Concurso de Escrita e de Fotografia 2026 - textos e fotografias a concurso
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
- 2 days ago
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Texto 1: Picada
Sinto-me melhor, ainda não curada desta doença que me assola o coração e me enche a mente, mas livre daquele sentimento prisioneiro de angústia que pica e insiste em dizer que não é e nunca vai ser. Sinto-me esperançosa por algo melhor, por uma vida melhor. Vejo o amanhã com ansiedade. Ansiedade de viver, ansiedade de sorrir. Estou farto deste estado de transe que me impede de seguir e de voar. Quero ser livre e quero acreditar. Quero pairar na minha mente e nos meus pensamentos e ver luz e felicidade e não tristeza e incerteza. Sou como uma abelha numa colmeia à qual pertence, mas da qual não se sente parte.
Texto 2: Bzzz
Bzzz...
Texto 3: O mel não tem validade
O mel não tem validade e, pelos vistos, o fascismo também não.
Há coisas que o tempo conserva melhor do que devia, o mel é uma delas e ideias sem convicção são outra.
Enquanto há doces que repousam intactos dentro de um frasco, há venenos que atravessam séculos com uma resistência admirável.
Mudam o rótulo; mudam a língua (na NOVA talvez não); mudam o uniforme; mudam a bandeira..., mas chegam sempre frescos às mãos de uma sociedade distraída. E talvez até seja essa a grande tragédia humana, estragar depressa a memória a conservar demasiado bem aquilo que destrói.
E ainda há quem diga que a história tem utilidade.
Que depois de corredores escuros, de passos ouvidos ao amanhecer, de portas abertas à força, de vizinhos que trocavam a consciência por denúncia e de famílias ensinadas a sussurrar dentro da própria casa, que haveria feridas demasiado profundas para se voltarem a abrir. Que certas vergonhas - uma vez expostas - jamais voltariam a reencontrar abrigo entre nós.
Contudo, como tudo na vida, o passado raramente morre. Apenas recolhe. Espera por tempos difíceis, por bolsos vazios, por orgulhos feridos, por sociedades cansadas, por jovens revoltados e velhos agarrados à nostalgia. Espera que a consciência adormeça e que a dignidade passe a ser um luxo. Espera, sobretudo, que a fome de respostas rápidas seja maior que a coragem de pensar.
E quando regressa, caros amigos, nunca regressa sozinho - regressa aplaudido.
Onde antes se ouvia os sussurros de uma PIDE, hoje há outras siglas, outros crachás pendurados ao peito. Onde batiam à porta por ideias, agora batem por documentos. Onde se levava homens em nome da ordem, agora separa-se famílias em nome da segurança. Antes dizia-se em bom português, PIDE, hoje traduz-se no mais coloquial do inglês, ICE.
Mudaram os nomes, mas nunca o cheiro, um resquício de quem há muito dizia “gira o disco, mas toca o mesmo”.
Porque o autoritarismo aprendeu a modernizar-se. Já não precisa de gritar tanto, basta-lhe parecer razoável, basta-lhe um discurso sobre controlo, uma conferência de imprensa, uma estatística mal explicada, um inimigo conveniente e uma população suficientemente exausta para aceitar qualquer coisa que prometa descanso.
E há sempre quem aceite.
Há sempre quem prefira a segurança de uma ordem qualquer à incómoda exigência da liberdade; há sempre quem aceite a humilhação alheia desde que venha devidamente, carimbada e justificada em relatórios, em nome da lei. Há quem ache normal prender mães, matar pais e separar crianças desde que tudo soe respeitável quando dito. E assim se vai chamando de civilização ao que, em qualquer outro tempo, teria outro nome.
Surpreendentemente, as colmeias também funcionam assim.
Basta uma vibração certa e o enxame move-se por inteiro. Ninguém pergunta para onde ou porquê, limitam-se a seguir o som, o impulso e a seguir quem vai à frente. E nós, que em muito nos julgamos superiores às abelhas, repetimos o mesmo dilema incessantemente. Corremos atrás de vozes convictas, frases simples e certezas, acima de tudo, baratas.
“Paz, terra e pão”, gritavam-se noutros tempos para responder à fome real.
Atualmente, vendem-se versões plastificadas do mesmo mecanismo, “Make America great again” como se o tom de pele laranja pudesse fazer de alguém digno de orações diárias, pregadas em praça pública. Não se distribui pão, distribui-se nostalgia. Não se oferece paz, oferece-se inimigo. Não se dá terra, promete-se ostracização.
E resulta.
Porque os slogans funcionam como as flores artificiais, de nada servem, mas ao longe pelo menos parecem bonitas.
Mas não nos esqueçamos do tradicional e irreverente, veneno doméstico, esse que está sempre pronto a rastejar para cima da mesa, “isto não é o Bangladesh”, dizem alguns, como se a dignidade humana dependesse de algum tipo de código postal. Como se a miséria dos outros pudesse medir a ilusão daquilo que é o valor próprio.
É aqui que se percebe que o problema nunca foi só o tirano.
O problema acaba por ser a multidão disponível. O ser humano que ri, que partilha e que em lato senso só sabe dizer “não exageres”, que fecha os olhos desde que não lhe batam à porta, que só descobre princípios e direitos pregados numa dita constituição quando a violência lhe entra consciência adentro e que no fim só acha que a crueldade é abominável quando se coloca em causa o apelido arcaico.
E é por estas e por outras que se deixa crer que existem homens extraordinários que podem anular regras comuns porque o seu destino justifica o fim da dignidade humana. O argumento poderá mudar de século para século, mas a ideia mantém-se: continuam a existir vidas sacrificáveis, danos necessários, atrocidades temporárias e exceções urgentes.
Foi assim com impérios, ditaduras e continua a ser com deportações em massa, prisões seletivas, vigilância normalizada e discursos de ódio vendidos como patriotismo. Primeiro, há que escolher os que de nada valem, depois normaliza-se o seu sofrimento e por fim chama-se pragmatismo ao que antes se poderia considerar como crime de guerra.
E enquanto isso, há sempre quem ande a colher o mel.
Já que, no meio do barulho, enquanto o enxame se divide e ataca, existe sempre um apicultor invisível a lucrar com a confusão. O político que sobe nas sondagens, o empresário que ganha com a mão de obra desesperada, o canal no Youtube que cresce com a indignação politizada e o dito Chefe de Estado que agradece a distração. E a coitada da Abelha-Rainha, também só dança ao ritmo de quem lhe segura a caixa.
E no fim, até há quem se admire quando tudo fica misturado.
O mel não tem validade e o fascismo, pelos vistos, também não.
Um conserva-se em frascos fechados durante séculos, o outro conserva-se dentro de gente estúpida e ressentida. No final, basta aparecer alguém para desapartar a tampa para que o cheiro se faça sentir por si.
Fotografia I

Fotografia II

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