Concurso de Escrita 2025 - textos a concurso
- Jurpontonal Nova Law Lisboa
- Nov 19, 2025
- 8 min read
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Texto 1: Chocker
How many pearls does it take
To reverse all my stringy
Mistakes?
How many pearls shall I swallow
To break free from my
Troubles and sorrows?
How many pearls have I had?
There are none of them left in
My stash;
but I stirred and I roused
from the tangles of lunacy,
To unknot all the tethers that
Throttled me brutally,
And to lose all desire to swallow
My pearly beads.
Isso é para dizer que me parece equivocado afirmar que vale a pena estar vivo. Não basta apenas estar vivo - tem de se viver. Viver é um ato de amor.
Amor este que te atinge como uma bala perdida em meio a um tiroteio.
E os efeitos são catastróficos. Mortíferos. Sanguinários e absolutamente irresistíveis. A vida presta!
Texto 2: 10 factos curiosos sobre a ilha da Madeira
Agora, cerrado neste terraço,
contemplo as nuvens,
nuvens essas que não consigo alcançar.
Não consigo ou não quero?
Resta-me olhar para o chão,
para o andar apressado dos caminhantes.
Eu já fui assim, como eles, penso.
Mas depressa relembro a razão da minha condição.
Por isso, escrevo.
Escrevo não para sentir,
não para me entreter.
A verdade é que eu não sei porque escrevo.
Apenas sei que sempre que escrevo me evado.
Me evado para longe,
para as nuvens,
pelo menos tento.
Frustrado fico,
e rapidamente torno a escrever,
e de novo frustrado fico.
E é assim que passo os meus dias,
frustrado,
a olhar para as nuvens,
viajando nelas, perdido,
desejando todas as vezes que seja eterna a viagem,
mas nunca é.
Não é porque eu não consigo ou porque não quero?
Curioso que vem-me sempre esta pergunta à cabeça,
mas a resposta é inexistente.
A resposta é inexistente...
Por isso é que escrevo.
Escrevo não para deixar de existir.
Não para me evadir, como achava.
Mas sim para existir,
existir neste mundo em que não consigo existir.
Texto 3: O meu jardim é um cemitério
O meu jardim é um cemitério de todas as flores que matei. De todas as vítimas inocentes dos golpes que nelas desferi antes que os seus espinhos me pudessem picar – o meu sangue por ninguém alguma deixarei derramar. De todas aquelas cujo caule cortei antes que pudessem florescer, impedindo que colorissem a paisagem de pedra cinzenta com as suas cores vivas e radiantes. Das suas irmãs, cujas pétalas fui condenando a uma morte lenta – arrancando-as uma por uma – por fim deixando que o vento as rasgasse definitivamente, levando-as para um paraíso longe de terras tão inférteis.
No meu jardim jazem restos de raízes a quem nunca dei oportunidade que entrassem na minha terra para que dessa fizessem um lar só seu, onde acolheriam os mais saborosos frutos. Restos de troncos de árvores robustas – agora ocos e cobertos de musgo – deixadas ao abandono por uma jardineira tão pouco atenciosa que, no fundo – talvez por medo – não soube cuidar do que plantou.
Hoje, o meu jardim já não é mais do que fantasmas de tudo o que poderia ter sido: cacos dos vasos em que poria as minhas plantinhas mais delicadas, folhas secas que me prometeram nunca cair, flores murchadas pelo ar agreste, ossadas de árvores arrancadas precocemente e túmulos de todos os frutos que enterrei antes que pudessem sequer nascer.
Texto 4: "Uma mente clara é uma realidade perdida"
Um deslize do grafite à direita é um erro cometido na realidade à esquerda.
De repente, tudo parecia desalinhado.
Está tudo errado.
A realidade que alguma vez cogitei alcançar já não existe.
A criança dentro de mim já não existe.
O desenho ficou esquecido, a mente ficou esquecida, o gosto ficou esquecido, a felicidade ficou esquecida.
O peso dos passos, o sentimento de ineficiência ficou, por sua vez, bastante conhecida.
Já não me reconheço porque não há nada para reconhecer. Já não sou eu.
A minha constante culpabilização foi algo que o papel já escreveu.
Não precisou de tinta, na realidade ninguém a detinha.
Uma vez o meu refúgio, para sempre um tempo perdido.
Esta realidade não foi o que pedi.
Esta dificuldade não foi o que pedi.
O desenho morreu quando a alegria esmoreceu.
Tentaste mais uma vez, em resposta o dia entristeceu.
Querias continuar, mas o mundo te obrigou a abrandar.
Na altura não compreendeste o porquê.
Só assim conseguiste desenhar de novo.
Só assim conseguiste ser tu de novo.
Texto 5: Samba e Amor
Capítulo 1
Dizem que Paris é a cidade do amor, mas foi Lisboa que me cativou. Não foi à primeira vista, nem num instante mágico — foi aos poucos, no modo como o sol se deita sobre os telhados e a cidade parece suspirar. Lisboa tem algo de imperfeito, de inacabado. E talvez seja exatamente isso que me encanta. As fachadas gastas, os azulejos partidos, o som distante do Tejo — tudo nela me lembra que a beleza também pode morar nas falhas. É uma cidade que nunca termina, sempre em construção, como eu, como ele, como nós. À noite, as luzes refletem-se nas calçadas e ele sorri, como se a própria cidade iluminasse os seus cabelos longos dourados. Os moradores fumam nas varandas, a lua cheia pousa nas janelas e o vento traz o cheiro do rio. É nesses momentos que percebo: Lisboa não me cativou sozinha. Foi ele, foi a forma como caminhámos juntos pelas ruas estreitas e tortas, como se a cidade nos observasse em silêncio. Lisboa guardou-nos assim: imperfeitos, inacabados, porém genuínos.
Naquela noite de uma quinta-feira qualquer, o céu estava limpo e a lua cheia parecia rir lá de cima, como se soubesse o que estava prestes a acontecer. Assim que o sol se despede, é a lua quem assume o comando — chamando para si todos os apaixonados da cidade. E entre eles estávamos nós: dois loucos, dois amantes, dois sonhadores, duas crianças ingénuas a brincar com o destino. Apaixonados pela vida, pela música, por essa mistura improvável de bossa nova e jazz a ecoar pelas ruas de Lisboa — um toque de Brasil perdido na Europa.
“A vida é uma loucura! Tudo começou com um simples convite para apreciar a beleza da mãe natureza.” - pensei.
E, sem perceber, estávamos ali, rendidos a algo maior do que nós.
Palavras não bastam para explicar o que Lisboa me faz sentir — esse tesão de viver que nasce do nada, como um incêndio que se acende dentro do peito. Talvez isto não leve a lugar nenhum, talvez acabe como tantas outras histórias que começam no impulso e morrem no silêncio. Mas uma coisa era certa: foi genuíno. Fui apenas uma louca escritora a partilhar a alma com outro louco. E que assim seja — que os loucos se encontrem, sempre. Porque “A noite pertence às putas, aos poetas e aos que morrem de amor”.
Ao som do jazz, num bar de estilo antigo e atemporal — escondido numa rua discreta de Lisboa, um refúgio secreto, onde os cocktails são pequenos prazeres e a música envolve o espaço por completo, com álbuns inteiros a tocar do princípio ao fim, criando uma atmosfera íntima e atemporal — com as luzes baixas e o ar impregnado de desejo, estávamos nós dois, dois loucos, como se o mundo inteiro se resumisse àquele instante. Fazíamos amor por telepatia, sem tocar, apenas com o olhar, enquanto o vinho tinto escorria entre os lábios e o som do saxofone preenchia o silêncio. Cada nota parecia empurrar-nos mais fundo nesse jogo de provocações. Havia algo de hipnótico nele. Cada vez que os nossos olhos se cruzavam, eu sentia o corpo reagir — ele não me tocava, mas penetrava-me com o olhar. Penetrava-me os pensamentos, a mente, a respiração. Penetrava-me de um jeito que era quase físico, como se o corpo já não precisasse mover-se para sentir. Era uma invasão lenta. Ele atravessava-me por dentro, desmontando-me em silêncio, como quem lê um segredo que eu própria não sabia que guardava. E eu deixava. Deixava que ele me penetrasse com o olhar, com a presença, com o jeito de dizer nada e, ainda assim, dizer tudo. A partir desse momento, percebi que já me tinha rendido. Já não havia defesa possível. Seria tesão ou loucura? Talvez os dois. Os nossos corpos conversavam num idioma que ninguém mais entenderia. Um idioma feito de respirações, silêncios e desejos.
Depois, num impulso quase infantil, fomos saborear aquelas delícias quentes e cheias de especiarias do Médio Oriente, o kebab, mordendo cada pedaço entre risadas e silêncios cúmplices, enquanto vagávamos pelas ruas, cruzando-nos com pessoas que acabavam de sair do trabalho e pareciam alheias à nossa pequena loucura. Ríamos das migalhas, da mistura entre o luxo e o improviso. Ele me olhava como se eu fosse um poema que ele ainda não sabia decifrar. Seguimos a pé até um parque não muito escondido, desses que parecem ter sido criados só para guardar segredos dos amantes. A cidade dormia, mas o mundo inteiro parecia acordado dentro de nós. Sentamos num banquinho e ficamos ali, falando sobre tudo — sobre a vida, o tempo, os medos, os sonhos, as coisas pequenas que ninguém mais entende. E de repente o silêncio entre uma frase e outra se tornou um convite.
Foi ali que começamos a nos amar, devagar, entre beijos demorados e risadas idiotas, como duas crianças que acreditam que o amor pode durar para sempre. Ele tocava me como quem descobre uma canção antiga. E eu me deixei ser melodia. Era respiração ofegante, quase um murmúrio entrecortado pelo som da água a escorrer pela pele. A boca sabia a sal, a suor, a desejo. Havia algo de sagrado e profano naquele instante em que tudo se misturava — o calor do corpo, o sabor do outro, o delírio de tanto nos beijarmos. Fazíamos amor por telepatia, mais uma vez. Sem precisar de tocar, bastava o olhar, o pensamento, o simples gesto de respirar ao mesmo tempo. Era como se o chão, o mar e a lua se encontrassem em nós. Tudo pulsava no mesmo ritmo: a música, o corpo, o tempo. Era mania, era febre — essa coisa dele que me queimava por dentro. De tanto imaginar loucuras, já não sabíamos onde acabava o sonho e começava o real. Ele puxava-me pela cintura com uma urgência tranquila, como quem teme o fim, mas quer viver até ao limite. E então, por um segundo eterno, soubemos apenas isto: estávamos vivos. Nada mais importava. Nem o depois, nem o antes. Só o agora, esse instante suspenso onde o amor e o delírio se confundem.
A caminho de casa, tocava Bossa Nova no carro. E ali estávamos nós, dois loucos a cantar desafinados pelas ruas de Lisboa, enquanto as luzes da autoestrada piscavam como estrelas elétricas no meio da noite. A cidade passava devagar pelas janelas e eu sentia aquela estranha e doce sensação de que tudo, por um breve instante, estava exatamente no lugar certo. Ele segurava o volante com uma calma quase ensaiada, e eu, encostada no banco, deixava a cabeça pender ligeiramente para o lado, observando a lua que nos seguia lá fora, cúmplice, curiosa, eterna testemunha dos amores que nascem do nada.
Foi nesse instante que percebi que até o que parece inteiro tem as suas falhas: nas cidades, nas pessoas, no amor. Ninguém completa ninguém. Encontramo-nos, apenas isso, e durante um breve momento acreditamos que um beijo consegue segurar o infinito. Lisboa ensinou-me isso: que o bonito vive no intervalo, no quase, no agora. No que sentimos sem pensar demasiado, sem medo do depois. Talvez nunca mais nos cruzemos, talvez tenha sido só uma noite. Mas foi aquela noite — a que fica presa na memória como um perfume que não se quer lavar da pele. E se algum dia me perguntarem o que é o amor, direi que foi ele. Foi Lisboa. Foi a lua cheia a espreitar por entre prédios antigos, o jazz perdido num bar que nem sei nomear, a culinária do Médio Oriente partilhada às gargalhadas, a Bossa Nova a rodar no carro enquanto as nossas vozes desafinavam sem vergonha. Foi o silêncio confortável, o riso fácil, a sensação absurda de que o mundo parou só para nós dois. E naquele segundo, apenas naquele, tudo pareceu possível.
Foi samba e amor…
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