Reino do Gelo
- Laura Cristovão
- May 5
- 1 min read
neste reino só é possível entrar,
sair já é complicado demais;
só quando vem uma avalanche a rasgar
é que se rompem os portais.
as pessoas vão-se acumulando,
acumulando e acumulando sem parar,
como neve que cai, silenciando,
sem nunca ter onde pousar.
e a natureza, furiosa contida,
à mínima provocação,
ergue uma força desmedida,
numa súbita convulsão.
cria uma avalanche tão grande,
tão branca e tão brutal,
que tudo o que antes era constante
é lançado para fora do mural.
daquelas muralhas erguidas,
de pedra fria e densa,
as presenças ficam perdidas
numa expulsão imensa.
e começa-se tudo de novo,
o ciclo reinicia-se então;
fecha-se o reino ao povo,
tranca-se o próprio coração.
muralhas tão altas, tão altas,
que tocam o céu sem ceder,
erguidas por faltas e faltas
de quem não sabe dizer.
lá dentro, naquele reino fechado,
o exterior não consegue afetar;
o mundo bate, cansado,
mas não o consegue tocar.
naquele reino o inverno perdura,
num frio que insiste em ficar;
ninguém tem noção da altura
do tempo que passa a passar.
perdeu-se com a monotonia da estação,
na neve que nunca se rende;
é um reino feito de contenção,
que só na avalanche se entende.
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