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  • Junior Law School – vem experienciar o trauma por uma semana!

    No passado dia... (estou a gozar, isto não é um post do linkedin). Foi na NOVA Direito que alguns e algumas estudantes do ensino secundário tiveram a excelente ideia de passar a semana passada. O que levou estes estudantes a participar nesta Junior Law School, a equipa de reportagem do Jur.nal ainda não foi capaz de apurar, apesar das principais possíveis razões serem: não saberem o que lhes esperava, crush na diretora do Jur.nal, ou curiosidade em conhecer a faculdade pelo seu interior, já que no Open Day teriam sido atacados pelo famoso jardim do campus, relata fonte que pediu o anonimato. Ao longo desta semana, os participantes deste programa que voltou finalmente depois de vários anos adormecido puderam viver o verdadeiro espírito NOVA, sempre com boa disposição e vontade de ser um agente de mudança confirmar se se querem mesmo sujeitar a quatro anos de pura tortura estudo intensivo e dedicação ao estudo das leis. O Jur.nal teve o prazer de, logo no primeiro dia, realizar uma atividade com os possíveis candidatos, tendo feito o esforço para minimizar o trauma dos estudantes, já que fomos avisados de antemão que teríamos de causar uma boa primeira impressão (um esforço similar ao feito pela faculdade com o Bootcamp inicial, mas que todos os anos falha redondamente). Foi através de kahoots, jogos do Stop e quizzes que secretamente tinham o objetivo de descobrir os próximos redatores, que lhes mostrámos o ambiente relaxado que se vive no Jur.nal. Posteriormente, tivemos o prazer de dar a conhecer o campus às nossas crianças, e de assistir a uma atuação da maravilhosa Juristuna, que nunca desilude, e que contou com um seguidor avido, que não perdeu nenhuma das músicas para mostrar a sua qualidade de fã. Durante esta semana, foi também proporcionado aos estudantes que comessem na Cantina, mas na do CAN, tendo esta decisão sido tomada após chegar-se à conclusão de que após uma refeição na Cantina de Campolide os futuros candidatos deixariam de o ser. Os e as participantes puderam ainda nadar nas águas da Introdução ao Direito, do Direito Constitucional, Penal e dos Contratos, através de palestras lecionadas pelas professoras e professores Miguel Moura, Luís Terrinha, Maria Beatriz Brito e Joana Campos Carvalho. Foi com muito entusiasmo e participação que os estudantes receberam esta piscina de conhecimento jurídico. Podíamos ter-lhes dito que a água vinha das lágrimas dos estudantes anteriores, mas não nos pareceu adequado, já que se estavam a divertir tanto. Ao que pudemos apurar, o prémio de maior entusiasmo foi entregue à professora Maria Beatriz Brito, mas todos os outros docentes levam uma menção honrosa, uma vez que os elogios foram unânimes quanto a todos (claro está que não tiveram a oportunidade de experienciar uma época de exames, caso contrário não existiria tanto feedback positivo). Além das palestras, foi-lhes também proporcionado a oportunidade de visitar o Tribunal da Relação de Lisboa, visita que os deixava mais ansiosos, depois de uma sondagem cuidada e rigorosa (perguntámos em conversa no corredor), e ainda a sociedade PLMJ, que contou com uma conversa com o associado Tiago Guerreiro, que deu os seus conselhos aos nossos mini-lawyers e que os levou a conhecer o rooftop da dita sociedade. Pasme-se que, os participantes tiveram mesmo a oportunidade de participar num pequeno moot court, defendendo ou acusando uns arruaceiros de Erasmus, e um Bernardo que se deixou levar por promessas de Rizotto. Finalmente, deu-se a sessão de encerramento, que contou com os oradores David Freitas, coordenador de investigação criminal da Polícia Judiciária, António Assis Teixeira, jornalista na TVI e Francisco Cordeiro Ferreira, Chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, que nos falaram um pouco da sua carreira após o curso. Foi uma semana muito atribulada, mas muito frutífera para os participantes, que puderam durante uma semana experienciar o que é viver esta vida de estudante de direito. Tendo tido um feedback tão bom dos participantes, que poderão ler no final deste artigo, o Jur.nal faz fotos de que este renascimento não seja só de um ano, e que possamos estar presentes na segunda (nova) edição. Acabando este relato, resta-nos agradecer. Em primeiro lugar, a título pessoal, agradeço à direção do Jur.nal, que esteve sempre a acompanhar a Junior Law School, e pela sua atividade, que foi um dos pilares da semana. Posteriormente, à Associação de Estudantes, e em especial à sua vice-presidente, Aliyah Bhikha, organizadora principal deste evento. Finalmente, e mais importante, agradecer aos participantes, que decidiram escolher-nos para perderem (ou ganharem?) uma semana do seu verão. Sem vocês, isto não teria acontecido. Esperemos que tenham gostado tanto de nós, como nós gostamos de vocês. Dito isto, termino com uma pergunta para os participantes, e deixo-vos com alguns dos relatos dos mesmos. Queridos participantes.... vemo-nos em setembro? “A Junior Law School mudou a minha vida e a visão do meu futuro porque agora tenho realmente a certeza que quero seguir Direito na faculdade. As atividades foram bem organizadas e pertinentes, para nos termos uma ideia do nosso percurso universitário. Para além disso, os monitores fizeram um ótimo trabalho de valorizar não só o lado académico, mas também social, da vida académica. Agradeço muito o trabalho deles.” – Beatriz Violante, Aluna de 10.º Ano no Colégio Atlântico, Arrentela “Em que é que esta semana mudou a minha vida? Esta semana foi desafiante, cansativa mas foi mais que recompensadora. Aprendi a ter uma ideia mais aberta do que o Direito nos poderá trazer, das suas áreas e saídas e tive a oportunidade de conhecer sítios que honestamente adorei! Fez me sair da minha zona de conforto e fez me sentir que seria capaz de enfrentar um novo desafio sem medo! Obrigado por esta experiência!” – Mariana Cardoso, aluna de 10.º Ano na E. S. Braamcamp Freire, Pontinha “A minha experiência na Junior Law School foi francamente positiva. Tive a oportunidade de contactar com alunos e professores da faculdade, o que me permitiu escolher mais acertadamente a faculdade onde pretendo estudar direito nos próximos 4 anos – e por esse motivo, importa perceber não só o modus operandi da faculdade e do curso, tendo experienciado pequenas aulas sobre direito penal ou constitucional, por exemplo, como também o modus vivendi, transmitido pelos testemunhos dos estudantes que ali efetivamente se sentem em casa. Por outro lado, foi nos proporcionado um contacto direito com o leque de profissões que o curso de direito pode abrir – visitámos uma sociedade de advogados, um tribunal, e estivemos também com profissionais da esfera do jornalismo, da segurança e do poder governamental. A riqueza do plano de atividades, que incluíram um moot court e debates diversos, aliada à total disponibilidade e boa-disposição dos estudantes da faculdade que nos acompanharam, permitiu-me aprender e pensar de novas perspetivas, além de ter ficado mais convicto que direito é mesmo aquilo que eu gosto. Um grande obrigado a toda a equipa envolvida na organização, aos professores e aos demais participantes por esta semana extremamente enriquecedora!” – Francisco Freire, aluno de 12.º ano na E. S. Filipa de Lencastre, Lisboa “Para mim, a Junior Law School foi uma experiência inesquecível! Durante uma semana, senti-me uma estudante da Nova School of Law, e graças ao carinhoso acolhimento dos estudantes que se disponibilizaram para organizar esta iniciativa, senti que estava em casa. Achei incrível o facto de alguns professores participarem neste projeto e transmitirem não só uma parte do seu conhecimento, mas também o espírito curioso e interessado desta universidade. Foi, sem dúvida, uma semana muito bem passada, que confirmou o meu interesse em direito e me convenceu a seguir este curso.” – Mariana Cruz, aluna de 12.º ano na E. S. Camilo Castelo Branco, Carnaxide

  • mãe, podemos deixar de comprar laranjas?

    mamã, consigo ouvir os pássaros lá fora e o sol já me disse olá, deves estar a acordar agora, eu não consigo dormir. o meu corpo sente se cansado, mas eu não consigo fechar olho. eu sempre fui horrível para adormecer, eu sei que sabes isso. sei que tu e o pai me lavavam às 3 da manhã a andar de carro, porque acham que ajudava e eu adormecia, mas assim que estacionavam acordava. mas agora é diferente, mãe. eu quero tanto dormir, estou farta de acordar no dia seguinte e não saber viver por causa da dor de cabeça. não sabia que ia ser assim. ninguém te dá um aviso e eu sei que tu também estás confusa. o pai pergunta me sobre o que falo nas consultas e eu não lhe quero dizer. vocês ficam com uma cara tão assustada e apavorada quando digo alguma coisa, não gosto de vos ver assim. não era suposto isto acontecer. era suposto não me acontecer a mim. era suposto eu ser a amiga que está sempre bem. e sei que quem se sente mal devia pedir ajuda e não se devia envergonhar disso, saúde mental devia deixar de ser tabu, mas aconteceu tudo tão rápido e de forma tão abrupta. ninguém me deu um aviso. ninguém me gritou nada . não me deram sinais nenhuns. não me notificaram nem nada. não me disseram: “vamos iniciar a fase preparatória da decisão”. encaminharam-me para o escuro, enquanto eu me distraia com a luz refletida na água da piscina. e o dinheiro… o dinheiro é vil. a quantidade de dinheiro gasta nisto. tu dizes-me: “nós só queremos que fiques bem. só te queremos ver feliz, amamos-te muito.” e eu sei disso, mãe. sei que queimavas metade da casa se isso significasse que eu poderia continuar no psicólogo e no psiquiatra e receber ajuda, mas custa-me saber que tens que causar um incêndio para eu acalmar a tempestade do meu cérebro. disseram-me que precisava disto para deixar de discutir comigo. li-lhe isto: “Penso em como estar a explicar para mim própria o processo da dança do meu cérebro fazer parte da dança do meu cérebro. Penso em como o que acabei de pensar poder ter sido uma redundância. Penso que tenho de parar de censurar os meus pensamentos. Penso em como ter pensado que tinha de parar de censurar os meus pensamentos censurou o meu pensamento que me chamou de redundante. Penso que não devo pensar em coisas muito complexas. Penso que o meu cérebro é incapaz de o fazer. Penso que o meu cérebro ser incapaz de o fazer não é necessariamente uma qualidade. Penso que o meu cérebro, às vezes, é cansativo de amar. Penso que para amar o meu cérebro, às vezes, é preciso dar-lhe um sedativo. Penso que tocava no Pedro e deixava-o tocar-me, porque amava o cérebro dele, da mesma forma sensual como amo palavras. Penso que, nos próximos dias, não volto a comer laranjas.“ a reação foi: medicação. só de ler isto agora o meu cérebro apita, que teia. espero que resulte tudo. tem que resultar. o primeiro dia de medicação foi horrível, deixou-me enjoada, com uma enxaqueca e são exatamente 4:44 (ontem fui dormir às 6, eu devia ter sono). nestes momentos, apetece-me desistir de tudo, do jur.nal, dos projetos, das merdas para o currículo, eu sou demasiado fraca para isso tudo, mamã. eu quero desenhar-te em bonecos palito outra vez. é isso que quero fazer com todas as horas do meu dia, enquanto bebo sumo de laranja joy de um copo com uma palhinha, daquelas que dá muitas voltas, como o copo da minnie que trouxemos da disney em Paris. não sei porque estou a escrever isto, sabes? acho que há uma espécie de desejo em querer ser salva no que escrevo. de que me venham buscar e me levem a passear. de que me levem para um sítio onde não tenho que ser bonita, onde não tenho que ter miolos e onde me delicio em doces nadas. a minha escrita grita desesperadamente por festinhas na cabeça e empatia. mas não interessa. a razão não interessa. estou farta de tentar perceber o porquê de tudo. desta vez, não quero metáforas, nem laranjas, nem coisa que o valha. não aqui. aqui não há isso. aqui só há cansaço para andar a chamar metáforas, apesar de eu não me mexer um centímetro. a laranja foi comida pelo cão da tia. não há noite. só há o sol que me queima a cara e me faz um escaldão no nariz.

  • Talvez o sentido da vida seja apenas viver, talvez o sentido da vida seja apenas…ser

    Vi recentemente um Tweet que quase poderia ser catalogado como humorístico, publicado por uma rapariga católica que num quase tom de pena, questionava como é que os ateus evitavam depressões e tristeza sendo que não tinham um propósito de vida por acreditarem que surgiram do acaso. Não pretendo neste texto explorar as razões e possíveis causas de depressão nas mais diferentes pessoas, até porque, mesmo que a crença em algo superior à existência humana atenue alguma depressão ou infelicidade na vida de alguém, ninguém fica deprimido por não acreditar em Deus. Venho, no entanto, tentar dar o meu ponto de vista sobre o que é, para o ex-católico convicto e (atualmente) ateu convicto que sou, o papel do ser humano na realidade em que vivemos. Fá-lo-ei, está claro, tentando não cair na esparrela de me achar suficientemente superior aos outros ao ponto de pensar que descobri o real sentido da vida. A religião Católica defende que o sentido da vida é Deus em si e a crença na existência do mesmo, uma vez que esta representa uma passagem para uma realidade espiritual ao lado deste ser. Os filósofos gregos defendiam que o sentido da vida era a prossecução dos desejos e vontades, o conhecimento e a sabedoria ou a virtude. Os Maias acreditavam que tinham sido criados para venerar os deuses, uma vez que os animais não podiam falar para concretizar essa vontade divina. Para os Hindus a vida tem como objetivo confirmar os quatro estágios da existência: Dharma, Artha, Kama e Moksha. Existem muitas teses sobre qual será o sentido da vida, sobre qual é a finalidade ou o objetivo de viver, mas todas elas têm algo em comum. É preciso viver. Os católicos precisam de viver para acreditar em Deus, os filósofos gregos precisavam de viver para satisfazer as suas vontades, ganhar conhecimento ou tornar-se virtuosos, os Maias precisavam de viver para venerar os seus Deuses e os Hindus precisam de viver para cumprir os quatro estágios da existência. Talvez o sentido da vida seja apenas viver, talvez o sentido da vida seja apenas…ser, independentemente de crenças, objetivos de vida, vontades ou desejos, tal como é com qualquer ser vivo. Um Ateu, ao não acreditar em divindades ou forças sobrenaturais superiores a si mesmo, contenta-se com a sua insignificância na vastidão do Universo, não tem necessidade de acreditar que foi criado por um motivo especial, mas acomoda-se no acaso em que foi criado. Não sinto que preciso de um motivo para ter sido criado para além da vontade dos meus pais, mas, tendo efetivamente sido criado e, já que existo, a finalidade dessa existência deve ser… viver. Será infeliz, como apelidam os religiosos, esta crença no acaso e na insignificância da vida humana? Penso que não. A “Aposta de Pascal” sugeria-nos que entre acreditar ou não na existência de Deus, mais valia escolher acreditar porque se Deus de facto existisse, teríamos um ganho infinito, no entanto, se não existisse, não tínhamos perdido nada. Poderia apresentar uma outra versão desta Aposta: entre acreditar ou não na insignificância da vida Humana, mais vale acreditar, uma vez que se insignificante se revelar, temos as expectativas preenchidas, e se de facto a vida humana for especial por criação de Deus, apenas temos as expectativas superadas e nunca quebradas, dado que se esse Deus é perfeito e omnipotente (como nos apresenta o Cristianismo), tem a capacidade de julgar a vida humana pelas suas ações e não é arrogante a ponto de condenar alguém por não crer em si. No entanto, não acho que acreditar em algo só porque essa crença nos traz benefícios seja o caminho mais correto, é até hipócrita e contrário, por exemplo, às doutrinas religiosas. Ao mesmo tempo é impossível acreditar falsamente em algo, porque uma crença é um fenómeno psicológico e mental involuntário que transmite convicção e segurança de ser, pelo que ou existe ou não existe em cada um, não se podendo revelar infeliz (tipo, bolas, fui criado por Deus). É desta forma que reitero que a crença é inerente a cada um, individualmente, e que é algo que nos diferencia enquanto pessoas, até porque, mesmo dentro da mesma religião há formas de acreditar completamente diferentes umas das outras. O maior facto que liga todos os seres-humanos é a sua existência como objetivo e finalidade dela mesma, alheia a fatores e disputas ideológicas, filosóficas ou religiosas, pelo que apenas a vida em si pode dar sentido a ela mesma através de cada um. Sendo assim, talvez o sentido da vida seja apenas viver, talvez o sentido da vida seja apenas…ser!

  • MARIA

    “Maria!” - gritei. Naquele dia estava diferente. Ela que passava a vida a tagarelar, tinha estado muito calada, e agora fugia-me. Pensei, enquanto a perseguia desesperadamente por aquele corredor, em contar-lhe tudo. Afinal, não tínhamos muito tempo. Pensei em como gostava de ser boa com despedidas. As lágrimas que eu teria poupado, lágrimas que dariam para encher um lago algures entre montanhas numa paisagem de um filme... A Maria finalmente parou, já perto da linha do comboio, e eu parei perto dela, ainda ofegante da corrida. “Por que é que vinhas a correr?” - perguntou-me ela, com o seu habitual sorriso sereno. “Maria, como assim? Porque ias a fugir de mim, tive de correr para te alcançar!” - respondi, confusa. A Maria riu-se calmamente, certamente reparando na minha cara ofendida com a pergunta. Explicou-me que não vinha a correr, aliás vinha a andar a passo lento pelo corredor, e parou assim que me ouviu chamá-la. Pensei que ela mentia… Ou isso ou eu estava a enlouquecer (também era possível). “Alguma vez sonhaste que ias a correr atrás de alguém, e independentemente do quão rápido corresses nunca conseguias alcançá-la? Foi isso. Devias estar a viver dentro desse sonho, mas na vida real. Foi a tua cabeça a brincar contigo.” - disse-me, rindo suavemente. Zanguei-me. Não queria acreditar nas palavras dela. Afinal, eu sabia bem que aquilo não era nenhum sonho, e vira com os meus próprios olhos a Maria a correr à minha frente uns minutos antes. Não eram invenções do meu cérebro cansado. Pensei que talvez ela estivesse a fazer aquilo para me irritar e me distrair da inevitável despedida que se aproximava. Ao fundo uma voz anunciava que faltavam cinco minutos para o comboio chegar. Nesse momento, não quis continuar zangada com ela. Convenci-me que cinco minutos chegavam perfeitamente para lhe contar tudo, para lhe dizer tudo o que faltava dizer… Ela continuava a olhar para mim com um sorriso calmo, que (como sempre) contrastava com a minha cara angustiada. Não parecia minimamente abalada com a nossa evidente falta de tempo. Ela, aliás, umas horas antes, tinha partido sem sequer se despedir de mim. Lembrei-me disso e tive vontade de lhe perguntar se não se arrependia. Mas não o fiz, porque sabia que estávamos a ficar sem tempo, e não o queria desperdiçar. Sempre fizera dos relógios meus inimigos, desde pequena. Para a Maria era ao contrário, era como se nem existissem relógios nenhuns no mundo. Ela era uma alma livre e, ao contrário de mim, vivia a vida pelas suas próprias regras. Tantas vezes ao longo dos anos eu desejara ser como a Maria… Não conseguia arranjar palavras para lhe dirigir naquele momento (ela continuava a fitar-me em silêncio), e prossegui perdida nos meus próprios pensamentos. No fundo eu tinha sorte, pois tinha a oportunidade de me despedir dela. Quantos de nós não chegam a despedir-se de quem amam… Imaginara aquela despedida vezes e vezes sem conta ao longo dos últimos meses, correndo-a na minha cabeça como um filme (uma curta-metragem). O que diríamos uma à outra, o momento em que nos abraçariamos, o lugar exato dos silêncios e dos risos, o presente que lhe levaria (e que agora me tinha esquecido em casa, com a pressa de sair atrás dela), até a forma de lhe acenar pela última vez. Mas agora que estávamos as duas ali, escolhemos ficar em silêncio, como se nada mais tivéssemos a dizer uma à outra. Logo eu, que ainda tinha tanto por lhe contar… O comboio aproximava-se rapidamente de nós. As lágrimas começaram a escorrer-me furiosamente pelo rosto. Continuava calada, paralisada. A Maria continuava em silêncio também, mas ainda a olhar-me de sorriso calmo na cara. Pegou nas suas malas e esperou que o comboio parasse e as portas abrissem. Depois aproximou-se da porta, olhou para trás e disse-me apenas “até já”, ainda com um sorriso na cara. Eu não disse nada, não me mexi um único centímetro. Parecia que qualquer ação que eu tomasse naquele momento seria a errada. À minha frente via apenas uma névoa, e fiquei presa ao chão até a porta se fechar, ela a olhar para mim e eu a olhar para ela. Até que a porta fechou e o comboio seguiu o seu caminho. Não sei se nessa altura a Maria chorou. Talvez sim, mas por outro lado, talvez não. Deixei o corpo cair no banco mais próximo, ainda lavada em lágrimas. Não entendia como é que alguém poderia ser tão bom nas despedidas. Será que ela não sentia as coisas? Talvez eu fosse exagerada e sentisse demais, mas também não era normal sentir tão pouco! Ou se calhar ela até sentia, mas não o sabia (queria?) demonstrar. A verdade é que as almas livres não se deixam (não podem deixar) prender às coisas, aos lugares, nem mesmo às pessoas; e eu no fundo sabia disso. Deixei-me ficar esparramada naquele banco na estação por mais alguns minutos, até as lágrimas secarem. Depois levantei-me e voltei para casa. A minha vida continuou e a da Maria certamente também. Nunca mais falei com ela, nunca mais tive novidades. Ao longo dos anos fui questionando se isso me trazia paz ou tristeza; nunca cheguei a perceber. A verdade é que a vida está cheia de “Marias”. Aliás, a vida é um vaivém de “Marias”, que ora entram ora saem da nossa vida. Às vezes despedimo-nos com toda a pompa e circunstância, outras vezes temos a oportunidade mas por um ou outro motivo não aproveitamos a despedida que nos é concedida pelo universo, e na maioria das vezes nem nos chegamos a despedir (ora porque não sabíamos que aquela seria a última vez, ora porque não quisemos aceitar que era um “adeus”). Também acho que quase nunca dizemos tudo o que tínhamos a dizer, nem fazemos tudo o que queríamos fazer. Hoje em dia nem sei se prefiro despedir-me ou não, mas sei que detesto fazê-lo. Detesto despedidas e recuso-me a lidar bem com elas. Mas agora percebo que naquele dia talvez estivesse mesmo a correr atrás da Maria quando ela não estava a fugir de mim... O medo de perdemos alguém (mesmo que não seja para sempre) faz-nos isso. Hoje, já quase esqueci o timbre da voz da Maria, as músicas que ela tocava sempre na guitarra, o cheiro característico dela, até mesmo as suas feições (não fossem as fotos, acho que já teria esquecido mesmo). A vida é isto, não é? Apaixonamo-nos pelas pessoas, damos-lhes tudo de nós por um certo período de tempo (podem ser anos, meses, até mesmo dias); e depois há um dia em que elas nos abandonam, como (quase) todos os outros. Mas a verdade é que, mesmo sabendo o que sei hoje sobre o rumo da minha história com a Maria, teria feito tudo igual. Teria sido amiga dela na mesma, ter-lhe-ia dado tudo de mim e deixado que ela me desse tudo dela, ter-me-ia apaixonado pela forma de ser dela mais uma vez. E teria sentido a dor da despedida da mesma forma. Porque a vida é isso, é um vaivém de pessoas… Pessoas: que bom motivo para estar viva. Conhecer e amar seres humanos, mesmo sabendo que um dia eles irão provavelmente partir (especialmente porque um dia eles irão provavelmente partir). A todas as minhas “Marias”, eu amo amar-vos mesmo sabendo que um dia poderei ter de me despedir (e mesmo que possivelmente nem chegue a haver uma despedida mas que a vida se encarregue dela). Vocês são a minha razão de viver. E amar-vos-ei para sempre, mesmo quando um dia já mal me lembre da vossa voz…

  • Casa

    A casa já não é casa. Quarto antigo já não me representa, já não consigo visualizar tão nitidamente as memórias daqui, só as do ano antes deste, quando nada era bom para mim. O que ainda significa quero trazer comigo. Vou para casa, para a casa onde vivo, (da família, às vezes com família) mais leve, porque agora posso escrever em paz, em silêncio e posso fazer tanto barulho. Não é barulho dentro da minha cabeça, é barulho de música com amigos, de debates irrelevantes sobre temas desinteressantes. É ter a chave da porta, é ter a resposabilidade de não perder a chave da porta, é tentar abrir pela primeira vez a porta e ter de pedir ajuda na porta do lado. Descer as escadas de manhã, entro no autocarro e quando digo bom dia, reparo que ainda não falei de manhã. E isso é tranquilo, e deixa-me feliz que depois disso não me vou "calar". Bom dia ao motorista de autocarro, bom dia a toda a gente na faculdade (porque tenho a mania de que conheço meio mundo). É o barulho que eu quero ecoar, mas que não tenho de ouvir cá dentro. É voltar para casa e merda... as chaves não estão na mala, vê o bolso, vá lá. Eis as chaves, já posso abrir sem que a vizinha do lado me queira ajudar, e vou encontrar a casa quente, de final de tarde, de volta a um silêncio bom, não é solidão, é independência. Conseguir abrir a porta por mim mesma, por mim.

  • sinto-me vazio

    Sento-me à secretária, É de noite, Deveria estar a deitar-me, tenho exame amanhã. Mas não estou, comecei a escrever isto na esperança de que saia algo brilhante e maravilhoso. Só que não, sinto-me vazio. Vazio como se nada do que fizesse importasse, como se fosse apenas uma ervilha no cosmos do universo. E sou, na verdade. Daqui a 100 anos, o exame de amanhã não importarão. A média do curso, os estágios, as teses, os textos, nada. Eu não importarei. A Terra continuará a girar em torno do Sol, e o sol a girar em torno de uma merda qualquer (não sei, nunca fui bom a física) e eu terei finalmente perdido a luta contra a gravidade, que tanto puxou, tanto puxou, e tanto que me custava, por vezes, aguentar aqueles 9 ponto qualquer coisa newtons, que conseguiu finalmente puxar-me para debaixo da Terra. Não me interpretem mal, é por esta dinâmica do mundo que a vida tem a sua piada, e que a ocasional miséria é facilmente aguentável. Mas, não sei, por vezes tenho estas crises existenciais, esta provavelmente induzida pela desgraça de amanhã, em que me sinto tão impotente, não só em relação ao estudo, que foi abundante, mas que provavelmente me vai garantir um 10 e nem mais uma décima (estou a ser otimista), mas em relação à vida no geral. Sempre fui uma pessoa que acredita em destino, nas verdades universais do mundo e no caminho traçado por alguma força léguas superior aos 9 newtons da gravidade que simplesmente decidiu alguns aspetos da nossa vida por nós. Deixem-me explicar, com medo de ser mal interpretado. Como é obvio, existe a autodeterminação, e claro está que o destino não faz o nosso trabalho quando não o queremos fazer. Se queremos algo, temos e devemos de lutar por ela. Agora, não consigo deixar de acreditar que não é por acaso que me sento à secretária, agora de noite, com exame amanhã. Não é por acaso que estou neste curso, aqui, que sou eu. Se chumbar, não será por acaso. Fiz a minha parte. Mas, chegada a altura decisiva, deixa de depender de mim. Deixo ao destino. Ele com certeza fará a parte dele, e cá estarei eu a aguardá-lo.

  • Bolachas que não cabem no pacote

    Há de tudo um pouco em tudo quanto é lado. Por isso, vão-me perdoar pela generalização abusiva que vou fazer, mas que tem mesmo de ser feita por uma questão de honestidade literária: estudantes da NOVA School of Law são estudantes trabalhadores, exigentes, perfecionistas, e que – talvez mais do que muitos estudantes de outros mundos e fundos – estão habituados a ser os melhores, porque o foram a vida toda. Ora, não será portanto de estranhar que, juntando as últimas bolachas dos pacotes numa só tigela, elas tenham mais dificuldade em destacar-se – há tantas, e tão boas, por onde escolher, que qualquer criança que se preze teria dificuldade em decidir qual quereria guardar para o final do seu lanchinho. É por isso que eu acho curioso que, no meio daquilo que deveria ser uma batatada constante entre galinhos e galões de capoeira, eu encontre – e dirão que sou uma romântica, e talvez seja, e talvez o meu idealismo me tolde a visão, e daí – entreajuda, cuidado e, acima de tudo, amizade. Não nos enganemos ao pensar que é assim entre todos. Não é. E continua a existir, como existirá sempre, uma pressão constante de subir até ao topo, apenas para chegarmos lá acima e percebermos que, afinal, a vista não seria assim tão bonita, e a queda seria tão grande que nos deixaria paralisados – se nos mexêssemos, rebolaríamos até cá abaixo. Continua a existir o melhor, e o máximo, adjetivos dourados que trazem penduradas em si menoridades como a exaustão total, a falta de sanidade mental, e o querer subir a escada a pisar cabeças nos degraus. Continuam a existir consciências pesadas e horas perdidas, e corridas às tabelas para ver os números redondinhos e brilhantes que nos reduzem a notas. E é porque tudo isso existe, e tudo isso tem o seu quê de triste, que eu me sinto uma sortuda. Sinto-me uma sortuda porque encontrei estudantes na NOVA School of Law que são trabalhadores, perfecionistas, e que estão habituados a ser os melhores, sim; e que, por obra e graça, quem sabe, de si mesmos, ainda têm espaço no seu íntimo para quererem mudar o mundo. E não, não falo de ir trabalhar para a ONU ou de ser um grande diplomata. Falo de mudanças do mundo que começam connosco, entre nós. Mudanças que começam quando alguém pega num núcleo como o Jur.nal e o revoluciona, o vira de cabeça para baixo, e nos faz perceber a todos que o mundo ao contrário é muito mais bonito (sim, Direção, são vocês que mudam o mundo). Mudanças que acontecem quando alguém se oferece para nos mandar apontamentos ou passa horas em chamada a tirar-nos dúvidas. Ou quando alguém vê o cansaço nos nossos olhos e nos diz “deixa estar, eu faço isso” sem pedir nada em troca. Mudar o mundo é encher o anfiteatro no dia do Martelo, e encher a reitoria no dia do Animus. E é trazer garrafões de casa para escorregar na lona. E é dar um chupa-chupa a alguém que precisa de se animar. E é desejar a alguém um “boa sorte” genuíno antes de um exame. É fazer companhia no caminho até ao metro, e é ouvir antes de querer falar. Mudar o mundo é tirar um tempinho da nossa corrida desenfreada pelos adjetivos dourados para rirmos com os nossos amigos. É pararmos durante uns minutos para nos lembrarmos de que depois de quatro anos, vamos às nossas vidas e 90% da nossa competição – dos nomes brilhantes das tabelas – nunca mais se vai cruzar connosco. E que isso significa que, no fim do dia, estávamos a competir com fantasmas, em vez de apreciarmos as pessoas reais, que só temos – realmente, genuinamente – durante uns míseros quatro anos. Depois disso, a vida mete-se no caminho e expulsa-nos das paredes da faculdade que nós tornámos um pouquinho mais nossas a cada dia. Depois disso, só há saudade. Eu paro muitas vezes para pensar em como essas paredes nunca estiveram tão bonitas como agora; em como essa beleza é tão efémera, porque se vai quando os artistas que mudam o mundo – as pessoas que eu admiro ao longe e ao perto – se forem também. Nesses momentos faço muita força para que, quem venha, também queira mudar o mundo. Esse é o paradigma que eu espero que nunca mude por aqui. JÁ ESTÁ A MUDAR, dizem eles. Oh não, eles não sabem que mudar o mundo não é só ir para a ONU ou ser um bom diplomata. Eles não sabem que se muda o mundo só com um abraço. Eles não sabem que ser melhor não é ter o cargo mais cobiçado. Eles não sabem que ser melhor é uma arte, porque não nasceram artistas. Eles não sabem. ACORDEM MALTA, SER ARTISTA É BUÉ FIXE. Queiram ser artistas, caraças. Queiram fazer arte com as paredes da nossa faculdade. Queiram olhar mais para a pessoa ao vosso lado do que para o papel à vossa frente. Guardem isso para quando as pessoas ao vosso lado forem desconhecidas e o papel for o vosso melhor amigo. Mas agora não. Agora sejam artistas e mudem o mundo, porra. Eu não estou preocupada – sim, pareço. Mas não estou. Há de tudo um pouco em tudo quanto é lado. E na nossa faculdade há de tudo um pouco, mas há muito de humanidade – eu que o diga, que já o experienciei em primeira mão, mais vezes do que as que as minhas mãos conseguem contar (sorte, sorte, sorte). Na nossa faculdade, há pessoas enormes. Bolachas que nem sequer cabem nos pacotes. Pessoas que escolhem não andar à batatada, e que partilham a vista de lá de cima sem pisar cabeças para subir. Salvadores do mundo em quem se pode confiar de olhos fechados e que encontram na faculdade muito mais do que um curso – encontram paredes e fazem delas arte. Enquanto existirem pessoas assim, eu não estou preocupada. Acho que a NOVA School of Law ficará bem, mesmo que a média do último colocado desça, e mesmo que a rega do relvado dispare com pessoas lá sentadas, e mesmo que não haja cartões de estudante. Acho que a nossa faculdade ficará bem, desde que tenha o melhor de nós.

  • Uma típica véspera de exame

    23:56 - Ok, António, podes não saber nada para o exame, mas a sebenta só são 80 páginas, isto em 8 horas faz-se bem. 00:34 - Escuto, até agora tudo bem, conceitos básicos são, de facto, básicos. Boa sebenta, linguagem simples e fácil de entender. Detetado apenas 3 usos de latim. Vou por um lofi. 00:57 - Eu sou um fucking génio, para quê ler manuais ou ir às aulas quando tens sebentinhas. 01:23 - Doutrina. Bem, o exame é com consulta, portanto não tenho de saber tudo de cor. 01:46 - Vou tweetar sobre as minhas experiências com o estudo para mostrar às pessoas que percebo a matéria. Hahaha. Piada jurídica. Sou tão quirky. 01:56 - Piada jurídica 02:06 - Piada jurídica 02:26 - Piada jurídica. Sou tão quirky. 03:02 - Como assim só vi 13 páginas 03:05 - Mas o que raio é isto? isto está explicado sequer? COMO ASSIM? O CÓDIGO CIVIL ESTÁ MAL ESCRITO, É O VOSSO TRABALHO ESCREVER LEIS 03:27 - Piada jurídica. Haha. 03:35 - Ok. Por algum motivo estou cansado. 3 shots de café, boraaaaaaaaaa. 03:40 - GO GO POWER RANGERS, VAMOS A ISTO HORA DE METER O HYPER POP 03:48 - ISTO IMPORTA? PROVAVELMENTE NÃO 03:49 - SE ELES QUISESSEM QUE EU SOUBESSE TUDO SÓ PASSAVA COM 20 03:59 - TALVEZ AS NOTAS SEJAM OS AMIGOS QUE FIZEMOS PELO CAMINHO 04:20 - FALTAM-ME 20 PÁGINAS VÁ LÁ VÁ LÁ TU CONSEGUES 05:00 - Eu não consigo continuar a fazer isto. Como é suposto alguma vez desenvolver uma relação saudável com o curso em que estou se só interajo com ele em situações de alto stress? Isto não é sustentável. 05:01 - Ayo esta matéria é bué fácil soube responder a meio exercício para quê passar um semestre a aprender o que podes numa noite. 06:02 - O céu está pintado de azul claro. A manhã chegou, e desta vez eu acordei antes dela. Desligo a música, e ando lá fora. Os pássaros embalam-me os ouvidos, e à distância, carros inauguram o novo dia. O barulho que sabe a silêncio é o mais doce de todos. Inspiro. Está tudo bem. Está tudo bem. 07:46 - Volto a casa, pego nos materiais, e caminho até ao exame. Talvez a obsessão pelas notas seja a doença, e não a minha preguiça. Talvez tudo o que baste é fazer o meu melhor, e deixar o ar matinal embalar-me. Está tudo bem. Vamos a isto. 09:37 - ONDE É QUE ESTÁ A PUTA DO ARTIGO EU VOU TÃO CHUMBAR A ESTA MERDA

  • planeta dos chicos espertos

    todos os sacanas são intelectuais torna-se impossível identificar os sacanas naturais e os sacanas especiais que sabem como pôr o mundo para si a andar e a funcionar quem o poder tem é exatamente quem não o devia ter e quem te avisa teu amigo é por mais que o ande sempre a dizer miseravelmente podre estou porque de sacanas rodear me deixei desaprendi de ser quem sou para com eles ser o que menos esperei toquem em relva, façam festas a gatos que a vossa vida não seja o que a manada decidir que os sacanas não vos tornem inaptos a uma vida normal e feliz prosseguir não permitam que o vosso apetite falacioso que os vossos olhos vidrados vos deixem no fundo do poço hediondos e vilmente encaralhados não consigo terminar pensamentos já estou demasiado inserida na cruel convivência talvez fora do espetro nos encontremos quando o que os outros querem não seja uma influência para o que pretendo do meu destino para o que da minha vida faço ainda que à mínima merda perca o tino e das coisas faça demasiado caso agradeço a quem acompanhou o disparate especialmente se um sacana o tiver lido peço desculpa pelo empate e assim expulso o que tenho retido

  • Rio

    Fim do ano traz nostalgia, uma certa vontade de viver tudo o que fomos adiando ao longo dos dois semestres longos, últimos dias, viver tudo de uma vez, porque só se vive uma vez. O último teste do semestre, aquela aula, a única de todas, a que nunca faltámos, do inicío ao fim, o rapaz da fila da frente que não falha uma única cadeira, o professor doutor claramente cansado da turma, as olheiras... mas é só mais aquele esforço. A seguir, há jola no São Paio e umas quantas semanas académicas onde ir, mais um ensaio da tuna, jantar de amigos no lidl, devido à precária conta bancária e malas feitas para casa, não esquecer de levar o Código Civil atrás, Deus nos livre de nos esquecermos! Todos os amigos antigos "em casa", mas ninguém se encontra, afinal de contas, agora são exames. Também já não é a mesma coisa, falta é o barulho do pessoal do 2ºano, o 3ºano reivindicativo e o 4º que quer meter medo. É olhar para trás, para onde é que Setembro já foi? Vir de t-shirt para a faculdade, ser praxado e a maior preocupação ser microeconomia. Agora, é mais pesado. O limbo entre trajar e ser ainda aluno do 1ºano, a dúvida dos créditos necessários para chegar ao 2ºano, querer continuar nos núcleos, formar mais núcleos, ver padrinhos a ir embora, ter medo das mudanças, manter os amigos. Como atravessar a ponte, depois de regressar da casa daquela amiga, de repente silêncio, acabaram as aulas, estou num comboio e depois volto para casa do pai, com um manual de casos práticos e um trolley minúsculo, de quem não chega propriamente a ser deslocada, mas que anda sempre de um lado para o outro. E estou por cima do rio, é lindo e ao ver aquilo e ao pensar para trás, desde Setembro, desde o animus, desde o traçar, desde a margem, fui mais eu do que nunca, fui feliz como não fui antes. Pensas que se o comboio fosse parar ao rio tinhas sido feliz, mas tens medo, que não caia por favor, quero isto outra vez, viver mais, sorrir mais. Passar a cadeiras, ir a festas, organizar festas, abraçar padrinhos, levar as amigas a dormir lá a casa, ser da tuna, ser da praxe, ser de Direito. É estranho pensar no sentimento de pertença mas se tivesse de definir diria que é aqui, agora sim.

  • És grande, mas não grande coisa

    É com o crescimento que aprendemos o que sabemos, mas acredito que haja outra forma de aprender a viver senão com socos no estômago matinais, sufocos vespertinos e facadas ao crepúsculo. Crescimento não devia ser sinónimo de dor constante. Aliás, penso que só assim se tornou a partir da puberdade, quando as dores de ossos remetiam para um esticanço corporal. O que não deixa de ser irónico que, nas idades mais esticadas pelo tempo, as dores de ossos já remetam para um encolhimento ou disfuncionamento corporal (também conhecidas como alertas para o frio/chuva). Talvez a dor seja ainda mais prematura do que eu pensava. Talvez o meu crescimento tenha vindo ainda das dores de joelhos ralados, dos dentes que tentava arrancar mal via que a visita da fada dos dentes estava para chegar, ou das nódoas negras que ganhava diariamente (sabe-se lá como). Desde cedo reconhecemos o que é uma dor física, para depois nos habituarmos às dores psicológicas, mas, recentemente descobri as dores de alma. Não me dói apenas o corpo ou apenas o cérebro, dói-me a alma. Dói-me ter de pintar a minha alma de uma cor que ela não é e de ter de a apresentar a todos vestida como eu quero que ela se vista, e não como ela gosta de estar vestida. Dói-me a alma da incompreensão e das falhas de comunicação. Dói-me a alma de fingimento, mas acima de tudo, de amor ao que esse fingimento me proporciona. Todos nós amamos algo que não devemos, e todos nós deixamos que o nosso alimento seja o que esse amor nos oferece. Tantos a passar fome e tantos com o rei na barriga. Que um dia seja possível crescer sem ter de viver como se vive, que um dia a vida seja exatamente o que ela define- vida- e não uma morte lenta ou um caminho para esta. Que se crie vida onde quer que se vá e que se deixe a alma sair à rua como ela quer sair, seja vestida em demasia, seja completamente nua. Que nada fique por dizer, que tudo seja feito quando o deve ser, e que o ser humano aprenda a viver sem com a dor se entreter.

  • Carta de Apresentação do Núcleo Jurispride

    Querida comunidade académica, Queremos apresentar-vos o projeto que temos vindo a desenvolver ao longo deste ano, que abrirá portas a uma faculdade mais inclusiva, compreensiva e aberta: O núcleo Jurispride. O Jurispride nasceu da vontade de dar voz a uma comunidade que ainda não tinha encontrado o seu cantinho na faculdade, de reunir alunos de diferentes identidades num espaço seguro e de amizade, vocacionado para a educação e para a inclusão de todos, cultivando uma mente aberta e compreensiva. E era de facto importante que este espaço fosse criado, não só para finalmente representar os alunos LGBTQIA+, mas também para desmitificar o que vem por detrás dessa causa, unir estudantes pelas suas diferenças e proporcionar experiências que até agora não temos visto nos núcleos já existentes. Precisamente, o objetivo não é criar uma barreira entre a comunidade LGBTQIA+ e os demais estudantes, mas sim dar espaço para o entendimento e para a educação, bem como dinamizar atividades, tais como workshops, momentos de partilha, diversão e aprendizagem entre todos. Todos os alunos são bem-vindos a integrar o núcleo, com uma mente aberta e vontade de descobrir o que muitas vezes pode parecer distante e assustador. O núcleo tem já planos para este verão. Apesar do atual mandato ser curto, não podíamos deixar passar o mês mais importante da comunidade. Junho traz consigo história e a vontade de sair à rua e gritar pelos direitos de todos. Assim, o Jurispride convida os alunos interessados para aparecerem na Marcha do Orgulho, dia 17 de junho, bem como no Arraial de dia 24, onde estaremos também presentes. Esta será uma ótima maneira de nos darmos a conhecer e convivermos. Para além disto, durante o ano letivo, temos também surpresas planeadas, para que quem queira possa participar neste núcleo de alguma forma. Estas incluirão momentos lúdicos e recreativos, bem como os anteriormente mencionados, workshops e momentos de partilha. E sendo este núcleo de especial importância, comprometemo-nos a ouvir os alunos da comunidade LGBTQIA+, nos seus desafios e experiências que possam passar na faculdade, e fora desta, tomando uma posição ativa para a resolução e exposição das mesmas. Esperamos poder contar contigo para este projeto! A direção, Margarida Mouquinho Marta Cardoso Marta Pereira

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