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Meio croquete para o caminho

Ele tem a boca entre parêntesis cada vez mais retos, as orelhas notavelmente à procura de uma boca que as fale, descoladas, livres, 

Senhor Jorge, era uma dose de Lampreia para levar.

e eu a querer ser ele, numa daquelas manhãs matinais em que o teu queixo caído e pintado me cochichasse a mim e só a mim mistérios que agora são de fé e sonho apenas, e depois andando de mãos dadas aos encontrões num caminho torto e um pequeno que nos farte de vergonha quando nos perguntar em som teatral no meio de um restaurante o que significa ontologia ou paneleiro.

Senhor Jorge, mas se não há Lampreia não faz mal, levo meia dose de peixe espada preto que até me enche mais.

Talvez com o bigode dos meus antepassados a fazer sombra não consiga ultrapassar este ar de seminarista perpétuo, com estas hastes italianas a arredondar-me as olheiras, não me permita mais do que de ti um olhar que partilha, nesse castanho meu deus, o nojo que temos e a curiosidade que inventamos ao ver um envelope gasto.

Se o senhor Jorge só tem atum, que seja atum.

Um sol de velho posto, isto nunca se sabe quando será a última vez, sou capaz de ter regado demasiado esta planta que tem um tronco com uma espessura bíblica e as folhas ali tão mimosas, e eu com esta cara passeando melancolias pelos canteiros, com esta cara nojenta de delegado sindical, com uma bronquite que não se decide (eu que nem fumava) e a ver na internet anúncios de jazigos com vista Tejo.

Senhor Jorge, então é só uma sopinha para levar e acabou-se.

eu que até já vivi são, num país cujo posto fronteiriço era o sorriso alcoviteiro da minha mãe, e agora as persianas escondem nos seus buraquinhos a cor laranja que a cidade tem de noite e na mesa de cabeceira um relógio mas digital de forma que dedico os fins de tarde a ouvir a minha própria barba crescer e depois vou logo para a cama às nove que é para as minhas insónias começarem mais cedo. De quando em vez liga-me a minha mãe o que é uma chatice na medida em que é má educação falar de boca cheia e sou obrigado a cuspir as pastilhas, as doze, e a perder a coragem, ainda que já não queira manhãs matinais nem plantas mimosas, apenas uma nespereira que respire devagar com um tronco leve e com vista Tejo.

Senhor Jorge, por favor, arranje-me pelo menos meio croquete para o caminho, que daqui para o cemitério ainda sou capaz de ter de ir a pé. 

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