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- Luz ao Fundo da Garrafa
Acordo exausto. Lembro-me de quando acordava sem sequelas, refrescado. Agora até a memória seca. Vozes chamam por mim, António? dizem do lado esquerdo, mas do lado esquerdo só chama a roupa de ontem que não me lembro de despir, com a garrafa que despi de vodka. Chamam mais e mais, coro de vozes que conheço, desprovidas do dono, António? António? António? António António António. Sons de preocupação. A realidade desfalece e os lábios são pressionados, caio na cama mas não caio, foi só susto, e levanto-me no quarto escuro. Olho para o telemóvel. 10 da manhã. Mais uma aula perdida. Às 10 da noite há jantar e bar. Ocorre-me que não estaria a sair da cama e comer, se às 10 da noite não houvesse jantar e bar. E que não comer me fizesse bem de vez em quando, se não quero a barriga do meu tio que opina altamente sobre o estado do SNS no bar da vila às 3 da tarde. E que, debaixo da cama, expirando profundamente, há quatro garrafas cheias. Mas não faço nada com o facto, não teria piada, só tem quando há outros iguais à volta, quando hoje à noite gritarmos Vai uma saúde!, e tragarmos saúde, até alguém vomitar a um canto e entrarmos em pânico, como parteiras em pânico por estar a nascer um bebé. Brincamos sobre como somos drogados com o riso ligeiramente nervoso de que talvez seja verdade, a conta de 36 euros em copos suportada pelo facto de ter sido culpa de grupo. Piadas não a têm sem que todos a entendam. De outra forma, seria só triste. Trágico, sermos empurrados por quem foi também empurrado a juntar-se à comédia. Mas todos sabemos a verdade: procuramos o bem e evitamos o mal. Não nos culpo, nem me arrependo, nem nada expio. Enquanto isto nos fizer mais feliz que miseráveis, enquanto nos ajudar a evitar este curso que nos amarra e abraça, esta cidade que nos encanta enquanto engana, é a calçada escura mas branca por que iremos cambalear. Alguns dizem que isto não é uma vida. Mas deixem-me dizer: também não é uma morte.
- Sem título
Corro atrás do tempo. Ele foge. Corro tanto que fico cansada. Neste jogo das apanhadas incessante e perpetuamente circular que é a vida, o tempo ganha sempre. Nunca o apanho. Ele vira-se para trás e vê-me aflita. Então abranda. Deixa-me aproximar. Tudo para depois me despistar. E perco-o de vista outra vez. No dia a seguir meto-me no comboio rumo a casa. E assim que chego, o tempo senta-se comigo. Não há pessoas a ir e a vir, nem carros a arrancar. Não tenho medo de adormecer e perder o autocarro. Nem tenho de contar os minutos até ao intervalo. Nos primeiros momentos em casa o tempo dá-me um desconto. Há silêncio. Há calma. Há paz. Mas, como se o tempo me quisesse mesmo atraiçoar, de repente estou outra vez no comboio, rumo a um sítio onde ele não pára. Tento esticá-lo, pedir-lhe para me deixar ficar mais tempo. Onde há conforto, e família, e tanto tanto verde. Onde o cheiro da comida se espalha docemente pela casa. Onde cantam comigo as músicas que oiço desde pequena. Onde os abraços são mais aconchegantes. Mas o tempo não deixa. Leva-me dali para fora, como outrora me arrancou do escorrega do infantário onde aprendi que as feridas nos joelhos se curam, um pouco como as feridas do coração; como me puxou da carteira da primária onde aprendi a ler; como me levou da madrugada do meu baile de finalistas. Leva-me dali para fora como noutros momentos acabou com as tardes de praia ao fazer o sol pôr-se, ou com as vésperas de Natal quando fazia com que soassem as doze badaladas. O tempo traz-me para o sítio onde ele adora correr. Aqui os minutos são contados aos segundos para que tudo encaixe nos vaivéns rotineiros dos transeuntes que agora passam por mim. Levanto o pulso esquerdo para ver as horas num gesto automático, apesar de hoje não estar com pressa. Não ter nada para fazer parece anormal, ao ponto de me pesar na consciência. Mas não penso nisso. Se o tempo insiste em correr, eu insisto em estar parada. Quero, nem que seja por um dia, que seja o tempo a correr atrás de mim. Por isso, começo a medir o tempo não em horas, mas em lugares. Meço-o em palavras, em gestos. Meço-o em canções que me transportam para diferentes momentos. Meço-o em pessoas. Deixo de olhar para o relógio. Tomo um café com uma amiga e só me levanto quando me dói o rosto de tanto rir. Almoço às cinco da tarde no jardim, deitando-me na relva a ouvir a minha música favorita vezes sem conta. Abraço alguém de quem gosto até sentir as pernas dormentes. Tiro fotografias mentais à flor bonita na berma do passeio, ao casal de mãos dadas que passou por mim, e à cor dourada dos pastéis de nata que acabaram de sair do forno. Recuso-me a deixar o tempo apagá-las. Só saio do metro no fim da linha, já noite caída. Faço conversa com o senhor que parece stressado para que ele tire um tempinho para pensar noutra coisa que não o tempo a esgotar-se. Leio o meu livro sem pensar na hora a que tenho de parar para ir dormir. No dia seguinte coloco o relógio no pulso, obrigada a mergulhar na minha rotina. Ao longo do dia tenho pressa muitas vezes, mas a certa altura estou sentada a almoçar com os meus amigos e apercebo-me que não existe qualquer preocupação dentro de mim. Apercebo-me que consigo apanhar o tempo de vez em quando, em instantes particulares. E penso: talvez nestes momentos ele pare de correr. Ou talvez seja eu a forçar-me a não correr atrás dele, porque, apercebendo-me de que ele se esvai por entre os meus dedos de cada vez que tento fechar a mão, decido que quero tornar esses momentos eternos dentro da sua inevitável efemeridade. E então, retenho-os ao máximo, guardando-os para sempre na minha memória. Guardo-os com todos os sorrisos e olhares e sons e cheiros e sentimentos que consigo absorver. Tiro fotografias e coleciono objetos que me façam mais tarde abrir gavetas de memórias. Vivo-os intensamente; para não esquecer. Estes momentos são microcosmos em que o tempo cessa, em que “para sempre” não tem rasteira. Momentos a que posso sempre voltar, porque são perpetuados em mim. Na memória, no coração, na alma, o onde fica à escolha de cada um – só sei que os encontro algures cá dentro. E se passo grande parte do tempo a correr, concluo que é por isso que valorizo mais os tais momentos em que estou parada. A brevidade é o que me faz querer memorizá-los. A raridade é o que os torna únicos. E eles, os mais experientes passageiros, são parte da minha felicidade. Concluo que construo o meu caminho entre a corrida e a paragem, num equilíbrio que me faz ir avançando. Concluo que não posso estar sempre a correr. Concluo que sessenta segundos podem ter dentro de si uma eternidade. E que dentro dessa eternidade eu posso estar parada. Não corro atrás do tempo. Ele que fuja se quiser.
- Fundo da piscina
O Afonso deixa-me à porta do edifício e dá-me um abraço de despedida. Saio do carro e entro com o cabelo preso nos botões do casaco e com a franja despenteada, por causa do vento. Não visito a avó Lúcia há algum tempo, mas a minha mãe está sempre a chatear-me para a ir visitar. Vejo-a de longe, está sentada na mesma cadeira de sempre e na mesma posição, com as mãos uma em cima da outra, pousadas no colo. Caminho na direção dela e digo “Olá, avó!”, sentando-me na cadeira ao lado da dela e da de outra senhora. Ela diz-me olá. Anseio por uma expressão de reconhecimento, mas recebo a mesma expressão confusa de sempre. A minha avó não se lembra das vezes que encostou a cara dela à minha, quando eu cabia nas mãos dela, para me cheirar. Nem se lembra de quando me vinha buscar à escola e eu demorava muito tempo a ir ter com ela, porque tinha ficado a falar com as minhas amigas no recreio. Esqueceu-se que me levava ao café do bairro para irmos comer torradas e eu ficava cheia de gordura na cara. Às vezes reconhece a minha mãe, mas já não se lembra de mim. “Avó, sou a Catarina, tua neta, acabei de vir do trabalho.” Ela sorri e eu começo a contar-lhe como foi o meu dia para a distrair. Muitas das visitas que lhe faço são assim agora. Ela ouve relatos aborrecidos sobre o que se passa na minha vida, sorrindo e acenando. Acabo de descrever a visita guiada que fiz hoje à nova exposição que está na galeria e ela sorri e acena. “Já chega! Não quero o “sorrir e acenar”! Isto é ridículo, sempre que cá venho só sorris e acenas. Não quero isso, quero que me digas que estou demasiado magra e que devia comer mais, como dizias sempre, quero que me digas que estou muito alta, apesar de saberes que já não cresço mais, quero que me dês uma nota para eu comprar um gelado. Chega de me acenares com a cabeça, quero que me grites, que me corrijas e que me digas para endireitar as costas. Porque é que já não me dizes para endireitar as costas? Já não te lembras do que me disseste quando tinha dezoito anos e achava que nunca ninguém me ia amar, porque o Pedro da secundária não respondeu à carta de amor que lhe escrevi. Nessa altura, pensava que ele era o único rapaz de quem eu ia alguma vez gostar. Lembro-me de olhares para mim e dizeres, calmamente: “Catarina, para de ser tolinha! Vais amar outra pessoa e vai ser como deve ser. Não vai ser como gostas deste patife. Vais amar com todas as entranhas, porque é isso que fazes. Vais dar todo o teu ser à criatura e mergulhar na piscina que é a alma dela até encontrares o fundo e lá deitares a tua cabecinha e adormeceres, lentamente, como fazias quando eras pequenina. Ser amado por ti vai ser o maior privilégio que alguém poderá ter, tal como vai ser amar-te.” Avó, não percebes? O que mais quero é adormecer, mas no fundo da piscina que é o teu colo e que me contes a história dos três porquinhos. Antigamente, bastava olhar para ti para perceberes que o que queria era só mais uma história, só mais um bocadinho acordada para depois adormecer, lentamente, a pensar no castanho dos teus olhos, que é igual ao castanho dos meus. Porque a coisa da qual mais tenho certeza é que eu sou feita de pedacinhos teus. Não falo de genética e dos teus olhos, falo de pedacinhos da avó Lúcia, da Lúcia pessoa. Eu sou feita de ti e tu és feita de muitas outras pessoas que já se cruzaram com os teus lindos olhos castanhos. Talvez até sejas feita de pessoas que se cruzaram com as pessoas que se cruzaram com os teus olhos. E eu também sou feita delas. E sabes o melhor de tudo, o mais fascinante nisto tudo? É que tu também és feita de mim, o que quer que eu seja. Somos reciclagem uma da outra. Já viste? Nenhum de nós é original, nenhum de nós é completamente “puro”. Eu sem os “outros” não sou nada. E tu também. De todas as coisas que dizem sobre a Humanidade, esta é a mais bonita. Na epígrafe do “Todos os nomes”, de Saramago está escrito: “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.” É verdade, a mim deram-me o nome de Catarina, mas esse é apenas o nome que me deram, não o nome que eu tenho. Eu sou uma substância feita de outros nomes. O Sr. José, no final do livro, chega à conclusão que separar os vivos dos mortos, quer no sentido literal, como se faz com as fichas das pessoas na conservatória, quer no sentido metafórico, é, para além de ridículo, impossível. Somos todos uma coletânea de pessoas que já morreram e de pessoas que ainda estão vivas. Não é maravilhoso? Sabes como sou cética, mas de todas as coisas suscetíveis de serem verdade, para mim, esta é a mais acertada.” O que é certo é que não digo isto, não digo nada disto. Limito-me a perguntar como é que ela se está a sentir, como se entretém durante o dia e se precisa de alguma coisa. Ela diz-me para me ir embora, porque a vida é muito mais do que estar a falar com uma velhota quase a bater as botas. Pode não se lembrar bem de mim, mas o sentido de humor continua o mesmo. Faço o que ela diz. Levanto-me e despeço-me, dando-lhe um abraço apertado. EXTRA - Carta de amor ao Pedro da Secundária: Querido, Pedro Venho falar-te do assunto que deixa todos os poetas acordados à noite, as velhinhas curiosas e as barrigas doridas. Já adivinhaste qual é? Ainda não? Vou dar-te mais uma pista. É aquela coisa que “quando se revela não se sabe revelar”. Custa desvendá-la, custa descobri-la, quanto mais contá-la. Explicá-la é a coisa mais difícil no mundo e a mais fácil ao mesmo tempo. Estou a ser paradoxal, eu sei, mas a coisa também o é. Coisa misteriosa esta… Toda a gente que é gente a conhece. Para muitos é uma coisa enfadonha e que não merece ser digna de palavras – “Para quê escrever sobre o amor (ups, escapou), se é mais útil escrever sobre coisas muito mais importantes e dignas, como os escalões do IRS?”. O amor não já não é matéria dita “intelectual”, porque um curso não te vai fazer entendê-lo. Descrevo-te com frases ocas o que é o amor e falho e falharei sempre, porque quando falo parece que minto. O amor não precisa de fazer sentido para ser sentido. Prefiro sofrê-lo a cogitá-lo. Acho que cogitar o amor é coisa de Ricardo Reis, que se aplicarmos as regras da lógica ao amor, chegamos à conclusão de que não devemos enlaçar as mãos com ninguém, porque isso é muito cansativo. Mas, eu gosto de me cansar, prefiro cansar-me a ficar a ver o rio passar. Sempre gostei mais de Álvaro de Campos. Ensinou-me que as cartas de amor são ridículas, mas também é ridículo aquele que não as escreve. E, tu, Pedro, escreves cartas de amor? Da tua colega do lado nas aulas de Português, Catarina. NOTA do autor: Isto é uma carta de amor à Beatriz, porque me mostrou que escrever cartas é uma forma muito bonita de arrumar a tralha inútil (pensamentos) do meu sótão (cabeça).
- Untitled
You’ve eaten And satiated Your ego demands a room To vomit The verbal fruit Inflated You’ve eaten And now you’ll feed the masses The feedback like black molasses From you, loudspeaker Passes Onto the floor Saturated They shall all slip Upon it Plant their face in your murky vomit They’ll regurgitate What, copied, they did not meditate They’ll swallow You, prophet As you swallowed Politely And seedlings, in black molasses Shall grow tall trees with such shade That’ll hide famine, death and trade That, biased, highest classes favored When classes made And no eyeglasses No platonic sunlight Shall protrude such darkness For trees themselves are murky, fathered By black molasses YOUR black molasses Oh, how mistaken I am, you regurgitated Just as them Suicide is passed down from man to man Without pause and contemplation That legacy The bird’s education Eat the liquid and jump flying Those who death have manned defying Gravity When the gravity’s in their wings compliance To the wind Of olden doctrine read and written You in the floor Have not lived And aren’t dying Only quitting For you’re the bird whose name reverbs As the loudspeaker who did no thinking Reverbed Politely
- Quem?
A brisa fresca num dia quente tem algo em comum com a pele que há em nós. Há algo na matéria que compõe esse ar tão leve que também se encontra na fibra que se enlaça para compor este tecido que nos reveste. E isto é como uma abelha que, ao entrar numa flor, sabe que o açúcar que se lhe oferece, irá garantir-lhe sustento. Dá vida a esse encontro com o néctar que a espera, desejoso, e depois faz o mel. Também o calor que nos habita se regozija ao sentir-se tocado pelas partículas de frescura que furam de levezinho a pele e nos chegam, uma a uma, ao que temos cá dentro. Não sei se todos entendem isto, se pensam nisto sequer. Não, isso acho que não, tenho quase a certeza. Há a quem baste sentir e pronto. Ah, que fresquinho , e já está, lá voou o pensamento com a próxima corrente de ar fresco incessante, que há de ir e voltar depois. Mas percebe que isto não é isto e mais nada. Há mais sobre o que eu disse, mais para além desta vaga noção. Quando as cordas vibrantes de uma guitarra provocam o ar farto que descansava vazio em si, enchem-no de qualquer coisa que lhe faltava, e toda a gente repara. O ar toma forma de onda e essas vêm a nadar aos nossos ouvidos, que se deleitam com a harmonia. Agora, o ar está pleno. E se se juntar um pranto cantado a esse instante, choram-nos os olhos de qualquer coisa que sentimos e não sabemos dizer. Fomos nós que criámos as palavras. Elas não estavam lá no início e por isso não aprenderam a contar o que há no mundo. Pelo menos não tudo, são muitas coisas. É que isto parece tudo propositado, percebes? Só podia ser tão perfeito assim se alguém tivesse pensado nisso antes de o ser. Não, alguém não. Qualquer um se esqueceria do mero detalhe e poria em causa todo o ciclo que nos pauta a existência. Só se Deus... Não, também não foi Ele. Não me venhas com Deus que eu não suporto a hegemonia! Quem...? o quê!?... Se me deito e olho o céu estrelado, algo se curva diante de mim, para lá da imagem. Há uma troca ineludível entre o que olha e o que é olhado. Chega-me de lá uma serenidade, e não é a luz que a traz. Porque, se pudesse ser medida, seria muito pequena para ser levada, seria daquelas coisas que nem se tocam de tão sublimes. Mas sentem-se. E também eu dou de mim qualquer coisa que brilha baixinho, tão baixinho que não se vê. Pelo menos não com os olhos... Não te questionas sobre quem terá plantado tal completude? Eu gostava de saber, para ao menos lhe perguntar o que fazer com os excessos que criámos. É que sinto que qualquer dia o ciclo rebenta. Ninguém avisou a quem fez tudo isto que nós viéssemos e enchêssemos tanto tudo. Que deitássemos mão a tanta coisa que já cá estava e funcionava tão bem por si. Se pudesses, não lhe perguntavas o que fazer? Que farás tu se deixares de sentir as estrelas? Se não te fizerem mais chorar as ondinhas de ar que te entram nos ouvidos? O que restará se o teu calor não se agitar mais com a brisa fresca? Pior, se não houver mais quente em ti? Pergunto-te porque não sei o que farei eu, e se ao menos tivesses ideia... Talvez seja melhor esperar que a resposta brote em flor. Pode ser que essa já tenha sido plantada há muito, e que fizesse parte disto sentirmos o medo de que te falo. Pode ser que o fruto que depois vem tenha em si o doce de mais um círculo perpétuo. Só espero que não traga consigo o dom de dizer o que ainda não conseguimos, acho que não nos faz falta. Não achas?
- A realidade do Direito
Chegada ao fim do primeiro ano do curso em que sempre quis ingressar, deparei-me com uma triste realidade: os estudantes estão a perder o seu idealismo, a sua esperança, a sua luz… Sejamos honestos, pelo menos aqui e hoje, eu serei; muitos de nós, como eu, entram neste curso pela sua paixão pela justiça, pelo seu sentimento de indignação perante as injustiças verificadas no mundo e porque querem melhorar isso; a certo ponto todos queremos, e acreditamos que podemos, mudar o mundo; queremos ser o próximo Nelson Mandela ou o próximo Harvey Milk, queremos ser a pessoa que não se resignou, aquela que lutou até ao fim e fez a diferença – todos queremos o nosso momento Brown vs. The Board of Education or Roe vs. Wade; queremos alterar a ordem vigente e atingir a igualdade. No entanto, entramos no edifício da “elite intelectual” e encontramos muita indiferença e muito elitismo e, no fundo, o que nos resta é um sentimento de impotência. Se calhar tudo com que sonhamos foi exatamente isso: apenas um sonho. Um idealismo infantil, um grito revolucionário dos anos da adolescência, que de nada serve contra o mundo burocrático e corporativo com que nos deparamos. Se calhar já ninguém quer discutir tudo o que ainda falta alcançar, mas sim quão monetariamente irrelevantes essas questões são; esse é o trabalho que não dá dinheiro, sem dinheiro não podemos viver, sem dinheiro de nada serve um curso universitário, sem dinheiro não temos nem podemos fazer nada; pois, sem direitos, os outros também não. Assim, após 10 meses do curso que eu achava que ia mudar a minha vida, ela, de facto, mudou; está agora emergida num mundo fútil de discussão sobre as melhores firmas, onde um estágio seria o jackpot académico, porque “só assim terás um bom salário” (não me tenham por hipócrita, eu também entendo que é assim que funciona), num mundo em que Direito da Família não diz respeito à necessidade de proteger as crianças, mas sim dos fundos exorbitantes que a resolução de um litígio de divórcio pode proporcionar, um mundo em que até o imposto progressivo é discutível, porque nem sempre é justo para quem tem mais dinheiro. Este mundo engoliu-me, como engole a muitos, e é triste passar a ver vidas como cifrões e, mesmo que seja apenas por um segundo mínimo antes da racionalidade nos atingir, não o podemos negar. Somos sugados pela ganância e perdidos no meio dela, vemos como toda a justiça funciona e não piamos, pois sabemos que, só por aqui estarmos, estamos num ponto de privilégio. Mas temos que subir à superfície e lembrarmo-nos que é por estarmos nesta posição que podemos e devemos piar; é esta posição que faz as nossas vozes valerem algo; mesmo que pareçam mínimas no meio de todas as outras e completamente insignificantes perante a doutrina (muito unilateral) que nos absorve, é sempre superior à de quem está de fora. É por vermos, por dentro, como isto tudo funciona que podemos agir, que sabemos como agir. Não percamos o idealismo que ainda vibra dentro de nós, não nos resignemos, não apaguemos aquela chama que se acende sempre que vemos a justiça vencer. Por muito que pareça que este lado leva apenas a um voto de pobreza, pois não é o alvo das grandes firmas, há tantas coisas que é possível fazer, há tantos lados por onde começar e há tanto a exercer. O mundo tem inúmeras vertentes e nenhuma delas está minimamente aperfeiçoada, há, sem dúvida, algo para todos os gostos, mas só há um caminho possível: o da evolução conjunta em sociedade e esta só evolui se for melhor para todos. Não existe evolução unilateral, não existe evolução de 20% com o detrimento das condições dos outros 80%, não existe evolução se a maioria continua estagnada, ou, pelo menos, não deveria existir. Não digo que devemos todos viver mal para não existirem injustiças e desigualdades, digo exatamente o oposto, que devemos trabalhar para que todos possam viver um pouco melhor; as injustiças estão cá, não vale a pena negá-las, nem as glorificar. Sim, certas pessoas trabalharam muito para viver mais confortavelmente, isso está tudo certo e não podem de forma nenhuma ser prejudicadas pelo seu esforço, mas tem que existir um outro esforço para garantir que todos conseguem atingir esse patamar. A ideia base não é impedir ninguém de chegar a certo patamar, mas sim trabalhar para que todos tenham oportunidade de lá chegar. Nós não podemos determinar quem ganha a lotaria natural ou social, mas podemos lutar para que todos consigam comprar o bilhete. Por isso, sim, o mundo do direito mostrou-me uma realidade um pouco infeliz, com indiferença e ganância, mas também me mostrou o que eu sempre senti: que, independentemente do funcionamento atual desta área, os problemas continuam aqui, cada vez mais sentidos e cada vez mais reportados até, e continuam a ter que ser combatidos e nós temos as ferramentas para o fazer. Daqui a uns anos, nós seremos a linha da frente da justiça (e talvez da Política, considerando a quantidade de juristas no Governo e no Parlamento) e nós escolhemos em que direção a pretendemos levar. Não é altura de perder a esperança, mesmo que seja difícil com tudo o que vemos a acontecer nos bastidores, é altura de erguer as nossas vozes num grito conjunto e perceber que, mesmo que seja navegar contra a corrente, queremos fazer algo que nos orgulhe. Queremos ser a geração de juristas que não se conformou com o elitismo da área e que não cruzou os braços, a que “saiu à rua” quando era necessário, e combateu um mundo que só funciona para alguns. Enfim, acho que o que quero realmente dizer é que nunca devem perder o vosso idealismo, é o que vos faz mexer, é o que vos faz acordar de manhã e aguentar mais uma época de exame e é, essencialmente, o que vos fará mudar o mundo…. Gozamos diariamente com o slogan da nossa faculdade “Sê um agente da mudança”, mas não é mentira, nós temos a capacidade para o ser nos nossos moldes. Nós temos, e teremos ainda mais, o poder para tomar as decisões que alteram a ordem vigente, se assistirmos às grandes ruturas positivas (a meu ver) que decorreram ao longo da História, elas foram executadas por juristas (ou juristas de alma), estas consolidações ocorreram em tribunais ou em parlamentos, depois de serem reivindicadas nas ruas, claro. Nós temos sim o poder para mudar o mundo e temos o conhecimento para o fazer, por isso, não deixemos todo este conhecimento ser desperdiçado em disputas fúteis ou injustas, e apliquemo-lo à mudança que queremos ver no mundo. O futuro é já amanhã e todos os dias há algo que pode ser feito; atualmente o nosso papel é estudar, o que já de si é um grande privilégio, para que futuramente consigamos usar tudo isto para atingir avanços nas condições sociais globais, para que mais ninguém tenha que desistir dos seus próprios sonhos e para que mais ninguém se sinta inferior num mundo em que somos todos iguais.
- Casa
Eu tive de arruinar umas quantas casas para perceber que nunca tive outra senão aquela que trago dentro de mim; sujei demasiados lençóis com as minhas botas poeirentas e o meu coração sangrento até perceber que a tragédia de viver é uma ferida que se estanca com as próprias mãos. Ajudei a abrir demasiados armários até ter percebido que a solicitude pelo Outro é apenas medo do Eu quando temos demasiados esqueletos a apodrecer no nosso próprio guarda-fatos. Mas hoje descanso em paz; para o bem e para o mal, enterrei todos os meus ossos. Hoje a casa em que entro é minha e de mais ninguém, e durmo à noite descalço e de peito aberto, agarrado à minha loucura nua. Hoje o cortinado paira despreocupado ao sabor da aragem quente de verão, e debruço-me sobre todas as minhas janelas sem pensar nas cobras debaixo do parapeito; hoje o céu do fim de dia caiado de amplidão já não cai sobre mim onerosamente como um remorso irredimível, mas antes se coa lenientemente por meu corpo adentro, como os fios de música que os dedos de minha mãe derramavam quando me amparavam no escuro — o mal das pessoas foi sempre não ter aprendido a ouvir a melodia que todos os dedos têm. Hoje, ao anoitecer, já não fujo dos cantos de todas as minhas paredes com medo das sombras que eles possam guardar em si. Hoje já não tenho de fugir pela janela quando me batem à porta – porque hoje já não tenho visitas. Afinal, que valor têm elas quando para as receber um homem tem de esconder toda a mobília que tem e deixar a casa vazia e puída como a delas? Esta madeira aqui está podre, aquele quadro não combina com as cores da sala, as janelas são demasiado pequenas, o chão é demasiado frio e áspero, as divisões estão todas desarrumadas. Pois que hei eu de fazer, porra? Arrombam-me a porta (fui eu que deixei a chave debaixo do vaso ao pé da entrada), irrompem-me por casa adentro (fui eu que os convidei a entrar), esquadrinham-me e criticam-me os quatro cantos de todas as divisões (fui eu que lhes deixei ver tudo), e depois disto tudo ainda têm o descaramento de acabar o dia a lanchar na minha cozinha aos risos e às gargalhadas (fui eu que sugeri). Este recuerdo aqui é feio, Obrigado, comprei-o a pensar na melodia dos dedos, Na quê? Deixa estar, És estranho, Ainda nem viste o sótão. Talvez arranje um cão; preciso de alguém com quem falar, mas as pessoas vêm atreladas a palavras. Palavras e o raio dos juízos de valor. Palavras vazias, que se espalham pela minha casa e me mancham tudo, me fazem sentir um sem-abrigo e me desterram do único lar em que fui feliz; juízos que me invalidam a casa e a veem como um antro. Não fales, caramba. Faz da minha casa museu – entra, entra mas não fales. Vai passando pelos artefactos que tenho aqui dentro, e finge perceber o seu significado; abana imbecilmente a cabeça em cega afirmação e concórdia com o que encontrares, faz de conta que entendes tudo, que entendes o sangue nas paredes e as folhas todas espalhadas pelo chão, que entendes os montes de cinzas no quarto e as máscaras todas empilhadas na mesa. Faz de conta que me conheces. Julga, mas em silêncio. Julga, mas conservando sempre na tua mente a dúvida de saber se estás a julgar corretamente ou não, por não teres a certeza do significado das coisas que estás a ver. Epá não entendo nada deste quadr… não fales alto, arre, estamos num museu – não entendes o problema é teu; finge que entendeste e continua a andar. Sim, um cão, é mesmo isso, decerto que ele me compreenderia; a solidão sempre foi uma questão de incompreensão – sempre foi uma questão de falar em duas línguas diferentes. O cão ao menos só tem uma. Babosa e salivante; lambedora. A verdade é que tentei durante demasiado tempo imitar as casas arrumadas dos outros até ter percebido que a casa de uma pessoa é demasiado íntima para passarmos uma vida inteira a dispô-la da maneira que nos pedem. Estou desamparadamente só. Talvez seja esse o preço a pagar para se viver na própria casa. Então, vamos aí quando? amanhã? Sim, sim, podem vir amanhã, O quê? não te consigo perceber, estás a falar estrangeiro, Ah, desculpa, sim, venham amanhã – mas ficamos todos no quintal.
- A perigosa dança do bom Homem
Lá está ele, dentro da festa, dançando intensamente. Trata-se de um movimento estranho àquele comum, que é pouco elaborado, seguro e estável, apreciado pelos leigos. É um devir dinâmico e fluido. A sincronia do indivíduo com a música pode não ser perfeita, mas nota-se o esforço, a dedicação para cumprir o grande desiderato naquele momento, a satisfação incondicional. De repente, o evento torna-se um show para o qual ninguém pagou ingresso. A cor da cerveja na mão direita parece mais reluzente e o cigarro à mão esquerda, ui, delicioso! Outro ponto interessante a se notar é o sorriso. Não é aquele tímido e resguardado e nem aquele totalmente aberto, para mostrar todos os dentes. É trêmulo, cansado e incerto do que quer ser, isto é, incongruente com o sentimento externalizado pelo indivíduo; O que seria surpreendentemente inadequado, certo? Por que estar a hesitar neste aspeto se já se entregou a todas as tentações, oportunidades e prazeres momentâneos? O sorriso é, na verdade, uma última fagulha da interioridade humana a tentar encandecer a distorção que sofre, a procurar cessar este estado ilusório ao qual o indivíduo se submeteu. O homem, agora, aparenta ser e aparenta estar, apenas isso! Contudo, esta forma de conduta não surge inconscientemente, ou por uma força maior, não é algo tão reducionista como um fundamentalista religioso poderia dizer que são “as forças do Diabo agindo sobre jovens transviados”. Na verdade, a situação é apenas o ato final de uma obra de ficção construída tanto pelo equivocado entendimento de que deve haver uma resposta firme e imediata face às incertezas, inseguranças e preocupações provenientes da árdua e tortuosa rotina humana quanto pela perigosa distorção do que deve ser a prossecução da felicidade e a busca incondicional pelo famigerado “viver intensamente cada momento”. Portanto, o grand finale é o completo desvirtuamento e a brusca transformação de valores, como a ponderação, a felicidade, a apreciação da beleza humana e às vezes, a sexualidade; em sentimentos puramente físicos e esvaziados de sentido conduzidos em horas noturnas, que tentam imprimir a inquietação perante estes valores nas ofertas e tentações abundantes no mundo terreno, tais como rebuscados e atraentes objetos, substâncias, ou, até mesmo, indivíduos, que se submeteram à mesma distorção. Ademais, é fator preocupante que estas distorções não são apenas casos isolados ou esporádicos, mas elementos que afetam uma crescente abundância de indivíduos facilmente identificáveis. Cada vez mais são vistas aquelas “comuns personalidades”, caracterizadas pela estranha dança e pelo duvidoso sorriso, regurgitadas na mesma ilusão. Ainda por cima, esta experiência, por ser “fácil” e sedutora, é vendida pelos seus participantes como o antídoto para as vicissitudes da vida e a pílula da felicidade, no intuito de atrair mais pessoas para participarem nesta grande ilusão coletiva. Então, a festa, para alguns, torna-se um evento quase místico, um porto seguro para os que vêm de um tortuoso caminho e um momento apoteótico capaz de sanar abruptamente a necessidade de felicidade do Ser Humano . No tocante ao aspeto da docilização do Homem, que se acostuma com a subversão do mundo à sua volta, vale trazer Fiódor Dostoiévski, que o trata, mesmo em uma situação distinta, na sua fantástica obra “Crime e Castigo”: ‘’Que poço, contudo, souberam abrir, e usufruem! Usufruem mesmo! Acostumaram-se. Primeiro choraram, e depois se acostumaram. O vil homenzinho se acostuma a qualquer coisa!’’ Todavia, por outra perspetiva, a dose de realismo necessária para este desorientado “vil homenzinho” só poderá decorrer de forma eficiente se perpassar pelo próprio. Em um certo ponto, cansado de tamanho esforço empreendido e encarcerado pela manipulação sentimental a que se submeteu, finalmente, para e vai à casa. É nesta localidade, o seu verdadeiro porto seguro, em que vai render-se à calmaria e começar a recapitular, agora em um novo estado de espírito, o turbilhão em que investiu, bem como o seu real significado, chegando, em última instância, à mera desilusão. Afinal, quem nunca se cingiu à profunda reflexão após uma experiência de extremo regozijo e indagou-se sobre o seu real significado, isto é, o que se aproveitou e o que foi efémero, ou melhor, o que se construiu e o que se destruiu? Após a repentina deceção tomada como resposta que, contudo, se encontra a esperança para uma mudança de atitude: permitiu-lhe lembrar, em meio àquela espetaculosa forma de agir, daquele hesitante sorriso, poderosa reminiscência simbolizante da essência do Ser Humano, que é capaz de se abstrair das atraentes ilusões, e de, em um passo não-trivial, erguer-se ao Mundo de forma consciente, sem deixar nada de lado*. Portanto, agarra-te ao sorriso. Rebobina os teus momentos, vai ao início e recomeça! Ainda há tempo. *Para um maior aprofundamento, ler “O Senso Religioso” de Luigi Giussani, uma abrangente interpretação do Homem.
- A urgência de fazer Reformas
Portugal é um país estagnado há 20 anos, algo que se tem acentuado com a ausência de reformas estruturais, que mantém o país, como é comumente dito, na “cepa torta”, isto tudo, apesar de ter recebido um grande volume de fundos europeus, que poderiam ter proporcionado oportunidades únicas e flagrantes, se corretamente aplicados; fundos que poderiam ter sido um instrumento indispensável na melhoria das condições de vida dos portugueses. Nesta conformidade, em que o vigésimo terceiro governo constitucional de maioria absoluta está em exercício, Portugal irá receber com o Plano de Recuperação e Resiliência e com o programa Portugal 20-30 o maior pacote de fundos da sua história, que prevejo que, infelizmente, serão, uma vez mais, desperdiçados com políticas erradas. Com uma economia endividada, em que a dívida pública em percentagem do PIB atingiu os 135,2% em 2020 e os 127,5% em 2021, segundo o relatório do Banco de Portugal, o nosso país tem que mudar estruturalmente para conseguir assegurar um futuro aos seus jovens. Deste modo, as prioridades dessas reformas deverão ser claras e centrar-se nos eixos fundamentais e estratégicos da governação, designadamente a saúde, a educação e a fiscalidade. No que diz respeito à saúde, temos, neste momento, um Serviço Nacional de Saúde fulcral para assegurar um acesso igualitário e generalizado à saúde enquanto direito constitucionalmente consignado, o que na prática não acontece. O SNS deve ser reformado, de modo a utilizar toda a capacidade de saúde instalada no país. Um utente que necessite de recorrer a cuidados de saúde não está preocupado se o prestador é privado ou público, mas se o seu problema de saúde é resolvido a tempo e horas e com qualidade de atendimento. Devemos e podemos reformar a saúde, inspirando-nos no que por essa Europa fora é bem feito e produz excelentes resultados, procurando implementar um modelo e um sistema nacional de saúde que não viva com amarras e preconceito ideológico, mas que se centre nos problemas do utente. As pessoas com menos rendimentos, a que o SNS diz acudir, não têm efetivamente um acesso à saúde, mas um acesso a intermináveis listas de espera, muitas morrendo sem terem sido atendidas. Este modelo de saúde vigente em Portugal agudiza o nível de desigualdade ao invés de promover o acesso universal a cuidados de saúde, independentemente da natureza do prestador. A reforma estrutural que, na minha opinião, tem de ser feita é criar um sistema nacional de saúde, que conjugue o setor público e o setor privado utilizando de forma eficiente as verbas orçamentalmente canalizadas para a saúde e criando carreiras mais atrativas para os profissionais de saúde, de modo a fixar o capital humano altamente qualificado. No que concerne à educação, a velha e sensata máxima “um país dois sistemas” nunca fez tanto sentido. O sistema de educação em Portugal penaliza os mais pobres que, por não terem posses, não podem escolher livremente a escola que querem para os seus filhos. O Estado enquanto representante de cada um dos portugueses tem de garantir, zelar e financiar a escola que os pais querem para os seus filhos nomeadamente a escola privada, se assim for a sua escolha. Ao nível do ensino superior, os políticos afirmam vezes sem conta que esta é “a geração mais qualificada e preparada de sempre”, mas também é a geração que mais emigra. Devemos então perguntar-nos a razão pela qual isto sucede. Os motivos são de clara compreensão, uma vez que o país não apresenta perspetivas para que esses jovens consigam subir na vida a trabalhar. A fiscalidade é outro critério fundamental para a compreensão da estagnação portuguesa de duas décadas e para a crescente emigração de jovens altamente qualificados para outros países europeus. Segundo o relatório Taxing Wages 2022 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) Portugal registou uma carga fiscal de 41,8% em 2021, o que torna impossível subir na vida a trabalhar. Neste sentido, concentremo-nos no nível de impostos diretos, ou seja, aqueles que incidem sobre o rendimento e património pagos pelos portugueses, começando pelo IRS. O IRS (imposto sobre os rendimentos singulares) pago por todos os contribuintes penaliza o mérito, o esforço e a capacidade árdua de trabalho, na medida em que qualquer aumento salarial que a empresa faça ao trabalhador é absorvido pelas taxas marginais de IRS, condenando o trabalhador a receber uma ínfima parte desse aumento na sua remuneração. Portugal é dos países da União Europeia que mais escalões de IRS tem; neste momento, são sete, mas pondera-se aumentar para nove, o que não permite à classe média almejar ganhar mais, visto que qualquer aumento salarial faz o trabalhador subir de escalão e pagar maior taxa de imposto, que é progressivo. A reforma fiscal tem de reformar o IRS reduzindo o seu número de escalões, reduzindo as taxas marginais de imposto e reduzindo as taxas sobre todos os contribuintes. A reforma fiscal em Portugal tem também de passar pela reforma do IRC (Imposto sobre os Rendimentos Coletivos) que as empresas pagam, uma vez que as elevadas taxas de imposto criam fatores de não atratividade da nossa economia face a outros concorrentes europeus. A Irlanda, que sofreu com a crise das dívidas soberanas como a economia portuguesa, tem apenas uma taxa de IRC de 12,5% o que atraiu o investimento de grandes multinacionais e transnacionais no seu território, aumentando a criação de riqueza e, por conseguinte, as condições de vida dos irlandeses. Portugal tem de criar uma taxa mínima de IRC, de modo a criar fatores de atratividade à sua economia para que deixe de ser um país estagnado e sem perspetivas e comece a ser um país em rota de convergência com a União Europeia. O salário também é preocupante, dado que a aproximação entre o salário mínimo e o salário médio causará consequências pejorativas para a economia portuguesa. O salário mínimo é uma remuneração fixada administrativamente pelo Estado não dependendo das condições da economia; este tem crescido substancial e significativamente nos últimos anos, aproximando-se perigosamente do salário médio, uma remuneração que depende das condições da economia e dos empresários. Consequentemente, os salários são nivelados por baixo mantendo-se um paradigma de baixos salários. Assim, tem de se apoiar verdadeiramente os empresários porque são eles que criam emprego e que, através do seu esforço e capacidade de resiliência, fazem crescer a economia; só baixando os impostos é possível fomentar um crescimento económico sólido. Concluindo, na minha opinião, se estas reformas estruturais na saúde, na educação e na fiscalidade forem feitas, Portugal sairá da estagnação em que tem vivido e convergirá com os seus parceiros europeus, concretizando um crescimento económico sustentado. Por fim, deixo o meu apelo aos decisores e responsáveis políticos, de forma transversal, para que tenham a coragem de fazer as reformas estruturais de que Portugal precisa para ser um país atrativo, com melhores condições e perspetivas para todos. Sou apenas um jovem de 19 anos preocupado com o futuro do seu país e que, acima de tudo, nunca deixará de acreditar e nunca desistirá do sonho de transformar Portugal num país melhor para todos.
- Tela em branco
Ouve-se o tilintar dos talheres e o burburinho de conversas secretas. O jantar está quase no fim e eu levo o copo à boca e bebo o vinho. Não percebo nada de vinhos, o que provei é doce e isso chega-me. O namorado da Mafalda e o Afonso, amigo do Rodrigo e meu suposto pretendente, estão a falar de comunismo há uns bons minutos. “Acho estúpido, nesse mundo, eu ganhar o mesmo que uma empregada de limpeza!”, diz o Afonso, mexendo as mãos, energeticamente, como se estivesse numa palestra. O Rodrigo concorda com ele e diz: “Cuidado, não vás dizer isso publicamente, ainda és chamado de classista.” Eu acabo o que tenho no prato e tranco os talheres. O Afonso ri-se do que o Rodrigo disse e exclama: “Vivemos numa sociedade de “ofendidinhos”! Já não posso dizer a minha opinião sem ser chamado de algum adjetivo que tenha um sentido pejorativo!” Antes que a conversa se aprofundasse pelo tema da liberdade de expressão, decidi intervir. “Bem, se vivesses numa sociedade comunista não ias ganhar, necessariamente, o mesmo que uma empregada de limpeza. Se não existe dinheiro, não há salário para ganhar. Não há grande sentido no que estão a dizer.” Normalmente, penso que ficar calada e fazer uma cara de desaprovação, sem argumentar me faz parecer mais inteligente e misteriosa. Assim, consigo transmitir a minha desaprovação, mas isolo-me do criticismo que essa desaprovação poderá causar, porque não a explico. Hoje, já tinha bebido a minha porção de vinho e sentia-me corajosa. O Afonso ri-se do que eu digo, espeta o peito para a frente e responde-me: “Não sei o que andaste a ler, mas comunismo significa igualdade, logo, eu ganharia monetariamente o mesmo que toda a gente.” Antes de poder dizer que se o Afonso soubesse o que eu andei a ler, talvez não estivesse a dizer disparates, a Mafalda interrompe-me: “O assunto está a ficar pesado, não? E que tal mudarmos o rumo da conversa.” Ela faz-me um olhar sugestivo, que se podia traduzir em: “Organizei este jantar para encontrares um rapaz que possa gostar de ti, mas aparentemente não gostas de nenhum. É suposto dares gargalhadas quando ele diz piadas, concordares com as posições políticas dele e se discordares, tens que fazê-lo de forma suave, não evasiva, porque se não vais parecer uma cabra. E se continuares com isto, é isso que vais parecer.” Calo-me e molho os lábios no vinho. Não queria acabar de beber o que tinha no copo, porque assim já não tinha um gesto para preencher momentos constrangedores. A mesa fica, momentaneamente, calada. O Rodrigo serve mais vinho à namorada e o Afonso olha para o relógio, fingindo que está a ver as horas. A Mafalda decide acabar com o silêncio desconfortável: “Afonso, sabias que a Catarina trabalha numa galeria?” Ele para de olhar para o relógio e em vez disso olha para mim, levando as mãos à barba. “A sério? O que fazes lá?” Sento-me mais direita e começo a bater com o pé no chão. “Faço visitas guiadas.” Ele boceja e diz: “Ah, estou a ver. Não pintas, não?” Antes de poder abrir a boca para falar, a Mafalda decide falar por mim: “Pinta, sim! Tem muito jeito!” Na faculdade, eu e a Mafalda vivíamos juntas e ela costumava dar-me ideias para quadros, porque eu odiava todas as que tinha. No fundo, sabia que era apenas uma maneira de não ser vulnerável em relação ao que pintava. Transferir a responsabilidade criativa do que fazia para outra pessoa, para que, no caso de criticarem o meu trabalho, eu poder ter mais alguém para culpar sem ser eu e me sentir melhor comigo mesma. Um dia, ela sugeriu que fizesse um quadro só com as cores da roupa que ela tinha trazido naquele dia. Foi o quadro mais colorido que já pintei e ela colocou-o no quarto dela. Chamámos-lhe: “O que é que diz a tua alma? A da Mafalda diz isto”. Todos os amigos que nos visitavam iam pelo título mais curto: “Cores da alma da Mafalda”. A pintura era o centro da festa e originava conversas interessantes quando todos estavam demasiado embriagados. Agora, a Mafalda tem mais com o que se preocupar, nomeadamente, a yoga de sábado. De momento, tudo o que faço, contra a minha vontade, vem tudo da minha cabeça e, logicamente, deixa-me numa pilha de nervos. “Algum quadro teu já foi exposto?”, pergunta o Rodrigo, interrompendo os meus pensamentos. “Infelizmente, não. A Catarina é muito tímida em relação àquilo que faz. Não se importa de mostrar aos amigos mais próximos, mas mostrar ao resto do mundo é, definitivamente, uma linha vermelha.” A Mafalda responde, novamente, por mim, dando-me um encontro no ombro. O Afonso faz uma cara de interesse, genuíno, desta vez. “É, o que ela disse.”, comento, com um ar notoriamente irritado, e levo o copo de vinho novamente aos meus lábios. “Mas, porquê? Achas que ninguém vai gostar?”, pergunta o Afonso, com a cabeça apoiada na mão. A Mafalda vai falar por mim, mas consigo-me antecipar: “Bem, sim, mais ou menos. Às vezes, sinto que como só mostro os quadros às pessoas com as quais sou próxima, elas são obrigadas a gostar deles. Não sei se estou a fazer sentido.” Passo a mão pelo cabelo e o Afonso pede-me para explicar melhor. “Como me conhecem e gostam de mim, então, vão gostar do que pinto, porque aquilo é algo meu, como se fossem as coisas em que acredito ou a forma como falo.” O Afonso acena com a cabeça para mostrar que entendeu e pergunta: “Então, achas que estranhos não iam gostar do que fazes?”. Olho para um casal idoso que está ao nosso lado a jantar e respondo: “Não exatamente. Acho que seria mais difícil para eles gostarem das pinturas.” “Porque tinham que te amar primeiro, é isso?”. “Sim.”, admito, desviando os olhos da mesa ao lado e olhando para ele. “Interessante. E tu? Gostas do que pintas?”, questiona-me. Trago a mão direita à boca e começo a roer as unhas. “É um amor muito tóxico e, relativamente, temporário.” Eles riem-se e continuo: “O meu trabalho durar assusta-me. Quando acabo de pintar um quadro gosto dele. Quando pinto o segundo, apetece-me deitar o primeiro em chamas.” A Mafalda pede a conta. “Como se cada uma das pinturas representasse uma Catarina. Como já construíste uma nova, queres acabar com a primeira, porque, simplesmente, já te cansaste dela.”, reflete o Rodrigo, acabando o seu copo de vinho. Sorrio e abano a cabeça afirmativamente. O Afonso faz uma cara confusa, juntando as sobrancelhas e levando as mãos à cabeça como se fosse um miúdo do terceiro ano a tentar resolver um problema matemático com maçãs e bananas. “Não consigo perceber essa ideia. A maior parte dos artistas não cria algo para durar? Porque quer que o seu trabalho seja infinito? Imortal? Porque quer, de certa forma, ultrapassar aquilo que é a condição humana, ultrapassar a morte?” “Talvez.”, desta vez levo o copo aos lábios e bebo mesmo o vinho todo. “Nunca funcionou dessa forma comigo. Ter partes de mim a circular por aí assusta-me. A coisa que mais quero é que o que faço seja efémero.” O Afonso sorri e diz-me: “Queres coisas impossíveis! Se queres que tudo seja efémero, vais acabar por não fazer nada no final!”, retribuo-lhe o sorriso e digo: “Sim, parece que sim.” Pagamos a conta e saímos do restaurante. Sinto o vento frio a bater-me na cara. O Afonso dá-me o número dele e diz-me que adorava destruir um quadro meu comigo. Despede-se da Mafalda e do Rodrigo. A Mafalda tenta convencer-me a ir a uma aula de yoga com ela, enquanto caminhamos em direção aos nossos carros. Dizemos adeus e quando olho para o espelho do carro vejo que tenho as bochechas muito vermelhas. A casa está desarrumada e suja, vou à cozinha e sirvo-me um copo de água. Entro no quarto, chuto para o lado um par de ténis que estavam no chão e tento chegar ao canto do quarto onde estão as telas. Pego nas tintas e coloco a pintura que fiz ontem, novamente, no cavalete. Suspiro e os cabelos da franja mexem-se. Mergulho o pincel grande na tinta e pinto a tela de branco.
- Fenomenologia
O que é a dignidade das palavras senão o seu canto afinado à dissonância do correto? E o significado? Dança polissilábica, transmutação pedalada por cada necessidade? Ou verdade absoluta, filha única? Não neste reino melodioso onde se cantam desejos e por eles, espelhos, vê-se o esboço do que é, pode ser e/ou será, o olho humano engravidando a verdade múltiplas vezes gerando crias, cada uma nova algumas mortas, outras vivas e cada delas uma canção por si harmoniosa, mas em junção formam a dissonância perfeita do nosso legado, intervalado na inexatidão exata.
- Banco de Jardim
Estou a ir para casa, a calçada está molhada e escorregadia, venho de uma festa de aniversário, estou de mau humor e a ficar doente. Em parte, deve-se ao facto de ter contado mal os dias de lavar o cabelo e de o ter lavado duas vezes seguidas, o que não estava de todo nos planos. Saí de casa à pressa para ir para a festa e esqueci-me de metade das coisas que estavam na minha lista mental, intitulada de “coisas que tenho que pôr na mala para os anos da Rita”, título longo, eu sei. O meu cabelo ainda estava húmido, porque não tive tempo de o secar quando saí de casa. Olho para o telemóvel e deparo-me com uma chamada não atendida, decido ligar de volta. “Estou? Ligaste?”. Digo, como se já não soubesse que, de facto, a Mafalda me tinha ligado. “Sim, sim. Não pude ir aos anos da Rita e por isso não te cheguei a ver, fiquei mesmo triste! Diz-me como estás, não ouço de ti há anos!”. A Mafalda é minha amiga desde o secundário, gosta de pintar cada unha de uma cor diferente; a sua música preferida é o “Waterloo” dos Abba, porque a fez perceber a matéria de história; quando vê vídeos de bebés a dormir chora e quando se ri parece que se está a engasgar. O Rodrigo é o namorado da Mafalda, joga rugby e ri-se de tudo o que ela diz. Quando nos conhecemos, tentou explicar-me o porquê de eu dever investir na sua empresa, acha que pagamos impostos a mais em Portugal e é estoico, não morro de amores por ele. “Estou bem, atarefada com o trabalho e tudo, por isso é que não tenho tido grande tempo para falar contigo.” Isto é, obviamente, mentira. Passo demasiado tempo a comer gelado de chocolate barato do supermercado e a ver maratonas de reality shows, que sei que me comem o cérebro. “Devias descansar mais, só trabalhas! Andas sempre tão stressada! No outro dia, li uma coisa que dizia que por cada minuto que ficas ansiosa, perdes um de sono”. A Mafalda “pós-conhecer o Rodrigo” faz yoga e lê coisas destas na internet. “Sim, tens razão. Mas não é como se a minha vida fosse um remoinho, não há bebés a nascer, nem casas para comprar”. Ela assegura-me que no futuro vai haver, pensando que me está a tranquilizar, como se ter bebés ou comprar casas fossem requisitos para uma vida feliz ou, digamos, verdadeiramente adulta. A Mafalda começa a falar de uma vela nova que comprou e de um amigo do Rodrigo que eu devia conhecer. Fico distraída durante cinco minutos com uma conversa entre duas mulheres, que julgo serem mãe e filha, que está a acontecer atrás de mim no passeio. “Então que dizes?”, pergunta-me, ansiosa. Não sei qual foi a proposta, mas respondo: “Sim, não sei- “. Ouço vozes do outro lado da chamada e a Mafalda interrompe-me: “Desculpa, não te queria estar a despachar, é que o Rodrigo acabou de chegar a casa e temos que começar a preparar as coisas para a festa dele amanhã. Tão perto da Rita, já viste? Que parvoíce! Esqueci-me de te convidar! Depois mando-te os detalhes!”. “Tudo bem, depois confirmo contigo, beijinhos!”. Já vou a meio do caminho para casa, mas sinto-me tonta e decido sentar-me num banco de jardim. Tenho as bochechas coradas e estou a ferver. Olho para os meus pés e vejo as botas que a Mafalda me deu nos anos, rosa-choque. Quando me deu o embrulho, disse-me: “Acho que são mesmo a tua cara!”. Não eram, eram muito pirosas, mas foram prenda dela e uso-as regularmente. Nunca tivemos uma discussão, apesar dos estereótipos que as amizades entre mulheres carregam – “Mulheres são muito problemáticas, ai, o drama todo que existe na amizade feminina! Só discutem e armam confusão.” Que treta! Se existem confusões é porque nos importamos muito umas com as outras. Somos verdadeiras confidentes, apanhamos o cabelo umas das outras quando a noite foi longa e o álcool demasiado. Compreendemo-nos mutuamente quando sujamos a roupa de sangue menstrual ou quando não somos levadas a sério quando estamos a discutir com homens. Um dia, eu e a Mafalda fomos a uma festa. Eu quis ir à casa de banho e ela foi comigo, porque é assim que as raparigas fazem. Estava uma confusão lá dentro e muitas pessoas a falarem ao mesmo tempo. Perguntámos a uma rapariga o que se passava e ela disse “Estamos a dar conselhos à Joana sobre o que fazer em relação ao ex-namorado dela”, perguntei quem era a Joana e ela disse-me: “Não faço ideia, acabei de a conhecer”. Mas não importava saber quem era a Joana, o que importava era que alguém estava a ter problemas com o ex-namorado e estava na casa de banho de uma festa, a chorar. Fomos informadas, pormenorizadamente, da situação e tentámos aconselhá-la o melhor que sabíamos. Ela agradeceu-nos e deu-nos um abraço. Lembro-me de sentir esperança naquele momento, que se uma estranha me estava a abraçar e a dizer-me que me amava aos gritos numa casa de banho porca porque eu lhe tinha dito para não voltar para o ex-namorado tóxico, então é porque se calhar os seres humanos não são assim tão maus, como muitos acham que são. Nunca mais ouvi falar da Joana e não sei se ela chegou a voltar para o ex-namorado que controlava a forma como ela se vestia. Lisboa estava calada e eu sentia que ia desmaiar. Tento focar-me num ponto à minha frente. Olho para o outro lado da rua e vejo um rapaz sentado num banco com um cão ao lado e penso: ele vai ter a tendência de rejeitar, por estarem ligadas ao conceito de feminidade construído pela sociedade, este tipo de amizades tão íntimas, este tipo de sensibilidade. Senti, subitamente, pena dele. Aquilo que faz os seres humanos especiais, pensei, são as nossas tentativas de compreender alguém, de ser vulnerável e de partilhar com esse alguém coisas que estão escondidas nas gavetas, desarrumadas, poeirentas e mal construídas, no nosso cérebro. O rapaz que passeia o cão vai ter o seu caminho mais dificultado, vai ter dificuldade em ser vulnerável e em compreender os outros, tal como o filho dele, como o primo dele, como o amigo do primo, como o colega de trabalho, como o patrão, como o… Olho para as horas, era tarde, estava cansada, nauseada e a cabeça estava a latejar. Levantei-me e fui para casa. Abri a porta, a custo, porque o trinco precisa de um jeito específico. Tirei as botas e enxotei-as para o lado. O telemóvel enche-se de luz e recebo uma mensagem: “Desculpa, fui muito brusca e despachei-te! Houve uma coisa que não te disse. Vou conhecer os pais do Rodrigo porque eles vêm à festa. Ajuda-me, por favor! Não consigo continuar com esta farsa de fingir que sou relaxada e descontraída e de que adoro fazer as respirações da meditação, na maior parte das vezes estou a pensar no que vou comer ao almoço! Estou-me a passar completamente! E se sujar a roupa que estava a planear usar? Ó meu Deus, e se sujar a roupa de outras pessoas? Sabes como sou distraída! E se não gostarem da maneira como a casa está decorada? E, o pior de tudo, Catarina, e se não gostarem de mim?”
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