A polémica em torno da ida dos Bandidos do Cante à Eurovisão
- Inês Rocha
- 1 day ago
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Como sabemos, no passado dia 7 de Março os Bandidos do Cante venceram o Festival da Canção, o que significa que o grupo representará Portugal na Eurovisão deste ano, que decorrerá em maio. Uma edição que, mais uma vez, será marcada pela contínua presença de Israel, sendo que países como a Espanha, Países Baixos, Irlanda, Eslovénia e Islândia anunciaram boicote ao concurso face ao genocídio que ocorre na Faixa de Gaza.
Quanto aos participantes do Festival da Canção, foram oito aqueles que face ao cenário de uma potencial vitória, abertamente afirmaram que boicotavam a ida de Portugal à Eurovisão, sendo que outros dois participantes não se pronunciaram sobre este assunto. Os Bandidos do Cante terão sido mesmo os únicos a afirmar publicamente que, caso fossem os vencedores desta edição, representariam mesmo Portugal no festival. O desfecho todos já conhecemos, a vitória acabou mesmo por pertencer a este grupo.
Para quem não está familiarizado, os Bandidos do Cante, cujos integrantes são em grande parte originários de Beja, são um grupo musical criado em 2022, distinguindo-se pela fusão do tradicional cante alentejano com sonoridades contemporâneas. O seu grande pontapé de saída terá sido mesmo com a gravação do tema “Casa”, editado também em 2022, cuja autoria pertence aos D.A.M.A, juntamente com a colaboração de Buba Espinho.
Não obstante a qualidade musical e artística dos Bandidos, acho no mínimo intrigante a conquista ter pendido precisamente para o único grupo que defendeu a ida e respetiva representação de Portugal no concurso. Logo na edição em que o voto do júri tem mais peso do que qualquer edição antes realizada. É verdade que o papel do público é também preponderante nesta escolha, porém, não tem o mesmo peso que o dos jurados. Aliás, após uma análise de dados, ter-se-á concluído que esta edição do Festival da Canção terá sido a menos assistida nos últimos anos.
Ora, são vários os motivos que podem justificar este decréscimo nas audiências, mas aquele que à partida salta logo à vista é a constante conivência da organização do concurso, neste caso a União Europeia da Radiodifusão (UER) para com os atos desumanos e bárbaros de Israel. É de se criticar ainda a passividade da RTP perante este tema, sendo de se louvar a atitude das organizações dos respetivos países que boicotaram a ida à Eurovisão.
Na minha perspetiva, é de se condenar tanto a posição dos Bandidos do Cante, como a da RTP, reconhecendo também que o boicote por parte desta seja todo um processo mais complexo (tratando-se pois de uma entidade pública). Já quanto à postura adotada pelo grupo musical, refiro que desde sempre a cultura e inclusivamente a música estão intrinsecamente ligadas àquilo que foi e é a política, sendo estas as formas mais puras de expressão que existem, até mesmo no que toca a marcar uma posição.
É igualmente importante sublinhar que, historicamente, o cante alentejano original surgiu como uma forma de resistência e ativismo, sendo uma expressão cultural que reflete as vivências, contestações e dores do povo alentejano. O cante foi no fundo uma forma do povo manter a sua identidade e coesão social face à constante fustigação e desigualdade que o Alentejo foi enfrentando ao longo da sua história. É este o impacto que a cultura pode ter, servindo como um verdadeiro pilar da expressão humana e servindo inclusivamente como um derradeiro escape à realidade.
Posto tudo o que acabei de referir, seria de esperar que os Bandidos do Cante tivessem “desafiado” a sua ida à Eurovisão, numa altura em que é cada vez mais urgente uma tomada de posição relativamente ao estado do mundo em que nos encontramos. Agirmos é indubitavelmente necessário.
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