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  • 1, 2, 3...

    1,2,3…1,2,3…1,2,3… Conto os passos que dou sem tocar as cores distintas que estão na calçada, um hábito que nasceu em mim desde pequena, acho que já todos o fizemos… As pessoas passam por mim com pressa, às vezes também sou como elas , na verdade, também deveria andar mais depressa… “Olá” A minha pele contrai  e sei que as minhas bochechas devem estar mais vermelhas, está frio , e as minhas mãos também são prova disso, nunca as senti tão frias como agora... “Olá!”  Sim… deveria acelerar o passo , vou perder o autocarro , mas…Não quero voltar para casa, não, não tão cedo. “Estou a falar contigo” 1,2,3…1,2,3… Retorno ao jogo até chegar ao fim da calçada e começar a descer as escadas. 1,2…1,2…1,2… Um pé em cada degrau até chegar à paragem do metro. Aqui está mais quente, também há mais gente, sim, sem dúvida mais gente , mas ninguém parece se importar muito com isso, estão todos tão perdidos…como eu… E eu sinto-a respirar no meu pescoço  e retorno a olhar para o chão, o ruído dos carris faz-se ouvir, os corpos juntam-se mais e, em uma disputa ridícula, enfiam-se como sardinhas enlatadas no metro. “Vais mesmo me ignorar-me?” Uma…duas…três  paragens é o que leva até ao meu destino e o processo repete-se. 1,2…1,2…2,3,1…1,2,3… Sinto o meu rosto molhado e quando vou a ver o chão está molhado e as pessoas correm, correm para não se deixarem molhar, e eu ando, ando sem pressa, sentindo aquela presença  que nunca me abandona atrás de mim. O relógio no meu pulso diz-me que há horas que o meu autocarro se foi, suspiro e vejo a pequena nuvem se formar diante os meus lábios. Agora são mais 30 minutos à espera. À espera de algo que não queria esperar. “Sempre podes ficar” Sinto a garganta queimar com o fumo que agora me preenche os pulmões. Pulmões que a cada dia que passa mais obscuros ficam…consequências de um vício…assim como a brincadeira da calçada, não sei muito bem quando surgiu. + 15 minutos, + 15 minutos e estou em casa… + 15 minutos… Não queria que faltasse tão pouco, mas não queria senti-la atrás de mim… ela está sempre aqui …à minha espera… E aqui vamos nós outra vez…  1,2,3…1,2,3… 1,2,3  carros vermelhos que passam na rua “mas diz-me uma coisa, porque é que não queres falar comigo?” + 5 minutos… Já há mais gente na minha paragem, e já vou no meu terceiro cigarro e eu continuo sem querer entrar neste autocarro… As minhas mãos continuam frias e a chuva continua. E esta presença continua aqui atras de mim. + 1 minuto… O autocarro está aqui, as pessoas começam a entrar. “Sabes que nunca é tarde de mais para desistir?” Um sorriso se forma nos meus lábios quando cumprimento o senhor do autocarro. “Antes ir para casa do que estar aqui contigo” Penso para mim mesma enquanto me sento a olhar pela janela  a ver a minha companheira de viagem do outro lado da paragem. “Sabes que amanhã vou estar aqui…” “Sim… mas pelo menos hoje ficas por aí”

  • Por um ensino que ensine

    As universidades, enquanto sistemas de ensino, são uma piada de mau gosto: eu tinha melhor ensino na creche. Não nos enganemos, a Nova School of Law é das melhores faculdades do país: bem falada, bem vista, boas oportunidades para quem cá passa. Mas tudo isso deriva da sua reputação, uma mistura poderosa entre um bom marketing e excelentes conexões, fatores em que nada relevam para as condições pedagógicas da instituição. Para os que cá chegam, ainda por cima, por sua escolha, talvez o maior choque, depois de tão bem ouvir falar da virtude do ensino superior, seja ser confrontado com o desinteresse em ensinar pela maior parte do corpo docente. Em contraste com os professores que os acompanharam por 12 anos, que tinham como objetivo principal, pois, ensinar, são agora confrontados com políticos, advogados societários, e investigadores, que encaram as aulas como um passatempo com o qual não vale a pena passar muito tempo. Se algum dos problemas que daqui surgem são óbvios, como atrasos em entregar exames e responder a mails , há um em particular, mais subtil, e muito mais insidioso: as aulas são uma seca do caralho.  Chegando às primeiras aulas, os alunos categorizam as cadeiras rapidamente entre “vale a pena ir”, e “não vale a pena ir”. Muitas caem na segunda categoria, especialmente se não houver avaliação contínua. As opcionais em particular – na qual se incluem a boa parte das cadeiras multidisciplinares, marco da nossa instituição – tornam-se desertos a meio do semestre. Os estudantes estudam, por si só, por sebentas e manuais, em bibliotecas e salas de estudo, longe das aulas, longe dos professores.  As propinas pagam-se pelo privilégio de fazer os exames. “O futuro está na tua cabeça”, pois, porque é só com a nossa própria cabeça que podemos contar.  O lado positivo, é que nada disto é irremediável. Há excelentes professores nesta faculdade – 3 ou 4, mas há – que, com as suas capacidades, me incutiram interesse e até paixão por várias áreas do Direito – o ideal platónico do que o ensino deveria ser. Eles têm a minha eterna gratidão, e preveniram-me de cair na completa descrença quanto à classe docente. E, também felizmente, a Nova, enquanto faculdade, é perfeitamente banal nos seus problemas: a falta de um bom ensino no ensino superior assola todo o Portugal. Ouvimos histórias de terror de outros reinos, de absolutos tiranos, desde os que se orgulham de ensinar mal, se orgulham de não dar boas notas, se orgulham de assediar estudantes. Para as críticas que cá teço, seriam piores para outras instituições, mas acredito piamente que provêm das mesmas causas – uma falta de visão crítica quanto à pedagogia do ensino superior, em que os docentes são, primeiro doutores, e só muito depois, professores.  A solução passa por um repensar do ensino superior. Passa por uma reformulação do sistema de tenure , que torna os catedráticos, para todos os efeitos, intocáveis. Passa por uma separação do investigador, do professor, criando um docente que seja versado na pedagogia. Passa pela inspeção, como se faz nos restantes níveis de ensino, das aulas, e da avaliação estatal da qualidade do ensino.  Com estas, e outras opções, talvez, um dia, a universidade seja uma escola.  Até lá, vemo-nos na biblioteca.

  • No outro dia foi dia da mulher

    No outro dia foi dia da mulher. A minha mãe estava stressada. Tínhamos de ligar à avó. ⁃ Mas porquê mamã? - perguntei eu. ⁃ Porque é mulher. - responde-me ela.  E eu interrogo-me porque não tem também ela tanta pressa para ligar à avó quando são as eleições e a vovó teima em insistir que não vota. Afinal, isso são coisas de que trata o avô.  No outro dia foi dia da mulher. Fui ao centro comercial e vi filas e filas à porta das lojas e perguntei à minha mãe: ⁃ O que está a acontecer? ⁃ Estão a dar kits de ofertas! - responde-me ela. ⁃ Porquê? - perguntei eu.  ⁃ Porque somos mulheres - diz, enquanto nos conduz para a fila . E eu pergunto-me se não são estas mesmas empresas, hoje a dar “presentes”, que ainda não pagam a cada uma destas senhoras que está na fila aquilo que pagariam a um homem pelo mesmo trabalho?  No outro dia foi dia da mulher.  À hora de jantar era o papa que vestia o avental e eu espantada gritei: ⁃ Mamã, hoje não és tu a cozinhar? ⁃ Não filha, hoje é o teu pai a fazer tudo! ⁃ Mas porque mamã? ⁃ Porque é dia da mulher! Na verdade, o que queria mesmo saber é o porquê de nunca antes o ter visto de avental, de esfregona ou de esfregão? Como é que alguém em pleno 2025 ainda se derrete com um gesto tão banal quanto a simples divisão de tarefas? No outro dia foi dia da mulher. E eu juro que não sou contra o dia da mulher, só gostava que a sociedade deixasse de o superficializar com presentinhos e flores, e passasse a encará-lo como um dia para homenagear a luta travada pelas nossas ascendentes, em prol dos direitos das mulheres, e acentuar o longo caminho que ainda falta percorrer rumo à paridade.  -Sissi, 9 de março de 2025

  • Os ecos do destino

    No campo da ilusão, o farol apagado, O líder da causa sem causa, caminha perdido, E a sua voz ecoa, mas não é de facto a verdade, Mas uma sombra de promessas, num futuro esquecido. O peso das palavras cai como rendas dobradas, Em casas de sonhos que o vento levou, Onde a grandeza não é mais que fachadas, E o reflexo do ouro é apenas o que restou. Entre discursos, o eco ressoa, mais lento, Na cidade onde a esperança é moeda perdida, Tomam as promessas, com um riso impetuoso, Mas só quem pode pagar é quem tem a vida garantida. O tempo encolhe como um fio de veludo, Cortado, repensado, sem mais noções claras, As esperanças dos outros ficam no fundo do escuro, E o peso do relógio, este é o valor das caras. Quem tem o poder diz o que não sente, Desenrolando um futuro onde o "nós" é um só, Entre a rendição e a luta, quem mente, Torna-se aquele que ao fim do dia ficou só

  • Desculpa, Florbela

    Desculpa, Florbela, que hoje escrevo em vão, Que hoje me perco na sombra e na fala, Que faço das letras um pobre refrão, Cantado sem voz, sem alma, sem gala. Há quem se esconda por medo ou por glória, Há quem se erga sem nunca cair, E há quem se perca, na própria memória, E escreva sem nunca se ouvir. Aqui se grita sem ter quem escute, Aqui se cala quem pensa demais, E os que se vestem de penas e luto, São os mesmos que lançam punhais. Falam de tudo, mas dizem tão pouco, Enchem-se em rimas de um falso saber, Erguem-se altos num palco já oco, Lutando por glória sem nunca a ter. De um lado, a pose que nada revela, O grito vestido de grande opressor. Do outro, o espelho que mente e se quebra, E finge que é justo, mas só é rancor. Falam sem medo, mas falam de lado, Escondem-se todos na voz de ninguém, E quando se veem no espelho rasgado, Culpam o vidro, mas nunca o que têm. A voz que se esconde na voz dos demais, Que julga tão alto sem nunca pensar, Que ri de um verso que jaz nos umbrais, Que esmaga a verdade sem a escutar. Ai, deixa-os, vida, dançar sem sentido, Vazios de causa, de alma, de paz, Que um dia a brisa, tão fria, tão lenta, Apague estas vozes que falam demais.

  • Desculpa, Saramago

    Desculpa, Saramago Há um fenómeno curioso que ocorre quando alguém decide imitar Saramago: a coragem cresce exponencialmente! O problema é que o mestre não é imitado com pontuação arbitrária ou palavras inventadas, ele é homenageado pela profundidade, pela humanidade, por aquela capacidade única de transformar a simplicidade do quotidiano em literatura eterna. Já o que vemos aqui é outra coisa. É como tentar tocar uma sonata de Chopin com panelas e colheres de pau: faz barulho, mas não é música. Porque se o verdadeiro Saramago nos ensinou a questionar o mundo com elegância e irreverência, estas tentativas de imitação só nos ensinam que a combinação de pretensão e erros ortográficos não é uma fórmula de sucesso. E convenhamos: há uma certa ironia em usar palavras caras para criticar quem, na verdade, só incomoda por existir – e por usar botões de punho, claro. Porque não há pecado maior neste mundo do que o crime de parecer próspero aos olhos de quem só vê rótulos. Não se enganem: a indignação aqui não é genuína. É um espetáculo, com direito a neologismos mal paridos e metáforas que caem dos saltos antes de chegar ao ponto. O que importa não é a verdade, mas sim a pose. A pose de quem se julga o arauto da moralidade, enquanto empilha preconceitos com a leveza de quem nunca precisou de carregar uma ideia original. É que, vê-se bem, que é um profundo conhecedor da vida de todos os seus colegas, o seu diploma de Ciências do Preconceito com ênfase em Generalizações fala por si. Quem dera que o Mohamed pudesse oferecer boleia à sua humildade que anda sempre a pé e bem longe da verdade. No fundo, a verdadeira questão não é sobre casacos, carros ou estágios de verão. É sobre como nos esquecemos de que as pessoas são mais do que a superfície que mostram. Sobre como é perigoso reduzir vidas complexas a caricaturas para alimentar uma narrativa pré-fabricada. Sobre como é insensato apontar o dedo a quem segura uma taça de vinho, sem perceber que o conteúdo da garrafa é que revela o seu verdadeiro valor. E sobre como a crítica mais válida não vem de quem grita mais alto, mas de quem se dá ao trabalho de ouvir antes de falar. A lição? Quem tenta ser Saramago nunca "serão-no". E quem o faz… bem, "se-lô-ão" apenas na mente de quem confunde arrogância com arte

  • Devaneios gregos

    Está inerente à natureza humana querer amar e ser amado. Mas será o mais importante? Talvez subestimamos demasiado a arte de ser entendido completamente, a arte de não ter de pedir, a arte de antecipar o que a outra pessoa possa querer ou precisar. A procura por uma conexão genuína nem sempre passa por amor, este pode ser um sentimento passageiro, supérfluo ou ininteligível. O desejo de ser compreendido parece um sonho. Talvez o amor seja escolher a mesma pessoa todos os dias, enquanto ser compreendido aparenta ser um processo inconsciente. Mesmo se me esforçar muito, talvez nunca seja possível compreender algumas pessoas na sua íntegra enquanto haverá outras que compreender como a mente delas funciona será tão simples como respirar.  Já eu temo que nunca vá ser compreendida completamente, especialmente os meus devaneios sobre mitologia grega e como cada mito tinha um significado tão marcante. Por mais que te tentasse explicar, nunca percebeste porque é que Orfeu olhou para trás quando não devia, preocupado com Eurídice, a ver se ela estava bem, se estava lá sequer e não tinha sido enganado por Hades, sendo apenas uma aparição das divindades infernais. Afinal, andaram pelo submundo perigoso durante dias e Orfeu olhou para trás por amor. Tentei explicar-te que um Orfeu que não olhasse para trás, era um Orfeu que não arriscaria ir ao submundo por ela. Tu só fingiste que percebeste. “Lá vai lá com outra teoria destas coisas dos gregos”, deves ter pensado. Enquanto eu só queria perceber se olharias para trás, se irias sequer ao submundo por mim. Ficou inconclusivo. No final, o nosso tempo juntos chegou ao seu fim, como que por desígnio dos Deuses, não pude fazer nada para alterar o final da nossa história, as Moiras já tinham tecido os fios do nosso destino. Prontamente, tornaste-te num Odysseus que foi lutar guerras sem sentido e procurar mil aventuras, mas eu não podia ser a Penélope que ficaria 10 anos à espera do teu retorno, se esse sequer acontecesse. Afinal, tu não és um herói grego, eu não sou rainha de Ítaca, e tu não sobreviverias à primeira batalha e, muito menos resistirias à sedução da ninfa Calipso. Talvez fosse esse o problema connosco. Eu era uma Penélope para ti, até me mostrares que nunca serias o personagem principal de uma epopeia de Homero, pois nada em ti é épico ou especial e apenas te fiz herói no oásis do meu lamento. Vais continuar nas tuas aventuras, enquanto eu saro as feridas com as quais não ficaste. Compões a tua própria compilação de feitos extraordinários, já que ninguém a escreveria por ti. Tentas enganar o destino e a ti mesmo que estás reservado para uma vida grandiosa. Logo, chegará a hora em que te apercebes que és um Ícaro que estava tão convencido que podia voar além do Tejo, que foi demasiado alto e acabou queimado pelo Sol. Vais atrás de cabelos loiros que te parecem irradiar raios de luz, mas vais acabar sozinho no chão com todos os teus sonhos incinerados da mesma forma, por não saberes o que queres e destruires tudo o que tocas. Midas transformava tudo em ouro, mas a tua maldição é tornares inocência em mágoa, lágrimas e pó. É esse, afinal, o teu destino trágico e não uma aventura digna de epopeia.

  • Desculpa Sophia

    Com um casaco azul simpático, É que oh papá os botões de punho que me ofereceste não me assentam no corte do outro blazer, os sapatos são castanhos e não de marca porque foram feitos à medida. E o raio do carro que eu pedi, do condutor, raios do Mohamed reclama ele três vezes, nunca mais chega E se eu chego outra vez atrasado à equitação é que é o cargo dos trabalhos. Se tivesses pedido o Uber Black, ele já não era black e se calhar vinha mais rápido, diz a mulher consorte aquela filha da puta a gasóleo. É que ainda por cima coitado, ficou com o vício sem bateria, e ainda vai ser hoje que vai ter que escolher um dos estágios de verão que o papá arranjou que ele como Of Counsel da “Exploradora de estagiários & Associados, RL” tem muitos contactos e até é melhor amigo do Chairman do Banco Comercial de Agiotagem que conheceu nos tempos em que estava no governo. No verão passado ainda estagiou intensamente na sociedade de gestão imobiliária da mãe e chegou mesmo a ir a duas reuniões inteiras, mas desde que a mãe, a mamã perdoem, foi nomeada General Manager do Instituto Público para a Defesa do Camarão de água doce que temos que ter mais cuidado que os jornalistas, aqueles que não nos acompanham nas refeições no Belcanto, são só uns cuscos com carteira profissional.  Finalmente chegou o Mohamed, abre-se a porta com a violência que a elasticidade do pólo lhe permite, Já vai corrido a uma estrela pelo atraso pensou ele. A moça de cabelo comprido, cortejada até que ele denuncie a declaração negocial, abre a porta do outro lado com os seus aneis opressores de ereções a riscar o indigno Seat que ainda tem das matrículas das antigas. Ela tem as hipérboles maiores que os seios e a Longchamp cheia com o “Pai Rico, Pai Pobre” e com a oração que leu no domingo da Igreja da Nossa Senhora da Assunção, é uma Maria, concebida sem pecado como a outra, só geme em Dó Maior. Eu sou feminista, até pago à empregada em dinheiro para lhe facilitar, cismava ela naquele caminho lento pela marginal enquanto os AirPods se manifestam com a voz da Taylor Swift. Ele era diferente, é uma questão de tirar um MBA e posso ser um Dante, com uma Beatriz comprada a peso, caríssima. Se ao menos eu fosse presidente, president melhor, CEO na verdade, se ao menos eu soubesse quem era Dante e o que é uma Beatriz, mas não nos ensinaram no colégio por causa do woke e do socialismo (socialismo com x não mudo), Já agora deixa ver se pedi a fatura do Uber com o número de contribuinte da consultora do papá, que os ajustes diretos têm iva e é preciso deduzir. E até que idade tenciona Sam, continuar a ser-the Kid? estes serão-no para sempre e os trocos das prostitutas (não dá por MbWay?) são para confirmar ensinou-lhe o papá e o legado é para respeitar, no natal consuma-se essa permuta. Ou antes de ser CEO, ser el-rei, o CEO de todos, tanto faz que eu até me inscrevi no partido aos catorze e sou um social-liberal com ascendente em capricórnio desde pequenino. Desgraçado aquele homem, todo nu mas com um relógio. Vai cansado e ainda vai ter que comer a namorada hoje, com aqueles beijos que lhe parecem eternos e o ardor com cheiro a meio litro de Miss Dior. O que vale é que não é preciso registar nas finanças a profissão de herdeiro, se não tinha que pedir ao meu mordomo para ir fazer isso e ele reclama se não lhe pagamos as horas todas, má vontade, esses que não têm tanto engenho nem dom como nós, coitadinhos mas é a vida. São Pessoas Sensíveis para quem Marvila é mais entrangeiro que Paris e os cancros do nosso Tejo, Da Cimpor ações e obrigações, as muy nobres assets. Perdoai-lhes Sophia. Porque eles não sabem o que fazem!

  • Mulher.

    Raquel Bravo Carta a todas as mulheres que lutaram por nós: Queridas mulheres, Escrevo-vos no presente mas sei que cada palavra minha carrega o peso do vosso passado. Um passado marcado pela luta e pela resistência.  Hoje estudo, trabalho, voto. Não foi o acaso que me deu estas liberdades- foi a vossa coragem.  Sei que muitas de vós morreram sem nunca ver a mudança pela qual tanto lutaram, sem ouvir um “obrigada”, sem ver as leis a ser reescritas, sem saber que um dia, mulheres dirigiriam países, liderariam empresas.  No entanto, saibam que o vosso legado persiste e a vossa luta não termina aqui. Porque ainda há mulheres que não podem estudar, que não podem decidir sobre os seus corpos, mulheres que são, simplesmente, silenciadas. Por elas, pelo vosso exemplo, continuaremos. Obrigada por nunca desistirem. Obrigada por não aceitarem o mundo como ele era. Obrigada por me permitirem ser quem sou.  Com muita gratidão,  Uma mulher que não esquece, Raquel Bravo Júlia Lopes Há uma parte de mim que sangra A cada esquina que ficou por cruzar;  A cada noite que não se descobriu. A cada saia que ficou por usar.  Há uma parte de mim que se entristece  Por não poder mostrar  Resquícios de criança, Joelhos esfolados no alcatrão  pela lembrança  De viver sem atentar  A cada esquina que cruzava.  Chorei quando cresci -  Quando vi o meu corpo  a enformar. Quando vi um pedaço  do meu futuro  Na minha roupa interior.  Há saudade no amor  De se ser sem se pensar;  De nada se querer para além da liberdade, Julgando-a possível.  Agora leio Clarice e percebo  Que quero tanto mais que isso;  Que há um mundo de que preciso,  Que não posso encontrar aqui.  Há uma parte de mim que sangra  A cada rosto em que não vi o luar  refletir, A cada carruagem de metro  que esperei por vir;  A cada saia, que ficou por vestir.  Há uma parte de mim que chora  Por cada sonho que ficou por conceber,  Por todos os gritos que foram dados  E continuamos a morrer.  Há uma parte de mim que sangra,  que chora,  que não se cala. E será sempre assim.  Anónimo O dia estava cinzento, mas tépido, como quando se vai com a escola à praia e o sol se esconde. A cama tinha um sabor a nuvens e a algodão doce comprado pelos meus pais, quando fazíamos algo fora do habitual. Um som erguia-se por entre o silêncio: o da segurança de se estar sozinho. As horas esperavam por mim, pelo que decidi despachar-me; tornar-me pessoa, pentear o cabelo antes de tomar banho, por ainda estar confusa. Ou porque se calhar é mesmo assim que se deve fazer – não me lembro de me terem ensinado essas coisas; o mais importante fica por ser descoberto à medida que não nos vamos fartando da vida.  A minha roupa estava no chão e o banho à espera de ser tomado. Há qualquer coisa de ritualístico, e de bonito, em deixarmo-nos envolver tão intensamente, ainda meio adormecidos. Especialmente com a água tão quente quanto a que a minha pele pede.  À medida que saio de baixo da torneira, vendo os pesadelos – e, enfim, também os sonhos – escoarem pelo ralo, ganho uma nova consciência. A consciência de que tenho cabelos lá presos, mas de que são meus.  Deixo a toalha envolver-me, como o abraço perdido, mas certo, de que precisava sempre que brotava uma nova borbulha no meio da minha testa e sempre que as minhas sobrancelhas pareciam grandes demais, carregadas demais, mas nunca bonitas (ou minhas). O espelho à minha frente estava embaciado e liguei o secador de cabelo para poder ver-me nele – também nunca mo ensinaram. De cada vez que sentia que precisava de olhar para o meu reflexo depois do banho, ensinaram-me a passar a mão ou a toalha, mas, com o tempo, cansei-me de ver as marcas de infância e de as ter de limpar com uma toalha de papel e produto anti-riscos. No momento em que desligo o secador é quando me vejo, pelo que senti ser a primeira vez. Havia gotas a escorrer-me pelas clavículas, que aprendi com a minha amiga que se podem chamar de “saboneteiras”; a minha pele brilhava, as minhas sobrancelhas já não pareciam grandes demais, e sorri.  Olhei para baixo: as minhas unhas dos pés pintadas de encarnado; as minhas mãos, macias, sem o mundo, mas também sem o peso da insensibilidade. As minhas orelhas furadas no centro comercial, quando tinha oito anos; a minha pele rosada, não por vergonha, mas por característica, pintando-se Vénus de Botticelli na parede à minha esquerda.  Foi quando me vi, pelo que senti ser a primeira vez,que me reconheci. Reconheci que as minhas maçãs do rosto são produto delicado, mas que o meu sangue corre com força suficiente para as rosar.  Sequei o cabelo e entalei-o por detrás das orelhas.  Reconheci-me, vi-me e, pela primeira vez, senti-me merecedora de ser Mulher. Natacha Santos Não sou maria rapaz, sou maria Não tenho costas de homem, são de atleta Não sou uma “gaja com eles no sítio”, sou confiante Não sou mulher alfa, sou líder Não sou rija como os homens, sou trabalhadora Não choro porque sou menina, mas porque sou pessoa Não sou macho de saia, sou eu Não preciso de ser comparada para provar o meu valor. Não sou exceção, sou regra – porque ser mulher nunca foi sinónimo de menos Se mostro emoção, sou dramática Se quero competir com homens, sou louca Se sonho com a mesma oportunidade, estou a delirar Se me defendo a pés juntos, sou desequilibrada Se falo com firmeza, sou mandona Se exijo respeito, sou insuportável Da mesma maneira que ele não chuta como uma menina, mas com menos força Ou Ele não tem mãos de princesa, mas sim umas mais delicadas Não preciso que redefinam a minha força, nem que me encaixem em padrões que não pedi. O subjetivismo negativo que conotam ao meu ser não é prova de superioridade  Talvez de insegurança ou de ameaça Porque não sou uma versão masculina do sucesso, sou a minha própria versão da excelência. Matilde Almeida A história da mulher contada aos homens Era uma vez um mundo estranhamente dividido. De um lado, os corajosos, fortes e inteligentes, de outro, os homens. Os primeiros desde a sua fase mais primitiva que cumpriam o importante dever de alimentar, criar e proteger os seus e a sua comunidade, enquanto os homens corriam pelo mato que mais tarde destruiriam. No entanto, foram estes últimos que a toda a força usurparam os louros do esforço e mérito dos primeiros. Assim, a vida começou a tornar-se penosa: não podiam pensar, não podiam votar, não podiam governar, não podiam explorar o mundo que os rodeava e os seus recursos, não podiam estudar, não se podiam expressar, não se podiam  queixar, não podiam conduzir, não podiam fumar, não podiam comer, não podiam respirar - não podiam existir. Enquanto isto, os homens aproveitavam todos privilégios de uma vida que não seriam capazes de sustentar sem os “corajosos, fortes e inteligentes”, e, ao invés de lhes agradecer, limitavam-se a ditar as condições da sua existência, manipulando-os a seu bel-prazer e sem nunca hesitarem em castigar quem os desafiasse. Mas não há acusações de loucura, humilhações, fogueiras e desterros suficientes que adestrem ou tirem o poder intrínseco aos mais fortes, pois estes nunca deixaram de lutar: sempre pensaram, sempre combateram, sempre influenciaram, sempre descobriram, sempre libertaram – sempre existiram. Para dor do ego macho, esta espécie nunca se deixou ameaçar pelos atentados à sua humanidade, desafiando constantemente o homem e as suas conceções ingénuas acerca das supostas criaturas fracas e da falsa crença do apuro eterno que as faz aguardar o seu resgate heróico. A luta continuou e para sempre continuará, mas agora tem nome, assim como todas aquelas que a representam e carregam diariamente: as mulheres. Mafalda Carrôlo O feminismo desprendeu-se da consciência feminina portuguesa - revivamo-lo.  Já lá vão 5 décadas em que cada português pode, em plenos pulmões, afirmar, gritar, gabar a sua liberdade. Quase 51 anos de incorporação da igualdade e fraternidade na sociedade portuguesa.  A princípio, a luta feminista perdeu-se nesta luta geral pela liberdade. Contudo, eventualmente, as mulheres portuguesas puderam, de uma vez por todas, ver-se libertas. E se as amarras legais foram as primeiras a desaparecer, faria sentido que as amarras culturais e morais a elas seguissem.  Mas não foi isso que se viu, não é isso que se vê.  A igualdade de género está constitucionalmente consagrada - mas há desigualdade salarial, pobreza menstrual, mutilação genital feminina, femicídio. São problemas portugueses, por muito que os queiramos empurrar para outros recantos do mundo. A existência de igualdade formal é, muitas vezes, brutalmente invocada para esconder a falta de igualdade material. Aliás, esconde-a tão bem que parece que mesmo algumas de nós já se esqueceram de que temos de continuar a correr atrás dela.  Assim, na consciência portuguesa, a causa feminista parece ter caído. Caiu, mas não por ter perdido as forças, antes devido a um hábito que tem memória curta. Hábito que se esquece que apenas teve espaço para nascer após mortes em seu nome.  Mas este hábito contraria-se: vejo à minha volta um feminismo entranhado. Noto-o nas minhas colegas, professoras, amigas, familiares. Tenho orgulho em pertencer a uma geração em que ser feminista é quase como uma segunda natureza, mas, nas palavras de Manuela Tavares, este é um rótulo que ainda queima.  Porque é que, agora que podemos gritá-lo em alto e bom som, nos inibimos de fazê-lo? “Há problemas maiores no nosso país”. Maiores? Afigura-se-me difícil conceber uma maior gravidade do que a constância de um problema - a desigualdade de género - que intensifica todos os outros. Não estamos em posição de baixar os braços até que vejamos garantida a igualdade entre homens e mulheres - na saúde, na educação, no trabalho, na cultura, na sociedade. Contribuamos com o feminismo intrínseco que todas temos para reviver esta parte integral da liberdade portuguesa. Só aí a nossa luta estará ganha: devemo-lo à memória das que vieram antes de nós e à confiança das que virão depois. Pedro Paiva Beatriz Ângelo, mulher que dá nome ao hospital da minha terra, primeira a votar, quando o mundo lhe fazia guerra. Desafiou o tempo, que impunha barreiras e fez do silêncio voz nas lutas verdadeiras. O seu nome é memória, mas a sua luta não se encerra porque cada mulher que avança, faz da esperança, nova terra. Hoje relembramos com toda a certeza: o caminho só acaba quando a igualdade for mais do que uma promessa. Lara Cândido Sob o fingido reino celestial dos reis retrógrados, Sob o fingido reino celestial dos reis retrógrados, Obedeceram à gravidade angélicas estrelas,  Duma letal substância profundamente repletas, E sedentas por nutrir os seus reis, esfomeados. Que ali estava, discreta e subtilmente presente O que punha o coração aos saltos, mais que a morte, Era verdade - nem o de lá mais competente vidente De ter o vislumbre do seu desfecho teve a sorte. Filhos, pais, avôs - todos eles se deixaram seduzir Pela beleza etérea daqueles corpos celestes; eles Todos se inebriam ao tocar impura e rudemente. O rejubilar egos régios trouxe eterno dormir, e As rainhas da sub - missão, jugação, valorização deles, Riram-se: haviam provado do seu veneno, finalmente. Bernardo Pinto Simone Veil: Um Legado de Liberdade e Coragem    No Dia Internacional da Mulher, é essencial relembrarmos figuras femininas cuja luta e resiliência marcaram a história. Entre elas, destaca-se Simone Veil, uma mulher cuja vida foi dedicada à causa pública, liberdade e dignidade da pessoa humana. Sobrevivente do Holocausto, pioneira na política francesa e defensora intransigente dos direitos das mulheres, Veil personifica o espírito de resistência e progresso que esta data celebra. Nascida em 1927, em Nice, Simone Veil viveu na pele os horrores da Segunda Guerra Mundial. De origem judaica, foi deportada para Auschwitz-Birkenau em 1944, onde perdeu grande parte da sua família. Sobreviveu ao Holocausto e, apesar do trauma, decidiu reconstruir a sua vida e lutar para que tragédias como essa nunca mais se repetissem. Após estudar Direito e Ciência Política, Simone Veil seguiu carreira na magistratura e, mais tarde, na política. Em 1974, tornou-se Ministra da Saúde de França, um cargo a partir do qual mudou para sempre a vida das mulheres francesa s. Foi a principal responsável pela legalização do aborto em França, enfrentando forte oposição de setores mais conservadores. A "Lei Veil", aprovada em 1975, garantiu às mulheres o direito de decidir sobre os seus corpos, representando um marco fundamental na luta pela igualdade de género. Contudo, o seu impacto não se restringiu ao seu país de origem, transcendendo fronteiras. Em 1979, tornou-se a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu, um cargo que desempenhou com um compromisso inabalável com a integração europeia. Defensora de uma Europa mais unida e solidária, Veil acreditava num modelo federalista, promovendo políticas que reforçassem a cooperação entre os Estados-membros e garantindo a proteção dos direitos fundamentais a nível europeu. Simone Veil continuou a sua trajetória política e intelectual ao longo das décadas, sendo, designadamente, nomeada para o Conselho Constitucional francês. O seu legado ultrapassa fronteiras e gerações: é um símbolo de resistência, justiça e progresso. Em 2018, foi homenageada com a sua trasladação para o Panteão de Paris, ao lado de outras figuras ilustres da história francesa. No Dia Internacional da Mulher, a memória de Simone Veil lembra-nos que a luta pela igualdade de género não é uma batalha do passado, mas um compromisso contínuo. O seu exemplo inspira-nos a construir uma sociedade mais justa e equitativa para todas as pessoas.

  • Carta aberta à comunidade estudantil

    Caras e caros estudantes, É com grande gosto que anunciamos o lançamento oficial do novo Centro de Conhecimento da nossa Faculdade, o NOVA Platform for European Administrative and Regulatory Law  (PEARL). Possui, de momento, uma equipa pequena, mas motivada, composta por mim, três doutorandos (Mateus de Carvalho, Maria Estela Lopes e Rita Vieira Marques), e quatro assistentes de investigação (Bernardo Pinto, Miguel Pouseiro, Rafael Guerra, Sofia Pavão).  O NOVA PEARL foi criado com o propósito de dar a estudantes, investigadores/as e professores/as um fórum - uma plataforma! - para aprofundarem tópicos ligados ao Direito Administrativo da Regulação, uma área a paredes meias entre o Direito Administrativo e o Direito da UE.  É uma área que vai desde os setores farmacêutico, da energia ou da supervisão bancária até à proteção de dados e comunicação social, entre tantos outros. O Centro tratará da regulação administrativa de modo transversal. Contudo, nos próximos anos, a área de investigação prioritária será a da Regulação do Digital na UE, atendendo ao período crucial de implementação do AI Act  e Digital Services Act  em que atualmente nos encontramos. Cordialmente, convido-vos a participar nas nossas atividades, começando já com o Evento Inaugural do dia 14 de março. Teremos um primeiro painel, em inglês, com grandes referências internacionais da regulação digital na UE.  Teremos também um painel em português, sobre a Europeização do Direito Administrativo da Regulação, que contará com alguns/mas dos/as maiores especialistas nacionais da área - da academia, dos reguladores, da advocacia e mesmo do Supremo Tribunal Administrativo. Clicando aqui , encontram o programa e o formulário de inscrição! Juntem-se a nós! Até breve, Filipe Brito Bastos

  • Tenho de parar

    E no meio da monotonia da vida vejo-te. Sinto-me nauseada, as pernas tremem e não sei bem se devo olhar para ti, se devo acenar (será que ainda me odeias?) ou talvez até ganhar o mínimo de coragem para te cumprimentar. Fingimos que não nos conhecemos, que somos duas desconhecidas na mesma carruagem que nunca mais se vão ver, mas eu conheço-te como cada veio na minha mão. Sei o teu ascendente, conheço os teus pais, sei de todas as tuas inseguranças, sei que não gostas de gás nas bebidas, sei todos os teus dramas familiares e às vezes acho que te conheço melhor do que me conheço. Mas no fim somos duas estranhas, que nunca se tocaram, que nunca choraram no colo uma da outra, que nunca tiveram estranhos ciúmes ou algo desse género.  Tenho de parar, nunca mais penso em ti (sinto que a minha cabeça vai explodir), nem no teu cheiro, nem sequer no teu riso adorável. Acabou. Não quero mais. Nunca quis (talvez quis, mas não deu). Enfim, chega.

  • Ainda estou aqui

    Ainda Estou Aqui, o mais recente filme protagonizado por Fernanda Torres, uma das atrizes mais consagradas do cinema brasileiro, tem conquistado um sucesso estrondoso a nível internacional, valendo-lhe três nomeações para os Óscares. Em Portugal, a receção não poderia ser mais positiva: há um mês em exibição, mantém-se no topo das bilheteiras e, no quarto fim de semana, levou mais 34.536 espectadores aos cinemas, segundo dados divulgados pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) no dia 10 de fevereiro. O que torna este filme verdadeiramente especial, além da brilhante e impactante atuação de Fernanda Torres, é a forma como nos convida a reviver a memória de um passado não tão distante, cujas cicatrizes ainda marcam gerações. A narrativa expõe as consequências de um período de repressão, violência e autoritarismo, baseado na vida de Rubens Paiva, um dos muitos desaparecidos políticos durante a ditadura militar brasileira, trazendo à tona as cicatrizes deixadas pelos abusos do regime. E, embora a realidade da ditadura militar brasileira não seja amplamente discutida em Portugal, é impossível não pensar nas histórias que nos foram contadas sobre a nossa própria vivência de opressão enquanto assistimos àquelas imagens. A luta pela liberdade é uma luta comum a todos aqueles que enfrentam regimes autoritários, as histórias de resistência, luta e intervenção, independentemente do país, devem ser ouvidas como um todo, porque a repressão, a censura e o silenciamento não conhecem fronteiras. A relevância deste filme torna-se ainda maior num contexto em que existe hoje uma tendência perigosa de romantizar o passado, distorcendo episódios de opressão para ajustá-los a agendas políticas do presente. A história, quando é distorcida, perde a sua força enquanto ferramenta de reflexão e aprendizagem, tornando-se uma arma nas mãos de quem busca reescrever a sua “verdade”. Este fenômeno não é exclusivo de um país, é um padrão que se repete globalmente, por exemplo, na Europa, movimentos nacionalistas têm emergido, impulsionados por discursos que exaltam a soberania e a identidade nacional, muitas vezes em oposição a valores democráticos, e exacerbando ideologias racistas/xenófobas. No Brasil, a ditadura militar é cada vez mais relativizada por grupos políticos que tentam apresentá-la como um período de progresso, ignorando a tortura, os desaparecimentos e a censura. Isto relembra-nos dos perigos de uma sociedade que, ao se acomodar na ilusão de uma democracia “intocável”, esqueceu os horrores do passado, como bem disse Santayana: " Os que não se lembram do passado estão condenados a revivê-lo". Fernanda Torres, ao interpretar Eunice Paiva, transmite a dor, a revolta, e a resiliência de quem sobreviveu a um regime opressivo, mas, acima de tudo, dá voz àqueles que foram esquecidos pela história. Este processo de “esquecer” não é acidental, é uma estratégia deliberada para reescrever a história e apagar os abusos do autoritarismo, a memória, para mim, é uma das formas mais eficazes de resistência, ao manter viva a lembrança das vítimas, impedimos que se apague o sofrimento e a luta de todos aqueles que resistiram. Este filme, portanto, não é apenas um tributo a um movimento de resistência do passado, mas também um alerta contra o esquecimento forçado, mostrando-nos que a história não deve ser distorcida. Portugal não é uma exceção a isto, por mais que se possa tentar branquear o papel da polícia política, da censura e da opressão, e de “esquecermos” histórias como a de Catarina Eufémia, José Dias Coelho, José Ribeiro Santos, Alfredo Dinis, João Arruda, entre tantas outras vozes, cujas memórias, com o tempo, foram sendo silenciadas, devemos preservá-las e usá-las como ferramentas de reflexão. Ao conquistar uma plataforma global e receber reconhecimento no maior evento cinematográfico do mundo, o filme cumpre um papel essencial, é um sinal de que, apesar dos esforços para silenciar certos episódios, a verdade continua a emergir, e com ela, a necessidade de aprender com os erros do passado.

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