Uma Luta Armada entre Quem Amava e Quem é Hoje a minha Amada
- Anónimo
- 17 hours ago
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No mundo da Imaginação.
Há muito que não me volto para a prosa pelo seu próprio propósito, nem me dedico à pseudopsicologia que é a psicanálise dos sonhos.
Mas estou, de momento, assombrado.
Vejo Amava, estamos de volta a Lisboa, ela nas suas vestes pretas da moda costume. Vemo-nos outra vez para nos vermos outra vez, aquilo a que chamamos matar saudades. Em casa dela, algo agora, por meio da magia onírica, grande, um T mais que 0 em Lisboa, com um quarto de cama dupla.
Mero carinho platónico, no início.
Dormimos juntos, e eu, comovido por genuíno afeto, dou-lhe um beijo na bochecha. Esta mulher, que nunca me olhara duas vezes senão para me expressar pura camaradagem fraterna, ri-se agora e, na voz do desejo “Para quê ser tímido agora?”
Amada ensinou-me a amar. Carregou ela essa obra, esse fardo, e talvez seja isto mera arrogância masculina, mas tal dedicação faz-te pensar que agora saberias amar qualquer pessoa. Agora, poderias voltar ao passado, e seduzir certo, beijar bem, coitar corretamente. Saber que é possível ser amado por um Humano traduz-se em achar que toda a Humanidade te pode amar.
Esqueces-te, claro, que Amada é uma das pessoas mais bondosas, leais e pacientes que a Humanidade já pariu. Os impulsos animais do Id cospem-lhe.
E ali, naquele impasse, naquele confronto entre o meu passado desejo e a minha presente paixão, o meu pau responde por si, e fica só a questão de se, mais acima, os meus lábios se aproximarão daqueles dentes que sorriem.
Claro que sim.
Fantasias durante anos chocadas, a textura dos seus lábios um eterno mistério, seios que sempre foram olhados, com respeito mal contido, agora palpáveis, todo um corpo cabendo nos meus braços, a dita eclosão.
Mas rápido a fantasia fracassa, porque o sonho é uma luta entre o correto e o pecado. As minhas mãos não são dela como são da Amada. Os traços que desenho pela vulva, esse duo de piano, não a tremem facilmente de uma ponta à outra. Nada disto soa a música para os meus ouvidos. A voz de quem amo ecoa-me na memória, agora uma triste paródia nas cordas de quem tenho na cama.
Ela seca.
Acaba tudo, a certa hora, não quando sentimos que é certo, mas quando sentimos que é errado demais continuar. Ela sorri, agora mais parecida a uma anarquista, o cabelo pintado de azul, roupa nada preta, alguém irreconhecível de quem Amava e de quem é agora a minha Amada, e diz-me, em conforto falso de si e de mim: “Sabes, é raro foder com alguém. Geralmente, tenho de as tornar não-pessoas na minha cabeça primeiro…” Em tom suposto de quem quer sugerir que não me enquadro em tal situação, mas cujo real tom diz que sim. Que estamos todos fodidos.
O quarto é agora uma sala, estamos em pontas oposta de um sofá, na TV passam estórias de terror, umas a que chamamos notícias, outras a que chamamos palhaços e assassinos, e monstros com tentáculos e sem alma. E na minha, tudo o que me passa é o que é o que é que eu fiz estraguei tudo com quem é a minha Amada seu monstro sua besta seu absoluto – mas talvez haja forma de resolver tudo, talvez, e aqui eu acordo no mundo real, naquele estado em que o sonho ainda se apodera de mim, me consegue arrancar de volta para o seu mundo por vezes, e, mesmo quando acordo dormitante, continuo dentro do poder lógico dele, e penso, há forma de resolver isto de forma alguma?
Mentir-lhe?
Dizer-lhe a verdade, aceitar que está tudo perdido?
Talvez mentir-lhe seja o melhor, eticamente o que alguém não sabe não o magoa. Mas eu não consigo mais viver comigo com ela, assim. O que era um amor quase-perfeito encontrava-se agora irremediavelmente partido.
No sonho, eu e Amava olhamos um para o outro, sem qualquer expressão de afeto, ou nojo sequer. Só os olhos mostram um medo do vazio. As paredes brancas à nossa volta contêm todo o interesse do universo, que se revelara agora, desprovido de valor. Na televisão, um bebé chorava, na porta do lado, um bebé entrava, e chorava e chorava e chorava, caminhava na direção do sofá, e nós sem olhar para ele, a sala era um megafone de uma birra, o que fazer, o que fazer, como sair daqui, como sair dos infernos em que nos metemos, como pararmos de ser tão estupidamente falíveis, como posso compensar a minha Amada por tamanha descompostura, e enquanto os choros aumentavam e rompiam, a única clara ideia que se cristalizava era de que
Não havia nada a fazer. Traí-a para nada, e nada a traria de volta.
Acordei do sonho com ela nos meus braços, como sempre dormirmos hoje em dia. O sonho despossou-se-me. Ela abria os olhos de vez em quando. Abracei-a com força. Disse que tinha tido um sonho mau, em que a tinha perdido.
Que fique que a traição é uma criança sem aborto.
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