Uma pétala que fosse
Há espinhos que se aparentam rosas. Levanto a cabeça e vejo-a no espelho, óculos arredondando as olheiras
(são cinco da manhã e juro que não sinto a tua falta)
a barba picada por fazer e uma noite sempre acompanhado pelo roncar dos motores do frigorífico, a lua ainda estava cheia de olheiras de modo que tornei a abraçar-me aos cobertores
(sou do tamanho da tua ausência)
e porquê uma rosa, porquê as pétalas me fugindo das mãos e a só sobrarem espinhos, espinhos que me passeiam a mão, a alma.
Talvez seja melhor assim, como Dante por Beatriz, mas agora eu o próprio inferno e tu paraíso e se eu tiver que o merecer que seja, um sísifo feliz
(sou do tamanho da tua ausência)
São cinco da manhã e os prédios deixam de ser tão enxutos, perdem a tinta laranja que a noite de cidade lhes dá, os prédios onde o resto do céu se esconde. São cinco da manhã e eu não sou que chegue. Sempre pouco e insuficiente para tudo o que quero.
Talvez seja melhor assim, já são quase seis e o sono ainda não me fez cair de bruços naquela espécie de útero materno, a cova de uma cama numa noite fria. E se o paraíso para o ser terá que o ser sem mim, espero que o seja. Revoltado, injustiçado
(amuado com Deus)
para que serve tudo isso?
(são cinco da manhã e eu só sinto a tua falta)
e de esses espinhos rosa mais bela, eu que os engoliria para salvar uma pétala que fosse e mesmo assim serão cinco da manhã e eu do tamanho da tua ausência.
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