Não digas à tua mãe, dizias
- André Peixoto Pereira
- 3 days ago
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Dá-me a sensação, não sei, ainda estou naquela fase em que ainda negoceio a minha infância comigo mesmo, Dá-me a sensação que o paleolítico já não é como antigamente, aliás nada é como antigamente. O antigamente é uma espécie de Éden muito diferente do que é agora
(na altura o Éden era melhor e, já não me lembro bem, mas dá-me a sensação que nesse paraíso a Eva nem a maçã mordia, e as cobras até eram lagartixas)
onde os meus meniscos nem existiam e o meu corpo,
- Sabes?
quando eu era mais novo nem dava por ele e agora ele é mais que eu e a meteorologia não a sentia nas articulações. E agora
- Sabes, palavra, dá-me a sensação que a calçada portuguesa é uma puta. Sempre a rasteirar os andarilhos das nossas velhas.
até a calçada, e é que antigamente estavas cá e lá ia eu de tarde correndo para aquele segundo andar sem elevador que cheirava sempre a sopa e a humidade a fazer um bordado aos tetos quase imperfeito com que se media as saudades que tínhamos da primavera, a fechadura da porta à altura da minha cabeça, e depois dos meus ombros e depois já não sei porque deixei de medir. Os degraus ultrapassando-se uns aos outros com a percussão dos meus calcanhares interrompidos por um teu
- Quem vem aí?
E era sempre eu que vinha aí e agora,
(palavra que invejo esse tempo que não é agora)
nem com os óculos te deixaram ficar, nem com a tua bata e aquele quadriculado em brumas de azul cor daquele mar que de noite uma lua às escamazinhas que se mexe, mas sempre no mesmo sítio
(vai-se andando, não é mesmo?)
e os bolsos dessa bata onde nasciam os chocolates mais doces
- Não digas à tua mãe, dizias tu como se fosse eu a pedir-me isso a mim mesmo pela tua voz
e onde jaziam os papeis de rebuçados. E depois os caules das tuas mãos de viúva a arranharem-me a nuca de carinho. E agora quem é que reza por mim? As mezinhas? Ainda por cima agora que me começaram a nascer dores nas costas e nem te deixaram levar a tua bata
(e o terço com que algemavas os pulsos antes do lanche)
palavra que agora os chocolates nem os como, já bem gosto deles, são só uma hortaliça com memória e a noite, que não sei se chegaste a reparar, mas começa sempre lá no fundo, agora vou para a cama às nove para que as insónias me comecem mais cedo e pelas quatro da manhã, pelas cinco, olhando para o despertador a comer-me os segundos como não comia antigamente e com este meu bigode a tremer equilibrado num sorriso raro, e agora de noite
(antigamente era diferente, palavra)
são quatro da manhã e juro que não sinto a tua falta, não sinto falta de quando a ternura em pequeno me beliscava as bochechas, dos beijos cheios de carne, da minha cara, tão linda, limpa nos pormenores pelo teu dedo enxugado, das tuas amigas que cheiravam todas a água de colónia e que competiam contigo na missa das seis para ver quem rezava melhor o Pai Nosso e que me dá a sensação que se chamavam todas Lurdes.
Naquela fotografia onde aparecias com um senhor muito homem, alto e com aquele olhar que os mortos têm nas fotografias e que, presos numa moldura, parecem ter sempre qualquer coisa para nos dizer, mais ou menos da minha idade agora se eu usasse gravata, ele e como que nos sentimentos que eu não sabia porque era criança e ainda me estava a habituar a mim
- Sabes, tenho tantas saudades dele
e eu a ouvir aquela tua boca aberta, e a úvula uma gota de lágrima ao fundo da boca, e o teu quarto era quente, eu sei, porque as janelas transpiravam humidades sem panos que as contivessem e para que serve um pai senão para nos ensinar a perdê-lo? Como uma mãe serve para nos obrigar a camisolas mais grossas. E nem com a bata te deixaram ficar. E eu cheio de vergonha, calado, entretido a tomar comprimidos e um senhor, um senhor ali que eu não conhecia a desabar-se, e com os olhos aumentados pelo desgosto que deixava escorrer pela cara, porque a emoção tem tantas dioptrias, não é? E eu agora, naquela minha cólera sabor morando daquele batom que me dá às pupilas, que eu acreditava já baças, apetite de cão de rua. Eu não a queria ela a ela, queria só a sensação daquele nervoso tímido, quase encarnado, com que aceitas sem gosto o meu humor veloz de homem branco
(já não me lembro se ela era bonita quando a conheci)
e que me dê maior entretém que ir engolindo estas cápsulas, que antigamente havia tanto para eu brincar, e a culpa de te usar agora, de te inventar para isto, à espera que ao menos chegue um vento que faça parecer aos plátanos onde te encostavas, um vento que faça os plátanos fazer-me uma vénia
(venlafaxina, dulxetina)
e que as dores no joelho sejam de cair na calçada
- Antigamente a calçada não era tão puta, palavra.
(amitripltina, ariprazol)
e um joelho esfolado eu que nunca fui assim, que nem nunca gostei de chocolate, e que nem sei se tenho útero para que regressar num sono quente e com certezas
(tenho voz de pai antigo, sou arrogante e tenho-me em muito boa conta. Escitalopram.)
mas antigamente, antigamente era bom, melhor
(tenho que aprender a fazer nós como deve ser)
e fui tentando e não conseguindo, mas ei de conseguir, nem que seja de pesado, que o plátano onde eu escolher ficar me faça, sem vento só eu, uma vénia, agora.
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