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Reino do Gelo

neste reino só é possível entrar,

sair já é complicado demais;

só quando vem uma avalanche a rasgar

é que se rompem os portais.

as pessoas vão-se acumulando,

acumulando e acumulando sem parar,

como neve que cai, silenciando,

sem nunca ter onde pousar.

e a natureza, furiosa contida,

à mínima provocação,

ergue uma força desmedida,

numa súbita convulsão.

cria uma avalanche tão grande,

tão branca e tão brutal,

que tudo o que antes era constante

é lançado para fora do mural.

daquelas muralhas erguidas,

de pedra fria e densa,

as presenças ficam perdidas

numa expulsão imensa.

e começa-se tudo de novo,

o ciclo reinicia-se então;

fecha-se o reino ao povo,

tranca-se o próprio coração.

muralhas tão altas, tão altas,

que tocam o céu sem ceder,

erguidas por faltas e faltas

de quem não sabe dizer.

lá dentro, naquele reino fechado,

o exterior não consegue afetar;

o mundo bate, cansado,

mas não o consegue tocar.

naquele reino o inverno perdura,

num frio que insiste em ficar;

ninguém tem noção da altura

do tempo que passa a passar.

perdeu-se com a monotonia da estação,

na neve que nunca se rende;

é um reino feito de contenção,

que só na avalanche se entende.

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