que nos deixa entrar um pouco no seu mundo, não deixando de fora nem o bom, nem o mau. FJ: Olá Doutora. Em primeiro lugar queria agradecer-lhe por ter aceitado o meu convite. A primeira pergunta que tenho para lhe fazer é a seguinte: Licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade Lusíada de Lisboa. Como foi a sua experiência enquanto estudante? Ana Margarida Santos (AMS): Eu é que agradeço o convite. Dos três aos quinze anos, andei num colégio, a Academia de Música de Santa Cecília. Ora, como pode imaginar, nada conhecia da vida. Quando aos quinze, passei para um liceu, o Liceu Rainha D. Leonor e, aí, só fiz disparates. Tanto que só fiz disparates que não consegui ter média para as melhores faculdades de Direito na altura, a FDL e a Católica. Assim, acabei na Universidade Lusíada de Lisboa. Chumbei 2 anos, e saí do curso a sentir que não sabia absolutamente nada. Era um curso extremamente teórico, sem nunca sequer me ensinarem como fazer um requerimento, uma petição inicial, nada. Nos dois últimos anos de curso, trabalhei como paquete num escritório, onde aí sim ganhei experiência. Fiz, após o curso, uma pós-graduação em Direito Fiscal no ISG. Isto em 1995. FJ: Após esta pós-graduação, começou o estágio, correto? AMS: Exatamente. Fiz um estágio com um patrono, um amigo do meu pai, mas logo me fartei e, por isso, pedi ajuda a uma amiga, para trabalhar com ela. Na altura, ganhava 30 contos por mês, o que me dava apenas para o combustível no meu carro. Eram 5 advogados que geriam o escritório. Ao fim de um ano, já estava a receber 500 contos, mas dormia 6 horas por dia. A dada altura, este conjunto de 5 advogados transformam-se numa sociedade, e fazem-me uma proposta para ser sua associada. Eu recusei, e decidi abrir a minha própria firma, com uma amiga e uma solicitadora. FJ: Como foi este processo de abertura de firma? É a firma onde estamos agora? AMS: Não, não é. Estamos a falar de 1998, firma onde estamos agora foi aberta em 2005. Em primeiro lugar, deixe-me que lhe diga que o mais difícil na nossa profissão é que temos duas opções: ou vamos trabalhar para uma sociedade, ou abrimos a nossa, e aí a principal dificuldade é arranjar clientes. Não havia clientes. Assim, quando um amigo do meu pai me oferece um trabalho de solicitadoria, disse que sim, apesar de que 90% das pessoas teriam dito que não. Aí sim comecei a gostar da gestão da advocacia. Fiz de tudo, registos nas conservatórias, entrega de distrates, entre outros. FJ: Ora mas após esta “pausa” na advocacia, começou a trabalhar com instituições bancárias, certo? AMS: Certo. Em 1999, foi me proposta uma avença no banco com três processos judiciais, a qual eu aceitei, e um ano depois fui convidada para ficar como advogada nesse banco, que na altura já era um banco internacional. Tinha cerca de dez mil processos. Passado um tempo, começo a ter avenças com outras empresas. A equipa começa a crescer e em 2003 sou convidada para restruturar o departamento de desinvestimento (os imóveis que o banco revende) do banco onde estava. Tivemos que pegar em todos os imóveis, e analisá-los um a um. Em novembro de 2004, fui eu que organizei o primeiro leilão imobiliário através da banca em Portugal. Um ano depois, criei uma sociedade com o meu ex-marido e outra colega, sendo eu a principal sócia. Esta sim, a firma onde estamos agora. Tínhamos cerca de 12 colaboradores. AMS: Em 2007, a convite do presidente de um outro banco, crio um departamento de desinvestimento nesse banco, com outras 6 pessoas. Nesse mesmo ano, tenho um esgotamento, um burnout, algo tão comum entre os advogados e, por exemplo, os gestores. Tive de ficar de baixa durante 3 meses, e quando informei alguns colegas nos bancos, um pouco recetiva e tímida, o que me disseram foi: “Que sintomas tiveste? Ando a sentir umas coisas esquisitas.”, o que mostra o quão frequentes são estes acontecimentos. Após estes 3 meses, não consegui recuperar, e, portanto, fui para a Galiza 15 dias sozinha, para longe dos meus filhos, e só aí melhorei. Passados dois anos, em 2009, divorcio-me. Termina-se a sociedade, ficando só eu, e apercebo-me que o meu ex-marido me deixou cheia de dívidas. Voltei à estaca zero. Isto coincide com a crise do Subprime, pelo que volto a trabalhar muito com a banca, mas os meus principais clientes agora tinham falido. AMS: Mais um ano se passa, e em 2010, recebo outra proposta, de um terceiro banco, onde fiquei cerca de 3 anos. Note que nunca deixei os outros, portanto nesta altura trabalhava com 3 instituições bancárias. Em 2012, mais um banco me faz uma proposta, um dos com que me mantenho até hoje. Não chego a trabalhar com 4 bancos em simultâneo, uma vez que um dos bancos anteriores começa a pedir-nos para cometer umas irregularidades, algo com que não compactuei, e, portanto, larguei-o. FJ: Ora mas porquê o caminho pela própria sociedade? Não era convidada para as grandes sociedades? AMS: Era sim. Tive inúmeras propostas para grandes sociedades. Nunca quis. Atualmente, os clientes procuram um atendimento personalizado, um advogado que esteja lá para o cliente no matter what. Não querendo dizer que nas grandes sociedades isso não acontece, mas é mais difícil termos um atendimento perso-nalizado quando contratamos uma firma com centenas de colaboradores. O outro problema das grandes sociedades é que quando lá trabalhas, aquilo é como uma máquina, uma linha de montagem. Ou acompanhas, ou és engolido pela máquina. FJ: Para além de ser advogada, é Conselheira no Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Em que consiste este órgão? AMS: Exato. Desde 2020, sou conselheira do Conselho Superior da Ordem dos Advogados, sendo que o meu mandato termina este ano. O Conselho Superior é basicamente o órgão máximo jurisdicional da Ordem. Comparado ao Estado, seria como o Tribunal Consti-tucional da Ordem dos Advogados. Decidimos recursos a processos deontológicos, assim como processos de laudo – que são análises técnicas dos honorários dos advogados. FJ: Chegamos então ao fim desta entrevista. Que conversa esclarecedora! Muitíssimo obrigado.

  • Amante

    Acho que sou um mau namorado. Certamente serei. Deixo demasiadas coisas por dizer. Deixo sempre as palavras pela metade; há sempre um rastro de silêncio imperscrutável que caem de todas as palavras com que te escrevo (com que te beijo, com que te toco) – mas ainda assim penso que o que te digo se amontoa amiúde para sentires esta montanha vertiginosa de emoções que guardo em mim; esta montanha irrecuperável de silêncio enamorado. Se as palavras alguma vez pudessem dizer algo, talvez rogasse para que nunca desistisses de me escalar; talvez te suplicasse para nunca te desapaixonares pelas cores do meu silêncio. Bem vistas as coisas, talvez sejam as palavras que são más. Mas se é das palavras que somos feitos, talvez esteja condenado a ser um mau namorado – um namorado que fica sempre pela metade. Talvez eu não queira ser das palavras – penso que não é com as palavras que eu te amo; eu amo-te apesar delas. Eu amo-te com as mãos (as que te escrevem isto; as que mergulham amedrontadas na obscuridade do quarto [das palavras] à tua procura); eu amo-te antes de o dizer; eu amo-te antes de pensar; eu amo-te porque sou – porque és. Eu não tenho jeito nenhum para ser um namorado. O amor dos namorados é estéril – porque, no fundo, é tudo o que eles têm, o amor, que tentam a todo o custo fixar, prender, instituir (e o que institui mais que a palavra?). Eu desenho o teu nome na minha pele todos os dias, e ela apaga-a todos os dias – porque todos os dias tu és diferente; e todos os dias eu me apaixono por ti. Todos os dias as palavras que te descrevem são diferentes, e é talvez por isso que desisti de as tentar agarrar; de TE tentar agarrar – aprendi contigo que a melhor maneira de prender um espírito é libertando-o. Despe-me as roupas e coloca-nos à frente do espelho. Abre-me o peito ao céu e aprisiona os meus olhos à liberdade das tuas mãos – para o mundo somos iguais. Ou melhor: para o mundo EU sou igual a ti. Nunca serei um bom marido. Talvez porque não o queira ser nunca. Eu quero ser o teu amante – a pessoa para sempre situada fora da instituição; da realidade mumificada. O teu certo para sempre errado. O imprevisível. O livre. O verdadeiro. Aquilo que somos. Aprendi contigo que o verdadeiro amor nunca poderá vir das palavras, do conforto. Do conforto das palavras. O verdadeiro amor é o que quer que nós façamos dele. É o que a tua pele nua contra a minha desejar no momento. É o que os rasgos tresloucados da nossa paixão nos fizerem fazer em cada instante. O verdadeiro amor é tendencialmente perigoso – e eu aprendi contigo a não ter medo de arriscar. Aprendi contigo a ver no erro o epicentro da liberdade. Aprendi contigo a ver no interdito o espaço privilegiado da natureza pecaminosa do meu ser, e a não ter vergonha disso. Aprendi contigo a ser um mau namorado. Nunca alguma vez irei querer ser teu namorado ou teu marido. Eu serei para sempre o teu amante ( lover , amant , amante , liebhaber ).

  • Ontem sonhei que estava acordada

    Ontem sonhei que estava acordada. Sonhei porque sou humana, achei que estava acordada por mero engenho da minha mente: traiçoeira, gosta ela de me pregar partidas. Na verdade, não havia muita diferença: o mundo mantinha-se distante e reservado, exatamente como uma criança na presença de um desconhecido. Era rodeada por um ambiente descomplexificado, um tanto quanto descabido, por vezes. E eu notava, sabia que estava a sonhar, mas guardei esse segredo no maior abismo da minha mente, até me esquecer que, verdadeiramente, não estava mais consciente: deixemos a ilusão durar um pouco mais, expandir-se, modificar-se, tornar-se algo bonito talvez. E bem, bem eu sonhei que estava acordada, bem eu esperei algo de fantástico e inusitado acontecer: queria voar, mas, por sentir que estava acordada, os pés continuaram assentes no chão. E então ocorreu-me: e se fingisse que estava a sonhar dentro do meu próprio sonho de clareza? E se imaginasse que a minha consciência onírica dormia, quando o meu corpo já repousava há muito tempo? Mas não, permaneci enraizada ao chão, o corpo puxado pela gravidade fictícia: além de infiel, a teimosa não se deixa enganar por si própria. Que massada, não irei voar hoje, talvez noutro dia consiga ganhar asas. E que mente irrequieta, no entanto insuportavelmente realista: nem a sonhar consigo escapar ao martírio do dia-a-dia. Invejo aqueles que escapam, que têm sonhos cor-de-rosa, que se invadem do comum e previsível, viajam por terras desconhecidas e pouco lógicas, exploram e não se enraízam ao factual enquanto caem nos seus próprios devaneios. Esses, que não são como eu, são felizes, pelo menos enquanto sonham, dentro da sua bolha - uma válvula de escape ao panorama dececionante que é a realidade em que nos inserimos. Mas enfim, que fazer: não se voa, não se sonha cor-de-rosa, ainda menos a preto e branco. Por vezes um certo delírio decide fazer a sua visita, desestabiliza o outrora sono profundo e calmo, causa ondas na nossa consciência: mas mesmo os pesadelos têm um certo toque e efeito emocionante no espírito de alguém que sonha que está acordado. Mesmo quando acordamos num sobressalto, numa ansiedade de escapar aos medos e inseguranças que criamos inconscientemente, há algo de poético, há algo de empolgante, há algo de novo. E agora vem a desilusão: esperei, esperei um pouco mais, talvez não tenha esperado de todo - quem sabe como o tempo funciona do outro lado -, e tanta (ou nenhuma) espera, paciência e expectativa, e nada. Nada mudou, nada de extraordinário aconteceu, não se originou algo bonito (como outrora previ): continuei a sonhar que estava acordada, em todos os sentidos pragmáticos da coisa, com todas as cores aborrecidas, sons e cheiros normais do mundo. Acordei, já não sonhava que estava acordada, estava efetivamente de volta ao universo das coisas palpáveis e concretas. Olhando à distância, fui confrontada com a fadiga do mundo. Que aborrecimento, verdadeiramente não posso fugir de quem sou, e muito menos da realidade que eu própria ajudei a reproduzir. Ontem sonhei que estava acordada. Hoje, acordada, desejo estar a sonhar.

  • Mergulho Profilático - Ep 1

    EPISÓDIO POEMA ESCOLHIDO "A spirit moved. John Harvard walked the yard, The atom lay unsplit, the west unwon, The books stood open and the gates unbarred. The maps dreamt on like moondust. Nothing stirred. The future was a verb in hibernation. A spirit moved, John Harvard walked the yard. Before the classic style, before the clapboard, All through the small hours of an origin, The books stood open and the gate unbarred. Night passage of a migratory bird. Wingflap. Gownflap. Like a homing pigeon A spirit moved, John Harvard walked the yard. Was that his soul (look) sped to its reward By grace or works? A shooting star? An omen? The books stood open and the gate unbarred. Begin again where frosts and tests were hard. Find yourself or founder. Here, imagine A spirit moves, John Harvard walks the yard, The books stand open and the gates unbarred." - Seamus Heany

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