Osteogénese imperfeita
- Carolina Cardoso
- Mar 24
- 2 min read
Os pecadores ao inferno pertencem, e os santos ao seu céu. O céu chora pela sua solidão e este chão perfura pacientemente a planta dos meus pés e o sal das marés que fluem como o tempo e ardem incessantemente pela minha carne exposta.
Tempo.
Eterno. Escasso. Flui como este mar que me tortura. As ondas calmas de um oceano de outrora, procuram agora revoltante conforto na costa hostil, para além de onde se estende a vida. A maldição de Cronos é a procura incessante da paz. A maldição da eternidade de uma vida que nem Santos, nem Pecadores, pediriam para ter.
A eternidade consome-me. Entra por mim dentro num projétil puro. A lei que perdura é esta. A obrigatoriedade de carregar o peso do corpo desfeito. Feito de rocha. Imóvel como montanha que suporta o caos nos ombros.
Nasci assim. Nasci Rocha. Sedimento que quebra com o bater das águas revoltadas que uivam perguntas e esperam respostas que não consigo dar.
E ainda assim caminho. Deixo que me esfolem por inteiro e exponho o músculo que tenho até que seja apenas osso.
Vejam, senhoras e senhores! Isto é Atlas nascido com osteogénese imperfeita. É nele em quem confiam a vossa vida. Os vossos segredos e sentimentos. As vossas preocupações, casas, empregos, a saúde e a doença. E a terra fica obesa de pecado, obesa de pedidos e abundante de responsabilidades. É nesta vértebra desfeita onde vêm descansar os moribundos, aqueles às portas da morte e os devedores em insolvência. Não é nada mais que pó e cinza, este esqueleto que vos segura. As súplicas que o vento leva, todos os favores e promessas cumpridas, são agora irrelevantes. O fardo é singular e corrói lentamente seus ossos de porcelana. As partículas que ficam, servirão para os adictos. Não basta moer o esqueleto até ao átomo. Há que o consumir por inteiro até que nada mais reste da sua existência. Quem foi, quem é, quem poderia ser. O mundo que é carrasco de si mesmo por executar quem o suporta, não conhecerá futuro. Caem Santos e Pecadores, Homens e Mulheres, Dia e Noite, Deuses e Demónios. O céu não existe, tem rachas por onde entra esta luz a que chamam de estrelas, que são na realidade réstias de labaredas que nos consumirão nesta calamidade. Cai um, caem dois, caem cem.
Os Deuses já não vos ouvem. Haveis morto Atlas sob o peso do mundo. Rocha oca. Ainda areia. Talvez um pouco de gratidão pudesse curar esta osteogénese imperfeita.
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