Rendez-vous
- Anónimo
- Dec 4, 2025
- 2 min read
Por vezes sou mais calada e não falo muito.
Não digo muito. Mas tenho muito para te dizer, Amor.
Hei de escrever sobre tudo, Amor.
Ouvir o que tens sentido e transformá-lo em texto,
Que a minha ternura nunca teve pretexto.
O coração não dorme nem come, não vai às análises, o coração não gosta que lhe espetem agulhas e lhe tirem o sangue. O coração não gosta de ser dissecado, porque tem medo de laivos de vulnerabilidade. O coração esconde-se de eletrocardiogramas, porque sabe que a medicina moderna não o compreenderia.
O meu coração apanha o comboio em hora de ponta, senta-se na paragem do autocarro e espera que o venham buscar. O coração encosta-se ao mar e dá-te beijos enquanto olha para ele, Amor. O coração faz malabarismos, faz o pino e o mortal para te ter, Amor. O coração poderia ganhar o salto em altura mas cair desastradamente depois de te ver. O coração vive embebido numa ressaca emocional em função constante, vive em café, paracetamol e cigarros, de vez em quando sofre uma descarga elétrica que o põe a trabalhar.
O coração encosta-se agora às entrelinhas do que escrevo e respira, com medo de que o abandones, Amor.
Hoje em dia tudo é sobre ti, Amor. E quando não é, é sobre a tua ausência. Todos escrevem sobre todos os sentimentos do mundo, para que todos se possam identificar com as palavras.
Deixemos o coração descansar, Amor. Deixemo-lo ser apático e vagaroso sem se tornar errático. Deixemo-lo num interstício, que eu hei de voltar para o ir buscar.
O coração vira rendez-vous da saudade. Divide e multiplica a sua substância, expande, contrai, parou, acabou. Não sei se depois de morrer ainda cá volto, por isso deixa-me amar enquanto posso.
Deixa-me amar(-te), Amor, enquanto posso.
_edited.png)
Comments