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- VAI (a) TUNA (e vamos nós)!
No dia 23 de abril às 20h todos os caminhos vão dar à Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa, pois é lá que se vai dar o I ANIMUS, primeiro festival de sempre da JurisTuna, Tuna Académica da mui nobre instituição da NOVA School of Law. Encabeçado por mais quatro outras Tunas (a VETuna, a Tuna Médica de Lisboa, a TUIMS e a Magna Tuna Apocaliscspiana), o I ANIMUS promete ser um belíssimo momento cultural, assim como um importante e emotivo marco histórico, não só para a JurisTuna em específico, como para toda a tradição académica da sua Faculdade em geral, que em muitos aspetos ainda está a dar os seus primeiros e tímidos passos, dada a sua tão jovem idade. Será inquestionavelmente o evento do mês de abril, e onde será possível observar o melhor que há da vida universitária: a união académica, a diversão tunante, a fraternidade estudantil e a despreocupação de quem tem apenas o hoje para viver. Bem vistas as coisas, serão estas as memórias que subsistirão ao fluir do Tempo e que ficarão para sempre gravadas nos nossos corações académicos. Por esse motivo, apressa-te e compra o teu bilhete, e vem disfrutar desta noite académica inesquecível! Deixamo-vos com um testemunho do nosso redator e tunante Tiago Monni que expressa a importância que a Juristuna representa na sua vida, enquanto refúgio do dia a dia, e o seu agradecimento aos colegas tunantes que o acompanham nesta jornada. TESTEMUNHO Os súcleos(1) são, ao final do dia, a sala de aula que não estávamos à espera. No caminho da faculdade de direito para a famigerada sala dissociamo-nos das doutrinas e jurisprudências e incorporamos a paixão inocente pelo cantar que nos seduz desde o primeiro ensaio, com o conforto de saber que temos lá os virtuosos, românticos e poetas que já há tempos nutrem a flama musical na mais alta oitava dentro dos seus corações, e que, ávidos por transmiti-la, estão sempre dispostos a tirar as nossas dúvidas, remediar as nossas incertezas e curar as nossas inseguranças, em um esforço conjunto em busca da suposta perfeição musical. Mas aí é que todos se surpreendem: é uma falácia essa tal perfeição, ou pelo menos o lugar onde ela está. A cada ensaio, insere-se em nossos subconscientes que o que tange a perfeição e o que nos leva mais perto da completude não é a reprodução final do que está nas partituras, mas sim a vivência, a assiduidade semanal, o trabalho duro do Conselho(2) e da Coordenação(3), as pequenas correções da Marta e as chamadas de atenção da Ialves, em suma, é a progressiva relação simbiótica entre tunos(4) e tunantes(5), mestres e aprendizes, professores e alunos. Nesse sentido, a ressoar das notas são apenas ferramentas de atração, entretanto o que nos faz continuar a atravessar o curto caminho entre a ''FACULDADE DE DIREITO'' e a tímida sala dos núcleos, é a singela comunidade de pessoas chamada juristuna, composta, por nós, os caloiros e vocês, nossos queridos amigos, os tunantes que nos receberam. Isto não vais encontrar em nenhum artigo da Constituição. (1) Sala dos Núcleos (2) Conselho de Tuna (3) Coordenação Artística (parte integrante da Juristuna) (4) Posição mais alta na hierarquia do estatuto dos tunantes (5) Membros da Juristuna
- Sem título
Tábula Rasa arrasada Alma cansada Pé a pé a pegada De carbono E tanta resolução da ONU P’ra nada Constrói célere a impúbere fachada Morre antes da hora, à chegada Este canto lusófono, Mundo preso num canto monótono Soe antes gritante esse galo Tábula que se vê como fábula que se lê Ao contrário Como salmão no lago, Povo dito otário Monótono o canto do horário Alienado e mal pago A priori a prisão, diz tradição Contratualismo, essencialista ou não A posteriori a real dominação Venha Nietzsche e sua postulação Weber e sua resignação Verdade se constitui na burocracia No mercado, na economia E socioeconómicas nossas manias Freudianas Patologias Venham as vossas demagogias! Que aqui fica tudo acabado Ser humano é regido não pela inovação, pelo mercado Daí não vir o teletransporte Mas o teletrabalho, E enquanto liberal se vê individualizado É só mais uma carta no baralho O indivíduo só existe Se a comunidade o reconhece Persiste em vão esta tese Porque continuarão, raça humana em corda bamba Até que tropece.
- (Não) Ser
'Ser ou não ser, eis a questão?' - interrogou-se Hamlet durante o terceiro ato da peça. Mas não é apenas o príncipe da Dinamarca que se debate sobre os mistérios da essência do ser humano, daquilo que está dentro de cada um de nós. Creio que não é um eufemismo afirmar que todos já nos questionámos sobre o nosso propósito para existir, seja nos momentos de desespero e perdição que enfrentamos durante a nossa passagem terrena, ou durante os instantes que nos enchem de felicidade e que nos deixam de coração cheio. Em qualquer um destes casos, acabamos sempre por pensar 'O que fiz eu para merecer isto?'. A introspeção de Hamlet, como os amantes de Shakespeare devem estar cientes, leva-o apenas pelos caminhos mais obscuros do pensamento humano. Fá-lo concluir que a única razão para aceitarmos as dificuldades da vida é o medo do desconhecido, daquilo que a morte nos traz, algo para o qual não nos dão a mínima preparação, nem mesmo uma pequena palestra ou free-trial . Mas é o medo que nos move? Talvez esta fosse a forma como o poeta encarava a vida. Ainda assim, a sua visão não representa a de todos os homo sapiens que vagueiam por este pedaço de pedra flutuante, e cada um de nós terá a sua sentença a proferir e a sua avaliação a dar quando for o momento para o fazer. Aqui está uma forma diferente de ver o mundo, para inspirar os mais melancólicos que pensam e respiram como Hamlet: enquanto somos devíamos existir, só quando deixarmos de ser o que somos é que nos deveríamos preocupar com o não ser. Trocado por miúdos, foquemo-nos mais no 'ser' do que no 'não-ser'. Só podemos ser uma vez, mas dispomos de toda a eternidade para não sermos aquilo que outrora fomos. Mas, afinal, porque 'somos'? Somos, ora porque Deus o ditou, ora porque a evolução nos fez, ora porque as decisões dos nossos pais, avós e bisavós nos trouxeram por este trilho. Somos um produto de outras gerações, histórias inacabadas que temem pelo seu desenlace, incompreendidos nas nossas diferenças, mas iguais naquilo que nos une enquanto desconhecedores do futuro. Somos profundos, somos aquilo que somos e nada mais podemos ser. Estamos limitados pelo nosso desconhecimento, e por isso não estamos autorizados a aventurar-nos além do que reconhecemos enquanto nosso. Não é, por tal, o medo que nos move, mas a curiosidade e o desejo de saber o que acontece no nosso próximo capítulo. A morte nada mais é que a promessa de uma vida que cada um de nós decide como viver. Uma verdadeira conclusão que precede à derradeira premissa que tudo define. Melhor não poderia dizer Fernando Pessoa quando escreveu “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre.”. Aceitar a nossa condição de ser enquanto prequela do não ser, mas fazendo questão de deixar a nossa marca num mundo em que somos sem temer o futuro, para que nos recordem dessa forma quando já não o formos. Espero que estas palavras sejam lidas com escrutínio, que mudem mentalidades, transformem Hamlet's em Pessoa's e interrogatórios interiores em afirmações convictas: 'ser ou não ser?' não requer obrigatoriamente o uso de um ponto de exclamação e muito menos o uso de uma conjunção disjuntiva. Fiquemo-nos apenas pelo 'e' e pelo simples ponto final, adequado para a conclusão de uma narrativa: 'ser e não ser.' i* Pessoa, F. Livro do Desassossego , por Bernardo Soares. Vol. II. Mem Martins: Europa-América, 1986.
- Mágoa, Perdão, Conciliação
Mágoa Estou magoada contigo! Como foste capaz de fazer isto comigo? Sempre te vi como um ombro amigo… Mesmo sabendo tudo o que tinha acontecido E o raio de ano que tinha tido Contigo em mente tenho sobrevivido Pensava que me ias salvar Mas a tua solução foi ainda mais me destroçar Não sei se te vou conseguir perdoar! Perdão Recordo os momentos que me proporcionaste E da maneira que de mim cuidaste. Tu também já me perdoaste! Agora percebo que a culpa não foi tua. Estive com a cabeça na lua E interiormente sentia-me nua. Ao apanhar os pedaços do meu coração Dentro de mim procuro o perdão. Serás a minha exceção. Reconciliação Para os teus braços voltei E a ti novamente me entreguei. Sei que não me arrependerei. As coisas comigo já resolvi E toda a mágoa já absolvi. Quero-te ao meu lado, como sempre convivi. Contigo volto a ser feliz. Quase perdi tudo, foi por um triz Em ti tenho a minha raiz.
- O Mal de Cortar pela Raiz
Os valores fundamentais e originais do Homem estão em perigo. O indivíduo vem ao mundo direcionado para o bem e para a vivência em sociedade e nasce com a graça* necessária para trilhar o seu respectivo caminho pessoal consoante os valores fundamentais destinados à realização da sua autonomia e evolução pessoal, assim como dos interesses e necessidades da coletividade. Cada um nasce, portanto, ser autónomo e ser servo. Autónomo pois deve ser ativo e atuante na sua esfera pessoal, almejante de objetivos que conduzem à felicidade própria, e servo na medida em que vem a um mundo cujo um dos elementos apriorísticos é a sociedade, e que, por isso, deve conduzir as suas ações e pensamentos ao cumprimento do bem-estar social. Um jovem da geração Z observaria o parágrafo acima e, estonteado e confuso, questionaria, possivelmente de forma coloquial, como ele pode ter nascido com tamanha responsabilidade e compromisso, destinado já a tantas coisas e criado, de certo modo, badalado e solene: ‘’Isto está a parecer um emprego, mesmo bebé, já tenho compromissos, metas e objetivos? Que medo, que tão grande medo’’. A verdade é que mesmo a chupar o dedo na mais tenra idade ou a se preparar para entrar no mercado de trabalho, o indivíduo possui a mesma constituição interior original, que é constante em função do tempo, presente até o último respiro. É pura em sua conceção, mas deve ser resiliente e persistente com o passar do tempo; isto porque o crescimento é um fator problemático, deixa a interioridade à mercê de rastos viscosos e de feridas provenientes do exterior capazes de danificá-la profundamente, de deteriorações que são traiçoeiras pois alteram a imagem do indivíduo perante a sociedade e encobrem a verdadeira graça, embaçam as lentes dos óculos utilizados pelos outros; concedendo, por conseguinte, razoabilidade ao questionamento do jovem do século XXI. Agora a mãe de um jovem da geração Z, nascida na década de 70, exclama: ‘’o meu filho enquanto bebé era tão bonzinho e carinhoso, estava sempre a sorrir, agora é apenas rebelde e agressivo, tornou-se apenas mais um daqueles jovens deslocados e insurgentes que não canso de ver em outras famílias, parece que perdeu o seu caminho”; ele, na verdade, ainda é BOM, ainda tem um caminho próprio a percorrer; isto só não aparenta, não está escancarado nos seus olhos, pois está oculto pelas degradações do devir da vida, que podem, não se engane, partir de influências externas ou de ações do próprio indivíduo, contribuintes para a sua própria autofagia, embebidas de um certo obscurantismo pairante a todos e estranho ao solene e fascinante momento da criação. Nesse sentido, os valores fundamentais intrínsecos aos indivíduos sofrem e deterioram-se através de pequenos e constantes hematomas em seu invólucro. Já agora, no entanto, não releva aqui a definição dos valores fundamentais, pelo simples motivo de que já estão interiorizados a todos, e de que é dever do indivíduo encontrá-los, fazê-los reluzir e transformá-los em seus ‘’estandartes espirituais” (modelos de ser e de pensar); contudo, se fosse possível exprimi-los de acordo com a sua devida posição imaculada, eles se manifestariam como as distintivas bases de sustento do bom e próspero convívio social, sendo, concomitantemente, disciplinadores e libertadores, complexos e inteligíveis, fundacionais e constantes, universais e únicos conforme o especial caminho individual. Dessarte, entende-se, por essa panóplia de qualidades, a sua magnitude, o seu poder e o seu caráter distintivo, e, consequentemente, que o confronto e o dano dirigido a eles representariam a mais pura antítese da composição original do Ser Humano, um némesis do seu âmago, portanto, uma ameaça à sua existência. Levanta-se, então, o seguinte questionamento: foi-nos sempre ensinado o não agredir, mas nã agredir o quê? Quem é o objeto? Apenas as pessoas ou também tudo aquilo que nos faz como indivíduos agraciados? O constante vilipêndio do verniz moral que molda o ser humano em sua essência é talvez a mais grave das agressões, ao mesmo tempo que idiotiza o indivíduo, o esvazia de sentido, corrói os seus fundamentos e retira a sua esperança; ainda por cima acontece de forma velada, em que a pessoa, da mesma maneira que se cobre por uma quantidade excessiva de maquiagem para tentar disfarçar as suas supostas desarmonias faciais, recorre a mecanismos de defesa, a ‘’armaduras’’, com a finalidade de enturvar este vilipêndio, recorre ao ‘’está tudo bem’’ enquanto está a decorrer um choro silencioso ou, principalmente, recorre a formas exóticas de externalização que se configuram como ilusões inverosímeis de relevância e atuação face ao vazio existencial humano. Então, para uns, os valores fundamentais são valores insondáveis por uma prática reiterada de negligência à originalidade e a tudo o que foi estabelecido no momento da criação, enquanto outros, felizmente, os levam como guias de conduta e determinantes para a vida, os seus ‘’estandartes espirituais”. Se és o primeiro, rezo com força para que busque, custe o que custar, a tua graça e que a acenda como uma labareda ardente presente em teu coração, mas se és o segundo, não te envergonhes e a despeja pelos caminhos do Mundo, transmita-a àqueles que a desconhecem ou que a perderam, faz bom uso do teu gregarismo natural e vai ajudar os outros. O teu rasto também se pode concretizar na espiritualidade dos outros como um meio de salvação; ele não é apenas individual e, desde sua concepção, não é suposto que seja. i* Maior dádiva posterior à vida, Guia suprema de todas as ações e pensamentos de um Ser Vivo
- OS TRÊS I'S
Iludem-se constantemente É um mecanismo de defesa Presente incessantemente… Protege dos demónios Físicos e mentais Serão os seus neurónios? Ilusão benigna Ilusão bem-vinda Mantém-nos felizes, Mantém-nos ignorantes A ignorância é o remédio Para uma vida despreocupada, Para uma vida relaxada Muito acessível a uns, pouco a outros Estes sofrem, tanto que se coçam pela informação: A chave para a casa da angústia e da inquietação Antes fosse ignorante Antes fosse despreocupado Antes não quisesse informar-me Sempre sofria menos…
- Mais Olhos Que Bazuca
O nome significa a entrada de muito dinheiro, a maior parte a fundo perdido, da União Europeia. Não gosto da ideia de constituir um grande poder financeiro para vencer a crise, sendo a única solução para colmatar as lacunas do nosso Portugal assoberbado de complicações. O governo português desenhou a bazuca europeia mais virada para o setor estatal, virada para a economia pública. Sinto que o dinheiro da bazuca europeia está centralizado, muito ligado à área de saúde e à administração pública e não tão ligado, infelizmente, à recapitalização das empresas e digitalização que são áreas cada vez mais prioritárias e sobre as quais deverão incidir as reformas estruturais alinhadas às prioridades da União Europeia. O que tende a ser o cenário inverso dos países lá fora. O sucesso dos grandes investimentos infraestruturais pressupõe sempre o conhecimento prévio do nível de maturidade dos projetos, bem como precisar se é ou não viável em termos técnicos, económicos e financeiros, do seu impacto territorial e ambiental, e ainda do seu enquadramento orçamental e respetivo modelo de contratação. É também verdade que estes fundos europeus não são dinheiro que entra garantidamente, é preciso estabilizar objetivos e cumprir um conjunto de requisitos para então conseguir a ajuda pretendida. Por exemplo, creio que é fundamental tornar as infraestruturas robustas e adaptá-las a novas exigências energéticas e climáticas, assim como adaptar as empresas para a transição para uma realidade mais digital (inclusive apostar na automação dos processos), criar benefícios fiscais, reduzir a carga fiscal e arriscar na sustentabilidade e na conexão em infraestruturas públicas e políticas de incentivo, sobretudo, no interior do país. Deve haver este incentivo de forma a captar a poupança externa, atendendo à nossa economia altamente endividada. Portanto, é de extrema importância garantir uma produtividade mais competitiva de Portugal, assim como reduzir os custos de contextos relativos à burocracia e à minha área de formação, a justiça.
- Raízes
Já cantava a Dulce Pontes “Fado, só quando a saudade vem/Arrancar do meu passado/Um grande amor” na sua emblemática música para o Festival Eurovisão da Canção em 1991. E recordo, passados 30 anos, os mesmos com que a minha mãe me trouxe ao mundo, estas palavras que interpreto do seguinte modo: só nos lembramos das nossas origens quanto bate a saudade, quando nos confrontamos com essa falta. E é precisamente em dedicação às terras e terrinhas que a maioria dos lisboetas têm pelo país, sejam elas as suas origens, as dos pais ou avós. Sim, e termina aqui porque a partir da terceira geração, de acordo com o meu pai, já se é considerado “alfacinha de gema”, que, assim sendo, é o que me pode definir a cerca de 50%. “Mas porquê a metade?” – perguntarão, talvez, vocês. E respondo-o da forma mais breve que conseguir e, como todas as boas histórias, começá-la-ei pelo início. Ora, começando pelos mais velhos (que na verdade são quem já cá não está), o meu avô paterno, como bom tripeiro de apelido Leite (que herdou da sua mãe, que por algum motivo quebrou a tradição e deu nome à sua família e ao marido), era do Porto, mas cedo ficou órfão, acabando num orfanato do piorio, pelo que aos 18 se alistou na Sagres, como forma de se lhe escapar e à fome, bem como para conquistar a sua independência, como qualquer jovem de 18 anos desejaria. Através das viagens feitas a tal propósito, acabou por conhecer a minha Avó, alfacinha nascida e criada, se bem que não pelos pais, mas sim por uma criada a quem apelidava carinhosamente de Mãezinha. Desta união nascem o meu pai e o meu tio, em Benfica, mas levados para morar na antiga freguesia do Alto do Pina, agora Areeiro (sim, a estação de metro que nunca mais é arranjada), mas que viveram sempre entre Lisboa e a casa de férias na Lagoa de Albufeira, onde se viriam a refugiar quando souberam com antecedência que no dia 25 de Abril de 1974 iria haver uma revolução e que iriam tentar ocupar, forçosamente, as casas que sem dono se encontrassem. Virando-me para o meu lado materno, posso dizer antes de mais que a história é curta. Sou Faveiro, apelido conhecido em Ansião, Leiria, de onde é a minha mãe (se bem que nascida em Coimbra e que mais tarde lá faria os estudos) e porventura todos os seus antecedentes – porque nas aldeias assim é: fácil de sabermos as nossas origens. Finalmente eu, uma “alfacinha de gema” nascida na exata freguesia onde atualmente estudo, São Sebastião da Pedreira, na Maternidade Alfredo da Costa, assim como quase todos os restantes lisboetas. Mas falta ainda outro elemento à minha autodefinição, pois me mudei para Odivelas, com 2 anos, sendo aqui que cresci e onde tenho os meus amigos, pelo que terei de reescrever o dito acima: uma “alfacinha de gema odivelense”. O que quer que isto quer dizer é precisamente o que estou a tentar descobrir. Sempre vivi entre Odivelas e Lisboa, ora vivendo em Odivelas, ora indo a consultas em Lisboa, ora estudando em Odivelas, ora passeando por Lisboa. Ainda tenho a minha terrinha, Ansião, mas, para ser sincera, não me se lhe conecto. Não conheço as pessoas, as histórias por detrás delas, nem as casas que passaram de uma família para outra, mas que no fundo estão ali todas interligadas. Considero-me, por isso, uma alfacinha odivelense sem terra. Com origens, mas, na verdade, com demasiadas para poder dizer que sou, de facto, de uma. Gosto de descobrir mais factos históricos sobre Odivelas, é verdade, mas daqui não tenho “sangue”, e adicionado à minha preferência pelas ruas de Lisboa resulta no caos que é a minha mente. Aliás, todo este pensamento é produto do que se aqui se iniciou quando fui com as madrinhas de praxe comprar o traje académico e me perguntaram de onde eu era. E eu encravei, não tive resposta pronta, como costumo sempre ter, e calculo, igualmente, que, se tudo correr bem, tal encravadela aconteça mais vezes, despoletando toda esta e outras linhas de pensamento que se cruzam e entrecruzam no meu cerebelo.
- Perdi-me
Poesia Busquei novos caminhos, Novos trilhos, E, ironicamente, Deparei-me com sarilhos. Corri por entre serras, Montanhas e praias. Encontrei a minha alma, Viva e desbotada, Perdi o meu corpo, Já gasto; quase morto. Perdi-me no tempo, Nos lugares. Perdi-me no nefasto silêncio Do mundo sofredor; Perdi-me sem saber; Perdi-me no esplendor. Lutei para compreender O amargor das palavras; Para perceber o grito das crianças; Para enfim entender a fereza humana. Enlouqueci com o mundo, Perdi-me em espírito. E como a Terra na sua essência Ardi nas chamas da demência.
- Quando
Poesia Os anos se contavam pelos dedinhos de uma mão... Quando, no jardim da nossa infância Coloridas borboletas pousavam Rindo em nossas cabeças... Quando, nos banquinhos sentadas Eramos deusas algemadas Libertadas pelo sonho... Quando, aprendemos a soletrar E na tabuada cantar... Cantámos floridas primaveras Que corriam como quimeras Sem saberem regressar Cantámos luares e verões, Sol, frutos, recordações... Com o Outono a chegar... Sinfonia da vida Deu-nos Deus Esta beleza A amizade cimentar.
- Shark Finning em Portugal
Desde pequena escutei que “filha de peixinho, peixinho é”, mas não foi até morar perto das praias mais lindas do mundo que percebi que sou mesmo um peixinho. Com 14 anos, comecei a mergulhar de cilindro e rapidamente consegui moderar minha respiração e ficar minutos e minutos debaixo d’água, nadando entre os corais e os peixes sem pensar em nada, só no incrível que seria que as próximas gerações tivessem a mesma experiência. Durante os anos que fiz mergulho vi de tudo um pouco, mas sem dúvida o mergulho que o instrutor me colocou do lado de um tubarão-gata foi um dos mais incríveis de todos. E é por isso que assim que escutei do Stop Shark Finning decidi me inscrever sem pensar duas vezes. O SSF é uma rede universitária que trabalha para a consciencialização da venda de barbatanas de tubarões através da arrecadação de assinaturas. Trabalhamos para que nossas vozes sejam ouvidas e para que animais inocentes não precisem sofrer nas mãos do ser humano, até porque esta prática cruel não traz nenhum benefício ao meio ambiente. O finning trata-se de remover as barbatanas dos tubarões e lançarem a carcaça de volta ao mar. E existem provas recolhidas pela GNR no dia seis de janeiro deste ano de uma embarcação que escondia no seu porão “um total de 83 barbatanas de tubarão e 21 quilos de tubarão esfolado e esviscerado”, ou seja, não é um problema distante nem um problema que nos afetará somente no futuro, mas é algo recente e que já está acontecendo. Segundo o mesmo documento da GNR, o finning contribui para a mortalidade excessiva dos tubarões e mesmo assim a União Europeia é um dos maiores exportadores de barbatanas e uma importante plataforma de transito para o comércio das mesmas, “apesar da proibição de remoção das barbatanas a bordo dos navios da UE e nas águas da UE, e da obrigação de desembarque dos tubarões com as barbatanas unidas ao corpo”. Mesmo sabendo que não poderemos mudar o mundo o que a SSF é admirável: com uma equipe diversificada e dedicada nos concentramos em fazer saber a todos sobre a verdade, sobre o que realmente fazem a estas criaturas e sobre como podemos fazer com que isto acabe de uma vez por todas.
- Canção do Mar
Poesia É triste a canção do mar Que à noite, instante, me chama; Narra momentos ao luar Afundados já na lama. Escuto-a num banco d'areia, Não longe da escura costa; Assim me encanta e desgosta, Solidão feita sereia. Está no marulhar das ondas, Que vão e vêm tranquilas Em indiferentes sibilas Ante verdades hediondas. Está na brisa leve e lassa, Que segreda ao mar parado Os infortúnios e o fado De uma anunciada carcaça. É calmaria traiçoeira Que me quer pôr fim à viagem. Traz-me ao limiar da voragem, A uma funesta soleira. Malévola melodia, Rumorejando mentiras Por um manto de safiras A um ser em agonia. Pede-me para mergulhar, Sob a impávida lua, Na água cálida e nua Que não quis ainda esfriar; Para que nela desvaneça Tudo o que de mim existe, Sem saber o que subsiste, O que em mim arde e não cessa. Não será ainda afogado, Caído nas profundezas, Depois de tantas empresas, O meu ser no mar salgado; Sinto os ventos de mudança, Por fim frescos e risonhos, E retomo os cem mil sonhos Daqueles tempos de criança.
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