Navegador
Talvez do meu sangue faz parte
navegar rumo a nenhum lado.
Sozinho, vento é música, sal é arte.
Procuro um paraíso onde seja amado.
As nuvens escurecem e questiono
se não é tudo uma caça aos gambuzinos.
Se a mítica Ilha dos Amores existe, ou se imaginei no sono.
Se nada mais é, sereias que cantam artificiais hinos.
Sentado na proa o corpo ensopado,
o trovão estronda, anuncia o naufrágio.
E do fundo do mar Adamastor malvado
sussurra na minha mente um falso presságio.
A tempestade parte, mas o dano ficou.
A nau à deriva amaina as velas.
O vagalhão conheço, a tormenta muito me tirou,
O que me petrifica são as desconhecidas coisas belas.
Então prendo-me ao manto do hábito desconfortável,
desisto de grandiosos sonhos e de cantigas de amor,
espero o próximo temporal como fado inevitável,
e começo o eterno matrimónio com o príncipe da dor.
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