Junto à melodia dos pássaros
De maneira que agora as minhas mãos tremem, divagando pelo ar cedendo a ventos imaginários. De maneira que agora os dias compridíssimos cheios de horas medievais, as noites pior. Tudo isto enquanto as palavras vão aumentando de som, que é o que as palavras fazem
(mexes tão bem com as palavras) Indecentemente feliz, engolindo fantasias e tu não hás-de me compreender
(não me interrompas)
por muitas dúzias de anos que dures, não entendes porque isto são palavras e só as palavras se entendem a si mesmas. Sorrio
(puxo os cantos da boca para cima, pelo menos) a memória do teu sorriso sempre me faz companhia e que arrogância minha sonhar-te, precisar-te sussurrar-te ao ouvido, com o meu hálito a prozac, silêncios compridos cheios de sonetos
(eu se pudesse também me rejeitava)
Tens pensado na melodia dos pássaros?
Para onde é que foste morrer que nunca mais me vieste visitar? diz ela
o tempo rouba-nos as cruzes, digo eu
(minto)
e eu só queria carregá-las contigo, neste meu paternalismo egoísta e fraterno
(tenho os defeitos cheios de qualidades)
talvez carregando as tuas aliviasse as minhas, ou então talvez não e assim que fosse
(ando armado em filho de um Deus em que não acredito)
mas houve um azul sossegado de mar que as carregou primeiro
(só não me crucifico com medo de ressuscitar)
e falho como sempre falho e, ainda que me digam que o tempo nos rouba as cruzes
(mentem)
não te ter é a única coisa que tenho.
E não sei se me vou (sozinho só com a memória do teu sorriso a fazer-me companhia)
se fico, esperando-te como a melodia dos pássaros espera um ouvido que lhe oiça.
A culpa persegue-me ao ver o tempo diminuir-me pela janela. Porque talvez mesmo que me vá estarei sempre aqui, no mesmo banco de jardim, na esperança de uma cruz que não seja minha, e tu sabes onde me encontrar, sempre aqui, junto à melodia dos pássaros.
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