top of page

Entrevista à Comissão Académica 26/27

11 minutes ago
18 min read

No dia 29 de setembro, a nossa Diretora Lara Cândido esteve à conversa com a Dux, Catarina Rodrigues, e a Presidente da Comissão Académica, Beatriz Marques, para conhecer o caminho que percorreram na Praxe e descobrir o que esperam para o futuro da comunidade praxística.

Lara (L): Em que momento perceberam o que significa, para vocês, fazer parte da Praxe?

Catarina Rodrigues (CR): Eu acho que percebi o que é que era a praxe quando eu fui praxar pela primeira vez, porque eu lembro-me de uma determinada altura em maio, a minha líder se virar para nós, caloiros dela, e ter dito que se enquanto doutores nós conseguirmos dar aquele 1% que nós recebemos durante o primeiro ano, então já fizemos um trabalho incrível. E eu acho que durante o meu primeiro ano a praxar fui percebendo o peso disso, porque enquanto caloiros tu ouves isto e dizes “Okay, é só uma frase bonita mandada para o ar”, mas quando comecei a praxar, percebi que efetivamente é uma coisa e eu acho que ninguém percebe ao certo o quanto o nosso primeiro ano tem um impacto na vida de alguém. No sentido em que, se eu não tivesse os doutores que tive, se calhar não teria andado na praxe; se não tivesse tido as pessoas que conheci durante o meu primeiro ano, se calhar não tinha os amigos que tenho hoje. E eu estou agora no meu quarto ano, enquanto Dux desta comunidade, que para mim é só das coisas mais extraordinárias, e eu continuo a achar que nem 1% dei nos últimos três anos e acho que vou continuar a achar que no meu quarto ano ainda não dei esse 1%. Portanto, se todos conseguirem viver o que eu vivi no meu primeiro ano, então fiz o meu trabalho para com a praxe e acho que foi no segundo ano em que eu percebi que a praxe é sobre dar isso aos caloiros, é sobre fazê-los experienciar isto. E foi tipo “primeira semana” e “ primeiro rally” perceber que os miúdos estão aqui a confiar em pessoas que não conhecem de lado nenhum e eu só tenho que lhes dar o que me deram também, e foi aí que eu percebi o que é que era a praxe.

Beatriz Marques (BM): Eu sinto que tive três momentos de realização do que é que era a praxe: um enquanto caloira numa praxe interna de grupo em Dezembro, e não foi uma praxe muito intensa, foi uma praxe até bastante tranquila e que se calhar não é tão elaborada, mas mesmo assim significou muito, porque eu olhei, vi o meu grupo de caloiros e pensei “Fogo, gosto mesmo deste grupo e gosto mesmo do que é que é a praxe” e também ver o entusiasmo que os doutores colocaram ao que nós tínhamos feito foi um dos momentos em que eu percebi “Okay, estou mesmo num safe place em que tenho lugar e que estou aqui com outras pessoas que me vão acompanhar o resto dos quatro anos e que eu agora olho e são os meus melhores amigos e que os tenho sempre ao meu lado”. Eu diria que o segundo momento foi na primeira semana que praxei também, sinto que me marcou muito vivenciar e experienciar outros momentos que eu tive enquanto caloira, mas do outro lado e com as pessoas a acompanharem-me, portanto isso também é uma das coisas que sinto que me bateu mais sobre o que era a praxe. E sinto que agora, nesta primeira semana enquanto Comissão, também cheguei ao final do terceiro dia e bateu-me um bocado a realidade do que é que estávamos a fazer e do que é que era a praxe, e lá está, tendo o peso do quarto ano é toda uma coisa diferente e então eu diria que foram estes três momentos.

Catarina Rodrigues (CR): Acrescentando a isso, acho que também enquanto Dux é diferente perceber que a malta sempre pensa que a Comissão é uma coisa muito má — e podem continuar a achar, eu acho que isso é irrelevante para a matéria —, mas tendo a responsabilidade que temos, de guiar e orientar os doutores e caloiros, toda a conjetura que for este ano, é a nossa mão que está lá em cima. Claro que não controlamos os doutores todos nem os caloiros todos, mas se nós definirmos uma linha de orientação, é essa linha que para os nossos caloiros vai ser a verdade pura, ou seja, se nós formos mais exigentes com umas coisas, eles para o ano serão exigentes com as mesmas coisas. E é perceber que agora ainda mais insano é pensar que eu agora sou o quarto ano que praxa o primeiro ano e perceber que nós somos a última linha, neste momento, de pessoas que conhecem melhor a praxe. Há um peso delegado de entender que nós agora já não temos os nossos doutores, os doutores a quem eu podia chegar no ano passado, por exemplo, a uma Beatriz Diogo e dizer “Oh Bia, como é que isto foi no ano passado?”. Nós agora somos as pessoas a quem as pessoas fazem essas perguntas, e a praxe é um bocado sobre isso; sobre perceber que existem etapas a ser caloiro, a ser doutor de primeira leva, a ser doutor de segunda leva e depois há o último que é ser veterano, e é compreender que agora as pessoas esperam que nós saibamos tudo. E é insano, porque para mim ainda ontem era caloira e não sabia nada sobre isto, e agora de repente as pessoas vêm me perguntar coisas e eu fico do género “Okay, agora sou a pessoa que responde”. 

L: Existe alguma referência que considerem ter sido particularmente vital no vosso percurso na praxe?

BM: Eu tenho, na verdade, duas pessoas que me marcaram muito enquanto caloira: a doutora Alexandra Gonçalves, que foi a minha TC enquanto recruta no primeiro ano, e o Rafael Guerra. Foram pessoas para quem sempre olhei com enorme respeito, tanto pela forma como nos tratavam, como pelo cuidado que tinham connosco. Ao mesmo tempo, conseguiam manter aquela distância e entender o que era a praxe e qual a posição que ocupavam enquanto doutores. Dava para perceber que tinham uma missão, mas independentemente disso, continuavam a gostar de nós e a tratar-nos bem. É uma coisa que vejo muito neste ano e que também tentei trazer para a Comissão. 

CR: Eu acho que tenho um conjunto de pessoas que me fazem olhar para a praxe da forma como olho hoje. Mas, sem querer roubar aqui os doutores à Beatriz, a pessoa que mais me marcou genuinamente foi o Rafael Guerra. Não porque tenha sido diretamente meu doutor, porque eu estava noutro grupo, mas pela pessoa que ele sempre representou para mim em termos daquilo que eu acho que um doutor deve ser. Ele levava as coisas a sério, mas também não se levava a sério a si próprio. E acho que isso foi uma das coisas que mais precisei de ouvir durante o meu primeiro ano. Acrescentaria também o Francisco Jesus, que foi a pessoa que me ensinou a não ter medo de dizer as coisas. É muito natural chegarmos ao primeiro dia e estarmos um bocado perdidos, mas ele ensinou-me que eu podia dizer o que quisesse porque também tinha um espaço e um lugar naquela casa. Eu olho para a praxe como se fosse uma casa à qual, todos os anos, acrescentamos mais quartos. Esse espaço é nosso e nunca vai deixar de existir. Acho que o Rafael e o Kiko me ensinaram isso. E acho que é também isso que nós, enquanto doutores, temos o dever de fazer. Eles podem olhar para nós como uma figura de autoridade máxima e pensar: “Estas pessoas são autoritárias”, mas quando nos veem a interagir uns com os outros, percebem que existe um nível de à-vontade extraordinário. Eu quero que eles cheguem a esse nível de à-vontade. Quero que aprendam que não têm de ter medo de ser quem quiserem ser. Podem crescer do tamanho que quiserem e não somos nós que lhes vamos dizer que não podem. 

L: Chegando ao final da primeira semana de praxe, que balanço fazem da mesma?

CR: Acho que foi muito diferente do que inicialmente pensava que ia ser. Nunca estive na Comissão, nunca fui Dux, e por isso é uma experiẽncia totalmente diferente. É muito surreal pensar que duas semanas antes, já sabíamos que íamos ter uma onda de caloiros que seriam os nossos caloiros, mas eles ainda não “tinham cara”. Chegar ao final da primeira semana e conseguir atribuir uma cara aos nossos caloiros é bué fixe. Sinto mesmo que eles são todos meus. E sinto que existe uma responsabilidade acrescida, porque tenho perfeita noção de que, quando fui caloira, aquilo que aprendi da praxe foi o meu primeiro ano. Saber que este ano estou numa posição de destaque e que aquilo que eles aprenderem vai ser aquilo que vão levar para os próximos anos constitui extrema importância, dá muito peso. Era muito assustador no início, mas acabei a primeira semana a achar que temos um conjunto de caloiros muito fixe e acho que eles estão a dar muito, da mesma forma que eu tentei dar o máximo de mim durante a primeira semana.

BM: Eu também ia um bocado por aí. Acho que o balanço acabou por ser bastante positivo. Nós não tivemos ninguém na Comissão atual que já tivesse estado numa Comissão anterior e, portanto, foi um trabalho de tentar perceber o que é que queríamos seguir, o que é que queríamos seguir, o que é que poderíamos fazer diferente, entre muitas reuniões e muitos debates, mas acho que no fim o trabalho foi positivo e também tem sido uma boa experiência estar na Comissão. Eu já achava que ia gostar, mas agora, chegando ao final da primeira semana, já não é aquela ideia fictícia de “se calhar vou gostar”; percebi que gosto mesmo. E, em termos de caloiros, é mesmo como a Catarina disse. Eu não coloco muitas expectativas em nada, então tinha bem uma visão do que é que iria achar ou de como ia ser esta ligação. Mas agora, dando cara ao nome de cada caloiro e começando a ver que eles irão ter, de certo modo, uma evolução e que já a estão a ter desde a primeira semana, honestamente é um balanço super positivo. Chegarmos ao final de um dia e falarmos com eles e vermos que estão a gostar, que estão a rir, é bastante recompensador. 

L: O que gostariam que os caloiros levassem consigo desta semana?

BM: Acima de tudo, entusiasmo. A primeira semana foi claramente cansativa, todos nós sentimos isso, mas espero que tenham construído pelo menos os pilares para que isto possa ser a sua casa. Quero que continuem a respeitar aquilo que é a tradição académica e a praxe, mas que tenham vontade de cá estar. Nós recebemo-los de portas abertas e com todo o à-vontade. Eu, enquanto caloira, não senti necessariamente que a primeira semana me tivesse formado enquanto caloira ou futura doutora. Mas, olhando para trás, percebo que foi essencial. Espero que, mais tarde, eles também consigam olhar para trás e perceber que a primeira semana foi fundamental para aquilo que vieram a construir.

CR: Para mim são três coisas muito simples. A primeira é perceberem que vão existir momentos na praxe — tal como na nossa vida — em que não vão querer estar ali. Vão pensar “Isto é chato”, “Isto é exigente”, e ainda assim vão decidir ficar mais um minuto, depois mais outro, e quando derem por isso o dia acabou e conseguiram fazer aquilo. É o mesmo sentimento que temos em épocas de exames ou em alturas da vida em que não nos apetece fazer nada, mas persistimos. E acho que é isso que estou a aprender nesta primeira semana: posso não querer estar aqui, mas vou continuar porque vale a pena.

A segunda coisa é perceberem que nunca vão estar sozinhos. Especialmente neste curso, mesmo nos momentos de aflição, em que não queriam estar connosco ou em que alguma coisa foi demasiado vergonhosa, vai haver sempre alguém vestido de vermelho ao vosso lado. E, quando esses já não estiverem, vão ser as pessoas vestidas de preto — os nossos doutores — que estarão lá para vocês. Eu digo isto sabendo que estou no meu último ano: se for preciso, ligo aos doutores que me praxaram a pedir ajuda. E eles ajudam. Porque é isso que ensinamos aqui: esse nível de apoio. E a terceira é a nostalgia constante. Eles ainda não percebem isso, mas eu dava tudo para voltar a viver aquela primeira semana em que não sabia nada e não tinha nenhuma preocupação. Espero que daqui a seis meses ou daqui a um ano percebam que a vida passa num piscar de olhos e que têm de aproveitar cada momento enquanto ele existe. A primeira semana é uma primeira semana. A primeira semana enquanto doutor é outra primeira semana. E nunca é a mesma coisa. Isso vai acontecer com tudo o que vão viver ao longo deste ano. Por isso, deixem-se envolver pelas experiências e, mesmo que no final do dia tenham passado uma grande vergonha, tentem conseguir sacar uma boa gargalhada disso. A praxe não é só sobre autoridade. É sobre pessoas e é sobre divertirmo-nos.

L: Em termos de organização e logística das atividades da Comissão, qual foi a maior dificuldade encontrada até agora?

CR: Honestamente, não acho que tenha havido propriamente uma grande dificuldade. Nós somos pessoas bastante dinâmicas na forma como falamos e acho que o desafio passa mais por olhar para as atividades e perceber o que podemos inovar. Por exemplo, temos os nossos vogais de segundo ano, que foram caloiros no ano passado, e podemos perguntar-lhes: “Vocês tiveram esta atividade. Como é que se sentiram?” São as pessoas que tiveram a experiência mais recentemente e conseguem dizer-nos exatamente como a viveram. É um pouco esse balanço entre manter as tradições e inovar naquilo que tem de ser inovado. “Nós tivemos a praxe desta forma há uns anos, no ano passado foi assim. Faz sentido manter?” Acho que é uma coisa boa termos sempre de pensar nisso.

BM:  Eu também não estava propriamente a pensar em dificuldades. Quando nos candidatámos a este projeto já sabíamos que ia existir uma carga de trabalho considerável. E a primeira semana é particularmente intensa: temos de gerir caloiros, doutores, atividades, organização e até situações externas que acontecem e que também temos de gerir porque são da nossa responsabilidade. Por isso, tentamos sempre fazer um balanço entre aquilo que queremos e aquilo que gostámos, perceber a experiência de cada pessoa da Comissão e não só — também temos procurado recolher feedback, tanto de caloiros como de doutores, para termos uma visão mais abrangente e perceber qual é o equilíbrio que queremos. Uma coisa que nunca podemos deixar de lado é a tradição académica. Isso tem de ser preservado todos os anos, independentemente da Comissão, dos caloiros ou dos doutores. Mas podemos, ao mesmo tempo, perceber que pequenas mudanças podemos fazer e que podem ser positivas, e depois avaliar o feedback das próprias atividades. Afinal, ainda temos um ano inteiro pela frente.

L: Já que mencionaram o facto de a vossa Comissão não ser de continuidade, e posto que foram visíveis desde o primeiro dia as várias abordagens inovadoras que trouxeram — nomeadamente o funcionamento do sistema de faltas e a introdução do cancioneiro —, o que esteve na origem das mesmas?

BM: Eu sinto que também é um trabalho que tu vais vendo, devido à quantidade de anos e de tempo que já demos à praxe e com aquilo que fomos vendo. Se me perguntassem no ano passado, provavelmente ainda não tinha metade das ideias que tenho agora e que a própria Comissão, enquanto grupo, teve. E também é ver aquilo que as comissões passadas fizeram, cada um tem o seu modo, cada um vai vivendo e experienciando, e às vezes não é por não terem pensado numa ideia ou por não gostarem dela, mas se calhar não lhes ocorreu porque tinham outras prioridades. Mas, no fundo, foi um trabalho de perceber: “Do que é que nós gostamos? O que é que achamos que podemos melhorar?” E depois levar isso para discussão com toda a Comissão. Uma coisa muito positiva da Comissão é termos pessoas de vários grupos e de diferentes anos. Isso permite-nos perceber os diferentes entendimentos de cada um sobre o que é a praxe, porque eles próprios acabam por viver uma experiência um pouco diferente em todas estas vertentes. E depois tens o acumular de chegar na Comissão e ter essa representatividade, o que foi, no fundo, juntar todas estas experiências, perceber o que funcionou, o que podia ser melhorado e fazer um apanhado geral.  Também tivemos em consideração os ensinamentos e opiniões de Comissões anteriores, porque são pessoas que já estiveram no cargo e sabem o que trabalho implicado.

CR: Da minha parte, destacaria sobretudo o cancioneiro. Para quem já está na faculdade há pelo menos três anos, sempre foi uma coisa muito falada, o facto de não termos um hino da praxe. Depois das eleições, quando me juntei à Comissão, foi logo uma ideia muito assente de que precisávamos de criar alguma coisa que nos unisse enquanto comunidade praxística. Havia aquela situação típica de se cantar determinada música associada a um grupo e isso acaba por se tornar quase um hino. Nós sentimos que era crucial existir algo que nos unisse enquanto praxe, porque, apesar de a nossa praxe ser feita por grupos, continuamos todos a fazer parte da mesma praxe.  O cancioneiro surgiu muito nesse sentido: termos músicas que nos unissem e que todos pudéssemos cantar em conjunto, sentindo-nos parte da mesma coisa. E fico mesmo emocionada quando, de repente, alguém de um grupo aleatório puxa uma das músicas. Acho que é uma coisa que todos compreendemos. Apesar de nos conhecermos e estarmos todos dentro da mesma praxe, faltava aquela parte de união intrínseca, de todos perceberem que somos caloiros da mesma academia, doutores da mesma academia, apesar das personalidades distintas de cada grupo. 

L: O que gostariam que ficasse associado à passagem desta Comissão?

CR:  Acho que existe aquele entendimento geral de que, enquanto doutores, se chegarmos ao final do ano e os caloiros forem todos amigos, fizemos bem o nosso trabalho. Mas, para mim, há uma coisa que gostava mesmo que ficasse. Sendo este o meu último ano a praxar, e sabendo que me vai custar imenso deixar esta casa, gostava que os caloiros percebessem efetivamente a responsabilidade que é ser doutor na comunidade. Não é só vir para aqui existir. É passar valores, é perceber a honra que é introduzir pessoas novas ao teu espaço, à tua casa, à tua família. Inevitavelmente, quando passamos de caloiros para doutores, deixamos de ser apenas pessoas integradas na praxe e passamos a ser, de certa forma, a própria representação da praxe. Os caloiros não sabem necessariamente o que é a praxe: aprendem através de nós. Por isso, gostava que eles pegassem nos ensinamentos dos vários doutores e da Comissão e percebessem que isto não é algo adquirido. É algo que vão ganhando e reconhecendo dentro deles ao longo do ano. E que, para o ano, tenham aquela vontade de dizer: “No ano passado, eu tive doutores que tiveram a honra de me mostrar esta casa. Agora quero ter essa honra também com os meus caloiros.” Quero que, para além do amor que inevitavelmente vão criar pela família dos seus grupos e pela praxe, tenham também esse amor e reconhecimento pela tradição académica. Afinal, se eu tive praxe no meu primeiro ano, foi porque há 12 ou 13 anos alguém decidiu fazer praxe na nossa faculdade. São eles que vão carregar esse legado.

BM: Eu tinha duas coisas em mente e uma delas é exatamente essa. Desde que comecei a praxar que uma das coisas que sempre quis proporcionar aos meus caloiros foi a experiência que eu tive. Agora, estando numa posição de Comissão, quero que eles consigam ter aquilo que eu tive enquanto caloira, mas também que os doutores que começaram a praxar agora consigam ter essa experiência enquanto doutores. Se chegarmos ao final do ano e tivermos à nossa frente caloiros e doutores que consigam perceber tudo aquilo que a praxe significa, as relações que traz e o desenvolvimento pessoal que pode proporcionar — seja em trabalho de grupo, liderança, organização ou respeito pelo próximo — sinto que cumprimos a nossa missão. Porque, independentemente de sermos doutores e estarmos hierarquicamente acima dos caloiros, não deixamos de ter os princípios fundamentais e todo o respeito que eles têm e merecem ter por terem aceitado este desafio desde o início. E depois há uma questão mais específica da nossa praxe: perceber que somos muito focados nos grupos, mas que também é importante manter uma identidade da praxe da NOVA e perceber esse legado. Não quero necessariamente deixar um legado ou definir aquilo que cada pessoa tem de fazer. Mas, se eu puder deixar uma parte de mim e sair daqui sabendo que vou olhar para a minha praxe e continuar a pensar “É mesmo isto que eles aprenderam”, seja comigo, com outros doutores ou até com pessoas que aprenderam comigo, sinto que tivemos a nossa missão cumprida.

L: Têm alguma mensagem que queiram passar aos caloiros?

BM: Uma das mensagens que tenho tentado passar é: aproveitem ao máximo. Vocês nunca vão ter este ano outra vez. Cada ano tem um significado completamente diferente e, quando estiverem mais à frente e olharem para trás, vão perceber isso de outra forma. Eu olho para os meus quatro anos e sinto que, em cada momento, podia ter aproveitado ainda mais. Gostava de ter tido esta visão desde o início, porque provavelmente teria aproveitado muito mais experiências e desenvolvido ainda mais relações com pessoas.

CR: Eu diria para não se levarem tão a sério e para aproveitarem estes quatro anos para fazer tudo. A realidade se calhar só bate no terceiro ano, quando pensamos: “Daqui a dois anos estou no mundo do trabalho.” Estes são quatro anos em que podemos fazer tudo, podemos errar e podemos fazer porcaria. E, por muito que levemos porrada ao longo destes anos, seja pela licenciatura ou pela própria vida, temos uma margem enorme para experimentar. O meu pai foi uma das pessoas que me disse para ir à praxe quando eu era caloira e uma das coisas que me transmitiu foi precisamente isso: aproveitem esta casa da melhor forma possível. Metam-se em núcleos, escrevam coisas, vão à praxe, façam tudo e mais alguma coisa. Porque, quando derem por isso, está tudo a acabar. Não falo só da praxe. Falo mesmo desta casa. Pelo menos a mim, deu-me imenso, e tenho perfeita noção de que a pessoa que sou hoje é, em parte, resultado da praxe e das pessoas que fui conhecendo nas várias coisas em que me envolvi. É a altura em que podemos experimentar tudo. Podemos até sobrecarregar-nos com cinquenta mil coisas e não há problema nenhum em falhar. É isso que nos vai dar experiências e ferramentas que vamos levar connosco para o futuro. Não se levem a sério ao ponto de terem medo.

L: O que diriam a um caloiro que tenha ficado reticente chegando ao final da primeira semana?

BM: Eu acho que, acima de tudo, as coisas fazem-se e não precisamos de estar constantemente a stressar. O primeiro ano é muito novo e intenso. Não é necessariamente difícil por causa do curso ou da praxe — até porque, acreditem, às vezes enquanto doutor temos muito mais trabalho — mas, a nível pessoal, é sempre um novo desafio. Mudamos de casa, de cidade, começamos uma vida nova, temos novas responsabilidades. Muitas coisas pequenas acabam por parecer enormes porque tudo é novo. Mas vão perceber que, ao longo do tempo, as coisas se vão fazendo. Na praxe é um bocado o mesmo. Nós, enquanto Comissão, muitas vezes somos os primeiros a dar na cabeça e a ser rígidos, e se calhar até parecemos maus. Mas, como disse antes, vocês vão ter sempre um lugar seguro nesta casa, desde que exista respeito. E, se calhar, não gostaram tanto da primeira semana, deem uma segunda oportunidade. Vai haver praxes de que vão gostar mais e outras de que vão gostar menos. Algumas vão ter mais significado por razões que nem sequer têm diretamente a ver com a praxe, mas com as relações pessoais que vão criar. Eu própria hoje consigo perceber quais eram os meus limites, aquilo de que gostei mais e aquilo de que gostei menos, e isso também me moldou enquanto pessoa. Por isso, deem sempre uma segunda oportunidade às coisas.

CR: Para quem está com medo ou sentiu que a primeira semana não foi aquilo de que estava à espera, diria exatamente isso: deem uma segunda oportunidade. Nós vemos a quantidade de doutores que existem nesta comunidade e, por algum motivo, temos uma adesão muito grande de pessoas de vários anos. Nós as três estivemos ali há três anos, sentadas nas mesmas cadeiras e com os mesmos medos. Os doutores de terceiro ano estiveram lá há dois e os de segundo estiveram lá ainda há um. Acho que isso significa alguma coisa. Se fosse assim tão mau, não teríamos tanta gente a continuar. Por isso, deem-se a oportunidade de conhecer e experienciar. E, no final do dia, se perceberem que não é algo para vocês, ninguém vos vai crucificar por isso. Não vai ser por causa disso que vão deixar de ter o apoio das pessoas desta faculdade. Mas deem-se a oportunidade. Se nós amamos esta casa, por algum motivo é. E todos nós já estivemos exatamente no mesmo sítio em que vocês estão agora.

L: E, agora, a pergunta inevitável: praxar ou ser praxado?

CR: Eu gosto de praxar. Gostei muito de ser praxada e acho que foi isso que me deu o motivo para querer praxar. Mas há algo muito, muito bonito em chegar à primeira semana todos os anos e vê-los a não se conhecerem absolutamente de lado nenhum. Chegamos ao terceiro dia de praxe e já estão todos aos risinhos uns com os outros. Passado um mês, começamos a ver os melhores amigos a formar-se, os grupinhos a formar-se. E saber que nós tivemos um peso nisso, que fomos nós que proporcionamos um momento para eles se conhecerem desta forma, é, para mim, muito mais gratificante e imagino que, para os meus doutores, tenha sido exatamente a mesma coisa. Para mim é uma honra poder fazer isso pelos caloiros e sei que como caloira recebi essa honra e gostei muito e amei ter um nível de preocupação que eu não tinha na altura, mas acho que como doutora é uma mensagem muito mais bonita que nós temos de vê-los a crescer e é muito engraçado que parece que todos os anos há um rebranding, por exemplo, eu conheci o meu melhor amigo no meu primeiro ano e de repente começo a ver um conjunto de caloiros muito juntinhos e fico tipo “Ah sou eu e o Tiago Marques outra vez!” e eu acho que isso é a coisa mais bonita que temos na praxe, chegar ao final do ano e dizer “Tá feito”. Portanto, praxar de certeza.

BM: Eu não consigo responder, e eu vou dizer o porquê… é que já me fui fazendo essa pergunta várias vezes, e eu cheguei no segundo ano e disse “Ser praxada”, se calhar cheguei a um terceiro no início também ser praxada e no segundo semestre já “Praxar” e agora olho para trás e se calhar digo praxar, porque acho que depois cada pessoa tem as suas vertentes e cada ano é cada ano e a experiência é individual, mas eu adorei ser praxada, e já disse isto várias vezes, pagava outra vez para voltar ao meu primeiro ano, pagava para aproveitar ao máximo e muito mais do que aproveitei, pois eu sinto que aproveitei mas dava para aproveitar muito mais, como disse, as preocupações mínimas às vezes tiraram tempo e cabeça e se calhar estava lá em corpo mas o pensamento não estava, mas agora enquanto comissão, também é muito bonito conseguir ver que estava e portanto foi o que eu disse de proporcionar o que me foi proporcionado, então praxar se calhar agora faz mais sentido e também me faz sentido praxar ao lado das pessoas que estou a praxar. Isso também é um peso que eu sinto que é um dos essenciais porque se não tivesse as pessoas que eu tenho a praxar ao meu lado se calhar eu diria ser praxada outra vez, mas agora, chegando ao final da primeira semana e tendo visto e aproveitado e tendo experienciado o que experienciei enquanto comissão que me fez muito sentido e portanto diria praxar agora mas não é bem certo.



Comments


Deixa-nos uma mensagem, fala connosco!

Obrigado pela tua submissão!

© 2025 Jur.nal - Jornal Oficial dos Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

bottom of page