Pensamentos poucos
- Anónimo
- 1 hour ago
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Sentava-me num banco no parque quando um velhinho se sentou ao meu lado. Tinha-o visto antes pelas ruas, cruzávamos olhares e sorríamos. O mundo moderno é desconfiado demais, sempre à procura de violadores, pedófilos e homicidas em cada esquina. É bom conhecermos estranhos. É bom abrir a alma.
Trocámos nomes, idades, vidas. O velhinho chamava-se Vicente, 85 anos, vivia ao redor da esquina; a vida toda nesta cidade. Os pássaros cantavam. Ele deu-me a mão, como os velhinhos por vezes dão quando já não têm a quem dar. Aceitei, de bom grado. Nunca tive um avô. Acho que o meu pai tem vergonha de existir. Foi bom fingir, por uns segundos. Mas. Ele acariciou-me a mão. Não - a uma carícia sem carinho chamamos esfregar. Esfregou-me a mão toda, como os velhinhos por vezes fazem quando já não sabem falar, e só entendem o toque para comunicar. Ele perguntou se gostava. Não respondi. Ridículo. Perguntei-lhe se tinha mulher, ele disse que sim, mas apontou para o pénis e disse que já não dava. Quando me perguntou a idade, e lhe respondi 23, ele perguntou se também eram 23 no meu pau. Não são. Meteu a minha mão na coxa dele, fiz força. Este homem estendeu a dele e apalpou o meu pau.
Ela sempre me disse que tinha um corpo lindo. Aceitava o elogio. É uma constatação incontestável: ela achava o meu corpo lindo, mas não era mais profundo que isso. Era ao mesmo nível que dizer que gostava dos brincos dela: um pormenor. Quando passas pela puberdade sem sexo, sem ser desejado, treinas o teu corpo, ano após ano após nada, a esquecer-se de si mesmo. As mulheres nunca se podem esquecer dos seus corpos, curvas frágeis de porcelana. Curvas partidas. Nós, homens, temos o privilégio coletivo solitário de existir enquanto cabeças, que por acaso estão ligadas a nervos, a veias, a membros – meros veículos da nossa personalidade. Um apego ao corpo tem de ser ensinado de uma forma ou outra. Tens de o amar, ter quem to ame, quando ainda é cedo para aprender a amar, ou tens quem to destruam de tal forma, que aprendes o valor de ter muralhas e movimentos políticos. Os nossos avôs violaram todas as nossas avós. Nunca me tive antes de proteger de um avô. Ela deixou um vazio quando a deixei partir, e pensei:
Podia permitir. Eu prostituto deste pederasta. Todos os homens que beijei, beijei por aborrecimento, e porque, se eles me queriam, quem era eu para contestar? Ela foi a primeira pessoa que beijei com carinho. O abismo chama sempre - é preciso reconhecer que o abismo é metade da existência e que por vezes chama por nós para nos fazer acordar para o poder destrutivo que possuímos. Podemos matar quem quisermos, especialmente nós próprios; fumar pedra; foder um tipo com mais de sessenta e dois anos que nós, que nos está a apalpar a pila.
Os instintos reagiram. Lentamente, como todo o meu corpo é. Afastei a mão, e disse “por favor, não”. Levantei-me, disse que tinha de ir, e disse adeus. Pensei que havia algo de poético na interação; que ia escrever sobre isto com leve satisfação e orgulho de propósito. No supermercado, peguei no que precisava, sem saber bem do que precisava, na caixa comecei a parar de respirar. Não sei porquê, já passou. A puta da poesia, é por causa dela. Odeio ser prosaico, esta praga de monotonia vazia, este almejar a algo superior. Não há nada de bonito neste texto porque o meu amor à poesia é não-correspondido. Parti-lhes o coração. A todos.
Ainda sinto o meu pénis, os meus testículos, doridos. A mão dele. Como se me tivesse esmagado. Se o vir outra vez,
Eu vou matar este cabrão.
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