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- O choque de estar conformado
“Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação” -Sérgio Godinho Em 1974, Sérgio Godinho escrevia estas palavras; hoje, os representantes de múltiplas Associações de Estudantes juntam-se para as concretizar. Na sequência do apelo ao Reforço da Ação Social comunicado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, os representantes das Associações de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Faculdade de Ciências e Tecnologia e da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, da Faculdade de Letras e da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, da Escola Superior de Teatro e Cinema e do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território reuniram-se para discutir e apelar ao reforço da Ação Social no Ensino Superior, essencialmente no âmbito das bolsas, das cantinas e do alojamento. Porém, à concretização desta reunião opuseram-se os habituais problemas de uma Direção que nada pretende alterar: à última da hora, o auditório que compreendia centenas de estudantes foi substituído por uma pequena sala nos confins do edifício. Este reforço demonstra-se essencial para garantir uma verdadeira igualdade de oportunidades no ensino superior, pois, embora o concurso nacional de acesso seja isento de discriminações, a alienação dos estudantes com menos recursos é visível ao longo de todo o percurso académico. É clara e indiscutível a necessidade de combater estes problemas que preconizam uma elitização deste que é, supostamente, um direito de todos e, consequentemente, restringem a sua universalização. Estudantes de passados e presentes diversos, de Universidades diferentes e de áreas distintas, mas com problemas e reivindicações comuns; a falta de qualidade nutricional das refeições servidas, a falta de cantinas sociais e, quando existentes, as longas filas destas, a insuficiência de lugares para todos os estudantes, o apoio psicológico inexistente ou insuficiente, as más condições das estruturas, a falta de alojamento e a situação precária das residências, os atrasos das bolsas e o subfinanciamento das mesmas, a negligência das necessidades dos estudantes com necessidades especiais e a falta de professores são protestos coletivos destes estudantes. Numa nota mais pessoal aos estudantes de Direito, o Presidente da Associação de Estudantes, Luís Miranda, aponta as precárias condições do alojamento em Campolide, com 180 camas para milhares de estudantes, que se viram obrigados a viver 3 dias sem água quente e aquecimento, em quartos diminutos; reforça também a necessidade de mais salas de estudo, lamentando a substituição do conhecido “Aquário” por duas salas muito menores sem as condições essenciais para um dia de estudo prolongado, especialmente noturno; adicionalmente, destaca as pobres escolhas alimentares presentes na cantina social, que impossibilita uma alimentação nutricionalmente completa e deixa dezenas de estudantes vegetarianos sem um prato que os sacie. Ainda nesta nota, refere que o bar da faculdade encerra às 18h, não obstante o facto de múltiplos estudantes continuarem em aulas até às 22h, vendo-se estes forçados a alimentar-se de café e bolos das máquinas automáticas. Referindo uma das principais medidas do programa eleitoral, salienta o facto de apenas existirem 2 psicólogos, que não estão em regime de exclusividade, para 1300 estudantes; realça também a falta de representação dos estudantes nos órgãos da faculdade e a consequente necessidade de revisão do RJIES e do regime fundacional. Assim, apela a que se deixem as meias soluções da Direção, apoiadas na transferência para Carcavelos (a qual ainda não foi discutida com os estudantes que serão alvos da mesma), que em nada resolvem os problemas atuais dos estudantes, e que estes se mobilizem contra as condições existentes, não se conformando com as mesmas. Mas, no meio de tantos problemas, quais são as soluções? Ora, para todos os representantes presentes aparenta não existir uma poção mágica que os elimine, o que funciona e tem funcionado ao longo dos anos é a resistência e a persistência dos estudantes; é através de abaixo-assinados, protestos e concentrações nas respetivas faculdades, é através da consciencialização e mobilização dos colegas e através da manifestação das exigências nas ruas, especialmente no tão acarinhado 24 de março, o dia em que milhares de estudantes se juntam e saem às ruas para relembrar que, tanto em 1962 como atualmente, a verdadeira mudança só é conquistada quando não nos conformamos e exigimos o que é nosso por Direito. Mafalda, presidente da Associação de Estudantes da FCSH, brinca com a expressão “o choque de estar conformada”, ou seja, com o facto de ficar chocada quando se apercebe que ela, tal como muito outros estudantes, se tornaram indiferentes e normalizaram as más condições; brinca que chocante não é ter uma barata na cantina, mas sim estar habituado ao ponto de já considerar isso algo normal. Vemos um paralelo na nossa própria faculdade, "Mais uma da nova escola da lei" tornou-se um lema acarinhado e jocoso para definir as condições precárias que nos são opostas diariamente. Esta expressão prevê a normalização de sucessivos infortúnios e situações, que não são meras peripécias de uma instituição de renome, mas sim a divulgação da indiferença para com as necessidades basilares dos estudantes e a consequente preterição das mesmas. Perante toda esta conjuntura, o que nos resta fazer? A História já comprovou que só as vozes, em uníssono, de todos os estudantes são capazes de produzir mudança efetiva e duradoura, assim, resta-nos continuar a lutar e a resistir para que mais nenhuma destas ocorrências se normalize e para que o ensino possa ser de todos e para todos.
- A União Europeia
A atual União Europeia teve a sua origem em duas comunidades: a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), com 6 países fundadores, em 1958 - Alemanha, Itália, os Países Baixos, França, Bélgica e o Luxemburgo. Portugal entrou apenas em 1986, e alguns países ainda estão em processo de entrada, como a Ucrânia (este processo é demorado e complexo). Desde a sua formação, a UE tem vindo a sofrer alterações, não sendo, atualmente, apenas uma organização económica. É composta por 24 idiomas oficiais e 27 países membros (até 2020 era composta por 28 membros, no entanto, nesse ano, deu-se a saída do Reino Unido da organização). Numa simples primeira análise, podemos dizer que existem três poderes dentro da mesma: o poder executivo, o legislativo e o judiciário. Ao nível do poder legislativo, existem 705 deputados europeus distribuídos por todos os países membros de forma proporcional à sua população (com a saída do Reino Unido, este número diminuiu, sendo, anteriormente, de 751 deputados). Portugal, por exemplo, tem direito a 21 deputados; já a Alemanha tem 96 deputados. Existem 10 partidos europeus. O maior partido é o Grupo do Partido Popular Europeu, com 179 deputados, e o segundo maior é o Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, com 146 deputados. É importante referir que apenas o Parlamento Europeu é nomeado diretamente, os outros órgãos não o são. A atual presidente do Parlamento Europeu é Roberta Metsola, e tem como funções dirigir os trabalhos e representar o Parlamento nas outras instituições da UE. As eleições para este órgão ocorrem de 5 em 5 anos, através de sufrágio universal. Contudo, cada país detém as suas próprias regras para a realização destas eleições: por exemplo, a idade mínima para votar é de 18 anos, mas para concorrer ao Parlamento varia de país para país. O parlamento só aprova ou desaprova as leis propostas pela Comissão Europeia (executivo), não tendo a seu cargo propor leis. Ainda dentro deste poder, existe o Conselho da União Europeia. Este órgão é composto por 27 membros (cada um dos países indica alguém para o órgão, dependendo do assunto que será debatido), e tem como principal função votar aquilo que o Parlamento já votou. Ao mesmo tempo, o correspondente ao poder executivo é dividido em dois órgãos: a Comissão Europeia e o Conselho Europeu. A atual presidente da primeira instituição referida é Ursula Von Der Leyen. Esta comissão tem como principais funções elaborar leis, tratar dos tratados internacionais, e da entrada ou saída de um país da UE. Tem 27 assuntos e a cada país é atribuído um. O seu mandato tem uma duração de 5 anos. Paralelamente, é o Conselho Europeu (composto pelos chefes de Estado) que define que país fica com cada assunto. O atual chefe deste órgão é o Charles Michel. Por último, a nível do poder judiciário, existem 2 órgãos: o Tribunal de Contas, que fiscaliza o Orçamento, e o Tribunal de Justiça Europeu, composto por um juiz de cada um dos 27 países, por um mandato de 6 anos. Em suma, numa época de tanta instabilidade política a nível mundial, é importante percebermos o funcionamento das instituições, especialmente da UE, por ser uma instituição em que o nosso país se insere e em que opera de forma ativa.
- Teia de Mentiras
Foi uma mentira. Uma ilusão que tu com muito prezar criaste. Era tão perfeita. Até mesmo inacreditável. Fizeste a tua teia com muito cuidado. Demoraste os teus dias para que cada detalhe estivesse sublime. Esperaste que eu, a mosca, a presa, se encantasse com o brilho dos fios de seda, molhados pela orvalhada. O sol ao refletir neles deixou-me cega. Cega de alcançar aquele tesouro. Era tão lindo, tão brilhante. Pensei que finalmente tinha encontrado uma mina de diamantes. Estava rica. Quando afinal não conseguia sair. As minhas asas ficaram de imediato agarradas aos filamentos luzidios. Quanto mais tentava sair, mais ficava embrenhada nos cordões viscosos. Já estava a ficar sem ar, apertada, com o desespero de procurar uma saída rápida. Os dias, que aqui foram minutos, foram de verdadeira cólera. Apesar do pânico, ainda estava encadeada por tanta luz. Mas, o pavor foi muito maior quando toda esta claridade desapareceu. De repente, puseste-te à minha frente, deixando-me na escuridão. O que consegui ver eram os teus olhos. O teu olhar fixo, gélido e apático que me mortificou. A imposição da tua altura colocou-me num lugar de inferioridade. Quando te aproximaste apercebi-me do quão monstruoso eras. Pavor e nojo era o que sentia quando olhava para ti. Comecei a sentir o teu bafo quente e percebi que seria o fim. Porém, não o fizeste depressa, como a luz que se apagou quando eclipsaste o sol. Ficava cada vez mais e mais apertada. Enrolaste-me em correntes sobre correntes, até estar bem amarrada, presa, sem qualquer escapatória. Afastaste-me da luz quente dos dias, do toque fresco das madrugadas e do vislumbre da própria vida. E foste-te embora. Eu ali fiquei à espera que voltasses. Enquanto agonizava, tu desfrutavas da tua refeição anterior. A seguir, era eu, já fria, sem qualquer sopro de vida.
- sonhos de elefante
Limpo as lágrimas com a mão esquerda, dígito o número de telemóvel com a direita e ando em passos largos pelo passeio. Tenho o rímel borrado por causa do choro e a franja despenteada. As palavras do Afonso parecem vir com o vento, como ecos: “Catarina, vou ser sincero. Não acho nada de especial, sinto que já vi isto em algum lado. Parece que as tuas pinturas não estão vivas e que as enterraste antes sequer de lhes teres dado vida.” Se os meus quadros tivessem sido pintados a partir de um ponto de vista “típico” masculino, marcados por um heroísmo entediante, por uma vitimização desmedida e por um aborrecimento mascarado de tristeza, então, o Afonso amá-los-ia. Que tolo, ele não passa de um homem tolo! Que sabe ele sobre a minha arte? Que sabe ele sobre mim? Só sabe aquilo que eu deixei que ele soubesse, o que corresponde a absolutamente nada, sou tão camaleónica como uma bola de espelhos. A minha relação com o Afonso resumia-se a isto - ele punha sal nas minhas feridas, enquanto me dava beijos na bochecha. Encosto o telemóvel à cara molhada e ouço uma voz enfurecida: “Onde estás? Estás atrasada! O jantar está a arrefecer! Catarina? Catarina, querida, estás a chorar? Passou-se alguma coisa? Está tudo bem?” Suspiro e começo: “Acho que não está tudo bem, mãe. Às vezes, sinto que o meu cérebro não acompanha a velocidade do meu coração. Como se estivessem os dois a jogar à apanhada e o meu coração fosse tão veloz como o Aquiles e ninguém o conseguisse apanhar. Hoje, alguém por quem tenho carinho disse-me que não gostava dos meus quadros. Eu não sei ser sem os quadros que pinto, mãe. O que quero é que todos me digam “Catarina, querida, está tão bonito. És tão bonita. Amo-te”, tal como tu dizias quando eu te desenhava com braços e pernas palito. Mãe, eu adoro-te, mas a culpa talvez seja tua por me habituares sempre à tua devota aprovação. E, agora, quando não a recebo dos outros, apetece-me rasgar-me, colar os pedacinhos de outra forma e fazer um puzzle novo. Antes, a Mafalda ajudava-me sempre a fazer o puzzle no chão da sala. Ela insistia em pôr juntas peças que, notoriamente, não encaixavam, mas, de alguma forma, a imagem final ficava muito mais bonita do que a de referência que vinha com a caixa do jogo. Agora, não partilho com ela qualquer responsabilidade artística. E, caramba, ela acabou de comprar um casarão e aposto que está grávida, porque não bebeu uma gota de vinho no último jantar que tive com ela e eu sei que ela adora vinho. Mãe, a Mafalda que eu conhecia odiava crianças, sabias? A Mafalda que eu conhecia queria viajar pelo mundo, enquanto me dava permissão para ser minha musa, por um prazo indefinido. Eu acho que ela sempre adorou o estrelato que os meus quadros lhe davam, orgulhava-se de ser o epicentro de quase todos os meus terramotos artísticos. Quando chegava à altura da inauguração da exposição do meu trabalho de fim de semestre na faculdade, a Mafalda era o centro da sala. Todos os olhos se viravam para a rapariga com roupa eclética e com um sorriso maior do que o mundo. Ela fingia não gostar da atenção e, então, como por caridade, pegava-me no braço e forçava-me a falar com as pessoas sobre as pinturas. É certo que as conversas eram, geralmente, controladas por ela, mas eu deixava, deixava-a controlar tudo. Funcionávamos assim e não havia nada de mal nisso, eu estava feliz com o que pintava e ela juntava “ser musa de uma semi-artista” ao lado de “ter uma cara de boneca” à lista de coisas que faziam dela uma mulher fatalmente atraente, não dando hipóteses a qualquer pessoa que se recusasse a apaixonar-se por ela. Lembro-me de ela me dizer, enquanto pintava as unhas dos pés com uma mão e mudava de canal com a outra, com o rosto iluminado pela luz da televisão: “Catarina, vamos para a Tailândia, vais pintar-me enquanto eu estou agarrada a um elefante e te sorrio com os dentes todos!” Eu sabia que não havia dinheiro para irmos à Tailândia, nem para viajarmos pelo mundo, a Mafalda estudava teatro e eu estudava pintura, não estudávamos uma engenharia qualquer, que nos desse um bom ordenado. A Mafalda sabia disso, a Mafalda sabia que nós nunca iriamos à Tailândia sozinhas e que eu nunca a pintaria agarrada a um elefante, enquanto ela me dizia, aleatoriamente, que cores utilizar para a pintar a ela ou ao animal e me sorria com os dentes todos. A questão é que, para ela, o sonho bastava e para mim também. A Mafalda tinha consciência de que só a proposta de tal ideia me faria feliz, ela sabia que eu adorava sonhar acompanhada, aliás, que eu vivia para ser arquiteta de sonhos, independentemente deles se transformarem numa coisa concreta ou não passarem de bolinhas de sabão que pairavam aqui e alí. Agora, eu e a Mafalda deixámos de fazer isso. Deixámos de partilhar sonhos. Ela faz o que todos os outros adultos fazem, fingir. A maior parte de vocês brinca ao jogo da vida a fingir. Vivem em casas a fingir, com pessoas a fingir, fazem sexo com o vizinho a fingir, têm um emprego a fingir… Sabes o que está presente em todos os meus quadros, mãe? Sede pela vida. Eu pinto para que os outros gostem de mim, acho que tudo o que fazemos é uma forma de nos amarem um bocadinho mais, mas também o faço para provar a vida vezes sem conta, como se ela fosse um fruto infinito. No final de contas, as duas coisas podem coexistir. Pintar é saborear a vida de diferentes formas, das formas que eu conseguir sonhar, até não der mais, até o meu cérebro, finalmente, conseguir apanhar o meu coração e lhe dizer, com uma voz autoritária: Acabou. Para de andar em círculos. Já foste todas as Catarinas que quiseste ser. Já colheste todos os figos e já os comeste todos. Para de pintar telas e a seguir de as cobrir de branco. Começa a usar outros sapatos mais confortáveis que não aquelas botas horrorosas que a Mafalda te deu nos anos. Vai descansar, leva os teus sonhos até ao fundo da piscina de alguém e enterra-os lá, entrega-os a outras pessoas, como se fossem presentes. Continua a decorar as caixas dos teus cérebros (que são tão teus como das pessoas às quais os roubaste), trata bem deles. Mas, vá lá, Catarina, está na hora. Vai fingir como os outros fingem.”
- A (des)proporcionalidade do poder
Parece ser exatamente numa faculdade de Direito, o sítio que deveria inspirar uma maior democracia, que os pratos da balança se começam a desequilibrar. Os dias são longos, as aulas são duras e, mesmo assim, parecemos viver num ambiente que expira o oposto de empatia. Quem mais deveria lutar pelo equilíbrio social e justiça, é quem mais facilmente esquece a doutrina dos “freios e contrapesos”. Lutamos tanto pelo nosso mérito pessoal, pela chance de sermos alguém, que nos esquecemos que sozinhos nada somos, que sem a comunidade à nossa volta nada acontece, que sem pessoas o mundo não se mexe. Quando as hierarquias se sobrepõem ao bom senso e aos trâmites das relações interpessoais estamos perante uma das maiores perdas da humanidade, quando os agentes da mudança escolhem apenas mudar o que ajuda os próprios e esquecer que a mudança só serve se beneficiar todos, quando as “antíteses do burocrata” dificultam os seus próprios processos para impedir que estes sejam atingíveis pelos demais, quando não olham a meios para atingir os fins, quando abusam do seu poder – algo está seriamente errado. Deixarmo-nos levar pelo poder que, por um meio ou por outro, nos dão, não só constitui um abuso de confiança como é precisamente o oposto daquilo que todos devíamos ambicionar atingir num mundo democrático e num mundo em que todos podemos viver em harmonia e com iguais oportunidades. No mundo em que, em princípio, todos queremos viver. Para se garantir o respeito pelas instituições, não precisamos de autoritarismos despropositados, nem de ações desmedidas. Não precisamos de viver em medo constante em ambientes que deveriam ser de leveza, colaboração e partilha. As regras são fundamentais. Mas nunca podemos deixar para trás os tão conhecidos “freios e contrapesos” que devem vir com elas. No universo do Direito, o princípio da proporcionalidade é o mais parecido que temos com bom senso e equilíbrio. Por isso, deixamos um apelo a que todos comecemos a aplicá-lo no nosso quotidiano. Antes de agirmos, pensemos: é adequado? é necessário? Existem mais vantagens nesta atuação do que desvantagens? E, ao fazê-lo, não pensemos apenas no que é mais benéfico para nós mesmos. Retiremo-nos da equação por alguns momentos. Será que é proporcional agir desta maneira neste momento? Talvez nos surpreendamos com a quantidade de vezes em que, ao pensar desta forma, agiríamos de forma diferente… Talvez o mundo fosse um lugar melhor, mais feliz, com mais humanidade. Talvez todos o quiséssemos habitar sem receios. Numa altura em que tanto falamos (e bem) de saúde mental, por que é que escolhemos tantas vezes pôr de lado a empatia, e nos esquecemos de pesar os reais benefícios de agirmos de certa forma, muitas vezes sem efetiva justificação? Por que é que gritamos aos sete ventos que nos preocupamos com os outros, que sentimos as injustiças do mundo e as tentamos resolver, que amamos aqueles que nos são mais próximos, se depois nem eles sabemos tratar com a empatia necessária? Se nem por eles pomos de lado as nossas ambições invencíveis? Numa sociedade que já aspira a tanto mal, num mundo que já transborda de crueldade, numa faculdade que já propende para o desespero, não sejamos mais um veículo de malignidade, mais um tubo de escape de truculência. Não. Sejamos antes uma mão amiga, uma cara conhecida, um rosto familiar. Sejamos aqueles de quem o mundo precisa, por muito difícil que isso seja, e não aqueles que o mundo já tem em excesso. O verdadeiro desafio que a vida nos apresenta não é alcançar as posições de destaque, essas são atingíveis com mais ou menos suor; a dificuldade não está em construir uma casa, está em fazê-lo sem deixar pedras para que os outros tropecem, está em limpar à medida que avançamos para que os outros não tenham de sofrer com o pó que fica no ar, está em não cobiçar o andar extra que o vizinho tem. A dificuldade está em distinguir entre a própria ambição e os meios usados para atingir o que tanto ambicionamos. Muitas vezes, temos de ter cuidado para que a linha ténue não se apague… Não nos deixemos enganar pelo que vemos os grandes líderes a fazer, não nos enganemos com o modo pelo qual os vemos a chegar ao poder… O mundo não precisa de mais hipocrisia e traição. O mundo precisa, agora e desde sempre, dos “grandes de alma” – aqueles que estão sempre prontos a ajudar, aqueles que se esforçam para nos deixar com um sorriso na cara, aqueles que partilham o guarda-chuva, e não os que rezam para que fiquemos constipados…
- Ata da Eleição 2022/2023
Ao trigésimo primeiro dia do mês de outubro do ano de dois mil e vinte e dois, pelas dezoito horas e dezoito minutos, deu-se início, na Sala dos Núcleos, à reunião de eleição da nova Direção do núcleo autónomo de estudantes Jur.nal. Estiveram presentes o Diretor demissionário, Rafael Guerra, a Vice-Diretora demissionária, Isabel Costa, o Vice-Presidente da NOVA School of Law Students’ Union, Rúben Cirilo, a Secretária-Geral da Mesa da Assembleia Geral, Ana Sofia Fernandes, e alguns membros da Redação, António Subtil, Beatriz Pereira, Hugo Mendes e Sofia Dias. Havia apenas uma lista candidata, doravante designada por Lista A. A Lista A era composta por Isabel Costa (Diretora), António Subtil, Hugo Mendes e Sofia Dias (Vice-Diretores). Posto isto, procedeu-se ao ato de eleição. Cumprindo o disposto no n.º 1, do art. 26.º dos estatutos do Jur.nal, tiveram capacidade de voto todos aqueles que, até à data, estavam há pelo menos um semestre no núcleo, tendo-se também considerado que o Diretor demissionário, Rafael Guerra, tinha capacidade de voto, uma vez que este apenas se demitiu apenas enquanto membro da Direção, tendo permanecido enquanto membro da Redação. Assim, tiveram legitimidade eleitoral todos os presentes, à exceção do Vice- Presidente Rúben Cirilo e a Secretária-Geral Ana Sofia Fernandes. Recorreu-se à plataforma Strawpoll para realizar a eleição, tendo-se garantido o anonimado do voto. Nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião pelas dezoito horas e vinte e cinto minutos, da qual se lavrou a presente ata, ficando a nova Direção em gestão até que aquela seja lida e aprovada em Assembleia Geral dos Estudantes da NOVA School of Law.
- Programa Eleitoral 2022/2023
Nos termos do artigo 27. º dos Estatutos do Jur.nal, apresentamos a seguinte candidatura à Direção do Jur.nal, núcleo autónomo da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa: a) Identificação dos Candidatos: Candidatam-se à Direção do Jur.nal, os seguintes alunos da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, declarando que, de acordo com o artigo 27. º dos Estatutos do Jur.nal, não detém cargo diretivo da AEFDUNL ou de um núcleo autónomo da Universidade Nova de Lisboa ou AEFDUNL, com a exceção da candidata n.º 3, que detém o cargo de Diretora-Adjunta na Direção cessante do Jur.nal, não se revelando qualquer incompatibilidade: 1 – António Jorge Carvalho Subtil, N.º 8622, do 2.º ano da Licenciatura 2 – Hugo André de Azevedo Mendes, N.º 8546, do 2.º ano da Licenciatura 3 - Isabel Lundbo Murta Costa, N.º 8539, do 2º ano da Licenciatura 4 – Sofia de Campos Silva Peças Dias, N.º 8574, do 2.º ano da Licenciatura A Direção candidata autovincula-se ao exercício das competências dispostas no artigo 12. º dos Estatutos do Jur.nal e ao respeito pelos princípios enunciados no artigo 3. º dos mesmos Estatutos. b) Plano de Repartição de Funções entre a Direção: Nos termos do artigo 10. º dos Estatutos do Jur.nal, a direção deste núcleo é composta por um Diretor/a e três Diretores-Adjuntos/as, assim, apresentamos a seguinte repartição de funções: Diretora – Isabel Lundbo Murta Costa, N.º 8539, do 2º ano da Licenciatura, assumindo as competências enunciadas no artigo 13. º dos Estatutos do Jur.nal e especializando-se no Orçamento e em Reflexões Críticas; Diretor-Adjunto – António Jorge Carvalho Subtil, N.º 8622, do 2.º ano da Licenciatura, assumindo as competências enunciadas no artigo 14. º dos Estatutos do Jur.nal e especializando-se em Relações Públicas e Eventos; Diretor-Adjunto – Hugo André de Azevedo Mendes, N.º 8546, do 2.º ano da Licenciatura assumindo as competências enunciadas no artigo 14. º dos Estatutos do Jur.nal e especializando-se em Entrevistas e Sondagens; Diretora-Adjunta - Sofia de Campos Silva Peças Dias, N.º 8574, do 2.º ano da Licenciatura, assumindo as competências enunciadas no artigo 14. º dos Estatutos do Jur.nal e especializando-se em Redes Sociais e no Clube de Leitura; As competências de Admissão e Demissão de Redatores, assim como de Proofreading, serão assumidas por todos os membros da Direção. c) Plano Geral para o Jur.nal: Considerando as competências da Direção expressas no artigo 12.º do Jur.nal, a Direção candidata apresenta os seguintes traços gerais: ü Manter a periodicidade das publicações, no site e conta oficiais do Jur.nal; ü Desenvolvimento de sondagens no Instagram do Jur.nal e nos grupos de turma/ano sobre temas relevantes para a sociedade, que serão posteriormente publicados na Edição Física; ü Desenvolvimento de, pelo menos, 1 (uma) entrevista por semestre; ü Desenvolvimento de, pelo menos, 1 (um) evento por semestre; ü Criação de um Clube de Leitura, que deverá reunir mensalmente, salvo exceções, que deverá ocorrer online, durante os períodos de interrupção letiva; ü Publicação de 1 (uma) Edição Física no 2.º semestre; ü Publicitação ativa do Jur.nal nas redes sociais e no campus; ü Criação de uma conta de Twitter, que servirá para expandir os âmbitos do Jur.nal, com iniciativas como a publicação semanal de citações/artigos/obras, de modo a incentivar a leitura, entre outras; ü Expansão dos âmbitos do Jur.nal para incentivar o envolvimento na vida académica e a reflexão crítica dos estudantes; Enquanto Direção candidata comprometemo-nos a zelar pelo cumprimento dos traços gerais acima definidos, não excluindo a possibilidade de delinear novos objetivos, tendo sempre em conta o disposto nos Estatutos do Jur.nal. d) Plano para as Edições Físicas: Nos termos do disposto no artigo 4.º dos Estatutos do Jur.nal, a Direção compromete-se a desenvolver 1 (uma) Edição Física no 2.º semestre do presente ano letivo de 2022/2023. Esta Edição Física será elaborada com base num tema, a ser discutido entre todos os membros do Jur.nal, e será composta por: ü Textos elaborados pelos redatores e/ou eventuais colaboradores, em formato de prosa e/ou poesia; ü Imagens e/ou ilustrações; ü Sondagens; ü Espaço aberto para reflexões críticas; ü Ficha Técnica e Agradecimentos; ü Outros; A elaboração da Edição Física é da competência principal da Direção, sendo esta responsável por todas as questões orçamentais e de impressão, não excluindo o contributo dos redatores para o conteúdo material da mesma. e) Plano para a Componente Online: Nos termos do disposto no artigo 4.º dos Estatutos do Jur.nal, a Direção compromete-se a fomentar a presença online do Jur.nal, através de: ü Publicações nas redes sociais e no site oficial do Jur.nal; ü Continuação do Projeto “Trocado por Miúdos”; ü Criação de uma conta de Twitter; ü Publicação da Edição Física em formato digital no site oficial do Jur.nal; ü Interação com os leitores online, de modo a obter feedback construtivo; ü Desenvolvimento de sondagens no Instagram do Jur.nal e nos grupos de turma/ano sobre temas relevantes para a sociedade; As presentes iniciativas não excluem a posterior definição de outros objetivos e/ou adoção de novas ideias. Declaração Final: Em primeiro lugar, gostaríamos de congratular a Direção cessante pelo excelente trabalho desenvolvido ao longo do seu mandato, bem como a Redação pelas suas magníficas contribuições, e saudamos a cooperação entre os dois órgãos, exprimindo votos de que esta se mantenha. Agradecemos também à Direção cessante pela sua agilidade ao longo deste processo e esperamos manter uma relação de entreajuda com os seus membros. Em segundo lugar, comprometemo-nos a cumprir o estipulado neste programa eleitoral e a respeitar os Estatutos do Jur.nal, com especial destaque para os princípios enunciados no artigo 3. º, agindo de boa-fé e imparcialmente. Em terceiro lugar, assumimos este cargo conscientes da importância deste núcleo na vida académica, a nível sociocultural, pretendendo, não só dar continuidade, como também expandir a sua presença e intervenção. Como Fernando Pessoa, na pele do seu heterónimo Álvaro de Campos, afirmou “Todas as cartas de amor são ridículas”, mas esta é a nossa carta de amor ao Jur.nal e esperamos, afincadamente, que seja visível o carinho que temos por este núcleo e o quanto acreditamos na sua ação. Com os melhores cumprimentos, António Subtil, Hugo Mendes, Isabel Costa, Sofia Dias Lisboa, 22 de outubro de 2022
- A virtude dos maiores serviu-nos de ensinamento
Fomos loucos ao ponto de escolher um destino maior que a nossa própria existência. Fomos ambiciosos ao ponto de querer ser mais do que todos os outros. Egoísmo o nosso de querer que o nosso nome fique acima daquele dos demais, talvez por medo de sermos esquecidos procuramos construir um legado maior que nós próprios, uma herança fundada e porventura sólida o suficiente para conseguir passar pelas marés do tempo e dos pensamentos dos que virão depois de nós, não ilesos, porque isso seria manifestamente impossível, mas sim vivos, ainda que fustigados pelo peso do tempo, que se impõe tão taxativamente nas nossas vidas e não perdoa nossos erros. Quisemos grandeza qual a sorte não dá, construímos os alicerces do legado que queríamos duradouro e estável, mesmo sabendo que não poderemos ser nós nem os nossos contemporâneos a adjetivar a nossa edificação. E mesmo assim fizemo-la, sem medos nem receios, remetendo para a posteridade o que a esta pertence, desprendendo-nos do futuro e presente juízo dos outros e escrevendo o que nos ia no coração, mesmo porque tínhamos consciência de que se escrevêssemos pensando que o nosso texto estaria sujeito ao aval de outrem, jamais conseguiríamos produzir enunciados que chegassem perto da fasquia que colocamos. Recusamos ser ovelhas num rebanho e também recusamos ser quem as guarda, dissemos que não ao simplismo e abraçamos a simplicidade, porque entendemos que a mensagem tem de estar ao alcance de todos e que coisas complexas, que o são por mero capricho, não possuem alguma razão de ser. Sentimos a necessidade de criar novas alternativas para dar a conhecer ao mundo a nossa visão, determinação e a nossa vontade de melhorar a cada oportunidade que se nos apresenta. Abraçamos quem, como nós, depôs a máscara e retratou (ou procurou retratar) aquilo que via com a curiosidade e fascínio da criança que fomos há tantos anos, essa que escondida permanecerá na nossa alma até ao dia da nossa morte. Quisemos que assim fosse para mudarmos o rumo das coisas, pois então continuemos a mudar o mundo à nossa volta, para evitar que o passado se torne, como tantas vezes sucedeu, o presente do futuro. É por isso que estamos aqui.
- Um dia (não) hei-de te encontrar
Um dia hei-de encontrar-te… Não. Afinal não, porque quem assim sonha já derrotado está. Já se sabe que não encontrará o que procura. “Um dia hei-de encontrar…” - assim começam quase todos os sonhos de amor e esperanças de amizade. Quem assim sonha, já está meio derrotada, já está meio desiludido, porque, em vez de esperar pelo encontro que deseja, já está a procurar. Imaginando parcialmente a pessoa que quer encontrar, como se ela já existisse, com as medidas que o coração encomendou, está a fechar-se a si mesmo. E assim se fecha também ao mundo.” Miguel Esteves Cardoso Por isso, não te preocupes, coração. Não te procuro, amor. Procuro não te procurar ou procurar-te com o maior despeito - o tanto quanto seja possível quando a ti me refiro e em ti penso. Sim… Porque tudo em ti é muito, e tudo em ti é pouco. Deixas-me simultaneamente completa e sedenta. Tens o dom de me encher e deixar sempre a ansiar por mais. ~ Alturas houve em que me questionaria se só tu serias capaz de me fazer sentir assim. Diria que te havia de (não) procurar a ti e a muito mais pessoas. Acreditava que podia acolher todos aqueles que pelo meu caminho se atravessassem e com os quais me identificasse. Só depois percebi que a ânsia que me fazes sentir, nada se iguala à ânsia que a Alice, a Carolina e o Diogo provocam em mim. Sim, fazem-me todos feliz, fazem-me todos ansiosa, desejosa do reencontro, mas nenhum faz a minha barriga contorcer-se de forma tão agradável. Só tu és capaz dessa proeza. Remóis as minhas entranhas, mas nunca me deixas enjoada. Oh! Quão enganada estava… Achava que o meu coração era grande o suficiente para que vivessem cá todos. Achava que a minha mão seria capaz de escrever cartas para dois, três, quatro - para quantos tivessem de ser - sem que se lhe formassem calos. Dizia, na minha ilusão de quem tem pouca experiência no mundo do amor, lamechas, que o meu coração não tinha ordem, nem andares, como um prédio tem. Não acreditava na existência de uma direita e esquerda, cima e baixo. Foste tu que me ensinaste que estava errada. Arruinaste as (não) fundações que tinha construído. Fui obrigada a começar uma obra e a reorganizar o fio de pensamento. Sim. Depois de não te procurar, encontrei-te. Mudou tudo, nessa altura. Percebi que, mesmo que o meu coração tivesse lugar para mais pessoas, tu serias sempre a peça central… Tu, meu amor, ocupaste não só o teu lugar, mas também o que estava guardado para tantos outros. ~ Talvez, quando o futuro assim o ditar, transformemos cada cavidade deste coração, que é nosso, num hotel. E tu serás o cliente que aluga um número de quartos interminável por um tempo indefinido... E não! Que ninguém te passe à frente na fila de espera! Eu aumento o preço da estadia e crio cartões VIP; faço descontos exclusivos e envio-os só para o teu e-mail; anuncio obras e não volto a dar notícias aos investidores. Porque, sim, eu aceito novos hóspedes, mas nenhum deles terá direito a um pacote tão especial quanto aquele que eu te prometo.
- O Souto
Quintela, Norte de Portugal Dezembro de 2019 No dia da sua morte, Alexandre César de Mello acordou por volta das sete e um quarto da manhã. Mesmo já estando reformado há uns bons dez anos, e por muito que quisesse colocar anos e anos de sono perdido em dia, o seu relógio interno mantinha o teimoso hábito da idade ativa de o despertar sempre às sete e um quarto em ponto. “É da idade pai”, dissera-lhe certa vez a filha, num dos muitos almoços de Domingo que tinham feito no seu palacete de Sintra, “chega a um ponto da vida em que já não conseguimos dormir as oito horas seguidas. Até eu já estou a começar a conseguir dormir só sete!”. Essa conversa entre os dois acontecera no início da reforma, quando o facto ainda o irritava. Agora sentia apenas resignação, o tipo de resignação que apenas a idade e o tempo são capazes de gerar. É a mesma resignação que faz com que o ser humano, com o aproximar da velhice, aceite que as pernas já não aguentam as longas caminhadas da juventude; aceite que o corpo, outrora vigoroso e pujante, se torne flácido, lento e mortiço; aceite que a luz brilhante da vida se está a enevoar, e que a morte, mais tarde ou mais cedo, o virá colher para o seu seio. É a resignação, em suma, que nos permite a todos viver os derradeiros anos da nossa existência com o mínimo de dignidade e paz. Levantou-se. Ao afastar o cobertor, sentiu o frio gelado do ar da serra entrar-lhe pelo pijama adentro, enregelando-lhe os ossos. Foi, a tiritar de frio e a tentar habituar a visão ao breu em que estava envolvido, até à porta do quarto buscar o roupão castanho-escuro que trouxera consigo de Lisboa, uns dias antes. Vestiu-o e esfregou os braços, sentindo a lã grossa aquecer-lhe as palmas das mãos e a pela que cobria. Tateou a parede ao lado da porta, até encontrar o interruptor da luz. Demorou uns segundos até a vista se habituar ao clarão amarelado, que revelou a divisão quadrangular que tão bem conhecia desde o berço: as paredes, outrora brancas como neve, agora com pequenas fissuras e manchas de humidade que o tempo entranhara e que nenhuma lixivia conseguia lavar, nem nenhuma tinta tapar; o velho roupeiro de madeira talhada, já semigasta, representando cenas campestres; a cama de casal com armação de ferro, comprada por ocasião do seu casamento; duas mesas de cabeceira, cada uma com um pequeno candeeiro de leitura; e a janela com vista para a praça central da aldeia, com a sua pequena igreja de pedra em destaque (há muito sem padre para dizer missa), e que agora filtrava a luz da iluminação pública por entre as portadas fechadas. Em cima da mesa de cabeceira do lado onde dormia, estava um exemplar inglês, que devia datar de finais dos anos 60, do livro “Declínio e Queda do Império Romano”, que devorara na lua de mel, e que decidira reler, cumprindo a promessa de que, atingida a reforma, e a não ser em casos muito excecionais, ia passar os últimos anos da sua existência a dedicar-se à leitura exclusiva dos livros de que mais gostara, ou que o transportavam para os momentos felizes da sua vida. E aquele era um desses. Saiu do quarto. Da janela das escadas chegava a luz alaranjada da iluminação pública, que projetava, graças à chuva, uma claridade líquida para o corredor do primeiro andar. Depois de uma rápida olhadela pela janela, para constatar que o sol ainda só muito timidamente se começara a mostrar na paisagem montanhosa, Alexandre foi para a casa de banho. A sua figura no espelho parecia mais velha do que os seus 76 anos fariam parecer: a barba grisalha, por aparar, amarelada em torno da boca, fruto de pelo menos uns 60 anos de tabagismo (tinha como princípio de que, no que aos vícios dizia respeito, e fossem eles de que natureza fossem, o melhor era começar cedo: ou eles nos matavam e arruinavam, ou éramos capazes de lhes sobreviver e de os levar até ao fim); as rugas profundas em torno dos olhos, na testa, em redor da boca, a maioria cavadas nos últimos cinco anos; o cabelo ralo, também grisalho; a tez quase fantasmagórica; a postura curvada, quase cansada… Tudo sinais do tempo, de um tempo que não tinha sido gentil consigo e com o seu aspeto. Quando jovem, e recordava-se muito bem desses anos, antes e depois do casamento, antes e depois de Lisboa, antes e depois do dinheiro, antes e depois de Quintela e daquela casa passarem a ser um mero local de férias e não residência fixa, a sua figura impunha respeito. Fora um mancebo alto, corpulento, com um tom de pele oliva, com uma farta cabeleira castanho-escura, e uns olhos azuis intensos, que ficaram registados em centenas de fotografias da adolescência, do casamento, da formatura, enfim, de uma vida. Enquanto saia da casa de banho e descia as escadas para o rés-do-chão, refletia, não sem algum sentido de humor, na reação que tivera quando percebeu que ia ficar careca: tudo começou quando, numa foto da lua de mel em que estava de costas, percebeu que se estava a abrir uma pequena clareira na nuca. Apesar da preocupação inicial, decidiu atribuir a dita clareira à iluminação. Mas a verdade é que, com os anos, a clareira foi expandindo, passando de uma impressão numa fotografia, para uma quase angústia, a angústia de um homem que tinha altas doses de vaidade. Só verdadeiramente deixou de se preocupar com a “questão capilar”, como lhe chamava então, num dia em que, tendo acabado de fazer amor com a esposa, se pôs a sentir a clareira com a ponta dos dedos, como se tornara seu tique, e a esposa (chamava-se Leonor), cansada da aflição em que via o marido afundar-se, lhe agarrou na mão, se virou para ele, colocando o seu corpo nu ligeiramente em cima do dele, e, olhando-o profundamente com os seus olhos castanho-esverdeados, lhe disse num tom de voz ao mesmo tempo firme e terno: “Meu amor: lembras-te do dia em que nos conhecemos? Estava uma chuvada desgraçada, os jardins do Campo Grande e da Cidade Universitária eram um lamaçal gigantesco, não se via vivalma. Eu estava a caminho de casa dos meus pais, nas Avenidas Novas, a andar muito calmamente, até que passam por mim a correr dois rapazes; o segundo, tu, em perseguição do primeiro, enquanto gritavas, desesperado: “Filho da mãe, devolve-me a carteira, devolve-me a carteira!””, a imitação de Leonor da sua voz arrancou risos aos dois. “Perco-vos de vista, e uns metros mais à frente só chego a tempo de ver o tipo que te roubou a esgueirar-se por uma esquina, enquanto tu te estatelavas monumentalmente numa poça de lama. «Na altura fiquei com tanta pena que te levei, quase a coxeares, até casa dos meus pais. Coitado do meu pai, ficou lívido quando te viu…. Sabes o que me impressionou mais em ti nesse dia? O que me fez realmente ficar caidinha? Foi a tua confiança. Ali estavas tu, coberto de lama, assaltado, impossibilitado de voltar para casa, e, no entanto, mantinhas esse teu sorriso impassível, e tinhas os olhos brilhantes, cheios de vida…. Foi nesse momento que soube que te amava, que queria este rapaz, a quem um dia de azar dá vontade sorrir, para o resto da vida ao meu lado, porque sabia que se conseguisse tê-lo, mesmo nos dias de tempestade, ia ter raios de sol a despontar no céu. E não é uma clareira na nuca, nem um sinal no nariz, nem sequer a desfiguração mais grotesca que possas imaginar, que vai mudar esse sentimento.”. Sem dizer palavra, e mais seguro do que alguma estivera ou viria a estar, Alexandre beijou Leonor intensamente, certo de que jamais amara tanto ou fora tão amado. * Sorriu, um sorriso nostálgico, com laivos de tristeza e saudade, recordando essa noite. Lá fora, o dia clareara e deixara de chover, apesar de se manter o frio cortante característico daquelas paragens; o mesmo frio que, quando pequeno, enfrentara todas as manhãs em que tinha de ir para a escola no Outono e no Inverno, com um sorriso de desafio no rosto. Antes de sair, foi sentar-se na velha poltrona de veludo que tinha na sala, olhando com solidão para a poltrona ao lado da sua, que estava agora permanentemente vazia, e onde se esforçava por encontrar, todos os dias, antes da sua caminhada, a sua Leonor, ou tapada com uma mantinha, sonolenta à luz da lareira, ou a ler um dos seus muitos livros, agora todos guardados na cave do palacete ou espalhados pelas casas dos filhos. Ao levantar-se e dirigir-se para a porta da rua, não resistiu a olhar de relance para as fotografias posadas no móvel que estava ali desde o tempo dos pais, e que registavam momentos dos Verões dos anos 70 e 80, quando ia para Quintela de férias com a família. Bons tempos aqueles! Tudo começava no primeiro dia de agosto, com uma viagem que tinha início por volta das seis da manhã, e que se estendia por umas oito ou dez horas, dependendo da quantidade de paragens. Depois seguiam-se quinze dias de uma alegria irrepetível, daquelas que só se tem um punhado de vezes na vida, e nunca mais, com grandes jantaradas de amigos no vasto jardim da casa, com o pôr-do-sol a dar um tom arroxeado ao céu como pano de fundo; grandes caminhadas pelos campos, caminhos, rios, ribeiros e tudo o que se possa imaginar, da região; idas a Lamego, Chaves, Guimarães, e pulinhos a Braga e ao Porto; serões em que ficava na varanda do quarto dos pais - entretanto trancado e entregue ao pó e aos fantasmas por morte dos seus ocupantes -, com vista para o jardim, a tocar numa guitarra para os seus filhos e para a esposa, que o ouvia enquanto estendia a roupa e que de vez em quando gritava um bravo de incentivo; e, claro, a antecipação e planeamento da segunda quinzena de agosto, inevitavelmente passada no Algarve, e para onde os filhos tanto gostavam de ir nadar em água salgada e mar aberto, muito mais espaçoso e quente do que o tanque de rega convertido em piscina de que dispunham em Quintela. Foram outros tempos, outras idades. Agora descia a velha estrada de lama que atravessava a aldeia como uma artéria, indo em direção ao souto, um dos terrenos propriedade da sua família. Ao todo, seriam uns cinquenta terrenos para cultivo, espalhados por toda a região em redor da aldeia, e cujos rendimentos, em tempos, permitiram uma condição de vida confortável e razoavelmente abastada a Alexandre e aos pais. Mas isso também fora noutros tempos. Agora não eram mais do que pedaços de terra onde as urtigas e as ervas daninhas reinavam. Depois dos pais morrerem, em meados dos anos 90, Alexandre ainda pensara dar uso aos terrenos, construir qualquer coisa, arrendá-los a quem os quisesse trabalhar. Mas todos os planos saíram gorados: rendeiros, nunca apareceram; e quanto a construções, e depois de feitas as contas, Alexandre desistiu da ideia. Apesar de tudo, continuava a ser proprietário de uma quantidade de terra invejável, principalmente pelos padrões nortenhos. Após uns quinze minutos a caminhar, uma dor nas pernas e no peito obrigaram-no a andar mais de vagar, apoiando-se no muro musgado que cercava o souto pelo lado da estrada. O céu estava de uma cor triste, com nuvens cinzentas a formar uma espessa camada sobre a atmosfera, que aqui e ali se desfiava para deixar entrever um azul-ferrete, mais próprio dos dias de Verão que dos de Inverno. Uma brisa húmida atravessava a estrada e os campos, levando consigo o cheiro a terra e erva molhada que impregnava o ar. Ao chegar à entrada do souto, uma cancela de madeira apodrecida que há muito deixara de ter préstimo, Alexandre contemplou o pequeno terreno, relativamente maltratado: na maioria da sua extensão, não era mais do que um amontoado de ervas, terra batida e pedras; no entanto, duas coisas saltavam à vista. A primeira estava ao fundo, do lado esquerdo, de quem entra, um velho barracão, que outrora servira para guardar os equipamentos da lavoura, mas que agora se assemelhava mais a um amontoado de ruínas, com o teto quase todo desabado e as paredes semidestruídas; a segunda estava junto ao riacho que corria perpendicular ao terreno, um moinho de água, milagrosamente intacto e ainda em relativo bom estado. Foi para lá que Alexandre se dirigiu. Ao adentrar na atmosfera sombria do moinho, recordou-se de uma vez, há muitos anos, em que ali levara Leonor. Era Verão, com um tempo inclementemente quente, e era a primeira vez dela no Norte. Depois de uma manhã inteira a caminhar pela serra, a visitarem os terrenos da família de Alexandre, resolveram parar para descansar no souto. Para se refrescarem, abrigaram-se na sombra do moinho de água. Leonor sentou-se na cadeira que ficava junto à porta, iluminada pela luz que penetrava pela pequena janela quadrangular na parede oposta. Alexandre sentou-se no chão, na penumbra, olhando para ela, para os seus cabelos loiros apanhados num rabo-de-cavalo, para o seu corpo magro e elegante, para as suas pernas longas e bem feitas, de uma pele macia e levemente bronzeada. Passado um longo momento, em que Leonor ficara de olhos fechados, ligeiramente a arfar de cansaço, ele disse, em voz embevecida: “Eu amo-te”, ela abriu os olhos e começou a sorrir para ele, os verde da iris a brilhar. “Conheci-te na situação mais humilhante possível, coberto de lama e roubado, e tu desde o primeiro momento cuidas-te de mim. Desde o primeiro momento foste incansável no amor que me dedicaste, sem um queixume, sempre disponível. Tem sido assim sempre nestes últimos seis anos. Cada dia que passo contigo, cada carta que trocamos, cada filme que vemos, cada passeio que damos, cada beijo que partilhamos é uma certeza que cresce dentro de mim, a pouco e pouco, de que quero que sejas tu a mãe dos meus filhos, o meu nascer do sol todas as manhãs, a minha lua todas as noites, a minha estrela polar quando me sinto perdido. Nunca conheci ninguém como tu, e sei que não vou conhecer… Acima de tudo, sei que não fores tu, não será mais ninguém. Sei que não te posso perder”. Alexandre levantou-se e, muito lentamente, sempre a fitar Leonor nos olhos, foi até ela e ajoelhou-se, retirando um anel do bolso: “E é precisamente por não te querer perder que te perder que te pergunto meu amor: queres casar comigo?”. A recordação da alegria dela nos momentos que se seguiram deu-lhe um aperto de nostalgia no coração. Estava no interior do moinho, agora gelado e solitário, e quase que conseguia ouvi-la a dizer sim novamente, repetidas vezes; quase que conseguia voltar a sentir o seu abraço e os seus beijos de felicidade. Saiu do moinho a sorrir, um sorriso triste, enquanto refazia o itinerário de há tantos anos, de volta a casa. Ao longe, um relâmpago rasgou o céu e fez soar um trovão, sinal seguro de que ia chover. Alexandre sentiu uma fisgada no coração. O respirar tornou-se mais difícil, as pernas tornaram-se chumbo. A visão começou a ficar turva. Quase junto ao portão de madeira apodrecida, tombou. A última coisa que viu antes de apagar foi o velho moinho de água onde a sua vida tinha realmente começado. Quando a chuva começou a cair, já estava morto.
- Um Domingo
Me lembro de ter esfregado os olhos, ainda era escuro. Parecia que o sol também queria ficar só mais cinco minutinhos deitado. Ele acordava devagar, abria os olhos lentamente com resistência. Aos poucos o céu e o meu quarto iam clareando. A cidade dormia enquanto Eu e o sol preguiçoso relutavamos em nos levantar. Depois de virar para lá, virar para cá e nada do sonho voltar de onde parei... tenho certeza de que os meus dois olhos abriram. Posso afirmar que os do sol também. Já havia movimento nas ruas, nos meus pensamentos, nos prédios. Dessa vez eu desliguei o meu despertador, já o sol aumentou o volume do dele. Tinham tantos passarinhos que eu cheguei a questionar-me se havia acordado na cidade. Hoje Observei cada coisinha ainda deitada. Me aproveitei do despertador alheio. E o vi acordar. Acordamos juntos, devagarinho e tentando nos agarrar ao travesseiro. Neste domingo preguiçoso, Acordei com um sol mais ainda.
- Poemas Soltos
Pedro João era o nome do seu bisavô, Pedro é o seu próprio. À moda da lusa ruralidade, É tratado pela vizinha idosa comunidade, Pelas senhoras como grande garanhão, E por todos como Pedro João. Dezoito anos de vida. Nortenho de coração. Em beleza e cultura, Se banha o Pedro João. Um metro e oitenta, Português de imigração. Em perfume e boa roupa, Se ducha o dito Pedro João. De todas as habilidades que Três anos na Gália lhe deram, Destacam-se, Ser cortês, Ter mundo, E falar francês. O passado Dos quatorze aos dezassete Morou na Cidade do Amor. Foi Paris que assistiu Ao crescimento, Desenvolvimento E descobrimento, Do até então, Inocente Pedro João. Das ocasionais bebedeiras, Às grandes fumaradas, E até pequenitas ilegalidades. O que, ao recuar e refletir, Realmente o marcou, Foram as grandes aventuras No campo do amor. Neste tudo tentou, Em público ou privado, Com as suas garinas citadinas. Na escola era uma vergonha, Mas para elas nunca estava desmotivado. Quatro namoros e tantas outras, Tanta ação Paris lhe vira encetar, Que não admirava Se Capado tivesse o seu Morgado ficado. Estranho Paradoxo O regresso do nosso garanhão, Do nosso Pedro João, À sua terra natal, Deu-se há alguns meses. Era janeiro quando regressou a Portugal. Frio de rachar E o seu quarto fazia questão De o tentar congelar. Por cá viu-se obrigado, Ao 12° ano acabar. E por aqui se tem visto, O luso paradoxo deste João. Na sala de aula, Ladino passou a ser. Com as garotas, Sorte deixou de ter. Pobre Pedro João, Tanto patrocinou o regresso a Portugal, Para com o seu existencial pilar, Deixar de ficar. Os pais ainda o tentam animar, Da futura universidade Não param de falar. Mas a única coisa que o filho quer, É uma rapariga para amar. Momento Notificativo De pobre em pobre, Quase caímos no erro De pensar que em pobreza Vive este rapaz. Esta só no amor se verifica. Dinheiro, ao Pedro João, Nunca faltou. Por este nunca chorou, Nem laborou. Da independência que João tinha, Nenhum outro moço se podia gabar. Este é também o maior sintoma Da falta de amor do seu lar. Por isso ficou o Pedro João Muito surpreendido quando Sobre a sua infelicidade, viu pai e mãe falar. Abriu o seu Instagram E saltou com a notificação. Uma bela Inês lisboeta, Que coisa linda! Pediu para a seguir E ela prontamente aceitou. Terá sido o sinal? Santa notificação! Procedeu imediatamente João, A dar like numa foto da Inês E do seu cão. A traição O Pedro João é um amor, E está apaixonado Quer muito atirar-se, Sem querer parecer forçado. Entre ele e o alvo, Há um pequeninho problema, Com 300 quilómetros de extensão. Mas não desiste, Mesmo lisboeta, A gata é um avião. Por isso, entre as DM do Instagram, E ocasionais chamadas de voz. Fica, coitado, Continuamente em desalento, Por continuar só. Finalmente, Nem quer o João acreditar O avião aceitou Por ele ser pilotado. Dia Sim, Dia Não, Lá vai ele, Lá vai o Pedro João. Ver a pessoa amada, A que se diz apaixonada. Não sabe, porém, o João, Que o seu tão lindo e emocionante amor, Não é em nada correspondido. O pobre Pedro João, Não sabe que a cada Dia Não, A pessoa amada, A que se diz apaixonada, Recebe sozinha na sua casa, Outra que, tal como o pobre João, É tão ou mais aldrabada. Pobre Pedro João. Não merece o que lhe faz, A pessoa amada, A que se diz apaixonada.
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