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- Rabisco Azul
Fizeste um rabisco nas notas do meu telemóvel. Era meio de julho, íamos no autocarro lado a lado a voltar para casa para as férias grandes. Estava muito calor, mas saía uma brisa fresquinha de uma janela perto do teto, que fazia mexer, de quando em vez, um ou dois cabelos teus. Pegaste no meu telemóvel - como tinhas feito tantas vezes antes - e fizeste o tal desenho de criança. Eu nem percebi a forma que tinhas desenhado, mas lembro-me de pensar que o ia guardar para sempre: acho que o meu subconsciente sabia que era das últimas coisas que ia ter vindas de ti. Lembro-me de olhar para ti durante muito tempo nessa viagem, mas o teu foco estava várias vezes no teu telemóvel. Em aplicações novas. Em coisas novas. Em pessoas novas. A meio da viagem tiraste os fones da mochila, puseste um no meu ouvido - como tinhas feito tantas vezes antes - e puseste música a dar. Já não eram os teus fones com fios que costumavas usar. Estes eram com Bluetooth, e eu já não gostava tanto deles. Outra coisa nova. Já ninguém usa fones com fios. As pessoas só querem coisas novas. Disseste que me querias mostrar uma música – como tinhas feito tantas vezes antes – e mostraste. Abriste o Spotify e puseste a letra à minha frente; nunca to disse, mas tu já sabias que eu adoro ler as letras quando oiço música nova. Afinal, sempre foste a pessoa que sabe mais coisas sobre mim. Ouvimos música atrás de música e eu esforcei-me muito para perceber o que tentavas dizer com cada uma, porque nós só falávamos assim. Mas acho que nesse dia não estavas a tentar dizer nada. Acho que nesse dia as músicas eram só as músicas, e os significados já tinham sido gastos nas pessoas novas. Houve um momento em que pousei a cabeça no teu ombro – como tinha feito tantas vezes antes – fechei os olhos, e tudo pareceu voltar ao normal. Desejei o nosso normal com muita força. Mas nada daquilo era normal. De repente havia entre nós muito espaço - tu estavas sentado à entrada do autocarro e eu estava nos últimos bancos de trás - e eu não o conseguia preencher, por muito que quisesse. Não podia sair do lugar que estava escrito em tinta desbotada no meu bilhete. E tu não podias sair do teu. Éramos vítimas do motorista distraído que nos separou, filas de cadeiras entre nós: eu nunca quebraria as regras, nunca me sentaria num lugar que não era o meu – era esse o teu problema. Tu quebrá-las-ias, noutros tempos, levantar-te-ias e virias para o lugar vazio ao meu lado; mas não mais. Já chegava de quebrar regras que eu não estava disposta a quebrar. E depois quando abri os olhos estavas ao meu lado, contemplativo, a responder a uma mensagem. A música continuava a soar, mas parecia-me cada vez mais longe. Disseste que estavas a ficar sem bateria, então trocámos para o meu telemóvel, e fiquei eu a escolher. Esforcei-me muito para que percebesses o que estava a tentar dizer, mas se o percebeste fingiste bem que não. E tu nunca foste um fingidor (apesar de te fascinar o meu gosto pelo poema). Também não te riste muito nessa viagem. Lembro-me de pensar que não te ouvia a rir a sério há muito tempo; de pensar que antes estávamos sempre a rir. Lembro-me que me passou, por uns segundos, uma imagem na cabeça: tu, deitado de barriga para cima, com os olhos fechados com muita força e a rir como se toda a alegria de todas as crianças do mundo tivesse entrado dentro de ti. Nem me lembro se fui eu que disse alguma coisa engraçada. Mas sei que perdemos as coisas engraçadas para dizer um ao outro algures no caminho do tempo. Gostava de ter feito um vídeo desse momento para nunca me esquecer dele: nós esquecemo-nos das coisas pequeninas; acho que é delas que dói mais lembrar. Mas queria poder vê-lo na caixinha de memórias com que ando sempre no bolso de trás das calças. As pessoas dizem que pertenço a uma geração de viciados, mas ninguém me convence de que ter uma caixa de memórias não é um superpoder – eu tenho o superpoder de voltar atrás no tempo sem sair do lugar. Devíamos ter tirado mais fotos e vídeos enquanto tínhamos vontade de criar memórias. Devíamos ter enchido a caixinha de nós. E assim eu não me esqueceria. E poderia viajar no tempo. Estávamos prestes a chegar e o lusco-fusco do autocarro tornava-nos ainda mais pesados do que já estávamos. Aquele era um dia de finais, e eu sabia-o. Fiz as minhas despedidas silenciosas. Olhei-te durante muito tempo. Mostrei-te todas as músicas que queria e disse tudo o que queria dizer através delas. Encostei a cabeça no teu ombro e teletransportei-te para a minha imagem mental favorita de ti. Guardei o rabisco como prova de que, pelo menos por um dia, ainda estavas lá. Porque nunca farias o rabisco se não estivesses. Nesse dia, ainda estavas comigo, apesar de estares de partida para destinos novos. E eu sabia-o. Se não o soubesse, não teria feito as minhas despedidas silenciosas. Mas fi-las sem saber: às vezes, o meu coração sabe coisas antes de o meu cérebro sequer as compreender. Às vezes, o cérebro nunca chega a compreender o que o coração já sabe. E às vezes, parece que estão num ringue de boxe a lutar para ver quem leva a sua avante, quem compreende melhor, quem sabe primeiro. O coração tende a ser mais perspicaz, mas mais discreto. O cérebro demora mais, mas quando compreende é brutalmente honesto. Acho, no entanto, que nesse dia o coração tinha o ringue todo para ele. O cérebro ainda não tinha percebido que aquele autocarro era o nosso final. E, então, a honestidade impetuosa não estava lá. E o coração deixou-me ter as minhas despedidas sob a ilusão de que eram só os mesmos velhos hábitos, de que nós ainda existíamos juntos. Até esse dia, sempre tinha gostado de autocarros. Sempre tinha pensado que eles traziam histórias muito diferentes de pessoas muito diferentes em momentos muito diferentes. Eram um pouquinho como as caixinhas do bolso de trás das calças: mais recatados, mais secretos, mas igualmente testemunhas de fantasmas da vida, e da felicidade, e da tristeza, que deixaram outrora riscos nas cadeiras, desenhos nos vidros embaciados, botões do ar condicionado ligados e cortinas fechadas. Fantasmas da amizade e fantasmas do amor, que se sentaram nos lugares onde nós nos sentámos e partilharam esperanças e planos para o futuro. Mas para nós não havia futuro. E eu deixei de gostar de autocarros. No fim de contas, toda a gente sabe que os autocarros nunca são novos. E as pessoas só gostam de coisas novas. Sempre que abro as notas do telemóvel, e vou à procura das mais antigas, encontro o teu rabisco azul. Dei-lhe o teu nome – pareceu-me justo. Continuo sem perceber a forma. Vê-se melhor quando o telemóvel está no modo escuro. O raio do desenho. Não é uma foto da minha caixinha de memórias, então quando abro as notas nunca estou à espera de o ver. Vejo-o. Lembro-me. Fecho as notas. Nunca o apago. Tê-lo dá-me um superpoder de voltar atrás no tempo. Tê-lo deixa-me agarrada à esperança de que, se te voltar a ver, vais rir (com toda a alegria de todas as crianças dentro de ti) quando to mostrar e fazer outro ao lado, igualmente desajeitado. E então, mesmo se eles não forem novos – especialmente se eles não forem novos – eu vou voltar a gostar de autocarros.
- Os anos não olham para trás
Quase todos já sentimos o sufoco que é ver a vida a escorrer-nos pelos dedos. Fazemos contas de cabeça, calculamos os anos que faltam para chegar aos 20, aos 30, aos 40, somamos os que ficam para trás e subtraímos os que nos restam . E quando já não temos o que subtrair, apercebemo-nos que vivemos com uma certa obsessão por toda esta precisão matemática. Um hábito e uma insistência que nos persegue e nos tortura de dentro para fora. Repetimos as contas, ano após ano, enquanto cobiçamos o que fica para trás. Não é por acaso que Fernando Pessoa escrevia incessantemente sobre a infância: é nela que residem as memórias das quais somos forçados a despedirmo-nos. Vemos os anos a fazer as malas e a partirem, após nos terem envolvido e despedaçado o coração e a alma. E quando o presente se torna demasiado penoso, olhamos para trás, na esperança perdida de reencontrá-los. Esquecemo-nos, inocentes, é que os anos não olham para trás. Refletimos neles o que fomos e eles refletem o que já não somos. Voltamos a contar pelos dedos reticentes quantos anos estão por chegar, encarando com puro desalento aqueles que se juntam à soma. Atormenta-nos a consciência de que, quanto maior for o resultado, mais responsabilidades teremos de assumir. Mas aqueles que ainda procuram pelos anos que se foram, riscam essa palavra do dicionário com tinta permanente. Tememos a existência futura como um fardo, que nunca nos pesou nem nunca carregámos às costas. O ser humano incorre assim numa circularidade implacável em si mesma: olha para trás para, de seguida, olhar para a frente, vezes e vezes sem conta possível. Mas a verdade é que por mais que revolvamos e voltemos a revolver, não temos um vira-tempo que nos permita reviver o que outrora foi vivido e que não pode ser repetido. Vinte, trinta, quarenta voltas ao sol não tornam uma pessoa menos digna de viver, mas insistimos em andar no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Fazer tantas contas reduz o verbo “viver” ao absurdo e ao ridículo, esmaga o seu sentido, torna a existência numa ampulheta efémera que faz tremer o chão onde pousamos os pés. Não é só sobre viver o presente, nem nunca foi: é sobre deixar de viver um passado que não conseguimos reviver.
- A resistência do feminismo e a justiça da exclusão
A discriminação no mundo jurídico é uma questão significativa que tem atraído a atenção de vários estudiosos do direito, profissionais e de vários decisores políticos. Apesar do amplo e crescente reconhecimento do problema, a discriminação nas profissões jurídicas continua a ser um problema persistente em muitos estados, incluindo o português. Como é de common sense a discriminação pode assumir múltiplas formas, incluindo etnia, sexo, orientação sexual, idade e incapacidade(s), e pode ocorrer em várias fases de uma qualquer carreira jurídica, ou outra, desde o recrutamento até à promoção, progressão numa carreira e atribuição de novas funções. Neste texto, centrar-me-ei na discriminação contra as mulheres nas profissões jurídicas em Portugal, tentando tocar nos vários factores que contribuem para a discriminação de género e o impacto de tal discriminação nestas profissões. Especificamente, irei analisar o papel dos estereótipos e preconceitos de género normas culturais, práticas e políticas institucionais na perpetuação da discriminação de género na profissão jurídica. Irei também tocar aqui e ali formas como a discriminação de género limita as oportunidades de avanço das mulheres e mina a diversidade e inclusividade das profissões jurídicas. Com está análise, espero lançar alguma luz sobre a prevalência da discriminação de género no mundo jurídico em Portugal, bem como oferecer recomendações de como abordar esta questão tão crítica. Uma vez identificadas as causas profundas da discriminação de género, (que não terei tempo de fazer na economia desta pequena apresentação) e propondo eventuais soluções baseadas em provas, poderemos trabalhar no sentido de tornar as profissões jurídicas mais inclusivas, diversificadas e equitativas. A questão da discriminação de género no domínio jurídico em Portugal está intimamente ligada à questão mais vasta do todo da desigualdade de género e aos desafios enfrentados pelas mulheres na sociedade de forma mais ampla. Apesar dos progressos significativos registados nas últimas décadas, as mulheres em Portugal continuam a enfrentar barreiras a uma plena igualdade, incluindo no local de trabalho. Isto abrange, claro, o mundo da advocacia, que registou um aumento significativo do número de mulheres que entraram neste campo nos últimos anos. Ter-se-á este movimento diretamente refletido em práticas concretas? Não! A crescente feminização dos contingentes que tem acedido cada vez mais a profissões jurídicas, na prática não se traduziu, em boa verdade, numa maior igualdade de género. As mulheres a trabalhar em profissões jurídicas em Portugal continuam a enfrentar barreiras significativas, muitas vezes “de vidro” à sua progressão, e a sofrer discriminação de género em múltiplas fases das suas carreiras. Isto levou a uma proatividade crescente dentro dos movimentos feministas em Portugal, onde as mulheres aceleram no defender de uma maior representação e inclusão e a desafiar as barreiras sistémicas e culturais que continuam a limitar as suas oportunidades de progressão. “A justiça da exclusão” é um fenómeno particularmente prevalecente nos escritórios de advogados, onde as mulheres e alguns grupos tidos como marginais vêm-se frequentemente subalternizados em posições de poder e influência. Isto tem tido um impacto significativo no que toca tanto a diversidade como inclusividade nesta profissão. É essencial que a lei reflita as necessidades e interesses de todos os membros da sociedade. Este fenómeno, como disse, não se aplica apenas às mulheres. Repetindo, a discriminação, discriminação no mundo jurídico inclui etnia, orientação sexual, idade e incapacidades. Os membros destes grupos podem enfrentar – e muitas vezes enfrentam - discriminação na contratação, promoção, e outros aspectos das suas carreiras. Normas sociais e culturais, sublinho, podem também contribuir para a discriminação, perpetuando estereótipos e preconceitos. Creio que para combater a discriminação em profissões jurídicas é fundamental implementar políticas e práticas que promovam a diversidade e a inclusão, destes agrupamentos. Tal pode incluir medidas como o combate a uma cristalização de preconceitos – muitas vezes inconsciente- fomento de iniciativas positivas de contratação (positive discrimination) de diversidade, e programas de mentoria e trabalho em rede para grupos sub-representados. É também crucial levar a cabo práticas e políticas institucionais que possam estancar o avanço de certos grupos nas várias profissões jurídicas, porventura criando mecanismos de discriminação positiva que equilibre a composição destes. As mulheres, a discriminação e equidade Após assistir ao simpósio que contou com a presença da Professora Helena Pereira de Melo e empreender alguma investigação pude iluminar o facto de que ainda hoje as mulheres enfrentam obstáculos significativos nas profissões jurídicas. Insisto, mexendo nos preconceitos e estereótipos implícitos, na falta de acesso equitativo a posições de liderança, e na discriminação em decisões de em bónus e outras compensações e promoções. Mais chocante ainda, sabemos que as mulheres nas profissões jurídicas são também mais susceptíveis do que os homens em sofrer assédio sexual e discriminação. Muitas vezes tal e feito com base em argumentos economicistas - como a gravidez e as responsabilidades familiares. Questões que não prejudicam os homens, mas que devem por razões que julgo óbvias, apesar de existentes diferenças há que garantir, la onde é possível, alguma equidade. A situação existente gera problemas sérios. O impacto da discriminação de género nas mulheres que exercem as profissões jurídicas é significativo. Isto leva a vários cenários infelizes. As mulheres são bem mais propensas a abandonar a profissão mais cedo do que os homens devido às discriminações que estão sujeitas, e frequentemente enfrentam disparidades salariais significativas em comparação com os seus homólogos masculinos. A discriminação, sabemos, limita as oportunidades de progressão das mulheres, tornando-lhes mais difíceis de alcançar posições de liderança ou de efectuar mudanças significativas no âmbito das profissões jurídicas. Com a finalidade de atingir este objetivo, há que reconhecer a importância de ir denunciando os estereótipos e preconceitos de género, fomentar políticas e práticas que apoiem o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal por um lado, e por outro o desenvolvimento na carreira. Criando uma cultura de inclusividade e respeito. O que requer colaboração e envolvimento de toda a comunidade jurídica, incluindo estudiosos do direito, profissionais, decisores políticos e organizações da sociedade civil. Visão constitucional A discriminação das mulheres no mundo jurídico português, não viola apenas preceitos e valores socialmente reconhecidos num estado de direito. Viola, também, vários artigos da Constituição da República Portuguesa (CRP), que garantem a igualdade entre homens e mulheres em todos os domínios da vida pública e privada – direitos constitucionais esses que muitas vezes infelizmente não são cumpridos. Em primeiro lugar, o artigo 9.º da CRP estabelece que "incumbe ao Estado promover a igualdade entre homens e mulheres", incluindo no acesso ao emprego e na igualdade de remuneração pelo mesmo trabalho. A discriminação de mulheres no mundo jurídico português também viola este princípio, uma vez que as mulheres muitas vezes enfrentam obstáculos ao acesso a posições de liderança e são remuneradas de forma desigual em relativamente aos colegas do sexo masculino. Para além disso, o artigo 13.º da CRP estabelece que "todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei", sem mencionar a distinção de género, visto tomar como tácito que a dignidade social e igualdade perante a lei a implicam. Sublinhe-se a alto e bom som: discriminação de mulheres no mundo jurídico português viola este princípio fundamental da igualdade, uma vez que dificulta às mulheres o acesso a posições de poder e influência e as limita também a oportunidades de carreira deste setor. Importante é também o artigo 26.º da CRP, que estabelece o direito de acesso à justiça e à tutela jurisdicional. A discriminação de mulheres no mundo jurídico português pode impedi-las de aceder à justiça e à tutela jurisdicional em igualdade de condições com os homens. A falta, falta de representação e influência feminina pode resultar em decisões judiciais desiguais e por isso injustas. Vale a pena, igualmente, mencionar que o artigo 59.º da CRP garante a liberdade de escolha de profissão e o direito ao trabalho. A discriminação de mulheres no mundo jurídico português pode impedir as mulheres de exercerem a sua profissão escolhida em igualdade de condições com as dos homens. O que viola este princípio fundamental da liberdade de escolha de profissão e do direito ao trabalho que o artigo plasma. Final remarks Numa última análise, as profissões jurídicas têm um papel diacrítico a desempenhar na progressão da igualdade de género e por essa via na da justiça social em Portugal. Ao reconhecer e abordar os desafios da discriminação de género em profissões jurídicas, podemos transformar o nosso sistema jurídico num mais justo e equitativo para todos. Num novo sistema no qual todos têm a oportunidade de ter sucesso e de contribuir para o avanço do Estado de direito e dos direitos humanos.
- As meninas também sabem jogar à bola
É indiscutível que, desde sempre, o futebol foi visto como um desporto de homens, e para os homens. Da mesma forma que desportos como a ginástica sempre foram vistos como sendo de mulheres, e para as mulheres. Este estereótipo dos desportos existirem para serem praticados consoante um género específico é algo que está presente desde cedo - os meninos jogam futebol no recreio, as meninas não. É uma ideia parva, atrasada e não é uma realidade, existe apenas aos olhos de certos membros da sociedade, também eles parvos, e atrasados. Felizmente, é também indiscutível que esta ideia tem sido ultrapassada ao longo dos tempos, e parece que as pessoas estão cada vez mais preparadas para se abrirem à ideia de que sim, as meninas também sabem jogar à bola. O problema da falta de representação das mulheres no desporto não existe só no futebol, mas sendo ele o desporto preferido dos portugueses, é fácil de perceber o porquê de lhe ser dado prioridade neste debate. Este problema também não parte apenas da falta de interesse dos adeptos. Francisca Nazareth, jogadora do Sport Lisboa e Benfica e também da Seleção Portuguesa de Futebol, falou recentemente, na eleven sports, sobre um encontro que teve com adeptos do seu clube, que a questionaram sobre o porquê de os jogos da equipa feminina não serem todos no Estádio da Luz, tal como os da equipa masculina. A mesma disse que também gostava que assim fosse, mas que não sabia se valia a pena abrir o estádio para jogos que, muitas vezes, apenas tinham 200 pessoas a assistir. Os adeptos responderam que, não importa o jogo ser de futebol feminino, as pessoas vão querer apoiar o seu clube. Ao abrir mais vezes as portas ao futebol feminino, mais oportunidades os adeptos vão ter de ir ver, de apoiar, até se tornar um hábito, vão se gerar melhores resultados, porque as atletas também vão estar mais motivadas, e com esses resultados, ainda mais pessoas vão começar a aparecer, e é assim que o desporto cresce - “A partir daí, as pessoas iam começar a ir aos jogos, a ver que o nosso futebol é bem jogado” - como disse a mesma. Claro que neste exemplo falamos do Benfica, um clube com mais condições de desenvolver a modalidade em comparação a outros, algo que também é um problema impossível de ignorar. Esta dificuldade que o desporto feminino tem em desenvolver-se parte muito do pouco destaque que lhe é dado por aqueles que têm esse poder. Afinal, como é que as pessoas sabem que podem apoiar o futebol feminino se muitas vezes nem sabem o que está a acontecer? Por exemplo, em fevereiro, a seleção portuguesa feminina de futebol venceu os Camarões e garantiu o apuramento para o mundial do próximo ano, algo que nunca antes tinha acontecido. Este acontecimento chegou à capa do jornal “A Bola”, sim, mas em letras pequenas e no rodapé, certamente um lugar de destaque digno para o que as atletas portuguesas conseguiram conquistar. É possível chegar à conclusão que o grande problema não é a falta de interesse das pessoas, sim, este ainda não é enorme, mas está a crescer. Os jogos têm cada vez mais audiência - atingiu-se um novo recorde de assistência num jogo de futebol feminino oficial em Portugal (15032 espectadores) em janeiro deste ano, num dérbi entre o Sporting e o Benfica - o que demonstra o novo entusiasmo que se começa a sentir entre os adeptos. O que falta realmente é esse entusiasmo ser acompanhado com informação e notícias sobre os jogos, as atletas e as novas conquistas que tanto custam a ganhar. Afinal, sendo o futebol um desporto tão querido em Portugal, de certeza que também há espaço (e vontade) para ver as meninas a correr atrás da bola.
- Ode à menina adolescente
Um dia acordei. Um dia que, à partida, se parecia com tantos outros. Um dia acordei e olhei-me ao espelho. À minha frente não se apresentava, ao contrário de todas as outras vezes, o meu rosto habitual, aquele que instantaneamente reconhecia. Em vez disso, pensei ter recuado no tempo, ao ver naquela superfície refletora uma versão mais jovial de mim. Olhei incrédula para a imagem que diante de mim se encontrava: exatamente as mesmas feições, mas menos marcadas pela passagem do tempo. Era eu, a mesma eu, com 13 anos. O primeiro instinto foi tocar desesperadamente na minha própria cara. Verificar se, de facto, o que estava refletido tinha uma materialização na minha fisionomia. Levei as mãos à testa, tentando detetar as cordilheiras de erupções que me costumavam atormentar. Quanto mais percorria a minha pele em busca das montanhas e vales que nela costumavam existir, mais me afligia quando tudo o que encontrava era uma vasta e suave planície. Olhei nos olhos daquela criatura. Quem também pudesse contemplar aquela imagem não repararia de imediato nas regiões escurecidas debaixo dos meus olhos. Antes, seria presenteado com um brilho inofuscável irradiado pelas duas órbitas, que nem duas lanternas. O cabelo, apesar de manter o mesmo tom, havia alterado o seu comprimento. No espelho, estava substancialmente mais comprido, cobrindo parte da face daquela miragem. Eu sabia que na realidade atual, no eu atual, ele só ia até aos ombros. Mais calma, decidi afastar-me do alcance do espelho, dando um passo ao lado. Depois, voltei ao sítio onde me encontrava inicialmente, mantendo o contacto com a superfície refletora. A figura voltou também. Repeti o processo mais uma, duas, três vezes. E de todas as vezes que me olhava, olhava para o outro eu. Saí daquela divisão. Fui procurar um espelho mais pequeno, que tinha guardado na mesa de cabeceira. Ao retirá-lo, esperava ansiosamente pela comprovação de que o primeiro espelho sofria de um qualquer problema técnico, para o qual eu não tinha explicação. Olhei, a medo, e confirmou-se: a reflexão mostrava uma adolescente. Confusa, e com o coração a mil, parti em busca de todos os espelhos que me lembrava possuir. Sem exceção, em cada um deles o resultado foi o mesmo. Desesperei. Dei voltas à casa. Toquei vezes e vezes no meu rosto e cabelo. O que as mãos sentiam não coincidia com o que os olhos viam - as mãos tocavam numa adulta de 23 anos e os olhos viam uma adolescente de 13. A dada altura, olhei para o relógio, e apercebi-me que, com toda aquela correria e aflição, estava a atrasar-me para sair de casa. Vesti-me em frente ao espelho. Em pé, enquanto decidia se devia apertar ou deixar aberto mais um botão da camisa, refleti sobre a imagem bizarra que se formara diante de mim: a minha cara de puberdade no restante corpo adulto. Contemplei o ensemble que tinha escolhido. Além da camisa branca, vestia uma saia preta. Parei uns segundos para examinar as minhas pernas, e lembrei-me que quando tinha 13 anos acreditava que pernas não serviam para mais do que andar, correr ou saltar. Matutei sobre o momento em que esse pensamento foi substituído por outro, que consistia na análise obsessiva não da função, mas do aspeto daquele membro. Não o consegui descobrir. Acho que foi algo que se foi formando progressivamente na minha consciência, como um empilhar de tijolos na construção de um edifício. Já no autocarro a caminho das aulas sentei-me num dos bancos do fundo, num lugar junto à janela. Conseguia ver-me através do vidro, e, mais uma vez, o reflexo não era o habitual. A dada altura do percurso, dei-me conta de que um sujeito, que não conhecia de parte alguma, olhava fixamente para mim. Desviei o olhar, e contemplei a vista da minha janela. Encarei o sujeito novamente. Este permanecia imóvel, com o olhar vidrado. Senti um desconforto percorrer-me o corpo, e uma questão inquietou-me: qual dos dois eus estaria ele a fitar? Aquele homem cravava os seus olhos de forma ininterrupta, invasiva, incómoda, sobre uma jovem no início da adolescência ou sobre uma jovem no início da idade adulta? Qualquer um dos cenários causava-me um aperto no peito. Agarrei-me à mala que trazia no colo, de tal modo que os nós dos meus dedos ficaram salientes. Receava que aquele simples ato de olhar escalasse para algo mais dolorosamente marcante. Algumas paragens depois, naquilo que me pareceu uma eternidade, o homem saiu. Até aí, sentia que carregava um saco cheio de pedregulhos às costas. No momento em que ele abandonou, permiti-me finalmente voltar a respirar normalmente. Na faculdade tive a confirmação de que, de facto, para as restantes pessoas tudo estava como habitualmente, quanto à minha aparência exterior. Toda a gente com quem interagia tinha reações costumeiras, nada fugia ao exemplo paradigmático de um dia como outro qualquer. Exceto para mim. Enquanto estava nas aulas, imaginava vezes sem conta o cenário em que o meu eu de 13 anos tomava o lugar do meu eu atual, naquela sala de aula, com aquelas pessoas, a aprender aquelas coisas. Não conseguia evitar perguntar-me o que pensaria sobre o caminho que tomara, sobre as escolhas que fizera. Tinha agora a perceção de que, há 10 anos, não tinha a mais ínfima ideia das possibilidades efetivas que se poderiam revelar. Na altura trabalhava no domínio do abstrato, na consideração momentânea de que no futuro aquela coisa me iria trazer a máxima felicidade. Qualquer sonho parecia concretizável, estando apenas à distância da vontade. O mundo estendia-se aos meus pés como uma autoestrada. No presente, aproximava-se a passos largos o momento de entrada na verdadeira vivência adulta. Era intimidada pelo peso das decisões cada vez mais definitivas, e pelas implicações futuras das mesmas. À conta disso, vinha-me constantemente à lembrança a analogia da figueira da Sylvia Plath: “Eu via a minha vida a ramificar-se à minha frente como a figueira verde daquele conto. Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia ver. Vi-me sentada debaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com que figo eu ficaria. Eu queria todos, mas escolher um significava perder tudo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.” Naquela noite, enquanto comia sozinha o meu jantar aquecido, pensava na minha avó, que utilizava os alimentos como veículos do seu amor. Fonte inesgotável de conforto, acreditava que, se desejasse muito profundamente, o prato que comia se poderia converter magicamente num dos que ela me preparava. Pensava também na minha mãe, na mão dela que jamais deixou de estar estendida para mim, e em como o amor dela foi transformador, tanto para a adolescente do espelho, como para a jovem que dava lentas garfadas na comida. No dia seguinte acordei. Um dia que, à partida, parecia diferente de tantos outros. Corri para o espelho, esperando deparar-me com um cenário idêntico ao do dia anterior. Uma onda de desilusão instalou-se assim que me apercebi de que na imagem refletida já não se encontrava a menina de 13 anos, mas antes, eu mesma, no presente. Fui invadida por uma tristeza súbita quando cheguei à constatação de que não voltaria a ser ela, e, ainda pior, que nunca pude dizer-lhe adeus.
- O Segundo Sexo
A Mulher Enquanto Figura Jurídica “Não se nasce mulher: torna-se.”- O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir Seria na Bíblia que a primeira mulher, de nome Eva, tomaria por todas as seguintes o peso da culpa de carregar em si o pecado original. De tal modo, ao consumir a insolência, turvaria o seu útero com a imoralidade que lhe enchera os seios, as ancas e os glúteos, e a tornára num vulto de desejo e de pecado. Por sua culpa, como ditam as escrituras de homens santificados perante Deus, seria a mãe de todas as que nasceram cingidas ao seu erro, erro esse que afirmava a necessidade de o controlar pelo desígnio daquele capaz de resistir ao pecado, a vítima da indecência primordial da mulher, o homem. Ora o homem assim fez. Criou o plano jurídico onde no centro se situou, do mesmo modo que se situara no centro do universo, e posicionou todos os restantes na sua órbita. A mulher, claro, uma lua em função dele, nunca um astro em função de si. É com esta conclusão, da mulher em relação ao homem, que Simone de Beauvoir formula a sua crítica à posição da mulher na história da humanidade. Na sua obra, “O Segundo Sexo”, ela começa por demonstrar o rídiculo de ter de escrever algo sobre o sexo feminino, como se fosse algo a analisar. Em contraste, o homem não sente a necessidade de se identificar, de estudar o seu papel na sociedade, de criticar o seu posicionamento. Isto, pois o homem é autoevidente. Nunca fora posta em causa a sua dignidade e o seu direito à autodeterminação. Ora, o homem não sente a necessidade de entender o que é ser homem, já que ser homem é ter a habilidade de se definir. A mulher, contudo, estuda não o que ela é, mas o que a sociedade a faz. De Beauvoir então proclama que a mulher não se define em relação a si, mas é definida pelo homem em relação a ele. Tomando uma posição hegeliana, pela dialética, ela demonstra a diferenciação primordial inerente à consciência humana: "A categoria do outro é tão primordial como a própria consciência, nas sociedades mais primitivas e nas mitologias mais antigas encontra-se a expressão da dualidade - o eu e o outro". Tal como para cada tese há uma antítese, para cada eu haverá um outro. Curiosamente, nenhum grupo começa por se estabelecer a si “sem que uma vez estabeleça o outro contra si próprio", ou dito de outro modo, sem criar primeiro a distinção entre ele e o outro. Isto é equiparável à filosofia de Freud, particularmente ao seu trabalho em torno do “líbido” ou “Eros” que junta indivíduos ditos iguais e os separa daqueles que se manifestam como ameaças dadas as suas diferenças (o amor tanto junta indivíduos comuns como os separa dos desiguais). Diz de Beauvoir que “a própria consciência tem uma hostilidade fundamental para com qualquer outra consciência, o sujeito só pode ser colocado em oposição”, gerando então a expressão binária homem-mulher. Dada a nítida subordinação da mulher ao homem, porque é que as mulheres não disputam a desigualdade da soberania masculina? Esta pergunta (que terá de ser contextualizada, pois o livro foi escrito em 1949) surge, para Beauvoir, de um reconhecimento da falta de contestação da posição da mulher pela própria. Há, claro, exemplos contrários, mas estes não são suficientes para contrariar a regra. Ela apresenta casos em que uma determinada categoria conseguiu dominar outra durante uma grande quantidade de tempo, mas em que muitas vezes este privilégio depende da desigualdade numérica dos subordinados (a maioria impõe a sua regra à minoria ou persegue-a). Tal foi o caso dos afro-americanos nos Estados Unidos da América (nomeadamente no sul) e dos judeus perseguidos durante a maioria da sua existência. As mulheres, no entanto, não são uma minoria (sendo agora até uma maioria). Ela nota também que nas relações de subordinação, o grupo dominante tende a viver sem o conhecimento da existência do subordinado até que, num determinado momento histórico, vem a descobri-lo e por esse meio dominá-lo. Aqui se encontra outra discrepância entre a relação homem-mulher e as relações supramencionadas pois estes sempre coexistiram. É então que de Beauvoir desenha o paralelo entre as mulheres e o proletariado. Ambos nunca formaram uma minoria ou uma unidade colectiva separada da espécie humana. Ela denota uma diferença, dizendo que o proletariado nem sempre existiu (o que, se expandirmos a nossa noção de dominação económica para além do âmbito da revolução industrial, deixa de ser o caso, tornando a classe baixa numa classe perpetuamente subordinada, equiparável então à mulher). De novo, verifica-se a não-ação feminina em contraste com o proletariado, que acabou por se revoltar (A revolta dos bolcheviques, as várias revoltas dos camponeses [aqui fora do âmbito da revolução industrial], a revolta do Haiti..). A razão de ser desta letargia é, de acordo com a autora, o facto das mulheres não terem os meios para se organizarem numa unidade (nós, o único, o eu), já que não têm passado, não têm história, não têm religião própria, não têm solidariedade de trabalho e interesse revolucionário como tem o proletariado, não se reúnem promiscuamente de modo a criar um sentimento de comunidade (como foi o caso dos trabalhadores judeus do gueto do sul de Denis), em vez disso vivem dispersas pelos homens ligadas através da sua residência, do seu trabalho doméstico e do condicionamento económico e social. Nunca estão ligadas a outras mulheres (se fazem parte da burguesia sentem-se solidárias com os homens dessa classe e não com as mulheres proletárias). A característica básica da mulher é ser “o outro” através da relação biológica (a reprodução) e da posição cultural (mãe, esposa, filha..). Simone de Beauvoir proclama então que "os dois sexos nunca partilham o mundo em igualdade mesmo quando os seus direitos são legalmente reconhecidos num costume abstracto”, chamando à atenção que mesmo com a reforma jurídica necessária, a mulher terá pela frente uma luta material que ultrapassará o suposto desenvolvimento do direito (igualdade formal e desigualdade material perpendicular). Ela termina o seu estudo com uma visão mais atual da estrutura da sociedade, onde as mulheres são agora capazes de penetrar o local de trabalho e a cultura, mas ao fazê-lo têm de concordar com partes de um determinado negócio. Têm, então, de se conformar a ser “o outro” perpetuamente, pois negar esta posição é renunciar a todas as vantagens que lhes são conferidas pela sua aliança com a casta superior. A mulher é comprada, o que leva a uma certa cumplicidade. É um caminho fácil em que se evita a tensão envolvida no empreendimento de uma existência autêntica (numa visão existencialista, como proclamou Jean Paul-Sartre, estamos condenados a ser livres, tendo então a escolha entre o caminho árduo que revela a liberdade ou o caminho cómodo que leva ao comodismo [daí o nome]). A escolha mantém-se a mesma desde 1949- cumplicidade (ratificando o estatuto desta divisão fundamental), ou revolta. Tivemos a oportunidade de ouvir relatos de várias mulheres cujo trabalho revolve em torno da violência de género e da desigualdade social. Havia em mim, subconscientemente, o desejo de ver caducadas as críticas de Simone de Beauvoir, de encontrar um mundo onde o desenvolvimento legislativo tivesse gerado efeitos reais, palpáveis, correspondentes a uma percepção da mulher num plano de igualdade e dignidade. E sim, há melhorias na esfera jurídica feminina: o estupro já não acarreta a pena acessória de indeminização pela maculação da mulher (ou criança) violada, atribuida a uma familia agora prejudicada na procura de pretendentes. Não, a mulher já não se vê tão nitidamente empacotada, objetificada. É mais subtil, hoje em dia. Ela pode deambular, votar, protestar o quanto quiser, mas basta que entre num tribunal para que seja clarificada a sua verdadeira posição no plano jurídico. Foram feitas 591 queixas às autoridades em 2020, 582 participações em 2019, e 487 em 2018. Em 2020, 32 vítimas mortais. Isto, surpreendente ou não, demonstra um pequeno pedaço, o mero topo do iceberg, pois a grande parte das vítimas de violência doméstica nunca chegam a apresentar queixa. Eis que me deparei com a verdade: as críticas de Simone de Beauvoir são hoje, mais do que nunca, pertinentes. Quando a violência é mascarada, quando a aparência da sociedade não revela subtileza da subordinação de um determinado grupo de pessoas, estas não entendem a iminência do perigo, acreditam os slogans de igualdade, progresso e justiça, sentando-se satisfeitas. Morrerão 30, 40, 50, e entre discursos orquestrados, homens e mulheres falarão de um mundo novo onde a violência de género é coisa do passado. Triste somos, filhas de Eva. Tristes seremos, até renunciarmos a culpa e expelirmos de nós o caroço da maçã.
- Ser mulher é...
Ser mulher é saber sorrir Mas não demais Para nenhum homem me perseguir Ser mulher é saber dizer não Mas um não mentiroso É para pura provocação Ser mulher é ser Bruce Lee Pois tenho de saber taekwondo Para me defender de ti Ser mulher é ser coruja Pois tenho de rodar a cabeça 180 Para não ser atacada na rua suja Ser mulher é ser companheiro Pois adoro ouvir assobios Daquele estranho trolha alheio Ser mulher é ser cozinheira Pois mulher que é mulher Cozinha para a família inteira Ser mulher é ficar feliz com o básico Pois um homem que respeita um não Só pode ser um ser mágico Ser mulher é não falar de sexo Pois um tópico desses É coisa para mulher sem nexo Ser mulher é falar baixinho Pois o único que levanta a voz É o nosso querido maridinho Não é mulher quem diz não Quem vos cospe na cara E não vos dá justificação Não é mulher quem anda de decote Quem dança porque quer E tá´-se a cagar para a vossa sorte Não é mulher quem tem raiva cega Quem te enfia na parede E pelos tomates te pega Não é mulher quem beija quem deseja Que se sente poderosa Quando o corpo bem maneja Não é mulher quem está fora do padrão de beleza Quem ama o seu corpo E vive a vida com destreza Não é mulher quem filhos escolhe não criar Que prefere ser o seu centro De todas as coisas para amar Não é mulher quem é independente Que anda pelo o mundo alegre Sem precisar de pretendente Não é mulher quem sobre o seu corpo delibera Que não deseja ouvir homens Enquanto a morte a espera Não é mulher quem não quer ser sexualizada Quem quer poder ser sexual Sem ser objetificada Não é mulher quem faz isto então Pois minhas amigas digo Quem faz, é um mulherão Contudo, minto... Isto é tudo lindo, mas tem no fundo um senão Pois um mulherão é o que quer Seja tradicional ou fugindo ao padrão Um mulherão tem orgulho em quem é E como leva a vida é a sua decisão Mas uma coisa é certa Nós tamos-nos a cagar para a vossa opinião!
- A Ilusão do Sucesso
Eu não nasci com nenhum talento especial. Não sei cantar, não sou boa a fazer qualquer tipo de desporto, desenho pior do que muitas crianças no infantário e, Deus me livre, tenho zero noção do que é ritmo. A sério, não vão dançar comigo, é desastroso. Quando era mais nova, o comentário era sempre o mesmo: “a sua filha é muito respondona” ou “tem uma personalidade muito vincada para a idade”, a minha mãe simplesmente sorria, ela sabia a peça que tinha em casa; ao que parecia o meu talento era mesmo esse: tinha uma língua afiada e nunca parava calada. Claramente tinha faltado às aulas de etiqueta onde aprendiamos a respeitar o patriarcado. Oh não, mais uma mulher com opiniões… Toda a minha vida me perguntaram o que queria ser quando fosse grande, acho que ninguém queria mesmo saber a resposta, porque, momentos antes de sequer conseguir abrir a boca, já estavam a proferir a típica frase “sabes que com essas notas podes ser o que quiseres, até podes ser médica!”. Eu nunca quis ser médica, quem me conhece sabe o desastre que isso seria (desastrada é capaz de ser o meu nome do meio…); nunca me imaginei a percorrer os corredores de um hospital numa qualquer bata branca, nem sentada numa cadeira no topo de uma torre monstruosa (aquela típica imagem de sucesso, algo saído de Suits ), nunca quis ter um quadro no Louvre, nem cantar na 02 Arena, muito menos aparecer na NFL… A minha resposta foi sempre a mesma (e é a que, ao dia de hoje, continuo a dar): eu quero ter orgulho de mim própria (o que quer que isso signifique). Essa sempre foi a minha ideia de sucesso; sempre quis ser a pessoa que olha para si e para o seu percurso e vê mais felicidade do que arrependimentos; a pessoa que vê mais conquistas do que derrotas; a pessoa que vê uma vida, não apenas uma existência… Eu não quero ter o meu nome no jornal, muito menos sonho em aparecer na televisão; realisticamente, se a minha professora de português do 12.º ano ainda se lembrar de mim, já fico feliz… Porém, os meus ambíguos planos de vida, levantam uma dúvida ainda mais pertinente: quando é que eu sei que posso estar orgulhosa? Quando é que posso começar a sentir este orgulho? Como é que ele se parece? O que tenho vindo a descobrir, nos meus escassos anos de existência, é que, muito como a felicidade, também este orgulho que aspiro sentir é relativo, pois ele não é permanente, não é uma sombra que nos persegue, nem uma luz escondida numa sala escura, é mais como aquela tristeza que nos assoberba espontaneamente. É algo como partilhar um olhar prolongado com a nossa crush ; é apaixonante, é reconfortante e é excitante, mas, ao mesmo tempo, deixa milhares de dúvidas e, muitas vezes, transforma o nosso cérebro numa maré ainda mais irrequieta. Produz, irremediavelmente, aquele angustiante “E agora?” Vive em nós e abana-nos assim que sentimos aquele espetro de orgulho no que fizemos. Está na altura de avançar para algo mais, para algo maior. Isto já está feito, já saboreaste a tua vitória, siga para a próxima. Será que alguma vez vou ter orgulho em mim própria se estou constantemente à procura de outra coisa? Será que vou satisfazer o único desejo que sempre tive? Será que isso sequer é possível? Será que faz sentido pensar assim? Sempre me disseram que eu podia ser o que quisesse, que eu podia ser rica (como se o dinheiro valesse alguma coisa), que eu podia ter uma mansão (como se eu precisasse de mais do que uma cama), que eu podia ter um Ferrari (como se eu sequer soubesse conduzir), que eu podia ir à Lua (como se eu sequer conhecesse 1/100 da Terra), que eu podia deter os mais altos cargos nas mais prestigiadas firmas. Como se o sucesso fosse algo unilateral que só pode ser expresso em coisas supérfluas palpáveis ou através de validação social estéril? Sinceramente, nunca quis nada disso. Afinal de contas de que serve um currículo cheio com um coração vazio? Será que perdemos tanto tempo em busca de uma versão fantasia de sucesso que, ao longo do caminho, nos acabamos por perder a nós próprios? Que deixamos de entender o quanto já alcançamos e tudo o que já fizemos? Que os nossos esforços se tornam míseras etapas num percurso que nem questionamos? Que o orgulho se torna acessório e dispensável, algo que cada vez dura menos e é mais tênue, como se um meio débil para um fim inatingível; algo que temos de sentir para avançar ao próximo passo e não algo que merecemos por ter dado até a mais ínfima parte do nosso ser por algo que parecia ser o certo? Perseguimos durante tantos anos o fato à medida e os sapatos engraxados que perdemos noção de que éramos mais inteiros quando tínhamos blazer baratos e meias rotas. Talvez o sucesso não se esconda no quanto temos, mas no quanto conseguimos fazer com isso - novamente, de nada serve uma conta recheada se não temos onde gastar esse dinheiro. Eu não sei onde vou parar, não sei o que vou acabar por fazer, nem por quanto tempo, só sei que quero ter orgulho de o estar a fazer no preciso momento em que esse pensamento me assombrar, quer isso seja no tão esperado destino final ou no meio de uma estrada sem fim. Então, afinal, quando é que eu posso sentir esse orgulho? Sempre que saiba que estou onde devo estar. (Hoje é um desses dias). Os meus pais sempre me disseram que eu podia apenas ser feliz, se calhar gosto mais dessa versão. Olhem à vossa volta. Estão felizes neste momento? Sentem-se concretizados? Talvez esse seja o maior sucesso de todos…
- Isabel - 20 anos
Sofia Dias Sei que a aura da liberdade masculina pertence à maioria das representações do mundo e da nossa experiência humana dentro dele. As mulheres habituam-se a traduzi-la em algo que podem reconhecer. Temos dicionários, deciframo-la e evitamos partes que não entendemos e, assim, participamos, lideramos. Correr pelo caminho sinuoso e tentar encontrar poder e liberdade na minha feminilidade (e não numa versão distorcida de masculinidade) com a Isabel a liderar este núcleo é como beber café gelado e se eu adoro café gelado! Decidimos fazer-te esta surpresa, porque o Dia Internacional da Mulher também é sobre reconhecer e valorizar as mulheres com quem partilhamos existires. Isabel, eu implorava ao bartender, com mais cara de mau no bairro alto, para poder beber da tua inconformidade, coragem, trabalho e dedicação. Sei que atravessavas a cidade toda de saltos altos por algo em que acreditas. És determinada quando tens de o ser e a rainha da festa quando te dão uma boa música. Foste dos melhores abraços que tive, bebia um shot de pastel de nata quando quisesses e não precisas de me chamar para ir contigo ao bar esquerdista, eu já lá estou à tua espera para apontarmos para o cartaz do 25 de abril e darmos gritinhos. Adoro-te! Muitos muitos parabéns! (a Isabel com corte de cabelo roxo está a chorar neste momento). Hugo Mendes Desejar um feliz aniversário a esta Mulher (sim, com M grande) é celebrar os 20 anos de uma pessoa que comecei por não gostar, e que, aos bocadinhos, fez crescer em mim uma enorme admiração. Uma mulher diligente, inconformada, talentosa, inteligente e confiante. Uma mulher que luta pelo que quer e pelo que acredita como se não houvesse amanhã. Que escreve tão bem que parece que suga pensamentos emaranhados e os materializa em textos magníficos. Com esta mulher, todos temos algo a aprender. Tenho orgulho em poder dizer que faço parte de uma direção encabeçada por ti, Isabel. Esta Mulher é o significado deste dia. Nada faz mais sentido que isso. Sofia Paulino A Deusa (que bem podia pertencer à mitologia nórdica), mais vulgarmente conhecida por amiga inigualável e Diretora do Jur.nal, Isabel, é a revolucionária do meu coração. Neste dia tão especial, desejo-te muitos parabéns, sua estrela. Que continues a iluminar os meus dias com a tua sabedoria e a pasmar-me por não gostares de chocolate. Adoro-te. Leonor Ferreira Querida Isabel, Chegaram os teus sweet 20's!! Desde encontrares shots a 1 euro e vires, plena e girlboss, para a faculdade, depois de uma noitada, ao teu sorriso inconfundível e aos teus "ai, pai" e "que precário", o que se pode pedir mais numa amiga?! Que, nos teus 20, continues a ser carefree e a muitos mais anos desta amizade!! Aliás, sorry not sorry, mas parece-me adequado constatar que a nossa amizade é como o liberalismo, funciona! 😈 António Subtil Numa altura em que nenhum dos presentes sabia fechar a porta dos súcleos, tivemos de chamar a Isabel. Chegou numa marcha de salto alto, vestida para matar como de costume, pegou na chave e virou-se para a porta. Tornar-me-ia testemunha de seguida dos atos da mais violenta natureza alguma vez imaginada, capaz de triunfar sobre todas as guerras passadas, presentes e futuras: Isabel ganhou acabou por ganhar ao fim de um combo de 20 pancadas, mas a Porta foi um oponente deveras formidável. No final da batalha, não só obtive uma incontrolável ereção, como ganhei uma profunda admiração pela destreza e força da rainha das rainhas das mulheres, Isabel Lundbo Murta Costa. Catarina Silva Esforço-me por não celebrar o Dia da Mulher apenas no espaço de um dia. Um dia nunca seria suficiente para contemplar a estrada percorrida por todas as mulheres, ou o troço que continua lentamente a ser construído (pena as obras públicas demorarem tanto tempo, enfim!). É bom, no entanto, ter este humilde lembrete. Neste dia, olho e orgulho-me das mulheres que conheci ao longo da minha vida. E hoje destacamos uma em particular. Acho bem. Antes de ser crescida (ou cumprir o critério da altura para andar na montanha-russa) sempre quis aparecer na revista do panda, no hall of fame dos aniversários. Nunca aconteceu, por isso contento-me em participar neste espaço para comemorar alguém especial. Uma mulher cuja voz, ou o clique claque dos saltos, se ouve ao longe, ainda no corredor, e que não tem medo de dar a sua opinião. Parabéns, Isabel! Sofia Marques Querida Isabel, Para além de Diretora do Jur.nal e, definitivamente, uma das melhores estudantes que já passou pela NOVA SOL, és também minha madrinha, uma mulher que eu admiro infinitamente e uma fiel amiga com quem posso sempre contar. De facto, foste uma peça importante para a minha integração na faculdade. Contigo descobri a euforia da vida universitária e aprendi que, quando estamos juntas, a diversão não tem limites. Mas não quero que fiques a pensar que contribuíste apenas para a parte “não séria” da minha vida académica, porque, na verdade, és uma boa influência. Infelizmente, apenas me permitem dedicar-te um parágrafo, o que não me deixa uma grande margem de manobra para colocar em palavras o que sinto por ti, portanto, assim me despeço e te desejo um FELIZ ANIVERSÁRIO!! Beijos infinitos da tua querida afilhada, Sofia Marques. Rafael Guerra Parabéns, Isabel. Por vezes tenho a suspeita de que, na verdade, foram os dias que nos escolheram a nós para nos terem – e tu, agora do alto (pequeno) dos teus vinte anos, que viu a luz pela primeira vez num Dia da Mulher, és das principais provas que me corroboram as suspeitas. Não é que todas as mulheres precisem de ser fortes para o serem (ainda que não tenha conhecido até hoje nenhuma que não o seja, à sua maneira), mas a verdade é que se fosses a única mulher que eu conhecia, teria expectativas extremamente irrealistas e disparatadas para aquilo que devo esperar de uma. Uma mulher que talvez já tenha nascido de punho direito em riste, que é brilhante em tudo o que faz, que é absolutamente indomável nas saídas à noite, e que em cima disto tudo ainda tem um negócio familiar para manter aos fins de semana na sua terra natal (e a que eu inexplicavelmente ainda não fui). És inesgotavelmente amiga e cordial com todos os que vêm de fora; irrepreensivelmente justa e frontal com os de dentro. És a definição de Mulher de Ferro; Super-Mulher; o que queiras chamar. A tua resiliência e perseverança perante todos os contratempos da vida são uma inspiração para mim, e para todos os que te rodeiam. Que celebres muitos mais, e que continues a honrar todos os anos (e todos os dias), o dia em que tu nasceste. Ana Sofia Fernandes Todas as mulheres, mesmo com os seus defeitos ou feitios, são maravilhosas. Mas sempre existiram mulheres que fascinaram: mulheres ousadas, mas que mantêm a calma, mulheres sem medo de dar as suas opiniões, mas também de aquelas, que no momento certo sabem o poder do silêncio, mulheres com corações de ouro e ideias fixas, mulheres com sentido de humor e pés assentes na terra. Essa mulher que me deslumbra e inspira, és tu, Isabel! A tua beleza está na tua essência, nesse teu brilho nos olhos, e nesse sorriso diário. Adoro-te por seres tudo isto... por seres simplesmente tu! Inês Graça A Isabel é como o café do bar da faculdade, depois de uma noite mal dormida, ou uma brisa fresca num dia quente. É como um doce saboroso depois do jantar, ou o cheiro a pão fresco pela manhã. Até se pode passar sem qualquer um deles, mas a vida não teria metade do seu encanto. Tiago Monni Isabel, muitos parabéns pelo dia de hoje. Engraçado que os teus anos calharam justamente num dia muito representativo para ti e para todas as mulheres. Mas talvez essa correspondência esteja errada ou se calhar, incompleta (não me batam, mulheres da Nova SOL), pois não és apenas um exemplo para as mulheres, mas um modelo para qualquer um. És responsável, inteligente e interessante, além de ser uma notável líder e diretora deste ilustre jornal. É verdade que podes responder alguém da maneira mais seca em uma manhã estressada e tentar ao máximo parecer ser a "mulher durona", que talvez atualmente também seja um estereótipo, mas és tão boa que consegues superá-lo. Mal sabem que por trás escondes uma especial e distintiva sensibilidade. Fico feliz em ser teu amigo e, mais uma vez, parabéns! Maria Leonor Simão Acho que o universo tem formas bonitas de funcionar, e acho que não é coincidência que tenhas nascido no dia da mulher. Para mim, és a personificação deste dia. Não tenho dúvidas de que vais ter sempre alguém a olhar para ti como um exemplo do que todas devemos ser. Nem tenho dúvidas de que a tua voz vai sempre ser um farol do trabalho árduo, compaixão, e muita muita força para navios que se perdem num mundo que é cruel, difícil e injusto para as mulheres. A mim, inspiras-me diariamente a ser a minha melhor versão. E quando, daqui a uns anos, ouvir falar de ti no telejornal - tenho a certeza de que vai acontecer - vou ficar orgulhosa por te teres cruzado no meu caminho, e por me teres ensinado que, se quisermos realmente, podemos mudar o mundo. Obrigada ❤️ Carolina Correia Impossível pensar em mulheres livres, empoderadas e que têm tudo para conquistar o mundo, sem pensar em ti, Isabel. O jur.nal tem (demasiada) sorte em te ter como diretora, e eu tenho ainda mais sorte em te ter como uma das minhas melhores amigas. Obrigada por seres um exemplo (às vezes daquilo que NÃO fazer, é certo…) e uma companheira e certeza na minha vida. Somos “prova provada” de as melhores amizades serem as inesperadas, e mal posso esperar por ver por onde a vida nos vai levar (no que depender de mim, sempre juntinhas). Adoro-te de Campolide a Odivelas ao Lumiar ao Marquês ao Restelo a Oeiras ao Bairro Alto, sra. diretora! Riccardo Noronha Esta história não podia ser senão de luta. Luta, pelos que não têm voz, especialmente dos que nunca a puderam ter. Luz ao fundo do túnel para quem nunca a conseguiu ver, procuras com todas as tuas forças dar voz a quem nunca a teve, a todos por igual e com a mesma intensidade. Por todos te bates, como se fosse tua a batalha, por todos lutaste como se a ti te impedissem de viver. No fim, restarão na memória de todos essas tuas lutas, essas tuas conquistas e todo o labor que nestas empenhaste sobretudo. Que tenhas sempre essa força de vontade e fidelidade a quem és, que nunca pares de lutar por aquilo em que acreditas, por mais que discordemos, continua sempre a ser um foco de esperança e fé para quem estas perdeu ou não tem, continua a iluminar o mundo para que as outras pessoas possam ver o quão bonito ele realmente é. Parabéns Isabel, um enorme obrigado por tudo, do fundo do coração. Do caloirinho impertinente <3 Bernardo Pinto É um orgulho poder chamar madrinha a esta pessoa fantástica e que tanto admiro. Uma das primeiras doutoras que conheci na faculdade e que certamente irei levar para a vida. Parabéns, camarada! Que tenhas um dia muito feliz como mereces. Beijinhos do teu afilhado liberal :) PARABÉNS, ISABEL!!
- A revolta das queridas e doces Tágides
Invadem a nossa casa. Sem qualquer convite, arrombam qualquer entrada para o alto mar. Desbravam as ondas que nos embalam ao luar. Contra os ventos que ondulam o cabelo, tomam o nosso mar como seu. Nem o sol quente que lhes sussurra, nem as tempestades que gritam para recuarem, pois não é o seu lar. Medo, esse assombra-os apenas quando o silêncio impera. Durante a noite, tocamos com a cauda na casca do navio. Madeira áspera e desgastada pelas rochas dos caminhos. Na proa, está a nossa imagem gravada a lenha. Há pouca iluminação no convés. Todos dormem. O nosso canto acompanha o tilintar do sino, no mastro principal, que chama os marujos. Acordam todos como se de uma emergência se tratasse. Nem pelas estrelas estavam iluminados, apenas pela luz do farol que está na popa. Aproximam-se freneticamente da borda para nos contemplarem. Vislumbram-nos como se nós fossemos deuses, com letra minúscula, pois somos parte mulher, e como tal somos vistas como fracas. Somos frágeis, ingénuas e puras, é assim que nos veem. Fáceis de manipular para satisfazer as suas necessidades carnais. Somos a aparente Ilha dos Amores, que aparece como troféu. Aguardamos que estes homens imundos nos tomem e que nos mostrem o que é a satisfação, é o que desejam. Contudo, a verdade é algo muito diferente. Não constituímos estas criaturas dóceis que carecem de dominância, mas sim, seres concebidos na dor, robustas e livres, que não devem submissão a nenhum homem. Ignoram e caem nos encantos físicos e vocais. Não existe cera que os proteja, nem cordas que os amarrem aos mastros. Vão caindo à água como âncoras. Tocam-nos na pele gelada e escamada. Deslumbrados com a magnitude das caudas lustrosas, tentam percorrer a mão ao longo do tronco nu. Procuram o derradeiro beijo, à medida que vamos descendo. Pensam que encontraremos a cidade perdida, onde nos amaremos eternamente. A realidade é que os arrastamos para as profundezas, onde o azul Marinho se confunde com a escuridão das fossas. Só lá existem navios a apodrecer repletos de restos mortais. Quando começam a ficar aflitos pela falta de ar, despertam da hipnose em que eles próprios se submeteram (não vale a pena referir que os enfeitiçámos). E num ápice, já se querem ver livres dos nossos braços, onde procuraram momentos antes afogar-se. Estremecem com aflição. Tentam, inutilmente, alcançar a superfície. As bolhas de ar dividem-se, são tantas que embelezam o mar. Cada vez mais fundo, olham-nos de uma forma diferente, já não somos formosas, mas o pesadelo em carne e osso. Um sorriso era o que estes homens queriam para os confortar, mas nós sorrimos, eles é que não gostam do tamanho dos nossos dentes. Nos seus últimos suspiros, sentem o seu corpo a ser devorado. Fragmentam-se em pedaços tão redutores como a sua existência. Depois de toda a alvoroçada, os ossos desaparecem no fundo. E o barco? Esse terá o mesmo fim. Muitos deles não queriam obter satisfação carnal connosco, apenas monetária, vender-nos em praça pública. Eles tornar-se-iam Imortais, com o legado dos “sobreviventes”, que resistiram e, ainda, trouxeram “peixe” para casa. São homens os alvos destas “glórias”. Nas histórias que rumam a terra, seremos sempre as vilãs, quando, apenas queríamos salvaguardar-nos. Podem dizer que é macabro. Talvez seja, mas mesmo isto não os impede de nos subestimarem. NOTA: desenho elaborado pela autora do texto
- A perenidade dela
As tuas pestanas ficam pretas com o rímel. Pensas que o produto que estás a usar foi criado pelo mercado da cosmética para homens velhos e ricos ficarem ainda mais ricos, conseguindo capital à custa das tuas inseguranças. Estás a apoiar, a perpetuar um padrão de beleza inatingível que te faz odiar a ti própr- FODA-SE, ESPETEI ESTA MERDA NO OLHO, ESTOU TODA BORRADA. Sais de casa. Vais a um espetáculo de stand up de uma comediante para dizer que apoias a arte feminina e que as mulheres também sabem contar piadas. Ficas o espetáculo inteiro a pensar na merda da mensagem não respondida. Sais do Coliseu e és assediada. Sentes repulsa e sabes que se tivesses passado pelo velho bêbado e ele não te tivesse mostrado a pila, então era porque não estavas bonita o suficiente. Mas, hoje não é o caso, por isso relaxas. Vais para casa, o telemóvel não brilha.Vês pornografia degradante na internet. Vens-te. Sentes-te pesada. Cheia de fluidos vaginais e da repulsa de teres acabado de contribuir para uma das maiores indústrias que te retiram dignidade e que utilizam o teu corpo como produto de troca. O teu não. O de outras. Sentes-te uma má feminista, achas que não és digna para receber tal rótulo. Pensas que apesar de bateres com o pé quando te dizem que as mulheres só pensam em homens, passas o tempo a pensar na mensagem não respondida e no Tomás que toca guitarra numa banda alternativa qualquer e que finge ler o que escreves sobre feminismo, fazendo comentários ridículos e superficiais que gritam “merda, eu quero é foder-te e por esta altura vai ter que ser sexo aborrecido, estas gajas hoje em dia acham-se todas emancipadas…”. Queres que o Tomás se foda, mas que te foda a ti. Cospes no feminismo liberal por te ter ensinado a narrativa da mulher moderna empoderada pelo sexo casual, que acaba por ser uma indireta reprodução do padrão de comportamento masculino. Imediatamente a seguir, sentes culpa por achares que te aproveitas de teoria de género para evitares um compromisso moral com o que sentes. Não tens sono. Vais escrever. Escreves sobre ti. Preocupa-te se o intelectualizar dos teus sentimentos não passa de um mecanismo em que expões as tuas emoções, de forma a vitimizares-te relativamente às situações que as suscitaram. Achas que o que escreves é fundamentalmente feio. Que as frases não são lidas como um poema, mas sim como se alguém se estivesse a engasgar e depois as cuspisse e tossisse uma e outra vez. Pensas que as tuas palavras são, quer filosoficamente quer politicamente, inúteis. Ninguém vai pegar nelas, por muito mais que te digam que as amam. Sabes que namorarem com as tuas palavras não interessa, o amor não te entrega voz num prato e tu estás esfomeada. Desprezas homens que escrevem horrivelmente e que utilizam a escrita para dizer merdas embebidas em heroísmo e tristeza regurgitada, merdas que, no fim, irão ser endeusificadas e tu sempre foste um pouco iconoclasta. São geniais porque vêm de onde vêm, porque são ditas por quem as diz. A genialidade da arte, pensas, tem o seu início e o seu fim nas mãos de quem a faz. A arte masculina faz-te bocejar. Sabes que amaldiçoar a arte masculina não é propriamente útil para o movimento político feminista, mas, sinceramente, agora queres que o movimento se foda por uns momentos. Estás-te a lixar para o artista amedrontado e desejas que o homem branco e heterossexual seja amputado. Olhas para o telemóvel e ele não brilha.
- A mulher do filme
A mulher do filme romântico é alta, é magra, tem um bom emprego, trabalha 6 horas por dia e tem tempo para ela, 2 filhos, 1 cão e 1 marido perfeito que até cozinha, vejam bem. E a mulher real? A mulher com estrias e celulite, a mulher que tem de usar uma cadeira para chegar ao armário mais alto da cozinha, a mulher que trabalha 9 horas, num emprego precário, a mulher que tem 2 empregos para sustentar os filhos, a mulher que não consegue ter filhos, a mulher que não quer ter filhos, a mulher violentada pelo marido, a mulher que come demais para preencher um vazio, a mulher que não come. A mulher lésbica, a mulher trans, a mulher negra, a minha avó, a vossa mãe, as sufragistas. Ai, como eu amo a mulher. Todas as mulheres, as perfeitas e as nem sempre perfeitas, as da maquilhagem meio borrada, ou com o cabelo em desalinho. A mulher é a criatura mais bela, mais sensível, mas desenganem-se porque ela também é a mais forte. Ela é tempestade, ela é furacão, é a calma e é compaixão. Se eu pudesse mudar o mundo, colocava-o nas mãos de uma mulher, de uma e de todas e aí sim seria um filme romântico. Seria um mundo melhor.
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